Mostrando postagens com marcador SOPHIA LOREN. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador SOPHIA LOREN. Mostrar todas as postagens

domingo

UM DIA MUITO ESPECIAL

UM DIA MUITO ESPECIAL (Una giornata particolare, 1977, Compagnia Cinematografica Champion, 106min) Direção: Ettore Scola. Roteiro: Ettore Scola, Ruggero Maccari. Fotografia: Pasqualino De Santis. Montagem: Raimondo Crociani. Música: Armando Trovaioli. Figurino: Enrico Sabbatini. Direção de arte/cenários: Luciano Ricceri. Produção: Carlo Ponti. Elenco: Marcello Mastroianni, Sophia Loren, John Vernon, Françoise Berd. Estreia: 19/5/77 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Ator (Marcello Mastroianni)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro


Menos celebrado que Federico Fellini e menos polêmico que Pier Paolo Pasolini e menos radical que Roberto Rossellini, o cineasta Ettore Scola pode ser considerado o mais poético dentre os diretores que colocaram a Itália no mapa do cinema internacional a partir dos anos 40. Sem abrir mão da crítica social que marcou o neorrealismo e buscando sempre o enfoque humanista em suas histórias, Scola acabou por assinar alguns dos mais brilhantes filmes realizados na Europa a partir de sua estreia, em 1964, com "Fala-se de mulheres". Da lista de suas realizações mais respeitadas, fazem parte de sua obra produções como "Nós que nos amávamos tanto" (74), "Feios, sujos e malvados" (75), "Casanova e a Revolução" (82), "O baile" (83) e "A viagem do Capitão Tornado" (90). Por melhores que todos sejam, no entanto, poucos conseguiram atingir o equilíbrio perfeito entre o drama intimista e a preocupação histórica de "Um dia muito especial", que lhe deu o Golden Globe de melhor filme estrangeiro de 1977, uma indicação ao Oscar na mesma categoria (e de quebra uma para Marcello Mastroianni) e um César (o Oscar francês). Centrando seu foco em um par de protagonistas em dias iluminados, Scola faz de um prédio de apartamentos da classe operária da Roma de 1938, um microcosmo de seu país - e quiçá do mundo, prestes a entrar em uma sangrenta guerra.

Com uma estrutura teatral mas jamais cansativa ou verborrágica em excesso, "Um dia muito especial" se passa no dia em que Adolf Hitler chegou à Roma, com o objetivo de encontrar-se com o presidente de então, Benito Mussolini. A guerra ainda não era uma certeza, mas a sombra do nazismo já começava a se espalhar pela Europa. Um dos entusiastas das ideias do ditador alemão é Emanuele (John Vernon), que aproveita sua visita ao país para, junto com milhares de conterrâneos, saudá-lo nas ruas da capital. Emanuele é casado com a dona-de-casa Antonietta (Sophia Loren), que aproveita a ausência do marido e dos seis filhos para alguns momentos de solidão que é incapaz de manter em sua apressada rotina. O que poderia ser apenas um dia normal, porém, se revela bastante atípico quando ela vai parar no apartamento de um vizinho, Gabriele (Marcello Mastroianni), em busca de seu passarinho de estimação. Gabriele é um locutor de rádio intelectual e discreto que não demora a fazer amizade com a bela matriarca, com quem consegue, surpreendentemente, encontrar uma conexão emocional e profunda. A verdade é que a solitária e carente Antonietta sente-se atraída pelos modos educados e gentis de Gabriele, que tem motivos de sobra para estar precisando de um ombro amigo: homossexual, ele acaba de ser demitido e está esperando pelos guardas que irão levá-lo para um campo de prisioneiros.


