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quinta-feira

A GAIOLA DAS LOUCAS

 


A GAIOLA DAS LOUCAS (The Birdcage, 1996, United Artists, 117min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Elaine May, original de Francis Veber, Édouard Molinaro, Marcello Danon, Jean Poiret, peça teatral "La cage aux folles", de Jean Poiret. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Arthur Schmidt. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Produção executiva: Marcello Danon, Nil Machlis. Produção: Mike Nichols. Elenco: Robin Williams, Nathan Lane, Gene Hackman, Dianne Wiest, Hank Azaria, Christine Baranski, Dan Futterman, Calista Flockhart. Estreia: 08/3/96

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

Um dos filmes franceses de maior sucesso dentro no normalmente hermético mercado norte-americano, "A gaiola das loucas", lançado em 1978, não apenas conquistou a plateia e a crítica, mas também chegou a ser indicado a três Oscar - incluindo melhor roteiro adaptado e direção (Édouard Molinaro). Não demorou, portanto, para que Hollywood pensasse em uma versão doméstica, sem legendas que afugentassem o público médio e que apresentasse a trama (baseada em uma peça teatral de Jean Poiret) para uma nova audiência. Porém, depois de uma tentativa frustrada ainda nos anos 1980 - que poderia ter sido estrelada pela inusitada dupla Dudley Moore e Frank Sinatra (!!) -, o projeto ficou no limbo até a década seguinte, quando finalmente encontrou o caminho para as telas com um elenco sob medida e um tom moderno que, para surpresa de muitos, corrigiu alguns erros do original (amenizando alguns estereótipos exagerados) e revelou o talento de Nathan Lane, até então relegado a pequenos papéis em filmes nem sempre memoráveis. Indicado ao Golden Globe de melhor ator, Lane consegue o quase impensável: roubar a cena em uma comédia contracenando com o furacão Robin Williams.

Já consagrado no teatro mas sem um grande sucesso para chamar de seu, Nathan Lane agarrou com unhas e dentes a chance oferecida pelo veterano Mike Nichols (incentivado pelo sempre generoso Robin Williams), e só não engole tudo a sua volta porque a seu lado estão nomes como Williams, Gene Hackman e Dianne Wiest, todos conhecidos por seu talento em brilhar não importa o tamanho de seus papéis. Nichols - respeitado por sua capacidade de transitar entre diversos gêneros - dirige a todos com a elegância habitual e extrai o melhor de cada um, criando uma estrutura cômica irresistível, com piadas que fazem rir não apenas o público gay (com referências ao universo homossexual) mas também plateias mais tradicionais. Não à toa, o filme arrecadou mais de 180 milhões de dólares no mercado internacional - um feito e tanto quando se sabe o quão hermético ao tema é o público médio. Em parte devido à presença de Williams, em parte devido ao êxito do filme francês, "A gaiola das loucas" surpreendeu até mesmo o estúdio (a United Artists) - e provou que, nas mãos certas e com respeito ao material original, um remake pode acrescentar camadas antes não percebidas (e eliminar problemas, especialmente para audiências mais suscetíveis).



A trama do filme quase todo mundo já conhece, de uma forma ou outra: Gaiola das Loucas é uma boate de drag queens localizada em South Beach. Seu proprietário é Armand Goldman (Robin Williams), que é casado com a principal atração do local, o transformista Albert (Nathan Lane) - que se apresenta com o nome artístico de Starina e é admirado por todos os frequentadores. A rotina relativamente tranquila do casal (que inclui crises nervosas de Albert a qualquer contrariedade) é abalada quando Val (Dan Futterman) - filho de uma aventura casual de Armand na juventude - surge com a notícia de que irá se casar com a delicada Barbara (Calista Flockhart), filha de um senador cujas posições extremamente conservadoras batem de frente com o estilo de vida de seus futuros sogros. A notícia cai como uma bomba no pouco tradicional lar, mas as coisas ficam ainda piores quando Val pede aos pais que aceitem fingir uma falsa normalidade em um jantar para o encontro das duas famílias. Para isso, Albert precisa sair de cena - e ser substituído pela mãe do rapaz, Katherine (Christine Baranski) - e todos os detalhes da casa considerados "gay demais" (ou seja, todos) precisam ser escondidos, incluindo o empregado, Agador Spartacus (Hank Azaria), que sonha com sua chance na boate dos patrões. A situação, caótica por si própria, se complica quando o Senador Kevin Keeley (Gene Hackman) se vê envolvido involuntariamente em uma polêmica relacionada ao partido e passa a ser perseguido pela imprensa. O jantar - que já prometia ser um desastre - se completa quando, na ausência de Katherine, Albert assume o papel de matriarca da família.

Uma comédia de erros das mais felizes, "A gaiola das loucas" versão americana se beneficia do calor das praias de South Beach para acrescentar uma energia solar que talvez falte no original francês. Se Nathan Lane dá seu show particular em cada aparição - a sequência em que tenta caminhar de modo viril, como John Wayne, é um primor -, seu parceiro de cena também não decepciona: ao optar por viver o menos espalhafatoso Armand (que a princípio seria interpretado por Steve Martin), um dos atores mais populares de sua geração (e também dos mais ocupados na metade da década de 1990) abre espaço para o brilho de seus colegas de cena e mesmo assim chama a atenção com um desempenho que explora seu dom para o humor popular. Gene Hackman, por sua vez, surpreende ao entregar uma atuação que rompe com sua persona sisuda e consagrada junto ao grande público - sua última cena é, sem dúvida, um dos grandes momentos da comédia americana moderna. Ao atualizar e melhorar um clássico contemporâneo (sem perder sua essência e seu senso de humor sagaz e irônico), o filme de Mike Nichols mereceu o enorme sucesso de bilheteria - e, caso raro em se tratando de remakes, conquistou inclusive a crítica, sendo indicado aos Golden Globes de melhor comédia e melhor ator e saindo vencedor de melhor elenco na cerimônia do Screen Actors Guild, batendo nada menos que "O paciente inglês", grande vencedor do Oscar em sua temporada. Não é pouca coisa!

segunda-feira

O PRIMEIRO AMOR DE UM HOMEM

 


O PRIMEIRO AMOR DE UM HOMEM (The pallbearer, 1996, Miramax, 98min) Direção: Matt Reeves. Roteiro: Matt Reeves, Jason Katims. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Stan Salfas. Música: Stewart Copeland. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Robin Standefer/Kate Yatsko. Produção executiva: Meryl Poster, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Jeffrey Abrams, Paul Webster. Elenco: David Schwimmer, Gwyneth Paltrow, Barbara Hershey, Toni Collette, Michael Rapaport, Carol Kane, Michael Vartan. Estreia: 03/5/96

O título nacional "O primeiro amor de um homem" não força à toa uma similaridade com "A primeira noite de um homem", que deu o Oscar de melhor diretor a Mike Nichols: assim como no clássico de 1967, o protagonista é um jovem adulto perdido em suas ambições profissionais e sentimentais, e que fica dividido entre o amor de duas mulheres de gerações diferentes. Porém, apesar da semelhança temática, há uma grande desvantagem em relação ao drama romântico lançado em 1996: o cineasta Matt Reeves não é Nichols, e tampouco David Schwimmer - seu protagonista - tem o carisma de Dustin Hoffman. Dito isso, até dá para arriscar uma sessão descompromissada, já que o resultado final é bastante simpático, ainda que pouco memorável. E de quebra, pode-se ter contato com o começo das carreiras de dois atores que, logo em seguida, se tornariam internacionalmente famosos e celebrados.

