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segunda-feira

TREM-BALA


TREM-BALA (Bullet train, 2022, Sony Pictures Entertainment, 127min) Direção: David Leitch. Roteiro: Zak Olkewicz, romance de Kôtarô Isaka. Fotografia: Jonathan Sela. Montagem: Elisabet Ronaldsdóttir. Música: Dominic Lewis. Figurino: Sarah Evelyn. Direção de arte/cenários: David Scheunemann/Elizabeth Keenan. Produção executiva: Brent O'Connor, Ryosuke Saegusa, Kat Samick, Yuma Terada. Produção: Antoine Fuqua, David Leitch, Kelly McCormick. Elenco: Brad Pitt, Aaron Taylor-Johnson, Joey King, Brian Tyree-Henry, Andrew Koji, Hiroyuki Sanada, Michael Shannon, Bad Bunny, Logan Lerman, Sandra Bullock. Estreia: 18/7/2022 (Paris)

Publicado no Japão em 2010, o livro "Trem-bala", escrito por Kôtarô Isaka, tornou-se um fenômeno, com mais de 700 mil exemplares vendidos, e acabou, como não poderia deixar de ser, chamando a atenção de Hollywood. Com os direitos adquiridos pela Sony Pictures e produzido com um orçamento de 90 milhões de dólares, a intrincada história de cinco assassinos profissionais cujas missões se cruzam em uma inusitada viagem chegou às telas com um elenco de primeira linha, um diretor acostumado a sequências recheadas de adrenalina e a responsabilidade de devolver ao público o hábito de ir às salas de exibição depois do longo hiato provocado pela Covid-19. Com uma renda acumulada de quase 240 milhões de dólares internacionalmente, é difícil dizer que fracassou em seu intento - mas dividiu a crítica e não fez o barulho que se poderia esperar. Mesmo assim, o resultado final é um delicioso filme de ação, com inspirados momentos de humor e um visual dos mais caprichados dos últimos anos.

Na direção, que ficaria a cargo de Antoine Fuqua, o cineasta David Leitch, cujo currículo apresenta produções extremamente comerciais, como "Deadpool 2" (2018) e "Velozes e furiosos: Hobbs & Shaw (2019) - além do subestimado e estiloso "Atômica" (2017) - deixou de lado o tom mais sério proposto no projeto original para assumir sem medo o caos, o deboche e a ironia. Com diálogos rápidos, idas e vindas no tempo, cenas de luta empolgantes e personagens excêntricos, o roteiro de "Trem-bala" nem sempre é rigorosamente fiel a seu material original, mas até mesmo as alterações feitas na trama do livro servem com perfeição à visão iconoclasta de Leitch, que prescinde das definições levianas de heróis e vilões, algozes e vítimas: durante as pouco mais de duas horas de duração do filme, nada que é dito é completamente confiável e nenhuma verdade é absoluta. Tal opção pelo dúbio e pela diversão ao invés da sobriedade faz de "Trem-bala" um produto raro, um respiro muito bem-vindo a um gênero que normalmente falha em tal equilíbrio. E se a presença de Brad Pitt parece apontar para um filme calcado em um grande astro - e caro, com um cachê milionário de 20 milhões de dólares -, o desenvolvimento do roteiro insiste em sua principal característica: não há um personagem central além do trem que dá nome ao filme. 

A princípio até pode parecer que Pitt é o personagem principal da trama, já que é o maior nome do cartaz e o primeiro a surgir na tela, mas não demora para que fique perceptível que seu Ladybug é apenas uma peça em um tabuleiro repleto delas. Escalado por sua superior (cuja intérprete-surpresa surge apenas nos momentos finais) a recuperar uma maleta em um trem-bala que viaja de Tóquio a Kyoto, Ladybug - que está passando por momentos difíceis na carreira, sendo acusado de não conseguir lidar com a agressividade - embarca no veículo sem ter a menor ideia de que sua missão está longe de ser simples como parece. No mesmo local, estão outros dois assassinos de aluguel, Tangerine (Aaron Taylor-Johnson) e Lemon (Bryan Tyree Henry), e a misteriosa Prince (Joey King) - que apesar do nome, esconde uma identidade feminina e um violento trauma familiar. Contratados pelo infame mafioso White Death (Michael Shannon) para salvar seu jovem filho das mãos de sequestradores, Lemon e Tangerine acabam por cruzar o caminho de outros criminosos beligerantes e cruéis - e, no decorrer do caminho, alianças são feitas e desfeitas, fatos do passado são trazidos à tona, reviravoltas acontecem a cada parada e até uma cobra assassina parece fazer parte de uma trama cujos desdobramentos remetem a coincidências das mais bizarras.

