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sábado

O QUARTO DE JACK


O QUARTO DE JACK (Room, 2015, Element Pictures/Film4/FilmNation Entertainment, 118min) Direção: Lenny Abrahamson. Roteiro: Emma Donoghue, romance de sua autoria. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Nathan Nugent. Música: Stephen Rennicks. Figurino: Lea Carlson. Direção de arte/cenários: Ethan Tobman/Mary Kirkland. Produção executiva: Jeff Arkuss, Emma Donoghue, Rose Garnett, David Kosse, Andrew Lowe, Keith Potter, Tessa Ross, Jesse Shapira. Produção: David Gross, Ed Guiney. Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay, Joan Allen, William H. Macy. Estreia: 04/9/2015 (Festival de Telluride)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Lenny Abrahamson), Atriz (Brie Larson), Roteiro Adaptado

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Brie Larson)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Brie Larson) 

Já é clichê dos mais batidos dizer que a arte imita a vida. Porém, muitas vezes o contrário também é verdadeiro. Que o diga a escritora Emma Donoghue: três anos depois que seu romance "O quarto de Jack" foi publicado, em 2010, um perturbador caso policial com impressionantes similaridades com sua trama chegou às manchetes. De forma muito semelhante ao que acontece com sua protagonista, uma mulher chamada Amanda Berry conseguiu fugir do cativeiro onde era mantida há anos junto com seu filho, fruto dos constantes estupros a que era submetida por seu sequestrador. Berry não era a única vítima de Ariel Castro, que também mantinha outras duas mulheres em seu poder. Também na Áustria houve situação parecida, com um homem mantendo a própria filha, Elisabeth Fritzl, como prisioneira por 24 anos e tendo, com ela, outras sete crianças, das quais três ficaram com a mãe durante o período que durou o sequestro. Casos isolados ou não, as histórias de Berry e Fritzl servem como um ponto a mais de credibilidade à história da escritora, que, antes mesmo de lançar seu livro, já o havia transformado em roteiro, confiante em sua força dramática e tema potente. Quando finalmente sua adaptação para o cinema chegou às telas, cinco anos depois da publicação do livro, a recepção não poderia ter sido melhor: aplaudido pela crítica, "O quarto de Jack" arrebatou quatro importantes indicações ao Oscar (incluindo melhor filme) e levou a cobiçada estatueta de melhor atriz, entregue à jovem Brie Larson - também premiada com o Golden Globe, o BAFTA e o prêmio do Sindicato dos Atores.

Até então conhecida basicamente pelo público consumidor de cinema independente - seu crédito mais importante era o de protagonista do elogiado "Temporário 12" (2013) -, Larson ganhou o papel principal de "O quarto de Jack" em uma disputa com a talentosa Shailene Woodley, depois que Emma Watson e Rooney Mara, também cotadas, ficaram de fora do projeto. Seu trabalho foi um divisor de águas em sua carreira: logo depois de alguns filmes menos ambiciosos, seu nome estampava o cartaz de "Capitã Fantástica" (2019), um blockbuster de enorme visibilidade, que, mais do que o Oscar, a colocou em posição privilegiada em Hollywood. E se a protagonista da Marvel é uma heroína clássica, sua personagem em "O quarto de Jack" explora níveis dramáticos muito mais profundos - traduzidos em uma interpretação sutil, que busca a comunicação mais pelo silêncio do que por discursos inflamados. Em uma parceria impecável com o pequeno Jacob Tremblay - que rouba a cena e injustamente ficou de fora dos indicados pela Academia -, Larson deixou para trás nomes muito mais experientes (Cate Blanchett, Charlotte Rampling) na corrida pela estatueta, e fortaleceu o filme a ponto de levá-lo às categorias mais nobres do Oscar.

 


Filmado em um período de dez semanas - com uma intensa preparação anterior por parte de seus atores principais, como o confinamento voluntário de Brie Larson por um mês antes do começo das filmagens, para experimentar a sensação de isolamento de sua personagem e um contato mais próximo entre a atriz e Jacob Tremblay -, "O quarto de Jack" foi realizado praticamente em sequência. Tal situação, rara no cinema, foi a forma escolhida pelo cineasta para ajudar Tremblay (escolhido dentre mais de 2000 crianças) a desenvolver as emoções requeridas pelo roteiro. Foi uma providência e tanto: é difícil não se deixar conquistar pelo desempenho do pequeno ator, que escapa das armadilhas melodramáticas que a trama poderia oferecer com segurança de veterano. Aliás, é um grande mérito do roteiro sua ousadia em evitar cenas lacrimosas e apostar suas fichas nas consequências psicológicas do drama de Joy, o que afasta o filme do lugar comum e lhe imprime um tom mais sufocante - o que condiz, logicamente, com a história contada por Emma Donoghue. Donoghue concorreu ao Oscar de roteiro adaptado e perdeu para "A grande aposta" (2015), mas com certeza seu script tem muito mais possibilidades de permanecer na memória do público do que o quase hermético trabalho de Adam McKay.

A principal qualidade do roteiro de "O quarto de Jack" surge logo nos primeiros minutos, quando o público é apresentado sem muitas firulas ao intenso drama vivido pela protagonista interpretada por Larson: sem saber seu nome ou nada mais a seu respeito, a plateia precisa entender aos poucos tudo o que está acontecendo, sem explicações mastigadas. Conforme o filme anda, as coisas começam a ficar mais claras, e se compreende que a personagem é mantida refém há anos, que é constantemente abusada por seu sequestrador e, pior ainda, vive com um menino, Jack, que é seu filho com ele - e a quem protege desesperadamente. A relação entre mãe e filho é o cerne da trama, e a direção de Lenny Abrahamson a explora de maneira comovente e verdadeira - não à toa, quando o foco da história muda e passa a girar em torno da readaptação da dupla à vida fora do cativeiro, o ritmo cai e a inclusão de novos personagens enfraquece o todo. Talvez superestimado em demasia - suas qualidades são inegáveis, mas o excesso de indicações ao Oscar e prêmios da crítica soa como alucinação coletiva -, "O quarto de Jack" é uma produção importante e relevante, porém não atinge todo o seu potencial dramático. Foi o filme certo na hora certa, mas não se sabe se sobreviverá ao tempo com a mesma força que demonstrou em sua estreia.

terça-feira

PEGGY SUE: SEU PASSADO À ESPERA

PEGGY SUE: SEU PASSADO À ESPERA (Peggy Sue got married, 1986, TriStar Pictures, 103min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Jerry Leichtling, Arlene Sarner. Fotografia: Jordan Cronenweth. Montagem: Barry Malkin. Música: John Barry. Figurino: Theadora Van Runckle. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Marvin March. Produção executiva: Barrie M. Osborne. Produção: Paul R. Gurian. Elenco: Kathleen Turner, Nicolas Cage, Joan Allen, Helen Hunt, Sofia Coppola, Barbara Harris, Jim Carrey, Don Murray, Barry Miller, Kevin J. O'Connor. Estreia: 05/10/86

3 indicações ao Oscar: Atriz (Kathleen Turner), Fotografia, Figurino

A carreira de Francis Ford Coppola se divide entre produções ambiciosas (que tanto podem agradar em cheio quanto serem solenemente ignoradas pelo público) e filmes menores, de baixo orçamento e pretensões ainda menores. Em 1986, ele estava vindo do fracasso comercial do épico musical "Cotton Club" (84) quando acertou a mão com um drama romântico, delicado e sensível que refletia a nostalgia generalizada em relação à uma época mais inocente dos EUA, pré-assassinato de John Kennedy e Guerra do Vietnã. Projeto herdado da diretora Penny Marshall (que foi afastada pelos produtores por ser considerada inexperiente para um filme que já era tido pelo estúdio como uma produção relativamente grande), "Peggy Sue: seu passado à espera" não apenas deu à Kathleen Turner um dos maiores papéis de sua carreira (e uma subsequente indicação ao Oscar de melhor atriz) como contava com um jovem Jim Carrey em papel coadjuvante e revelou o nome de Nicolas Cage à plateia (ainda que em uma atuação um tanto equivocada e questionada pelo próprio diretor).

