Mostrando postagens com marcador JOE MANTEGNA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador JOE MANTEGNA. Mostrar todas as postagens

segunda-feira

CORPO EM EVIDÊNCIA

 


CORPO EM EVIDÊNCIA (Body of evidence, 1992, Constantin Film/Dino De Laurentiis Company, 99min) Direção: Uli Edel. Roteiro: Brad Mirman. Fotografia: Douglas Milsome. Montagem: Thom Noble. Música: Graeme Revell. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Victoria Paul/Jerie Kelter. Produção executiva: Stephen Deutsch, Melinda Jason. Produção: Dino De Laurentiis, Martin Moscowicz. Elenco: Madonna, Willem Dafoe, Joe Mantegna, Jurgen Prochnow, Frank Langella, Anne Archer, Julianne Moore. Estreia: 15/01/93

Apenas noventa dias separam o lançamento do livro "Sex", do álbum "Erotica" e do filme "Corpo em evidência" e este fato não é mera coincidência. Além de girarem em torno de sexo (em suas mais complexas variações), os três produtos tem algo mais em comum: a cantora/atriz Madonna, então no auge de sua cruzada contra o conservadorismo e a hipocrisia vigente no mundo em geral e nos EUA em particular. Dirigido pelo alemão Uli Edel e produzido pelo veterano Dino De Laurentiis (que escolheu a estrela pop pessoalmente para o projeto), "Corpo em evidência" serviu como uma luva para os interesses messiânicos da artista, mas acabou se espatifando nas bilheterias. Com uma renda mundial de apenas 13 milhões de dólares - nem metade de seu custo - e críticas nem um pouco alvissareiras (em especial relacionadas ao fraco desempenho de sua atriz central), o filme acabou se tornando um dos maiores fiascos da década de 1990 e provou que, apesar do descomunal talento de Madonna em provocar e despertar polêmicas (além de suas óbvias qualidades musicais), sua trajetória no cinema ainda era um desafio a ser vencido. E nem mesmo a presença de atores respeitados como Willem Dafoe e Frank Langella conseguiu salvar o filme do desastre.

Assim como em "Instinto selvagem" - grande sucesso lançado meses antes e que também se utilizava do erotismo como chamariz de bilheteria -, "Corpo em evidência" lança mão de elementos policiais para contar uma história repleta de reviravoltas e com uma protagonista feminina de comportamento dúbio e sexualmente agressivo. Aqui a personagem central é Rebecca Carlson, a dona de uma galeria de arte que é acusada de provocar a morte de seu amante mais velho, Andrew Marsh (Michael Foster), vítima de um ataque cardíaco fulminante depois de uma agitada noite de sexo. O fato de cocaína ser encontrada no organismo da vítima - o que apressou a tragédia - e a notícia de que Rebecca é a maior beneficiária de seu testamento bastam para que a polícia a indicie e a leve a julgamento. Para defendê-la, Rebecca contrata os serviços do conservador Frank Dulaney (Willem Dafoe), que acaba sendo enredado em uma teia de sedução engendrada por sua cliente: os dois iniciam uma relação baseada em dominação e sexo violento, situação que o faz questionar a inocência de sua cliente. Conforme o relacionamento vai avançando, Dulaney parte em busca da verdade, que pode estar ligada à secretária de Marsh, a bela e discreta Joanne Braslow (Anne Archer).

 

Centrado em sequências que usam e abusam do corpo de Madonna e de sua falta de pudor em testar os limites da censura - o filme teve cenas cortadas em sua exibição nos EUA -, "Corpo em evidência" peca, no entanto, em desenvolver a contento os conflitos paralelos de sua trama. Não há profundidade alguma no roteiro de Brad Mirman, que perde preciosas oportunidades de explorar a tensa relação entre seus protagonistas - tanto em termos sexuais quanto éticos - e seus desdobramentos dramáticos (Julianne Moore interpreta a esposa de Dulaney, mas é subaproveitada em cenas quase constrangedoras). A trama policial tampouco é empolgante, caminhando em um ritmo que impede a conexão do espectador - e portanto seu interesse. Edel não consegue nem mesmo transformar as cenas eróticas em algo sexy, com uma fotografia escura que esconde os corpos de Madonna e Defoe mesmo em seus momentos mais quentes. Também não ajuda em nada o texto repleto de clichês e a atuação quase mecânica de seus atores - a começar por Madonna, incapaz de convencer como mulher fatal apesar de seus nítidos esforços. Nem particularmente bonita ela está, prejudicada por um figurino sóbrio em excesso, que apaga seu carisma de estrela - algo que ela recuperaria poucos anos depois, quando assumiu o papel-título do musical "Evita" (1996) e chegou a ganhar um Golden Globe de melhor atriz.