Apresentando seus personagens e dramas aos poucos, com elegância e sutileza, Ettore Scola - também coautor do roteiro, ao lado de Ruggero Maccari - apresenta também, de forma inteligente, alguns outros moradores do edifício onde moram Antonietta e Gabriele, pessoas aparentemente comuns mas dotadas de uma mesquinharia atroz que explica, em boa parte, os rumos tomados pela Itália nos anos seguintes, quando o país aliou-se com a Alemanha. O cineasta não faz a menor questão de esconder sua simpatia pelos protagonistas, imbuindo-os de um certo tom de resiliência que imediatamente os coloca no patamar de heróis silenciosos. Antonietta encara a falta de sensibilidade do marido e dos filhos e não encontra tempo nem ao menos de ler um livro - sem falar na ausência absoluta de romantismo e cavalheirismo de seu relacionamento. Gabriele, por sua vez, está vendo sua vida ser completamente destruída pela arbitrariedade do preconceito em relação à sua orientação sexual. São dois seres perdidos, tristes e necessitados de compaixão e carinho, que se encontram em um período curto mas forte o bastante para fortalecer seu senso de sobrevivência em dias difíceis que virão.

Amparando-se basicamente no trabalho de extrema sensibilidade de seus atores - a indicação de Mastroianni ao Oscar não foi mera homenagem da Academia - e em seu texto conciso e delicado, Scola apresenta um trabalho que foge dos clichês românticos ou do tratamento dado pelo cinema à homossexualidade, tratando do assunto com respeito e naturalidade. O romance entre seus personagens - mais do que simplesmente físico ou emocional - é fruto de sua extrema necessidade de afeto e compreensão, não de desejos vulgares ou lascívia adolescente. Antonietta vê em Gabriele a antítese de seu marido brutal, quase cruel. Gabriele vê na vizinha uma válvula de escape, um bote salva-vidas que pode lhe fazer respirar antes da tragédia iminente que bate à sua porta. São personagens tristes, mas carregados de uma humanidade de que somente o cinema europeu - Scola à frente - é capaz de retratar sem apelar para sentimentalismos ou estilizações. Seu cinema fascina justamente por tratar de pessoas de carne e osso, com sentimentos à flor da pele, e "Um dia muito especial" talvez seja a síntese mais terna de sua filmografia. Um belo filme, valorizado pela fotografia árida de Pasqualino De Santis e por seus intérpretes espetaculares.

terça-feira

DUAS MULHERES

DUAS MULHERES (La ciociara, 1960, Compagnia Cinematografica Champion, 100min) Direção: Vittorio De Sica. Roteiro: Vittorio De Sica, romance de Alberto Moravia, adaptação de Cesare Zavattini. Fotografia: Gabor Pogany. Montagem: Adriana Novelli. Música: Armando Trovajoli. Figurino: Elio Constanzi. Direção de arte/cenários: Gastone Medin/Elio Constanzi. Produção: Carlo Ponti. Elenco: Sophia Loren, Jean-Paul Belmondo, Eleonora Brown, Carlo Ninchi. Estreia: 22/12/60

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Sophia Loren)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro 
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Sophia Loren)

Demorou quase três décadas até que a Academia de Hollywood finalmente percebesse que fora do alcance da língua inglesa também existia cinema de qualidade - a categoria de Melhor Filme Estrangeiro, por exemplo, só começou a ser oficialmente competitiva em 1956, quando "A estrada da vida", de Federico Fellini, levou a estatueta. Foi somente na cerimônia de 1961, no entanto - a de número 34 - que uma atriz conseguiu finalmente romper a barreira do idioma e sagrar-se vencedora do Oscar na categoria principal. E engana-se que para isso foi preciso que tivesse uma longa e vitoriosa carreira que justificasse um prêmio de consolação: a italiana Sophia Loren tinha apenas 27 anos de idade quando foi eleita pelos membros da Academia, batendo nomes como Audrey Hepburn ("Bonequinha de luxo") e Natalie Wood ("Clamor do sexo"). Além de jovem e no auge da sensualidade, Loren deixava claro, com sua interpretação visceral em "Duas mulheres", que talento não tinha idade, nacionalidade ou aparência física - e devolvia à Academia um pouco da credibilidade abalada com a vitória de Elizabeth Taylor no ano anterior por pura e simples piedade (ela ganhou por "Disque Butterfield 8" mais pelos sérios problemas de saúde pelos quais passava do que propriamente por mérito artístico).

