DESCOMPENSADA (Trainwreck, 2015, Apatow Productions, 125min) Direção: Judd Apatow. Roteiro: Amy Schumer. Fotografia: Jody Lee Lipes. Montagem: William Kerr, Paul Zucker. Música: Jon Brion. Figurino: Jessica Albertson, Leesa Evans. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Debra Schutt. Produção executiva: David Householter. Produção: Judd Apatow, Barry Mendel. Elenco: Amy Schumer, Bill Hader, Tilda Swinton, Ezra Miller, Brie Larson, Lebron James, Marisa Tomei, Daniel Radcliffe. Estreia: 17/7/15
Os fãs de comédias românticas conhecem exatamente as engrenagens que as movem, e a julgar pela longevidade do gênero - um dos mais populares do cinema - não se importam muito com os clichês que as cercam. Por isso não deixa de ser saudável que um filme como "Descompensada" tenha feito tanto sucesso de bilheteria, alcançando uma marca superior a 100 milhões de dólares somente no mercado doméstico: mesmo subvertendo muitas das regras básicas ditadas pela indústria quando se trata de histórias de amor tradicionais, o filme escrito e estrelado por Amy Schumer é, no fundo, mais um exemplar do estilo, mas distorce seus elementos de forma tão debochada e contemporânea que soa como uma lufada de ar fresco em um universo bastante engessado. A começar pela presença de Schumer, cujo visual "gente como a gente" já a distancia das princesas bem vestidas e de corpo escultural que protagonizam tais histórias, o divertido filme dirigido por Judd Apatow - considerado o mestre das comédias adultas realizadas em Hollywood desde o sucesso de "O virgem de 40 anos", lançado em 2005 - foge dos estereótipos e aposta na reversão de papéis para conquistar o público. O resultado? Até mesmo a plateia masculina, normalmente avessa a comédias românticas, acaba se deixando seduzir pelo humor cáustico e no limite do chulo oferecido pelo roteiro.
Longe de ser a donzela desprotegida, frágil e romântica que se poderia esperar, a protagonista de "Descompensada" - sintomaticamente batizada de Amy, como a roteirista e atriz principal - é uma jornalista adepta de baladas, bebedeiras e sexo casual que não passa os dias esperando o príncipe encantado e nem acredita muito nessa história toda de "e foram felizes para sempre". Ao contrário da irmã caçula, Kim (Brie Larson, Oscar de melhor atriz por "O quarto de Jack"), Amy levou muito a sério o discurso de seu pai para justificar as traições à sua mãe e não vê muitas vantagens na monogamia e na fidelidade. Tudo começa a mudar quando ela é escalada por sua arrogante chefe, Dianna (Tilda Swinton, surpreendente), para uma série de entrevistas com um jovem médico chamado Aaron Conners (Bill Hader), conhecido como cirurgião de celebridades esportivas. Logo de cara Amy vai pra cama com o entrevistado, mas, ao contrário do que poderia esperar, a relação aos poucos vai se tornando mais séria, para seu desespero e surpresa. O problema é que Amy não sabe comportar-se em uma relação duradoura, e quando Aaron assume estar apaixonado tudo que ela consegue fazer é trocar os pés pelas mãos.
Fazendo piada a respeito de qualquer assunto sem medo de soar politicamente incorreto, o roteiro de "Descompensada" é uma sucessão de bobagens extremamente divertidas, que mesclam o típico humor "vergonha alheia" com momentos bastante inteligentes, com diálogos repletos de referências culturais, com direito até a participações especiais de Daniel Radcliffe e Marisa Tomei - em um filme dentro do filme - e Matthew Broderick e Martin Short como eles mesmos (uma prova do poder de fogo de Appatow em Hollywood). O que mais chama a atenção no filme, no entanto, é sua coragem em ter uma protagonista tão fora dos padrões de beleza e comportamento ditados por Hollywood através dos anos. Com um linguajar de corar cantores de funk e atitudes de fazer muitas moderninhas de plantão se roer de inveja, Amy dificilmente pode ser considerada uma heroína convencional, mas o carisma de Schumer (em um papel que é a sua cara) é o bastante para que a plateia fique do seu lado mesmo quando ela comete uma série de erros que podem comprometer sua felicidade. Suas cenas com a irmã e o enteado dela (um moleque nerd que mais a apavora do que qualquer outra coisa) são hilariantes, e sua química com Bill Hader é inegavelmente perfeita. Hader - que já havia demonstrado ser um ótimo parceiro de cena quando interpretou o irmão gay de Kristen Wiig em "Irmãos Desastre" (2014) - se confirma como um ator versátil e dono de uma simpatia contagiante, a perfeita definição de cara normal, com quem o espectador pode facilmente se conectar. Juntos, eles formam o mais improvável dos casais - e por isso mesmo parecem tão reais.
As fãs de histórias de amor mais convencionais talvez se incomodem com o tanto de subversão de "Descompensada", que não hesita em quebrar todos os paradigmas da comédia romântica. Porém, aquelas que se despirem de preconceitos e estiverem dispostas a rir de si mesmas podem ter uma bela surpresa: poucas vezes um filme do gênero conseguiu ser tão abusado, ousado e sem papas na língua. Amy Schumer não tem medo de servir de material para suas próprias piadas e, ao contrário do que normalmente acontece, os coadjuvantes são tratados com inteligência e sensibilidade - desde o pai irascível da protagonista até seus colegas de trabalho (em especial a chefe vivida por Tilda Swinton e o estagiário interpretado por Ezra Miller, seu filho no drama "Precisamos falar sobre o Kevin", de 2011): são personagens secundários, sim, mas com importância o bastante para determinar alguns rumos da narrativa e fazer rir ao mesmo tempo - a cena em que Amy vai pra casa do colega adolescente e descobre que ele tem preferências sexuais um tanto exóticas é, sem dúvida, candidata à antológica.