Para quem não exige muito de um filme policial com pitadas de erotismo, "Corpo em evidência" pode agradar, justamente por não tentar fugir dos elementos clássicos do gênero e tentar surpreender com um final tirado da manga. Como cinema é bastante problemático - desde o roteiro morno até a direção apática - e nem mesmo a oportunidade de discutir a polêmica prática do sadomasoquismo é aproveitada de forma inteligente. Não fosse a ousadia de apresentar cenas mais adultas do que a maioria das produções hollywoodianas, seria uma produção bastante esquecível - se não absolutamente medíocre. E não deixa de ser sintomático que um filme policial seja mais lembrado por uma sequência específica - Madonna queimando o peito de Willem Dafoe com cera quente - do que por sua trama.

quinta-feira

ÍNTIMO & PESSOAL

ÍNTIMO & PESSOAL (Up close & personal, 1996, Touchstone Pictures/Cinergi Pictures Entertainment, 124min) Direção: Jon Avnet. Roteiro: Joan Didion, John Gregory Dunne, inspirado no livro de Alanna Nash. Fotografia: Karl Walter Lindenlaub. Montagem: Debra Neil-Fisher. Música: Thomas Newman. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Jeremy Conway/Doree Cooper. Produção executiva: John Foreman, Ed Hookstratten. Produção: Jon Avnet, Jordan Kerner, David Nicksay. Elenco: Robert Redford, Michelle Pfeiffer, Stockard Channing, Joe Mantegna, Kate Nelligan, Glenn Plummer, James Rebhorn, Scott Bryce. Estreia: 01/3/96

Indicado ao Oscar de Canção Original ("Because you loved me")



Primeiro foi o sucesso da Touchstone Pictures em conseguir os direitos do livro "Almost golden: The Jessica Savitch Story", escrito por Allana Nash. Depois, a expectativa em realizar um filme capaz de chamar a atenção do público e da crítica - além de faturar estatuetas douradas pelo caminho. E no fim, o desespero de perceber que o material que tinham em mãos era radicalmente o oposto do que se poderia esperar de uma produção com o selo Disney. É de imaginar o que um estúdio conhecido por seus filmes realizados para a família poderia pensar ao ler uma história sombria e trágica, com uma protagonista envolvida com álcool, drogas, maridos abusivos e até suicídio. Tendo isso em conta, é compreensível que a trajetória de Savitch - uma das primeiras mulheres a assumir o cargo de âncora em um telejornal nos EUA, no final dos anos 70 - tenha se metamorfoseado, então, em "Íntimo & pessoal", um açucarado drama romântico que em nada (ou quase nada) lembra sua origem dramática e que, por ironia, passou batido nas cerimônias de premiação e nem mesmo entusiasmou seu público-alvo. Um entretenimento apenas razoável, o filme de Jon Avnet (do bem-sucedido "Tomates verdes fritos", de 1991) só não é totalmente esquecível graças à beleza e ao carisma de sua estrela, Michelle Pfeiffer - que, por sua vez, deve ter sido a mais frustrada da história toda.

Recém saída de um parto e sem disposição para filmagens extensas e cansativas fora dos EUA, Pfeiffer recusou o papel principal de "Mistress of the sea" - um filme de ação sobre piratas do sexo feminino e que nunca chegou a ser realizado - para estrelar "Íntimo & pessoal" quando o filme de Avnet ainda era sobre Jessica Savitch e sua história, tragicamente encerrada em decorrência de um acidente de carro em outubro de 1983. Conhecida nacionalmente por seu trabalho como repórter e apresentadora, Savitch cobriu eventos importantes para o país, como as convenções dos partidos Democrata e Republicano de 1980 - mas era mais conhecida por seu carisma e pela naturalidade diante das câmeras (apesar de ter seu talento ser frequentemente questionado por detratores, que a consideravam apenas um rosto bonito). Poucas semanas antes de sua morte, em um incidente que muitos consideraram um forte indício de que ela poderia realmente estar abusando de drogas, Savitch fez uma desastrosa aparição ao vivo na NBC, parecendo completamente perdida e incoerente. Sua morte não encerrou as discussões sobre o assunto - mas sua vida pessoal era muito mais complexa do que todos pensavam, mas tudo que fazia dela tão especial em termos dramáticos foi simplesmente apagado do roteiro quando a Touchstone decidiu que, ao invés de explorar os demônios de sua protagonista, iria direcionar o foco do filme para uma história de amor que não tinha absolutamente nada a ver com a realidade.