A escalação de Loren para o papel principal de "Duas mulheres" foi um tanto problemática, apesar do produtor do filme ser seu marido, Carlo Ponti: quando surgiu a ideia de adaptar o romance de Alberto Moravia, publicado em 1958, o filme seria dirigido por George Cukor e produzido pela Paramount, com toda a estrutura de um grande estúdio hollywoodiano. A protagonista seria vivida por outra italiana, Anna Magnani, com quem Cukor havia trabalho em "A fúria da carne" (57) e que havia sido indicada ao Oscar pelo papel. Loren estaria no elenco, mas como a filha adolescente de Magnani, e então a história oferece duas versões: em uma delas, a estrela de "Roma, cidade aberta" abriu mão do filme por motivos de saúde e recomendou Sophia para o seu papel, certa de que ela não se importaria em interpretar uma mulher mais velha. Em outra, menos favorável à Magnani, ela recusou-se a dividir a cena com a jovem atriz por temer que sua aparência roubasse a cena e se tornasse o principal atrativo do filme. Seja como for, Cukor abandonou o projeto e o filme acabou sendo realizado no país natal de Moravia, em seu idioma original e filmado em cenários naturais - o que, de certa forma, aproximava o resultado final das raízes neorrealistas de seu novo diretor, Vittorio De Sica. Premiado no Festival de Cannes e com o Golden Globe de melhor filme estrangeiro, "Duas mulheres" terminou por beneficiar-se de suas dificuldades iniciais e ficar para a história.


A trama se passa em 1943, em meio ao auge da II Guerra Mundial. Em Roma, a viúva Cesira (Sophia Loren) vive como comerciante, mas, temerosa diante dos constantes bombardeios na capital italiana, decide abandoná-la e esconder-se em sua região natal, no interior do país, deixando sua propriedade aos cuidados de um antigo amante, Giovanni (Raf Vallone). Acompanhada da única filha, a adolescente Rosetta (Eleanora Brown), sua maior razão de viver e preocupação constante, Cesira atravessa cidades a pé, de mula e de trem, sofrendo com a possibilidade de ser atingida por algum dos aviões que fazem voos rasantes ou soldados perdidos pela região. Quando finalmente chega a seu destino, encontra um grupo de moradores que vivem à margem do conflito, ainda que cientes de sua importância no dia-a-dia. Desse grupo faz parte Michele (Jean-Paul Belmondo), um professor com tendências esquerdistas que não demora a encantar-se com a nova integrante do grupo - e que acaba por interessar a jovem Rosetta. A tranquilidade do lugar, porém, é maculada quando um grupo de soldados alemães obriga Michele a guiá-los pelas montanhas - com medo da aproximação da guerra, Cesira resolve voltar para Roma com Rosetta. Mas, para seu desespero, o que as espera é ainda pior que a fome e a miséria.

Restaurado em 2002, "Duas mulheres" é um dos filmes mais importantes da carreira do cineasta Vittorio De Sica - autor do emblemático "Ladrões de bicicleta" - e certamente a produção que atestou a maturidade do talento de Sophia Loren, que entrega uma atuação desesperada e sensual na medida certa. Inspirado em relatos verdadeiros ocorridos durante a II Guerra Mundial na região de Monte Cassino - onde mais de 60 mil mulheres sofreram violência sexual por soldados marroquinos - o romance de Alberto Moravia serviu de base para um filme de guerra onde ela surge apenas como uma sombra perigosa e nefasta, que faz vítimas tanto no campo de batalha quanto fora dele. Mesmo que o roteiro escrito pelo próprio diretor sofra de quedas de ritmo, algumas imagens são fortes o bastante para permanecer na memória do espectador e atestar seu talento em falar tão diretamente à emoção sem apelar para o piegas. Loren, linda e carismática, entrega uma performance arrebatadora - em um papel que repetiu no remake televisivo do filme, realizado em 1988 - e eleva o filme a um patamar acima dos dramas de guerra americanos, normalmente com um nível de patriotismo exagerado. Um filme para quem procura pela verdade humana mais do que por artifícios emocionais.