Ainda é cedo para dizer se Amy Schumer - atriz com a mesma verme cômica de Tina Fey, Amy Pohler e Kristen Wiig - irá firmar-se no universo do humor hollywoodiano ou se é apenas fogo de palha. Indicada ao Golden Globe ela já foi - assim como seu filme. Aprovada pelo público idem. Resta ficar de olho e descobrir se fará as escolhas certas para manter-se no jogo ou se irá ser relegada a um injusto esquecimento. Até lá, é deliciar-se com as desventuras amorosas e sexuais de seu encantador alter-ego.
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AVE, CÉSAR
AVE, CÉSAR! (Hail, Caesar!, 2016, Working Title Films, 106min) Direção e roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Robert Graf. Produção: Tim Bevan, Ethan Coen, Joel Coen, Eric Fellner. Elenco: George Clooney, Josh Brolin, Channing Tatum, Ralph Fiennes, Scarlett Johansson, Alden Ehreinreich, Tilda Swinton, Frances McDormand, Jonah Hill, Alison Pill, David Krumholtz. Estreia: 01/02/16
Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários
Não é a primeira vez que os irmãos Coen brincam com os bastidores do cinema: em 1992 eles realizaram "Barton Fink: delírios de Hollywood", onde o dramaturgo interpretado por John Turturro (melhor ator no Festival de Cannes) se via diante de um inédito bloqueio criativo justamente quando é contratado para escrever o roteiro de um filme. Em "Ave, César", porém, eles vão ainda mais longe em seu retrato do mundo de ilusões construído pela capital do entretenimento - mais especificamente aquele erguido dentro do sistema dos grandes estúdios na década de 50. Sem deixar de lado seu humor cáustico e a preferência por personagens à margem do sistema (mesmo quando inserido nele), a dupla de cineastas faz uma das mais consistentes homenagens à indústria realizadas nos últimos anos, repleta de citações a astros e gêneros de um dos períodos mais ricos de Hollywood. Injustamente esquecido pelo Oscar e demais cerimônias de premiação da temporada (concorreu a uma única estatueta, por sua impecável direção de arte), "Ave, César" pode até ser considerado por muitos críticos como uma obra menor da dupla de diretores e roteiristas, mas jamais deixa de ser uma excelente opção para quem procura diversão inteligente.
Apesar de George Clooney ser o maior astro do elenco - e parceiro frequente dos cineastas, tendo trabalhado em "E aí, meu irmão, cadê você?" (2001), "O amor custa caro" (2003) e "Queime depois de ler" (2008) - o protagonista da história é interpretado por Josh Brolin, em mais uma atuação inspiradíssima. Ele interpreta Eddie Mannix, que vive de resolver crises nos bastidores de um grande estúdio da Hollywood dos anos 50, a Capitol Pictures. A trama se passa em um único dia, em que Mannix parece sobrecarregado de problemas alheios: o maior nome do estúdio, Baird Whitlock (George Clooney) - que está no final das filmagens de um milionário épico religioso - acaba de ser sequestrado por um grupo chamado "Nós somos o futuro" (na verdade, um grupo de roteiristas comunistas frustrados com o pagamento pífio que recebem por seu trabalho); a atriz DeeAnna Moran (Scarlett Johansson) está grávida e precisa esconder a situação dos fãs e da imprensa (que também não podem saber de sua vasta coleção de ex-maridos); o jovem astros de westerns Hobie Doyle (Alden Ehrenreich) está com dificuldades em fazer a transição para filmes dramáticos, para desespero do diretor Laurence Laurentz (Ralph Fiennes); e a dupla de irmãs colunistas de fofocas Thora e Thessaly Thacker (Tilda Swinton) ameaça por a boca no trombone e publicar uma história que em nada beneficia Whitlock. Sua única forma de escapar é aceitar a proposta de investir em uma companhia aérea que lhe oferece uma tentadora opção de vida.
Sem uma trama forte o bastante para sustentar seus 106 minutos, "Ave, César" (título do filme religioso estrelado por Baird Whitlock) constrói sua narrativa através da jornada de Mannix em busca da solução para os problemas que lhe são apresentados. Costura-se, assim, de forma orgânica e ágil, uma seleção de sequências fascinantes que vão formando um rico e empolgante panorama do cinema americano dos anos 50, com suas estrelas cintilantes e suas produções gigantescas. Nitidamente apaixonados por sua arte, os irmãos Coen conduzem o espectador por cenas que remetem diretamente aos espetáculos aquáticos de Esther Williams - através da personagem de Scarlett Johansson - e aos musicais de Gene Kelly - Channing Tatum mostra todo o seu dom de dançarino em uma bela sequência que em nada fica a dever aos clássicos do período. Até mesmo o épico produzido pelo estúdio fictício tem ecos de "Ben-hur"- e é hilariante a cena em que Mannix se reune com lideranças de várias religiões tentando encontrar um denominador comum que não ofenda a ninguém. Josh Brolin brilha com uma performance ao mesmo tempo irônica e desesperada, encontrando o tom exato de um personagem típico da dupla de diretores, que cutucam desde o poder dos estúdios sobre seus contratados até a histeria comunista que tomava conta do país no período. Contando ainda com participações especiais de Frances McDormand e Jonah Hill e uma reconstituição de época primorosa, "Ave, César" é uma comédia que substitui as gargalhadas pelo sorriso, mas é difícil não considerá-la uma das melhores produções do gênero na temporada.
