VIDAS SEM RUMO (The outsiders, 1983, Zoetrope Studios, 91min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Kathleen Knutsen Rowell, romance de S.E. Hinton. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Anne Goursaud. Música: Carmine Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Gary Fettis. Produção Gray Frederickson, Fred Roos. Elenco: C. Thomas Howell, Ralph Macchio, Matt Dillon, Patrick Swayze, Diane Lane, Tom Cruise, Rob Lowe, Emilio Estevez. Estreia: 25/3/83
O filme "Vidas sem rumo" nasceu do encontro inusitado entre as fãs do romance escrito por S.E. Hinton e lançado em 1967 e o cineasta Francis Ford Coppola, vindo da falência de seu estúdio, o American Zoetrope, causada pelo fracasso calamitoso de "O fundo do coração" (82). Desiludido com o cinema, o homem que havia legado ao mundo as duas partes premiadas e elogiadas de "O poderoso chefão" e o problemático porém louvado "Apocalypse now" recebeu uma calorosa carta escrita por alunos de uma escola secundarista de Fresno, na California. Eles alegavam que somente Coppola poderia traduzir em imagens seu livro preferido. Escrito por Hinton quando ainda era uma adolescente de quinze anos, o livro contava a história de um grupo de adolescentes dos anos 50 que sofriam na pele tudo aquilo que os estudantes da década de 80 também sentiam: insegurança, deslocamento de uma sociedade que podia ser muito restritiva e principalmente a força dos laços de amizade. Não foi preciso insistir muito e Coppola aceitou o desafio. Lançado em 1983, seu novo trabalho não ajudou muito em suas finanças já atribuladas - não teve uma bilheteria significativa - mas o incentivou a adaptar outro romance de Hinton em 1984, "O selvagem da motocicleta", e, mais importante que tudo, deu o pontapé inicial nas carreiras de nomes que, nos anos seguintes, dominariam o cinema americano.
Os créditos de "Vidas sem rumo" são um verdadeiro quem é quem do cinema jovem hollywoodiano dos anos 80: estão lá Matt Dillon, Emilio Estevez, Patrick Swayze, Rob Lowe, Diane Lane, C. Thomas Howell, Ralph Macchio e Tom Cruise (em um papel bastante pequeno e bem diferente do galã que se tornaria ainda em 1983 com "Negócio arriscado"). Quando o filme foi feito, nenhum deles era famoso, o que demonstra, no mínimo, o faro de Coppola em descobrir novos talentos - é bom lembrar que foi ele quem insistiu em Al Pacino para viver Michael Corleone no primeiro "Chefão". Sua maior felicidade, em "Vidas sem rumo", foi encontrar atores que encarnam seus personagens com tal verdade que é difícil ficar indiferente a seus dramas apesar do roteiro falhar em desenvolvê-los melhor. No entanto, a ingenuidade, o frescor e o carinho com que todos são tratados na história se reflete na direção sensível de Coppola, que usa e abusa de belíssimas sequências de pôr-do-sol - cortesia de Stephen H. Burum - remetendo tanto ao ocaso da inocência de seus protagonistas quanto à adoração do doce Ponyboy (C. Thomas Howell) pelo livro "...E o vento levou", de Margareth Mitchell, citado em vários momentos no decorrer da narrativa.
"Vidas sem rumo" se passa em uma pequena cidade de Oklahoma, em um ano qualquer durante a década de 50 e narra basicamente a violenta rivalidade entre dois grupos de jovens, os Greasers e os Socials. Do primeiro grupo (assim batizado por utilizarem brilhantina no cabelo) faz parte o protagonista, Ponyboy Curtis, de 14 anos. Órfão e criado pelo irmão mais velho, Darrell (Patrick Swayze) - que também é o responsável pelo outro irmão, Sodapop (Rob Lowe) - Ponyboy vive em constante tensão devido ao clima de guerra declarado pelos dois grupos, que se dividem principalmente por suas classes sociais. Quem acaba por unindo, ainda que por pouco tempo, as duas facções, é a bela Cherry (Diane Lane em papel recusado por Sarah Jessica Parker e Brooke Shields), namorada de um dos líderes dos Socials que faz amizade com Ponyboy e sente-se atraída pelo beligerante Dallas (Matt Dillon), rapaz mais velho que passou inclusive uma temporada na cadeia. A relativa paz entre as duas gangues é interrompida, porém, quando o melhor amigo de Ponyboy, Johnny Cade (Ralph Macchio, o futuro Karatê Kid), mata um dos integrantes do grupo rival, o que desencadeia um recrudescimento ainda maior da violência que os cerca.