sexta-feira

NINE

NINE (Nine, 2009, The Weinstein Company, 118min) Direção: Rob Marshall. Roteiro: Michael Tolkin, Anthony Minghella, musical de Arthur Kopit, Maury Yeston, original de Mario Fratti. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Claire Simpson, Wyatt Smith. Música: Andrea Guerra. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: John Myhre/Gordon Sim. Produção executiva: Kelly Carmichael, Michael Dreyer, Ryan Kavanaugh, Tucker Toooley, Bob Weinstein. Produção: John DeLuca, Rob Marshall, Marc Platt, Harvey Weinstein. Elenco: Daniel Day-Lewis, Marion Cottilard, Nicole Kidman, Penelope Cruz, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren, Fergie Duhamel. Estreia: 03/12/09

4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Penelope Cruz), Figurino, Direção de Arte/Cenários, Canção ("Take it all")


Tinha tudo para ser um espetáculo irretocável. Na direção, o homem responsável por carimbar o passaporte dos filmes musicais em direção às boas graças definitivas da crítica, do público e da Academia com o genial “Chicago”. Na liderança do elenco, um dos mais prestigiados e admirados atores de sua geração, Daniel Day-Lewis. Como as mulheres que o rodeiam desde a infância, uma seleção das melhores e mais importantes atrizes em atividade (desde as veteranas Judi Dench e Sophia Loren até a cantora pop Fergie, passando pelas oscarizadas Nicole Kidman, Penélope Cruz e Marion Cottilard). Como cenário, a velha Itália dos anos 60, em especial a antológica Cinecittá – palco dos maiores clássicos cinematográficos do país. E como trama, a adaptação de um sucesso da Broadway que homenageia um dos filmes mais aplaudidos do incensado Federico Fellini, o autobiográfico “8 ½”. Por que, então, com todos esses elementos infalíveis à disposição, o esperado “Nine” resultou tão morno? Tido como um dos favoritos ao Oscar 2010 antes mesmo de sua estreia, o filme de Rob Marshall – que fez barba, cabelo e bigode com seu “Chicago”, na cerimônia de 2003 – acabou decepcionando ao ficar de fora da lista nas categorias principais e, pior ainda, nem de longe repetir o êxito do musical anterior de seu diretor. Quando se assiste ao filme, porém, é impossível não perceber seu calcanhar de Aquiles. Apesar de plasticamente deslumbrante, “Nine” falha justamente no ponto central de um musical: suas canções.
           
Sem o deboche e a ironia que inundavam cada número musical de “Chicago”, Rob Marshall segue o caminho consagrado pelos palcos da Broadway e imprime a “Nine” um tom de seriedade nostálgica e auto-penitente que, não estivessem presentes em um musical, poderiam fazer do filme uma obra-prima. O problema é que, sempre que alguém começa a cantar – mesmo quando é Penélope Cruz exalando sensualidade ou Marion Cottilard injetando profundidade e angústia em uma personagem pouco desenvolvida por um roteiro que também peca pela superficialidade – o ritmo é seriamente comprometido. A edição – precisa em alguns momentos e seriamente equivocada em outros, quando desvaloriza algumas coreografias que precisavam ser mostradas na íntegra como forma de encantar a audiência – não dá conta em costurar todos os retalhos de memória de seu protagonista, truncando a agilidade da narrativa ao invés de empurrá-la para a frente. Diante disso, nem mesmo a brilhante direção de arte e os figurinos luxuosos (ambos merecidamente lembrados pela Academia) conseguem disfarçar a sensação de monotonia que percorre boa parte da projeção – a despeito de seu elenco empolgante e esforçado.
           
Daniel Day-Lewis, por exemplo, está mais uma vez estupendo. Ele vive Guido Contini, um cineasta consagrado que, em vias de começar seu novo trabalho – o nono junto com seu fiel produtor, daí o título original – se vê diante de uma situação até então inédita para ele: um colossal bloqueio criativo. Seu filme já tem título definido – “Itália” – uma protagonista escolhida – a bela e popular Claudia Jenssen (Nicole Kidman) – e uma equipe técnica pronta a começar os trabalhos, mas Guido, pressionado pelos executivos da indústria, pela amante casada , Claudia (Penélope Cruz) e pela esposa amorosa, Luisa (Marion Cottilard), não consegue nem ao menos começar a escrever o roteiro ou pensar em uma trama. Seu dilema – o mesmo que o personagem de Marcello Mastroianni vivia em “8 ½” – acaba por levá-lo a uma viagem inconsciente para dentro de suas memórias, o que fatalmente o põe diante de personagens femininas fortes e formadoras de sua personalidade, como a prostituta Saraghina (Fergie) – que encantava seus dias de criança – e sua calorosa mãe (Sophia Loren).