Repleto de uma ironia deliciosa que se mistura com naturalidade à sincera homenagem à era de ouro de Hollywood, "Ave, César" conquista os fãs de cinema justamente por oferecer-lhes uma visão tanto romântica quanto satírica de suas entranhas. Enquanto o protagonista caminha pelos desvãos da indústria, o público acompanha, fascinado, os bastidores de um mundo à parte, construído por trás das câmeras e que move milhares de pessoas, muitas vezes anônimas. Ao virar sua câmera para o lado menos glamouroso do showbizz, o filme desmascara, com bom humor e sarcasmo, as aparências de um universo milimetricamente forjado para agradar um público ainda muito conservador, que rejeitava mães solteiras e galãs homossexuais mas consumia vorazmente qualquer fofoca a seu respeito. A força irresistível de tanto poder fica clara nas cenas finais, que parecem dizer que, apesar dos pesares, a arte sempre vale a pena. Uma comédia iluminada e sofisticada, "Ave, César" é um dos trabalhos mais fascinantes dos irmãos Coen. E, de quebra, um dos mais divertidos relatos sobre os bastidores do cinema.
Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários
Não é a primeira vez que os irmãos Coen brincam com os bastidores do cinema: em 1992 eles realizaram "Barton Fink: delírios de Hollywood", onde o dramaturgo interpretado por John Turturro (melhor ator no Festival de Cannes) se via diante de um inédito bloqueio criativo justamente quando é contratado para escrever o roteiro de um filme. Em "Ave, César", porém, eles vão ainda mais longe em seu retrato do mundo de ilusões construído pela capital do entretenimento - mais especificamente aquele erguido dentro do sistema dos grandes estúdios na década de 50. Sem deixar de lado seu humor cáustico e a preferência por personagens à margem do sistema (mesmo quando inserido nele), a dupla de cineastas faz uma das mais consistentes homenagens à indústria realizadas nos últimos anos, repleta de citações a astros e gêneros de um dos períodos mais ricos de Hollywood. Injustamente esquecido pelo Oscar e demais cerimônias de premiação da temporada (concorreu a uma única estatueta, por sua impecável direção de arte), "Ave, César" pode até ser considerado por muitos críticos como uma obra menor da dupla de diretores e roteiristas, mas jamais deixa de ser uma excelente opção para quem procura diversão inteligente.
Apesar de George Clooney ser o maior astro do elenco - e parceiro frequente dos cineastas, tendo trabalhado em "E aí, meu irmão, cadê você?" (2001), "O amor custa caro" (2003) e "Queime depois de ler" (2008) - o protagonista da história é interpretado por Josh Brolin, em mais uma atuação inspiradíssima. Ele interpreta Eddie Mannix, que vive de resolver crises nos bastidores de um grande estúdio da Hollywood dos anos 50, a Capitol Pictures. A trama se passa em um único dia, em que Mannix parece sobrecarregado de problemas alheios: o maior nome do estúdio, Baird Whitlock (George Clooney) - que está no final das filmagens de um milionário épico religioso - acaba de ser sequestrado por um grupo chamado "Nós somos o futuro" (na verdade, um grupo de roteiristas comunistas frustrados com o pagamento pífio que recebem por seu trabalho); a atriz DeeAnna Moran (Scarlett Johansson) está grávida e precisa esconder a situação dos fãs e da imprensa (que também não podem saber de sua vasta coleção de ex-maridos); o jovem astros de westerns Hobie Doyle (Alden Ehrenreich) está com dificuldades em fazer a transição para filmes dramáticos, para desespero do diretor Laurence Laurentz (Ralph Fiennes); e a dupla de irmãs colunistas de fofocas Thora e Thessaly Thacker (Tilda Swinton) ameaça por a boca no trombone e publicar uma história que em nada beneficia Whitlock. Sua única forma de escapar é aceitar a proposta de investir em uma companhia aérea que lhe oferece uma tentadora opção de vida.
Sem uma trama forte o bastante para sustentar seus 106 minutos, "Ave, César" (título do filme religioso estrelado por Baird Whitlock) constrói sua narrativa através da jornada de Mannix em busca da solução para os problemas que lhe são apresentados. Costura-se, assim, de forma orgânica e ágil, uma seleção de sequências fascinantes que vão formando um rico e empolgante panorama do cinema americano dos anos 50, com suas estrelas cintilantes e suas produções gigantescas. Nitidamente apaixonados por sua arte, os irmãos Coen conduzem o espectador por cenas que remetem diretamente aos espetáculos aquáticos de Esther Williams - através da personagem de Scarlett Johansson - e aos musicais de Gene Kelly - Channing Tatum mostra todo o seu dom de dançarino em uma bela sequência que em nada fica a dever aos clássicos do período. Até mesmo o épico produzido pelo estúdio fictício tem ecos de "Ben-hur"- e é hilariante a cena em que Mannix se reune com lideranças de várias religiões tentando encontrar um denominador comum que não ofenda a ninguém. Josh Brolin brilha com uma performance ao mesmo tempo irônica e desesperada, encontrando o tom exato de um personagem típico da dupla de diretores, que cutucam desde o poder dos estúdios sobre seus contratados até a histeria comunista que tomava conta do país no período. Contando ainda com participações especiais de Frances McDormand e Jonah Hill e uma reconstituição de época primorosa, "Ave, César" é uma comédia que substitui as gargalhadas pelo sorriso, mas é difícil não considerá-la uma das melhores produções do gênero na temporada.
Repleto de uma ironia deliciosa que se mistura com naturalidade à sincera homenagem à era de ouro de Hollywood, "Ave, César" conquista os fãs de cinema justamente por oferecer-lhes uma visão tanto romântica quanto satírica de suas entranhas. Enquanto o protagonista caminha pelos desvãos da indústria, o público acompanha, fascinado, os bastidores de um mundo à parte, construído por trás das câmeras e que move milhares de pessoas, muitas vezes anônimas. Ao virar sua câmera para o lado menos glamouroso do showbizz, o filme desmascara, com bom humor e sarcasmo, as aparências de um universo milimetricamente forjado para agradar um público ainda muito conservador, que rejeitava mães solteiras e galãs homossexuais mas consumia vorazmente qualquer fofoca a seu respeito. A força irresistível de tanto poder fica clara nas cenas finais, que parecem dizer que, apesar dos pesares, a arte sempre vale a pena. Uma comédia iluminada e sofisticada, "Ave, César" é um dos trabalhos mais fascinantes dos irmãos Coen. E, de quebra, um dos mais divertidos relatos sobre os bastidores do cinema.