Na verdade, a presença de Cage esteve por um fio principalmente por sua insistência em utilizar-se de um tom de voz que tanto Coppola (seu próprio tio) e os produtores simplesmente odiaram desde o princípio. O fato de Cage ter vencido a disputa diz muito sobre sua personalidade persuasiva, mas é inegável que sua presença desequilibra o resultado final - quando Penny Marshall estava no comando da produção, por exemplo, os nomes cotados para viver o protagonista masculino foram os de Tom Hanks, Dennis Quaid e Sean Penn, todos atores bem menos excêntricos e de registro mais sutil. Sempre que Cage entra em cena, o filme assume um tom mais debochado, contrastando com o lirismo impresso pela fotografia de Jordan Cronenweth (também indicada ao Oscar) e pela trilha sonora leve e onírica, a cargo de John Barry e canções populares do começo dos anos 60. Felizmente a presença do ator não atrapalha o desempenho luminoso de Kathleen Turner, que transborda emoção e graça em cada diálogo.


Substituindo Debra Winger, que abandonou o projeto depois de um acidente de bicicleta, Turner está plenamente à vontade em cena, convencendo tanto como a dona-de-casa frustrada de 43 anos em vias de divorciar-se quanto como a adolescente atônita ao descobrir seu poder inexplicável de mudar os rumos de sua vida quando acorda em 1960. Aproveitando-se de um roteiro que explora o humor, o romantismo e o surreal da situação, a atriz revelada por Lawrence Kasdan em "Corpos ardentes" (81) entrega uma performance encantadora e tão mágica quanto o enredo: Peggy Sue, uma mulher desiludida com o fim de seu casamento com o namorado de adolescência, Charles Bodell (Nicolas Cage), vai quase à contragosto a uma festa para celebrar o reencontro de seus colegas de escola. Coroada rainha da festa, ela subitamente desmaia e, para sua surpresa/deleite/angústia, desperta em 1960, quando ainda não estava definitivamente comprometida com o futuro marido. Percebendo a possibilidade de modificar seu destino, ela resolve tentar a sorte com outro rapaz, o sensível e rebelde poeta Michael Fitzsimmons (Kevin J. O'Connor) - mas para isso ela terá de desvencilhar-se de Charles, completamente apaixonado por ela.

Equilibrando seu filme entre as decisões amorosas da protagonista e a forma como ela passa a lidar com a novidade temporal de sua vida - o reencontro com a irmã caçula, o contato com os avós já falecidos, a tentativa de ajudar Charles em sua carreira musical lhe dando de bandeja um sucesso ainda não lançado dos Beatles, sua associação com o gênio da escola, Richard Norvick (Barry Miller) -, Coppola dirige "Peggy Sue" com mão leve, sem jamais pesar o drama e preferindo sublinhar o tom lúdico do roteiro, em contraste com o humor acelerado e juvenil de "De volta para o futuro", dirigido por Robert Zemeckis um ano antes e que também brincava com viagens no tempo. Felizmente evitando explicações mirabolantes para a situação central - e também uma solução fácil e insatisfatória -, o filme fecha sua trama de forma coerente e emocionante, sem trair o público ou transfigurar seus personagens. Um entretenimento adulto e um dos melhores Francis Ford Coppola da década de 80!

TUCKER: UM HOMEM E SEU SONHO

TUCKER: UM HOMEM E SEU SONHO (Tucker: The man and his dream, 1988, Paramount Pctures/Lucasfilm, 110min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Arnold Schulman, David Seidler. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Priscilla Nedd-Friendly. Música: Joe Jackson. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Armin Ganz. Produção executiva: George Lucas. Produção: Fred Fuchs, Fred Roos. Elenco: Jeff Bridges, Joan Allen, Martin Landau, Frederic Forrest, Mako, Elias Koteas, Christian Slater, Jay O. Sanders, Peter Donat. Estreia: 12/8/88

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Martin Landau), Figurino, Direção de Arte/Cenários

Os homens e seus sonhos: em 1945, logo depois da II Guerra Mundial, Preston Tucker tinha o sonho de construir um carro popular, eficiente, seguro e econômico - mas não conseguiu ir muito longe em seu objetivo, atropelado que foi pelos gigantes da indústria automobilística que não viam com bons olhos sua intrusão em seu meio. Em 1974, o cineasta Francis Ford Coppola, apaixonado pelo carro criado por Tucker, sonhava em realizar um filme contando a história de seu empreendimento e sua batalha judicial para manter-se no mercado. Tucker foi acusado de fraude e levado a julgamento, vendo seu sonho despedaçar-se tão logo tornou-se realidade. Coppola também penou para levar adiante seu projeto - em 1974, queria Marlon Brando no papel principal, mas o filme não foi adiante e ele foi realizar o problemático "Apocalipse now". Tão logo acabou o suplício das pós-produção, chamou Burt Reynolds para protagonizar sua história e mais uma vez o sonho não se tornou realidade. Foi somente em 1988, mais de uma década depois da primeira vez em que pensou no filme é que finalmente "Tucker: o homem e seu sonho" viu a luz dos refletores. No papel central, nem Brando, nem Reynolds nem Jack Nicholson (a quem também foi oferecido), e sim um Jeff Bridges vibrante, entusiasmado e bom ator como nunca. O sonho estava realizado, mas assim como o heroi visionário de Bridges, Coppola também sentiu o sabor agridoce da vitória parcial.

Enquanto Tucker se viu obrigado a encerrar a produção de seus carros depois de apenas 51 exemplares, Coppola não obteve, com seu filme, o reconhecimento esperado e devido, tanto da crítica quanto do público. Com uma renda doméstica insuficiente até mesmo para cobrir o orçamento modesto de 23 milhões de dólares e aplausos apenas mornos da imprensa e das cerimônias de premiação - recebeu tímidas 3 indicações ao Oscar e não converteu nenhuma em estatueta - a história de Preston Tucker acabou por refletir, como em um espelho, as batalhas do cineasta por manter seus princípios artísticos em uma indústria tão impiedosa quanto Hollywood. Dono de dois exemplares do carro de Tucker (outros dois são de propriedade do produtor do filme, George Lucas), Coppola tem uma trajetória de perdas e ganhos tão intensa que não é de espantar sua admiração pelo destemido empresário, que, como ele, era capaz de arriscar qualquer coisa para realizar o que considerava certo. Ele também uma vítima das corporações que ditam as regras de seu negócio, Coppola parece dizer que ele é o Preston Tucker do cinema: um homem de visão, talento e entusiasmo, mas que, como um Davi, infelizmente não tem a força necessária para derrotar poderosos Golias.


Fascinante enquanto reflexo de seu realizador, como cinema "Tucker: um homem e seu sonho" não chega a ser tão admirável quanto os melhores filmes de Francis Ford Coppola. Apesar da paixão que sente por seu biografado, o cineasta parece preso a uma narrativa convencional em excesso, mesmo que o roteiro tente inserir um pouco de humor no tom documental que abre o filme - uma referência aos documentários cinematográficos da época em que se passa a história. Visualmente requintado (a direção de arte e o figurino foram indicados ao Oscar e perderam para "Ligações perigosas", de Stephen Frears), o filme apresenta tudo o que se pode esperar de um cineasta do porte de Coppola: uma direção sensível, atores em composições admiráveis (Martin Landau também concorreu ao Oscar), uma fotografia deslumbrante do veterano Vittorio Storaro e uma edição ágil e criativa. Apenas o roteiro - construído sobre informações coletadas pelo diretor através da Justiça americana, que mantinha confidencialidade sobre o processo - carece de maior força, raramente atingindo todas as inúmeras possibilidades que oferece em um primeiro momento. Entre o início promissor e o final climático - onde a força do talento de Jeff Bridges ilumina tudo a seu redor - há um exagero de cenas redundantes, que parece reiterar, sem necessidade, a batalha de Tucker contra seus algozes.