O filme começa quando o jovem Tom Thompson (David Schwimmer) recebe o telefonema de uma mulher chamada Ruth Abernathy (Barbara Hershey), que, em luto, lhe comunica a morte do filho que, segundo ela, foi seu melhor e mais querido amigo na escola. O problema é que Tom não consegue lembrar quem é o rapaz e se deixa levar pela situação, com medo de magoar uma mãe desesperada. O encontro dos dois acaba evoluindo para uma relação um tanto incômoda, mas, passivo, Tom não vê modos de encerrá-la. A situação muda de figura, no entanto, com a chegada de Julie DeMarco (Gwyneth Paltrow), que retorna à cidade depois do fim de um relacionamento conturbado. Apaixonado por Julie desde sempre, Tom se surpreende quando as coisas começam a andar entre eles - mas para ficar de vez com aquela a quem considera o amor de sua vida, precisa resolver a questão pendente com Ruth, cada vez mais carente. Nesse meio-tempo, os dois melhores amigos de Tom passam por outros momentos cruciais de suas vidas: Scott (Michael Vartan) está em crise no casamento com Cynthia (Toni Collette), e Brad (Michael Rapaport) finaliza os preparativos para a união com a dominadora Lauren (B Bitty Schram).

David Schwimmer - ainda nas primeiras temporadas do fenômeno "Friends" - já demonstra, em alguns momentos, os trejeitos que tanto funcionava em seu Ross Geller: o olhar triste e o talento para o humor físico. Por sua vez, Gwyneth Paltrow - que ganharia um dos Oscar mais discutíveis da história três anos mais tarde - pouco tem a fazer a não ser desfilar sua figura elegante pela cela e tentar transmitir os sentimentos de uma personagem insossa e inexplicavelmente alvo de uma paixão avassaladora. São os dois, bastante jovens, que sustentam uma trama que dá voltas e mais voltas até chegar a um final anticlimático, que apenas valoriza o talento da sempre ótima Barbara Hershey. O elenco coadjuvante - que conta com uma subaproveitada Toni Collette e a divertida Carol Kane - muitas vezes se sobressai diante da apatia dos dois protagonistas e da aparente falta de energia da direção de Reeves, que anos depois encontraria um caminho mais bem-sucedido ao comandar filmes de ação, como "Planeta dos Macacos: Origem" (2014) e "The Batman" (2022). O roteiro, coescrito pelo cineasta, até tenta levantar questões sobre a juventude americana do final do século XX (e sua falta de norte em relação ao futuro), mas assim como acontece com o romance central, não há liga, e tudo parece meio fora de lugar. Ao buscar o equilíbrio entre drama, humor e romance, Reeves tropeça na própria ambição e entrega menos do que suas pretensões.

Mas não se pode dizer, afinal de contas, que "O primeiro amor de um homem" é um filme ruim. É irregular, não atinge todas as notas a que se propõe e está longe de ser memorável, mas de certa forma apresenta uma honestidade e uma delicadeza ao lidar com seus personagens e seus dilemas que deixa seus pecados mais facilmente perdoáveis. David Schwimmer nitidamente tenta dar o melhor de si - e seu esforço acaba recompensado em algumas cenas bastante tocantes (em especial quando divide o momento com Hershey). Se não chega aos pés do inesquecível drama de Mike Nichols também não chega a ser vexaminoso ou dispensável. Pode-se até ser classificado como um agradável (se não profundo) estudo sobre as relações humanas da tão falada Geração X. Vale uma sessão da tarde, desde que sem maiores expectativas.

terça-feira

FANTASMAS DO PASSADO

 


FANTASMAS DO PASSADO (Ghosts of Mississippi, 1996, Columbia Pictures, 130min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Lewis Colick. Fotografia: John Seale. Montagem: Robert Leighton. Música: Marc Shaiman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Karen A. O'Hara. Produção executiva: Charles Newirth, Jeffrey Stott. Produção: Nicholas Paleogolos, Rob Reiner, Andrew Schneiman, Frederick Zollo. Elenco: Alec Baldwin, Whoopi Goldberg, James Woods, Craig T. Nelson, Virginia Madsen, Diane Ladd, Susanna Thompson, William H. Macy, Jerry Levine, Terry O'Quinn, James Pickens Jr., Lucas Black, Jerry Hardin. Estreia: 20/12/96

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (James Woods), Maquiagem

Quando "Fantasmas do passado" chegou aos cinemas, em dezembro de 1996, fazia apenas dois anos e meio que sua história havia tido seu desfecho. O  terceiro julgamento de Byron de la Beckwith pelo assassinato do líder negro Medgar Evers em 1963 - depois de dois outros anulados por uma série de circunstâncias que beneficiavam o réu  - tornou-se assunto dominante em Jackson, Mississippi no começo de 1994 e sua versão cinematográfica aproveitou-se da energia de revolta local para tentar transmitir ao espectador toda a força dos acontecimentos que foram um marco na luta pelos direitos civis na sociedade norte-americana. Não conseguiu completamente. A bilheteria pouco expressiva e a receptividade morna da crítica acabaram por relegar o filme a uma espécie de limbo na carreira do diretor Rob Reiner, apenas um meio-termo entre o sucesso de "Conta comigo" (1986), "Harry & Sally: feitos um para o outro" (1989), "Louca obsessão" (1990) e "Questão de honra" (1992) e o fracasso comercial de "O anjo da guarda" (1994) e "Alex & Emma: escrevendo sua história" (2003).  Mesmo assim, chamou a atenção o suficiente para render a James Woods uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante - a segunda de sua carreira.

Woods - na pele do venal Byron de la Beckwith - é o destaque absoluto do filme de Reiner. Mesmo com poucos minutos em cena, seu desempenho consegue eclipsar tanto a potente atuação de Whoopi Goldberg (tentando dar consistência às falas clichês de sua personagem) quanto o esforço de Alec Baldwin, ainda não exatamente reconhecido como o ator de respeito que se tornaria com o passar dos anos. Fugindo da tentação de fazer de Beckwith um vilão humanizado (basta ver entrevistas reais para perceber que isso é impossível), o veterano ator dá o seu melhor para transmitir, em cada aparição, todo o ódio e o desprezo que move o movimento supremacista do sul dos EUA - e do resto do mundo. Sempre que surge na tela, seu olhar maligno e sua expressão de desprezo pela justiça tornam impossível ignorar seu minucioso trabalho - algo que nem mesmo a maquiagem exagerada (inexplicavelmente indicada ao Oscar) consegue atrapalhar. Lamentável que o roteiro não lhe dê mais espaço e se concentre naquele que talvez seja o grande problema do filme: a figura do criticado white savior - termo que caracteriza, normalmente de forma pejorativa, uma pessoa branca que se torna o herói em uma luta racial. Ok, o advogado que levou Beckwith aos tribunais em 1994,Bobby DeLaughter, é branco. Mas fica, mesmo assim, a sensação de um foco inadequado a uma trama tão nitidamente específica.