Surgia assim, então, Sally Atwater, uma jovem e ambiciosa modelo que, disposta a tornar-se conhecida como repórter televisiva, abandona seu estado natal, a Pensilvânia, e parte para Miami. Contratada como assistente, ela não demora a demonstrar garra o bastante para ser escolhida como a "moça do tempo" da NBC - e, em seguida, passar a fazer pequenas reportagens para a emissora. Com o apoio do experiente Warren Justice (Robert Redford), Sally (já devidamente rebatizada como Tally) aos poucos começa a subir mais degraus na carreira, e os dois iniciam um romance maduro e honesto. O futuro do relacionamento, porém, é posto à prova quando Tally se torna um rosto conhecido no país inteiro - e Justice se vê diante de uma séria crise que lhe coloca em posição inferior no campo profissional. Enquanto Tally ascende cada vez mais, ele busca uma maneira de continuar trabalhando e encontrando desafios que o façam sentir-se vivo e importante.

Uma espécie de "Nasce uma estrela" dentro do jornalismo, "Íntimo & pessoal" é uma produção que não atinge todos os seus potenciais. Nem de longe perto do brilhantismo de seu "Tomates verdes fritos", Jon Avnet entrega um trabalho apenas correto, ainda que muitas vezes de uma simplicidade narrativa excessiva. Robert Redford não tem muito o que fazer na pele de Warren Justice, um personagem sem grande complexidade, e até mesmo Michelle Pfeiffer, apesar do carisma e do talento, não consegue ultrapassar os limites de uma protagonista retratada com insegurança pelo roteiro: na primeira metade do filme, Tally é uma personagem de comédia romântica, com direito até mesmo a cenas bem-humoradas (que nem sempre funcionam); e na reta final assume ares de heroína trágica, com momentos lacrimosos sublinhados pela bela "Because you loved me", na voz de Céline Dion. Essa quase esquizofrenia do filme é que dificulta à plateia envolver-se totalmente em sua história - pode até emocionar aos mais sensíveis, mas, perto do que poderia ter sido (especialmente com todos os dramas vividos por Savitch, sua inspiração original), é apenas um drama derivativo e previsível. Fácil de assistir, mas igualmente fácil de esquecer.

terça-feira

OLHO POR OLHO

OLHO POR OLHO (Eye for an eye, 1996, Paramount Pictures, 104min) Direção: John Schlesinger. Roteiro: Amanda Silver, Rick Jaffa, romance de Erika Holzer. Fotografia: Amir Mokri. Montagem: Peter Honess. Música: James Newton Howard. Figurino: Bobbie Read. Direção de arte/cenários: Stephen Hendrickson/Jan K. Bergstrom. Produção: Michael I. Levi. Elenco: Sally Field, Ed Harris, Kiefer Sutherland, Joe Mantegna, Philip Baker Hall, Keith David, Beverly D'Angelo, Charlayne Woodard. Estreia: 12/01/96

Desde que Charles Bronson vingou a morte da família no cultuado "Desejo de matar", de 1972, a justiça pelas próprias mãos tornou-se um assunto recorrente no cinema americano, mas normalmente como tema de filmes de orçamento limitado, com atores do segundo time e diretores pouco afeitos a objetivos outros que não lucrar com o desejo ilimitado da plateia em saborear o sangue marginal de vilões cruéis e dotados de todo o maniqueísmo de que um roteirista é capaz. Por isso não deixa de ser surpreendente ver uma atriz do nível de Sally Field e um diretor como John Schlesinger - ambos respeitados e vencedores do Oscar - envolvidos em "Olho por olho", um drama de suspense que, no fundo e apesar de contar com nomes de prestígio nos créditos, não passa de uma versão menos trash das dezenas de filmes do estilo. O fato de ser baseado em um livro não impede o roteiro de tropeçar em todos os clichês possíveis e só mesmo a presença da sempre carismática Sally Field impede a produção de soar como mais um telefilme barato.

