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segunda-feira

O PRIMEIRO AMOR DE UM HOMEM

 


O PRIMEIRO AMOR DE UM HOMEM (The pallbearer, 1996, Miramax, 98min) Direção: Matt Reeves. Roteiro: Matt Reeves, Jason Katims. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Stan Salfas. Música: Stewart Copeland. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Robin Standefer/Kate Yatsko. Produção executiva: Meryl Poster, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Jeffrey Abrams, Paul Webster. Elenco: David Schwimmer, Gwyneth Paltrow, Barbara Hershey, Toni Collette, Michael Rapaport, Carol Kane, Michael Vartan. Estreia: 03/5/96

O título nacional "O primeiro amor de um homem" não força à toa uma similaridade com "A primeira noite de um homem", que deu o Oscar de melhor diretor a Mike Nichols: assim como no clássico de 1967, o protagonista é um jovem adulto perdido em suas ambições profissionais e sentimentais, e que fica dividido entre o amor de duas mulheres de gerações diferentes. Porém, apesar da semelhança temática, há uma grande desvantagem em relação ao drama romântico lançado em 1996: o cineasta Matt Reeves não é Nichols, e tampouco David Schwimmer - seu protagonista - tem o carisma de Dustin Hoffman. Dito isso, até dá para arriscar uma sessão descompromissada, já que o resultado final é bastante simpático, ainda que pouco memorável. E de quebra, pode-se ter contato com o começo das carreiras de dois atores que, logo em seguida, se tornariam internacionalmente famosos e celebrados.

O filme começa quando o jovem Tom Thompson (David Schwimmer) recebe o telefonema de uma mulher chamada Ruth Abernathy (Barbara Hershey), que, em luto, lhe comunica a morte do filho que, segundo ela, foi seu melhor e mais querido amigo na escola. O problema é que Tom não consegue lembrar quem é o rapaz e se deixa levar pela situação, com medo de magoar uma mãe desesperada. O encontro dos dois acaba evoluindo para uma relação um tanto incômoda, mas, passivo, Tom não vê modos de encerrá-la. A situação muda de figura, no entanto, com a chegada de Julie DeMarco (Gwyneth Paltrow), que retorna à cidade depois do fim de um relacionamento conturbado. Apaixonado por Julie desde sempre, Tom se surpreende quando as coisas começam a andar entre eles - mas para ficar de vez com aquela a quem considera o amor de sua vida, precisa resolver a questão pendente com Ruth, cada vez mais carente. Nesse meio-tempo, os dois melhores amigos de Tom passam por outros momentos cruciais de suas vidas: Scott (Michael Vartan) está em crise no casamento com Cynthia (Toni Collette), e Brad (Michael Rapaport) finaliza os preparativos para a união com a dominadora Lauren (B Bitty Schram).

David Schwimmer - ainda nas primeiras temporadas do fenômeno "Friends" - já demonstra, em alguns momentos, os trejeitos que tanto funcionava em seu Ross Geller: o olhar triste e o talento para o humor físico. Por sua vez, Gwyneth Paltrow - que ganharia um dos Oscar mais discutíveis da história três anos mais tarde - pouco tem a fazer a não ser desfilar sua figura elegante pela cela e tentar transmitir os sentimentos de uma personagem insossa e inexplicavelmente alvo de uma paixão avassaladora. São os dois, bastante jovens, que sustentam uma trama que dá voltas e mais voltas até chegar a um final anticlimático, que apenas valoriza o talento da sempre ótima Barbara Hershey. O elenco coadjuvante - que conta com uma subaproveitada Toni Collette e a divertida Carol Kane - muitas vezes se sobressai diante da apatia dos dois protagonistas e da aparente falta de energia da direção de Reeves, que anos depois encontraria um caminho mais bem-sucedido ao comandar filmes de ação, como "Planeta dos Macacos: Origem" (2014) e "The Batman" (2022). O roteiro, coescrito pelo cineasta, até tenta levantar questões sobre a juventude americana do final do século XX (e sua falta de norte em relação ao futuro), mas assim como acontece com o romance central, não há liga, e tudo parece meio fora de lugar. Ao buscar o equilíbrio entre drama, humor e romance, Reeves tropeça na própria ambição e entrega menos do que suas pretensões.