O GRANDE HOTEL BUDAPESTE
O GRANDE HOTEL BUDAPESTE (The Grand Budapest Hotel, 2014, Fox Searchlight Pictures/Indian Paintbrush, 99min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, estória de Wes Anderson, Hugo Guinness, inspirado em escritos de Stefan Zweig. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Barney Pilling. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Anna Pinnock. Produção executiva: Molly Cooper, Christoph Fisser, Henning Molfenter, Charlie Woebcken. Produção: Wes Anderson, Jeremy Dawson, Steven Rales, Scott Rudin. Elenco: Ralph Fiennes, F. Murray Abraham, Jude Law, Willem Dafoe, Adrien Brody, Jeff Goldblum, Saoirse Ronan, Mathieu Amalric, Harvey Keitel, Bill Murray, Edward Norton, Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Tilda Swinton, Tom Wilkinson, Owen Wilson, Tony Revolori, Fisher Stevens, Bob Balaban. Estreia: 06/02/14 (Festival de Berlim)
9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Wes Anderson), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor de 4 Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme (Comédia/Musical)
Dentre os filmes pouco convencionais selecionados pela Academia de Hollywood para concorrer ao principal Oscar de 2015 - "Birdman" e "Boyhood", por exemplo - nenhum é tão radicalmente a cara de seu autor quanto "O Grande Hotel Budapeste", escrito, dirigido e produzido por Wes Anderson, um dos cineastas menos afeitos a concessões comerciais que o cinema norte-americano gerou nos últimos quinze anos, desde que lançou o elogiado - e ignorado pelo público - "Três é demais", em 1998. Dono de um estilo facilmente reconhecível que equilibra com rara inteligência personagens excêntricos, histórias inusitadas e um visual milimetricamente planejado, Anderson faz parte de um time de poucos realizadores que tem uma marca própria dentro do cinema, como Tim Burton, Woody Allen e Pedro Almodovar. No entanto, ainda faltava a ele uma espécie de reconhecimento oficial por parte da indústria, que lhe desse o passaporte definitivo para a elite dos cineastas. Com as surpreendentes nove indicações conquistadas por seu novo filme (e a vitória em quatro categorias) tal passaporte já está carimbado. Só o fato de ter lutado de igual pra igual com produções bem menos criativas (e por conseguinte mais facilmente digeríveis pelos tradicionais e vestutos eleitores da Academia), "O Grande Hotel Budapeste" já pode ser considerado um campeão.
A trama - contada através de uma história dentro de uma história, em uma opção narrativa arriscada mas extremamente bem-sucedida - é aparentemente simples, mas repleta de bifurcações inusitadas e personagens surreais: quem começa a contá-la é um escritor consagrado (vivido por Tom Wilkinson na maturidade e Jude Law na juventude), que transmite ao público a história do misterioso Mr. Moustafa (F. Murray Abraham), dono do decadente Hotel Budapeste, localizado em um país fictício da Europa que teve seu auge no período entre-guerras. Solitário e discreto, Moustafa relembra, através de flashbacks, as reviravoltas que fizeram com que a imensa propriedade fosse parar em seu nome. Tais reviravoltas tem início quando ele, ainda jovem (e interpretado por Tony Revolori) consegue emprego como empregado do hotel, sob o comando do rígido e dedicado Gustave H. (Ralph Fiennes), que, além de ser o melhor concierge da região, não hesita em agradar as hóspedes de mais idade com noites regadas a champagne e sexo. Quando uma dessas visitantes frequentes, a milionária Céline Villeneuve Desgoffe und Taxis (Tilda Swinton irreconhecível sob pesada maquiagem vencedora do Oscar), morre aos 84 anos em sua mansão, ele resolve prestar suas últimas homenagens, atendendo a seu funeral. Para sua surpresa, porém, ele fica sabendo - junto com a ambiciosa família da falecida - que herdou um quadro de valor milionário, o que acaba lhe colocando em sérios apuros com a polícia: recusando-se a aceitar que a mãe tenha deixado tão valioso bem para um mero serviçal, o psicótico Dimitri (Adrien Brody) o acusa de assassinato e parte em sua captura, ao lado de seu violento capanga Jopling (Willem Dafoe). Quando eclode a II Guerra, cabe a Gustave provar sua inocência - contando, para isso, com o apoio de um clube secreto de concierges espalhados pelo mundo.
Dotado de um humor sofisticado que provoca mais sorrisos do que gargalhadas e de uma trama tão cheia de informações visuais que uma segunda sessão é mandatória, "O Grande Hotel Budapeste" é, tranquilamente, o melhor filme de Wes Anderson, refinando as características narrativas de "Os excêntricos Tenenbauns" e estilísticas de "Moonrise kingdom" e unindo-as em um espetáculo de qualidade estética ímpar. Único dos candidatos ao Oscar de fotografia a ser filmado em película - um feito digno de nota, especialmente quando se percebe a qualidade irretocável do meticuloso trabalho de Robert Yeoman - a obra de Anderson também é um triunfo de desenho de produção (também premiada pela Academia), tão impressionante com seus cenários grandiosos quanto a segurança do cineasta em equilibrar narrativas múltiplas sem perder o fio da meada ou confundir o espectador. Contando com um elenco acima de qualquer crítica - com destaque para Ralph Fiennes em raro registro cômico e Edward Norton em sua segunda parceria com o diretor, além da revelação Tony Revolori - o filme ainda se beneficia da inspirada trilha sonora (mais uma) de Alexandre Desplat, que comenta a ação como se fosse um personagem a mais e deu a ele uma merecida estatueta dourada. Ela é mais uma peça essencial em um dos mais empolgantes produtos cinematográficos dos últimos anos, um filme capaz de encantar qualquer fã da sétima arte e a prova cabal do talento de seu criador, até então escondido em pérolas de cinemateca - vulgo filmes amados por uma parcela de espectadores que não tem medo do diferente.