Dirigido no piloto automático por John Schlesinger - que no passado comandou o clássico moderno "Perdidos na noite" (69) - "Olho por olho" peca principalmente por não acrescentar nada ao que já é quase um subgênero do cinema norte-americano. Seu filme não é um drama marcante, nem tampouco um suspense aterrorizante. Não desperta discussões a respeito de seu tema ou permanece na mente do espectador após o final da sessão. E é justamente essa falta de ousadia ou personalidade que joga no lixo todas as possibilidades da história, já não tão original. Karen McCann (Sally Field, boa atriz mas desperdiçada em um papel sem grandes nuances) leva uma vida pacata e feliz ao lado do marido, Mack (Ed Harris) e das duas filhas, Julie (Olivia Burnette) - do seu primeiro casamento - e Megan (Alexandra Kyle). Essa vida normal sofre um violento baque quanto Julie é estuprada e morta em casa, praticamente diante dos olhos de sua mãe, que ouve tudo pelo celular. A dor da perda logo é amenizada quando a polícia prende o criminoso, Robert Doob (Kiefer Sutherland, exercitando mais uma vez seu lado maligno), mas tudo vai por terra quando ele é absolvido por questões técnicas. Revoltada, Karen entra em um grupo de ajuda a pais na mesma situação e, escondida do marido, resolve vingar-se por conta própria do assassino.


Contando com a ajuda de dois colegas do grupo, Karen arruma uma arma, entra em aulas de defesa pessoal e tiro, enquanto inicia uma relação de confiança e amizade com outra integrante, Angel (Charlayne Woodard), que perdeu um filho pequeno em um assalto. Quando Doob passa a desconfiar das ideias de Karen - que ronda sua vizinhança como forma de planejar sua morte - as coisas ficam ainda piores: sentindo que o marginal também não hesitará em atacar a pequena Megan como represália, ela abre mão dos conselhos do marido e do bom-senso para vingar-se em grande estilo. Nem mesmo uma surpresa na sua relação com Angel a demove da ideia, que toma forma definitiva quando ela manda a família passar uma noite fora da casa onde vivem.

Sem grandes surpresas que justifiquem sua realização - o desfecho é anti-climático e a forma encontrada por Karen de sair da história de mãos limpas não chega a ser exatamente original - "Olho por olho" é o tipico filme que vale exclusivamente por seu elenco, repleto de talentos isolados que valorizam o produto final. Sally Field substituiu Jamie Lee Curtis e não precisa provar seu talento dramático no mínimo desde seu primeiro Oscar, por "Norma Rae" (79) e, apesar de ser subaproveitado como o marido da protagonista - que faz pouco mais do que ficar a seu lado durante seus momentos de crise emocional - Ed Harris segura com competência o nível de interpretação de Field, e Kiefer Sutherland mostra mais uma vez porque era um dos vilões preferidos de Hollywood antes de virar o herói Jack Bauer na série televisiva "24 horas". É o trabalho dos três que faz de um filme apenas médio uma sessão razoavelmente interessante.

segunda-feira

ESQUEÇA PARIS

ESQUEÇA PARIS (Forget Paris, 1995, Castle Rock Entertainment, 101min) Direção: Billy Crystal. Roteiro: Billy Crystal, Lowell Ganz, Babaloo Mandel. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Kent Beyda. Música: Marc Shaiman. Figurino: Judy Ruskin. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/Michael Seirton. Produção executiva: Peter Schindler. Produção: Billy Crystal. Elenco: Billy Crystal, Debra Winger, Joe Mantegna, Cynthia Stevenson, Richard Masur, Julie Kavner, William Hickey, Cathy Moriarty. Estreia: 19/5/95

Levando-se em consideração que um dos maiores sucessos da carreira de Billy Crystal foi a comédia romântica "Harry & Sally, feitos um para o outro", que ele estrelou ao lado de Meg Ryan em 1989, não é de estranhar que ele tenha tentado repetir a façanha quinze anos depois. Em "Esqueça Paris" ele não apenas aparece como protagonista masculino de uma história de amor recheada de sarcasmo e ironia: ele também é o diretor, o produtor e um dos roteiristas, ao lado dos então festejados Lowell Ganz e Babaloo Mandel. Vindo do sucesso modesto de "Mr. Saturday Night, a arte de fazer rir" (92), o cineasta Crystal mostra-se dotado de ritmo, inteligência, sensibilidade e seu tradicional bom humor, mas nada disso ajudou na carreira nacional e internacional do filme. Azar de quem perdeu. Seu filme é uma deliciosa comédia que, assim como "Harry & Sally", analisa de forma carinhosa/ácida/romântica, as relações amorosas em geral ao concentrar-se em uma única tram: a história de idas e voltas do casal Mickey Gordon (vivido pelo próprio Crystal) e Ellen Andrews (Debra Winger, esbanjando um insuspeito timing cômico).