 

Apesar de dar a Whoopi Goldberg o importante e crucial papel de Myrlie Evers, a viúva do ativista pelos direitos civis Medgar Evers (vivido no filme por James Pickens Jr., de "Grey's Anatomy"), o roteiro de "Fantasmas do passado" se concentra basicamente em Bobby DeLaughter, promotor do Mississipi que entra, quase por acaso, no caso do terceiro julgamento de um racista radical acusado pelo assassinato. Casado, pai de dois filhos e parte de uma família tradicional e respeitada, Bobby se deixa convencer pela persuasiva Myrlie de que trinta anos já é tempo suficiente para tentar novamente a condenação do homem que matou seu marido. Para conquistar sua confiança, o promotor põe em risco seu casamento, sua carreira e até mesmo sua vida. Sem o apoio daqueles que o rodeiam - todos profundamente enraizados nos preconceitos sulistas - e questionado até mesmo por Myrlie, ele descobre, no processo rumo ao tribunal, que condenar um homem tão abertamente preconceituoso e intolerante não é tarefa fácil, especialmente em seu contexto geográfico e social.

Assumindo um papel que foi cogitado para ser de Tom Cruise ou de Tom Hanks - ambos com potencial comercial bem maior -, Alec Baldwin sofre com a direção quase mecânica de Rob Reiner e com o roteiro esquemático e quase frio. Ao tentar evitar o sentimentalismo inerente à história, Reiner nega à plateia o tom emocional que poderia fazer de seu filme uma produção marcante e relevante. Lançado no mesmo ano do sucesso "Tempo de matar" e do fiasco "O segredo" - ambos com temática semelhante, ainda que relatos de ficção baseados em livros de John Grisham -, "Fantasmas do passado" passou praticamente em branco nos cinemas e dificilmente é lembrado mesmo nas filmografias de seus atores principais. Não deixa de ser uma injustiça: mesmo longe de ser um dos melhores filmes do diretor ou até mesmo sobre o tema, é um entretenimento decente - ainda que seu foco seja um tanto problemático.

quarta-feira

O SEGREDO


O SEGREDO (The chamber, 1996, Universal Pictures, 111min) Direção: James Foley. Roteiro: William Goldman, Phil Alden Robinson (Chris Reese), romance de John Grisham. Fotografia: Ian Baker. Montagem: Mark Warner. Música: Carter Burwell. Figurino: Tracy Tynan. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Lisa Fischer. Produção executiva: David Friendly, Karen Kehela., Ric Kidney. Produção: John Davis, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Chris O'Donnell, Gene Hackman, Faye Dunaway, Robert Prosky, Raymond J. Barry, Lela Rochon, Bo Jackson, David Marshall Grant. Estreia: 11/10/96

Entre 1993 e 1996, um dos nomes mais quentes em Hollywood não era um astro milionário, um cineasta prestigiado ou um produtor poderoso. Ao transformar em livros seu conhecimento como advogado e sua experiência em tribunais, John Grisham, passou, em poucos anos, de um escritor principiante a um dos autores mais requisitados pelos estúdios, sempre em busca de material para suprir a demanda de um público ávido por boas histórias. Com o apoio nada desprezível de atores como Tom Cruise, Julia Roberts, Denzel Washington e Susan Sarandon - e diretores respeitados como Sydney Pollack, Alan J. Pakula e, vá lá, Joel Schumacher - as adaptações das obras de Grisham se mostravam uma mina de ouro, se não inesgotável ao menos generosa. Assim, "A firma" (1993), "O Dossiê Pelicano" (1993), "O cliente" (1994) e "Tempo de matar" (1996) ultrapassaram a marca de 100 milhões de dólares de arrecadação e firmaram seu nome como um atestado de qualidade. Porém, como não poderia deixar de acontecer, nem todo sucesso dura para sempre - e qualquer falha no processo pode resultar em um inesperado fracasso. Foi o que aconteceu com "O segredo": com uma renda mundial que não chegou a cobrir metade de seu orçamento, estimado em 50 milhões, o filme dirigido por James Foley mostrou que nada - nem ninguém - é infalível.

Lançado poucos meses depois de "Tempo de matar", dirigido por Joel Schumacher e com um elenco que incluía Samuel L. Jackson, Kevin Spacey, Sandra Bullock e um Matthew McConaughey a caminho do estrelato, "O segredo" já estreou em desvantagem: apesar de ser um ator em franca ascensão à época -  no mínimo desde sua parceria com Al Pacino em "Perfume de mulher" (1992) -, Chris O'Donnell ainda não parecia capaz de segurar sozinho (ou quase) uma bilheteria sólida, em especial em comparação com a primeira escolha para o papel principal do filme, Brad Pitt. Mais jovem, com menos experiência e sem nenhum grande sucesso solo no currículo, O'Donnell acabou por se tornar o principal alvo das críticas - mesmo que não seja o responsável pelos problemas de bastidores que, logicamente, respingaram no resultado final, que não agradou nem mesmo ao próprio John Grisham. Desde a saída de Pitt - consequência da opção de Ron Howard em comandar "O preço de um resgate" (1996) -, o projeto de "O segredo" parecia fadado pelo menos a uma produção problemática. O roteirista William Goldman, por exemplo, viu parte de seu trabalho rejeitado por Howard (ainda produtor do filme) e pelo novo diretor, James Foley - e depois testemunhou seu substituto, Phil Alden Robinson, preferir assiná-lo com um pseudônimo por não concordar com a versão final. Além disso, a ideia de oferecer a direção a Foley - que lançou o suspense "Medo" no mesmo ano para a mesma Universal Pictures - não foi das mais felizes: se a trama já não é tão eletrizante quanto a de outros livros de Grisham, o trabalho de Foley pouco faz para acentuar suas qualidades ou amenizar seus defeitos. Quase no piloto automático, o cineasta falha em sua principal missão: conectar o espectador com seu protagonista.

 

Jovem e idealista como quase todos os personagens centrais de Grisham (talvez seus alter-egos), Adam Hall (Chris O'Donnell, esforçado mas nada mais do que isso), acaba de sair da faculdade de Direito e para seu primeiro caso importante escolhe um desafio dos maiores: evitar que um condenado à câmara de gás seja executado. Culpado pelo assassinato de duas crianças judias trinta anos antes, Sam Cayhall (Gene Hackman) assume a autoria do crime, não demonstra nenhum arrependimento e parece se orgulhar de suas ideias racistas - transmitidas a eles através de gerações. Mas Adam tem seus motivos para lutar pela suspensão da pena do irascível presidiário: Sam é seu avô, e apesar das consequências trágicas do crime, como o suicídio de seu pai, o jovem advogado quer, mais do que tudo, investigar as raízes de tanto ódio e tentar extirpá-las do próprio futuro. Para isso, conta com a ajuda hesitante de uma tia, Lee (Faye Dunaway), viciada em álcool e envergonhada do passado da família, ela esconde suas origens, mas vê na chegada do sobrinho uma oportunidade de curar feridas antigas e ainda doloridas.