"Trem-bala" é um filme com inúmeras qualidades, mas justamente elas podem incomodar parte dos espectadores. Seu humor - um tanto macabro e violento - não é exatamente convencional. A estrutura do roteiro - repleta de flashbacks e flash forwards -  obriga a uma atenção extra que poucos estão dispostos a conceder diante do cinema quase preguiçoso que vem sendo oferecido pelos grandes estúdios. A falta de um herói - por mais que Ladybug seja uma espécie de fio condutor da trama ele não é o protagonista absoluto - talvez confunda àqueles que buscam uma narrativa mais simples. E o visual elaborado (cortesia da fotografia admirável de Jonathan Sela) pode soar como excessivamente colorido e kitsch. Mas o fato é que, somadas todas as características que fazem dele um filme de ação que tenta fugir da pasteurização do gênero, o resultado é uma produção muito acima da média, que não perde o ritmo em momento algum, que apresenta personagens interessantes interpretados por um elenco impecável e que não hesita em oferecer sequências coreografadas com precisão cirúrgica. É divertido, inteligente e produzido com extrema competência. Quanto ao fato de ser baseado em um livro japonês e contar com atores ocidentais é uma outra discussão, mais séria e mais profunda que em nada atrapalha o prazer de ser envolvido por um filme por 127 minutos de entretenimento puro.

terça-feira

AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL

AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL (The perks of being a wallflower, 2012, Summit Entertainment, 102min) Direção: Stephen Chbosky. Roteiro: Stephen Chbosky, romance de sua autoria. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Mary Jo Markey. Música: Michael Brook. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Inbal Weinberg/Merissa Lombardo. Produção executiva: Stephen Chbosky, James Powers. Produção: Lianne Halfon, John Malkovich, Russell Smith. Elenco: Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller, Paul Rudd, Dylan McDermott, Melanie Linskey, Joan Cusack, Johnny Simmons, Mae Whitman, Kate Walsh. Estreia: 08/9/12 (Festival de Toronto)

Sempre que um livro ou filme tenta "definir" uma geração ou descrevê-la com intenções sociológicas corre o sério risco de uma generalização oca e simplista. A sorte é que, apesar da desvantagem numérica, para cada dezena de bombas metidas a profundas surge uma pérola capaz de devolver aos cinéfilos a esperança e o sorriso. É o que acontece com "As vantagens de ser invisível", a delicada, terna e sensível adaptação de um romance... delicado, terno e sensível, que narra as aventuras de um adolescente desajustado quando finalmente encontra em uma dupla de meio-irmãos a turma pela qual sempre ansiou. Escrito e dirigido pelo mesmo Stephen Chbosky que escreveu o livro que lhe deu origem, o filme conquista o espectador principalmente por jamais tentar parecer mais do que é: um simples entretenimento de qualidade - ainda que justamente essa sua discrição o eleve acima da média do gênero e o faça ser interessante até mesmo por quem já saiu da faixa etária de seu público-alvo há um bom tempo.

O protagonista do filme é o tímido Charlie (interpretado com sutileza e talento por Logan Lerman), um rapaz de 16 anos com um pesado histórico de problemas psicológicos, que carrega consigo o trauma da morte de uma tia querida (Melanie Linskey, a paixão de Kate Winslet em "Almas gêmeas") e um profundo desajuste ao mundo que o cerca. Inteligente e dedicado, ele chega em uma escola nova e logo faz amizade com o professor de Inglês (Paul Rudd), que se comunica com ele através de alguns livros clássicos que o fazem perceber o mundo à sua volta. Mas o que acaba sendo mais importante que tudo é seu encontro com Sam (Emma Watson, deixando a Hermione da série "Harry Potter" pra trás) e Patrick (Ezra Miller, de "Precisamos falar sobre o Kevin"), dois jovens que não se importam em seguir as regras pré-estabelecidas e, por consequência, não chegam a ser os mais populares da escola: ela vem de uma série de fofocas a respeito de seu comportamento promíscuo e ele vive um relacionamento escondido com o esportista Brad (Johnny Simmons) e não faz questão de esconder sua sexualidade. Ao lado dos novos amigos - em especial Sam, por quem se apaixona - Charlie passa a ter uma nova visão da vida e de si mesmo.