Mas não se pode dizer, afinal de contas, que "O primeiro amor de um homem" é um filme ruim. É irregular, não atinge todas as notas a que se propõe e está longe de ser memorável, mas de certa forma apresenta uma honestidade e uma delicadeza ao lidar com seus personagens e seus dilemas que deixa seus pecados mais facilmente perdoáveis. David Schwimmer nitidamente tenta dar o melhor de si - e seu esforço acaba recompensado em algumas cenas bastante tocantes (em especial quando divide o momento com Hershey). Se não chega aos pés do inesquecível drama de Mike Nichols também não chega a ser vexaminoso ou dispensável. Pode-se até ser classificado como um agradável (se não profundo) estudo sobre as relações humanas da tão falada Geração X. Vale uma sessão da tarde, desde que sem maiores expectativas.

terça-feira

OS ELEITOS: ONDE O FUTURO COMEÇA

OS ELEITOS: ONDE O FUTURO COMEÇA (The right stuff, 1983, The Ladd Company, 193min) Direção: Philip Kaufman. Roteiro: Philip Kaufman, livro de Tom Wolfe. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Glenn Farr, Lisa Fruchtman, Tom Rolf, Stephen A. Rotter, Douglas Stewart. Música: Bill Conti. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirkland/George R. Nelson, Pat Pending. Produção executiva: James D. Brubaker. Produção: Robert Chartoff, Irwin Winkler. Elenco: Sam Shepard, Barbara Hershey, Ed Harris, Dennis Quaid, Fred Ward, Scott Glenn, Lance Henriksen, Kim Stanley, Veronica Cartwright, Pamela Reed, Jeff Goldblum, Kathy Baker, Scott Paulin, Charles Frank, Levon Helm. Estreia: 21/10/83

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Sam Shepard), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 4 Oscar: Montagem, Trilha Sonora Original, Som, Efeitos Sonoros

As expectativas eram enormes. Primeiro, o roteiro era baseado em um livro do consagrado Tom Wolfe. Depois, seu tema - os primeiros passos dos EUA na corrida espacial - era empolgante. especialmente para o público norte-americano, notoriamente ufanista. E por fim, tudo levava a crer que se estaria diante de um épico grandioso, recheado de efeitos visuais acachapantes e sequências de ação de tirar o fôlego. Porém, quando "Os eleitos: onde o futuro começa" estreou, em outubro de 1983, a decepção foi grande em vários aspectos: não apenas naufragou nas bilheterias como desagradou àqueles que esperavam por mais um blockbuster superficial. Dirigido por Philip Kaufman com elegância, senso de humor e um ritmo destoante da maioria das produções do gênero, seu filme acabou sendo relativamente reconhecido apenas pela crítica e pela Academia, que lhe indicou ao Oscar em oito categorias - um reconhecimento um tanto agridoce para Kaufman, que se viu fora da disputa de diretor e roteiro mesmo com uma indicação a melhor filme do ano.