Ousado, criativo, original, inteligente. Faltam adjetivos para explicar porque "O Grande Hotel Budapeste" merece ser visto, revisto, trevisto e aplaudido todas as vezes. É um dos mais excitantes e inovadores produtos a sair de um lugar cada vez menos disposto a riscos como Hollywood. E além de tudo é uma comédia muito engraçada e excêntrica, que não precisa de um humor pastelão para arrancar risos. Precisa de mais motivos para ser genial?
9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Wes Anderson), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor de 4 Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme (Comédia/Musical)
Dentre os filmes pouco convencionais selecionados pela Academia de Hollywood para concorrer ao principal Oscar de 2015 - "Birdman" e "Boyhood", por exemplo - nenhum é tão radicalmente a cara de seu autor quanto "O Grande Hotel Budapeste", escrito, dirigido e produzido por Wes Anderson, um dos cineastas menos afeitos a concessões comerciais que o cinema norte-americano gerou nos últimos quinze anos, desde que lançou o elogiado - e ignorado pelo público - "Três é demais", em 1998. Dono de um estilo facilmente reconhecível que equilibra com rara inteligência personagens excêntricos, histórias inusitadas e um visual milimetricamente planejado, Anderson faz parte de um time de poucos realizadores que tem uma marca própria dentro do cinema, como Tim Burton, Woody Allen e Pedro Almodovar. No entanto, ainda faltava a ele uma espécie de reconhecimento oficial por parte da indústria, que lhe desse o passaporte definitivo para a elite dos cineastas. Com as surpreendentes nove indicações conquistadas por seu novo filme (e a vitória em quatro categorias) tal passaporte já está carimbado. Só o fato de ter lutado de igual pra igual com produções bem menos criativas (e por conseguinte mais facilmente digeríveis pelos tradicionais e vestutos eleitores da Academia), "O Grande Hotel Budapeste" já pode ser considerado um campeão.
A trama - contada através de uma história dentro de uma história, em uma opção narrativa arriscada mas extremamente bem-sucedida - é aparentemente simples, mas repleta de bifurcações inusitadas e personagens surreais: quem começa a contá-la é um escritor consagrado (vivido por Tom Wilkinson na maturidade e Jude Law na juventude), que transmite ao público a história do misterioso Mr. Moustafa (F. Murray Abraham), dono do decadente Hotel Budapeste, localizado em um país fictício da Europa que teve seu auge no período entre-guerras. Solitário e discreto, Moustafa relembra, através de flashbacks, as reviravoltas que fizeram com que a imensa propriedade fosse parar em seu nome. Tais reviravoltas tem início quando ele, ainda jovem (e interpretado por Tony Revolori) consegue emprego como empregado do hotel, sob o comando do rígido e dedicado Gustave H. (Ralph Fiennes), que, além de ser o melhor concierge da região, não hesita em agradar as hóspedes de mais idade com noites regadas a champagne e sexo. Quando uma dessas visitantes frequentes, a milionária Céline Villeneuve Desgoffe und Taxis (Tilda Swinton irreconhecível sob pesada maquiagem vencedora do Oscar), morre aos 84 anos em sua mansão, ele resolve prestar suas últimas homenagens, atendendo a seu funeral. Para sua surpresa, porém, ele fica sabendo - junto com a ambiciosa família da falecida - que herdou um quadro de valor milionário, o que acaba lhe colocando em sérios apuros com a polícia: recusando-se a aceitar que a mãe tenha deixado tão valioso bem para um mero serviçal, o psicótico Dimitri (Adrien Brody) o acusa de assassinato e parte em sua captura, ao lado de seu violento capanga Jopling (Willem Dafoe). Quando eclode a II Guerra, cabe a Gustave provar sua inocência - contando, para isso, com o apoio de um clube secreto de concierges espalhados pelo mundo.
Dotado de um humor sofisticado que provoca mais sorrisos do que gargalhadas e de uma trama tão cheia de informações visuais que uma segunda sessão é mandatória, "O Grande Hotel Budapeste" é, tranquilamente, o melhor filme de Wes Anderson, refinando as características narrativas de "Os excêntricos Tenenbauns" e estilísticas de "Moonrise kingdom" e unindo-as em um espetáculo de qualidade estética ímpar. Único dos candidatos ao Oscar de fotografia a ser filmado em película - um feito digno de nota, especialmente quando se percebe a qualidade irretocável do meticuloso trabalho de Robert Yeoman - a obra de Anderson também é um triunfo de desenho de produção (também premiada pela Academia), tão impressionante com seus cenários grandiosos quanto a segurança do cineasta em equilibrar narrativas múltiplas sem perder o fio da meada ou confundir o espectador. Contando com um elenco acima de qualquer crítica - com destaque para Ralph Fiennes em raro registro cômico e Edward Norton em sua segunda parceria com o diretor, além da revelação Tony Revolori - o filme ainda se beneficia da inspirada trilha sonora (mais uma) de Alexandre Desplat, que comenta a ação como se fosse um personagem a mais e deu a ele uma merecida estatueta dourada. Ela é mais uma peça essencial em um dos mais empolgantes produtos cinematográficos dos últimos anos, um filme capaz de encantar qualquer fã da sétima arte e a prova cabal do talento de seu criador, até então escondido em pérolas de cinemateca - vulgo filmes amados por uma parcela de espectadores que não tem medo do diferente.
