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quarta-feira

AMOR

AMOR (Amour, 2012, Les Films du Losange, 127min) Direção e roteiro: Michael Haneke. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Nadine Muse, Monika Willi. Figurino: Catherine Leterrier. Direção de arte/cenários: Jean-Vincent Puzos/Susanne Haneke, Sophie Reynaud. Produção executiva: Produção: Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert. Estreia: 20/5/12 (Festival de Cannes)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro, Diretor (Michael Haneke), Atriz (Emmanuelle Riva), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor da Palma de Ouro de Cannes: Melhor Filme 

“Amor”, como o próprio título revela, é uma história de amor. Mas não espere por um romance açucarado, com belos, jovens e loiros amantes se abraçando diante de paisagens deslumbrantes. Sob a visão do cineasta alemão Michael Haneke, amor é um sentimento cujos conceitos precisam ser debatidos, questionados e redimensionados. Sob sua ótica analítica e aparentemente fria – devidamente premiada com a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – amor é algo que ultrapassa a compreensão corriqueira e banal do dia-a-dia e só encontra uma prova dura o bastante para testá-lo quando a própria vida (sob a forma de uma doença avassaladora) se encarrega disso. O que é o amor? Existe medida para ele? Até onde iria a sua coragem quando se trata de aliviar a dor da pessoa amada? Essas questões, simples mas de difícil resposta, estão no âmago do filme, um petardo emocional valorizado pelas fabulosas interpretações de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva.
Eles vivem o casal de octagenários Anne e George Laurent. Aposentados, vivem confortavelmente em um amplo apartamento em Paris, leem, frequentam concertos e ocasionalmente recebem a visita da filha única, Eva (Isabelle Huppert), que fez carreira na música, influenciada principalmente pela mãe, professora de piano. Sua vida pacata e sem sobressaltos começa a mudar quando Anne precisa ser submetida a uma cirurgia e, após isso, inicia um lento processo degenerativo, que, a partir da paralisação do lado direito de seu corpo, ameaça sua liberdade de movimentos e sua independência física. Aos poucos, a rotina do casal passa a incluir médicos, enfermeiras e remédios. Dependendo do marido até mesmo para as coisas mais elementares, Anne vai definhando dia-a-dia, obrigando George a tirar forças do fundo da alma para mantê-la viva e a seu lado.


É impossível não se deixar envolver pelo drama de Anne e George, por mais que Haneke fuja das armadilhas sentimentalistas que a trama possa oferecer. Seu roteiro, limpo e direto – indicado ao Oscar e derrotado pela sanguinolência irônica de Quentin Tarantino e seu Django – toca direto nos medos e nas angústias mais profundas do ser humano, sem retoques ou exageros, com uma placidez e uma economia admiráveis. A bela fotografia de Darius Khondji explora com requinte e sutileza o cenário do filme – o belo apartamento tornado cada vez mais vazio e desolador – e utiliza a luz natural de algumas sequências como comentário visual da ação, fazendo-a flutuar de acordo com a claustrofobia crescente da doença de Anne. A câmera quase estática de Haneke – também concorrente ao Oscar – faz com que o público compartilhe do desconforto dos personagens, presos a uma situação imutável e desesperadora. E quando obriga o espectador a testemunhar cenas de impacto surpreendente, o cineasta o faz sem chamar a atenção para isso, revestindo os atos com uma normalidade assustadora que os deixa ainda mais tristes. Nada de trilha sonora melosa, nada de choro em excesso: em “Amor” é tudo enxuto, simples, assertivo. E é aí que reside boa parte de seu brilhantismo.
Ao contrário do que fez em seu filme mais famoso, “A fita branca” – um estilizado conto em preto-e-branco sobre um vilarejo alemão prestes a entrar na II Guerra e que também concorreu ao Oscar de filme estrangeiro, na cerimônia de 2010 – Michael Haneke fez de “Amor” um filme despido de quaisquer exageros estilísticos. A importância que dá à sua história e à relação entre seus personagens centrais – vítimas de uma armadilha inexorável causada pela finitude de todos – é muito maior do que a metáforas visuais, ainda que elas existam e funcionem muito bem (o pombo que George liberta e depois aprisiona, por exemplo). Não exatamente um cineasta dotado de otimismo em relação à raça humana – vale lembrar que são dele também o opressivo “Violência gratuita”, que ele refilmou nos EUA e o brutal “A professora de piano” – Haneke, no entanto, dá a seu filme um final relativamente feliz. Feliz? É aí que entra a controvérsia. O desfecho de “Amor” é polêmico justamente porque põe o dedo em uma questão que a maioria das pessoas prefere ignorar: até onde se pode suportar o sofrimento da pessoa amada? Ou, mais cruel pergunta: o quão longe estamos dispostos a chegar em nossa dedicação? Há limites para ela? Quem tem o poder sobre a vida e a morte?

