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segunda-feira

ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO

 


ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (Before the devil knows you're dead, 2007,  Capitol Films/Funky Buddha Productions/Unity Productions, 117min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Kelly Masterson. Fotografia: Ron Fortunato. Montagem: Tom Swartwout. Música: Carter Burwell. Figurino: Tina Nigro. Direção de arte/cenários: Christopher Nowak/Diane Lederman. Produção executiva: Belle Avery, Jane Barclay, David Bergstein, J. J. Hoffman, Eli Klein, Hannah Leader, Jeffry Melnick, Sam Zaharis. Produção: Michael Cerenzie, William S. Gilmore, Brian Linse, Paul Parmar. Elenco: Phillip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei, Albert Finney, Rosemary Harris, Amy Ryan, Michael Shannon. Estreia: 07/9/2007 (Deauville Festival of American Cinema)

No mínimo desde "12 homens e uma sentença" (1957) - passando por clássicos absolutos como "Serpico" (1973), "Um dia de cão" (1975) e "Rede de intrigas" (1976) -, o cineasta Sidney Lumet acostumou-se a entregar ao público produções que apresentavam personagens dúbios, falíveis e dispostos a correrem riscos em nomes de objetivos quase sempre suicidas. Depois de um longo período de obras menores e/ou sem repercussão popular e de crítica, ele voltou a seu tema preferido em "Antes que o diabo saiba que você está morto", uma poderosa mescla de filme policial e drama familiar que acabou por ser, sem que ele mesmo soubesse disso, seu canto do cisne. Dirigindo com precisão cirúrgica o trágico e surpreendente primeiro roteiro de Kelly Masterson, o veterano Lumet demonstra uma vitalidade rara para um artista octogenário, mantendo o espectador atento a cada reviravolta e cada nuance revelada por seus protagonistas. E é lógico que ajuda muito contar, no elenco, com atores brilhantes como Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke e Albert Finney - em uma de suas últimas aparições nas telas.

Com ecos de Shakespeare em sua trama - imprevisível e pessimista -, "Antes que o diabo saiba que você está morto" apresenta dois irmãos de personalidades opostas que se unem para cometer um crime aparentemente perfeito: o roubo a uma joalheria familiar em uma manhã de pouco movimento. Andy (Philip Seymour Hoffman) está em vias de ter descoberto o desfalque que deu na empresa onde trabalha, enquanto Hank (Ethan Hawke) vive sob a pressão de dever a pensão para a ex-mulher ao mesmo tempo em que se culpa por não conseguir ser o filho que seu pai, Charles (Albert Finney), sonhava ter. Com o fracasso do assalto - que acaba em duas mortes - a vida da família vira do avesso: chantageados pelo irmão de uma das vítimas (que sabe de sua responsabilidade na tragédia), Andy e Hank entram em um caminho de sangue, violência e traições, que envolve Gina (Marisa Tomei) - esposa de um e amante do outro - e o próprio patriarca.

 

Contada de forma não linear, recheada de idas e vindas no tempo que servem para oferecer ao público as peças que formam seu quebra-cabeças, a trama do filme de Lumet se utiliza de tal artifício não como muleta narrativa, mas como parte fundamental de sua estrutura. Conforme novas informações a respeito dos acontecimentos que levaram ao crime - e suas consequências - vão surgindo diante do espectador, mais potentes as camadas vão se revelando, reafirmando o tom fatalista da expressão irlandesa que empresta o nome à produção. As surpresas reservadas a cada capítulo - com uma edição primorosa, que explicita apenas o que é necessário no momento - tornam "Antes que o diabo saiba que você está morto" um drama policial que rompe com as tradicionais engrenagens do gênero, aprofundando as relações interpessoais até o limite da inevitável ruptura. Com três focos distintos - Andy, Hank e Charles - que se intercalam e se completam, o roteiro de Kelly Masterson empolga exatamente por sua capacidade de surpreender e por sua coragem em chegar a desdobramentos que a maioria das produções do gênero evita a todo custo. E não atrapalha em nada que Lumet possa contar com um elenco absolutamente impecável.

