COLORS: AS CORES DA VIOLÊNCIA (Colors, 1988, Orion Pictures, 120min) Direção: Dennis Hopper. Roteiro: Michael Schiffer, estória de Michael Schiffer, Richard DiLello. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Robert Estrin. Música: Herbie Hancock. Direção de arte/cenários: Ron Foreman/Ernie Bishop. Produção: Robert H. Solo. Elenco: Sean Penn, Robert Duvall, Maria Conchita Alonso, Don Cheadle, Damon Wayans, Leon, Mario Lopez. Estreia: 15/4/88
No final da década de 80, a cidade de Los Angeles enfrentava, em seu dia-a-dia, um fenômeno dos mais perigosos: a proliferação de gangues, que agiam nos subúrbios, provocavam ondas de violência e batiam de frente com a força policial - dedicada e corajosa, mas praticamente impotente diante da abissal desigualdade numérica. Enquanto os policiais contavam com uma equipe de cerca de 250 homens e mulheres, os membros de gangues chegavam a 70.000 (espalhados em quase 600 grupos diferentes). Diante desse quadro aterrador, Dennis Hopper não viu outra solução senão modificar o roteiro original de Michael Schiffer - que versava sobre traficantes de drogas em Chicago - para retratar, com o máximo de frieza e realismo, o embate entre os dois lados da lei em seu quarto longa-metragem como diretor (e oito anos depois de sua última incursão na função, com "Anos de rebeldia"). Com o cenário e o pano de fundo modificados por Schiffer, surgia então "Colors: as cores da violência", um sucesso inesperado de bilheteria que esfregava na cara do espectador uma realidade até então conhecida apenas através de telejornais ou romantizações vindas de Hollywood. Com membros de gangues contratados como extras e seguranças da equipe, "Colors" conseguiu o feito raro de promover um cessar-fogo provisório durante as filmagens - e reacendeu a polêmica da violência no cinema quando, em algumas salas de exibição, provocou tumultos e distúrbios.
A crueza do tema e da realização de Hopper - que filma quase como um documentário, com cenas que mal se conectam entre si e são fotografadas de forma nervosa e urgente - espalhou-se também para os bastidores da produção, quando seu astro, Sean Penn, foi preso e passou trinta e três dias na cadeia por ter agredido um paparazzo (vale lembrar que, na época, ele era casado com Madonna, e os dois frequentavam os tabloides sensacionalistas com assiduidade quase religiosa). Da mesma forma, um ataque a tiros em um funeral (em uma cena crucial do filme) foi praticamente repetida a poucos metros de distância da filmagem, para descrédito de alguns críticos um tanto quanto céticos em relação ao realismo da sequência. A despeito de tal grau de realismo, porém, o resultado final do filme não deixa de ser surpreendentemente morno - uma quase decepção, especialmente por ser dirigido por um dos ícones da rebeldia no cinema e autor de um dos filmes seminais da contracultura, o clássico "Sem destino" (69).
"Colors", apesar do visual sujo e do tom naturalista, peca por não envolver o público em sua trama, preferindo a denúncia social ao desenvolvimento dramático de seu roteiro, que dificilmente escapa dos clichês e tampouco apresenta personagens carismáticos o bastante para conquistar a plateia. Tanto o novato Danny McGavin (Sean Penn, bom ator como sempre) quanto o veterano Bob Hodges (Robert Duvall) parecem criados seguindo a regra consagrada pela série "Máquina mortífera", em que dois parceiros de personalidades diferentes se unem em prol do mesmo objetivo e passam a se admirar e respeitar mutuamente. Não há uma química muito consistente entre McGavin e Louisa (Maria Conchita Alonso), por exemplo: fica a impressão de que seu envolvimento acontece unicamente para acrescentar um obstáculo a mais no conflito entre o jovem policial e os integrantes das gangues - assim como a família feliz de Hodges serve como contraponto ao caos urbano e tenta dar densidade a um personagem que, não fosse o talento de Robert Duvall, seria igual a tantos outros já retratados pelo cinema norte-americano. Sem buscar novidades em sua narrativa, "Colors" destaca-se mesmo é pelo tema pulsante e pelo desempenho de seus atores principais.
Longe de ser um grande filme - as cenas de ação são formulaicas e editadas sem ritmo, falta empatia aos protagonistas e o roteiro é simplista ao extremo -, "Colors" se beneficia (e muito) do talento de Sean Penn e Robert Duvall. Atores extremamente competentes, eles conseguem extrair o que há de bom no roteiro e disfarçar a superficialidade da trama - basicamente a tentativa dos policiais de Los Angeles em acabar com a guerra entre gangues, mais especificamente entre os Bloods e os Crisps. Enquanto o mais experiente Hodges faz isso através do diálogo e de uma malandragem adquirida com os anos de prática, seu colega McGavin prefere apelar para a violência e a ameaça física. Nada que seja particularmente empolgante ou criativo a ponto de tornar-se memorável. É um filme que cumpre o que promete, mas deixa no ar a sensação de que poderia ter sido bem melhor, dados os talentos envolvidos. À época de seu lançamento teve seu impacto, mas não resistiu tão bem ao tempo e hoje dificilmente é capaz de surpreender aos espectadores mais exigentes.
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CAMINHOS VIOLENTOS
CAMINHOS VIOLENTOS (At close range, 1986, Hemdale, 111min) Direção: James Foley. Roteiro: Nicholas Kazan, estória de Nicholas Kazan, Elliott Lewitt. Fotografia: Juan Ruíz Anchia. Montagem: Howard Smith. Música: Patrick Leonard. Figurino: Hilary Rosenfeld. Direção de arte/cenários: Peter Jamison/R. Chris Westlund. Produção executiva: John Daly, Derek Gibson. Produção: Don Guest, Elliott Lewitt. Elenco: Christopher Walken, Sean Penn, Mary Stuart Masterson, Chris Penn, David Strathairn, Millie Perkins, Eileen Ryan, Kiefer Sutherland, Crispin Glover. Estreia: Fevereiro de 1986 (Festival de Berlim)
A parceria artística entre Madonna e Sean Penn - um dos casais mais explosivos e comentados da década de 80 - nunca foi exatamente auspiciosa. Seu único encontro nas telas foi no desastroso "Surpresa de Shangai" (86), um fracasso comercial e de crítica, e não fosse por manchetes frequentes expondo sua relação complicada - e algumas canções do álbum "True blue", lançado em 1984 - era bem possível que seu casamento tivesse passado à história sem maiores lembranças. Mas, justiça seja feita, se as carreiras de ambos entraram em curva ascendente depois do divórcio em 1989, ao menos uma colaboração entre os dois (ainda que indireta) pode ser creditada a seu favor: é de Madonna e seu parceiro musical de então, Patrick Leonard, a bela "Live to tell", tema musical de "Caminhos violentos", estrelado por Penn. Das primeiras imagens até os créditos finais, a melancólica canção pontua com firmeza uma história trágica e verdadeira, dirigida por James Foley - que também dirigiria a cantora em "Quem é essa garota?" (87) e em alguns videoclipes - e calcada visualmente nos filmes de rebeldia juvenil da década de 50. É um filme dramaticamente potente, escorado na atuação visceral do jovem ator e que confirma seu status de indisciplinado mais talentoso de sua geração.
Baseado em fatos reais, ocorridos no estado da Pensilvânia, "Caminhos violentos" é filmado por James Foley com uma clima crescente de claustrofobia e tensão, com uma fotografia crua e seca e uma edição direta e objetiva. Sem floreios estilísticos ou artifícios narrativos, o roteiro, escrito por Nicholas Kazan - filho de Elia, que dirigiu o ícone da rebeldia no cinema, James Dean, em seu filme de estreia, "Vidas amargas" (54) - opta pelo naturalismo, entregando ao espectador uma obra impactante e dolorosa, uma história pungente de amor e violência entre pai e filho, valorizada pelo embate de atuações entre Penn (então um jovem ator em começo de carreira) e Christopher Walken (já consagrado com um Oscar por "O franco-atirador", de 1978). Apesar de sua evidente entrega ao papel, Walken não foi, porém, a primeira escolha do diretor - quem o recusou foi ninguém menos que Robert DeNiro, que o considerou sombrio demais. Talvez DeNiro tivesse um pouco de razão (apesar de aceitar, pouco depois, viver o diabo em pessoa no impressionante "Coração satânico", de Alan Parker): o pai criminoso e cruel interpretado por Walken é, sem dúvida, um dos personagens mais intensos de uma carreira repleta deles, e sem dúvida, um de seus pontos altos.
Brad Whitewood, o personagem de Walken, é o centro da trama de "Caminhos violentos": um pai ausente que, depois de anos sem dar notícias, volta ao convívio dos dois filhos, Brad Jr. e Tommy (Sean Penn e Chris Penn, irmãos também na vida real). Quem se deixa seduzir facilmente pela vida de pequenos crimes do pai é Brad Jr., um rapaz que divide seu tempo entre alguns serviços mecânicos, consumo de drogas leves e o namoro com a delicada Terry (Mary Stuart Masterson): frequentando a casa do pai e participando de alguns de seus roubos de tratores, ele passa a vislumbrar uma vida menos sacrificada que poderá lhe ajudar a planejar um futuro com a namorada. As coisas saem do controle, porém, quando o rapaz percebe que a vida bandida do pai não se resume apenas a furtos supostamente inocentes: testemunha de uma fria queima de arquivo, Brad Jr. tentará, então, afastar-se da rede de violência que ameaça não apenas a sua própria sobrevivência, mas também das pessoas que ama.
Fracasso de bilheteria nos EUA mas elogiado pelos críticos europeus, "Caminhos violentos" foge dos padrões comerciais do cinemão de Hollywood ao eleger como protagonistas dois personagens pouco heróicos e/ou simpáticos. Mesmo que Brad Jr. lute contra o destino trágico que parece lhe ser inevitável e para isso bata de frente com o próprio pai, ele tampouco é um exemplo de conduta, errando com mais frequência do que acertando e envolvendo pessoas inocentes em um mundo de sangue e brutalidade. É graças ao trabalho irretocável de Sean Penn que ele conquista a simpatia do espectador e conduz a narrativa até o final avassalador, em um clímax cujo poder está centrado basicamente na química entre os dois atores e na direção segura de Foley - que se utiliza de todos os elementos dramáticos de forma a emoldurar uma trama densa e pessimista. Um dos trabalhos fundamentais da trajetória de Sean Penn rumo ao estrelato, "Caminhos violentos" é também, com justiça, um de seus filmes preferidos da década de 80 - uma obra imperdível.
A parceria artística entre Madonna e Sean Penn - um dos casais mais explosivos e comentados da década de 80 - nunca foi exatamente auspiciosa. Seu único encontro nas telas foi no desastroso "Surpresa de Shangai" (86), um fracasso comercial e de crítica, e não fosse por manchetes frequentes expondo sua relação complicada - e algumas canções do álbum "True blue", lançado em 1984 - era bem possível que seu casamento tivesse passado à história sem maiores lembranças. Mas, justiça seja feita, se as carreiras de ambos entraram em curva ascendente depois do divórcio em 1989, ao menos uma colaboração entre os dois (ainda que indireta) pode ser creditada a seu favor: é de Madonna e seu parceiro musical de então, Patrick Leonard, a bela "Live to tell", tema musical de "Caminhos violentos", estrelado por Penn. Das primeiras imagens até os créditos finais, a melancólica canção pontua com firmeza uma história trágica e verdadeira, dirigida por James Foley - que também dirigiria a cantora em "Quem é essa garota?" (87) e em alguns videoclipes - e calcada visualmente nos filmes de rebeldia juvenil da década de 50. É um filme dramaticamente potente, escorado na atuação visceral do jovem ator e que confirma seu status de indisciplinado mais talentoso de sua geração.
Baseado em fatos reais, ocorridos no estado da Pensilvânia, "Caminhos violentos" é filmado por James Foley com uma clima crescente de claustrofobia e tensão, com uma fotografia crua e seca e uma edição direta e objetiva. Sem floreios estilísticos ou artifícios narrativos, o roteiro, escrito por Nicholas Kazan - filho de Elia, que dirigiu o ícone da rebeldia no cinema, James Dean, em seu filme de estreia, "Vidas amargas" (54) - opta pelo naturalismo, entregando ao espectador uma obra impactante e dolorosa, uma história pungente de amor e violência entre pai e filho, valorizada pelo embate de atuações entre Penn (então um jovem ator em começo de carreira) e Christopher Walken (já consagrado com um Oscar por "O franco-atirador", de 1978). Apesar de sua evidente entrega ao papel, Walken não foi, porém, a primeira escolha do diretor - quem o recusou foi ninguém menos que Robert DeNiro, que o considerou sombrio demais. Talvez DeNiro tivesse um pouco de razão (apesar de aceitar, pouco depois, viver o diabo em pessoa no impressionante "Coração satânico", de Alan Parker): o pai criminoso e cruel interpretado por Walken é, sem dúvida, um dos personagens mais intensos de uma carreira repleta deles, e sem dúvida, um de seus pontos altos.
Brad Whitewood, o personagem de Walken, é o centro da trama de "Caminhos violentos": um pai ausente que, depois de anos sem dar notícias, volta ao convívio dos dois filhos, Brad Jr. e Tommy (Sean Penn e Chris Penn, irmãos também na vida real). Quem se deixa seduzir facilmente pela vida de pequenos crimes do pai é Brad Jr., um rapaz que divide seu tempo entre alguns serviços mecânicos, consumo de drogas leves e o namoro com a delicada Terry (Mary Stuart Masterson): frequentando a casa do pai e participando de alguns de seus roubos de tratores, ele passa a vislumbrar uma vida menos sacrificada que poderá lhe ajudar a planejar um futuro com a namorada. As coisas saem do controle, porém, quando o rapaz percebe que a vida bandida do pai não se resume apenas a furtos supostamente inocentes: testemunha de uma fria queima de arquivo, Brad Jr. tentará, então, afastar-se da rede de violência que ameaça não apenas a sua própria sobrevivência, mas também das pessoas que ama.
Fracasso de bilheteria nos EUA mas elogiado pelos críticos europeus, "Caminhos violentos" foge dos padrões comerciais do cinemão de Hollywood ao eleger como protagonistas dois personagens pouco heróicos e/ou simpáticos. Mesmo que Brad Jr. lute contra o destino trágico que parece lhe ser inevitável e para isso bata de frente com o próprio pai, ele tampouco é um exemplo de conduta, errando com mais frequência do que acertando e envolvendo pessoas inocentes em um mundo de sangue e brutalidade. É graças ao trabalho irretocável de Sean Penn que ele conquista a simpatia do espectador e conduz a narrativa até o final avassalador, em um clímax cujo poder está centrado basicamente na química entre os dois atores e na direção segura de Foley - que se utiliza de todos os elementos dramáticos de forma a emoldurar uma trama densa e pessimista. Um dos trabalhos fundamentais da trajetória de Sean Penn rumo ao estrelato, "Caminhos violentos" é também, com justiça, um de seus filmes preferidos da década de 80 - uma obra imperdível.