Apesar de sua trama não parecer exatamente empolgante - e chegar perigosamente perto de todos os clichês que sufocam o gênero - "As vantagens de ser invisível" tem a seu favor a delicadeza com que Chbosky trata suas personagens e a maneira com que jamais as julga. Mesmo que as atitudes de Sam e Patrick (e até mesmo algumas de Charlie) não sejam exemplares, elas não soam artificiais nem tampouco forçadas, boa parte devido à sensibilidade com que o escritor/cineasta conduz as interpretações de seu elenco juvenil. Enquanto Emma Watson demonstra uma segurança de veterana a despeito de sua pouca idade e Ezra Miller exercita novamente sua veia rebelde, o novato Logan Lerman seduz a audiência com uma aura de inocência convincente como poucas vezes o cinema registrou. É difícil ficar imune ao charme e à beleza de suas cenas com Watson, que transmitem a sensação exata do primeiro amor e das descobertas a respeito da vida e das relações - o que a bela trilha sonora ainda reitera com precisão, em especial quando David Bowie solta a voz na bela "Heroes", que ilustra com perfeição os sentimentos dos protagonistas e sintomaticamente comenta uma das mais belas sequências do filme.

Tratando de assuntos polêmicos - drogas, homossexualidade, rebeldia juvenil - com respeito e nunca ultrapassando os limites do bom-gosto e da discrição, Chbosky faz um gol de placa já em sua segunda incursão às telas, e demonstra habilidade em dirigir seus atores - vale lembrar que o elenco ainda inclui Joan Cusack e Dylan McDermott, que, mesmo em papéis pequenos, se saem bastante bem. Feito com o objetivo de não decepcionar os (muitos) fãs do livro, "As vantagens de ser invisível" acaba por se tornar independente de sua origem literária: é um dos grandes pequenos filmes de 2012.

sexta-feira

INDIGNAÇÃO

INDIGNAÇÃO (Indignation, 2016, RT Features/X-Filme Creative Pool, 110min) Direção: James Schamus. Roteiro: James Schamus, romance de Philip Roth. Fotografia: Christopher Blauvelt. Montagem: Andrew Marcus. Música: Jay Wadley. Figurino: Amy Roth. Direção de arte/cenários: Inbal Weinberg/Philippa Culpepper. Produção executiva: Stefanie Azpiazu, Jonathan Bronfman, Avy Eschenazy, Logan Lerman, Sophie Mas, Woody Mu, Lourenço Sant'Anna, Lisa Wolofsky. Produção: Anthony Bregman, James Schamus, Rodrigo Teixeira. Elenco: Logan Lerman, Sarah Gadon, Danny Burnstein, Tracy Letts, Linda Emond. Estreia: 24/01/16 (Festival de Sundance)

Um dos mais celebrados escritores norte-americanos, Philip Roth não teve a mesma sorte das livrarias quando adaptado para o cinema. Dono de uma prosa contundente e sofisticada, ele viu seu mais famoso romance, "A marca humana", chegar às telas sob a direção de Robert Benton em uma versão apenas morna estrelada por Anthony Hopkins e Nicole Kidman chamada "Revelações" (04) e "O animal agonizante" ganhar o mundo sem muito alarde como "Fatal", dirigido por Isabel Coixet e estrelado por Ben Kingsley e Penelope Cruz em 2008. Normalmente explorando em sua premiada literatura o universo da imigração judaica nos EUA e a luta do homem contra seus instintos sexuais, Roth é um autor que exige a compreensão absoluta de um dos elementos mais difíceis de traduzir na tela: estados de espírito. Seus personagens, frequentemente torturados por pensamentos angustiados e grande senso crítico em relação ao mundo em que vivem, não encontravam eco fora das páginas até que James Schamus - produtor de importantes filmes de Ang Lee, como "Tempestade de gelo" (97) e "O tigre e o dragão" (2000) - resolveu que era hora de mudar esse cenário. Surge "Indignação", a melhor e mais tocante transposição do universo de Philip Roth para a sétima arte.