Assim como seus personagens, Philip Seymour Hoffman e Ethan Hawke são atores de personalidades distintas, e o experiente cineasta explora com precisão tais diferenças, em cenas de crescente tensão que enfatizam suas qualidades como intérpretes e potencializam cada linha de diálogo. O veterano Albert Finney tampouco fica atrás, com ao menos duas sequências arrepiantes - uma delas encerrando de forma chocante o drama familiar estabelecido nos primeiros minutos. E em um elenco tão incrível, o único senão é o pouco aproveitamento de Rosemary Harris e Amy Ryan - partes femininas de um clã onde apenas Marisa Tomei tem reais chances de brilhar. Forte e coeso, o conjunto de atores (premiado por várias associações de críticos) é a tradução perfeita de um roteiro inteligente, uma direção energética e, o que é mais importante de tudo, uma história envolvente. Um adeus digno da grandeza de seu diretor.

quinta-feira

SERPICO

SERPICO (Serpico, 1973, Paramount Pictures, 130min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Wado Salt, Norman Wexler, livro de Peter Maas. Fotografia: Arthur J. Ornitz. Montagem: Dede Allen. Música: Mikis Theodorakis. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenários: Charles Bailey/Thomas H. Wright. Produção executiva: Roger M. Rothstein. Produção: Martin Bregman. Elenco: Al Pacino, John Randolph, Jack Kehoe, Biff McGuire, Barbara Eda-Young, Cornelia Sharpe. Estreia: 05/12/73

 2 indicações ao Oscar: Ator (Al Pacino), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Al Pacino) 

Um período de ouro para cineastas e jovens atores dispostos a tratar com realismo as mazelas da sociedade norte-americana, a década de 70 foi também uma época bastante fértil para todos aqueles que não tinham medo de ousar dentro da indústria frequentemente rígida de Hollywood. Uma das duplas mais interessantes de então foi formada por Sidney Lumet e Al Pacino. Dois anos antes de lançarem sua obra-prima "Um dia de cão" (75) e logo depois de Pacino tornar-se astro com "O poderoso chefão" (72), diretor e astro foram os pilares de um grande sucesso de crítica, uma história real que apontava sua tendência em provocar polêmica e discussões: "Serpico" estreou em dezembro de 1973 nos cinemas dos EUA e tornou-se um clássico imediato. Elogiado unanimemente pela crítica, premiado no National Board of Reviwe e no Golden Globe (ambos escolheram Al Pacino como melhor ator do ano) e até hoje considerado pelo consagrado intérprete um de seus melhores desempenhos, o filme de Lumet é um soco no estômago de uma das instituições mais controversas do país: a polícia nova-iorquina.

Narrado em tom semi-documental e propositalmente seco e direto, o filme acompanha a inglória luta do policial Frank Serpico, que, entre o final dos anos 60 e o começo dos 70, bateu de frente com seus colegas por recusar-se a participar dos mais variados esquemas de corrupção policial. Visto como uma aberração - tanto por seus princípios, considerados pouco inteligentes, quanto por seu visual quase hippie - e isolado por todos aqueles que percebiam nele uma ameaça real a um estilo de vida quase banal dentro da corporação, Serpico acaba por ter sua própria vida ameaçada quando passa da indignação passiva e resolve denunciar a prática de suborno para autoridades superiores: não apenas rejeitado em todas as tentativas de promoção, ele se torna persona non grata, chegando a ser vítima de um atentado. Idealista acima de tudo, ele resiste, contando com o apoio da namorada, Laurie (Barbara eda-young).