Mickey é um voluntarioso árbitro de basquete que vive em Nova York. Ellen é funcionária de uma empresa de aviação e vive em Paris. O destino os apresenta quando ele precisa viajar até a França para enterrar o corpo do pai - um veterano de guerra com quem ele não mantinha a melhor das relações - e a companhia onde ela trabalha envia o caixão, por engano, para outro país. Afastado de suas funções devido a uma confusão em uma partida, Mickey resolve passar uma semana na capital francesa e Ellen se oferece para servir de guia em seus passeios. Não demora muito e logo eles estão apaixonados como nas melhores produções do gênero, com direito à música romântica, citações cinematográficas e paisagens deslumbrantes - além de, como não poderia de ser em se tratando de um filme de Billy Crystal, diálogos brilhantes e engraçadíssimos. Acontece que ela tem um grave impedimento para a continuidade do romance - além da distância física que os separa na vida cotidiana - e eles irão viver uma história de amor das mais atribuladas pelos anos seguintes.


Quanto menos se souber a respeito dos desdobramentos de "Esqueça Paris" melhor - ainda que ele continue saboroso mesmo quando revisto. Todos os empecilhos à felicidade entre Mickey e Ellen que surgem no desenrolar da trama soam orgânicos e realistas, apesar do tom cômico imposto pelo roteiro, que muitas vezes se sobressai aos elementos dramáticos. Carreira, família e dificuldades diversas se interpõem entre eles e o final feliz dos seus sonhos, mas sempre de forma leve e divertida, permitindo ao público um equilíbrio perfeito entre risadas e reflexões - equilíbrio muito ajudado pela química excelente entre o casal protagonista. Se Crystal já tinha mostrado seu lado conquistador/cínico ao lado de Meg Ryan quase uma década e meia antes, é Debra Winger quem se destaca, revelando uma faceta nova a seus fãs: solar e encantadora, ela brinca de Katharine Hepburn - uma mulher independente, batalhadora, de língua afiada - com uma classe e um carisma raros em sua carreira recheada de personagens dramáticos e densos. Talvez seja ela a maior qualidade de um filme repleto delas.

E entre as várias qualidades de "Esqueça Paris" está, sem dúvida, a estrutura com que o roteiro é montado: a história de Mickey e Ellen é contada ao público ao mesmo tempo em que é narrada à Liz (Cynthia Stevenson), que está prestes a casar-se com um dos melhores amigos de Mickey, o vendedor de carros Andy (Joe Mantegna). No decorrer do filme, não apenas Andy mas outros casais amigos - e conhecedores da complicada relação - vão acrescentando detalhes à deliciosa narração, com pontos de vista díspares e observações argutas sobre a vida social, a instituição do casamento e até mesmo sobre suas próprias vidas. Como prova da capacidade incrível de Crystal em criar personagens interessantes, até mesmo o garçom que serve a mesa dos personagens - vivido pelo ótimo Robert Constanzo - tem seus momentos de brilho, diante de um elenco coadjuvante excepcional que inclui Cathy Moriarty, Julie Kavner e Joe Mantegna em dias inspirados.

"Esqueça Paris" é um filme que merece ser descoberto e cultuado. Assim como "Harry & Sally", é inteligente, sensível, engraçado e dotado de um realismo sofisticado e banhado em delicadeza. Um dos melhores e mais subestimados filmes românticos dos anos 90.

terça-feira

SOB SUSPEITA

SOB SUSPEITA (Suspect, 1987, TriStar Pictures, 121min) Direção: Peter Yates. Roteiro: Eric Roth. Fotografia: Billy Williams. Montagem: Ray Lovejoy. Música: Michael Kamen. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte: Stuart Wurtzel. Produção executiva: John Veitch. Produção: Daniel A. Sherkow. Elenco: Cher, Dennis Quaid, Liam Neeson, John Mahoney, Joe Mantegna, Philip Bosco. Estreia: 23/10/87

Em seu caminho para tornar-se uma atriz séria e respeitada - e não apenas uma figura excêntrica do mundo pop, como apontava sua carreira como cantora ao lado do marido Sonny Bono nos anos 60 - Cher soube escolher como ninguém seus papéis. Foi indicada ao Oscar de coadjuvante pela lésbica que viveu em "Silkwood, o retrato de uma coragem" (83), ao lado de Meryl Streep e foi eleita a melhor atriz do Festival de Cannes 1985 como a mãe coragem de um adolescente deformado por uma doença rara em "Marcas do destino". No mesmo ano em que finalmente levou pra casa sua estatueta dourada pela comédia romântica "Feitiço da lua", ela demonstrou versatilidade em dois outros filmes radicalmente diferentes: na mescla de humor negro/horror/comédia "As bruxas de Eastwick", de George Miller (em que atuou ao lado do já consagrado Jack Nicholson e das futuras estrelas Michelle Pfeiffer e Susan Sarandon) e em "Sob suspeita", um correto mas burocrático drama de tribunal dirigido pelo veterano Peter Yates. Na pele de uma defensora pública envolvida em um crime aparentemente banal, a estrela que um dia fez pouco dos conselhos da tradicional Academia de Hollywood para vestir-se como uma atriz séria mostrou que não é o figurino que