Mesmo tratando de uma história onde a violência e a tensão estão sempre presentes, Coppola não se deixa seduzir pela tentação de lavar a tela de sangue - ainda que em uma bela cena ele seja um elemento crucial e impactante. Sua preferência é investigar o relacionamento quase familiar que existe entre seus personagens, que criam um núcleo de auto-proteção e carinho que contrasta com a frieza e a crueldade com que eles constantemente esbarram em seu dia-a-dia. Coppola não se furta a enfatizar, sempre que possível, que aqueles meninos que estão na tela não são maus, nem ferozes, e sim adolescentes carentes de amor, de atenção, de igualdade de chances. É particularmente tocante o destino de Johnny, que acaba sendo o catalisador para o desfecho catártico de toda a trama: justo ele, que flertava com a morte por não suportar a vida como ela lhe aparecia, muda seu ponto de vista quando a encara de frente e precisa lutar para manter-se vivo, enquanto seus amigos partem em sua defesa, em uma cena de briga de gangues que, apesar de curta, já nasceu clássica graças a seu background literário e a seu elenco de ouro.
"Vidas sem rumo" é uma obra feita para se tornar o filme de cabeceira dos fãs do romance - que, a despeito da qualidade da adaptação, ainda assim conseguiram achar do que reclamar - e de adolescentes que se veem retratados com respeito e admiração, sem tentar explicar comportamentos com psicologismos baratos. É um belo e sincero filme, realizado por um diretor apaixonado para um público ainda mais ardoroso, e como tal, é uma versão emocionante e envolvente.
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sexta-feira
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DONNIE DARKO
DONNIE DARKO (Donnie Darko, 2001, Pandora Cinema/Flower Films, 113min) Direção e roteiro: Ricjard Kelly. Fotografia: Steven Poster. Montagem: Sam Bauer, Eric Strand. Música: Michael Andrews. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Alexander Hammond/Jennie Harris. Produção executiva: Chris J. Ball, Drew Barrymore, Casey La Scala, Hunt Lowry, Aaron Ryder, William Tyrer. Produção: Adam Fields, Nancy Juvonen, Sean McKittrick. Elenco: Jake Gyllenhaal, Jena Malone, Maggie Gyllenhaal, Drew Barrymore, Patrick Swayze, Noah Wyle, Mary McDonnell, Seth Rogen. Estreia: 19/01/01 (Sundance Festival)
"Donnie Darko" é tão desconcertante em sua mistura de gêneros que conseguiu dar um nó na cabeça dos críticos e do público em geral, que ignorou sua passagem pelos cinemas. Mas é justamente esse sincretismo que fez dele um cult movie por excelência, adorado por fãs que viram nele um suspense acima da média, com elementos fortes de ficção científica e até pitadas de romance. Co-produzido pela atriz Drew Barrymore (através de sua Flower Films), o filme escrito e dirigido por Richard Kelly (então com meros 25 anos) subverte algumas regras do cinema mainstream e consegue conquistar o espectador, mesmo que apenas em seus minutos finais ele faça algum sentido.
É preciso embarcar na viagem de Kelly para se curtir "Donnie Darko", deixando de lado qualquer preconceito. A trama começa em 02 de outubro de 1988, quando dois acontecimentos transformam a rotina do personagem-título, um adolescente vivido por Jake Gylenhaal (e que quase foi interpretado por Mark Wahlberg): a turbina de um avião cai sobre seu quarto enquanto ele está fora de casa em um ataque de aparente sonambulismo e ele conhece Frank, um coelho do tamanho de um homem, que torna-se seu "amigo imaginário". Dependente de remédios e sessões de terapia, o jovem Darko fica sabendo, através de Frank, que o mundo tem data para acabar: no Halloween, dia 31 de outubro, ou seja, dali a 29 dias. Enquanto tenta descobrir como será o final dos tempos, ele arruma tempo para se apaixonar pela problemática Gretchen (Jena Malone) e busca uma maneira de viajar no tempo. Nos momentos vagos, obedece a ordens cada vez mais agressivas de Frank, que o incitam a atos quase terroristas.