Realizado por Sidney Lumet de forma pouco comum - as filmagens começaram pelo fim da história e aconteceram em ordem reversa, por exemplo - e com um elenco sem astros - Pacino ainda estava começando a ser conhecido, graças a "O poderoso chefão" (72) -, "Serpico" pode ser quase considerado um precursor dos filmes independentes de Hollywood: com um custo de apenas 3 milhões de dólares, rendeu quase dez vezes esse valor somente no mercado doméstico, mostrando que o público do começo da década de 70 era muito mais aberto a produções sérias e maduras do que o que veio a partir do sucesso estrondoso de "Tubarão" (75), que marcou, de certa forma, a maneira com que a indústria passaria a perceber as bilheterias e as estratégias de marketing. Lançado pouco tempo depois que a história real aconteceu, o filme de Lumet ganhou pontos pelo frescor - e nem precisou contar com Paul Newman e Robert Redford para isso: concebido como um veículo para os dois astros de "Butch Cassidy e Sundance Kid", "Serpico" mudou completamente de formato e chegou às telas como um produto adulto e politicamente relevante - a ponto de receber duas indicações ao Oscar: melhor ator e roteiro adaptado.


Repleto de detalhes inteligentes - como o primeiro encontro entre o protagonista e Laurie, ao som da ópera "Tosca", de Puccini, que fala, entre outras coisas, de corrupção e abuso de poder - e editado com uma crueza que combina perfeitamente com seu tema, "Serpico" é um dos filmes mais importantes de sua época, um retrato poderoso e corajoso de um dos mais preocupantes problemas urbanos dos EUA. Para viver o personagem principal, Pacino não apenas conviveu com o verdadeiro Frank Serpico como visitou alguns lugares barra-pesada de Nova York, já caracterizado e tentando mergulhar no universo de um filme dirigido com firmeza e extrema sobriedade. Pode não ser seu melhor trabalho com Lumet - "Um dia de cão" consegue atingir níveis mais altos de qualidade final - mas é um desempenho digno de nota e aplausos. Não à toa, tornou-se um clássico contemporâneo.

segunda-feira

O PESO DE UM PASSADO

O PESO DE UM PASSADO (Running on empty, 1988, Double Play, 120min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Naomi Foner. Fotografia: Gerry Fisher. Montagem: Andrew Mondshein. Música: Tony Mottola. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Philip Smith. Produção executiva: Naomi Foner, Burtt Harris. Produção: Griffin Dunne, Amy Robinson. Elenco: Christine Lahti, Judd Hirsch, River Phoneix, Martha Plimpton, Jonas Abry, Ed Crowley. Estreia: 09/9/88

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (River Phoenix), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro 

Em 1983, o cineasta Sidney Lumet assinou o filme "Daniel", que, baseado em romance de E.L. Doctorow, inspirava-se na história real do casal Julius e Ethel Rosenberg, executado em 1953 nos EUA, acusado de traição. De uma certa forma, o tema voltou à tona na filmografia do diretor com "O peso de um passado", lançado cinco anos mais tarde e novamente com um foco mais familiar do que político. Se no filme estrelado por Timothy Hutton o protagonista embarcava em uma dolorosa jornada para descobrir os detalhes do processo que vitimou seus pais depois de uma tragédia que envolve sua irmã, na trama escrita por Naomi Foner o núcleo familiar formado por um par de militantes de esquerda e seus dois filhos precisa enfrentar uma temida realidade quando o passado começa a ameaçar o presente e o futuro - na figura de uma possível carreira musical para o talentoso primogênito, que coincidentemente está descobrindo o amor e a individualidade. Interpretado por um inspirado River Phoenix em vias de passar de promessa a ator consagrado ainda antes dos 20 anos de idade, o romântico e idealista Danny Pope acaba sendo o maior atrativo da produção, que apesar dos prêmios ao roteiro de Naomi Foner (e uma indicação ao Oscar da categoria), se ressente de um ritmo irregular e da demora em determinar seu foco.