A TRAIÇÃO DO FALCÃO
A TRAIÇÃO DO FALCÃO (The falcon and the snowman, 1985, Hemdale, 131min) Direção: John Schlesinger. Roteiro: Steven Zaillian, livro de Robert Lindsey. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Richard Marden. Música: Lyle Mays, Pat Metheny. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: James D. Bissell/Linda De Scenna. Produção executiva: John Daly. Produção: Gabriel Katzka, John Schlesinger. Elenco: Timothy Hutton, Sean Penn, Pat Hingle, Joyce Van Patten, Jerry Hardin, Lori Singer, Michael Ironside. Estreia: 19/01/85 (Festival de Sundance)
Um dos atores mais respeitados e premiados de sua geração, Sean Penn ganhou seu primeiro Oscar apenas em 2004, pelo filme "Sobre meninos e lobos", de Clint Eastwood. Seu talento, porém, já existia desde muito antes, ainda que escondido sob uma persona problemática e em constante conflito com a imprensa e a indústria - e com todos que o rodeavam, como bem sabem Madonna, sua ex-mulher, constante vítima de seus ataques de fúria, e paparazzi, que, agredidos, o levaram a passar uma temporada na cadeia. Seu temperamento volátil, no entanto, apenas não deixava transparecer as qualidades dramáticas que ele mais tarde viria a explorar com mais maturidade. Um exemplo disso é "A traição do falcão": quando foi lançado, em janeiro de 1985, Penn tinha apenas 24 anos de idade e já demonstrava uma dedicação rara em construir um personagem. Para viver o jovem Andrew Daulton Lee - acusado de espionagem contra o governo dos EUA e um dos protagonistas de um livro publicado em 1979 -, o ator não apenas fez um complicado laboratório invadindo a embaixada dos EUA no México (como forma de compreender seu personagem) como sofreu uma transformação física que incluiu ganho de peso, uso de lentes de contato e prótese dentária e uma maquiagem especial para modificar seu nariz. Além disso, entregou uma performance energética que já deixava bem claro aos mais atentos que estava em vias de se transformar em um dos grandes atores americanos de sua geração.
Na verdade, Penn é apenas um dos dois protagonistas de "A traição de falcão", história real levada às telas pelo cineasta John Schlesinger depois de um longo (quatro anos) processo de desenvolvimento, iniciado com o lançamento do livro "The falcon and the snowman: a true story of friendship and espionage", escrito por Robert Lindsey. Primeiro roteiro de Steven Zaillian - oscarizado por "A lista de Schindler" (93) - a ser produzido, o filme de Schlesinger centra sua trama em dois personagens fascinantes e defendidos com igual garra por Penn e Timothy Hutton, que ganhou do Oscar de coadjuvante por "Gente como a gente" (80) com apenas vinte anos. Hutton vive Christopher Boyce, um ex-coroinha que, ao abandonar o seminário, volta para a casa dos pais e arruma emprego em uma empresa responsável por comunicações secretas para várias instituições do país, incluindo a CIA. Inteligente e idealista, Boyce não demora a perceber em tais comunicações a interferência dos EUA na política de vários outros países, como Austrália e Chile (que acaba por sofrer um golpe de estado). Desiludido com o que descobre, ele procura o amigo de infância Andrew Lee (Sean Penn), que, apesar de jovem, já tem uma vasta ficha criminal, por porte e tráfico de drogas. Juntos, eles formam um time que vende informações confidenciais para a União Soviética (o ano é 1974) - enquanto Boyce tem objetivos idealistas, Lee deseja apenas se beneficiar do dinheiro que pode conseguir. Mas as coisas, obviamente, se complicam e lhes coloca diretamente no caminho das leis americanas de espionagem.
Imprimindo em seu filme um ritmo de thriller político, valorizado pela entrega de seus dois atores centrais, Schlesinger constrói aos poucos um senso de paranoia, que vai se acentuando conforme o cerco se fecha ao redor de seus protagonistas. Ao público, mesmo ciente de que está diante de dois anti-herois, cabe grudar os olhos em uma narrativa elegante e sóbria, com ecos do cinema policial dos anos 70 - em especial aqueles dirigidos por Sidney Lumet e estrelados por Al Pacino: com economia de recursos estilísticos, o cineasta se ampara em uma edição inteligente para estabelecer os contrastes nas vidas e trajetórias de cada um de seus personagens centrais, que na vida real acabaram por realizar uma interessante mudança de rumos após o desfecho da trama mostrada no filme: Boyce participou de um assalto e Lee, o mais propenso à vida criminal, nunca mais se envolveu com a lei e chegou a trabalhar como assistente de Sean Penn. O roteiro de Zaillian até demora um pouco a engrenar, ao detalhar a rotina de Boyce e os problemas de Lee, mas apresenta um ato final poderoso e tão instigante que é difícil não se deixar envolver - em boa parte, mais uma vez é bom dizer, graças às interpretações impecáveis de Timothy Hutton e Sean Penn.
Ilustrado com a bela "This is not America", na voz de David Bowie, "A traição do falcão" é uma produção típica de sua época, em que a Guerra Fria estava no auge e a União Soviética parecia a maior das ameaças ao american way of life. Como uma espécie de crônica de uma juventude desiludida e perdida, o filme de Schlesinger é preciso em sua forma de mostrar como o governo Nixon e seu escândalo Watergate fez desmoronar, para muitos americanos, a ideia de um país democrático e justo. O tom político da trama - na verdade apenas um pano de fundo para uma história empolgante de espionagem - é um tempero a mais em uma produção que traduz, como poucas outras, o fim do sonho americano e sua metamorfose no cinismo e no individualismo que se tornariam marcas registradas dos anos 80 e do mandato de Ronald Reagan. Um filme não apenas competente como cinema, mas também como documento de um período crucial na história política dos EUA.
Um dos atores mais respeitados e premiados de sua geração, Sean Penn ganhou seu primeiro Oscar apenas em 2004, pelo filme "Sobre meninos e lobos", de Clint Eastwood. Seu talento, porém, já existia desde muito antes, ainda que escondido sob uma persona problemática e em constante conflito com a imprensa e a indústria - e com todos que o rodeavam, como bem sabem Madonna, sua ex-mulher, constante vítima de seus ataques de fúria, e paparazzi, que, agredidos, o levaram a passar uma temporada na cadeia. Seu temperamento volátil, no entanto, apenas não deixava transparecer as qualidades dramáticas que ele mais tarde viria a explorar com mais maturidade. Um exemplo disso é "A traição do falcão": quando foi lançado, em janeiro de 1985, Penn tinha apenas 24 anos de idade e já demonstrava uma dedicação rara em construir um personagem. Para viver o jovem Andrew Daulton Lee - acusado de espionagem contra o governo dos EUA e um dos protagonistas de um livro publicado em 1979 -, o ator não apenas fez um complicado laboratório invadindo a embaixada dos EUA no México (como forma de compreender seu personagem) como sofreu uma transformação física que incluiu ganho de peso, uso de lentes de contato e prótese dentária e uma maquiagem especial para modificar seu nariz. Além disso, entregou uma performance energética que já deixava bem claro aos mais atentos que estava em vias de se transformar em um dos grandes atores americanos de sua geração.
Na verdade, Penn é apenas um dos dois protagonistas de "A traição de falcão", história real levada às telas pelo cineasta John Schlesinger depois de um longo (quatro anos) processo de desenvolvimento, iniciado com o lançamento do livro "The falcon and the snowman: a true story of friendship and espionage", escrito por Robert Lindsey. Primeiro roteiro de Steven Zaillian - oscarizado por "A lista de Schindler" (93) - a ser produzido, o filme de Schlesinger centra sua trama em dois personagens fascinantes e defendidos com igual garra por Penn e Timothy Hutton, que ganhou do Oscar de coadjuvante por "Gente como a gente" (80) com apenas vinte anos. Hutton vive Christopher Boyce, um ex-coroinha que, ao abandonar o seminário, volta para a casa dos pais e arruma emprego em uma empresa responsável por comunicações secretas para várias instituições do país, incluindo a CIA. Inteligente e idealista, Boyce não demora a perceber em tais comunicações a interferência dos EUA na política de vários outros países, como Austrália e Chile (que acaba por sofrer um golpe de estado). Desiludido com o que descobre, ele procura o amigo de infância Andrew Lee (Sean Penn), que, apesar de jovem, já tem uma vasta ficha criminal, por porte e tráfico de drogas. Juntos, eles formam um time que vende informações confidenciais para a União Soviética (o ano é 1974) - enquanto Boyce tem objetivos idealistas, Lee deseja apenas se beneficiar do dinheiro que pode conseguir. Mas as coisas, obviamente, se complicam e lhes coloca diretamente no caminho das leis americanas de espionagem.
Imprimindo em seu filme um ritmo de thriller político, valorizado pela entrega de seus dois atores centrais, Schlesinger constrói aos poucos um senso de paranoia, que vai se acentuando conforme o cerco se fecha ao redor de seus protagonistas. Ao público, mesmo ciente de que está diante de dois anti-herois, cabe grudar os olhos em uma narrativa elegante e sóbria, com ecos do cinema policial dos anos 70 - em especial aqueles dirigidos por Sidney Lumet e estrelados por Al Pacino: com economia de recursos estilísticos, o cineasta se ampara em uma edição inteligente para estabelecer os contrastes nas vidas e trajetórias de cada um de seus personagens centrais, que na vida real acabaram por realizar uma interessante mudança de rumos após o desfecho da trama mostrada no filme: Boyce participou de um assalto e Lee, o mais propenso à vida criminal, nunca mais se envolveu com a lei e chegou a trabalhar como assistente de Sean Penn. O roteiro de Zaillian até demora um pouco a engrenar, ao detalhar a rotina de Boyce e os problemas de Lee, mas apresenta um ato final poderoso e tão instigante que é difícil não se deixar envolver - em boa parte, mais uma vez é bom dizer, graças às interpretações impecáveis de Timothy Hutton e Sean Penn.
Ilustrado com a bela "This is not America", na voz de David Bowie, "A traição do falcão" é uma produção típica de sua época, em que a Guerra Fria estava no auge e a União Soviética parecia a maior das ameaças ao american way of life. Como uma espécie de crônica de uma juventude desiludida e perdida, o filme de Schlesinger é preciso em sua forma de mostrar como o governo Nixon e seu escândalo Watergate fez desmoronar, para muitos americanos, a ideia de um país democrático e justo. O tom político da trama - na verdade apenas um pano de fundo para uma história empolgante de espionagem - é um tempero a mais em uma produção que traduz, como poucas outras, o fim do sonho americano e sua metamorfose no cinismo e no individualismo que se tornariam marcas registradas dos anos 80 e do mandato de Ronald Reagan. Um filme não apenas competente como cinema, mas também como documento de um período crucial na história política dos EUA.
quarta-feira
O FRANCO-ATIRADOR (2015)
O FRANCO-ATIRADOR (The gunman, 2015, StudioCanal/Silver Pictures, 115min) Direção: Pierre Morel. Roteiro: Don MacPherson, Pete Travis, Sean Penn, romance de Jean-Patrick Manchette. Fotografia: Flavio Martinez Labiano. Montagem: Frédéric Thoraval. Música: Marco Beltrami. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Anneke Botha. Produção executiva: Aaron Auch, Olivier Courson, Adrian Guerra, Peter McAleese, Steve Richard. Produção: Ron Halpern, Sean Penn, Andrew Rona. Elenco: Sean Penn, Javier Bardem, Jasmine Trinca, Mark Rylance, Ray Winstone, Idris Elba. Estreia: 16/02/15
Lançado em 1978, o drama de guerra "O franco-atirador" tornou-se a primeira produção norte-americana a lidar de frente com o conflito do Vietnã e se dar bem nas bilheterias e junto à crítica, chegando a sagrar-se o grande vencedor do Oscar nas categorias mais importantes (filme e direção). O mesmo, porém, não pode ser dito de seu homônimo, comandado pelo francês Pierre Morel e adaptado do livro de Jean-Patrick Manchette: mesmo estrelado por nomes consagrados como Sean Penn (também produtor), Javier Bardem e o recém-oscarizado Mark Rylance (de "Ponte dos espiões"), o filme jamais consegue atingir o equilíbrio entre filme de ação e drama político que almeja, tornando-se um híbrido sem personalidade e, o que é ainda pior, confuso e com personagens pouco carismáticos ou interessantes. Não por acaso, fracassou comercialmente e foi ignorado pela crítica, apesar do elenco e do potencial da trama.
A história começa no Congo, país africano mergulhado em profunda convulsão social. É lá que o assassino de aluguel Terrier (Sean Penn, competente, mas um pouco além da idade para o personagem) assume a missão de matar o Ministro das Minas local, o que complica ainda mais a situação caótica da nação. Depois do crime, para autoproteção, ele se vê obrigado a abandonar qualquer ligação com seus companheiros de equipe e a própria namorada, Annie (Jasmine Trinca), cortando totalmente seus laços com todos eles. Algum tempo depois, no entanto, ele está de volta ao Congo, trabalhando em uma ONG e tentando, à sua maneira, reparar os danos de sua ação passada. Essa vida relativamente tranquila é virada do avesso quando ele é alvo de um violento atentado, do qual escapa graças a suas habilidades profissionais, e descobre que o fato tem ligações com a morte do ministro. Isso faz com que ele volte a procurar seus antigos amigos, Terrance Cox (Mark Rylance), agora um poderoso empresário, e Felix (Javier Bardem), que leva uma vida confortável casado justamente com Annie. Todos eles se descobrem ameaçados, mas Terrier desconfia de todos até que finalmente se vê diante de uma verdade pouco conveniente.