Ousado, criativo, original, inteligente. Faltam adjetivos para explicar porque "O Grande Hotel Budapeste" merece ser visto, revisto, trevisto e aplaudido todas as vezes. É um dos mais excitantes e inovadores produtos a sair de um lugar cada vez menos disposto a riscos como Hollywood. E além de tudo é uma comédia muito engraçada e excêntrica, que não precisa de um humor pastelão para arrancar risos. Precisa de mais motivos para ser genial?
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MOONRISE KINGDOM
MOONRISE KINGDOM (Moonrise kingdom, 2012, Indian Paintbrush/American Empirical Pictures, 94min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, Roman Coppola. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Andrew Weisblum. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Kasia Walicka-Maimone. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Kris Moran. Produção executiva: Sam Hoffman, Mark Roybal. Produção: Wes Anderson, Jeremy Dawson, Steven Rales, Scott Rudin. Elenco: Jared Gilman, Kara Hayward, Bruce Willis, Edward Norton, Frances McDormand, Bill Murray, Tilda Swinton, Bob Balaban, Jason Schwartzman. Estreia: 16/5/12 (Festival de Cannes)
Indicado ao Oscar de Roteiro Original
O órfão Sam (Jared Gilman) foge do acampamento de escoteiros onde se sente deslocado e solitário e parte ao encontro da garota que ama, Suzy (Kara Hayward), uma menina negligenciada pelos pais advogados que administram a casa de forma rígida e pouco amorosa e a consideram uma criança-problema. Os dois pré-adolescentes - que enxergam um no outro o amor e a compreensão que tanto necessitam - resolvem refugiar-se no bosque, contando apenas com os truques aprendidos por Sam em seu período no escotismo e com o toca-discos e os livros fantasiosos de Suzy. Sua fuga, porém, abala os adultos que deveriam ser seus responsáveis, e uma busca aflita tem início, unindo os pais da jovem, o xerife local, o chefe dos escoteiros e até uma assistente social que precisa dar um rumo à vida do menino após a desistência de sua última família adotiva.
Fosse escrito e dirigido por um cineasta mais afeito às convenções das comédias românticas adolescentes, "Moonrise kingdom" fatalmente contaria sua história de forma convencional, sentimental e com um senso de humor óbvio e pasteurizado. No entanto, sob o comando de Wes Anderson, o resultado é completamente o oposto. Dono de uma obra no mínimo excêntrica - que inclui os elogiados "Três é demais" e "Os excêntricos Tenenbaums" - o cineasta americano usa e abusa de todas as características singulares que fazem de sua filmografia um estranho no ninho na indústria hollywoodiana (personagens bizarros, humor singular e uma narrativa com ênfase no visual extravagante) para transformar um singelo conto de amor juvenil em um filme que nada contra a corrente do gênero. Mesmo que tenha surgido das memórias afetivas de seu diretor - que divide o roteiro com Roman Coppola, filho de Francis e irmão de Sofia - "Moonrise kingdom" não se deixa dominar pela nostalgia e pela melancolia: é um produto típico de seu autor, capaz de encantar a quem busca um cinema menos comum ou aborrecer o espectador mais tradicional.
Situando sua trama na década de 60 - o que possibilita um espetáculo à parte no desenho de produção e figurinos - Wes Anderson foge habilmente do lugar-comum das histórias de amor por não apostar todas as suas fichas no romance entre os inábeis mas bem-intencionados Sam e Suzy. Dividindo o foco narrativo em duas frentes, ele equilibra a delicadeza de uma nascente história de amor com o humor sutil e inteligente que surge da busca frequentemente equivocada dos adultos por seu pátrio poder - mesmo que ele não venha necessariamente dos pais. Ao tratar os adolescentes como heróis da história e relegar os mais velhos a uma situação de quase absoluta insensatez, o roteiro indicado ao Oscar - perdeu para "Django livre", de Quentin Tarantino - oferece à audiência uma saudável reversão de expectativas que encontra em seu brilhante elenco um invejável respaldo artístico. Ao colaborador habitual do cineasta, Bill Murray (que interpreta o pai de Suzy), juntam-se Frances McDormand (como a mãe da garota, uma mulher que comanda a casa através de um megafone), Edward Norton (no papel do incompetente chefe dos escoteiros), Bruce Willis (como o bem-intencionado xerife que tem um caso com a mãe da jovem desaparecida) e Tilda Swinton (no papel pequeno mas crucial da assistente social que chega ao cenário para aumentar a confusão).
Filme que abriu o Festival de Cannes 2012, "Moonrise kingdom" é um perfeito exemplar da cinematografia de Wes Anderson, que logo em seguida finalmente seria consagrado com o fantástico "O Grand Hotel Budapeste". Longe de ser hermético ou visualmente excitante apenas por sê-lo, é um filme agradável, plasticamente ousado e leve como convém a uma comédia romântica. Mas é, também, inteligente e adorável. Peca em não aprofundar adequadamente seus personagens, mas é um detalhe de pouca relevância diante de outras qualidades tão óbvias.
Indicado ao Oscar de Roteiro Original
O órfão Sam (Jared Gilman) foge do acampamento de escoteiros onde se sente deslocado e solitário e parte ao encontro da garota que ama, Suzy (Kara Hayward), uma menina negligenciada pelos pais advogados que administram a casa de forma rígida e pouco amorosa e a consideram uma criança-problema. Os dois pré-adolescentes - que enxergam um no outro o amor e a compreensão que tanto necessitam - resolvem refugiar-se no bosque, contando apenas com os truques aprendidos por Sam em seu período no escotismo e com o toca-discos e os livros fantasiosos de Suzy. Sua fuga, porém, abala os adultos que deveriam ser seus responsáveis, e uma busca aflita tem início, unindo os pais da jovem, o xerife local, o chefe dos escoteiros e até uma assistente social que precisa dar um rumo à vida do menino após a desistência de sua última família adotiva.