O público demora um pouco a compreender a dinâmica da família Pope: tanto o pai, Arthur (Judd Hirsh) quanto a mãe, Annie (Christine Lahti) não demonstram claramente os motivos que os levam a mudar-se, juntamente com os filhos, a cada seis meses, deixando para trás identidades, rotinas e todos os vestígios de sua existência. Os filhos - o adolescente Danny e o pequeno Harry (Jonas Abry) - apenas seguem, sem questionar, as ordens paternas, impedidos de levar uma vida normal e dotada de qualquer aspecto de normalidade. É quando chegam em uma cidade do interior de Nova Jersey que as coisas começam a precipitar-se em suas vidas - e finalmente a plateia é informada sobre seu dramático passado, que remonta à 1971, quando, ainda jovens e esperançosos de modificar o mundo, Arthur e Annie explodiram um laboratório de napalm, atingindo um faxineiro que estava no local indevidamente. Desde então, foragidos, construíram uma vida em eterna fuga do FBI, jamais se permitindo permanecer na mesma cidade e com a mesma identidade por mais de poucos meses. De repente, como obra do destino, dois acontecimentos aleatórios ameaçam a rotina do grupo: o reaparecimento de Gus (L.M. Kit Carson), um antigo companheiro de lutas políticas e o nascimento da paixão entre Danny e Lorna (Martha Plimpton), filha de um professor de música que vê no rapaz o talento necessário para uma carreira como pianista - o que, logicamente, bate de frente com os planos a longo prazo do casal de foragidos.


Sem o brilhantismo de algumas de suas obras mais famosas - como "12 homens e uma sentença" (57) "Um dia de cão "(75), "Rede de intrigas" (76) e "O veredicto" (82), todos grandes filmes com aguda percepção da sociedade americana - Sidney Lumet não apresenta o mesmo brilhantismo em "O peso de um passado". Mesmo de posse de uma história de enorme potencial dramático, o veterano cineasta parece não sentir-se à vontade em explorar o romantismo da relação entre Danny e Lorna ou a rebeldia do rapaz quanto à imposição de uma vida nômade que finalmente passa a incomodá-lo. O tom morno da narrativa só é interrompido quando o roteiro abre espaço para o brilho de Christine Lahti, que acerta em cheio na construção de uma personagem que vai se revelando gradualmente ao espectador, até explodir em uma comovente cena em que encontra seu pai milionário, com quem rompeu ao unir-se a Arthur: é um momento de sensibilidade à flor da pele, que dialoga muito mais com a intensidade de River Phoenix do que com a frieza com que o filme vai acontecendo até então.

Indicado ao Oscar de coadjuvante - que perdeu para Kevin Kline por "Um peixe chamado Wanda" - o jovem Phoenix, que morreria precocemente poucos anos mais tarde, demonstra mais uma vez um carisma e uma naturalidade impressionantes, capazes de contagiar os colegas de cena e o público. De olhar doce e personalidade serena, ele oferece a seu personagem camadas intensas que contrastam saudavelmente com a quase frieza com que o filme é apresentado na grande maioria do tempo. Seus arroubos de espontaneidade garantem um acréscimo e tanto de interesse à uma trama que, apesar de relevante e naturalmente dramática, frequentemente entra em um estágio de monotonia e apatia que quase eclipsa suas qualidades - além de apresentar um protagonista tão chato quanto Arthur Pope, que nem mesmo o talento de Judd Hirsch consegue tornar simpático. Não é um dos melhores trabalhos de Sidney Lumet, mas graças a seu tema palpitante, a momentos pontuais de atuação de Lahti e ao carisma de Phoenix, prende a atenção até seu emocionante (ainda que um tanto abrupto) desfecho. Vale a pena dar uma chance.

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE (Murder on the Orient Express, 1974, Paramount Pictures, 128min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Paul Dehn, romance de Agatha Christie. Fotografia: Geoffrey Unsworth. Montagem: Anne V. Coates. Música: Richard Rodney Bennett. Figurino: Tony Walton. Direção de arte/cenários: Tony Walton/Jack Stephens. Produção: John Brabourne, Richard Goodwin. Elenco: Albert Finney, Lauren Bacall, Martin Balsam, Ingrid Bergman, Sean Connery, Jacqueline Bissett, Jean-Pierre Cassel, John Gielgud, Wendy Hiller, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Rachel Roberts, Richard Widmark, Michael York. Estreia: 21/11/74

 6 indicações ao Oscar: Ator (Albert Finney), Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Trilha Sonora Original (Drama)
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman)