Visto à luz do tempo, "O segredo" não é o horror que muitos fizeram pensar quando de sua estreia. Mesmo que não tenha o mesmo brilho de outros filmes baseados em obras de Grisham - em especial "O cliente", que deu a Susan Sarandon uma indicação ao Oscar, e "O homem que fazia chover", um dos poucos Francis Ford Coppola da década de 1990 -, o resultado final tem qualidades que foram ignoradas em seu lançamento. A atuação monstruosa de Gene Hackman é um exemplo: mesmo com um personagem quase maniqueísta, o veterano ator oferece ao público um trabalho precioso, repleto de uma energia que falta ao protagonista de Chris O'Donnell. E se Faye Dunaway - em papel oferecido a Sigourney Weaver - foi indicada ao Framboesa de Ouro, isso diz mais sobre a implicância de parte da crítica sobre seu desempenho do que exatamente por justiça: por mais que exagere em alguns momentos, a atriz, vencedora do Oscar por "Rede de intrigas" (1976), constrói uma personagem que reflete com perfeição as consequências do ódio e da intolerância. São os veteranos astros que dão a "O segredo", apesar de suas falhas, motivos para que lhe seja feita justiça: mesmo estando longe de ser um filme marcante, tampouco é a aberração que seu fracasso comercial poderia dar a entender.

 

quinta-feira

O PENTELHO


O PENTELHO (The cable guy, 1996, Columbia Pictures, 96min) Direção: Ben Stiller. Roteiro: Lou Holt Jr.. Fotografia: Robert Brinkmann. Montagem: Steven Waisberg. Música: John Ottman. Figurino: Erica Edell Phillips. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Maggie Martin. Produção executiva: Bernie Brillstein, Brad Grey, Marc Gurvitz. Produção: Judd Apatow, Andrew Licht, Jeffrey A. Mueller. Elenco: Jim Carrey, Matthew Broderick, Leslie Mann, Jack Black, Ben Stiller, Owen Wilson, George Segal, Diane Baker, Bob Odenkirk, Janeane Garofalo. Estreia: 10/6/96

Quando "O pentelho" estreou, no verão norte-americano de 1996, a carreira e o potencial comercial de Jim Carrey estavam em jogo. Não apenas o ator canadense teria que provar ser mais do que apenas um humorista cujo humor físico agradava ao público mas constrangia a crítica, mas também precisaria provar à indústria de que seu astronômico salário de 20 milhões de dólares (um recorde absoluto na época) não era um exagero irresponsável da Columbia Pictures. O resultado nas bilheterias, se não foi o sucesso esperado por aqueles que testemunharam a ascensão meteórica do astro - a soma da renda de seus dois "Ace Ventura" e de "O máskara" ultrapassava 500 milhões de dólares, sem contar os números de "Batman eternamente" (1995), uma máquina de fazer dinheiro que nem mesmo o massacre da crítica pode atrapalhar -, ao menos não decepcionou completamente. Apesar de constar na história como um fracasso, o filme dirigido por Ben Stiller não fez tão feio quanto fizeram crer os analistas: com mais de 100 milhões arrecadados ao redor do mundo, "O pentelho" pode não ter sido o arrasa-quarteirão que era previsto, mas ficou longe de ser um fiasco. Mais importante ainda: ao contrário de muitas críticas negativas, é uma produção com muito mais qualidades do que defeitos.

Lançado como o filme que mostraria um lado novo de Carrey - que já demonstrava interesse em fugir dos papéis de palhaço que lhe deram fama e dinheiro -, "O pentelho" seria, a princípio, um veículo para o estrelato de Chris Farley. Com a saída de Farley do projeto, por compromissos com a Paramount, o roteiro de Lou Holt Jr., comprado pela Columbia Pictures por um milhão de dólares, ficou à deriva, à procura de um novo astro. Nomes como os de Robin Williams, Adam Sandler e Paul Giamatti chegaram a ser considerados, até que, alterando substancialmente as ambições da produção, Carrey entrou na jogada. Sequioso por dar um novo rumo à carreira e emprestar credibilidade a uma trajetória que corria o sério risco de um desgaste iminente, o ator agarrou com unhas e dentes a possibilidade de deixar de lado seus personagens bobalhões e assumir uma persona mais sombria. Sua chegada ao grupo alterou também outros fatores: o roteiro de Holt Jr. passou a ser reescrito por Judd Apatow (que acabou não creditado, por regras do sindicato) e o que seria apenas uma comédia sobre a amizade bizarra entre dois homens virou um filme que flerta abertamente com o suspense - ainda que não tenha a coragem de ir até as últimas consequências principalmente por suas ambições comerciais junto ao público fiel de seu ator central.


 

Na verdade, apesar de viver um protagonista mais complexo do que em seus filmes anteriores, Carrey não chega a abandonar de vez seus trejeitos histriônicos em "O pentelho", mesmo que os equilibre com momentos mais discretos. A trama tem início com a separação do jovem executivo Steven Kovacs (Matthew Broderick), que, voltando a morar sozinho, contrata um serviço de televisão a cabo para ocupar suas noites solitárias. Quem aparece para a instalação é Chip (Jim Carrey), um rapaz um tanto estranho que, confundindo a atenção do novo cliente por um desejo de amizade, passa a perseguí-lo sem folga. A princípio aceitando a atenção de Chip, o tímido Steven logo passa a sentir-se incomodado com a obsessão do novo amigo. Quando resolve impor limites à relação, acaba por despertar um lado perigoso do instalador, que começa a utilizar-se de todas as suas forças para destruir sua vida, incluindo as chances de uma reconciliação com a ex-namorada, Robin (Leslie Mann).

Sob a direção acertadamente claustrofóbica de Ben Stiller - que dá as caras no filme em uma subtrama veiculada na televisão, sobre um homicídio entre irmãos gêmeos -, Jim Carrey dá, em "O pentelho", os primeiros passos em direção a uma carreira de ator sério, que culminaria em performances precisas em "O show de Truman: o show da vida" (1998), "O mundo de Andy" (1999) e "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" (2004). Extremamente à vontade em cena, o astro mescla momentos de seu humor físico inconfundível com sequências onde exercita um lado dramático (ainda) um tanto exagerado. Seu colega de cena, Matthew Broderick (que recebeu um salário de apenas um milhão de dólares), está constrangido na medida certa, oferecendo uma contraparte adequada aos quase excessos de Carrey, mas é inegável que, ao alterar o roteiro original, a produção não consegue esconder certa irregularidade em sua segunda metade. Com um ritmo instável e algumas sequências arrastadas, "O pentelho" é nitidamente um degrau acima das bobagens até então estreladas por Carrey, mas sofre com sua indecisão entre uma comédia rasgada e um suspense com toques cômicos. Pode não ter sido o fracasso que foi alardeado por Hollywood - onde muita gente torcia pela queda do ator, não exatamente fácil de lidar -, mas tampouco é a obra marcante que poderia ter sido. Pode-se dizer, sem medo, que foi o primeiro capítulo de uma fase menos comercial e mais artística de sua trajetória - ainda que, em 1999, ele tenha voltado um pouco às origens com o sucesso de "O mentiroso", menos ousado mas bem mais regular.