Fosse escrito e dirigido por um cineasta mais afeito às convenções das comédias românticas adolescentes, "Moonrise kingdom" fatalmente contaria sua história de forma convencional, sentimental e com um senso de humor óbvio e pasteurizado. No entanto, sob o comando de Wes Anderson, o resultado é completamente o oposto. Dono de uma obra no mínimo excêntrica - que inclui os elogiados "Três é demais" e "Os excêntricos Tenenbaums" - o cineasta americano usa e abusa de todas as características singulares que fazem de sua filmografia um estranho no ninho na indústria hollywoodiana (personagens bizarros, humor singular e uma narrativa com ênfase no visual extravagante) para transformar um singelo conto de amor juvenil em um filme que nada contra a corrente do gênero. Mesmo que tenha surgido das memórias afetivas de seu diretor - que divide o roteiro com Roman Coppola, filho de Francis e irmão de Sofia - "Moonrise kingdom" não se deixa dominar pela nostalgia e pela melancolia: é um produto típico de seu autor, capaz de encantar a quem busca um cinema menos comum ou aborrecer o espectador mais tradicional.
Situando sua trama na década de 60 - o que possibilita um espetáculo à parte no desenho de produção e figurinos - Wes Anderson foge habilmente do lugar-comum das histórias de amor por não apostar todas as suas fichas no romance entre os inábeis mas bem-intencionados Sam e Suzy. Dividindo o foco narrativo em duas frentes, ele equilibra a delicadeza de uma nascente história de amor com o humor sutil e inteligente que surge da busca frequentemente equivocada dos adultos por seu pátrio poder - mesmo que ele não venha necessariamente dos pais. Ao tratar os adolescentes como heróis da história e relegar os mais velhos a uma situação de quase absoluta insensatez, o roteiro indicado ao Oscar - perdeu para "Django livre", de Quentin Tarantino - oferece à audiência uma saudável reversão de expectativas que encontra em seu brilhante elenco um invejável respaldo artístico. Ao colaborador habitual do cineasta, Bill Murray (que interpreta o pai de Suzy), juntam-se Frances McDormand (como a mãe da garota, uma mulher que comanda a casa através de um megafone), Edward Norton (no papel do incompetente chefe dos escoteiros), Bruce Willis (como o bem-intencionado xerife que tem um caso com a mãe da jovem desaparecida) e Tilda Swinton (no papel pequeno mas crucial da assistente social que chega ao cenário para aumentar a confusão).
Filme que abriu o Festival de Cannes 2012, "Moonrise kingdom" é um perfeito exemplar da cinematografia de Wes Anderson, que logo em seguida finalmente seria consagrado com o fantástico "O Grand Hotel Budapeste". Longe de ser hermético ou visualmente excitante apenas por sê-lo, é um filme agradável, plasticamente ousado e leve como convém a uma comédia romântica. Mas é, também, inteligente e adorável. Peca em não aprofundar adequadamente seus personagens, mas é um detalhe de pouca relevância diante de outras qualidades tão óbvias.
sexta-feira
PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN
PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (We need to talk about Kevin, 2011, BBC Films/UK Film Council/Footprint Investment Fund, 112min) Direção: Lynne Ramsay. Roteiro: Lynne Ramsay, Rory Stewart Kinnear, romance de Lionel Shriver. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Joe Bini. Música: Jonny Greenwood. Figurino: Catherine George. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Heather Loeffler. Produção executiva: Christopher Figg, Paula Jalfon, Lisa Lambert, Christine Langan, Norman Merry, Andrew Orr, Lynne Ramsay, Michael Robinson, Steven Soderbergh, Tilda Swinton, Robert Whitehouse. Produção: Jennifer Fox, Luc Roeg, Robert Salerno. Elenco: Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller, Jasper Newell. Estreia: 12/5/11 (Festival de Cannes)
Aliás, se existe algo que faz muita falta na versão para as telas do livro são os encontros de Eva e Kevin na cadeia: eles acontecem no filme, mas em menor número e sem o mesmo impacto emocional. O mesmo pode ser dito também do clímax: buscando fugir do previsível, Ramsey priva o público do que poderia ser um dos mais chocantes finais de sua época para optar pela sugestão. Ok, algumas cenas mostram mais do que claramente o que acontece na escola de Kevin na tarde em que ele chega munido de arco e flechas, mas o destino de Frank e Celia – assim como o de vários colegas do jovem – não recebe do roteiro a importância devida, enfraquecendo uma trama forte e contundente sobre alienação parental, psicopatia e irresponsabilidade da segurança pública. Está certo que o foco da diretora era outro – e dentro dessa premissa ela se dá muito bem – mas é impossível não imaginar o quanto uma história assim ficaria nas mãos de um cineasta menos afeito a cacoetes do cinema independente. Lyanne Ramsey optou por um drama familiar e psicológico. É uma opção corajosa que, vista sob esse prisma, é vitoriosa. Mesmo que decepcione os fãs mais convencionais do romance.