“Amor” oferece ao espectador mais perguntas do que respostas. E só isso já faria dele obrigatório. Mas, além disso, há ainda os desempenhos fascinantes de Jean-Louis Tringtinant (saindo de um autoexílio cinematográfico de anos) e Emmanuelle Riva (a estrela de “Hiroshima, meu amor”, sublime em cada momento). Riva perdeu o Oscar para Jennifer Lawrence no medíocre “O lado bom da vida” – o que apenas comprova o quão bem mais mercadológicas do que artísticas são as decisões da Academia – mas é seu trabalho que ficará para sempre na cabeça de todos os que se propuserem a mergulhar no denso e sufocante universo de Michael Haneke.

A LIBERDADE É AZUL

A LIBERDADE É AZUL (Trois couleurs: bleu, 1993, MK2 Productions, 98min) Direção: Krysztof Kieslowski. Roteiro: Krysztof Kieslowski, Krysztof Piesiewicz, Fotografia: Slawomir Idziak. Montagem: Jacques Witta. Música: Zbigniew Preisner. Direção de arte/cenários: Claude Lenoir/Lionel Acat, Christian Aubenque, Jean-Pierre Delettre, Julien Poitou-Weber, Marie-Claire Quin. Produção: Marin Karmitz. Elenco: Juliette Binoche, Emmanuelle Riva, Benoit Regent, Charlotte Very. Estreia: 08/9/93

A genial ideia do cineasta polonês Krysztof Kieslowski de criar uma trilogia que ligasse as cores da bandeira francesa aos três temas da Revolução - liberdade, igualdade e fraternidade - não poderia ter tido um início mais alvissareiro. Estrelado pela sempre espetacular Juliette Binoche, "A liberdade é azul" é o mais melancólico e denso da série, oferecendo à audiência um estudo fascinante sobre o livre-arbítrio e o desespero. Parece triste demais, mas sua beleza avassaladora sobrepõe-se à dor.

E dor é a palavra-chave de "A liberdade é azul". Julie (interpretada com uma profundidade encantadora por Binoche) é uma mulher de 33 anos de idade que sofre o maior golpe de sua vida quando perde o marido e a filha pequena em um acidente de carro. Desesperada e sem encontrar nenhum rumo a seguir, ela abandona sua casa no interior da França e vai morar em Paris, onde pretende levar uma vida anônima e sem lembranças de sua antiga felicidade. Seu objetivo de deixar para trás sua existência anterior é atrapalhado, porém, por fragmentos do passado que insistem em retirá-la de seu isolamento auto-imposto. Suas tentativas de manter-se solitária esbarram em seu envolvimento com Olivier (Benoit Regent), músico que sempre escondeu sua paixão por ela, seu encontro com um rapaz que testemunhou o acidente, sua descoberta de um romance extra-conjugal do marido e com sua decisão de retomar a obra musical que ele deixou inacabada com a morte.