Não é sem motivos que a inglesa Agatha Christie é considerada a "rainha do crime": a autora policial mais lida e vendida de todos os tempos tem em seu currículo no mínimo uma meia-dúzia de obras-primas, que sobrevivem ao tempo como perfeitos exemplos de tramas bem construídas, personagens psicologicamente críveis e resoluções intrincadas e criativas. De todas as suas histórias, é bastante provável que a melhor e mais genial seja a criada para "Assassinato no Expresso Oriente", lançado em 1934 e ainda hoje capaz de surpreender até mesmo ao mais atento e experiente leitor. Quarenta anos depois de chegar às prateleiras das livrarias, sob a direção do elogiado Sidney Lumet - já então com uma indicação ao Oscar, por "12 homens e uma sentença" (57) - e com um elenco internacional  liderado por Albert Finney na pele do indefectível detetive belga Hercule Poirot, a história de um brutal assassinato cometido em um dos meios de transporte mais famosos do mundo alcançou também as telas de cinema... e agradou não apenas a crítica e a Academia de Hollywood (que lhe deu seis indicações ao Oscar e uma estatueta), mas também à mais impiedosa espectadora: a própria autora do romance.

Feliz com a interpretação de Albert Finney (então com apenas 37 anos de idade e se utilizando de uma pesada maquiagem para personificar um dos detetives mais famosos da literatura policial), Agatha Christie não poupou elogios ao filme, que estreou pouco mais de um ano antes de sua morte, em janeiro de 1976. Mesmo que tenha ficado bastante satisfeita com a adaptação de Billy Wilder para sua peça teatral "Testemunha de acusação", em 1957, a escritora não escondia de ninguém que considerava o filme de Lumet o mais fiel à sua obra até então - um elogio e tanto que reflete o cuidado da produção em recriar não apenas a ambientação charmosa e realista do cenário principal mas também o clima de suspense que perpassa todas as páginas do livro. Ainda que o roteiro indicado ao Oscar não consiga evitar a armadilha comum de atropelar os acontecimentos e apressar o desfecho - tudo soa muito rápido, ao contrário do livro, que dá tempo ao leitor de administrar cada pista e evidência que vai sendo oferecida - é inegável que a elegância que Lumet imprime à narrativa torna o espetáculo um entretenimento de primeira, avalizado por um elenco estelar que se dá ao luxo de ter como coadjuvantes nomes como Sean Connery, Jacqueline Bissett, Anthony Perkins, John Gielgud e Ingrid Bergman (que acabou faturando um inesperado Oscar da categoria, batendo a então favorita Valentina Cortese, do aclamado "A noite americana", de François Truffaut).


Enquanto o romance de Agatha Christie já começa em plena ação, com a chegada dos passageiros ao trem que dá nome à história - partindo de Istambul, na Turquia - o filme de Lumet já ilumina, sutilmente, através de uma introdução silenciosa nos créditos de abertura, os atos que levarão, alguns anos mais tarde, ao crime que impulsiona a narrativa. Se de certa forma tal opção tira parte do suspense (por que mataram esse desconhecido dentro do trem?), ela ajuda de forma inteligente a expor, sem longos e didáticos discursos, o motivo do homicídio. A partir daí, resta apresentar a fauna de personagens exóticos criados por Christie e interpretados por atores de primeira linha - em uma constelação tão fascinante que disfarça até mesmo o pouco espaço dado a cada um deles em cena. Finney é quem tem mais sorte, com um Hercule Poirot um tanto caricato mas perfeitamente adequado às caracterizações comandadas por Lumet. Indicado ao Oscar de melhor ator, ele perdeu a estatueta para Art Carney ("Harry, o amigo de Tonto"), mas é o maestro de uma orquestra impecável, conduzida sem sobressaltos e/ou maiores destaques justamente por sua natureza coletiva.