No filme de Yates, Cher vive Kathleen Riley, uma defensora pública de Washington solitária e levemente workaholic que, às vésperas do Natal recebe a incumbência de defender um sem-teto acusado de ter assassinado a secretária de um juiz que acaba de se suicidar. O caso é, a príncipio, bastante simples. O réu, Carl Wayne Anderson (Liam Neeson) estava de posse da bolsa da vítima e foi encontrado dormindo em seu carro, o que imediatamente o coloca como culpado aos olhos de todo o tribunal. Porém, Riley não é de desistir tão facilmente, principalmente quando descobre que seu cliente é surdo-mudo, vítima da guerra do Vietnã. Enquanto tenta provar sua inocência - mesmo sendo sistematicamente boicotada pelo juiz Helms (John Mahoney) - ela conta com a inesperada ajuda do lobista Eddie Sanger (Dennis Quaid), com quem acaba se envolvendo.


Como todo bom filme de tribunal, "Sob suspeita" não prescinde das reviravoltas que levam a trama aparentemente simples a caminhos perigosos e jamais imaginados inicialmente. O roteiro de Eric Roth - que menos de uma década depois levaria um Oscar por "Forrest Gump, o contador de histórias" (94) - é feliz em desenhar sua história sem pressa, levando o espectador a descobrir junto com os protagonistas a teia de conspiração que se revela no último ato, apesar do final anti-climático. Apesar de não dividirem muitas cenas românticas, Cher e Dennis Quaid tem uma química interessante e ela demonstra uma segurança em cena que demonstra claramente que já estava mais do que preparada para o prestígio que viria a obter em seguida. Seus duelos com Liam Neeson - que fala com os olhos e com o corpo mais do que o suficiente para prender a atenção da plateia - são repletos de uma tensão que infelizmente não se mantém no restante do filme, que muitas vezes se perde em cenas pouco interessantes. Felizmente, no entanto, "Sob suspeita" tem mais qualidades do que defeitos, o que faz dele um bom programa para fãs do gênero (ou da atriz).

É dificil gostar de filmes de tribunal e não se deixar conquistar por "Sob suspeita". É bem escrito, dirigido com correção e interpretado por atores extremamente competentes, além de ter uma trama com uma boa cota de reviravoltas que não apelam para a violência gratuita ou para o sadismo puro e simples de muitos filmes que se arriscam a contar histórias policiais. No final das contas, é mais um bom trabalho de Cher como atriz, provando-a uma artista multi-facetada que infelizmente deixou o cinema de lado a partir do final da década de 90 para voltar a dedicar-se à música pop. Ganharam as pistas de dança, mas perdeu o cinema.

quarta-feira

SIMPLESMENTE ALICE

SIMPLESMENTE ALICE (Alice, 1990, Orion Pictures, 102min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Mia Farrow, Alec Baldwin, Blythe Danner, Judy Davis, William Hurt, Joe Mantegna, Cybill Sheperd, Gwen Verdon, Julie Kavner. Estreia: 25/12/90

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Que Woody Allen é um cineasta autoral, independente e criativo todo mundo sabe! Dono de uma carreira que, a despeito de não ter nenhum êxito comercial retumbante é absolutamente respeitada pela integridade, ele é capaz de equilibrar pequenas obras-primas como "Crimes e pecados" com filmes que não obtiveram o mesmo sucesso entre a crítica e o público, como é o caso de "Simplesmente Alice". Mesmo tendo sido indicado ao Oscar de roteiro original, o 21º longa-metragem de Allen não tem o mesmo frescor que a maioria de seus trabalhos, utilizando elementos de outros filmes com a sua assinatura ao lado de um elemento novo:a fantasia.

Mia Farrow é novamente a protagonista em "Simplesmente Alice". Ela vive Alice Tate, uma mulher que vive dividida entre compromissos sociais, visitas ao shopping e aos salões de beleza e um casamento morno com o bem-sucedido Doug (William Hurt). Sofrendo de constantes dores nas costas, ela visita o afamado Dr. Yang (Keye Luke), acunpunturista recomendado por todas as suas amigas. Surpreendida pelo tratamento do médico oriental, que lhe oferece os mais variados tipos de ervas naturais - que permitem que ela fique invisível, que fale com um ex-namorado morto (Alec Baldwin) e que se torne menos tímida - ela aproveita o momento para levar adiante um hesitante romance com Joe Ruffalo (Joe Mantegna), músico divorciado, pai de uma colega de seus filhos pequenos. Além disso, passa a questionar suas escolhas em abandonar tudo para tornar-se esposa e mãe.