"Donnie Darko" é, definitivamente, um filme de difícil classificação - e qualquer tentativa de resumí-lo soaria superficial e inútil. Um público menos paciente, mal-acostumado com tramas mastigadinhas desde os créditos de abertura provavelmente irá abominar e passar ao largo das aventuras de Darko, aparentemente herméticas mas convincentes e plausíveis dentro de seu universo próprio. Kelly fez de seu filme de estreia um quebra-cabeças sombrio que encontra na atuação quase propositalmente apática de Jake Gylenhaal um de seus maiores trunfos. Misturando conceitos científicos com uma alta dose de suspense e dubiedade, o diretor/roteirista tornou-se uma promessa das mais consistentes do início do século XXI - ainda que depois tenha cometido coisas indescritíveis como "A caixa", estrelado por Cameron Diaz, que, em sua tentativa de mesclar gêneros acabou tranformando-se em um samba do crioulo doido.
No final das contas, "Donnie Darko" é um conto sobre segundas chances e autosacrifícios, ainda que pareça mais um pesadelo criado por David Lynch do que um sensível drama semiaçucarado imaginado por Frank Capra. Contando com um elenco de coadjuvantes de primeira linha - a própria Drew Barrymore, Patrick Swayze como um suspeito guru de autoajuda e Noah Wyle, da série "Plantão médico" como um professor - e um clima dark e opressivo, o filme ainda apresenta uma nostálgica trilha sonora composta de hits dos anos 80, cantados por gente como Eccho & The Bunnymen (cuja "The killing moon" abre o filme), Duran Duran e Joy Division - além de encerrar com uma bela versão de "Mad world" do Tears for Fears. Quem procura fugir dos padrões, gosta de obras estranhas e encarar uma história para pensar já encontrou seu filme de cabeceira.
"Donnie Darko" é tão desconcertante em sua mistura de gêneros que conseguiu dar um nó na cabeça dos críticos e do público em geral, que ignorou sua passagem pelos cinemas. Mas é justamente esse sincretismo que fez dele um cult movie por excelência, adorado por fãs que viram nele um suspense acima da média, com elementos fortes de ficção científica e até pitadas de romance. Co-produzido pela atriz Drew Barrymore (através de sua Flower Films), o filme escrito e dirigido por Richard Kelly (então com meros 25 anos) subverte algumas regras do cinema mainstream e consegue conquistar o espectador, mesmo que apenas em seus minutos finais ele faça algum sentido.
É preciso embarcar na viagem de Kelly para se curtir "Donnie Darko", deixando de lado qualquer preconceito. A trama começa em 02 de outubro de 1988, quando dois acontecimentos transformam a rotina do personagem-título, um adolescente vivido por Jake Gylenhaal (e que quase foi interpretado por Mark Wahlberg): a turbina de um avião cai sobre seu quarto enquanto ele está fora de casa em um ataque de aparente sonambulismo e ele conhece Frank, um coelho do tamanho de um homem, que torna-se seu "amigo imaginário". Dependente de remédios e sessões de terapia, o jovem Darko fica sabendo, através de Frank, que o mundo tem data para acabar: no Halloween, dia 31 de outubro, ou seja, dali a 29 dias. Enquanto tenta descobrir como será o final dos tempos, ele arruma tempo para se apaixonar pela problemática Gretchen (Jena Malone) e busca uma maneira de viajar no tempo. Nos momentos vagos, obedece a ordens cada vez mais agressivas de Frank, que o incitam a atos quase terroristas.

"Donnie Darko" é, definitivamente, um filme de difícil classificação - e qualquer tentativa de resumí-lo soaria superficial e inútil. Um público menos paciente, mal-acostumado com tramas mastigadinhas desde os créditos de abertura provavelmente irá abominar e passar ao largo das aventuras de Darko, aparentemente herméticas mas convincentes e plausíveis dentro de seu universo próprio. Kelly fez de seu filme de estreia um quebra-cabeças sombrio que encontra na atuação quase propositalmente apática de Jake Gylenhaal um de seus maiores trunfos. Misturando conceitos científicos com uma alta dose de suspense e dubiedade, o diretor/roteirista tornou-se uma promessa das mais consistentes do início do século XXI - ainda que depois tenha cometido coisas indescritíveis como "A caixa", estrelado por Cameron Diaz, que, em sua tentativa de mesclar gêneros acabou tranformando-se em um samba do crioulo doido.