A trama é simples: com o fim da II Guerra, Preston Tucker (Jeff Bridges) convence a família, os amigos e o público (através de anúncios em revistas), de que será o responsável por criar um carro capaz de concorrer com aqueles fabricados pelas grandes montadoras do país (GM, Ford e Chrysler). Obtendo financiamento com a ajuda do esperto e experiente Abe (Martin Landau) e contando com o apoio logístico do jovem engenheiro Alex Tremulis (Elias Koteas), ele consegue finalmente chegar ao protótipo de seu veículo - mas esbarra, então, nos todo-poderosos da indústria, que passam, então, a lutar contra ele até o ponto de acusá-lo criminalmente e levá-lo a julgamento. Coppola conduz com adequadas serenidade e leveza uma história que, apesar dos dramas, é fundamentada basicamente em esperança e paixão - paixão essa que era também a de Gian-Carlo, filho do diretor, morto aos 22 anos de idade e a quem o filme é dedicado. Emocionante sem ser piegas, "Tucker: um homem e seu sonho" é um sonho de Francis Ford Coppola a respeito do sonho de Preston Tucker. Pode não ser uma obra-prima, mas é movido a sentimentos positivos e uma bela nostalgia - o que já é bem mais do que se pode dizer de muitos filmes mais ambiciosos, mais elogiados e bem menos competentes.

quarta-feira

O ULTIMATO BOURNE

O ULTIMATO BOURNE (The Bourne ultimatum, 2007, Universal Pictures, 115min) Direção: Paul Greengrass. Roteiro: Tony Gilroy, Scott Z. Burns, George Nolfi. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Christopher Rouse. Música: John Powell. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Peter Wenham/Tina Jones. Produção executiva: Doug Liman, Henry Morrison, Jeffrey M. Weiner. Produção: Patrick Crowley, Frank Marshall, Paul L. Sandberg. Elenco: Matt Damon, Joan Allen, David Straithairn, Julia Stiles, Paddy Considine, Albert Finney, Scott Glenn, Daniel Bruhl. Estreia: 25/7/07

Vencedor de 3 Oscar: Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som

Caso raro dentro da indústria dos filmes de ação hollywoodianos, a trilogia Bourne, inspirada na série de livros do escritor Robert Ludlum conseguiu uma façanha e tanto: não apenas manteve o interesse do público por seus três filmes (interesse que inclusive aumentava a cada lançamento) como superou toda e qualquer expectativa em termos de qualidade narrativa e técnica. Um exemplo perfeito dessa afirmação é "O ultimato Bourne", seu capítulo final, que não apenas rendeu mais de 220 milhões de dólares nas bilheterias americanas como agradou em cheio à crítica, à audiência e até mesmo à Academia, que lhe ofereceu em troca 3 estatuetas do Oscar, que sublinharam suas qualidades técnicas impressionantes. Se os dois primeiros filmes já eram sensacionais, o terceiro é absolutamente impecável.

Dessa vez, o agente secreto Jason Bourne (interpretado a cada filme com mais intensidade por um Matt Damon que nunca esquece, mesmo em momentos de quebradeira, que é um ator sério e talentoso) é tirado de seu anonimato graças às investigações do repórter investigativo inglês Simon Ross (Paddy Considine), que tenta trazer à tona os segredos de uma operação secreta da CIA, o Projeto Blackbriar - que vem a ser um passo à frente da antiga missão de Bourne, a Operação Treadstone. A busca de Ross pela verdade coincide com uma falsa acusação de traição contra Bourne, que, na tentativa de provar sua inocência e descobrir a verdade sobre seu passado (que continua vindo em lembranças intermitentes), conta com a ajuda inesperada de Pam Landy (Joan Allen), diretora da agência, que deseja manter a integridade do órgão de segurança.


Equilibrando cenas de tensão constante - em especial uma perseguição de tirar o fôlego sobre telhados e a tentativa de Bourne em salvar a vida de Simon Ross em meio à multidão que frequenta as estações de Londres - com momentos dramáticos importantes para o desfecho da trilogia (como o encontro com o irmão de Marie (Franka Potente), "O ultimato Bourne" atinge sua excelência por atingir a perfeita mistura entre um roteiro inteligente, atuações seguras de um elenco de feras (Damon, Joan Allen, David Straithairn) e uma técnica invejável. A edição espetacular de Christopher Rouse - premiada com um Oscar justíssimo - não dá folga ao espectador, praticamente jogando-o no meio das eletrizantes sequências de luta, coreografadas de forma a impressionar a audiência sem precisar de efeitos especiais mirabolantes. Seu realismo é um ponto mais do que positivo, por destacar o tom seco e direto da direção de Paul Greengrass - que usa e abusa de câmeras na mão e de sua experiência em filmes de estilo semi-documental para criar uma atmosfera claustrofóbica e tensa mesmo em espaços vastos e planos abertos.

No final das contas, "O ultimato Bourne" encerra com chave de ouro uma série cinematográfica que devolveu ao público o prazer de acompanhar uma boa história recheada de cenas extraordinárias de ação sem que seja preciso abdicar do cérebro. E Jason Bourne, é, com toda certeza, um dos mais fascinantes personagens do cinema de ação vindo de Hollywood. Vai deixar saudades.

segunda-feira

A VIDA EM PRETO E BRANCO

A VIDA EM PRETO E BRANCO (Pleasantville, 1998, New Line Cinema, 124min) Direção e roteiro: Gary Ross. Fotografia: John Lindley. Montagem: William Goldenberg. Música: Randy Newman. Figurino: Judianna Makovsky. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay Hart. Produção executiva: Michael De Luca, Mary Parent. Produção: Robert J. Degus, Jon Kilik, Gary Ross, Steven Soderbergh. Elenco: Tobey Maguire, Joan Allen, Jeff Daniels, Reese Witherspoon, William H. Macy, J.T. Walsh, Paul Walker. Estreia: 17/9/98 (Festival de Toronto)

3 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original (Drama), Figurino, Direção de Arte/Cenários

De vez em quando, apesar da mesmice do cinemão americano, surge uma pequena pérola, um filme que, dentro de sua aparente simplicidade, conquista pela inteligência e pela delicadeza. Em 1998, esse filme foi "A vida em preto e branco", uma deliciosa comédia romântica que, por trás de uma sátira carinhosa aos seriados de televisão dos anos 50 - com suas famílias perfeitas e um mundo cor-de-rosa - esconde uma poderosa crítica ao fascismo moral e ao preconceito. Escrita e dirigida por Gary Ross - que cinco anos depois veria seu quadradinho "Seabiscuit, alma de herói" ser alçado à importante indicação ao Oscar de melhor filme - a co- produção de Steven Soderbergh é um deleite para os olhos e para a alma.

A princípio, parece bem bobinho - e talvez seja essa a intenção de Ross: um casal de irmãos gêmeos, a exuberante Jennifer (Reese Witherspoon antes da fama que acabou lhe rendendo um Oscar) e o introvertido David (Tobey Maguire) começam a brigar pela posse do controle remoto da televisão, cada um acreditando ter motivos mais fortes que o outro para ter o domínio da programação. Enquanto Jennifer espera assistir a um programa musical ao lado do colega de escola por quem tem uma forte atração, David prefere dedicar-se à "Maratona Pleasantville", que irá mostrar, sem interrupção, diversos episódios de sua série preferida - e acabar com um quiz que pode lhe dar um prêmio. A briga é interrompida quando o controle quebra e eles recebem a visita de um misterioso homem, que, ao invés de consertá-lo, joga os dois dentro do programa adorado por David. De uma hora pra outra, os dois adolescentes dos anos 90 - acostumados com refeições saudáveis e uma vida sem normas muito rígidas de comportamento social - se veem em um mundo totalmente diferente, tanto em termos morais quanto estéticos.


Enquanto David - acostumado com as regras desse novo mundo e ciente de todos os meandros de sua sociedade - sai-se bastante bem na suas tentativas de integrar-se a ele, Jennifer, rebelde por natureza, passa a questionar um por um dos itens que fazem da cidade um exemplo de convivência pacífica e apática. Seu desejo liberador por Skip Martin (Paul Walker) é o catalisador de uma profunda transformação na pacata Pleasantville, que nunca antes havia falado, pensado ou imaginado qualquer coisa relacionada à sexo ou sentimentos que pudessem abalar o status quo. Com a chegada dos irmãos, o mundinho em preto-e-branco da cidade começa a colorir-se conforme as pessoas passam a experimentar novas sensações - e até a mãe do casal, Betty (Joan Allen) descobre que amor é algo bem diferente da comodidade indiferente que sente ao lado do marido (em uma sequência genial onde ela encontra o caminho para a satisfação sexual em um banho de banheira que acaba dando trabalho aos bombeiros da cidade, que até então não faziam nada mais do que salvar gatinhos em árvores).