 Essa aparente incoerência da Academia - quase constante, aliás, como seus estudiosos podem perceber a cada ano - não impediu, no entanto, que "Os eleitos" saísse da cerimônia de premiação com um número generoso de estatuetas: reconhecido por sua montagem, trilha sonora, som e efeitos sonoros, o filme de Kaufman entrou, logo em seguida, em várias listas de melhores filmes da década de 80, o que, de certa forma, corrigiu a injustiça de seu fracasso comercial - responsável inclusive pelo fim de sua produtora (The Ladd Company). O fato é que, assim como aconteceu com vários bons filmes que passaram quase em branco pelo crivo do público, "Os eleitos" oferece muito mais do que um simples entretenimento: é inteligente, quase sarcástico e, mesmo que renda homenagens aos homens que retrata, jamais abandona o senso de crônica característico da prosa de Tom Wolfe. Mesmo que o próprio autor tenha ficado insatisfeito com as mudanças feitas na adaptação feita pelo cineasta, é inegável que existe, em cada cena, um cuidado em manter um alto nível de discurso, seja em diálogos rápidos e por vezes poéticos ou mesmo em cenas que comprovam a excelência de sua parte técnica. Surpreendendo a cada momento, Kaufman equilibra com maestria seu filme entre o corriqueiro (o treinamento e os testes a que os candidatos a astronautas são submetidos) e o sublime (suas viagens, tensas e paradoxalmente divertidas). Seu objetivo de realizar um épico é claro, e não fosse uma certa demora em engrenar, seu filme seria uma diversão perfeita.


Se Sam Shepard foi o único do elenco a conseguir uma indicação ao Oscar (como ator coadjuvante, perdendo para Jack Nicholson, em "Laços de ternura"), sua presença na lista de candidatos foi, de certa forma, uma maneira de homenagear todos os seus colegas de cena. Nomes em começo de carreira, como Dennis Quaid e Jeff Goldblum, e atores já conhecidos, como Ed Harris e Barbara Hershey, integram um elenco sem elos fracos, que conquistam o público com suas particularidades e estilos próprios. Kaufman não apenas se contenta em narrar com o máximo de detalhes possível o caminho dos astronautas rumo a seu lugar na história - ele também examina suas relações pessoais, familiares e matrimoniais, sem deixar que o ritmo pareça truncado (palmas para a edição oscarizada). Das primeiras cenas, que mostram o pioneiro Chuck Yeager (Shepard) em suas tentativas de romper a barreira do som, até a consagração dos sete homens escolhidos para liderar a corrida espacial americana, "Os eleitos" convida o espectador a uma viagem no tempo, que remete ao começo da Guerra Fria e à rivalidade entre EUA e URSS. Com imagens reais editadas com cenas recriadas com capricho, o filme de Kaufman brinca com o tom de semi-documentário, enquanto não abdica de rir de seus protagonistas, na verdade homens frequentemente inconscientes de sua importância histórica - um deles chega a dormir enquanto espera ser lançado ao espaço (!!).

Envolvente, por vezes divertido e quase sempre emocionante, "Os eleitos" é um filme que não deixou com que o tempo lhe diminuísse a qualidade. Mais de três décadas depois de seu lançamento nos cinemas ainda é um grande filme - talvez hoje ainda mais do que em sua estreia, já que pode ser visto à luz do tempo e devidamente consagrado como cult movie. Se Kaufman posteriormente investiria em filmes com alto teor erótico - "A insustentável leveza do ser" (88) e "Contos proibidos do Marquês de Sade" (2000), por exemplo -, aqui ele demonstra um domínio técnico e narrativo acima da média, e um cuidado com os detalhes que faz sua omissão entre os candidatos ao Oscar de direção quase criminosa. Mais de dez anos antes que "Apollo 13: do desastre ao triunfo" (94) - coincidentemente também estrelado por Ed Harris - se tornasse um grande sucesso de bilheteria e crítica (e também fosse indicado ao Oscar de filme, mas não de direção), "Os eleitos" já demonstrava que a corrida espacial era um terreno fértil para cineastas talentosos e sensíveis. Um vencedor, apesar dos pesares!

sexta-feira

AMIGAS PARA SEMPRE

AMIGAS PARA SEMPRE (Beaches, 1988, Touchstone Pictures, 123min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Mary Agnes Donoghue, romance de Iris Rainer Dart. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Richard Halsey. Música: Georges Delerue. Figurino: Robert De Mora. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Michael Bird, Garrett Lewis. Produção executiva: Teri Schwartz. Produção: Bonnie Bruckheimer-Martell, Bette Midler, Margaret Jennings South. Elenco: Bette Midler, Barbara Hershey, John Heard, Spalding Gray, Lainie Kazan, James Read. Estreia: 21/12/88