sexta-feira

SHINE: BRILHANTE

SHINE: BRILHANTE (Shine, 1996, Fine Line Pictures, 104min) Direção: Scott Hicks. Roteiro: Scott Hicks, estória de Jan Sardi. Fotografia: Geoffrey Simpson. Montagem: Pip Karmel. Música: David Hirschfelder. Figurino: Louise Wakefield. Direção de arte/cenários: Vicki Niehus/Tony Cronin. Produção: Jane Scott. Elenco: Geoffrey Rush, Noah Taylor, Armin Mueller-Stahl, Lynn Redgrave, John Gielgud, Alex Rafalowicz, Marta Kaczmarek, Googie Withers. Estreia: 21/01/96 (Festival de Sundance)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Scott Hicks), Ator (Geoffrey Rush), Ator Coadjuvante (Armin Mueller-Stahl), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Geoffrey Rush)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Geoffrey Rush) 

Se é justo afirmar que todo gênio tem uma alma torturada, ninguém serve como maior exemplo disso do que o australiano David Helfgott: pressionado desde a infância a superar seu próprio brilhantismo ao piano, ele lutou bravamente para encontrar seu próprio caminho - a despeito dos desejos dúbios de seu pai superprotetor - e, mesmo depois de uma devastadora crise nervosa que o afastou dos palcos por décadas, nunca abandonou sua paixão pela música. A história de Helfgott - redescoberta depois de seu retorno aos holofotes - é inspiradora e emocionante, e como não poderia deixar de ser, interessou aos produtores de cinema. Para sorte de todos, porém, não foi Hollywood e sua tendência em exagerar na sacarose quem levou sua trajetória às telas. Produzido na Austrália e dirigido por um até então desconhecido cineasta e documentarista, "Shine: brilhante" estreou no Festival de Sundance em janeiro de 1996 e, desde então, passou a colecionar prêmios, principalmente devido à sua maior contribuição à sétima arte: a revelação do ator Geoffrey Rush às plateias.

Já na casa dos quarenta anos quando estrelou o filme de Scott Hicks - que nunca mais acertou a mão no cinema -, Rush era conhecido na Austrália por sua vitoriosa carreira nos palcos, mas foi sua interpretação como David Helfgott em sua fase madura que lhe abriu as portas de Hollywood. Seu desempenho não apenas o tornou um nome bem considerado pelos produtores como lhe rendeu todos os prêmios da temporada. Além da vitória junto aos críticos de Boston, Los Angeles e Nova York, ele ainda conquistou uma raríssima unanimidade junto às cerimônias de premiação mais populares: levou pra casa um Oscar, um Golden Globe, um BAFTA, uma estatueta do Critic's Choice Awards e a aprovação dos colegas com um Screen Actor Guild Award. Haja prateleira para tantos prêmios, mas é impossível negar que o desempenho de Rush é um dos pontos fortes de "Shine". Mesmo que ele mal apareça em cena até depois da metade da história (antes disso ele surge apenas no prólogo, que mostra ao público sua inusitada "redescoberta"), é ele quem fica na memória do espectador depois dos créditos finais, graças à excentricidade visceral de sua performance.


Antes que Rush surja na tela e domine o espetáculo, no entanto, outro ator - igualmente impecável em sua atuação - já prepara o terreno. Como o jovem Helfgott, o britânico Noah Taylor encara o desafio de dar vida ao pianista nos momentos mais críticos de sua jornada - seus embates com o pai, sua decolagem artística e a crise psiquiátrica que interrompeu sua carreira. Com segurança ímpar, Taylor percorre terrenos perigosos sem jamais cair em armadilhas ou clichês (mérito também da direção de Scott Hicks) e conquista a audiência com sua mistura de inocência e autoconfiança - um conjunto de qualidades que o empurra em direção ao abismo e à manipulação paterna. Armin Mueller-Stahl - indicado ao Oscar de ator coadjuvante - brilha no papel do patriarca Peter, um homem atormentado pelo passado em campos de concentração e que, apesar de acreditar no talento do filho (e incentivá-lo a ultrapassar seus limites), não concebe a possibilidade de separar a família, e com isso antecipa a tragédia que vem a seguir. Mais do que simplesmente abraçar o caminho mais fácil e fazer de seu personagem um vilão unidimensional, Mueller-Stahl concede a ele o dom de uma profundidade maior, em que cabe o medo, o amor e uma rigidez que nem sempre disfarça o orgulho do filho.

Interpretado ainda por Alex Rafalowicz em sua versão infantil, David Helfgott é um personagem quase inacreditável - e que chamou a atenção até mesmo do veterano Dustin Hoffman, que se interessou em interpretá-lo. Dono de uma personalidade peculiar, com trejeitos próprios e uma linguagem corporal pouco comum, o músico era um convite tentador ao exagero, mas "Shine" consegue o feito raro de contar sua história sem apelar para o sentimentalismo. Não à toa, conquistou a Academia de Hollywood e chegou à festa do Oscar com sete indicações, inclusive melhor filme, diretor e roteiro original - além das lembranças a Rush e Mueller-Stahl. A edição (que também concorreu à estatueta, mas perdeu para o grande vencedor do ano, "O paciente inglês") valoriza a estrutura da trama (que explora com inteligência o uso de flashbacks), e a trilha sonora, que conta com obras de Rachmanioff (das mais difíceis de se executar, segundo especialistas) como pano de fundo, são outros elementos cruciais para o sucesso do filme - que emociona, surpreende e encanta sem apelar para lágrimas fáceis. Um belo trabalho!

quinta-feira

ÍNTIMO & PESSOAL

ÍNTIMO & PESSOAL (Up close & personal, 1996, Touchstone Pictures/Cinergi Pictures Entertainment, 124min) Direção: Jon Avnet. Roteiro: Joan Didion, John Gregory Dunne, inspirado no livro de Alanna Nash. Fotografia: Karl Walter Lindenlaub. Montagem: Debra Neil-Fisher. Música: Thomas Newman. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Jeremy Conway/Doree Cooper. Produção executiva: John Foreman, Ed Hookstratten. Produção: Jon Avnet, Jordan Kerner, David Nicksay. Elenco: Robert Redford, Michelle Pfeiffer, Stockard Channing, Joe Mantegna, Kate Nelligan, Glenn Plummer, James Rebhorn, Scott Bryce. Estreia: 01/3/96

Indicado ao Oscar de Canção Original ("Because you loved me")



Primeiro foi o sucesso da Touchstone Pictures em conseguir os direitos do livro "Almost golden: The Jessica Savitch Story", escrito por Allana Nash. Depois, a expectativa em realizar um filme capaz de chamar a atenção do público e da crítica - além de faturar estatuetas douradas pelo caminho. E no fim, o desespero de perceber que o material que tinham em mãos era radicalmente o oposto do que se poderia esperar de uma produção com o selo Disney. É de imaginar o que um estúdio conhecido por seus filmes realizados para a família poderia pensar ao ler uma história sombria e trágica, com uma protagonista envolvida com álcool, drogas, maridos abusivos e até suicídio. Tendo isso em conta, é compreensível que a trajetória de Savitch - uma das primeiras mulheres a assumir o cargo de âncora em um telejornal nos EUA, no final dos anos 70 - tenha se metamorfoseado, então, em "Íntimo & pessoal", um açucarado drama romântico que em nada (ou quase nada) lembra sua origem dramática e que, por ironia, passou batido nas cerimônias de premiação e nem mesmo entusiasmou seu público-alvo. Um entretenimento apenas razoável, o filme de Jon Avnet (do bem-sucedido "Tomates verdes fritos", de 1991) só não é totalmente esquecível graças à beleza e ao carisma de sua estrela, Michelle Pfeiffer - que, por sua vez, deve ter sido a mais frustrada da história toda.