É difícil acreditar que o diretor de "O franco-atirador" seja Pierre Morel, um cineasta pouco brilhante, é verdade, mas com experiência em filmes de ação, como "Busca implacável" (2008) e "Dupla implacável "(2010), que não são exatamente obras-primas mas se sustentam como entretenimento descompromissado. Em seu novo filme, Morel tenta atingir níveis maiores de relevância à trama, lhe adicionando temas sociopolíticos, mas acaba derrapando em uma superficialidade constrangedora. O roteiro - com participação de Sean Penn - é confuso quando tenta ser surpreendente e todas as cenas dramáticas, a despeito do talento dos atores envolvidos, carecem de verossimilhança e sensibilidade. Penn faz o que pode com seu personagem, mas é atrapalhado por uma história pouco crível e tratada com quase desleixo. As cenas de ação até são competentes, especialmente no terço final da narrativa, mas é muito pouco para cativar o espectador que, até então, lutou para acompanhar as investigações do protagonista - e tentou entender o que, afinal, as cenas do início do filme tem a ver com seu desfecho. Também não ajuda a presença da italiana Jasmine Trinca, sem o carisma necessário para segurar o principal papel feminino do filme, especialmente diante de gigantes como Sean Penn e Javier Bardem - outro que se esforça em tirar algo de um personagem raso e sem grandes possibilidades.
No final das contas, "O franco-atirador" não passa de um filme de ação genérico, com um pouco mais (bem pouco) de substância do que seus congêneres e um elenco de primeira linha tentando disfarçar suas falhas de roteiro e sua incapacidade de se aprofundar em qualquer discussão política que porventura poderia surgir de sua situação inicial. Para os menos exigentes pode ser uma diversão descompromissada para uma madrugada insone, mas levando-se em consideração o quão bom poderia ser é uma tremenda decepção, um grande passo em falso nas carreiras de Sean Penn e Javier Bardem. Nem mesmo alguns momentos isolados de violência e ação são suficientes para evitar a sensação de tédio.
Lançado em 1978, o drama de guerra "O franco-atirador" tornou-se a primeira produção norte-americana a lidar de frente com o conflito do Vietnã e se dar bem nas bilheterias e junto à crítica, chegando a sagrar-se o grande vencedor do Oscar nas categorias mais importantes (filme e direção). O mesmo, porém, não pode ser dito de seu homônimo, comandado pelo francês Pierre Morel e adaptado do livro de Jean-Patrick Manchette: mesmo estrelado por nomes consagrados como Sean Penn (também produtor), Javier Bardem e o recém-oscarizado Mark Rylance (de "Ponte dos espiões"), o filme jamais consegue atingir o equilíbrio entre filme de ação e drama político que almeja, tornando-se um híbrido sem personalidade e, o que é ainda pior, confuso e com personagens pouco carismáticos ou interessantes. Não por acaso, fracassou comercialmente e foi ignorado pela crítica, apesar do elenco e do potencial da trama.
A história começa no Congo, país africano mergulhado em profunda convulsão social. É lá que o assassino de aluguel Terrier (Sean Penn, competente, mas um pouco além da idade para o personagem) assume a missão de matar o Ministro das Minas local, o que complica ainda mais a situação caótica da nação. Depois do crime, para autoproteção, ele se vê obrigado a abandonar qualquer ligação com seus companheiros de equipe e a própria namorada, Annie (Jasmine Trinca), cortando totalmente seus laços com todos eles. Algum tempo depois, no entanto, ele está de volta ao Congo, trabalhando em uma ONG e tentando, à sua maneira, reparar os danos de sua ação passada. Essa vida relativamente tranquila é virada do avesso quando ele é alvo de um violento atentado, do qual escapa graças a suas habilidades profissionais, e descobre que o fato tem ligações com a morte do ministro. Isso faz com que ele volte a procurar seus antigos amigos, Terrance Cox (Mark Rylance), agora um poderoso empresário, e Felix (Javier Bardem), que leva uma vida confortável casado justamente com Annie. Todos eles se descobrem ameaçados, mas Terrier desconfia de todos até que finalmente se vê diante de uma verdade pouco conveniente.
É difícil acreditar que o diretor de "O franco-atirador" seja Pierre Morel, um cineasta pouco brilhante, é verdade, mas com experiência em filmes de ação, como "Busca implacável" (2008) e "Dupla implacável "(2010), que não são exatamente obras-primas mas se sustentam como entretenimento descompromissado. Em seu novo filme, Morel tenta atingir níveis maiores de relevância à trama, lhe adicionando temas sociopolíticos, mas acaba derrapando em uma superficialidade constrangedora. O roteiro - com participação de Sean Penn - é confuso quando tenta ser surpreendente e todas as cenas dramáticas, a despeito do talento dos atores envolvidos, carecem de verossimilhança e sensibilidade. Penn faz o que pode com seu personagem, mas é atrapalhado por uma história pouco crível e tratada com quase desleixo. As cenas de ação até são competentes, especialmente no terço final da narrativa, mas é muito pouco para cativar o espectador que, até então, lutou para acompanhar as investigações do protagonista - e tentou entender o que, afinal, as cenas do início do filme tem a ver com seu desfecho. Também não ajuda a presença da italiana Jasmine Trinca, sem o carisma necessário para segurar o principal papel feminino do filme, especialmente diante de gigantes como Sean Penn e Javier Bardem - outro que se esforça em tirar algo de um personagem raso e sem grandes possibilidades.
No final das contas, "O franco-atirador" não passa de um filme de ação genérico, com um pouco mais (bem pouco) de substância do que seus congêneres e um elenco de primeira linha tentando disfarçar suas falhas de roteiro e sua incapacidade de se aprofundar em qualquer discussão política que porventura poderia surgir de sua situação inicial. Para os menos exigentes pode ser uma diversão descompromissada para uma madrugada insone, mas levando-se em consideração o quão bom poderia ser é uma tremenda decepção, um grande passo em falso nas carreiras de Sean Penn e Javier Bardem. Nem mesmo alguns momentos isolados de violência e ação são suficientes para evitar a sensação de tédio.
terça-feira
A GRANDE ILUSÃO
O remake de "A grande ilusão", cujo original de 1949 ganhou os Oscar de melhor filme, ator (Broderick Crawford) e atriz coadjuvante (Mercedes McCambridge), serviu para reiterar duas verdades absolutas em Hollywood: primeiro, que política é um assunto que definitivamente não atrai as plateias americanas que frequentam as salas de cinema; segundo, que nem mesmo uma seleção de atores do primeiríssimo escalão é capaz de fazer mágica quando há o desinteresse do público. Com um elenco estrelado, repleto de astros vencedores e indicados ao Oscar, o filme de Steven Zaillian - ele mesmo ganhador da estatueta pelo roteiro de "A lista de Schindler" (93) - fracassou homericamente nas bilheterias e não obteve apoio nem mesmo da crítica especializada, que praticamente ignorou sua estreia - um ano depois, aliás, da data inicialmente prevista para seu lançamento. Mas o que é mais chocante nessa história toda é que o filme, apesar de violentamente rechaçado, está muito longe de ser ruim ou medíocre: é um trabalho bastante interessante, valorizado por seus intérpretes e com uma trama de grande relevância política, especialmente nos dias que seguem.
Baseado não no filme de Robert Rossen, mas mais especificamente no romance que lhe deu origem - escrito por Robert Penn Warren e inspirado na trajetória do político Huey Long, que foi governador da Louisiana - "A grande ilusão" tem como protagonista o populista Willie Stark (Sean Penn, em grande performance), que se torna governador do estado depois de desmascarar os conchavos de políticos mais experientes que queriam usá-lo como joguete. Incensado pela população carente, que vê nele uma sinceridade que inexiste em outros candidatos, Stark vê sua ascensão incomodar as camadas mais importantes da região, homens de grande poder financeiro que se sentem ameaçados com as promessas e obras do novo líder. Embriagado pelo poder - que o faz trair sucessivamente a esposa, tanto com jovens artistas quanto com sua auxiliar de campanha, Sadie Burke (Patricia Clarkson) - Stark entra na mira de seus inimigos, que iniciam uma campanha pedindo seu impeachment. Abusando de métodos pouco ortodoxos, ele então pede ajuda ao jornalista Jack Burden (Jude Law), que o acompanha desde seus primeiros dias de vida pública, a tentar descobrir algum podre no passado de seu principal rival, o juiz Irwin (Anthony Hopkins) - que vem a ser, por coincidência, padrinho do jovem. Não bastasse tanta confusão, Burden testemunha a forma como Stark se deixa envolver pelo lado sujo do poder, o que inclui seu melhor amigo de juventude, Adam Stanton (Mark Ruffalo) e a irmã deste, seu grande amor Anne (Kate Winslet).
Apesar da profusão de personagens importantes - defendidos por atores nunca aquém de brilhantes - e da trama com mais de um foco de interesse, "A grande ilusão" não incorre no erro tão comum de confundir o espectador, com idas e vindas desnecessárias: sempre que faz uso de flashback, o roteiro de Zaillian o faz com inteligência e parcimônia, servindo-se dele para iluminar detalhes a respeito de seus protagonistas e explicar ao público os caminhos que os levaram até determinado ponto da narrativa. Vista sob a ótica de Jack Burden - um Jude Law injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação - e, portanto, com um certo distanciamento que vai sumindo aos poucos, a história de Willie Stark não prescinde de tramoias, ameaças, chantagens e violência, mas, ao situar a trama na década de 50 (décadas antes da mídia imediatista dos dias atuais), o diretor/roteirista de certa forma justifica os atos quase desprezíveis de seu personagem central. É perceptível que, apesar dos erros cometidos por Stark em sua ascensão, há uma certa dose de simpatia por ele - talvez devido à atuação cheia de garra de Sean Penn, talvez devido à maneira brutal com que ele é desprezado pelos poderosos. Essa ambiguidade, bem retratada por Zaillian é outro ponto forte do filme, que jamais aponta uma verdade absoluta sobre Stark, oferecendo à plateia algo a refletir mesmo depois do fim da sessão.
Logicamente, o filme de Zaillian não é perfeito, e sua demora em engrenar é um de seus pecados - a primeira sequência, que mostra Stark, Burden e seu segurança/capanga (Jackie Earle Haley) em direção à residência de um de seus inimigos mais confunde do que intriga. A transformação de Stark também é um tanto problemática, uma vez que não fica muito claro ao espectador em que momento de sua trajetória ele se deixou seduzir pelo poder fácil e por suas vantagens - e qual o destino de sua esposa, a princípio importantíssima em suas decisões e repentinamente desaparecida da narrativa. Mas são defeitos pequenos diante de um filme forte, interessante e realizado perceptivelmente com esmero e dedicação - Sean Penn e Mark Ruffalo, por exemplo, são atores politicamente engajados, o que deve ter contribuído consideravelmente em suas decisões de participar do projeto. Uma pena que não encontrou sua audiência: "A grande ilusão" é um filme que merece ser descoberto.
CAÇA AOS GÂNGSTERES
CAÇA AOS GÂNGSTERES (Gangster squad, 2013, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 113min) Direção: Ruben Fleischer. Roteiro: Will Beall, livro de Paul Lieberman. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Alan Baumgarten, James Herbert. Música: Steve Jablonsky. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Maher Ahmad/Gene Serdena. Produção executiva: Bruce Berman, Ruben Fleischer, Paul Lieberman. Produção: Dan Lin, Kevin McCormick, Michael Tadross. Elenco: Sean Penn, Josh Brolin, Ryan Gosling, Emma Stone, Nick Nolte, Mireille Enos, Anthony Mackie, Giovanni Ribisi, Robert Patrick, Troy Garity, Michael Peña. Estreia: 07/01/13
A estreia de "Caça aos gângsteres" - baseado no livro de Paul Lieberman que reunia seus artigos para o Los Angeles Times a respeito da luta dos policiais da cidade para acabar, no final da década de 40, com o império do crime comandado por Mickey Cohen - estava marcada para o início de setembro de 2012, coincidindo com o lançamento do trabalho do jornalista nas livrarias. Porém, o destino, na forma de uma inesperada chacina ocorrida em um cinema do Colorado, mudou os planos da Warner Bros, que acertadamente tirou da montagem final uma sequência semelhante ao massacre. Com o roteiro reescrito, cenas adicionais filmadas e quatro meses o separando da data original de lançamento, o filme de Ruben Fleischer finalmente ganhou as telas em janeiro de 2013. Porém, mesmo com um elenco recheada de grandes nomes - Sean Penn, Josh Brolin, Nick Nolte, Ryan Gosling e Emma Stone - a produção de 60 milhões de dólares só saiu do vermelho graças ao mercado internacional. Não pode-se dizer que tenha sido um resultado injusto.
A princípio, "Caça aos gângsteres" lembra bastante o sensacional "Los Angeles, cidade proibida", baseado em romance de James Ellroy e lançado em 1997. A trama central - uma equipe secreta de policiais incorruptíveis dedicada a promover a queda de um poderoso senhor do crime - lembra também o inesquecível "Os intocáveis", estrelado por Kevin Costner em 1987. O problema maior é que o cineasta Ruben Fleischer - cujo maior crédito até então era a comédia "Zumbilândia" - não tem o mesmo talento que Curtis Hanson e Brian DePalma, diretores dos filmes citados. Mesmo que apresente algumas ideias visuais interessantes, falta a ele a segurança para conduzir uma narrativa que tenha a capacidade de empolgar um público cada vez mais acostumado com cenas de ação impecáveis sem deixar de dar atenção ao desenho dos personagens. Em parte por culpa de um roteiro que não parece se preocupar em aprofundar as relações humanas - e quando faz isso escorrega aflitivamente pelos mais deslavados clichês - e em parte devido à falta de experiência de seu diretor, o filme acaba sendo apenas um pastiche do gênero. Até diverte em alguns momentos, mas no geral é quase chato.
A história começa em 1949, quando Mickey Cohen (Sean Penn prejudicado por uma maquiagem tenebrosa), um ex-boxeador judeu tornado gângster, resolve expandir seus negócios ilícitos, tomando Los Angeles e ambicionando chegar à Chicago. Violento e amoral, ele tem nas mãos policiais, juízes e quem mais aceitar seu dinheiro sujo. Decidido a dar fim a seu reinado, o Chefe de Polícia Parker (Nick Nolte) resolve montar um time de oficiais acima de qualquer suspeita para que, por baixo dos panos e sem o apoio oficial do departamento, destruam sistematicamente seus esquemas criminosos. Escolhido como líder do grupo, o Sargento John O'Mara (Josh Brolin), um veterano da II Guerra, conta com a ajuda da esposa grávida, Connie (Mireille Enos), para definir os demais integrantes do esquadrão. São chamados, então, o quase cínico Sargento Jerry Wooters (Ryan Gosling), o policial Coleman Harris (Anthony Mackie), o experiente atirador Max Kennard (Robert Patrick), seu protegido Navidad Ramirez (Michael Peña) e, como cérebro do time, o calado pai de família Conwell Keeler (Giovanni Ribisi).