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

Indicada ao Oscar de melhor atriz logo em sua estreia nas telas, com o musical "A rosa" (79), biografia disfarçada de Janis Joplin dirigida por Mark Rydell, Bette Midler tornou-se, na segunda metade da década de 80, sinônimo de sucesso dentro da Touchstone Pictures. Protagonista de três êxitos incontestáveis na sequência - "Um vagabundo na alta roda" (86), "Por favor, matem minha mulher" (86) e "Cuidado com as gêmeas" (88) - ela conquistou as plateias com seu humor histriônico e frequentemente excessivo que deixava de lado seu talento dramático e seus dons musicais. Disposta a mudar esse cenário, ela encontrou no romance "Beaches", de Iris Rainer Dart, o material ideal para voltar a ser lembrada por seus dotes como intérprete séria. Assinando também como produtora, Midler escolheu uma companheira de cena acima de qualquer suspeita - Barbara Hershey, que acabara de ser vista nos cinemas como a Maria Madalena de Scorsese, em "A última tentação de Cristo" (88) - e um cineasta, Garry Marshall, que, apesar de não ter uma personalidade artística das mais marcantes, emplacaria um megasucesso dois anos depois, o romântico "Uma linda mulher" (90). De olho principalmente no público feminino, "Amigas para sempre" não repetiu o mesmo sucesso do filmes anteriores da estrela, mas para os menos exigentes funciona como um bom drama lacrimoso - e que sim, explora todos os seus talentos.

A história, como não poderia deixar de ser, é puro clichê: ainda crianças, em Atlantic City, a mimada e sofisticada Hillary Whitney e a rebelde com vocação artística CC Bloom se conhecem e se tornam amigas, apesar de suas diferenças sociais e de criação. Apesar de distantes fisicamente uma da outra, elas continuam mantendo uma assídua correspondência, até que finalmente, anos mais tarde, se reencontram quando CC (já vivida por Bette Midler) está iniciando uma bem-sucedida carreira nos palcos e Hillary (Barbara Hershey com excesso de botox) dedicando-se a trabalhar como advogada para causas sociais. Elas passam a morar juntas no apartamento decrépito de CC e é justamente seu empresário, John Pierce (John Heard), que irá detonar a primeira crise entre as amigas - que passarão as décadas seguintes em constante instabilidade emocional e profissional, brigando e fazendo as pazes enquanto passam por momentos cruciais de suas vidas. É somente depois que Hillary tem uma filha pequena, no entanto, que o maior problema surge em seu caminho: uma doença rara e incurável que irá por em xeque seu relacionamento.

Com um roteiro bastante superficial, que não explora a contento a profundidade dos sentimentos entre as protagonistas, que passam o filme basicamente brigando e se reconciliando, "Amigas para sempre" é nitidamente um veículo para o brilho de Bette Midler. É ela quem tem as melhores e mais importantes cenas, é ela quem tem a chance de equilibrar momentos dramáticos com sequências cômicas, e, para confirmar seu status de estrela maior, canta em diversos números musicais - alguns interessantes, outros bastante enfadonhos e que atrapalham o ritmo do filme, tornando-o desnecessariamente longo. Hershey, uma atriz de grande capacidade, fica relegada quase sempre a um segundo plano melancólico, sendo desperdiçada com uma personagem mal desenvolvida que serve, aparentemente, como escada para o espetáculo de Midler - que deita e rola mesmo quando sua personagem ultrapassa o limite do suportável, com um egocentrismo que só não a transforma em alguém totalmente desprezível graças ao carisma da atriz, que mesmo assim não agrada a todos. É preciso um mínimo de simpatia por ela para se gostar do filme.