A trama se passa em dezembro de 1935, durante uma viagem estranhamente lotada no Expresso Oriente: em uma parada devido a uma nevasca, um dos passageiros é assassinado com uma série de punhaladas, enquanto dormia. Assumindo a investigação antes que o trem prossiga seu curso, o famoso e excêntrico Hercule Poirot logo descobre que a vítima, de nome Ratchett (Richard Widmark), na verdade se escondia sob falsa identidade, por ser o responsável pelo sequestro e assassinato de uma criança alguns anos antes - fato que acarretou uma série de outras tragédias na família e tornou-se manchete internacional. Certo de que sua morte é resultado do crime cometido no passado, Poirot tenta encontrar, dentre seus companheiros de viagem, quem poderia ter ligações com o caso - e se depara com inúmeras surpresas, que o levam a questionar sua própria noção de justiça. Por mais inocentes que pareçam, todos os passageiros são suspeitos, desde a idosa Princesa Dragomiroff (Wendy Hiller) até a religiosa Greta (Ingrid Bergman) - passando pela bela Condessa Andrenyi (Jacqueline Bissett) e seu marido (Michael York) e o respeitável Coronel Arbuthnot (Sean Connery), que esconde uma ligação com a jovem Mary Debenham (Vanessa Redgrave).

Valorizado principalmente pelo elenco e pela produção caprichada, "Assassinato no Expresso Oriente" não chega aos pés do livro que o originou - uma obra-prima policial cujo desenvolvimento prende o leitor até a página final com uma sucessão de reviravoltas inteligentes e verossímeis. Porém, é, ao mesmo tempo, uma adaptação que se mantém fiel a seu espírito elegante e sutil, que ameniza a violência física necessária a uma história do gênero com toques de um fino humor e a destreza de uma especialista em surpreender e cativar seu público. Se não é mais empolgante é justamente porque o roteiro lhe tirou algumas das maiores qualidades - o desenrolar gradual da investigação é apressado até o discurso final que não chega a ser tão emocionante quanto poderia - e não explora com a devida força as incoerências e mistérios dos personagens. É uma boa adaptação, mas longe de ser a obra-prima que poderia (e deveria) ser.

domingo

UM DIA DE CÃO


UM DIA DE CÃO (Dog day afternoon, 1975, Warner Bros, 125min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Frank Pierson, inspirado em artigo de P.F.Kluge, Thomas Moore. Fotografia: Victor J. Kempster. Montagem: Dede Allen. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenário: Charles Bailey/Robert Drumheller. Casting: Michael Chinich, Don Phillips. Produção: Martin Bregman, Martin Elfand. Elenco: Al Pacino, John Cazale, Charles Durning, Chris Sarandon, Sully Boyar, Penelope Allen,Carol Kane, Lance Henriksen. Estreia: 21/9/75

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sidney Lumet), Ator (Al Pacino), Ator Coadjuvante (Chris Sarandon), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original


Ainda bem que não só de heróis bonzinhos e lindos vive o cinema americano e que, de vez em quando um diretor tem a coragem de fuçar nas feridas do mundo ocidental e expor suas mazelas e contradições. John Schlesinger fez isso em “Perdidos na noite” e, apesar das polêmicas, chegou a ganhar o Oscar de melhor filme. Em "Um dia de cão" quem resolveu dar a cara a tapa foi Sidney Lumet, diretor do ótimo “Doze homens e uma sentença”. E pra melhorar ainda mais a notícia, Lumet foi buscar inspiração em uma história real. Apesar de parecer inacreditável, a trama de “Um dia de cão” aconteceu de verdade. E isso faz da experiência de assisti-lo um prazer ainda maior.

A ação se passa em um único dia de verão de 1972, em um banco do Brooklyn. Com a intenção de assaltá-lo, os amigos Sonny (Al Pacino em uma interpretação consagradora) e Sal (John Cazale, excepcional) invadem o local e ao perceberem que escolheram o banco errado, uma vez que quase não há dinheiro para ser levado, descobrem que estão cercados pela polícia, representada pelo Capitão Moretti (Charles Durning). O que era para ser apenas mais um corriqueiro assalto a banco transforma-se aos poucos em um circo, transmitido inclusive pela televisão. Tudo se complica ainda mais quando se descobre que a principal razão de Sonny em roubar o dinheiro é financiar a operação de mudança de sexo de seu amante, o transexual Leon (Chris Sarandon, ex-marido de Susan e indicado ao Oscar de ator coadjuvante), o que ao mesmo tempo lhe transforma em alvo de chacota e ídolo do movimento gay. Aos poucos, Sonny passa de bandido a herói, sendo apoiado pelo público e até pelos funcionários mantidos como reféns.