O roteiro de Will Beall é tão previsível que é possível adivinhar cada cena a quilômetros de distância, o que prejudica de forma irreparável o suspense tão necessário a um filme policial. Por exemplo, a relação entre Wooters e a bela Grace Faraday (Emma Stone) - que tem um caso também com Cohen - parece existir mais para satisfazer a necessidade de acrescentar algumas cenas românticas à história do que para empurrar a narrativa pra frente. E nem é preciso ser consumidor compulsivo do gênero para adiantar o destino de cada um dos personagens, felizmente interpretados por atores tão bons que deixam a experiência menos penosa. Sean Penn e Josh Brolin - repetindo a inimizade de "Milk, a voz da igualdade" dessa vez em lados opostos do bem e do mal - estão visivelmente se esforçando em dar consistência a um texto pouco favorável. Ryan Gosling e Emma Stone - que já fizeram par romântico no delicioso "Amor à toda prova" - repetem a boa química, mesmo com pouco material em mãos. E Nick Nolte pouco tem a fazer com suas cenas, sendo subaproveitado, assim como à Mireille Enos (da série "The killing") cabe o ingrato papel de esposa do herói.
"Caça aos gângsteres" não é um filme ruim. Tem muita gente boa envolvida para ser uma perda de tempo total. Mas peca muito em não imprimir personalidade em sua narrativa, tem um roteiro preguiçoso e prefere o caminho do banal ao contar uma história que, por ser tão parecida com tantas outras, merecia uma ousadia maior. Para os fãs do gênero é imperdível. Mas está longe de ser tão bom quanto poderia.
A estreia de "Caça aos gângsteres" - baseado no livro de Paul Lieberman que reunia seus artigos para o Los Angeles Times a respeito da luta dos policiais da cidade para acabar, no final da década de 40, com o império do crime comandado por Mickey Cohen - estava marcada para o início de setembro de 2012, coincidindo com o lançamento do trabalho do jornalista nas livrarias. Porém, o destino, na forma de uma inesperada chacina ocorrida em um cinema do Colorado, mudou os planos da Warner Bros, que acertadamente tirou da montagem final uma sequência semelhante ao massacre. Com o roteiro reescrito, cenas adicionais filmadas e quatro meses o separando da data original de lançamento, o filme de Ruben Fleischer finalmente ganhou as telas em janeiro de 2013. Porém, mesmo com um elenco recheada de grandes nomes - Sean Penn, Josh Brolin, Nick Nolte, Ryan Gosling e Emma Stone - a produção de 60 milhões de dólares só saiu do vermelho graças ao mercado internacional. Não pode-se dizer que tenha sido um resultado injusto.
A princípio, "Caça aos gângsteres" lembra bastante o sensacional "Los Angeles, cidade proibida", baseado em romance de James Ellroy e lançado em 1997. A trama central - uma equipe secreta de policiais incorruptíveis dedicada a promover a queda de um poderoso senhor do crime - lembra também o inesquecível "Os intocáveis", estrelado por Kevin Costner em 1987. O problema maior é que o cineasta Ruben Fleischer - cujo maior crédito até então era a comédia "Zumbilândia" - não tem o mesmo talento que Curtis Hanson e Brian DePalma, diretores dos filmes citados. Mesmo que apresente algumas ideias visuais interessantes, falta a ele a segurança para conduzir uma narrativa que tenha a capacidade de empolgar um público cada vez mais acostumado com cenas de ação impecáveis sem deixar de dar atenção ao desenho dos personagens. Em parte por culpa de um roteiro que não parece se preocupar em aprofundar as relações humanas - e quando faz isso escorrega aflitivamente pelos mais deslavados clichês - e em parte devido à falta de experiência de seu diretor, o filme acaba sendo apenas um pastiche do gênero. Até diverte em alguns momentos, mas no geral é quase chato.
O roteiro de Will Beall é tão previsível que é possível adivinhar cada cena a quilômetros de distância, o que prejudica de forma irreparável o suspense tão necessário a um filme policial. Por exemplo, a relação entre Wooters e a bela Grace Faraday (Emma Stone) - que tem um caso também com Cohen - parece existir mais para satisfazer a necessidade de acrescentar algumas cenas românticas à história do que para empurrar a narrativa pra frente. E nem é preciso ser consumidor compulsivo do gênero para adiantar o destino de cada um dos personagens, felizmente interpretados por atores tão bons que deixam a experiência menos penosa. Sean Penn e Josh Brolin - repetindo a inimizade de "Milk, a voz da igualdade" dessa vez em lados opostos do bem e do mal - estão visivelmente se esforçando em dar consistência a um texto pouco favorável. Ryan Gosling e Emma Stone - que já fizeram par romântico no delicioso "Amor à toda prova" - repetem a boa química, mesmo com pouco material em mãos. E Nick Nolte pouco tem a fazer com suas cenas, sendo subaproveitado, assim como à Mireille Enos (da série "The killing") cabe o ingrato papel de esposa do herói.
"Caça aos gângsteres" não é um filme ruim. Tem muita gente boa envolvida para ser uma perda de tempo total. Mas peca muito em não imprimir personalidade em sua narrativa, tem um roteiro preguiçoso e prefere o caminho do banal ao contar uma história que, por ser tão parecida com tantas outras, merecia uma ousadia maior. Para os fãs do gênero é imperdível. Mas está longe de ser tão bom quanto poderia.
domingo
AQUI É O MEU LUGAR
AQUI É O MEU LUGAR (This must be the place, 2011, Indigo Film/Lucky Red/Medusa Film, 118min) Direção: Paolo Sorrrentino. Roteiro: Paolo Sorrentino, Umberto Contarello. Fotografia: Luca Bigazzi. Montagem: Cristiano Travaglioli. Música: David Byrne, Will Oldham. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: Stefania Cella. Produção executiva: Ron Bozman, Viola Prestieri. Produção: Francesca Cima, Nicola Giuliano, Andrea Occhipinti, Mario Spedaletti. Elenco: Sean Penn, Frances McDormand, Judd Hirsch, Harry Dean Stanton, Olwen Fouéré, Ewe Hewson, Shea Whigham. Estreia: 20/5/11 (Festival de Cannes)
A estranheza que o rosto maquiado e envelhecido de Sean Penn causa quando se vê o cartaz de "Aqui é o meu lugar" não deixa de ser um aperitivo para o que vem pela frente quando se arrisca a conferir a obra dirigida pelo italiano Paolo Sorrentino. Melancólico e um tanto perdido em suas intenções, o roteiro do filme é exatamente como seu protagonista, um homem em busca de raízes, tentando sobreviver em um mundo hostil ao qual ele parece não mais pertencer. Interpretado por um ator menos capaz, o roqueiro ultrapassado Cheyenne seria nada mais do que irremediavelmente patético. Na pele do sempre grande Penn ele também é muito triste e, apesar de bizarro e deslocado no tempo e no espaço, bastante humano.
Cheyenne é um roqueiro das antigas, ao estilo Robert "The Cure" Smith, que, depois de aposentado, tem um dia-a-dia modorrento e tedioso em Dublin, ao lado da esposa carinhosa (Frances McDormand) e de vizinhos que não conseguem deixar de estranhar seu visual atípico. Tendo também que lidar com a culpa que carrega devido ao suicídio de uma dupla de adolescentes fãs de sua música, Cheyenne vaga pelo mundo sem maiores arroubos de felicidade ou entusiasmo. A pasmaceira de sua rotina só é quebrada inesperadamente, porém, quando ele fica sabendo que seu pai está à beira da morte em Nova York. Afastado do convívio com o pai há três décadas, ele resolve tentar uma reconciliação, mas, chegando tarde demais, descobre que a única maneira de conseguir atingir seu objetivo é vingar as humilhações sofridas por seu progenitor quando prisioneiro de um campo de concentração durante a II Guerra. Ignorante até então da extensão do sofrimento de seu pai, o cantor resolve então vingar-se do carrasco nazista responsável e parte em busca de revanche. No meio do caminho, como sempre acontece em road movies, ele passa a questionar suas próprias raízes, convicções e objetivos, principalmente quando encontra, durante o trajeto, pessoas capazes de fazê-lo enxergar coisas até então invisíveis para seus olhos um tanto egocêntricos.
Resumido dessa forma, "Aqui é o meu lugar" soa como a mais reles autoajuda. No entanto, Sorrentino - diretor do elogiado "Il Divo", indicado ao Oscar de filme estrangeiro - consegue escapar muitas vezes dos clichês que assolam o gênero, equilibrando com inteligência uma boa dose de ironia e toneladas de uma indisfarçável melancolia, revelada tanto no olhar distante do protagonista em boa parte da narrativa quanto nos detalhes visuais que a câmera, discreta mas sempre atenta, vai colecionando em seu caminho, repleto de figuras excêntricas e, a seu modo, fascinantes. Dono de um estilo seco de direção, Sorrentino mantém-se sempre distante do piegas, mas quando aceita tocar de leve na emoção é arrasador - a sequência em que Cheyenne toca a canção-título do filme com o filho pequeno de uma nova amiga é de encher o coração, especialmente quando se sabe que ela é a neta do homem a quem ele procura e que um de seus maiores arrependimentos na vida é não ter sido pai. A cena é rápida, mas acrescenta uma camada de humanidade ao protagonista que acaba sendo de importância crucial no desfecho da história.
Como sempre ocorre em filmes do estilo, o destino é menos importante do que a jornada - ainda que o embate final entre Cheyenne e o nazista seja bem resolvido e forte. É no desenrolar da viagem de Cheyenne que o filme encontra sua razão de ser, assim como o protagonista também encontra nesse mergulho em si mesmo a força para deixar o passado pra trás e encarar o futuro do qual tanto fugia. E é Sean Penn, do alto de seu talento avassalador, que dá sentido a tudo. Com mais uma atuação corajosa em sua carreira - com um tom de voz delicado, batom nos lábios, esmalte nas unhas e um penteado bizarro - Penn arrasta a plateia para sua angústia, para oferecer-lhe, ao final da projeção, uma experiência bem mais enriquecedora do que se poderia pressupor. É estranho, é bizarro, é triste. Mas é, também, imperdível, nem que seja para se confirmar o que já se sabe há um bom tempo: Penn é um dos melhores atores americanos em atividade.
A estranheza que o rosto maquiado e envelhecido de Sean Penn causa quando se vê o cartaz de "Aqui é o meu lugar" não deixa de ser um aperitivo para o que vem pela frente quando se arrisca a conferir a obra dirigida pelo italiano Paolo Sorrentino. Melancólico e um tanto perdido em suas intenções, o roteiro do filme é exatamente como seu protagonista, um homem em busca de raízes, tentando sobreviver em um mundo hostil ao qual ele parece não mais pertencer. Interpretado por um ator menos capaz, o roqueiro ultrapassado Cheyenne seria nada mais do que irremediavelmente patético. Na pele do sempre grande Penn ele também é muito triste e, apesar de bizarro e deslocado no tempo e no espaço, bastante humano.
Cheyenne é um roqueiro das antigas, ao estilo Robert "The Cure" Smith, que, depois de aposentado, tem um dia-a-dia modorrento e tedioso em Dublin, ao lado da esposa carinhosa (Frances McDormand) e de vizinhos que não conseguem deixar de estranhar seu visual atípico. Tendo também que lidar com a culpa que carrega devido ao suicídio de uma dupla de adolescentes fãs de sua música, Cheyenne vaga pelo mundo sem maiores arroubos de felicidade ou entusiasmo. A pasmaceira de sua rotina só é quebrada inesperadamente, porém, quando ele fica sabendo que seu pai está à beira da morte em Nova York. Afastado do convívio com o pai há três décadas, ele resolve tentar uma reconciliação, mas, chegando tarde demais, descobre que a única maneira de conseguir atingir seu objetivo é vingar as humilhações sofridas por seu progenitor quando prisioneiro de um campo de concentração durante a II Guerra. Ignorante até então da extensão do sofrimento de seu pai, o cantor resolve então vingar-se do carrasco nazista responsável e parte em busca de revanche. No meio do caminho, como sempre acontece em road movies, ele passa a questionar suas próprias raízes, convicções e objetivos, principalmente quando encontra, durante o trajeto, pessoas capazes de fazê-lo enxergar coisas até então invisíveis para seus olhos um tanto egocêntricos.
Resumido dessa forma, "Aqui é o meu lugar" soa como a mais reles autoajuda. No entanto, Sorrentino - diretor do elogiado "Il Divo", indicado ao Oscar de filme estrangeiro - consegue escapar muitas vezes dos clichês que assolam o gênero, equilibrando com inteligência uma boa dose de ironia e toneladas de uma indisfarçável melancolia, revelada tanto no olhar distante do protagonista em boa parte da narrativa quanto nos detalhes visuais que a câmera, discreta mas sempre atenta, vai colecionando em seu caminho, repleto de figuras excêntricas e, a seu modo, fascinantes. Dono de um estilo seco de direção, Sorrentino mantém-se sempre distante do piegas, mas quando aceita tocar de leve na emoção é arrasador - a sequência em que Cheyenne toca a canção-título do filme com o filho pequeno de uma nova amiga é de encher o coração, especialmente quando se sabe que ela é a neta do homem a quem ele procura e que um de seus maiores arrependimentos na vida é não ter sido pai. A cena é rápida, mas acrescenta uma camada de humanidade ao protagonista que acaba sendo de importância crucial no desfecho da história.
Como sempre ocorre em filmes do estilo, o destino é menos importante do que a jornada - ainda que o embate final entre Cheyenne e o nazista seja bem resolvido e forte. É no desenrolar da viagem de Cheyenne que o filme encontra sua razão de ser, assim como o protagonista também encontra nesse mergulho em si mesmo a força para deixar o passado pra trás e encarar o futuro do qual tanto fugia. E é Sean Penn, do alto de seu talento avassalador, que dá sentido a tudo. Com mais uma atuação corajosa em sua carreira - com um tom de voz delicado, batom nos lábios, esmalte nas unhas e um penteado bizarro - Penn arrasta a plateia para sua angústia, para oferecer-lhe, ao final da projeção, uma experiência bem mais enriquecedora do que se poderia pressupor. É estranho, é bizarro, é triste. Mas é, também, imperdível, nem que seja para se confirmar o que já se sabe há um bom tempo: Penn é um dos melhores atores americanos em atividade.
quarta-feira
ANTES DO ANOITECER
ANTES
DO ANOITECER (Before night falls, 2000, El Mar Pictures/Grandview
Pictures, 133min) Direção: Julian Schnabel. Roteiro: Cunningham O'Keefe,
Lazaro Gomez Carriles, Julian Schnabel, livro de Reinaldo Arenas e
documentário "Havana", de Jana Bokova. Fotografia: Xavier Pérez Grobet,
Guillermo Rosas. Montagem: Michael Berenbaum. Música: Carter Burwell.