Com uma estreia discreta no Festival de Sundance de 2016 e um lançamento pouco ambicioso depois de passar por uma série de outros festivais de cinema, "Indignação" é um drama poderoso e emocionante, que toca em diversos nervos da sociedade norte-americana, movida a hipocrisias e preconceitos, ao contar uma história que começa como romance juvenil para se transformar em uma dramática trama sobre escolhas e obrigações morais. Com uma surpreendente atuação do jovem Logan Lerman - revelado na série de filmes "Percy Jackson" - no papel principal e uma reconstituição de época impecável mas discreta, o filme convida o espectador a mergulhar em um mundo claustrofóbico de regras brutais e machistas, capazes de ressonâncias eternas e excruciantes dores na alma. Não é o que se pode chamar de um entretenimento leve, mas Schamus conduz seu roteiro com o máximo de leveza possível, erguendo pouco a pouco, cena por cena, um muro de preceitos aparentemente simples que só mostrará sua extensão nos minutos finais - sutis, mas ensurdecedores.


Valorizando ao máximo os longos diálogos criados por Philip Roth - em especial uma brilhante sequência entre o protagonista e o reitor de sua universidade, a respeito de religião - o roteiro de James Schamus não subestima a inteligência do espectador lhe oferecendo soluções fáceis ou óbvias. A jornada do personagem central rumo à maturidade emocional é repleta de percalços que contrastam com sua natureza pura e honesta, consequência de uma criação com rígidos valores morais que, paradoxalmente, irão ser os responsáveis pelos mais dramáticos momentos de sua vida adulta, quando é obrigado a decidir entre manter seus princípios ou criar outros, mais benevolentes e de acordo com sentimentos até então inéditos e desconhecidos. Lerman, até então um ator pouco explorado - seu trabalho mais impactante havia sido em outro retrato de um rito de passagem, o belo "As vantagens de ser invisível" (2012) - transmite com sensibilidade todas as nuances de um personagem difícil, cuja ação interior é tão ou mais importante quanto a exterior. Nunca seu olhar assustado e frágil coube tão bem quanto na sua personificação de Marcus Messner, o tímido filho de um açougueiro judeu de Nova Jersey que entra na universidade de Ohio, em 1951 para descobrir que o mundo é muito mais opressivo, com seus códigos não-escritos de conduta, do que a rotina enfadonha de atender aos clientes de seu pai.

Resistindo bravamente quanto a juntar-se aos outros (poucos) judeus da universidade, que insistem em tentar recrutá-lo em uma espécie de confraria, Marcus tampouco aceita com serenidade a obrigação de participar das missas católicas do local - que tem tanta importância quanto seu desempenho curricular. Em suas tentativas de respirar, ele conhece a bela Olivia Hutton (Sarah Gadon), que o surpreende com uma liberalidade sexual e sentimental além de qualquer experiência anterior. Repentinamente, porém, os rumos de sua relação passam a ser ditados pela hipocrisia da sociedade que os envolve - com sua absoluta falta de pudores quando o assunto é sexo, Olivia se torna uma ameaça aos planos de Marcus, o que os encaminha a uma possível tragédia. Mas será que o rapaz terá força o bastante para impedir tal destino? Ou os desígnios da falsa moralidade são maiores do que seus sentimentos? Com tais questionamentos na mesa, Philip Roth construiu uma trama urdida com base na dor do amadurecimento e na certeza da impotência frente ao preconceito, e James Schamus honra tal obra com um filme adulto, sério, elegante e principalmente respeitoso com a fonte original, desde o tom quase cerimonioso até a escalação certeira do elenco. Valorizado ainda pela bela música de Jay Wadley, "Indignação" é uma pérola escondida, pronta para ser descoberta pelos fãs do bom cinema.

quarta-feira

CORAÇÕES DE FERRO

CORAÇÕES DE FERRO (Fury, 2014, Columbia Pictures, 134min) Direção e roteiro: David Ayer. Fotografia: Roman Vasyanov. Montagem: Jay Cassidy, Dody Dorn. Música: Steven Price. Figurino: Maja Meschede, Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: Andrew Menzies/Lee Gordon, Malcolm Stone. Produção executiva: Anton Lessine, Alex Ott, Brad Pitt, Sasha Shapiro, Ben Waisbren. Produção: David Ayer, Bill Block, John Lesher, Ethan Smith. Elenco: Brad Pitt, Logan Lerman, Shia LaBeouf, Michael Peña, Jon Bernthal, Jim Parrack, Jason Isaacs. Estreia: 15/10/14