Criando uma atmosfera claustrofóbica e ao mesmo tempo sem em nenhum momento perder as rédeas da narrativa, em parte devido ao surpreendente bom humor do roteiro premiado com o Oscar, o diretor Lumet mantém seus personagens sempre em uma constante tensão e desespero. A edição de Dede Allen também colabora para sustentar o ritmo sufocante da trama. Ao criticar a ação da mídia em transformar em entretenimento até mesmo o sofrimento alheio, o filme ainda dá um passo a frente de seus contemporâneos, com um senso de momento impressionante e surpreendente.

Mas nada adiantaria a inteligência do roteiro e a precisão da direção se na frente das câmeras não houvesse atores como os escolhidos por Lumet. Al Pacino e John Cazale, irmãos nos dois filmes “O poderoso chefão” sustentam uma química invejável e demonstram a segurança necessária para transmitir a insegurança e o desespero de seus personagens, tragicamente envolvidos em uma inesperada reviravolta do destino. São suas brilhantes atuações que transformam dois anti-heróis em seres humanos com falhas e qualidades como todo espectador. E talvez por isso em determinado momento do filme a plateia é surpreendida torcendo por dois assaltantes de banco a despeito de seu crime. Ainda bem que há filmes em que isso é possível, caso contrário o público de cinema ficaria seriamente tentado a crer que apenas homens loiros, altos e heróicos são capazes de protagonizar um filme de sucesso.

sábado

DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA


DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA (Twelve angry men, 1957, United Artists, 96min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Reginald Rose. Fotografia: Boris Kaufman. Montagem: Carl Lerner. Música: Kenyon Hopkins. Produção: Reginald Rose, Henry Fonda. Elenco: Henry Fonda, Lee J. Cobb, Jack Warden, Ed Begley, Martin Balsam, John Fiedler, E.G. Marshall, Edward Binns, Joseph Sweeney, George Voskovec, Robert Webber, Jack Klugman. Estreia: 13/4/57

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sidney Lumet), Roteiro Adaptado

Um rapaz de origem latina é acusado de assassinar o próprio pai com um golpe de canivete. Sem um álibi concreto e tendo duas testemunhas do crime (um vizinho idoso do andar de baixo e uma mulher de meia-idade que assistiu ao homicídio pela sua janela), sua sorte parece não ser das melhores. Com o julgamento encerrado, basta apenas as deliberações do júri para que a justiça seja feita (ou não). Então, uma dúzia de cidadãos de idades, classes sociais e situações financeiras distintas são fechados em uma sala para dar o veredicto. Fim da história, sim? Não, absolutamente não. É justamente nesse ponto onde a maioria esmagadora dos filmes de tribunal acaba é que começa "Doze homens e uma sentença", de Sidney Lumet.

Escrito por Reginald Rose (co-produtor do filme, ao lado do ator Henry Fonda), "Doze homens" não foi um sucesso de público, apesar dos rasgados elogios da crítica e das três importantes indicações ao Oscar que conquistou: filme, diretor e roteiro. Não é difícil entender, uma vez que não é exatamente o tipo de produto que plateias ávidas por ação e astros de primeira grandeza costumam consumir. É um filme com uma inteligência bem acima da média, um elenco escolhido pelo talento e não pelo poder de fogo nas bilheterias, um ritmo teatral (mas nunca enfadonho como podem pensar os avessos ao estilo) e principalmente um filme que dá importância aos diálogos mais do que a movimentos de câmera e afins. É uma prova inconteste da força de uma boa escalação de elenco para elevar um filme à categoria de uma obra-prima.