No final das contas, "Donnie Darko" é um conto sobre segundas chances e autosacrifícios, ainda que pareça mais um pesadelo criado por David Lynch do que um sensível drama semiaçucarado imaginado por Frank Capra. Contando com um elenco de coadjuvantes de primeira linha - a própria Drew Barrymore, Patrick Swayze como um suspeito guru de autoajuda e Noah Wyle, da série "Plantão médico" como um professor - e um clima dark e opressivo, o filme ainda apresenta uma nostálgica trilha sonora composta de hits dos anos 80, cantados por gente como Eccho & The Bunnymen (cuja "The killing moon" abre o filme), Duran Duran e Joy Division - além de encerrar com uma bela versão de "Mad world" do Tears for Fears. Quem procura fugir dos padrões, gosta de obras estranhas e encarar uma história para pensar já encontrou seu filme de cabeceira.
domingo
GHOST - DO OUTRO LADO DA VIDA
GHOST, DO OUTRO LADO DA VIDA (Ghost, 1990, Paramount Pictures, 127min) Direção: Jerry Zucker. Roteiro: Bruce Joel Rubin. Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Walter Murch. Música: Maurice Jarre. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Joe D. Mitchell. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção executiva: Steven-Charles Jaffe. Produção: Lisa Weinstein. Elenco: Patrick Swayze, Demi Moore, Whoopi Goldberg, Sam Goldwin. Estreia: 13/7/90
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Whoopi Goldberg), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Whoopi Goldberg), Roteiro Original
Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Whoopi Goldberg)
Não é exatamente difícil explicar os motivos que fizeram o público gostar tanto de "Ghost, do outro lado da vida". Sua história de amor é comovente e a química entre seus protagonistas é genuína e fotogênica; seu lado cômico tem momentos verdadeiramente hilariantes; sua trama policial consegue ser interessante na medida certa; e seu tema espírita não poderia ter sido mais adequado a um final de século. O que realmente faz pensar é por que seu sucesso foi tão, mas tão grande. Indicado inclusive a um exagerado Oscar de Melhor Filme - além de levar duas estatuetas (o questionável prêmio de roteiro original) e o mais que merecido de atriz coadjuvante para a sempre ótima Whoopi Goldberg - a obra de Jerry Zucker (mais conhecido por ser parte do trio de cineastas responsáveis por comédias amalucadas como "Apertem os cintos, o piloto sumiu!") é apenas mais uma história de amor como tantas que chegam às telas semanalmente, mas que teve a sorte de contar com uma equipe mais talentosa do que o normal.
Senão vejamos: o casal Sam Wheat (Patrick Swyze) e Molly Jensen (a bela Demi Moore) está no auge da paixão e da ascensão social. Acabaram de comprar um excelente apartamento, são bem-sucedidos em suas profissões - ele bancário, ela artista plástica - e, lindos e jovens, tem de repente seus sonhos destruídos quanto, em um assalto, Sam morre assassinado. Desesperada, Molly nem percebe que o melhor amigo de seu marido, o ambicioso Carl (Tony Goldwin) está apaixonado por ela e pior ainda, é o responsável pelo crime. Em espírito, Sam descobre a verdade e, através de Oda Mae Brown (Whoopi Goldberg), uma medium que se julgava charlatã, tenta contar-lhe a verdade.

E a bem da verdade é só isso. A trama escrita por Bruce Joel Rubin mistura os ingredientes de diversos gêneros e, justiça seja feita, é feliz em nunca atropelá-los. Os momentos cômicos, cortesia da fantástica Whoopi Golberg, são engraçadíssimos e as cenas românticas aproveitam ao máximo a química entre Swayze (péssimo ator de grande carisma) e Demi Moore e da bela trilha sonora de Maurice Jarre (que inclusive ressuscita a linda "Unchained melody", dos Righteous Brothers, que tocou à exaustão à época do filme...) A trama policial não chega a empolgar, mas de certa forma também não atrapalha o andamento do filme, dono de um ritmo exemplar, que nunca deixa o espectador cansado e/ou entediado. É tudo tão milimetricamente planejado no roteiro de "Ghost" que o público nem percebe que o filme só fica realmente bom depois de mais de meia-hora de projeção, quando entra em cena seu maior trunfo: a excelente Whoopi.