Sim, esse é mais um daqueles filmes que retratam a II Guerra Mundial sob a ótica dos aliados - leia-se norte-americanos - e que fazem a alegria dos pseudointelectuais que adoram reclamar da forma com que Hollywood romantiza o conflito a favor dos EUA. E sim, não foge muito da tradicional receita das produções do gênero, lembrando principalmente o excepcional "O resgate do soldado Ryan", obra-prima de Steven Spielberg lançada em 1998. Escrito e dirigido por David Ayer - autor do roteiro do premiado "Dia de treinamento" (2000) e da vergonhosa adaptação para as telas do seriado televisivo "SWAT" (2003) - "Corações de ferro" tem a seu favor, porém, a despeito de sua quase previsibilidade, um elenco impecável e um tom que se equilibra com sucesso entre a violência e a poesia. Com uma renda abaixo do esperado nas bilheterias - pouco mais de 80 milhões, pouco se considerada a presença de um astro do calibre de Brad Pitt encabeçando os créditos - o filme falhou também em ser lembrado pelas cerimônias de premiação da temporada 2014, sendo ignorado até mesmo nas categorias técnicas, onde normalmente filmes do estilo encontram espaço.

Brad Pitt - que também é um dos produtores executivos do filme - lidera o elenco de "Corações de ferro", mas generosamente divide seu espaço em cena com outros cinco atores mais jovens, que interpretam os subordinados de seu Sargento Collier na missão de enfrentar os nazistas em plenas linhas inimigas, já nos meses finais da guerra. Experiente e quase cínico, Collier se torna o mentor e protetor do introvertido Norman Ellison (Logan Lerman), que entra na batalha por acaso, sendo escalado para ser um dos pilotos do tanque "Fury" - um dos pouco veículos ainda em funcionamento quando a trama tem início. Extremamente jovem e sem histórico em batalhas campais, Norman a princípio é hostilizado e desprezado pelos colegas (como convém a uma boa história do gênero), mas com a amizade do sargento e o desenrolar dos acontecimentos (quando é obrigado a tomar parte de momentos sangrentos e chocantes), aos poucos torna-se ciente de seu papel no jogo. No meio do caminho, descobre - da pior maneira possível - que a guerra não escolhe vítimas.


O roteiro de David Ayer não chega a ser um primor de criatividade, mas ao menos tem o mérito de proporcionar a seus atores alguns bons diálogos e algumas cenas bastante interessantes, principalmente quando dá um tempo em suas sequências de guerra - bem filmadas, mas nada excepcionais - e concentra-se na forma como cada um dos soldados lida com a trágica situação em que se encontram. Como dita o clichê, existe o soldado cristão Bible (vivido por um discreto e eficiente Shia LaBeouf), o latino Gordo (Michael Peña), o fanfarrão violento Coon-Ass (Jon Bernthal, da série "The walking dead") e o boa-gente Binkowski (Jim Parrack). Ayer não se dá muito ao trabalho de desenvolver com profundidade nenhum deles e nem dar-lhes um passado, mas ainda assim fica difícil não se deixar envolver com eles e seus medos diante de um inimigo real e imediato. Ao contar (mais) uma história de perda de inocência, o diretor disfarça a quase burocracia do roteiro com sua segurança em comandar sequências bem orquestradas de batalha, valorizadas pela fotografia e pelo trabalho de som, que mergulham o espectador no meio do conflito, como é mandatório em um filme de guerra que se preze.

Mesmo que não seja um triunfo completo e não esteja destinado a tornar-se um clássico do gênero, "Corações de ferro" não decepciona aos fãs nem de obras sobre a II Guerra Mundial nem de Brad Pitt. Apesar de contida e discreta, a atuação do ator é um dos maiores destaques do filme de Ayer, mesclando com sutileza sentimentos díspares como fúria, desespero, ternura e firmeza sem nunca deixar de convencer a plateia de que é realmente um homem comum tornado herói diante de circunstâncias extremas. Suas cenas com Logan Lerman - cujo personagem dócil e encantador ele acaba por adotar informalmente, apesar de saber que tais características estão com as horas contadas - são as melhores do filme. Apesar da abundância de lugares-comuns, "Corações de ferro" é um filme de guerra com alma, o que lhe dá um diferencial muito bem-vindo em relação a seus semelhantes. Impossível ficar insensível a suas intenções.