Figurino: Mariestela Fernández. Direção de arte/cenários: Salvador
Parra/Laurie Friedman. Produção executiva: Olatz Lopez Garmendia, Julian
Schnabel. Produção: Jon Kilik. Elenco: Javier Bardem, Johnny Depp, Sean
Penn, Diego Luna, Olivier Martinez. Estreia: 03/9/00 (Festival de
Veneza)
Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Javier Bardem)
Poeta, escritor e dramaturgo cubano que abandonou a ilha devido à perseguição do governo de Fidel Castro - que não aceitava sua homossexualidade aberta e seus ataques explícitos à revolução - Reinaldo Arenas encontrou em Nova York, onde se estabeleceu no início da década de 80, o lugar ideal para usufruir de sua liberdade pessoal e intelectual, até que o vírus da AIDS interrompeu uma importante trajetória literária, cujo auge foi sua autobiografia, lançada dez anos depois de sua morte. Retratada em sua poesia dura e melancólica, a vida de Arenas, repleta de lances dramáticos é a base da versão para as telas de seu livro póstumo, "Antes do anoitecer", que, sob a direção sensível e igualmente lírica de Julian Schnabel - cujo currículo já incluía "Basquiat, traços de uma vida" (96), cinebiografia do artista plástico que também foi vítima da AIDS - se equilibra entre a narrativa convencional e rasgos de criatividade que nem sempre convivem em harmonia dentro do resultado final.
Apesar de contar a história de Arenas desde sua infância, no interior do país e sem a presença paterna, "Antes do anoitecer" concentra-se principalmente na juventude do escritor, quando, já em Havana, vê florescer em si seu talento como escritor, sua sexualidade pouco conveniente à sociedade conservadora de Cuba e sua tendência em lutar contra o governo (mesmo que a princípio tenha sido favorável à revolução) - fatores que o levam a uma sistemática perseguição que resultou em constantes prisões e torturas. Mantendo-se fiel à autobiografia de Arenas, um livro de memórias atípico que mistura passagens de uma crueza ímpar a poesia, narração de sonhos e pesadelos alucinantes, o filme de Schnabel convida o espectador a uma viagem recheada de imagens cuidadosamente planejadas - a fotografia em tons ocres transmite com perfeição o clima quente da capital cubana e a trilha sonora (que tem o reforço de Lou Reed e Laurie Anderson) ilustra com inteligência o tênue equilíbrio entre a liberdade da personalidade de Arenas com a repressão do governo de Fidel - até mesmo nas sequências em que o protagonista é preso e interrogado (em uma participação especial de um Johnny Depp tentando controlar sua tendência ao excesso) o cineasta jamais perde a mão em sua busca de evitar a violência, optando pelo lirismo e pela fantasia, felizmente encontrando um intérprete genial em Javier Bardem, merecidamente indicado ao Oscar por seu desempenho.
Mesclando fragilidade e um estoicismo que faz de Reinaldo Arenas uma força da natureza, Bardem - então um ator conhecido apenas no mercado espanhol, o que deixa sua lembrança pela Academia ainda mais impressionante - domina a cena do filme de Schnabel mesmo que em vários momentos o roteiro, em sua obsessão de manter-se fiel ao livro que lhe deu origem, careça de um foco mais definido e dilua os dramas de seu protagonista em sequências desnecessariamente longas, como aquela que mostra a tentativa de fuga de um grupo de cubanos através de um balão, antecedida por uma cena que reflete o tom de festa constante do submundo cubano que funciona poeticamente mas quebra o ritmo cinematográfico. Também é um pecado do roteiro não deixar claro o tipo de relacionamento entre Arenas e Lázaro (Olivier Martinez), que se torna seu leal e compreensivo companheiro de apartamento em Nova York até sua angustiante morte, com a AIDS o obrigando a abreviar uma trajetória que poderia ser ainda mais brilhante e provocativa.
Dono de uma personalidade própria, que o distingue das cinebiografias convencionais, "Antes do anoitecer" deve seu bom-gosto ao diretor Julian Schnabel, que imprime em cada cena um visual que aproxima o espectador da história que está sendo contada. A interpretação intensa de Javier Bardem - convincente em sua fase adolescente e avassalador em seus dias adultos - apresenta Reinaldo Arenas ao público como um homem sensível mas disposto a enfrentar qualquer luta, seja no âmbito pessoal e sexual ou no contexto social. O equilíbrio atingido por Schnabel entre esse dois polos é admirável, mesmo quando tal decisão soe algumas vezes como falta de foco. Porém, é preciso lembrar que o próprio livro de Arenas caracteriza-se por tal estrutura e é louvável o trabalho do diretor em transferir para as telas as palavras doloridas do escritor cubano. O ritmo pode não ser dos mais ágeis, mas "Antes do anoitecer" é um belo exemplo de cinema poético e sensorial que o cineasta aprimoraria no belo "O escafandro e a borboleta", lançado em 2007.
Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Javier Bardem)
Poeta, escritor e dramaturgo cubano que abandonou a ilha devido à perseguição do governo de Fidel Castro - que não aceitava sua homossexualidade aberta e seus ataques explícitos à revolução - Reinaldo Arenas encontrou em Nova York, onde se estabeleceu no início da década de 80, o lugar ideal para usufruir de sua liberdade pessoal e intelectual, até que o vírus da AIDS interrompeu uma importante trajetória literária, cujo auge foi sua autobiografia, lançada dez anos depois de sua morte. Retratada em sua poesia dura e melancólica, a vida de Arenas, repleta de lances dramáticos é a base da versão para as telas de seu livro póstumo, "Antes do anoitecer", que, sob a direção sensível e igualmente lírica de Julian Schnabel - cujo currículo já incluía "Basquiat, traços de uma vida" (96), cinebiografia do artista plástico que também foi vítima da AIDS - se equilibra entre a narrativa convencional e rasgos de criatividade que nem sempre convivem em harmonia dentro do resultado final.
Apesar de contar a história de Arenas desde sua infância, no interior do país e sem a presença paterna, "Antes do anoitecer" concentra-se principalmente na juventude do escritor, quando, já em Havana, vê florescer em si seu talento como escritor, sua sexualidade pouco conveniente à sociedade conservadora de Cuba e sua tendência em lutar contra o governo (mesmo que a princípio tenha sido favorável à revolução) - fatores que o levam a uma sistemática perseguição que resultou em constantes prisões e torturas. Mantendo-se fiel à autobiografia de Arenas, um livro de memórias atípico que mistura passagens de uma crueza ímpar a poesia, narração de sonhos e pesadelos alucinantes, o filme de Schnabel convida o espectador a uma viagem recheada de imagens cuidadosamente planejadas - a fotografia em tons ocres transmite com perfeição o clima quente da capital cubana e a trilha sonora (que tem o reforço de Lou Reed e Laurie Anderson) ilustra com inteligência o tênue equilíbrio entre a liberdade da personalidade de Arenas com a repressão do governo de Fidel - até mesmo nas sequências em que o protagonista é preso e interrogado (em uma participação especial de um Johnny Depp tentando controlar sua tendência ao excesso) o cineasta jamais perde a mão em sua busca de evitar a violência, optando pelo lirismo e pela fantasia, felizmente encontrando um intérprete genial em Javier Bardem, merecidamente indicado ao Oscar por seu desempenho.
Mesclando fragilidade e um estoicismo que faz de Reinaldo Arenas uma força da natureza, Bardem - então um ator conhecido apenas no mercado espanhol, o que deixa sua lembrança pela Academia ainda mais impressionante - domina a cena do filme de Schnabel mesmo que em vários momentos o roteiro, em sua obsessão de manter-se fiel ao livro que lhe deu origem, careça de um foco mais definido e dilua os dramas de seu protagonista em sequências desnecessariamente longas, como aquela que mostra a tentativa de fuga de um grupo de cubanos através de um balão, antecedida por uma cena que reflete o tom de festa constante do submundo cubano que funciona poeticamente mas quebra o ritmo cinematográfico. Também é um pecado do roteiro não deixar claro o tipo de relacionamento entre Arenas e Lázaro (Olivier Martinez), que se torna seu leal e compreensivo companheiro de apartamento em Nova York até sua angustiante morte, com a AIDS o obrigando a abreviar uma trajetória que poderia ser ainda mais brilhante e provocativa.
Dono de uma personalidade própria, que o distingue das cinebiografias convencionais, "Antes do anoitecer" deve seu bom-gosto ao diretor Julian Schnabel, que imprime em cada cena um visual que aproxima o espectador da história que está sendo contada. A interpretação intensa de Javier Bardem - convincente em sua fase adolescente e avassalador em seus dias adultos - apresenta Reinaldo Arenas ao público como um homem sensível mas disposto a enfrentar qualquer luta, seja no âmbito pessoal e sexual ou no contexto social. O equilíbrio atingido por Schnabel entre esse dois polos é admirável, mesmo quando tal decisão soe algumas vezes como falta de foco. Porém, é preciso lembrar que o próprio livro de Arenas caracteriza-se por tal estrutura e é louvável o trabalho do diretor em transferir para as telas as palavras doloridas do escritor cubano. O ritmo pode não ser dos mais ágeis, mas "Antes do anoitecer" é um belo exemplo de cinema poético e sensorial que o cineasta aprimoraria no belo "O escafandro e a borboleta", lançado em 2007.
segunda-feira
REVIRAVOLTA
REVIRAVOLTA
(U-turn, 1997, Phoenix Pictures/Clyde is Hungry Productions/Illusion
Entertainment Group, 125min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: John
Ridley, romance "Stray dogs", de John Ridley. Fotografia: Robert
Richardson. Montagem: Hank Corwin, Thomas J. Nordberg. Música: Ennio
Morricone. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários:
John Ridley. Produção executiva: John Ridley. Produção: Dan Halsted,
Clayton Townsend. Elenco: Sean Penn, Jennifer Lopez, Nick Nolte, Billy
Bob Thornton, Jon Voight, Joaquin Phoenix, Claire Danes, Julie Hagerty.
Estreia: 27/8/97 (Festival de Telluride)
Para mostrar que não é um diretor preocupado apenas com as consequências da guerra do Vietnã e com as mazelas políticas e sociais dos EUA - e consequentemente fugir da pecha de cineasta mais propenso a polêmicas do que a entretenimento puro e simples - Oliver Stone deixou de lado suas obsessões mais caras (ou nem tanto, já que visualmente se manteve fiel a suas narrativas rocambolescas) para assinar "Reviravolta", um drama policial que mistura no mesmo balaio ultra-violência, sexo, humor negro e incesto com a mesma naturalidade com que conta a história (já tantas vezes contada pelo cinema) do homem que se mete com a mulher errada na hora errada... e no caso de seu filme, também na cidade errada. Subvertendo as regras visuais do cinema noir - ao substituir a escuridão das sombras pela luz de um escaldante sol - com a fotografia estourada de seu colaborador habitual Robert Richardson (oscarizado por "JFK"), Stone criou uma espécie de episódio estendido de "Além da imaginação", utilizando-se, para isso, de um roteiro que não cansa de surpreender a plateia com novas informações e (com o perdão da repetição) reviravoltas. Sexy, cruel e sarcástico, o filme, estrelado por um impecável Sean Penn e uma estonteante Jennifer Lopez, não é dos mais conhecidos trabalhos do diretor, mas é muito acima da média do comportado cinema norte-americano.
O estilo cinematográfico de Oliver Stone - imagens sobrepostas, diferentes tipos de filmagem, edição extremamente ágil - fica claro logo nos primeiros minutos de "Reviravolta", que mostram a chegada do misterioso Bobby Cooper (Sean Penn) à Superior, no interior de Nevada. A caminho de Las Vegas para pagar uma dívida de jogo que já o fez perder dois dedos da mão, ele se vê obrigado a parar na pequena cidade depois que seu carro estraga e, enquanto o bizarro mecânico Darrell (Billy Bob Thornton) cuida do automóvel, ele passeia pelo calor sufocante do local, encravado no meio do deserto. Como um oásis de beleza e sensualidade, seus olhos caem na bela Grace (Jennifer Lopez), uma mulher provocante que não demora em tentar seduzí-lo a despeito de ser casada com o feroz Jake McKenna (Nick Nolte), um homem mais velho e violento que não demora a propor um elaborado plano de assassinato ao atarantado rapaz. Sem dinheiro para pagar sua dívida (por motivos que não convém revelar para não estragar as surpresas) e nem ao menos a conta do mecânico, Bobby fica tentado a aceitar a proposta, mas acaba se enroscando em uma trama muito mais cheia de mentiras do que supunha a princípio. Não bastasse isso, ele precisa lidar com outras personalidades estranhas do lugar, como um velho índio cego (Jon Voight, irreconhecível em um papel que Stone quis oferecer a Marlon Brando) e um casal de jovens (Claire Danes e Joaquin Phoenix) que parece ter como missão na vida perturbar o pouco que resta de sua paz.
Com uma narrativa que apresenta resquícios de "Assassinos por natureza" - imagens deformadas, personagens à beira da histeria e uma dose superlativa de humor negro - "Reviravolta" pode até ser descrito por seu diretor como um filme simples, mas há muito mais complexidade em seu desenvolvimento do que uma primeira espiada pode mostrar. O que começa com um simples road movie macabro vai se transformando lentamente em um tenso exercício de suspense, banhando em uma sensualidade crua - enfatizada pela iluminação saturada que amplia a sensação claustrofóbica - e uma sucessão de traições que remete aos mais famosos escritores pulp americanos, como se Raymond Chandler e Dashiel Hammett substituíssem os bares degradantes e agências de detetives que habitam seus romances por um deserto tão pernicioso quanto. É irônico perceber que, por menos correto e honesto que seja, Bobby é o heroi da história, sendo pego como uma mosca na teia de volúpia e corrupção de Grace e Jake. O roteiro de John Ridley - o mesmo que ganhou o Oscar por "12 anos de escravidão" quinze anos mais tarde - é tão sacana que não resta opção ao público senão torcer pelo protagonista mesmo que ele destoe radicalmente do ideal do bom-mocismo cinematográfico. E para isso conta muito que ele seja interpretado por Sean Penn, o melhor ator de sua geração.