A trama lembra "A outra", filme bastante superior dirigido por Allen em 1988. No entanto, o cineasta não é feliz em lançar mão de alguns artifícios que não combinam com seu estilo. Ver Alice voando sobre Nova York ao lado do falecido namorado não encanta como deveria e sim torna-se bobo. Até mesmo o fato de conseguir ficar invisível para espionar a vida do amante, das melhores amigas e do marido infiel soa como uma solução fácil e sem imaginação. Suas dúvidas a respeito de seguir uma nova carreira como escritora e sua relação mal-resolvida com a irmã advogada (Blythe Danner, mãe da atriz Gwyneth Paltrow) são extremamente semelhantes às questões levantadas por Gena Rowlands em "A outra", mas sem o peso e a densidade do filme anterior.

Sendo assim, "Simplesmente Alice" é um filme ruim? De jeito nenhum. Woody Allen é incapaz de criar alguma coisa que seja menos do que interessante. Mia Farrow novamente entrega uma atuação consistente, mesmo quando sua personagem passa por situações quase inverossímeis. O elenco coadjuvante também não atrapalha nem um pouco - até mesmo Joe Mantegna consegue apagar sua imagem de "gângster" e William Hurt, apesar de não ter muito o que fazer, pontua com correção mais uma grande interpretação de Mia. Nem mesmo o final um tanto abrupto consegue esconder o fato, no entanto, de que Allen tem o que dizer em qualquer trabalho que assine.

"Simplesmente Alice" não é um dos mais populares trabalhos de Woody Allen. Ao assistí-lo logo se vê os motivos. Não é particularmente engraçado nem especialmente sério. Mas é Woody Allen é sempre Woody Allen, quer seja para o bem ou para o mal.

terça-feira

O PODEROSO CHEFÃO - PARTE III

O PODEROSO CHEFÃO PARTE III (The godfather, part III, 1990, Paramount Pictures/American Zoetrope Studios, 169min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Lisa Fruchtman, Barry Malkin, Walter Murch. Música: Carmine Coppola. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Gary Fettis. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins, Roger Mussenden. Produção executiva: Fred Fuchs, Nicholas Gage. Produção: Francis Ford Coppola. Elenco: Al Pacino, Diane Keaton, Talia Shire, Andy Garcia, Eli Wallach, Joe Mantegna, George Hamilton, Bridget Fonda, Sofia Coppola, John Savage. Estreia: 25/12/90

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Andy Garcia), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários

Uma obra-prima com falhas ainda pode ser considerada uma obra-prima? Essa é a grande pergunta que fica no ar depois dos créditos de encerramento de "O poderoso chefão parte III", o final da saga da família Corleone, realizado dezesseis anos depois do segundo capítulo e dirigido pelo mesmo Francis Ford Coppola. Feito para sanar as dificuldades financeiras da produtora do cineasta - dificuldades recorrentes, aliás, em sua genial carreira - o encerramento da história de Michael Corleone dividiu a crítica, não fez o mesmo sucesso de bilheteria de seus antecessores e falhou em conquistar os Oscar a que foi indicado - incluindo Melhor Filme e diretor. Mas mesmo que não repita o brilhantismo dos dois primeiros filmes é um capítulo final emocionalmente poderoso e inesquecível. Tem falhas - principalmente uma que atende pelo nome de Sofia Coppola - mas fascina, envolve e surpreende como toda boa obra-prima.

A trama de "O poderoso chefão parte III" se passa em 1979 e começa quando Michael Corleone (Al Pacino, no auge do talento), envelhecido, tenta apagar seu passado sangrento iniciando uma relação de negócios com o Vaticano. Buscando fugir da vida repleta de violência em que viveu até então, ele almeja limpar o nome da família, deixando assim um legado de respeitabilidade aos filhos - o rebelde Anthony (Franc D'Ambrosio), que abandona a faculdade de Direito para tornar-se cantor lírico e a delicada Mary (Sofia Coppola, o nêmesis do filme). No entanto, o rastro de sangue deixado por seu passado não o deixa seguir tranquilamente seus planos quando Vincent Mancini (Andy Garcia), filho bastardo de seu irmão mais velho, Sonny, assume o posto como seu segurança pessoal. Temperamental e impulsivo como o pai, Vincent se apaixona por Mary e, com a fragilidade cada vez maior da saúde de Michael, começa a comandar uma feroz vingança contra os traidores da família. Para isso, conta com a ajuda da até então neutra Connie (Talia Shire).