OS INDOMÁVEIS


OS INDOMÁVEIS (3.10 to Yuma, 2007, Lions Gate, 122min) Direção: James Mangold. Roteiro: Halsted Welles, Michael Brandt, Derek Haas, conto de Elmore Leonard. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Michael McCusker. Música: Marco Beltrami. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Andrew Menzies/Jay R. Hart. Produção executiva: Stuart Besser, Ryan Cavannaugh, Lynwood Spinks. Produção: Cathy Konrad. Elenco: Russell Crowe, Christian Bale, Ben Foster, Logan Lerman, Dallas Roberts, Peter Fonda, Vinessa Shaw, Gretchen Mol. Estreia:21/8/07

2 indicacões ao Oscar: Trilha Sonora Original, Edição de Som

"Os indomáveis" é a prova cabal - mais uma - de que o cineasta James Mangold, mesmo sem ter um estilo próprio que o diferencie de seus colegas de Hollywood, é um talento a ser admirado. Tendo passeado por praticamente todos os gêneros cinematográficos - o policial em "Copland", o drama em "Garota, interrompida", o suspense em "Identidade", o romance em "Kate & Leopold" e a biografia musical em "Johnny & June" - Mangold atingiu um nível ainda mais competente com a refilmagem do clássico "Galante e sanguinário", estrelado por Glenn Ford em 1957. Cinquenta anos depois do original de , o conto de Elmore Leonard presta-se a uma releitura moderna e empolgante que conta com um roteiro mais aberto a dubiedades e uma dupla de protagonistas acima de qualquer crítica.

Christian Bale vive Dan Evans, um fazendeiro do Arizona de 1884. Sofrendo com a cobrança de uma dívida por um conterrâneo corrupto, ele vê a chance de saldá-las quando lhe oferecem um belo pagamento por um trabalho nada simples: escoltar o famigerado criminoso Ben Wade (Russell Crowe) até a cidade vizinha de Yuma, onde ele será posto, às 15h10, em um trem em direção à prisão (daí o título original). Acompanhado do xerife Butterfield (Dallas Roberts) e de um pequeno grupo, ele não contava, porém, que seu filho mais velho, William (Logan Lerman, que depois faria o papel principal de "As vantagens de ser invisível") o seguisse, disposto a ajudá-lo na missão. Lutando contra apaches violentos e contra o próprio Wade, Evans ainda terá que encarar o bando do ladrão, que, sob a liderança do cruel Charlie Prince (Ben Foster), não está disposto a entregar o chefe aos homens da lei.


Equilibrando com segurança cenas de tiroteio que em nada devem aos veteranos do estilo com momentos que valorizam os belos diálogos do roteiro - que encontram em seus atores os intérpretes perfeitos - Mangold criou uma pequena pérola do faroeste, que não abre mão de todos os elementos que fizeram do gênero um dos mais populares do cinema americano e os utiliza com maturidade e inteligência. Se peca em não apresentar as belas paisagens que fizeram a fama de nomes como John Ford, o cineasta compensa com uma tensão palpável em vários momentos, em especial quando Ben Foster surge: mesmo ao lado de nomes consagrados como Russell Crowe e Christian Bale, o jovem Foster rouba a cena, criando um Charlie Prince assustador e violento, capaz dos atos mais vis - e não apenas em nome de sua fidelidade ao patrão.

Aliás, Crowe é outro que merece destaque: ficando com o papel que quase foi de Tom Cruise (uma escolha no mínimo inadequada), o eterno gladiador consegue fazer de seu Ben Wade uma mescla de violência e sutileza. Sua interpretação, minimalista, combina perfeitamente com o trabalho de Christian Bale (substituindo Eric Bana), proporcionando ao espectador um duelo como há muito o cinema americano não o fazia. Ainda que os tiroteios sejam extremamente bem filmados, é impossível negar que são as cenas dramáticas que fazem o diferencial de "Os indomáveis" e mostram o talento de seu diretor - que ainda dá a Peter Fonda a chance de uma participação especial carinhosa e crucial.

Indispensável para os fãs de faroeste e para quem gosta de um bom filme de ação, "Os indomáveis" oferece mais do que em um primeiro vislumbre. Um belo trabalho, que merecia maior atenção da crítica e do público - já que nem mesmo se pagou no mercado doméstico. Uma pena.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...