Não há nada de errado na forma como a trama intercala a realidade de Guido (um personagem torturado pela culpa católica e ao mesmo tempo incapaz de resistir às tentações libidinosas que cruzam seu caminho) com sua imaginação delirante – a atuação de Daniel Day-Lewis, aliás, é formidável, arriscando-se mais uma vez em um gênero até então inédito em sua carreira – nem mesmo o médico mulherengo de “A insustentável leveza do ser” (1988) era capaz de esconder, por medo da danação religiosa, o crucifixo de uma pensão barata na hora de transar com a amante. Porém, não há, no repertório do filme, nenhuma canção forte o bastante para empolgar a plateia, como havia, por exemplo, em “Chicago”. Marshall mantém seu extremo bom-gosto na ambientação de seu trabalho – a fotografia de Dion Beebe é um desbunde, sempre surpreendendo o público com ângulos e iluminações sofisticadas e classudas – mas frequentemente perde a mão no ritmo que impõe à sua narrativa. Mais uma vez ele recorre ao artifício (inteligente e eficaz) de situar os números musicais dentro da mente do protagonista – e como aqui trata-se de um cineasta, nada mais natural que ele veja tudo com luxo e glamour – mas dessa vez não há a ironia marota com que Roxy Hart enxergava as coisas em “Chicago”. E isso faz uma tremenda falta, ainda que a proposta de “Nine” seja, a rigor, bastante distinta de seu irmão mais velho.
            
Mas seria injusto falar em “Nine” sem destacar suas (muitas) qualidades. Mesmo que o elemento principal (a música) seja um tanto quanto enfadonho, o visual elaborado por Marshall e seus colaboradores é espantoso. Filmado na própria Cinecittá, “Nine” tem, em seu visual e seu espírito, a elegância e a sutileza do cinema europeu do período que retrata, seja no guarda-roupa detalhista ou nos cenários meticulosos capazes de encher os olhos da mais descolada plateia. Todos as apresentações musicais (aquelas mesmas que a edição por vezes picota para imprimir agilidade e acaba por enfraquecer) são bem coreografadas e interpretadas por atrizes tão talentosas que extraem o melhor de cada personagem para apresenta-las ao público como figuras interessantes (até a veneranda Judi Dench canta e dança, na pele de Lily, figurinista e confidente de Guido). Nicole Kidman – cujos dotes vocais já foram vistos e aprovados anteriormente em “Moulin rouge: o amor em vermelho” – está linda e delicada como a atriz desejada pelo diretor. Penélope Cruz quase rouba a cena como a amante sexy que dança lençóis de seda e tenta o suicídio (foi indicada ao Oscar de coadjuvante). Kate Hudson (na única personagem um tanto avulsa da trama) tem o número mais animado do filme, “Cinema italiano”. E Fergie usa e abusa de seus dotes de cantora pop para fazer das cenas de sua amante profissional um espetáculo energético e de extrema competência visual. Mas é Marion Cottilard quem dá o que falta a boa parte do vistoso filme de Rob Marshall: alma.
            
Dona de olhos expressivos e uma beleza delicada, a francesa Cottilard – que se transfigurou na cantora Edith Piaf e ganhou um Oscar merecidíssimo de melhor atriz por isso – serve como o contraponto romântico e pé no chão a seu artístico marido. Na pele de uma mulher que abandonou a carreira de atriz para viver para um marido pouco afeito à fidelidade conjugal, ela é dona de dois números musicais (uma das canções, “Take it all”, feita especialmente para o filme, concorreu ao Oscar) e de alguns dos diálogos mais fortes do filme – “Obrigada por me fazer ver que não sou especial!”, ela vomita ao perceber que nem mesmo os gestos românticos do início da relação entre eles eram exclusivos dela. Cottilard dá substância e emoção real à “Nine”, lembrando ao espectador que, mesmo por baixo da suntuosidade e da pompa criada pelo cinema, os sentimentos ainda são a melhor matéria-prima para uma boa história.