Utilizando-se de metáforas visuais para atacar o conformismo - e as tentativas ditatoriais para mantê-lo como forma de controle - "A vida em preto e branco" tem o mérito de não esquecer, em momento algum, que, antes de receber uma mensagem, o público procura uma boa história, narrada com coerência e clareza. E isso não é negado à plateia do filme de Ross, que testemunha, diante de seus olhos, uma trama delicada, por vezes engraçada e muito comovente, contada com recursos visuais deslumbrantes. Da fotografia de John Lindley até a criação de toda a Pleasantville - passando pela trilha sonora emocionante de Randy Newman, que comporta inclusive um versão de "Across the universe" na voz de Fiona Apple - tudo conflui para um resultado nunca aquém de soberbo, capaz de encantar qualquer audiência que se disponha a abrir o coração. Um pequena obra-prima.

quinta-feira

A OUTRA FACE DA RAIVA

A OUTRA FACE DA RAIVA (The upside of anger, 2005, New Line Cinema, 118min) Direção e roteiro: Mike Binder. Fotografia: Richard Greatrex. Montagem: Steve Edwards, Robin Sales. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Deborah Scott. Direção de arte/cenários: Chris Roope/Neesh Ruben. Produção executiva: Mark Damon, Andreas Grosch, Stewart Hall, Andreas Schmid. Produção: Jack Binder, Alex Gartner, Sammy Lee. Elenco: Joan Allen, Kevin Costner, Evan Rachel Wood, Erika Christensen, Mike Binder, Keri Russell, Alicia Witt. Estreia: 23/01/05 (Festival de Sundance)

Uma das atrizes mais interessantes do cinema americano a aparecer ao grande público na segunda metade dos anos 90, Joan Allen já havia sido reconhecida com algumas indicações ao Oscar - como coadjuvante por "Nixon" e "As bruxas de Salem" e como protagonista por "A conspiração" - mas, apesar de sempre ser a melhor coisa dos filmes dos quais participava demorou a ter um filme que lhe desse a oportunidade de mostrar toda a sua capacidade. Foi preciso um filme pequeno e despretensioso - dirigido pelo também ator Mike Binder, que escreveu o papel especialmente para ela - para que ela finalmente pudesse deitar e rolar, em uma atuação tão fabulosa que consegue contagiar até mesmo o normalmente apático Kevin Costner.


Realizado com delicadeza, simplicidade e sensibilidade, “A outra face da raiva” conta a história de Terry Wolfmeyer, uma dona de casa que tem a vida transformada quando é repentinamente abandonada pelo marido e fica às voltas com as quatro filhas: a mais velha, Hadley (Alicia Witt) estuda em outra cidade e está grávida do namorado; a segunda, Emily (Keri Russell) sonha em ser bailarina mas descobre estar seriamente doente; a terceira, Andy (Érika Christensen) quer ser jornalista e se envolve com o patrão alguns anos mais velho (o diretor do filme, Mike Binder) e a caçula, Popeye (Evan Rachel Wood) se apaixona por um colega de classe com dúvidas sobre sua sexualidade. Entregando-se à amargura e à bebida, Terry acaba encontrando amparo e companheirismo em Denny (Kevin Costner), amigo de seu marido que teve seus dias de glória como jogador de beisebol e no momento apresenta um programa de rádio e vive da fama de seu passado.
        

Sem tentar comover apelando às lágrimas fáceis, o equilibrado roteiro de Binder é um prato cheio para Allen, que brilha em cada cena, sendo a megera amarga, a sensível abandonada, a mãe cruel e a mulher com medo de entregar-se a uma nova paixão. Cercada por um elenco que nunca deixa a peteca cair, ela prova, sem espaço para dúvidas, de que é uma das atrizes mais completas de sua geração e transforma o que poderia ser apenas mais um filme sobre problemas familiares em uma experiência acima da média. E encontra em Kevin Costner um parceiro à altura, por incrível que pareça.

Um dos maiores ídolos do começo da década de 90 - com sucessos de bilheteria e um aplauso quase unânime a respeito de sua estreia na direção com o multioscarizado "Dança com lobos" - Kevin Costner deixou que sua megalomania freasse bruscamente a sua ascensão. Os fracassos mastodônticos dos igualmente imensos "Waterworld" e "O mensageiro" o transformaram rapidamente de "o grande astro americano" em "a promessa que não se cumpriu". Até mesmo sua imagem de bom moço foi pro ralo com o fim de seu casamento aparentemente indissolúvel e tudo parecia ter ido água abaixo quando o que restava de sua humildade o jogou em filmes elogiados como "13 dias que abalaram o mundo" - sobre a crise dos mísseis de Cuba em 1963 - e este "A outra face da raiva", onde injetou humanidade a uma personagem que, de certa forma, reflete o ocaso de sua carreira. Ao lado de Joan Allen ele é a principal razão para se assistir à bela estreia de Mike Binder como diretor.

domingo

A SUPREMACIA BOURNE


A SUPREMACIA BOURNE (The Bourne supremacy, 2004, Universal Pictures, 108min) Direção: Paul Greengrass. Roteiro: Tony Gilroy, romance de Robert Ludlum. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Richard Pearson, Christopher Rouse. Música: John Powell. Figurino: Dinah Collin. Direção de arte/cenários: Dominic Watkins/Bernard Henrich. Produção executiva: Doug Liman, Henry Morrison, Jeffrey M. Weiner. Produção: Frank Marshall, Patrick Crowley. Elenco: Matt Damon, Franka Potente, Brian Cox, Julia Stiles, Joan Allen, Karl Urban, Gabriel Mann. Estreia: 15/7/04

No mesmo ano em que “Homem-aranha 2” quebrou a regra de que continuações são sempre inferiores a seus produtos originais, uma outra sequência de um filme de sucesso chegou às telas e mostrou que a maldição só pode ser aplicada quando o objetivo de fazer dinheiro nas bilheterias sobrepõe-se ao talento das pessoas envolvidas no projeto. “A supremacia Bourne”, continuação de “A identidade Bourne”, ganhou novo diretor – Paul Greengrass substituiu Doug Liman – e um fôlego novo, confirmando Matt Damon como um improvável mas competente herói de ação.
      
Enquanto o primeiro filme começava com Jason Bourne (Damon) totalmente às cegas quanto a seu passado dessa vez a coisa é um pouco menos grave no início. Escondido de tudo e de todos, ele está na Índia com sua namorada Marie (Franka Potente) quando passa a ser perseguido por um assassino russo. Obrigado a sair do seu esconderijo depois de uma tragédia, ele ainda se vê às voltas com a acusação de ter assassinado agentes da CIA, uma vez que suas digitais foram encontradas no local do crime. Perseguido pela chefe da agência, a incansável Pamela Landy (a sempre ótima Joan Allen), Bourne tenta provar sua inocência e desbaratar uma conspiração que envolve seu nome, chegando até Moscou.