Primeira escolha de Oliver Stone para protagonizar o filme, Penn quase ficou de fora da produção devido a problemas de agenda, sendo substituído por Bill Paxton até quase o início das filmagens, quando retomou o papel (que felizmente foi recusado por Tom Cruise, que facilmente poderia estragar o resultado final com seu ar de eterno galã). Apresentando uma das melhores atuações de sua carreira, o ator transita com naturalidade entre o tédio, o medo, a fúria, o tesão e a perplexidade, contagiando com seu imenso talento até a então novata Jennifer Lopez, que, mesmo não precisando fazer mais do que aquecer a tela com sua beleza candente, se mostra uma atriz promissora e dedicada. Sua química com Sean Penn é outro destaque de um filme repleto de qualidades que infelizmente passou quase em branco pelos cinemas - nos EUA é fácil odiar os trabalhos de Oliver Stone graças a suas ideias "perigosas", e tal desprezo acabou prejudicando a carreira internacional de "Reviravolta". Felizmente, sempre há tempo para reparar tal erro e conhecer - ou redescobrir essa pequena pérola de sua filmografia.
Para mostrar que não é um diretor preocupado apenas com as consequências da guerra do Vietnã e com as mazelas políticas e sociais dos EUA - e consequentemente fugir da pecha de cineasta mais propenso a polêmicas do que a entretenimento puro e simples - Oliver Stone deixou de lado suas obsessões mais caras (ou nem tanto, já que visualmente se manteve fiel a suas narrativas rocambolescas) para assinar "Reviravolta", um drama policial que mistura no mesmo balaio ultra-violência, sexo, humor negro e incesto com a mesma naturalidade com que conta a história (já tantas vezes contada pelo cinema) do homem que se mete com a mulher errada na hora errada... e no caso de seu filme, também na cidade errada. Subvertendo as regras visuais do cinema noir - ao substituir a escuridão das sombras pela luz de um escaldante sol - com a fotografia estourada de seu colaborador habitual Robert Richardson (oscarizado por "JFK"), Stone criou uma espécie de episódio estendido de "Além da imaginação", utilizando-se, para isso, de um roteiro que não cansa de surpreender a plateia com novas informações e (com o perdão da repetição) reviravoltas. Sexy, cruel e sarcástico, o filme, estrelado por um impecável Sean Penn e uma estonteante Jennifer Lopez, não é dos mais conhecidos trabalhos do diretor, mas é muito acima da média do comportado cinema norte-americano.
O estilo cinematográfico de Oliver Stone - imagens sobrepostas, diferentes tipos de filmagem, edição extremamente ágil - fica claro logo nos primeiros minutos de "Reviravolta", que mostram a chegada do misterioso Bobby Cooper (Sean Penn) à Superior, no interior de Nevada. A caminho de Las Vegas para pagar uma dívida de jogo que já o fez perder dois dedos da mão, ele se vê obrigado a parar na pequena cidade depois que seu carro estraga e, enquanto o bizarro mecânico Darrell (Billy Bob Thornton) cuida do automóvel, ele passeia pelo calor sufocante do local, encravado no meio do deserto. Como um oásis de beleza e sensualidade, seus olhos caem na bela Grace (Jennifer Lopez), uma mulher provocante que não demora em tentar seduzí-lo a despeito de ser casada com o feroz Jake McKenna (Nick Nolte), um homem mais velho e violento que não demora a propor um elaborado plano de assassinato ao atarantado rapaz. Sem dinheiro para pagar sua dívida (por motivos que não convém revelar para não estragar as surpresas) e nem ao menos a conta do mecânico, Bobby fica tentado a aceitar a proposta, mas acaba se enroscando em uma trama muito mais cheia de mentiras do que supunha a princípio. Não bastasse isso, ele precisa lidar com outras personalidades estranhas do lugar, como um velho índio cego (Jon Voight, irreconhecível em um papel que Stone quis oferecer a Marlon Brando) e um casal de jovens (Claire Danes e Joaquin Phoenix) que parece ter como missão na vida perturbar o pouco que resta de sua paz.
Com uma narrativa que apresenta resquícios de "Assassinos por natureza" - imagens deformadas, personagens à beira da histeria e uma dose superlativa de humor negro - "Reviravolta" pode até ser descrito por seu diretor como um filme simples, mas há muito mais complexidade em seu desenvolvimento do que uma primeira espiada pode mostrar. O que começa com um simples road movie macabro vai se transformando lentamente em um tenso exercício de suspense, banhando em uma sensualidade crua - enfatizada pela iluminação saturada que amplia a sensação claustrofóbica - e uma sucessão de traições que remete aos mais famosos escritores pulp americanos, como se Raymond Chandler e Dashiel Hammett substituíssem os bares degradantes e agências de detetives que habitam seus romances por um deserto tão pernicioso quanto. É irônico perceber que, por menos correto e honesto que seja, Bobby é o heroi da história, sendo pego como uma mosca na teia de volúpia e corrupção de Grace e Jake. O roteiro de John Ridley - o mesmo que ganhou o Oscar por "12 anos de escravidão" quinze anos mais tarde - é tão sacana que não resta opção ao público senão torcer pelo protagonista mesmo que ele destoe radicalmente do ideal do bom-mocismo cinematográfico. E para isso conta muito que ele seja interpretado por Sean Penn, o melhor ator de sua geração.
Primeira escolha de Oliver Stone para protagonizar o filme, Penn quase ficou de fora da produção devido a problemas de agenda, sendo substituído por Bill Paxton até quase o início das filmagens, quando retomou o papel (que felizmente foi recusado por Tom Cruise, que facilmente poderia estragar o resultado final com seu ar de eterno galã). Apresentando uma das melhores atuações de sua carreira, o ator transita com naturalidade entre o tédio, o medo, a fúria, o tesão e a perplexidade, contagiando com seu imenso talento até a então novata Jennifer Lopez, que, mesmo não precisando fazer mais do que aquecer a tela com sua beleza candente, se mostra uma atriz promissora e dedicada. Sua química com Sean Penn é outro destaque de um filme repleto de qualidades que infelizmente passou quase em branco pelos cinemas - nos EUA é fácil odiar os trabalhos de Oliver Stone graças a suas ideias "perigosas", e tal desprezo acabou prejudicando a carreira internacional de "Reviravolta". Felizmente, sempre há tempo para reparar tal erro e conhecer - ou redescobrir essa pequena pérola de sua filmografia.
LOUCOS DE AMOR
LOUCOS
DE AMOR (She's so lovely, 1997, Miramax/Clyde is Hungry Productions,
100min) Direção: Nick Cassavetes. Roteiro: John Cassavetes. Fotografia:
Thierry Arbogast. Montagem: Petra Von Oelffen. Música: Joseph Vitarelli.
Figurino: Beatrix Aruna-Pasztor. Direção de arte/cenários: David
Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Bernard Bouix, Gérard
Depardieu, Sean Penn, John Travolta. Produção: René Cleitman. Elenco:
Sean Penn, Robin Wright Penn, John Travolta, Harry Dean Stanton, James
Gandolfini, Debi Mazar, Gena Rowlands, Burt Young, Talia Shire. Estreia:
15/5/97 (Festival de Cannes)
Vencedor da Palma de Ouro (Melhor Ator) no Festival de Cannes 1997: Sean Penn
Diretor de filmes extremamente densos, que examinavam a fundo as relações interpessoais sem firulas estéticas e que invariavelmente deixavam no espectador uma sensação amarga, John Cassavetes foi pioneiro também em fugir dos ditames dos grandes estúdios, buscando formas independentes de lançar suas obras. Eternamente lembrado como o marido satanista de Mia Farrow em "O bebê de Rosemary", Cassavetes foi casado com a atriz Gena Rowlands - presença constante em sua filmografia - e morreu prematuramente, aos 59 anos, em fevereiro de 1989, antes de sequer começar a dirigir um novo projeto, a ser estrelado por Sean Penn. Felizmente o roteiro já estava pronto, e, quase dez anos depois da morte de John, "Loucos de amor" finalmente chegou as telas em grande estilo, estreando no Festival de Cannes - de onde saiu com o prêmio de melhor ator. Na direção, mostrando que seu talento passou para a geração seguinte, seu filho Nick, que emulou o espírito realista e seco do pai ao realizar uma obra que, a despeito de ter sido lançada no final da década de 90, tem a cara e a alma de um drama setentista.
Melancólico e pessimista, "Loucos de amor" já começa mostrando a que veio, apresentando ao público uma protagonista feminina complexa, irresponsável e paradoxalmente encantadora: Maureen (Robin Wright Penn) mora em um prédio decadente de um bairro pobre de Nova York, está grávida de poucos meses do marido que sumiu há três dias e não hesita em beber e fumar pelas ruas da cidade, enquanto flerta - mais por carência do que por tesão - com um vizinho aparentemente gentil, Kiefer (James Gandolfini), que aproveita a primeira oportunidade para espancá-la e estuprá-la. Quando seu marido, Eddie (Sean Penn) finalmente volta para casa, como se nada tivesse acontecido, ela resolve esconder dele a violência sofrida, por medo de uma represália. Quando o fato vem à tona, porém, o já agressivo Eddie não resiste e parte para a agressão, obrigando sua esposa a chamar um hospital psiquiátrico para impedí-lo de cometer um crime. A medida não basta e Eddie acaba sendo condenado a passar dez anos em uma instituição, depois de atirar em um médico. Uma década mais tarde, Eddie finalmente volta à liberdade - sem a noção do tempo que passou preso - e descobre que Maureen mudou seu estilo de vida. Casada novamente e mãe de três meninas, ela agora é uma equilibrada dona-de-casa que vive em paz com o novo marido, Joey (John Travolta). O retorno de Eddie a seu universo, porém, irá fazê-la questionar sua felicidade.
Dividindo seu filme em duas partes claras e esteticamente diferentes - o antes e o depois na vida de Eddie e Maurenn - Nick Cassavetes praticamente dirigiu dois filmes em um: o decadente, triste e boêmio mundo do casal na primeira metade é, paradoxalmente, mais romântico e passional, um mundo ao qual ambos pertencem e no qual se sentem à vontade, apesar das dificuldades financeiras. A segunda metade do filme é solar, clara, brilhante, sufocante aos olhos tanto de um Eddie recém-liberto de um pesadelo de dez anos quanto de uma Maureen que escondeu seu lado selvagem e transgressor atrás de uma fachada bem construída de mulher do lar. Não é por acaso que o tom da narrativa também muda quando acontece a transição: o que era trágico e escuro dá lugar a uma quase comédia, com direito a um Sean Penn exageradamente louro e uma menina de nove anos que entra na discussão familiar bebendo cerveja como gente grande. Esse contraste - que pode parecer gratuito - é a cara de "Loucos de amor", um filme que sacode as expectativas da plateia em suas pré-concepções de amor, felicidade e lealdade.
Porém, se foi Sean Penn quem levou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes, não é ele quem melhor traduz as dicotomias psicológicas do filme, apesar de estar fabuloso como sempre. Quem rouba a cena, traduzindo em imagens e em uma interpretação impecável todas as nuances do roteiro é a excelente Robin Wright Penn, casada com Sean à época. Seu trabalho de composição é absolutamente perfeito, desde o visual - de cabelos curtos e mal pintados na primeira parte a uma delicadeza de traços e gestos na segunda - até na maneira discreta e sutil que ela mostra a angústia de sua Maureen através do olhar e da entonação de voz. O que parece ser dois personagens distintos transforma-se rapidamente em uma única personalidade toda vez que ela está em cena, lembrando à audiência que todo o turbilhão de sentimentos mostrados no filme está se passando dentro da mesma - e apaixonada mulher. Robin realmente é, como diz o título original, adorável. Uma atriz extraordinária no melhor papel de sua carreira.
Vencedor da Palma de Ouro (Melhor Ator) no Festival de Cannes 1997: Sean Penn
Diretor de filmes extremamente densos, que examinavam a fundo as relações interpessoais sem firulas estéticas e que invariavelmente deixavam no espectador uma sensação amarga, John Cassavetes foi pioneiro também em fugir dos ditames dos grandes estúdios, buscando formas independentes de lançar suas obras. Eternamente lembrado como o marido satanista de Mia Farrow em "O bebê de Rosemary", Cassavetes foi casado com a atriz Gena Rowlands - presença constante em sua filmografia - e morreu prematuramente, aos 59 anos, em fevereiro de 1989, antes de sequer começar a dirigir um novo projeto, a ser estrelado por Sean Penn. Felizmente o roteiro já estava pronto, e, quase dez anos depois da morte de John, "Loucos de amor" finalmente chegou as telas em grande estilo, estreando no Festival de Cannes - de onde saiu com o prêmio de melhor ator. Na direção, mostrando que seu talento passou para a geração seguinte, seu filho Nick, que emulou o espírito realista e seco do pai ao realizar uma obra que, a despeito de ter sido lançada no final da década de 90, tem a cara e a alma de um drama setentista.
Melancólico e pessimista, "Loucos de amor" já começa mostrando a que veio, apresentando ao público uma protagonista feminina complexa, irresponsável e paradoxalmente encantadora: Maureen (Robin Wright Penn) mora em um prédio decadente de um bairro pobre de Nova York, está grávida de poucos meses do marido que sumiu há três dias e não hesita em beber e fumar pelas ruas da cidade, enquanto flerta - mais por carência do que por tesão - com um vizinho aparentemente gentil, Kiefer (James Gandolfini), que aproveita a primeira oportunidade para espancá-la e estuprá-la. Quando seu marido, Eddie (Sean Penn) finalmente volta para casa, como se nada tivesse acontecido, ela resolve esconder dele a violência sofrida, por medo de uma represália. Quando o fato vem à tona, porém, o já agressivo Eddie não resiste e parte para a agressão, obrigando sua esposa a chamar um hospital psiquiátrico para impedí-lo de cometer um crime. A medida não basta e Eddie acaba sendo condenado a passar dez anos em uma instituição, depois de atirar em um médico. Uma década mais tarde, Eddie finalmente volta à liberdade - sem a noção do tempo que passou preso - e descobre que Maureen mudou seu estilo de vida. Casada novamente e mãe de três meninas, ela agora é uma equilibrada dona-de-casa que vive em paz com o novo marido, Joey (John Travolta). O retorno de Eddie a seu universo, porém, irá fazê-la questionar sua felicidade.