quinta-feira

OS GIRASSÓIS DA RÚSSIA

OS GIRASSÓIS DA RÚSSIA (Il girasoli, 1970, AVCO Embassy Pictures, 107min) Direção: Vittorio De Sica. Roteiro: Antonio Guerra, Cesare Zavattini. Fotografia: Giuseppe Rottuno. Montagem: Adriana Novelli. Música: Henry Mancini. Figurino: Enrico Sabbatini. Direção de arte/cenários: Piero Poletto/Giantito Burchiellaro. Produção executiva: Joseph E. Levine. Produção: Arthur Cohn, Carlo Ponti. Elenco: Sophia Loren, Marcello Mastroianni, Lyudmila Saveleva. Estreia: 14/3/70

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original

Os brutos também amam. O título do clássico western de George Stevens serve como perfeito exemplo para ilustrar "Os girassóis da Rússia", dirigido por Vittorio De Sica em 1970. Um dos maiores expoentes do neorrealismo italiano com o incensado "Ladrões de bicicleta", lançado em 1948, no auge do movimento, De Sica demonstra, em sua terceira colaboração com a dupla Sophia Loren/Marcello Mastroianni, que a crueza poética de seu filme mais ilustre poderia ceder lugar à delicadeza de uma história de amor, por mais devastadora que ela seja. Produzido por Carlo Ponti, marido de Loren, o filme foi um dos maiores sucessos da carreira do diretor justamente por apelar para um gênero popular e fugir das polêmicas nas quais a filmografia de seu país natal estava envolvida, ao tratar de temas pesados como terrorismo e política. Uma história de amor à moda antiga, "Os girassóis da Rússia" consegue emocionar ao mesmo tempo em que revela também os horrores da guerra - afinal de contas, ninguém é revelado no neorrealismo à toa.

Assim como a protagonista vivida por Audrey Tautou em "Eterno amor", realizado mais de três décadas depois por Jean-Pierre Jeunet, a Giovanna interpretada por Sophia Loren é uma mulher obcecada e decidida que, munida da certeza mais que absoluta de que seu grande amor não morreu na guerra e está impedido de voltar ao lar, parte em sua busca, sendo exposta às trágicas consequências do conflito. Casada há poucos dias com o hesitante Antonio (Marcello Mastroianni) quando ele partiu para lutar na Rússia, ela passa anos esperando seu retorno ao lar, acompanhada apenas da sogra. Cansada de esperar por notícias, ela toma uma atitude temerária e viaja para o exterior, sabendo, em seu coração, que irá reencontrá-lo, mas não tendo nenhuma certeza das circunstâncias em que isso acontecerá.


O roteiro, co-escrito pelo colaborador habitual de Sica, Cesare Zavattini, usa e abusa dos elementos clássicos do melodrama popular, intercalando com a busca de Giovanna flashbacks do início de seu relacionamento com Antonio e dotando-a da força inerente às heroínas trágicas, capazes de sacrifícios em prol do homem amado. Enquanto procura pelo marido, ela ouve relatos dolorosos da campanha italiana no exterior, filmados com extrema competência pelas lentes do experiente Giuseppe Rottuno, que mescla a frieza da neve com a dourada luz do sol que ilumina os girassóis - metáfora para a falta de controle do ser humano diante do destino. A trilha sonora melodiosa de Henry Mancini - indicada ao Oscar - completa o cenário, emoldurando liricamente uma história sobre renúncia, dor e amores desesperados.

Dirigido com sofisticação e delicadeza, "Os girassóis da Rússia" não tenciona ser um comentário social e político sobre a guerra, mas sim uma singela e comovente história de amor. E para isso, conta com um par central acima de qualquer crítica. Sophia Loren, já premiada com um Oscar e sem precisar provar nada pra ninguém, tem uma atuação primorosa, convencendo nas três fases de sua Giovanna: como a jovem calorosa, a esposa desesperada e a serena mulher convencida de seu destino, ela demonstra que, além de ser um dos mais duradouros símbolos sexuais da Itália, é também uma atriz de primeira. A Marcello Mastroianni resta pontuar com extrema correção o show de Loren.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...