       

Assim como Doug Liman fez no primeiro filme, o novo diretor Paul Greengrass – egresso de dramas de fundo político com tons de semi-documentário – acerta em não explicar muito ao espectador, deixando-o tão atônito e perdido quanto seu protagonista. Conforme a trama avança e Bourne começa a juntar os pedaços do quebra-cabeça que é sua vida o público vai gradualmente se envolvendo em uma trama inteligente repleta de cenas de ação do mais alto gabarito. Assim como acontecia a perseguição automobilística no primeiro filme pelas apertadas ruas de Paris o segundo capítulo apresenta uma corrida por Moscou que em nada perde para seu antecessor. E Matt Damon continua mostrando porque foi a escolha mais acertada para o papel de Jason Bourne, um James Bond antenado com a nova realidade do cinema e de seu público.

quarta-feira

DIÁRIO DE UMA PAIXÃO


DIÁRIO DE UMA PAIXÃO (The notebook, 2004, New Line Cinema, 123min) Direção: Nick Cassavetes. Roteiro: Jeremy Leven, adaptação de Jan Sardi, romance de Nicholas Sparks. Fotografia: Robert Fraisse. Montagem: Alan Heim. Música: Aaron Zigman. Figurino: Karyn Wagner. Direção de arte/cenários: Sarah Knowles/Chuck Potter. Produção executiva: Toby Emmerich, Avram Butch Kaplan. Produção: Lynn Harris, Mark Johnson. Elenco: James Garner, Gena Rowlands, Ryan Gosling, Rachel McAdams, Joan Allen, James Marsden, Sam Shepard. Estreia: 20/5/04 (Festival de Seattle)

 Romances adolescentes sofrem sempre do mesmo problema: atores limitados recitam diálogos requentados com uma trilha modernosa e um final fatalmente previsível. Talvez por isso, pelo desprezo pelos clichês contemporâneos do gênero, o filme “Diário de uma paixão” tenha ido tão bem nas bilheterias americanas, tendo rendido mais de 80 milhões de dólares mesmo sem um astro ou uma estrela liderando seu elenco. Dirigido por Nick Cassavetes – outra escolha atípica para comandar um filme de narrativa convencional e sem maior densidade psicológica – a adaptação do romance de Nicholas Sparks é um dos filmes românticos mais felizes de seu tempo, dosando com medidas exatas um drama romântico de época, personagens joviais e cheios de esperança e uma história de amor entre um casal maduro.
      
Os veteranos James Garner e Gena Rowlands vivem dois pacientes de uma clínica psiquiátrica que tem uma relação problemática. Ela sofre de Alzheimer e ele, apaixonado por ela, lhe conta diariamente uma história de amor escrita em um livro que carrega sempre consigo.A história de amor que ele conta é a dos jovens Noah (o excepcional Ryan Gosling) e Allie (a igualmente ótima Rachel MacAdams). Pertencentes a universos totalmente diferentes, eles se apaixonam perdidamente, mas como sempre acontece, são separados pelas circunstâncias e pela pedante mãe da garota (vivida com gosto pela sempre excelente Joan Allen). Quando um partido bem mais adequado – na pele de James Mardsen - aparece na vida de Allie, o romance fica ameaçado de vez, mas o amor que eles ainda sentem um pelo outro ainda parece ser capaz de reuní-los.

 

Desde que começou a circular em Hollywood, o projeto de "Diário de uma paixão" - primeiro romance de Sparks, que depois se tornaria uma espécie de John Grisham romântico, tendo todos os seus livros adaptados para o cinema, normalmente em filmes medíocres - chamou a atenção de gente importante. Steven Spielberg e Tom Cruise estiveram interessados no filme (o que Cruise faria, uma vez que não tem a idade apropriada para nenhum dos protagonistas, é uma incógnita). Até mesmo Justin Timberlake e Reese Witherspoon foram cotados para os papéis principais, até que Rachel McAdams (que bateu Britney Spears pelo papel de Allie) e Ryan Gosling foram escolhidos pelo diretor Nick Cassavetes (que ainda deu à sua mãe o outro papel feminino importante da história): em cena, Gosling e McAdams tem uma química inflamável, que engole tudo à sua volta. Não foi à toa que eles se apaixonaram durante as filmagens, o que dá ao filme um grau de realismo ainda muito bem-vindo.    

Fotografado com delicadeza pelo experiente Robert Fraisse, "Diário de uma paixão" não traz nenhuma novidade aos fãs de histórias de amor. No entanto, o talento de seu diretor e sua coragem em assumir-se como um dramalhão romântico com todos os ingredientes de um novelão das antigas - assim como era também "Uma carta de amor", do mesmo Nicholas Sparks, adaptado com Kevin Costner e Robin Wright-Penn nos papéis centrais - o absolve de todos os pecados que poderia ter. O final lacrimoso não chega a surpreender, mas emociona na medida certa graças ao talento de seus experientes intérpretes. É a melhor adaptação de Nicholas Sparks a chegar às telas.

A CONSPIRAÇÃO

A CONSPIRAÇÃO (The contender, 2000, Dreamworks SKG, 126min) Direção e roteiro: Rod Lurie. Fotografia: Denis Maloney. Montagem: Michael Jablow. Música: Larry Groupé. Figurino: Matthew Jacobsen. Direção de arte/cenários: Alexander Hammond/Eloise Stammerjohn. Produção executiva: Maurice Leblond, Gary Oldman. Produção: Marc Frydman, James Spies, Douglas Urbanski. Elenco: Joan Allen, Gary Oldman, Christian Slater, Jeff Bridges, Sam Elliott, William Petersen, Saul Rubinek, Philip Baker Hall, Robin Thomas, Mariel Hemingway. Estreia: 13/10/00

2 indicações ao Oscar: Atriz (Joan Allen), Ator Coadjuvante (Jeff Bridges)

Filmes sobre política norte-americana interessam ao público brasileiro quase na mesma proporção que filmes sobre beisebol. Intrigas dos bastidores da Casa Branca e seus arredores, portanto, volta e meia suscitam a atenção, como bem prova a popularidade da série de TV "West Wing" - que mesmo assim fez um sucesso imenso nos EUA e aqui tinha uma audiência bastante selecionada. Por essa razão não é nenhuma surpresa o fato de um filme tão interessante quanto "A conspiração" ter passado quase batido na ocasião de sua estreia, apesar do elenco de prestígio. Se não fosse as indicações ao Oscar - Joan Allen como melhor atriz e Jeff Bridges como ator coadjuvante é bem possível que nem mesmo tivesse passado pelas salas brasileiras.

Escrito e dirigido pelo desconhecido Rod Lurie - que dedica o filme a suas filhas, em sinal de esperança no futuro de seu país - "A conspiração" é um drama político que centra sua atenção mais em suas personagens do que em intrincadas manobras de gabinete (ainda que elas existam em número considerável), o que facilita a assimilação até mesmo por quem não tem familiaridade com os jogos políticos americanos. É elogiável a forma sóbria e direta com que Lurie conta sua história, permitindo a seus atores (todos em excelente forma) momentos de um brilho discreto mas muito eficiente.


Quando o filme começa, os EUA estão sem um vice-presidente, morto recentemente. A expectativa de todos é que o presidente, o carismático Jackson Evans (Jeff Bridges em uma atuação simpática) nomeie o governador Jack Hathaway (William Petersen) para o cargo, aproveitando sua popularidade em alta, especialmente depois de ter tentado salvar (em vão) uma jovem de morrer afogada após um acidente de carro. O que surpreende a todos - mas não em especial seus assessores mais próximos - é a decisão de Evans de deixar um legado histórico, escolhendo uma mulher para o segundo posto mais importante do país. A escolhida é a senadora Laine Hanson (Joan Allen), uma mulher séria e discreta, filha de um político, que aceita o cargo prontamente. A escolha do presidente desagrada principalmente o líder da oposição, Shelly Ruinon (um Gary Oldman irretocável), que tencionava manipular Hathaway. Para denegrir Hanson e tentar impedir sua posse, ele faz vazar para a imprensa e consequentemente para os eleitores, fotos que mostram a senadora participando de uma orgia sexual em seus tempos de faculdade. Atônita com a situação, ela se vê dividida entre reagir à altura ou manter sua integridade pessoal e privada.

Depois de ter-se consagrado como a coadjuvante perfeita - em filmes como "Nixon", "As bruxas de Salem" e "Tempestade de gelo" - finalmente Joan Allen atinge o status de protagonista, em um papel escrito especialmente para seu talento. Sua Laine Hanson é discreta, honesta e estoica, mesmo quando vê sua vida pessoal ser vasculhada com um microscópio, e o rosto sempre sereno de Allen casa perfeitamente com a personalidade da personagem. Joan trasmite confiabilidade, o que é essencial para que o público fique a seu lado, torcendo contra aqueles que, em nome da moral e dignidade, buscam sujar seu nome, mesmo que não sejam exatamente exemplos de hombridade (um detalhe que lembra perigosamente os políticos brasileiros). Essa definição clara entre o bem e o mal feita pelo roteiro de Lurie caminha perigosamente em direção ao maniqueísmo, mas felizmente o cineasta consegue driblar essa armadilha, mantendo o tom sério e realista da trama, que tem entre seus produtores executivos o excepcional Gary Oldman.