Em um papel absolutamente distante da sofrida Celie de "A cor púrpura" - filme que a lançou e demonstrou seu imenso talento - Goldberg rouba descaradamente todas as cenas das quais participa, colocando o filme de Zucker no bolso. Dona de um timing perfeito e repleta de nuances, Whoopi é uma atriz tão competente que quando não está em cena faz uma falta danada. Poucas vezes o Oscar e o Golden Globe de atriz coadjuvantes foram tão merecidos.
Mas o grande problema de "Ghost" é um só: ele já havia sido feito antes e, para sua sorte, seu irmão mais velho não empolgou nem um pouco nas bilheterias. Lançado em 1989, "Além da eternidade", de Steven Spielberg, não fez o sucesso esperado, mas conta praticamente a mesma história - sem os lances cômicos e policiais - com a diferença que seus protagonistas Richard Dreyfuss e Holly Hunter são atores muito mais talentosos, ainda que menos atraentes. "Ghost" é divertido, sim. Emociona os mais sensíveis e ficou na mente e no coração de muita gente mundo afora. Mas está longe de ser a obra-prima que tanto se apregoou.
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Whoopi Goldberg), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Whoopi Goldberg), Roteiro Original
Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Whoopi Goldberg)
Não é exatamente difícil explicar os motivos que fizeram o público gostar tanto de "Ghost, do outro lado da vida". Sua história de amor é comovente e a química entre seus protagonistas é genuína e fotogênica; seu lado cômico tem momentos verdadeiramente hilariantes; sua trama policial consegue ser interessante na medida certa; e seu tema espírita não poderia ter sido mais adequado a um final de século. O que realmente faz pensar é por que seu sucesso foi tão, mas tão grande. Indicado inclusive a um exagerado Oscar de Melhor Filme - além de levar duas estatuetas (o questionável prêmio de roteiro original) e o mais que merecido de atriz coadjuvante para a sempre ótima Whoopi Goldberg - a obra de Jerry Zucker (mais conhecido por ser parte do trio de cineastas responsáveis por comédias amalucadas como "Apertem os cintos, o piloto sumiu!") é apenas mais uma história de amor como tantas que chegam às telas semanalmente, mas que teve a sorte de contar com uma equipe mais talentosa do que o normal.
Senão vejamos: o casal Sam Wheat (Patrick Swyze) e Molly Jensen (a bela Demi Moore) está no auge da paixão e da ascensão social. Acabaram de comprar um excelente apartamento, são bem-sucedidos em suas profissões - ele bancário, ela artista plástica - e, lindos e jovens, tem de repente seus sonhos destruídos quanto, em um assalto, Sam morre assassinado. Desesperada, Molly nem percebe que o melhor amigo de seu marido, o ambicioso Carl (Tony Goldwin) está apaixonado por ela e pior ainda, é o responsável pelo crime. Em espírito, Sam descobre a verdade e, através de Oda Mae Brown (Whoopi Goldberg), uma medium que se julgava charlatã, tenta contar-lhe a verdade.
E a bem da verdade é só isso. A trama escrita por Bruce Joel Rubin mistura os ingredientes de diversos gêneros e, justiça seja feita, é feliz em nunca atropelá-los. Os momentos cômicos, cortesia da fantástica Whoopi Golberg, são engraçadíssimos e as cenas românticas aproveitam ao máximo a química entre Swayze (péssimo ator de grande carisma) e Demi Moore e da bela trilha sonora de Maurice Jarre (que inclusive ressuscita a linda "Unchained melody", dos Righteous Brothers, que tocou à exaustão à época do filme...) A trama policial não chega a empolgar, mas de certa forma também não atrapalha o andamento do filme, dono de um ritmo exemplar, que nunca deixa o espectador cansado e/ou entediado. É tudo tão milimetricamente planejado no roteiro de "Ghost" que o público nem percebe que o filme só fica realmente bom depois de mais de meia-hora de projeção, quando entra em cena seu maior trunfo: a excelente Whoopi.
Em um papel absolutamente distante da sofrida Celie de "A cor púrpura" - filme que a lançou e demonstrou seu imenso talento - Goldberg rouba descaradamente todas as cenas das quais participa, colocando o filme de Zucker no bolso. Dona de um timing perfeito e repleta de nuances, Whoopi é uma atriz tão competente que quando não está em cena faz uma falta danada. Poucas vezes o Oscar e o Golden Globe de atriz coadjuvantes foram tão merecidos.