Fotografado em um intenso e deslumbrante azul por Slawomir Idziak - cujos tons refletem a atmosfera de sufocamento poético de Julie - o filme de Kieslowski abdica de diálogos explicativos, deixando que suas imagens poderosas transmitam com muito mais eficácia todos os sentimentos conflituosos de sua protagonista - escolha mais do que acertada quando os expressivos olhos de Binoche tomam o primeiro plano da narrativa em detrimento de sequências dramaticamente catárticas exploradas com gritos e choros histéricos. Delicadeza é a principal qualidade da obra do cineasta, que não tem medo em deixar que objetos aparentemente sem função dramática sejam o foco de suas cenas. É assim que um torrão de açúcar mergulhado no café e um muro de pedra tornam-se parte fundamental do objetivo do diretor em emocionar sem apelar para o lacrimoso.

"A liberdade é azul" é uma obra-prima indiscutível, que abre as portas para suas sequências de tons diametralmente opostos - "A igualdade é branca" é irônico e "A fraternidade é vermelha", otimista. É como se Kieslowski - precocemente morto em 1994 - mostrasse todas as facetas do ser humano e da vida em apenas seis horas de duração. Bravíssimo!

sexta-feira

HIROSHIMA, MEU AMOR


HIROSHIMA, MEU AMOR (Hiroshima, mon amour, 1959, Argos Films, 90min) Direção: Alain Resnais. Roteiro: Marguerite Duras. Fotografia: Michio Takahashi (Japão), Sacha Vierny (França). Montagem: Jasmine Chaney, Henri Colpi, Anne Sarraute. Música: Georges Delerue, Giovanni Fusco. Figurino: Gerard Collery. Direção de arte: Minoru Esaka. Produção: Anatole Dauman, Samy Halfon. Elenco: Emmanuelle Riva, Eiji Okada. Estreia: 10/6/59

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Tudo começou como um documentário sobre a bomba atômica lançada em Hiroshima em 1945. De repente, o cineasta Alain Resnais mudou de ideia e resolveu contar uma história de amor entrelaçada a suas impressões sobre o tema. Chamou a escritora Marguerite Duras pra escrever o roteiro e pronto: estava dado o pontapé inicial de um dos maiores clássicos do cinema francês da história, o inesquecível "Hiroshima, meu amor".

Inesquecível é, aliás, um adjetivo bem apropriado ao filme, uma vez que a obra de Resnais lida com temas como a memória e a forma como as lembranças do passado interferem no presente. A protagonista, vivida com intensidade por Emmanuelle Riva - que concorreu ao Oscar em 2013 pelo desempenho fabuloso em "Amor" - é uma atriz francesa que está no Japão fazendo um filme sobre a guerra. Durante sua estadia em Hiroshima, ela se envolve com um arquiteto local (Eiji Okada), por quem se apaixona. Porém, mesmo apaixonada, ela não consegue esquecer um amor do passado, uma relação interrompida bruscamente pelo conflito e que volta à sua mente com toda força, ameaçando sua paz de espírito.

Um cineasta obcecado pelo tema da memória - que retomaria no ainda mais inovador "O ano passado em Marienbad" - Alain Resnais cria, em "Hiroshima, meu amor", um espetáculo lírico onde se misturam imagens poderosas, um texto de grande poesia e atuações superlativas, gigantescas em seu minimalismo. É apenas um gesto do arquiteto japonês durante o sono que deflagra na atriz interpretada por Riva um torrencial de lembranças, algumas dolorosas e outras calorosas. Bastam olhares trocados entre os amantes para que o público entenda suas dúvidas e pensamentos. Não é preciso mais do que poucas palavras - sussurradas na hora certa - para que todo o horror da guerra e a imensidão do amor esteja diante do espectador. E as imagens coletadas pela câmera delicada do diretor não deixam por menos, dissecando a maior tragédia do século XX em cenas chocantes e verdadeiras, que traem sua origem como autor de documentários.

Um clássico absoluto - mas que certamente não é para qualquer audiência - "Hiroshima, meu amor" já seduz em sua abertura, com dois corpos cobertos de poeira radiativa, uma metáfora poderosa que o final dilacerante irá reiterar. A guerra pode acabar, mas não suas consequências. E cada um vê nela seus próprios dramas particulares.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...