Foi Jeff Bridges quem concorreu ao Oscar de coadjuvante por "A conspiração", mas quem deveria ter sido lembrado - por outros filmes também - é Oldman. Na pele do vil, cínico e cruel Shelly Runion, o ator inglês não apenas está irreconhecível. Ele está visivelmente à vontade, em um papel sob medida para seu talento para o lado obscuro do ser humano - que tanto lhe ajudou em "Drácula de Bram Stoker" e "Sid & Nancy, o amor mata". Seus diálogos com Joan Allen encontram nos dois atores os intérpretes ideais, em um jogo de cena quase minimalista, repleto de silêncios e olhares expressivos. Oldman encarna um político da forma mais abjeta e escorregadia possível, provocando a antipatia imediata da plateia e causando, assim, a torcida incondicional pela heroína. Não é esse o sonho de todo diretor?

"A conspiração" é um filme inteligente, adulto e sério que toca em assuntos pertinentes e relevantes. Depois de juntar a essas qualidades um elenco de grandes atores - que nem Christian Slater consegue estragar - é só correr pro abraço. E ser descoberto pela audiência que lhe interessa.

sexta-feira

TEMPESTADE DE GELO

TEMPESTADE DE GELO (The ice storm, 1997, Fox Searchlights Pictures, 112min) Direção: Ang Lee. Roteiro: James Schamus, romance de Rick Moody. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Tim Squyres. Música: Mychael Danna. Figurino: Carol Oditz. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção: Ted Hope, Ang Lee, James Schamus. Elenco: Kevin Kline, Joan Allen, Sigourney Weaver, Tobey Maguire, Christina Ricci, Elijah Wood, Adam Hann-Byrd, Jamey Sheridan, Henry Czerny, Allison Janey, Katie Holmes. Estreia: 27/9/97

Vencedor de Melhor Roteiro no Festival de Cannes

Em 1995, o taiwanês Ang Lee surpreendeu a crítica ao fazer de "Razão e sensibilidade" a melhor adaptação para o cinema de um livro da escritora absolutamente inglesa Jane Austen. Em "Tempestade de gelo", seu projeto seguinte, ele continua a missão de penetrar em culturas diferentes da sua: é difícil acreditar em um filme tão tipicamente americano quanto sua brilhante visão do romance de Rick Moody. Mergulhando sem medo no âmago de duas famílias do interior do país em plena efervescência cultural e sexual dos anos 70, Lee entrega ao público um estudo delicado e cortante sobre as relações familiares. É triste e melancólico, mas é também mais uma obra-prima com sua assinatura.

É véspera do dia de Ação de Graças de 1973. O escândalo Watergate está no auge e os costumes sexuais e comportamentais estão em ebulição, mesmo em uma pequena cidade do interior de Connecticut chama Nova Canaan. É para lá que Paul Hood (Tobey Maguire) está retornando, para passar o feriado com a família. Seus pais, Ben (Kevin Kline) e Elena (Joan Allen) estão passando por uma crise no casamento, agravada pelo tédio e pelo caso secreto dele com Janey Carver (Sigourney Weaver), uma amiga do casal. A irmã de Paul, Wendy (Christina Ricci), por sua vez, experimenta o início de sua sexualidade brincando com os dois filhos de Janey, o tímido Mikey (Elijah Wood) e o desajeitado Sandy (Adam Hann-Byrd). Apesar da proximidade física, porém, existe um enorme distanciamento emocional entre todos eles.

A frieza nas relações interpessoais que Rick Moody criou em seu livro - e que foi retratada com perfeição pelo roteiro de James Schamus - encontra na inteligência e na sutileza de Ang Lee seu diretor ideal. Pródigo em dar tintas leves e discretas a dramas particulares, Lee conta a história das famílias Hood e Carver sem pressa, dando atenção a pequenos detalhes, como olhares tristes, suspiros disfarçados e atos desesperados. Os silêncios entre Elena e Ben dizem muito mais sobre os escombros de seu casamento do que as escapadas sexuais que ele dá com Jayne, uma mulher insatisfeita com a própria vida e que vê no seu caso extra-conjugal uma forma de escapar da monotonia. Jayne mal presta atenção nos filhos, que por sua vez não são capazes nem ao menos de perceber que seu pai saiu em viagem. Wendy é uma jovem um tanto desajustada, com forte visão política mas que é incapaz de lidar saudavelmente com seus instintos. E Paul, como alguém à parte de seu núcleo familiar, busca seu lugar no mundo sem sequer desconfiar do caos que reina em sua casa.



O gelo é uma imagem recorrente no filme de Lee. Volta e meia cubos de gelo invadem a tela, seja nas cozinhas suburbanas das personagens, no formato da casa de Jayne e principalmente na tempestade que dá nome ao filme e que origina uma tragédia que transforma definitivamente a vida de todos. A falta de calor humano entre maridos e mulheres e entre pais e filhos é o ponto central de "Tempestade de gelo", mas sua maior qualidade é justamente evitar cenas lacrimosas ou diálogos clichês. Como já dito, os silêncios na mesa dos Hood ou no relacionamento entre os Carver são mais eloquentes do que catarses emocionais repletas de choro e gritos. E é brilhante, dentro desse universo de coisas não ditas, a cena em que Ben carrega a filha Wendy nos braços, depois de flagrá-la em uma situação comprometedora com Mikey. Mesmo sem muitas falas, Kevin Kline e Christina Ricci transmitem toda a vastidão de sentimentos que a cena exige. Emocionar-se é mandatório!

Aliás, o elenco de "Tempestade de gelo" é dos melhores que Hollywood pode oferecer. Kevin Kline e Joan Allen estão fabulosos como um casal cuja falta de emoção os empurra em direção ao afastamento gradual. Sigourney Weaver, linda e sexy, tem sua melhor atuação como uma enfastiada esposa de classe média que busca em aventuras sexuais um motivo para passar seus dias iguais. E Christina Ricci demonstra que seu talento não ficou restrito às comédias que fez na infância, construindo uma Wendy que lida com sua sexualidade nascente de forma quieta mas agressiva. Somadas à fotografia - também gélida, de Frederick Elmes - e à trilha sonora poderosa de Mychael Danna, as interpretações do elenco elevam "Tempestade de gelo" a um patamar muito acima do corriqueiro. É um filme americano, que atinge a essência das famílias americanas e dos problemas americanos... mas tem cara e qualidade de cinema europeu. Simplesmente ignorado pelo Oscar e outras premiações menos conhecidas, é um filme extraordinariamente forte e emocionante, que merece ser descoberto e louvado.

terça-feira

A OUTRA FACE


A OUTRA FACE (Face/Off, 1997, Touchstone Pictures/Paramount Pictures, 138min) Direção: John Woo. Roteiro: Mike Werb, Michael Colleary. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Steven Kemper, Christian Wagner. Música: John Powell. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Garrett Lewis. Produção executiva: Michael Douglas, Jonathan D. Krane, Steven Reuther. Produção: Terence Chang, Christopher Godsick, Barrie M. Osborne, David Permut. Elenco: John Travolta, Nicolas Cage, Joan Allen, Alessandro Nivola, Gina Gershon, Dominique Swain, Nick Cassavettes, Harve Pressnell, Colm Feore, John Carroll Lynch, CCH Pounder, Thomas Jane. Estreia: 27/6/97

Indicado ao Oscar de Efeitos Sonoros

O normal para um ator depois de ter ganho um Oscar e o respeito de seus pares é dedicar-se a uma carreira sólida, de preferência em filmes sérios e dramaticamente desafiadores. Comprovando sua aversão à normalidade, no entanto, Nicolas Cage resolveu seguir o caminho inverso. Premiado e elogiado por sua atuação no peso-pesado "Despedida em Las Vegas", o sobrinho de Francis Ford Coppola entrou de corpo e alma (mais corpo do que alma) em uma série de filmes de ação, frequentemente considerado pelos intelectuais como um gênero menor. Associando-se profissionalmente ao diretor Michael Bay e emprestando seu prestígio a filmes como o interessante "A rocha" e o óvio "Con Air, a rota da fuga", Cage completou seu ciclo de herói de filmes de ação com o melhor de todos eles, um filmaço capaz de deixar de queixo caído até o mais blasé dos espectadores: "A outra face", dirigido pelo chinês John Woo.