Recém saída de um parto e sem disposição para filmagens extensas e cansativas fora dos EUA, Pfeiffer recusou o papel principal de "Mistress of the sea" - um filme de ação sobre piratas do sexo feminino e que nunca chegou a ser realizado - para estrelar "Íntimo & pessoal" quando o filme de Avnet ainda era sobre Jessica Savitch e sua história, tragicamente encerrada em decorrência de um acidente de carro em outubro de 1983. Conhecida nacionalmente por seu trabalho como repórter e apresentadora, Savitch cobriu eventos importantes para o país, como as convenções dos partidos Democrata e Republicano de 1980 - mas era mais conhecida por seu carisma e pela naturalidade diante das câmeras (apesar de ter seu talento ser frequentemente questionado por detratores, que a consideravam apenas um rosto bonito). Poucas semanas antes de sua morte, em um incidente que muitos consideraram um forte indício de que ela poderia realmente estar abusando de drogas, Savitch fez uma desastrosa aparição ao vivo na NBC, parecendo completamente perdida e incoerente. Sua morte não encerrou as discussões sobre o assunto - mas sua vida pessoal era muito mais complexa do que todos pensavam, mas tudo que fazia dela tão especial em termos dramáticos foi simplesmente apagado do roteiro quando a Touchstone decidiu que, ao invés de explorar os demônios de sua protagonista, iria direcionar o foco do filme para uma história de amor que não tinha absolutamente nada a ver com a realidade.



Surgia assim, então, Sally Atwater, uma jovem e ambiciosa modelo que, disposta a tornar-se conhecida como repórter televisiva, abandona seu estado natal, a Pensilvânia, e parte para Miami. Contratada como assistente, ela não demora a demonstrar garra o bastante para ser escolhida como a "moça do tempo" da NBC - e, em seguida, passar a fazer pequenas reportagens para a emissora. Com o apoio do experiente Warren Justice (Robert Redford), Sally (já devidamente rebatizada como Tally) aos poucos começa a subir mais degraus na carreira, e os dois iniciam um romance maduro e honesto. O futuro do relacionamento, porém, é posto à prova quando Tally se torna um rosto conhecido no país inteiro - e Justice se vê diante de uma séria crise que lhe coloca em posição inferior no campo profissional. Enquanto Tally ascende cada vez mais, ele busca uma maneira de continuar trabalhando e encontrando desafios que o façam sentir-se vivo e importante.

Uma espécie de "Nasce uma estrela" dentro do jornalismo, "Íntimo & pessoal" é uma produção que não atinge todos os seus potenciais. Nem de longe perto do brilhantismo de seu "Tomates verdes fritos", Jon Avnet entrega um trabalho apenas correto, ainda que muitas vezes de uma simplicidade narrativa excessiva. Robert Redford não tem muito o que fazer na pele de Warren Justice, um personagem sem grande complexidade, e até mesmo Michelle Pfeiffer, apesar do carisma e do talento, não consegue ultrapassar os limites de uma protagonista retratada com insegurança pelo roteiro: na primeira metade do filme, Tally é uma personagem de comédia romântica, com direito até mesmo a cenas bem-humoradas (que nem sempre funcionam); e na reta final assume ares de heroína trágica, com momentos lacrimosos sublinhados pela bela "Because you loved me", na voz de Céline Dion. Essa quase esquizofrenia do filme é que dificulta à plateia envolver-se totalmente em sua história - pode até emocionar aos mais sensíveis, mas, perto do que poderia ter sido (especialmente com todos os dramas vividos por Savitch, sua inspiração original), é apenas um drama derivativo e previsível. Fácil de assistir, mas igualmente fácil de esquecer.

sexta-feira

RUTH EM QUESTÃO

RUTH EM QUESTÃO (Citizen Ruth, 1996, Miramax, 106min) Direção: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor. Fotografia: James Glennon. Montagem: Kevin Tent. Música: Rolfe Kent. Figurino: Tom McKinley. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Lisa Denker. Produção: Cathy Conrad, Cary Woods. Elenco: Laura Dern, Swoosie Kurtz, Burt Reynolds, Tippi Hedren, Kurtwood Smith, Mary Kay Place, Kelly Preston. Estreia: Janeiro de 1996 (Festival de Sundance)

Um professor frustrado em luta contra uma estudante obcecada pela perfeição. Um viúvo tentando se reconectar com a família ao sentir o gostinho da solidão. Dois amigos praticamente desencantados com a vida buscando o prazer através do vinho. Um homem que descobre a traição da esposa quando ela está em coma. Um idoso já com problemas mentais que acredita ter ganho um prêmio na loteria. Quem conhece a obra de Alexander Payne sabe muito bem que o cineasta tem especial predileção pelos pobre-diabos, por aqueles que, por uma razão ou outra, estão em situações-limite de suas existências frequentemente medíocres. Por isso, não chega a ser surpresa que seu filme de estreia, "Ruth em questão", seja uma pequena amostra do que viria pela frente: cínica, cáustica e iconoclasta, sua comédia de humor negro, lançada no Festival de Sundance de 1996 e premiada no Festival de Montreal na categoria de melhor atriz (Laura Dern) é um tapa na cara no american way of life e um desafio ao politicamente correto. Escrito com extremo sarcasmo e dirigido sem medo de chocar aos mais sensíveis, "Ruth em questão" é um delicioso cartão de visitas de um diretor que já demonstrava, de cara, seu talento para encontrar qualidades até mesmo no pior dos seres humanos.

Inspirado na história real de Martina Greywind - uma mulher de 28 anos com muitas das características da protagonista do filme -, o roteiro, coescrito por Payne e aquele que se tornaria seu colaborador habitual, Jim Taylor, é um primor de humor negro e deboche. A personagem do título é Ruth Stoops (em uma genial atuação de Laura Dern), uma irresponsável e indigente usuária de drogas que se vê grávida pela quinta vez - depois de ter dado todos os outros bebês à adoção. Com sua nova gravidez descoberta na prisão, ela imediatamente se torna alvo de disputa desesperada entre dois lados opostos na questão do aborto. Enquanto Gail Stoney (Mary Kay Place) a chama para seu grupo de mulheres pró-vida, Ruth e sua história também são cobiçadas por Diane Siegler (Swoozie Kurtz), uma militante dos direitos da mulher à escolha. Não exatamente uma mulher brilhante intelectualmente, Ruth se torna um joguete nas mãos de ambos os grupos - cada um com táticas de persuasão pouco ortodoxas, que incluem até dinheiro e espaço na mídia. Mesmo pouco esperta, não demora à Ruth descobrir que ela é peça dispensável na situação - e resolve aproveitar ao máximo todas as vantagens que isso pode lhe oferecer.