Qualquer pessoa dotada de um mínimo
de senso comum sabe que as linguagens da literatura e do cinema são diferentes
e urgem de elementos distintos para que funcionem da melhor maneira em seus
respectivos veículos. Em alguns casos o trabalho de adaptação é facilitado pelo
estilo do escritor – John Grisham, por exemplo, não foi adaptado às pencas por
Hollywood à toa – mas algumas vezes a coisa é bem mais complicada – que o digam
os roteiristas de obras mais densas, como “A insustentável leveza do ser”, de
Milan Kundera. “Precisamos falar sobre o Kevin”, a transposição para as telas
do best-seller de Lionel Shriver, é um meio-termo: apesar de tratar-se de um
livro menos digestivo (leia-se menos comercial em termos de mercado de cinema),
a história de uma mãe torturada pelo horrendo crime cometido pelo filho
adolescente que tenta entender as razões de tal ato prestava-se facilmente a
uma adaptação linear e quase literal. Mesmo sendo narrada através de cartas
escritas pela protagonista ao marido – em um fluxo de consciência mantido por
uma forte espinha dorsal – a trama poderia tranquilamente ser transformada em
um roteiro com início, meio e fim bem definidos, como manda o figurino das
produções hollywoodianas. Mas, longe das influências dos grandes estúdios – e
portanto das pressões em moldar o filme em algo mais palatável ao público médio
– a versão cinematográfica do livro de Shriver chegou às telas surpreendendo
todo mundo. Ao invés de seguir a cartilha comum do cinema comercialmente
atraente, a diretora e roteirista Lyanne Ramsey resolveu ousar e entregar uma
obra de personalidade própria. Pro bem e pro mal.
Quem leu o livro provavelmente irá
levar um susto ao compará-lo com sua versão cinematográfica – e a primeira
reação certamente será de estranheza. Longe dos vícios do cinemão mainstream americano, Ramsey abre mão de
qualquer traço de obviedade, obrigando o espectador a exercitar um músculo cada
vez com menos uso: o cérebro. Não, “Precisamos falar sobre o Kevin” não é
daqueles filmes que quebram a cabeça do público, mas tampouco faz parte do
grupo de produções que entrega tudo de bandeja. Logo em seu início, que mostra
a protagonista Eva Khatchadourian (Tilda Swinton) em dias felizes, participando
de uma festa popular nas ruas da Itália e banhada de molho de tomate, o filme
aponta para uma direção inusitada, que irá mesclar, sem aviso prévio, presente
e passado, como forma de iluminar as circunstâncias que a levaram de um
casamento harmonioso e uma carreira vitoriosa a uma rotina claustrofóbica
cercada de culpa e autopunição. O vermelho gritante do tomate irá voltar com
frequência à tela, como forma de lembrar constantemente o espectador de que a
história que está sendo contada foi escrita com sangue inocente, e não
interessa à cineasta apenas narrar a trajetória de Eva e seu filho/nêmesis
Kevin: a ela parece importar muito mais as consequências da tragédia do que a
tragédia em si. E talvez seja essa diferença fundamental em relação ao livro
que tenha abalado tanto os fãs do romance.
No livro de Shriver, Eva é uma
bem-sucedida escritora de guias de viagem que leva uma vida confortável e feliz
ao lado do marido, Frank (John C. Reilly, um tanto subaproveitado), até que se
descobre grávida. Não exatamente dotada de sentimentos maternais – e
considerando-se velha demais para uma primeira gestação – ela a princípio
rejeita sua condição, apenas para transformar tal sentimento em remorso. Esse
remorso, por sua vez, transmuta-se em uma sensação de estranhamento cada vez
maior conforme vai-se estabelecendo sua relação com o filho, Kevin. Afável e
carinhoso diante do pai, o menino parece, desde criança, desafiar e atormentar
a rotina da mãe, incapaz de manter com ele o vínculo esperado. Alguns anos mais
tarde, a chegada de uma nova filha, Celia, torna as coisas ainda mais difíceis:
finalmente Eva consegue transmitir o amor de uma mãe e quando o primogênito
atinge a adolescência (e passa a ser interpretado pelo perturbador Ezra Miller)
o que era apenas um desconforto torna-se motivo de uma série de duelos
psicológicos que resultam em uma tragédia inesperada.
No filme de Ramsey, a história de
Eva e Kevin é narrada com distanciamento, em um roteiro repleto de elipses e
uma edição que privilegia a atmosfera de pesadelo da vida da protagonista anos
após os violentos acontecimentos que arruinaram sua rotina pacífica. Morando em
uma casa modesta e com um emprego muito abaixo de suas qualificações, ela passa
os dias fugindo do contato humano, traumatizada pelas agressões de que ainda é
vítima e tentando esquecer ou entender suas próprias emoções. Tilda Swinton
brilha com um desempenho excepcional, equilibrando com sutileza de mestre todas
as diversas nuances de sua personagem e despertando a compaixão do espectador
sem apelar para sentimentalismo de qualquer espécie. Pelo contrário, sua
resiliência poderia facilmente ser confundida com frieza não fosse o talento da
atriz em transmitir tantos sentimentos conflitantes mesmo em silêncio. É
somente nos embates de Eva com o filho que Swinton sai de sua aparente apatia e permite à audiência
vislumbrar os mecanismos que fizeram de sua vida um inferno particular.
Aliás, se existe algo que faz muita falta na versão para as telas do livro são os encontros de Eva e Kevin na cadeia: eles acontecem no filme, mas em menor número e sem o mesmo impacto emocional. O mesmo pode ser dito também do clímax: buscando fugir do previsível, Ramsey priva o público do que poderia ser um dos mais chocantes finais de sua época para optar pela sugestão. Ok, algumas cenas mostram mais do que claramente o que acontece na escola de Kevin na tarde em que ele chega munido de arco e flechas, mas o destino de Frank e Celia – assim como o de vários colegas do jovem – não recebe do roteiro a importância devida, enfraquecendo uma trama forte e contundente sobre alienação parental, psicopatia e irresponsabilidade da segurança pública. Está certo que o foco da diretora era outro – e dentro dessa premissa ela se dá muito bem – mas é impossível não imaginar o quanto uma história assim ficaria nas mãos de um cineasta menos afeito a cacoetes do cinema independente. Lyanne Ramsey optou por um drama familiar e psicológico. É uma opção corajosa que, vista sob esse prisma, é vitoriosa. Mesmo que decepcione os fãs mais convencionais do romance.
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