Considerado o mestre dos filmes de ação asiáticos, Woo chegou aos EUA pelas mãos do ator Jean-Claude Van Damme, para quem dirigiu "O alvo", um dos melhores filmes do belga que tencionava ameaçar a hegemonia de Stallone e Schwarzenegger no início dos anos 90. Admirado por nomes como Martin Scorsese e Quentin Tarantino, o cineasta já chegou à América com um respeitável currículo de nada menos que  25 filmes, dentre os quais algumas pérolas do gênero. Aqueles que assistiram a "O alvo" e gostaram não tinham nem ideia do que os esperava. Com um roteiro estupendo nas mãos - ainda que inverossímil em sua ideia central - Woo construiu uma verdadeira sinfonia onde até mesmo a extrema violência é revestida por uma poesia visual sem precedentes. Um exemplo dessa afirmação? Um longo tiroteio, perto do clímax do filme, quando, ao invés do barulho ensurdecedor de tiros e gritos, ouve-se a versão de Olivia Newton-John para "Over the rainbow". Assim é John Woo!

A trama de "A outra face" - aquela que é inverossímil mas ainda assim não incomoda o público por ser contada com sinceridade e seriedade - é rocambolesca e empolgante. Tendo seu filho assassinado em um atentado contra a sua própria vida, o policial Sean Archer (John Travolta) passa a dedicar-se obsessivamente à caça do criminoso, Castor Troy (Nicolas Cage), estudando cada movimento seu. Quando finalmente consegue alcançá-lo vê seu rival entrar em coma após uma violenta perseguição. Acontece que, antes de ir parar no hospital, Troy plantou uma bomba em um lugar cuja localização só quem sabe é seu irmão, Pollux (Alessandro Nivola). Para tentar impedir a explosão da bomba, a polícia propõe um perigoso jogo a Archer: fazer uma complexa cirurgia de transplante de rosto e, assumindo o lugar de seu inimigo, fazer com que Pollux entregue os detalhes do plano. Mesmo contra a vontade da esposa, Eve (Joan Allen), o detetive aceita a missão quase impossível e vai parar em uma prisão de segurança máxima. Enquanto está lá, porém, o impensável acontece: Troy acorda do coma e, ao saber dos planos da polícia, mata todos os envolvidos na trama e assume o lugar de Sean Archer.


O roteiro de "A outra face" é um primor de ritmo, mal deixando o público respirar entre uma sequência de ação e outra e surpreendendo-o com reviravoltas e surpresas realmente imprevisíveis. Mas o que chama a atenção daquela parcela da audiência que exige algo mais do que simplesmente injeções de adrenalina a cada quinze minutos é a maneira carinhosa com que John Woo trata suas personagens, dando a elas um senso de humanismo raro no gênero. Castor Troy, apesar de ser um criminoso sanguinário, quase pedófilo e debochado, nutre um verdadeiro afeto por Pollux e pelo filho pequeno - a maneira como amarra o cordão de seus sapatos, por exemplo, fala muito sobre sua personalidade. Sean Archer, apesar de ser um ótimo profissional e pai de família exemplar, lida de maneira quase fria e distante com a esposa e a filha Jamie (Dominique Swain, a Lolita da versão de Adrian Lyne), incapaz de lidar com o sentimento de culpa pela morte do filho pequeno. E a forma como John Woo orquestra a relação entre Eve e seu falso marido daria muito pano pra manga em discussões psicológicas. Ao contrário de frear o ritmo alucinante do roteiro, as pausas na correria apenas demonstram o cuidado com que tudo é tratado nas competentes mãos do diretor.

Idealizado como um projeto para a dupla Stallone/Schwarzenegger e posteriormente tendo o produtor Michael Douglas e Harrison Ford como prováveis protagonistas, "A outra face" encontrou em Nicolas Cage e John Travolta a dupla perfeita, especialmente Travolta. Usufruindo do respeito amealhado por seu trabalho em "Pulp fiction", o ator se diverte às pampas, principalmente quando adquire a personalidade do vilão Castor Troy e pode fazer uso de suas expressões canalhas e mau-caráter. Enquanto isso, Cage não tem medo de explorar toda a sua veia de canastrão, abusando das caras e bocas. No meio deles, sobressai mais uma vez a atuação sensível de Joan Allen e da revelação Alessandro Nivola, que constrói um Pollux cheio de sutilezas e olhares discretos. Sensível a seus atores, John Woo jamais os deixa de lado para construir ambiciosas cenas de explosões ou perseguições automobilísticas. E isso faz toda a diferença.

Mesmo com tantos filmes de aventura sendo lançados anualmente - e cada vez com uma quantidade maior de efeitos visuais e sonoros - "A outra face" se mantém como um dos seus exemplares mais perfeitos. Bem escrito, bem dirigido e com dois atores no auge de sua fama nos papéis centrais, é tão excitante em uma revisão quanto o foi em sua estreia.

quinta-feira

AS BRUXAS DE SALEM

AS BRUXAS DE SALEM (The crucible, 1996, 20th Century Fox, 124min) Direção: Nicholas Hytner. Roteiro: Arthur Miller, peça teatral homônima de Arthur Miller. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Tariq Anwar. Música: George Fenton. Figurino: Bob Crowley. Direção de arte/cenários: Lily Kilvert/Gretchen Rau. Produção: Robert A. Miller, David V. Picker. Elenco: Daniel Day-Lewis, Winona Ryder, Joan Allen, Paul Scofield, Bruce Davison, Rob Campbell, Jeffrey Jones, Frances Conroy. Estreia: 27/11/96

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Joan Allen), Roteiro Adaptado

Em 1953 os EUA estavam passando por um de seus períodos mais negros: fomentadas pelo famigerado senador Joseph McCarthy, denúncias a respeito de supostos atos comunistas cometidos pelos membros da indústria do cinema pipocavam por todo lado, destruindo carreiras importantes e minando amizades até então tidas como eternas. Qualquer mero ato considerado suspeito era o bastante para que artistas de talento inquestionável perdessem as oportunidades de trabalho - Elia Kazan, por exemplo, colaborou com o governo delatando inúmeros colegas, o que lhe custou o respeito que havia adquirido como cineasta (e ele tentou limpar a barra com o espetacular "Sindicato de ladrões"). Com uma dose admirável de oportunismo (no bom sentido), o dramaturgo Arthur Miller escreveu "As bruxas de Salem", uma de suas obras-primas. Ao contar a história da vingança de uma mulher abandonada, Miller usou-a como um disfarce para uma trama que, nem tão por debaixo dos panos assim, é na verdade uma história sobre a paranoia que tomou conta da capital do cinema.

Adaptada para o cinema em 1957 - em uma versão estrelada por Simone Signoret e falada em francês para fugir da censura norte-americana - a peça de Miller ganhou uma nova versão para as telas em 1996, adaptada por seu próprio autor e dirigida por Nicholas Hytner - que tinha em seu currículo o prestigiado "As loucuras do Rei George". Ao ter sua ação estendida para fora dos limites impostos por um palco, o texto teve a sorte de manter sua força original, contrariando a regra que faz com que adaptações teatrais mantenham seu ranço verborrágico e estático. Em sua vigorosa adaptação para as telas, "As bruxas de Salem" é um avassalador conto sobre o poder destruidor da mentira, e conta com atuações impressionantes de seus atores centrais.

Tudo começa quando o Reverendo Parris (Bruce Davison), pároco da pequena cidade de Salem, Massachussets, flagra sua sobrinha Abigail Williams (Winona Ryder) e outras adolescentes do lugar, dançando em volta de uma fogueira durante a noite. Para fugir de um castigo, Abigail inventa que estava possuída por um espírito demoníaco invocado por sua empregada oriunda de Barbados, Tituba (Charlayne Woodard). Aproveitando a onda de histeria que toma conta do lugar - quando atos inocentes são julgados como provas de bruxaria - ela convence até mesmo o rígido Juiz Thomas Danforth (Paul Scofield, sensacional em cada cena) de que a esposa de Proctor, Elizabeth (a impecável Joan Allen, indicada ao Oscar de coadjuvante) também está envolvida em atos anti-cristãos. Aos poucos, a cidade divide-se entre quem está do seu lado e aqueles que não acreditam em suas mentiras, mas fingir acaba sendo sua última alternativa para evitar a forca.