Evitando o maniqueísmo e direcionando sua metralhadora de ironia para todos os lados, o roteiro esperto de Payne e Taylor brinca sem pena com os exageros politicamente corretos e o radicalismo que ronda o sempre polêmico tema do aborto. Sem tomar partido algum, o filme mostra, sem espaço para dúvidas, que até mesmo atitudes aparentemente altruístas podem estar recheadas de interesses pessoais e escusos. Praticamente se engalfinhando diante das câmeras de televisão, partidários de grupos rivais são ridicularizados em uma narrativa que utiliza o humor negro como forma de crítica social - e conta com veteranos como Burt Reynolds e Tippi Hedren oferecendo um ar sério e respeitável ao projeto. Realizado com um custo irrisório de estimados 3 milhões de dólares - valor que hoje em dia não paga nem o marketing de um filme relativamente barato - e lançado sem muito alarde, "Ruth em questão" fez de Alexander Payne um queridinho imediato junto ao público de cinema independente, graças a sua união perfeita entre roteiro, direção e elenco. Sua visão mordaz e impiedosa pode até soar incômoda a alguns espectadores, mas é inegável que sua ousadia é uma de suas maiores qualidades - a ponto de encerrar sua fábula sobre a hipocrisia com um desfecho irônico e coerente com o tom da trama.

Escorado em uma atuação brilhante de Laura Dern - equilibrando todos os tons e nuances de sua personagem sem escorregar na caricatura - e acertando em cheio no meio-termo entre o deboche e a seriedade, "Ruth em questão" é uma comédia esperta e relevante. Com personagens bem construídos e situações imprevisíveis, conquista o espectador por não tratá-lo com condescendência ou subestimar sua inteligência. Não é um filme para qualquer um - o cineasta se tornaria visualmente mais sofisticado com o passar dos anos e orçamentos mais generosos - mas se destaca principalmente por sua inventividade e coragem em bater de frente com a correção política e a hipocrisia típica da população norte-americana. Um filme a ser descoberto e discutido como um dos mais interessantes de sua temporada.

sábado

HAMLET

HAMLET (Hamlet, 1996, Castle Rock Entertainment, 238min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Kenneth Branagh, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Alex Thomson. Montagem: Neil Farrell. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Tim Harvey. Produção: David Barron. Elenco: Kenneth Branagh, Derek Jacobi, Julie Christie, Kate Winslet, Brian Blessed, Richard Briers, Rufus Sewell, Michael Maloney, Richard Attenborough, Billy Crystal, Judi Dench, Gérard Depardieu, John Gielgud, Rosemary Harris, Charlton Heston, Jack Lemmon, Timothy Spall, Robin Williams. Estreia: 25/12/96

4 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Uma das mais clássicas manifestações artísticas da loucura - ou do arremedo de uma - acabou tornando-se uma das mais ousadas produções cinematográficas da década de 90 e quiçá da história da sétima arte. Conhecido por suas adaptações da obra do dramaturgo William Shakespeare para o cinema, o irlandês Kenneth Branagh - que já havia dirigido "Henry V" (89) e "Muito barulho por nada" (93) e atuado como Iago em "Othello" (96) - arriscou sua reputação e seu prestígio ao transpor o mais clássico dos clássicos do bardo, palavra por palavra, para as telas. Brilhantemente produzido, interpretado por um elenco estrelado que se dá ao luxo de ter Charlton Heston, Gérard Depardieu e Jack Lemmon em pontas e longo a ponto de testar os limites de paciência do público - poucos minutos menos de quatro horas de duração - o "Hamlet" de Branagh (e pode-se dizer sem medo, o "Hamlet" definitivo do cinema) pode assustar até ao mais fervoroso purista com sua fidelidade canina ao texto original, mas, graças à direção segura e inteligente, a uma edição cirurgicamente precisa e a um elenco impecável, sobressai-se às demais adaptações pelo ritmo pulsante e pela modernidade visual impressa em cada fotograma. Realizado com meros 18 milhões de dólares - um trocado perto dos orçamentos milionários que assustavam os executivos dos estúdios à época - o filme de Kenneth Branagh é assombrosamente deslumbrante e um presente para os fãs de bom cinema e bom teatro.

Uma das histórias mais conhecidas da literatura mundial, "Hamlet" só chegou às telas com tal opulência visual e ousadia narrativa - que não oprime uma linha sequer do texto original - graças à teimosia de seu diretor e ator principal, que rondou por mais de um ano de estúdio em estúdio de Hollywood tentando financiamento para um projeto que todos consideravam fadado ao fracasso. Não é difícil imaginar os motivos para tanta recusa: não apenas Branagh batia pé nas quatro horas de duração de seu filme como tinha ainda que lidar com a bilheteria decepcionante e as críticas negativas de seu filme anterior, "Frankenstein de Mary Shelley", que não havia tido o desempenho esperado pelos produtores. Além do mais, Shakespeare estava se tornando arroz de festa na terra do cinema, sendo adaptado de todas as formas possíveis e imagináveis - até mesmo o australiano Baz Luhrmann estava a caminho de lançar uma versão psicodélica de "Romeu e Julieta", estrelado por Leonardo DiCaprio e o próprio "Hamlet" já havia sido refilmado recentemente por Franco Zefirelli, com Mel Gibson no papel principal. Tudo conspirava contra o irlandês, até que a Castle Rock tomou coragem e, com poucas exigências finais (um elenco com atores conhecidos e uma versão editada para lançamento mundial) deixou que o cineasta fosse em frente. É impossível assistir-se ao resultado final sem um suspiro de agradecimento profundo à sua coragem.


Mesmo acima da idade para interpretar o papel principal, Kenneth Branagh é o corpo e a alma de "Hamlet", a energia que contagia a todos e o estopim de uma trama recheada de traições vis, paixões avassaladoras, ódios arraigados e uma coleção de mortes das mais conhecidas do teatro universal - que em suas mãos soa fresca e reluzente como se tivesse sido escrita há dois dias. Para quem não sabe, se é que alguém não sabe, tudo começa quando o jovem príncipe Hamlet volta à sua Dinamarca natal para os funerais de seu pai (Brian Blessed) e para as novas núpcias de sua mãe, Gertrude (Julie Christie), que, mal esperou quatro meses para casar-se com o cunhado, Claudius (Derek Jacobi), novo rei do país. Infeliz com a situação, o príncipe fica ainda mais movido ao ódio quando o fantasma de seu progenitor lhe aparece, acusando o irmão de tê-lo assassinado para roubar-lhe a esposa e o trono. Com o objetivo de vingar a morte do pai, Hamlet inicia um plano ambicioso - que envolve fingir uma loucura que ele pode mesmo portar, um grupo de atores mambembes que recebe no palácio com o objetivo de impulsionar uma confissão do tio e até a mulher que ama, a doce Ofélia (Kate Winslet).