Indicado ao Oscar de direção de arte, "Amigas para sempre" é uma sessão da tarde lacrimosa, mas agradável o suficiente para manter o interesse do público até seus minutos finais, embalados pela bela "Wind beneath my wings", cantada (obviamente) por Bette Midler. Com interessantes referências aos bastidores do mundo do teatro, do cinema e da música, é um filme capaz de emocionar aos mais sensíveis, mesmo que force a barra no terceiro ato, quando substitui a leveza de uma história sobre amizade pelo drama fácil de uma doença terminal. Pode levar às lágrimas, mas é longe de ser inesquecível - e pelo menos deu à Bette Midler a chance de sair um pouco das comédias escrachadas e provar a extensão de seu talento.

quinta-feira

CISNE NEGRO

CISNE NEGRO (Black Swan, 2010, Fox Searchlight Pictures, 108min) Direção: Darren Aronofsky. Roteiro: Mark Heyman, Andrés Heinz, John McLaughlin, estória de Andrés Heinz. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Andrew Weisblum. Música: Clint Mansell. Figurino: Amy Westcott. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez/Tora Peterson. Produção executiva: Jon Avnet, Bradley J. Fischer, Peter Fructhman, Ari Handel, Jennifer Roth, Rick Schwartz, Tyler Thompson, David Thwaites. Produção: Scott Franklin, Mike Medavoy, Arnold W. Messer, Brian Oliver. Elenco: Natalie Portman, Vincent Cassell, Barbara Hershey, Mila Kunis, Winona Ryder. Estreia: 01/9/10 (Festival de Veneza)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Darren Aronofsky), Atriz (Natalie Portman), Fotografia, Montagem
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Natalie Portman)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Natalie Portman) 

A referência óbvia é o balé “O lago dos cisnes”, de Tchaikovsky, que serve de pano de fundo para a trama central e seus desdobramentos dramáticos. Porém, o cineasta Darren Aronofsky não é exatamente um artista partidário do óbvio e, misturando elementos de literatura – “O duplo”, de Dostoievsky – e do próprio cinema – mais exatamente o claustrofóbico “Repulsa ao sexo”, de Roman Polanski e o clássico “Sapatinhos vermelhos”, de Preston Sturgess – ele construiu um dos mais sufocantes e angustiantes filmes de terror da história... e que nem mesmo é um filme de terror. Disfarçado de drama psicológico e envernizado com a aura de sofisticação inerente a filmes sobre uma arte tão nobre quanto a dança, “Cisne negro” surpreende o público com um estudo impiedoso sobre a busca pela perfeição, a repressão sexual e a entrega incondicional à arte sobrepondo-se à vida. Contando com uma atuação avassaladora de Natalie Portman – merecidamente premiada com o Oscar de melhor atriz – e um clima opressivo que vai se tornando mais e mais desconfortável conforme a trama avança, “Cisne negro” já nasceu com o status de clássico moderno.
            
Diametralmente oposto ao cartesianismo de seu filme anterior – o drama “O lutador”, que deu a Mickey Rourke e Marisa Tomei indicações ao Oscar – Aronofsky não hesita em fazer de “Cisne negro” uma obra recheada de símbolos e imagens que brincam com o surrealismo, sugerindo em cada sequência uma série de ideias que dialogam com precisão com seu principal tema: a dualidade da alma humana. Como uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde – personagens do famoso livro de Robert Louis Stevenson – a protagonista do filme vê travar-se, dentro de sua mente, uma batalha impiedosa por sua sanidade psicológica, uma luta inclemente que não poupa vítimas e se desvia frequentemente para os recônditos mais obscuros do inconsciente. Mas, como cineasta formado em Hollywood, Aronofsky – que também deixou crítica e público de queixo caído com a falta de piedade que demonstrou com seus personagens no inesquecível “Réquiem para um sonho” – não criou um tratado psiquiátrico ou uma obra hermética e/ou pedante. Antes de mais nada – antes até mesmo das várias leituras psicológicas que a narrativa permite ao espectador – “Cisne negro” é um filme. Um grande filme. Contado com maestria e com a energia de um cineasta ainda jovem e munido de um arsenal de ideias que faz de cada cena um espetáculo à parte para os fãs de cinema.