Dividindo seu filme em duas partes claras e esteticamente diferentes - o antes e o depois na vida de Eddie e Maurenn - Nick Cassavetes praticamente dirigiu dois filmes em um: o decadente, triste e boêmio mundo do casal na primeira metade é, paradoxalmente, mais romântico e passional, um mundo ao qual ambos pertencem e no qual se sentem à vontade, apesar das dificuldades financeiras. A segunda metade do filme é solar, clara, brilhante, sufocante aos olhos tanto de um Eddie recém-liberto de um pesadelo de dez anos quanto de uma Maureen que escondeu seu lado selvagem e transgressor atrás de uma fachada bem construída de mulher do lar. Não é por acaso que o tom da narrativa também muda quando acontece a transição: o que era trágico e escuro dá lugar a uma quase comédia, com direito a um Sean Penn exageradamente louro e uma menina de nove anos que entra na discussão familiar bebendo cerveja como gente grande. Esse contraste - que pode parecer gratuito - é a cara de "Loucos de amor", um filme que sacode as expectativas da plateia em suas pré-concepções de amor, felicidade e lealdade.
Porém, se foi Sean Penn quem levou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes, não é ele quem melhor traduz as dicotomias psicológicas do filme, apesar de estar fabuloso como sempre. Quem rouba a cena, traduzindo em imagens e em uma interpretação impecável todas as nuances do roteiro é a excelente Robin Wright Penn, casada com Sean à época. Seu trabalho de composição é absolutamente perfeito, desde o visual - de cabelos curtos e mal pintados na primeira parte a uma delicadeza de traços e gestos na segunda - até na maneira discreta e sutil que ela mostra a angústia de sua Maureen através do olhar e da entonação de voz. O que parece ser dois personagens distintos transforma-se rapidamente em uma única personalidade toda vez que ela está em cena, lembrando à audiência que todo o turbilhão de sentimentos mostrados no filme está se passando dentro da mesma - e apaixonada mulher. Robin realmente é, como diz o título original, adorável. Uma atriz extraordinária no melhor papel de sua carreira.
domingo
ÁRVORE DA VIDA
ÁRVORE DA VIDA (The tree of life, 2011, River Road Entertainment, 139min) Direção e roteiro: Terrence Mallick. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Hank Corwin, Jay Rabinowitz, Daniel Rezende, Billy Weber, Mark Yoshikawa. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Jeanette Scott. Produção executiva: Donald Rosenfeld. Produção: Dede Gardner, Sarah Green, Grant Hill, Brad Pitt, Bill Pohlad. Elenco: Brad Pitt, Jessica Chastain, Sean Penn, Hunter McCracken. Estreia: 16/5/11 (Festival de Cannes)
3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Terrence Mallick), Fotografia
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes
Confesso: não sou fã de Terrence Malick. Não faço parte do fã-clube de um dos cineastas mais incensados pela crítica especializada, principalmente por não conhecer a fundo sua (pequena) obra. Acho "Além da Linha Vermelha" bastante enfadonho. E não tenho muita paciência para filmes-cabeça. Por isso, quando entrei na sessão de "Árvore da Vida", seu mais novo e recente trabalho, eu estava desprovido de expectativas exageradas e também de qualquer opinião pré-formada (apesar de muitas críticas negativas que pipocavam à minha volta). Sentei na poltrona com a mente aberta, esperando ser tocado de alguma forma pela história proposta pelo cineasta. E não me arrependi. Ainda que não seja a obra-prima alardeada a quatro ventos pelos mais entusiásticos seguidores de Malick tampouco é o soporífero descrito por seus detratores. "A Árvore da Vida" é um belo exercício de estilo, uma comovente história familiar, uma poderosa reflexão sobre a vida e a morte. Poderia ser menos lento e menos longo em alguns momentos? Em uma primeira visão, sim. Mas mexer na estrutura e até mesmo no ritmo do filme o aniquilaria. "Árvore da Vida" é o que é. Alguns aplaudem, outros vaiam. Todos precisam ver para dar a sua opinião.
Narrado de maneira fragmentada, "Árvore da Vida" conta, basicamente, a história de uma típica familia americana de classe média dos anos 50, liderada por um pai um tanto déspota e sem maiores arroubos de carinho (interpretado por um surpreendente Brad Pitt que substituiu Heath Ledger após sua precoce morte) e uma mãe delicada e juvenil que aguenta calada a forma quase tirana com que o marido comanda a casa (a ótima Jessica Chastain). Narrada pelo filho mais velho, Jack (vivido por Sean Penn na maturidade e pelo impressionante Hunter McCracken na infância), a trajetória da família é intercalada por imagens que remetem às origens da vida no planeta, enquanto os personagens questionam Deus a respeito de suas dúvidas sobre a vida, a morte e a justiça. Magnificamente fotografado por Emmanuel Lubezki (indicado ao Oscar por seu trabalho) e editado por uma equipe que inclui o brasileiro Daniel Rezende, "Árvore da vida" conquistou o júri do Festival de Cannes que lhe premiou com a Palma de Ouro e concorreu a 3 Oscar, incluindo melhor filme e direção.
Mas a bem da verdade, não dá para recriminar a parte da plateia que vem rechaçando "Árvore da Vida" de forma tão violenta. Malick não faz concessões em seu trabalho, e por vezes seus objetivos estéticos e metafísicos não são claros o bastante para agradar a um público cuja predisposição a filmes mais contemplativos está cada vez mais atrofiada - e muita gente de bom-gosto também não comprou as ideias do cineasta, alimentando ainda mais a polêmica sobre a qualidade artística do projeto. No entanto, mesmo que as discussões que o filme tenta levantar não cheguem a entusiasmar de forma geral, é inegável que, quando fala de sentimentos em seu filme, o diretor de "Terra de Ninguém" é capaz de emocionar até mesmo o mais insensível dos mortais.
É quando deixa de lado suas intenções filosóficas que Terrence Malick atinge um ponto nevrálgico no coração do espectador. É a complexa relação entre Jack e seu pai (cuja frieza se alterna com raros momentos de delicadeza e carinho) e sua vida em família (seu relacionamento com a mãe quando bebê é adorável) que eleva "Árvore da Vida" a um nível emocional de rara pungência e verdade. Qualquer pessoa que teve uma infância em família, que tem lembranças a partilhar, que tem traumas guardados e/ou tem aquela sensação nostálgica no peito tem tudo para desabar em lágrimas. É um paradoxo que, justamente quando o filme se afasta de suas ambições de ser pretensamente original que consegue captar o coração do espectador - e fazer mais sentido do que busca suas imagens da natureza (que incluiu até mesmo uma surpreendente e controversa sequência estrelada por dinossauros). E para isso conta com atuações inspiradíssimas de Brad Pitt (fazendo todo mundo esquecer que ele é Brad Pitt, com um personagem crível e bem desenvolvido), Jessica Chastain e do menino Hunter McCracken, que não precisa nem falar para transmitir o turbilhão de sentimentos pelos quais passa seu personagem. Apenas Sean Penn soa deslocado, mas é um pecado menor em um filme tão repleto de qualidades - que incluem a edição espetacular e o visual de tirar o fôlego em algumas sequências.
O conceito de "Árvore da Vida" pode não ter agradado a gregos e troianos. Mas a coragem de Terrence Malick em levar adiante um projeto tão pessoal já merece aplausos. Seu filme é um clássico instantâneo.
3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Terrence Mallick), Fotografia
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes
Confesso: não sou fã de Terrence Malick. Não faço parte do fã-clube de um dos cineastas mais incensados pela crítica especializada, principalmente por não conhecer a fundo sua (pequena) obra. Acho "Além da Linha Vermelha" bastante enfadonho. E não tenho muita paciência para filmes-cabeça. Por isso, quando entrei na sessão de "Árvore da Vida", seu mais novo e recente trabalho, eu estava desprovido de expectativas exageradas e também de qualquer opinião pré-formada (apesar de muitas críticas negativas que pipocavam à minha volta). Sentei na poltrona com a mente aberta, esperando ser tocado de alguma forma pela história proposta pelo cineasta. E não me arrependi. Ainda que não seja a obra-prima alardeada a quatro ventos pelos mais entusiásticos seguidores de Malick tampouco é o soporífero descrito por seus detratores. "A Árvore da Vida" é um belo exercício de estilo, uma comovente história familiar, uma poderosa reflexão sobre a vida e a morte. Poderia ser menos lento e menos longo em alguns momentos? Em uma primeira visão, sim. Mas mexer na estrutura e até mesmo no ritmo do filme o aniquilaria. "Árvore da Vida" é o que é. Alguns aplaudem, outros vaiam. Todos precisam ver para dar a sua opinião.
Narrado de maneira fragmentada, "Árvore da Vida" conta, basicamente, a história de uma típica familia americana de classe média dos anos 50, liderada por um pai um tanto déspota e sem maiores arroubos de carinho (interpretado por um surpreendente Brad Pitt que substituiu Heath Ledger após sua precoce morte) e uma mãe delicada e juvenil que aguenta calada a forma quase tirana com que o marido comanda a casa (a ótima Jessica Chastain). Narrada pelo filho mais velho, Jack (vivido por Sean Penn na maturidade e pelo impressionante Hunter McCracken na infância), a trajetória da família é intercalada por imagens que remetem às origens da vida no planeta, enquanto os personagens questionam Deus a respeito de suas dúvidas sobre a vida, a morte e a justiça. Magnificamente fotografado por Emmanuel Lubezki (indicado ao Oscar por seu trabalho) e editado por uma equipe que inclui o brasileiro Daniel Rezende, "Árvore da vida" conquistou o júri do Festival de Cannes que lhe premiou com a Palma de Ouro e concorreu a 3 Oscar, incluindo melhor filme e direção.
Mas a bem da verdade, não dá para recriminar a parte da plateia que vem rechaçando "Árvore da Vida" de forma tão violenta. Malick não faz concessões em seu trabalho, e por vezes seus objetivos estéticos e metafísicos não são claros o bastante para agradar a um público cuja predisposição a filmes mais contemplativos está cada vez mais atrofiada - e muita gente de bom-gosto também não comprou as ideias do cineasta, alimentando ainda mais a polêmica sobre a qualidade artística do projeto. No entanto, mesmo que as discussões que o filme tenta levantar não cheguem a entusiasmar de forma geral, é inegável que, quando fala de sentimentos em seu filme, o diretor de "Terra de Ninguém" é capaz de emocionar até mesmo o mais insensível dos mortais.
É quando deixa de lado suas intenções filosóficas que Terrence Malick atinge um ponto nevrálgico no coração do espectador. É a complexa relação entre Jack e seu pai (cuja frieza se alterna com raros momentos de delicadeza e carinho) e sua vida em família (seu relacionamento com a mãe quando bebê é adorável) que eleva "Árvore da Vida" a um nível emocional de rara pungência e verdade. Qualquer pessoa que teve uma infância em família, que tem lembranças a partilhar, que tem traumas guardados e/ou tem aquela sensação nostálgica no peito tem tudo para desabar em lágrimas. É um paradoxo que, justamente quando o filme se afasta de suas ambições de ser pretensamente original que consegue captar o coração do espectador - e fazer mais sentido do que busca suas imagens da natureza (que incluiu até mesmo uma surpreendente e controversa sequência estrelada por dinossauros). E para isso conta com atuações inspiradíssimas de Brad Pitt (fazendo todo mundo esquecer que ele é Brad Pitt, com um personagem crível e bem desenvolvido), Jessica Chastain e do menino Hunter McCracken, que não precisa nem falar para transmitir o turbilhão de sentimentos pelos quais passa seu personagem. Apenas Sean Penn soa deslocado, mas é um pecado menor em um filme tão repleto de qualidades - que incluem a edição espetacular e o visual de tirar o fôlego em algumas sequências.
O conceito de "Árvore da Vida" pode não ter agradado a gregos e troianos. Mas a coragem de Terrence Malick em levar adiante um projeto tão pessoal já merece aplausos. Seu filme é um clássico instantâneo.
terça-feira
MILK, A VOZ DA IGUALDADE
MILK, A VOZ DA IGUALDADE (Milk, 2008, Focus Features, 128min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Dustin Lance Black. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Elliot Graham. Música: Danny Elfman. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Bill Groom/Barbara Munch. Produção executiva: Dustin Lance Black, Barbara A. Hall, William Horberg, Michael London, Bruna Papandrea. Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks. Elenco: Sean Penn, Josh Brolin, James Franco, Emile Hirsh, Diego Luna, Alison Pill, Dennis O'Hare, Victor Garber. Estreia: 28/10/08
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Gus Van Sant), Ator (Sean Penn), Ator Coadjuvante (Josh Brolin), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Sean Penn), Roteiro Original
Já não era novidade o interesse de Hollywood pela história de Harvey Milk, o primeiro homossexual assumido a se eleger para um cargo público - e isso em plenos anos 70, quando a onda conservadora americana estava no auge com acirradas campanhas que tinham como objetivo acabar com todos os direitos gays. No mínimo desde a estreia de "Os tempos de Harvey Milk", premiado com o Oscar de melhor documentário de 1984 havia projetos para contar a inspiradora trajetória do nova-iorquino que, depois dos 40 anos mudou-se para São Francisco e, munido apenas de carisma e de ideias que desafiavam o preconceito velado (ou não) que grassava no poder público, tornou-se um dos maiores símbolos da luta pelos direitos homossexuais. Depois de várias tentativas frustradas - e de atores como Robin Williams, Richard Gere, Daniel Day-Lewis e James Woods ligados a eles - foi Gus Van Sant (também gay assumido e diretor do polêmico "Garotos de programa" no início dos anos 90) quem finalmente acabou levando às telas seu "Milk, a voz da igualdade", um filme que, elogiado unanimemente pela crítica, chegou à corrida do Oscar com moral bastante para sair da cerimônia com duas importantes estatuetas: roteiro original e ator (o segundo da carreira de Sean Penn).
Segundo consta, quando Penn terminou de filmar sua primeira cena de beijo com James Franco (que vive Scott Smith, o grande amor de Milk, personagem para o qual foram testados Chris Evans e Bradley Cooper), mandou uma mensagem de texto para sua ex-mulher - ninguém menos que Madonna, um dos maiores ícones da cultura gay mundial - contando de sua façanha. A resposta da cantora/atriz/diretora foi lacônica (um mero "Parabéns!"), mas de certa forma não deixa de ser surpreendente que um ator como Penn - que a despeito de seu imenso e já fartamente comprovado talento tem um vasto histórico de violência e agressividade que inclusive o mandou para a cadeia no final dos anos 80 - tenha mergulhado tão fundo em um papel tão diferente de tudo que já fez em sua carreira. Sem medo de críticas ou parecer ridículo, ele entrega uma atuação que equilibra com esplêndida suavidade o lado político do personagem com sua vida particular - especificamente dois relacionamentos marcantes por motivos díspares. Até mesmo a afetação de Milk encontra em Penn um intérprete à altura - às vezes chega a ser inacreditável que ele é o mesmo ator que criou o violento Jimmy Marcus de "Sobre meninos e lobos" (que lhe rendeu sua primeira estatueta) e o corrupto advogado Weinberg de "O pagamento final" (que deu o pontapé inicial na fase de sua carreira onde seu talento deixou de lado sua controversa personalidade).