Mais do que simplesmente contar com cada detalhe - por mais insignificante que ele possa parecer - a história criada por Shakespeare, Kenneth Branagh consegue, em seu filme, o que havia conseguido apenas parcialmente em suas adaptações anteriores: fazer com que o texto extremamente teatral da peça caiba com perfeição na tela de cinema - no caso, em formato 65mm, que lhe permitiu alcançar um visual mais clássico que buscava com o objetivo de aproximar o filme de um cinema mais visualmente atraente e que só voltou a ser utilizado em 2012, quando Paul Thomas Anderson filmou seu "O mestre". Seu objetivo é plenamente atingido quando a plateia testemunha momentos de pura poesia visual, enfatizada pela fotografia esplêndida de Alex Thomson e pela direção de arte irretocável que concorreu ao Oscar - assim como o figurino de Alexandra Byrne, a música de Patrick Doyle e o roteiro do próprio diretor. Pulsante, passional e por vezes exaustivamente emocionante, "Hamlet" é a mais perfeita combinação entre cinema e teatro já realizada. Uma obra-prima de grandes proporções.

sexta-feira

JACK

JACK (Jack, 1996, American Zoetrope/Hollywood Pictures/Great Oaks, 113min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: James DeMonaco, Gary Nadeau. Fotografia: John Toll. Montagem: Barry Malkin. Música: Michael Kamen. Figurino: Aggie Guerard-Rodgers. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Armin Ganz, Barbara Munch. Produção executiva: Doug Claybourne. Produção: Francis Ford Coppola, Fred Fuchs, Ricardo Mestres. Elenco: Robin Williams, Diane Lane, Jennifer Lopez, Bill Cosby, Fran Drescher, Brian Kerwin, Adam Zolotin, Todd Bosley. Estreia: 09/9/96

Entre obras-primas incontestáveis ("O poderoso chefão"), projetos pessoais "("A conversação"), produções ambiciosas e complicadas ("Apocalypse now") e filmes sob encomenda ("Vidas sem rumo"), Francis Ford Coppola às vezes surpreende o público e a indústria de cinema com coisas como "Jack", um delicado e sincero conto infanto-juvenil que substitui a pretensão comercial e artística normalmente contidas em sua filmografia pela ambição pura e simples de contar uma história - que, afinal de contas é o cerne do cinema desde sua invenção. É de se questionar se o imenso talento cabe em obras tão minimalistas, mas o fato é que sempre é uma delícia se deixar entreter por alguém que sabe exatamente o que está fazendo. "Jack" pode não ser um filme extraordinário - está longe disso, aliás - mas dentro que se propõe, é um sopro de ar fresco em um cinema tão violento e inconsequente quanto o de Hollywood. Apenas uma dúvida persiste em seu final: é um filme infanto-juvenil com alma adulta, ou um filme adulto com alma juvenil?

"Jack" se aproveita de uma condição médica real chamada Sìndrome de Werner para, exagerando-a com fins dramáticos, contar a história de um menino de dez anos, Jack Powell, que, crescendo quatro vezes mais do que o normal, entra na escola pela primeira vez com a aparência de um homem de 40 anos. As angústias, situações cômicas e momentos de extrema emoção provenientes de tal situação são o recheio do roteiro de uma obra que usa e abusa de artifícios questionáveis para conquistar a plateia infantil - piadas sobre excrementos, escatologia visual - e esquece com frequência da outra parcela de sua audiência, que precisa contentar-se com situações nem sempre tão engraçadas como poderiam - as que envolvem a mãe de um dos colegas de Jack, que o confunde com o diretor da escola e é vivida pela ótima Fran Drescher, da série de TV "The Nanny" - e alguns momentos de emoção genuína que valem o filme, especialmente quando valorizadas pela atuação caprichada de Diane Lane como a mãe do protagonista, uma mulher tentando da melhor maneira possível lidar com a grande surpresa que o destino lhe fez.


"Jack" começa já mostrando de forma inteligente a peculiaridade de seu protagonista: a bela Karen Powell (Lane) está se divertindo em uma festa à fantasia, ao lado do marido, quando começa a sentir violentas contrações, incoerentes com seus meros dois meses de gravidez. Para sua surpresa, porém, ao chegar ao hospital, ela dá à luz um bebê saudável, forte e de tamanho condizente com um recém-nascido normal. Logo depois os médicos explicam a ela e a seu marido, Brian (Brian Kerwin), que Jack sofre de uma condição rara que o fará apresentar um crescimento celular desproporcional à sua idade. Preocupados, os pais de primeira viagem tomam a decisão de educar o menino dentro de casa, com um professor particular, o dedicado Dr. Woodruff (Bill Cosby). Dez anos depois, porém, eles não conseguem mais impedir seu filho - um menino tímido e solitário, que é vítima do falatório das crianças da vizinhança - se esconda do mundo, e, a pedido dele mesmo, o matriculam em uma escola normal. Lá, ele tem a proteção da professora, Miss Marquez (Jennifer Lopez) e, depois de sofrer certa discriminação por algum tempo, faz amizade com Louie (Adam Zolotin), um aluno-problema que lhe mostra as alegrias de ser criança.

É inegável o foco de Coppola na relação entre Jack e sua turma de novos amigos, um grupo de meninos endiabrados que vivem uma infância como aquelas de antigamente - com casa na árvore e rituais de passagem incluídos no pacote - em detrimento de um crescimento mais condizente com a época em que se passa a trama. Essa nostalgia (e não anacronia como possa parecer) dá um encanto a mais ao filme, permitindo ao espectador uma viagem à inocência da infância, aos sabores de um amadurecimento não mais permitido em um período tão repleto de tecnologia e individualismo (mesmo que a maior parte do filme se passe em 1996, ou seja, pré-uso massivo de celulares e internet, é impossível deixar de perceber o carinho do cineasta pela época em que crianças brincavam entre si e não apenas com seus computadores. Talvez não seja o ponto principal do roteiro, mas a ideia fica ainda mais clara hoje em dia).

E se as boas intenções do roteiro - e sua sensibilidade doce que se enfatiza no terço final - já são motivo o bastante para uma espiada em "Jack", ainda existe seu maior trunfo: a escalação de seu ator central. Poucos atores em Hollywood seria opção mais acertada do que Robin Williams, um adulto com alma de criança que já havia deixado a indústria de joelhos com os sucessos consecutivos de "Aladim" - no qual dublou com perfeição absoluta o Gênio da Lâmpada - e "Uma babá quase perfeita" - que encheu os cofres da 20th Century Fox. Na pele do inquieto Jack, ele não apenas recria as atitudes e maneirismos de uma criança de dez anos de idade: ele se transforma em uma, da mesma forma como Tom Hanks já havia feito com maestria em "Quero ser grande", que lhe valeu uma indicação ao Oscar. Williams não foi lembrado pela Academia dessa vez (só seria premiado dois anos depois, como coadjuvante por "Gênio indomável"), mas provou, mais uma vez, que era um ator extraordinário, capaz de fazer brilhar os roteiros mais simples que lhe caíssem às mãos. Ele é o maior motivo para se assistir a esse pequeno Francis Ford Coppola.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...