A trama, a princípio, é simples e quase dèja vu. O diretor de uma companhia de balé, Thomas Leroy (Vincent Cassel, excelente) resolve aposentar a estrela do grupo, Beth (a sumida Winona Ryder) e escalar uma nova bailarina para protagonizar sua versão moderna do aclamado “O lago dos cisnes”. A jovem e dedicada Nina Sayer (Natalie Portman em papel que herdou de Rachel Weisz e Jennifer Connelly) vê, com isso, a melhor chance de sua carreira. Sua obsessão com a perfeição, porém, não é o bastante para Thomas, que diz a ela, sem rodeios, que lhe falta a ousadia necessária para que possa interpretar o lado obscuro da protagonista da história, o tal Cisne Negro que, no enredo do balé, rouba o príncipe pelo qual sua irmã gêmea e romântica é apaixonada. Desafiada pelo diretor a buscar dentro de si esse lado desconhecido de sua personalidade, Nina – que dorme em um quarto cor-de-rosa decorado com ursinhos de pelúcia e que deixa que sua mãe, a bailarina aposentada (Barbara Hershey) cuide dela como se fosse uma criança – passa a espelhar-se no comportamento livre e descontraído de uma colega, a bela Lily (Mila Kunis). Não demora para que inicie uma jornada perigosa e sem retorno para os desvãos de seus desejos mais recalcados.
           
 Decorando todos os cenários com espelhos que refletem a dualidade de seu jogo de aparências, o cineasta conta com a ajuda da fotografia quase expressionista de Matthew Libatique, que acompanha cada detalhe da jornada de Nina rumo à loucura como uma testemunha onipresente e onisciente, embaralhando diante do espectador as cartas de um roteiro que não tem medo de explorar todas as nuances de sua história, seja no nível físico quanto mental. As metáforas visuais criadas por Aronofsky – conforme Nina vai perdendo seus pudores e deixando de lado as convenções que lhe aprisionavam o público vai percebendo uma transformação física que chega ao ápice no arrepiante clímax do filme – são cortesia de efeitos visuais discretos mas extremamente eficientes, que substituem a grandiosidade pelo minimalismo e que não chamam a atenção mais do que a história em si. E é difícil não deixar-se envolver com o clima de crescente tensão que antecede o desfecho embalado pela consagrada música de Tchaikovsky utilizada durante toda a narrativa – uma cena tão brilhante que deixam mais do que óbvias as razões pelas quais Portman levou seu Oscar.
            
Transformando-se radicalmente da moça tímida e quase infantil das primeiras cenas em um furacão de sensualidade e fúria nos momentos finais, Portman – que estreou no cinema já causando furor com a vingativa ninfeta que interpretou em “O profissional”, de 1994 – transforma o pesadelo em forma de filme criado por Aronofsky em uma experiência única. Sem medo de entregar-se de corpo e alma a uma personagem de extrema complexidade física e psicológica, ela deita e rola na brincadeira quase metalinguística do diretor (afinal a trama do balé de certa forma reflete-se na trajetória da bailarina), dando uma dimensão trágica e poética a uma obra que, em mãos menos habilidosas, poderia virar facilmente mais um filme de terror com pretensões intelectuais jamais atingidas. Equilibrando-se com sensibilidade entre um paralisante drama psicológico e um brilhante filme de suspense, “Cisne negro” é uma obra-prima indiscutível. E pensar que perdeu o Oscar para aquele soporífero brega e previsível chamado “O discurso do rei”...

segunda-feira

RETRATO DE UMA MULHER

RETRATO DE UMA MULHER (The portrait of a lady, 1996, PolyGram Filmed Entertainment, 144min) Direção: Jane Campion. Roteiro: Laura Jones, romance de Henry James. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Veronika Jenet. Música: Wojcieh Kilar. Figurino: Janet Patterson. Direção de arte/cenários: Janet Patterson. Produção: Steve Golin, Monty Montgomery. Elenco: Nicole Kidman, John Malkovich, Barbara Hershey, Martin Donovan, Christian Bale, Viggo Mortensen, John Gielgud, Shelley Winters, Shelley Duvall. Estreia: 28/8/96