Quando "Doze homens e uma sentença" começa, o julgamento em si já acabou. O público não tem acesso a quase nenhuma imagem do tribunal (exceção feita à bancada dos jurados e ao rosto angustiado do réu). É apenas quando os doze homens do título sentam à volta de uma mesa para discutir o caso é que o roteiro de Rose agarra a plateia pelo cérebro e não larga mais. O caso, aparentemente fácil de ser julgado passa a ser um desafio aos membros do júri quando, na primeira votação, o jurado de número 8 (Henry Fonda) afirma não ter certeza absoluta da culpa do réu. Contestado pelos outros colegas, ele explica, então, suas dúvidas em relação ao caso. Aos poucos sua retórica passa a contaminar outros parceiros de missão, que, mesmo a princípio certos da culpabilidade do rapaz acusado do crime, começam a questionar suas certezas, para desespero do jurado número 3 (Lee J. Cobb), que não entende como eles podem ter mudado de ideia a respeito de algo que, para ele, é tão cristalino.


O grande diferencial de "Doze homens e uma sentença" são seus diálogos. Fortes, contundentes e realistas, as falas criadas por Reginald Rose são mais do que suficientes para apresentar à audiência tudo que é necessário, sem buscar subterfúgios que o cinema tranquilamente poderia proporcionar. O grau de competência dos diálogos é tão alto que em nenhum momento o público assiste ao julgamento, mas ao final dos 96 minutos de projeção, a impressão que se tem é que ele foi visto com detalhes. E o que é mais importante: apenas o que é importante é mencionado. Em um corriqueiro filme de tribunal, isso ficaria a cargo do editor. Aqui, Carl Lerner tem pouco (mas importante) trabalho.

A importância do trabalho do editor Carl Lerner em "Doze homens e uma sentença" pode parecer pequena, uma vez que aparentemente não é preciso esforço para montar um filme sem maiores cortes. No entanto, é justamente ele quem, ao lado do diretor Sidney Lumet (que viria ainda a comandar pelo menos outro grande filme, "Um dia de cão", em 1975), dá ao filme a cara de cinema que ele tem. Inteligentemente, Lumet e Lerner optaram por uma edição tranquila, suave, delicada, que dá a cada detalhe do roteiro a importância que ele tem. Em teatro é difícil, por exemplo, concentrar-se em um único ator sem perder todo o restante do quadro. Aqui, o diretor e seu editor resolvem esse problema com facilidade e parcimônia, dando a cada ator seu momento certo de brilhar.

E que brilho! Há de se louvar o responsável pelo casting de "Doze homens..." Mesmo que de certa forma Henry Fonda seja uma espécie de protagonista (afinal, é ele quem dá o pontapé inicial no conflito retratado), seus colegas de elenco não ficam para trás em termos de desempenho. Lee J. Cobb como o truculento e quase irascível jurado número 3 (o que tem mais dificuldade em se deixar convencer pelas dúvidas dos colegas) rouba a cena sem nenhuma vergonha e a outra dezena de atores é de tirar o chapéu. Generoso, o texto de Reginald Rose (refilmado para a TV americana em 1997, com Jack Lemmon no lugar de Fonda) dá espaço para todos demonstrarem seu talento, mesmo que - e isso é outra jogada de mestre - suas vidas, ao menos para o espectador, possa ser resumida apenas às horas em que eles estão na sala de jurados. Durante a duração do filme - e da discussão entre as personagens - o mundo fora do tribunal é vislumbrado apenas pelo calor, pela chuva e pelo jogo de baseball que uma das personagens anseia em assistir. Eles estão ali para definir a vida ou a morte de um rapaz e apesar de nem todos terem a mesma consciência da importãncia do fato, o que acontece no mundo exterior não tem mais a mesma urgência. O fato de seus nomes não serem sequer mencionados (com exceção de dois deles, na cena final) apenas reitera sua condição de anônimos.

"Doze homens e uma sentença" é obrigatório. Para fãs de cinema, para estudantes de Direito, para todos que sentem prazer em assistir a uma boa história, contada por gente que entende do riscado. Imperdível!

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...