É impressionante como "O poderoso chefão parte III" não se utiliza de meias-palavras. Enquanto o primeiro filme não mencionava a palavra máfia e jamais ousava sair do circuito familiar dos negócios dos Corleone, aqui Coppola e Mario Puzo vão até Wall Street e o Vaticano para deixar bem claras as implicações e as conexões entre a Igreja, as finanças e os negócios escusos da família. O cineasta não tem medo de explicitar a hipocrisia do catolicismo - dinheiro em troca de perdão incondicional - nem tampouco de especular sobre a morte do Papa então no poder. As sequências religiosas do filme, aliás, estão entre as mais espetaculares do filme, em especial a emocionante confissão de Michael, arrependido e cheio de remorsos pelas mortes que carrega nas costas, em especial a do irmão Fredo - é arrepiante quando, em uma de suas crises de saúde, ele grita seu nome, em uma espécie de delírio que somente um ator do porte de Pacino é capaz de transmitir sem soar patético ou forçado. Absolutamente ciente de seu poder como intérprete, ele é, inclusive, a razão de ser de todo o filme, uma força catalisadora que transforma tudo em um espetáculo de encher a alma e os olhos.

Visualmente, o terceiro capítulo da saga dos Corleone é o mais bem-acabado. Lindamente fotografado por Gordon Willis e com uma direção de arte impecável, o filme de Coppola seduz com seus enquadramentos meticulosamente planejados, realizados com uma competência ímpar - coisa de quem sabe o que faz! A estética chiaroscuro de algumas cenas casa com perfeição às incoerências do coração de Michael - um homem torturado por um passado negro que não o deixa vislumbrar um futuro brilhante, uma personagem de Shakespeare perdida em algum canto da Sicília. E é na Sicília, inclusive, que Coppola encerra sua história, em quarenta minutos dos mais excitantes que o cinema pode produzir.
 
Ao reunir todos os protagonistas de seu filme na apresentação da ópera "Cavalleria Rusticana", de Mascagni - que versa basicamente sobre vendetta - Coppola e Puzo praticamente montaram um ato final que beira à perfeição cinematográfica e emocional. A edição excepcional, a música poderosa e os desdobramentos de toda uma vida dedicada ao crime, ao sangue e à vingança são apresentados à plateia de forma arrebatadora, culminando na provavelmente mais angustiante cena de desespero de toda a série (e mais uma vez é Al Pacino o responsável por tamanho show). Poucas vezes foi visto no cinema uma conjunção de fatores tão alinhada quanto nessa derradeira meia-hora, em que fica patente o talento descomunal de Coppola de transformar em arte uma necessidade financeira. E quando o filme acaba, ao som da melancólica música de Nino Rota, até mesmo os pecados cometidos por ele acabam sendo perdoados, inclusive a escalação de sua filha Sofia no crucial papel de Mary Corleone. Mas, afinal, ela mereceu toda essa malhação plena, geral e irrestrita? A resposta é uma só: SIM.
 
Ao assumir o papel que até às vésperas do início das filmagens era de Winona Ryder - que teria sua chance de trabalhar com Coppola em "Drácula de Bram Stoker", dois anos depois - a filha do diretor colocou em risco toda a credibilidade do projeto e de um trabalho árduo, minucioso e adorado tanto por crítica quanto por público - a própria série "O poderoso chefão". E mesmo que, justiça seja feita, hoje em dia ela seja uma cineasta sensível e competente - "As virgens suicidas" e "Encontros e desencontros" estão aí para comprovar a afirmação - como atriz Sofia é um fiasco. Ela é o único elo perigosamente fraco do filme, e levando-se em conta que sua personagem é vital para o desenrolar da trama, ela quase compromete todo o resultado final. Suas cenas românticas com Andy Garcia e dramáticas com Al Pacino são constrangedoras e é difícil não ficar pensando em como as coisas poderiam ter sido bem melhores se Winona não tivesse se afastado do projeto. Sofia é, sim, a pior coisa de "O poderoso chefão parte III". Felizmente o resto é tão bom que não nos resta alternativa a não ser perdoar Francis por tamanho erro.

Contemplativo, triste, melancólico e saudosista, "O poderoso chefão parte III" encerra com coerência e pompa um dos trabalhos mais sensacionais produzidos pela história de Hollywood. Ainda bem que filmes duram para sempre!

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...