"As bruxas de Salem" lembra, em sua estrutura, a comédia "O alienista", escrita por Machado de Assis em 1882, onde um médico que chega a uma pequena cidade do interior acaba internando praticamente a população inteira, diagnosticados como loucos. Aqui, Miller dá ênfase à histeria que toma conta de pessoas até então pacatas no momento em que precisam lutar por suas vidas ou integridade física. Abigail Williams ilustra com perfeição a máxima de Nietzsche que diz que "o mundo não conhece fúria maior do que a de uma mulher abandonada". Interpretada visceralmente por Winona Ryder - certamente no melhor papel de sua carreira - Abby é uma jovem que toma consciência tardiamente das consequências de suas mentiras mas mesmo assim não desiste de mantê-las. Na peça original de Miller, a personagem tinha meros 12 anos de idade enquanto John Proctor era quase sexagenário - mudança providencial no roteiro cinematográfico para evitar menções à pedofilia. No filme de Hytner, Proctor é menos vil, quase heróico em sua tentativa de manter-se íntegro e ético mesmo quando vê sua vida desmoronar. E Elizabeth é uma vítima inocente do furacão provocado pela ex-amante do marido, em uma interpretação quase silenciosa de Joan Allen, demonstrando seu imenso talento.

"As bruxas de Salem" é uma metáfora poderosa sobre um dos momentos mais vergonhosos da história do cinema americano. Mas é, acima disso, um filme dotado de uma força própria e de uma inteligência ímpar. Um dos melhores filmes da safra 1996 de Hollywood, infelizmente esquecida pelo Oscar e ignorada pelo público. Merece ser descoberto!

terça-feira

NIXON

NIXON (Nixon, 1995, Cinergi Pictures/Hollywood Pictures, 192min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Stephen J. Rivele, Christopher Wilkinson. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Brian Berdan, Hank Corwin. Música: John Williams. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Merideth Boswell. Produção: Oliver Stone, Clayton Townsend, Andrew G. Vajna. Elenco: Anthony Hopkins, Joan Allen, Powers Boothe, Ed Harris, Bob Hoskins, E.G. Marshall, David Paymer, Paul Sorvino, Mary Steenburgen, David Hyde Pierce, J.T.Walsh, James Woods, Dan Hedaya, Saul Rubinek. Estreia: 20/12/95

4 indicações ao Oscar: Ator (Anthony Hopkins), Atriz Coadjuvante (Joan Allen), Roteiro Original, Trilha Sonora Original

Oliver Stone tem a obsessão de dissecar a alma ianque através de seus ídolos ("The Doors"), seus traumas ("Platoon" e "Nascido em 4 de julho") e - a julgar pelo recente "W" e por "Nixon", lançado em 1995 - de seus líderes. Polêmico como sempre, o cineasta vencedor de dois Oscar de direção encontrou na história do mais controverso dos presidentes norte-americanos o material ideal para exercitar seus radicais pontos de vista. Apedrejado pelos puristas - que o acusaram de distorcer fatos históricos em prol de suas teorias - o filme tampouco encontrou seu público, não rendendo nem metade de seu orçamento e dividindo a crítica. Apesar disso - e da sua duração excessiva - é um importante e interessante documento sobre uma das figuras mais complexas da história dos EUA, que comandou seu país durante alguns de seus mais sombrios momentos.

O roteiro do filme, indicado ao Oscar por sua complexa estrutura - que apresenta acontecimentos verídicos mesclados com uma grande parcela de licenças poéticas - começa às vésperas da renúncia do presidente Richard Nixon (Anthony Hopkins), consequência direta do malfadado escândalo Watergate. Enquanto fica remoendo suas culpas e tentando encontrar uma maneira de sair intacto do processo de impeachment pelo qual está passando, Nixon passa em revista toda a sua vida, desde a infância pobre - e a perda precoce dos dois irmãos - até a reeleição para presidente da República, passando pelos inúmeros fracassos políticos e pelo relacionamento com seu porto seguro, a esposa Pat (Joan Allen). Extremamente talentoso como orador, Nixon sofria, no entanto, de uma rejeição grande por parte do eleitorado. Como diz um de seus assessores em determinado momento, "é de se imaginar o quão grande ele seria se as pessoas gostassem dele."

O retrato que Oliver Stone faz de seu biografado não é exatamente agradável, ainda que tente, em certas ocasiões, fugir da crítica explícita. O que provavelmente desagradou aos fãs do ex-presidente foi sua caracterização como um homem inseguro, egocêntrico e por vezes até mesmo covarde. Como um Narciso às avessas, Nixon, apesar de considerar-se (e ser) o homem mais poderoso do mundo jamais conseguiu desvencilhar-se do misto de admiração e inveja que sentia por John Kennedy. Em uma sintomática afirmação, ele declara a um quadro do mais querido líder da história americana: "Quando eles olham pra você, eles veem o que querem ser. Quando olham para mim, veem o que eles são." Na voz poderosa e na atuação inacreditável de Anthony Hopkins, essa talvez seja a frase que melhor define a personalidade dúbia do homem que, mesmo depois de ter sido praticamente escorraçado da Casa Branca, foi enterrado com pompas de grande estadista.



Usando e abusando de seu estilo próprio de contar uma história - estilo este que tem tantos fãs ardorosos quanto detratores aguerridos - Oliver Stone transforma "Nixon" em um exercício de paciência. São mais de três horas de duração que, ao contrário de "JFK", não passam voando. A trajetória de Nixon é tão repleta de acontecimentos importantes que fez-se necessário ao roteiro um número infindo de detalhes que, para quem não é especialista em história dos EUA (ou seja, a maioria esmagadora da audiência) soam como grego. Ao fugir do didatismo, Stone esbarra justamente nesse grande senão: são tantos nomes, tantas personagens e tantas datas que fica difícil ao público médio acompanhar tudo da maneira ideal. Enquanto o filme trata da vida pessoal do protagonista - em um belo preto-e-branco - não há maiores problemas, mas toda vez que o roteiro se concentra nas reuniões políticas entre o presidente e seus correligionários a coisa começa a ficar lenta demais, mesmo com a edição ágil e a trilha sonora impecável de John Williams ajudando o máximo possível. Dirigindo o filme como se fosse um suspense, Stone mais uma vez acerta na técnica, mas peca no excesso de informações.

Para sua sorte - e da plateia - novamente o cineasta escalou um elenco acima de qualquer crítica. Joan Allen foi indicada ao Oscar de coadjuvante por seu retrato de Pat Nixon, mesmo que, segundo pessoas próximas da real primeira-dama tenham discordado da forma com que o roteiro a tratou. Paul Sorvino - irreconhecível sob pesada maquiagem - vive com absurda propriedade Henry Kissinger e Bob Hoskins rouba a cena na pele do chefão do FBI J. Edgar Hoover. Mas nada é mais impressionante do que a interpretação extraordinária de Hopkins no papel-título. Mesmo sendo britânico - o que causou uma onda de protestos - Hopkins deixou pra trás americanos típicos para ficar com o papel central e não apenas conquistou elogios rasgados como também concorreu ao Oscar. Dificilmente Jack Nicholson, John Malkovich, Tom Hanks, Robin Williams e Warren Beatty, por melhores atores que sejam, seriam capazes da entrega que Hopkins apresenta em cena. As sequências em que, tal como uma trágica personagem shakespereana, o presidente sente-se traído, solitário e abandonado mostram um dos grandes atores do mundo em um de seus trabalhos mais ricos.

"Nixon" talvez não interesse à grande maioria do público, aquela que lota as salas de cinema em busca de divertimento. É um filme forte, realizado com um senso estético apurado e um tema relevante e controverso. Pode não dialogar o tempo todo com a verdade, mas até mesmo essa dubiedade combina com a personalidade que retrata.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...