Mas o grande problema de "Ghost" é um só: ele já havia sido feito antes e, para sua sorte, seu irmão mais velho não empolgou nem um pouco nas bilheterias. Lançado em 1989, "Além da eternidade", de Steven Spielberg, não fez o sucesso esperado, mas conta praticamente a mesma história - sem os lances cômicos e policiais - com a diferença que seus protagonistas Richard Dreyfuss e Holly Hunter são atores muito mais talentosos, ainda que menos atraentes. "Ghost" é divertido, sim. Emociona os mais sensíveis e ficou na mente e no coração de muita gente mundo afora. Mas está longe de ser a obra-prima que tanto se apregoou.
quarta-feira
DIRTY DANCING, RITMO QUENTE
DIRTY DANCING, RITMO QUENTE (Dirty dancing, 1987, Vestron Pictures, 100min) Direção: Emile Ardolino. Roteiro: Eleanor Bergstein. Fotografia: Jeff Jur. Montagem: Peter C, Frank. Música: John Morris. Figurino: Hilary Rosenfeld. Direção de arte/cenários: David Chapman/Clay Griffith. Casting: Bonnie Timmermann. Produção executiva: Mitchell Cannold, Steven Reuther. Produção: Linda Gottlieb. Elenco: Patrick Swayze, Jennifer Grey, Jerry Orbach, Cynthia Rhodes, Jack Weston, Jane Brucker, Kelly Bishop. Estreia: 12/5/87
Vencedor do Oscar de Melhor Canção: "(I've had) The time of my life"
Golden Globe de Melhor Canção: "(I've had) The time of my life"
Uma das metáforas mais batidas do cinema é aquela que usa a perda da inocência física e romântica em conjunto com a entrada dos EUA na guerra do Vietnã e o assassinato de Kennedy. Algumas vezes chega a ser irritante. Em outras, como é o caso de “Dirty dancing” fica charmoso e delicado. Vai ver porque é difícil não gostar de um filme tão simpático quanto ele.
A trama de “Dirty dancing” – se é que se pode chamar de trama uma história tão simples e clichê - não tem absolutamente nada de novo. É mais uma história de amor proibido, em que uma jovem romântica e ingênua se apaixona por um homem mais velho e mais experiente e vê seu amor ser ameaçado pelo preconceito. Se não vejamos: Baby Houseman (vivida com graça e energia por Jennifer Grey, a irmã invejosa de Matthew Broderick em “Curtindo a vida adoidado”) é a filha mais velha de um médico respeitado e rígido (Jerry Orbach) que vai com a família passar o verão de 1963 em uma colônia de férias. Tão logo chega no hotel ela se encanta por Johnny (Patrick Swayze), o instrutor de dança do lugar, mas obviamente sente-se rejeitada por ele, que é o preferido de dez entre dez hóspedes, que não somente usam seus dotes de dançarino. A chance de aproximar-se dele se dá quando sua parceira Penny (Chyntia Rhodes) fica impedida, devido a um aborto, de dançar com ele em uma série de apresentações. Como na história do Patinho Feio, a desajeitada Baby transforma-se em um belo cisne. Com a ajuda de Johnny, por quem naturalmente se apaixona e é correspondida, ela deixa de ser a adolescente Baby e passa a ser a mulher Frances. No entanto, quando o aborto de Penny vem à tona, o amor dos dois torna-se mais do que proibido.
Sem absolutamente nada de novo em seu roteiro – talvez apenas o apelo sensual das coreografias seja uma novidade – “Dirty dancing” é marcante justamente por sua coragem em ser apenas uma história de amor, sem maiores arroubos de criatividade. Para isso, conta com o talento de Jennifer Grey, uma atriz carismática e sensível, sua invejável química com Patrick Swayze e uma deliciosa trilha sonora, que une clássicos dos anos 60 como “Be my baby” – que seduz o espectador logo na abertura – e “Big girls don’t cry” a canções compostas especialmente para o filme, como a vencedora do Oscar “(I’ve had) The time of my life”, que encerra o filme com o astral que ele merece.
Clássico instantâneo de sua geração, “Dirty dancing” é talvez um dos melhores exemplos de que sensibilidade pode tranqüilamente substituir enlouquecidos movimentos de câmera.
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