Duas indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Barbara Hershey), Figurino

Por mais fãs que tenha, entre o público e a crítica, é impossível negar que a filmografia de Jane Campion tem uma séria tendência à chatice. Até mesmo "O piano", seu filme mais famoso - e tido como sua obra-prima - não consegue escapar de um ritmo claudicante que convencionou-se chamar de sensibilidade feminina. Sua obra seguinte à louvada história da pianista muda interpretada brilhantemente por Holly Hunter sofre do mesmo problema. Adaptado do clássico romance de Henry James, "Retrato de uma mulher" é um filme sofisticado, delicado e denso, mas, apesar de melhorar consideravelmente em seu terço final, castiga o espectador com uma história excessivamente lenta, que demora a engrenar - e é plenamente compreensível que esse mesmo espectador desista da trama depois de não ver nada de excitante acontecendo em mais de uma hora de projeção.

Nicole Kidman, já em seu caminho para tornar-se uma das atrizes mais respeitadas de Hollywood - com um Golden Globe de atriz por "Um sonho sem limites" debaixo do braço - empresta sua beleza frágil e etérea para viver Isabel Archer, uma americana de 23 anos de idade que, no final do século XIX, empreende uma viagem à Europa com a intenção de se autodescobrir. Moderna diante das rígidas normas que regiam a sociedade da época - não vê no casamento, por exemplo, um objetivo de vida - ela não percebe o amor que desperta em seu primo, Ralph Touchett (Martin Donovan, queridinho do diretor independente Hal Hartley) e refusa veementemente as investidas de uma antiga paixão, o também americano Caspar Goodwood (Viggo Mortensen). Depois de herdar uma fortuna de um tio, ela acaba tornando-se alvo do interesse do misterioso Gilbert Osmond (John Malkovich), um colecionador de arte que ela conhece através da aparentemente amável Madame Merle (Barbara Hershey, que ficou com o papel que seria de Susan Sarandon e foi indicada ao Oscar por seu desempenho). Sua relação com ele acaba forçando-a a entrar em um jogo de interesses com o qual ela não está preparada para lidar.


A delicadeza de Kidman como Archer é, paradoxalmente, uma das forças-motrizes do filme de Campion. Especialmente na reta final, quando a protagonista começa a perceber as entranhas maldosas da armação de Merle e Osmond, a então esposa de Tom Cruise está sensacional, contrastando com a quase frieza com que lida com a primeira metade do filme, quando sua personagem se divide entre as normas sociais de seu período e o desejo sexual que a impele a sonhar acordada com seus pretendentes - em sequências não particularmente interessantes, mas dirigidas com criatividade, assim como a bela cena em que Osmond se declara apaixonado por Isabel. Aliás, pode-se reclamar da falta de agilidade de Campion como diretora, mas jamais de sua capacidade em criar cenas esteticamente impactantes, para o que colabora a impecável e detalhista reconstituição de época e a fotografia bem cuidada de Stuart Dryburgh.

E o elenco coadjuvante de "Retrato de uma mulher" também merece elogios rasgados. Se Kidman e Hershey chamam a atenção sempre que estão em cena, com interpretações distintas mas igualmente impressionantes, o equilíbrio entre veteranos e jovens talentos atingido por Campion é notável. John Gielgud e Shelley Winters representam o primeiro grupo - como os tios de Isabel Archer - o segundo time conta com Martin Donovan em uma atuação sensível e arrebatadora e o ótimo Christian Bale como o pretendente da filha de Osmond, outra vítima inocente da ambição de Madame Merle. Cada um à sua maneira, os atores são a principal razão para se assistir ao filme, uma adaptação fiel e sofisticada de uma obra das mais importantes da literatura inglesa.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...