Mas nem só de Penn sobrevive "Milk, a voz da igualdade". Com base em um roteiro inteligente do jovem Dustin Lance Black (cuja obsessão pela história do protagonista acabou levando-o a assinar o filme como produtor-executivo), Van Sant deixa de lado qualquer tentativa de ser cult ou estiloso para narrar uma história cuja força já é o suficiente para conquistar o espectador. Mesmo que vez ou outra ele demonstre porque já foi considerado o mais criativo dos cineastas independentes americanos - ao mostrar o resultado de um crime homofóbico através do reflexo do corpo da vítima através de um apito, por exemplo - o diretor de obras notáveis como "Um sonho sem limites" e outras execráveis como a desnecessária refilmagem de "Psicose" nunca tenta chamar mais a atenção do que seus personagens e do contexto histórico e social no qual eles transitam. Essa generosidade com seus atores fica nítida quando entram em cena coadjuvantes essenciais à história, como Dan White, político cuja relação profissional com Milk beirava a esquizofrenia e que é defendido por um impecável Josh Brolin, merecidamente indicado ao Oscar da categoria: Brolin, que engatou uma terceira em sua carreira depois de "Onde os fracos não tem vez" (2008), tem um desempenho exemplar, possibilitando ao público um vislumbre de fragilidade e dubiedade por trás de uma figura séria e impoluta. Seu trabalho faz eco a outras atuações bastante eficazes como a do jovem Emile Hirsh, que foi dirigido por Sean Penn em "Na natureza selvagem". Só quem destoa é Diego Luna, que erra em sua composição como um dos namorados de Milk - e cujo desfecho acentua o tom trágico da trama.
No final das contas, "Milk, a voz da igualdade" é um grande filme, independe da orientação sexual do espectador que se deixar envolver. É emocionante, é historicamente interessante - os créditos de abertura, que mostram cenas reais de homens gays sendo presos nos anos 60 e 70 pelo simples fato de serem gays é quase chocante - e importantíssimo em um momento em que figuras públicas lamentáveis vem destilando sua hipocrisia e preconceito em nome da família e da religião. Coisa que o próprio Milk precisou enfrentar quando bateu de frente com a cantora desaplaudida Anita Bryant - fundamentalista cristã - que tornou-se símbolo da luta contra os direitos dos gays: seu discurso de "eu adoro meus amigos gays" enquanto os trata como marginais soa assustadoramente atual. E é também por isso que o filme de Van Sant é imprescindível.
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Gus Van Sant), Ator (Sean Penn), Ator Coadjuvante (Josh Brolin), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Sean Penn), Roteiro Original
Já não era novidade o interesse de Hollywood pela história de Harvey Milk, o primeiro homossexual assumido a se eleger para um cargo público - e isso em plenos anos 70, quando a onda conservadora americana estava no auge com acirradas campanhas que tinham como objetivo acabar com todos os direitos gays. No mínimo desde a estreia de "Os tempos de Harvey Milk", premiado com o Oscar de melhor documentário de 1984 havia projetos para contar a inspiradora trajetória do nova-iorquino que, depois dos 40 anos mudou-se para São Francisco e, munido apenas de carisma e de ideias que desafiavam o preconceito velado (ou não) que grassava no poder público, tornou-se um dos maiores símbolos da luta pelos direitos homossexuais. Depois de várias tentativas frustradas - e de atores como Robin Williams, Richard Gere, Daniel Day-Lewis e James Woods ligados a eles - foi Gus Van Sant (também gay assumido e diretor do polêmico "Garotos de programa" no início dos anos 90) quem finalmente acabou levando às telas seu "Milk, a voz da igualdade", um filme que, elogiado unanimemente pela crítica, chegou à corrida do Oscar com moral bastante para sair da cerimônia com duas importantes estatuetas: roteiro original e ator (o segundo da carreira de Sean Penn).
Segundo consta, quando Penn terminou de filmar sua primeira cena de beijo com James Franco (que vive Scott Smith, o grande amor de Milk, personagem para o qual foram testados Chris Evans e Bradley Cooper), mandou uma mensagem de texto para sua ex-mulher - ninguém menos que Madonna, um dos maiores ícones da cultura gay mundial - contando de sua façanha. A resposta da cantora/atriz/diretora foi lacônica (um mero "Parabéns!"), mas de certa forma não deixa de ser surpreendente que um ator como Penn - que a despeito de seu imenso e já fartamente comprovado talento tem um vasto histórico de violência e agressividade que inclusive o mandou para a cadeia no final dos anos 80 - tenha mergulhado tão fundo em um papel tão diferente de tudo que já fez em sua carreira. Sem medo de críticas ou parecer ridículo, ele entrega uma atuação que equilibra com esplêndida suavidade o lado político do personagem com sua vida particular - especificamente dois relacionamentos marcantes por motivos díspares. Até mesmo a afetação de Milk encontra em Penn um intérprete à altura - às vezes chega a ser inacreditável que ele é o mesmo ator que criou o violento Jimmy Marcus de "Sobre meninos e lobos" (que lhe rendeu sua primeira estatueta) e o corrupto advogado Weinberg de "O pagamento final" (que deu o pontapé inicial na fase de sua carreira onde seu talento deixou de lado sua controversa personalidade).
Mas nem só de Penn sobrevive "Milk, a voz da igualdade". Com base em um roteiro inteligente do jovem Dustin Lance Black (cuja obsessão pela história do protagonista acabou levando-o a assinar o filme como produtor-executivo), Van Sant deixa de lado qualquer tentativa de ser cult ou estiloso para narrar uma história cuja força já é o suficiente para conquistar o espectador. Mesmo que vez ou outra ele demonstre porque já foi considerado o mais criativo dos cineastas independentes americanos - ao mostrar o resultado de um crime homofóbico através do reflexo do corpo da vítima através de um apito, por exemplo - o diretor de obras notáveis como "Um sonho sem limites" e outras execráveis como a desnecessária refilmagem de "Psicose" nunca tenta chamar mais a atenção do que seus personagens e do contexto histórico e social no qual eles transitam. Essa generosidade com seus atores fica nítida quando entram em cena coadjuvantes essenciais à história, como Dan White, político cuja relação profissional com Milk beirava a esquizofrenia e que é defendido por um impecável Josh Brolin, merecidamente indicado ao Oscar da categoria: Brolin, que engatou uma terceira em sua carreira depois de "Onde os fracos não tem vez" (2008), tem um desempenho exemplar, possibilitando ao público um vislumbre de fragilidade e dubiedade por trás de uma figura séria e impoluta. Seu trabalho faz eco a outras atuações bastante eficazes como a do jovem Emile Hirsh, que foi dirigido por Sean Penn em "Na natureza selvagem". Só quem destoa é Diego Luna, que erra em sua composição como um dos namorados de Milk - e cujo desfecho acentua o tom trágico da trama.
No final das contas, "Milk, a voz da igualdade" é um grande filme, independe da orientação sexual do espectador que se deixar envolver. É emocionante, é historicamente interessante - os créditos de abertura, que mostram cenas reais de homens gays sendo presos nos anos 60 e 70 pelo simples fato de serem gays é quase chocante - e importantíssimo em um momento em que figuras públicas lamentáveis vem destilando sua hipocrisia e preconceito em nome da família e da religião. Coisa que o próprio Milk precisou enfrentar quando bateu de frente com a cantora desaplaudida Anita Bryant - fundamentalista cristã - que tornou-se símbolo da luta contra os direitos dos gays: seu discurso de "eu adoro meus amigos gays" enquanto os trata como marginais soa assustadoramente atual. E é também por isso que o filme de Van Sant é imprescindível.
segunda-feira
UMA LIÇÃO DE AMOR
UMA LIÇÃO DE AMOR (I am Sam, 2001, New Line Cinema, 132min) Direção: Jessie Nelson. Roteiro: Jessie Nelson, Kristine Johnson. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Richard Chew. Música: John Powell. Figurino: Susie DeSanto. Direção de arte/cenários: Aaron Osborne/Jennifer M. Gentile, Garrett Lewis. Produção executiva: Michael De Luca, Claire Rudnick Polstein, David Rubin. Produção: Marshall Herskovitz, Jessie Nelson, Richard Solomon, Edward Zwick. Elenco: Sean Penn, Michelle Pfeiffer Dakota Fanning, Dianne Wiest, Laura Dern, Richard Schiff, Doug Hutchinson. Estreia: 03/12/01
Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Sean Penn)
Em "Trovão tropical", de 2008, o ator interpretado por Ben Stiller (também diretor do filme) sofria com o fracasso de sua atuação como um jovem com problemas mentais - que ele julgava ser o caminho mais fácil para um Oscar. É difícil não pensar na comédia de Stiller quando se assiste à "Uma lição de amor", drama lacrimoso pelo qual Sean Penn - sem a menor dúvida um dos maiores atores de sua geração - foi indicado a uma estatueta da Academia. Carregando nas tintas de sua interpretação, Penn chega perto da caricatura como Sam Dawson, um homem com a idade mental de um criança de sete anos que vai aos tribunais para garantir a guarda da pequena Lucy (Dakota Fanning), de quem cuida desde seu nascimento - e que, segundo a justiça, precisa de uma família capaz de mantê-la em segurança e estabilidade financeira.
Dirigido sem o menor traço de sutileza, "Uma lição de amor" força a lágrima do espectador sem dó nem piedade, ainda que justamente o exagero de sentimentalismo possa surtir efeito contrário ao público menos propenso a manipulações emocionais. Sam, o personagem encarnado por Penn, pode até ser amoroso e dedicado à pequena Lucy (estreia da sensacional Dakota Fanning), mas, a despeito de seus bons sentimentos, é incapaz de proporcionar a ela mais do que isso. A maneira com que o roteiro conduz a situação - Sam é um homem sem defeito algum, exceto sua deficiência mental, enquanto todos os outros são poços de insensibilidade - é maniqueísta ao extremo, chegando ao cúmulo de fazer com que sua advogada, a bem-sucedida Rita Harrison (Michelle Pfeiffer, sempre linda e carismática), repense sua própria vida e sua relação com o filho pequeno. Clichês às vezes fazem bem a um filme. Uma coleção deles, portanto, enfraquece o resultado final.
Além do fato de não explicar de forma satisfatória como Sam - que é incapaz de coisas básicas do dia-a-dia - conseguiu tornar-se pai, o roteiro de "Uma lição de amor" apela constantemente para cenas lacrimosas, com golpes baixos em busca da reação desejada. Se Dakota Fanning rouba a cena com sua madura Lucy - responsável pelos raros bons momentos do filme - e Michelle Pfeiffer tem pouco a fazer com sua advogada fria transformada em um ser humano melhor pelo poder do amor, o elenco coadjuvante tenta dar dignidade a diálogos de novela das nove. Dianne Wiest, por exemplo, está soberba como sempre como a vizinha de Sam, que tem na cena de seu depoimento no tribunal uma chance de mostrar porque é uma das atrizes preferidas de Woody Allen. E Laura Dern faz o que pode para sobreviver à sua personagem, a mãe adotiva de Lucy que entra em conflito com Sam e sua advogada.
Mas não resta dúvidas de que, à parte Dakota e seu talento inverso a seu tamanho, o que existe de melhor em "Uma lição de amor" é sua trilha sonora. Composta por canções dos Beatles - ídolos do protagonista, que tem a capacidade de divagar sobre eles por horas a fio - interpretadas por artistas contemporâneos com Sheryl Crow, Rufus Weinright e Eddie Vedder, ela dá um interesse extra ao projeto, deixando as mais de duas horas de projeção menos pesadas. No entanto, o que fica é a conclusão definitiva de que Penn é muito melhor do que o filme, apesar do equívoco de sua atuação.
Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Sean Penn)
Em "Trovão tropical", de 2008, o ator interpretado por Ben Stiller (também diretor do filme) sofria com o fracasso de sua atuação como um jovem com problemas mentais - que ele julgava ser o caminho mais fácil para um Oscar. É difícil não pensar na comédia de Stiller quando se assiste à "Uma lição de amor", drama lacrimoso pelo qual Sean Penn - sem a menor dúvida um dos maiores atores de sua geração - foi indicado a uma estatueta da Academia. Carregando nas tintas de sua interpretação, Penn chega perto da caricatura como Sam Dawson, um homem com a idade mental de um criança de sete anos que vai aos tribunais para garantir a guarda da pequena Lucy (Dakota Fanning), de quem cuida desde seu nascimento - e que, segundo a justiça, precisa de uma família capaz de mantê-la em segurança e estabilidade financeira.
Dirigido sem o menor traço de sutileza, "Uma lição de amor" força a lágrima do espectador sem dó nem piedade, ainda que justamente o exagero de sentimentalismo possa surtir efeito contrário ao público menos propenso a manipulações emocionais. Sam, o personagem encarnado por Penn, pode até ser amoroso e dedicado à pequena Lucy (estreia da sensacional Dakota Fanning), mas, a despeito de seus bons sentimentos, é incapaz de proporcionar a ela mais do que isso. A maneira com que o roteiro conduz a situação - Sam é um homem sem defeito algum, exceto sua deficiência mental, enquanto todos os outros são poços de insensibilidade - é maniqueísta ao extremo, chegando ao cúmulo de fazer com que sua advogada, a bem-sucedida Rita Harrison (Michelle Pfeiffer, sempre linda e carismática), repense sua própria vida e sua relação com o filho pequeno. Clichês às vezes fazem bem a um filme. Uma coleção deles, portanto, enfraquece o resultado final.
Além do fato de não explicar de forma satisfatória como Sam - que é incapaz de coisas básicas do dia-a-dia - conseguiu tornar-se pai, o roteiro de "Uma lição de amor" apela constantemente para cenas lacrimosas, com golpes baixos em busca da reação desejada. Se Dakota Fanning rouba a cena com sua madura Lucy - responsável pelos raros bons momentos do filme - e Michelle Pfeiffer tem pouco a fazer com sua advogada fria transformada em um ser humano melhor pelo poder do amor, o elenco coadjuvante tenta dar dignidade a diálogos de novela das nove. Dianne Wiest, por exemplo, está soberba como sempre como a vizinha de Sam, que tem na cena de seu depoimento no tribunal uma chance de mostrar porque é uma das atrizes preferidas de Woody Allen. E Laura Dern faz o que pode para sobreviver à sua personagem, a mãe adotiva de Lucy que entra em conflito com Sam e sua advogada.
Mas não resta dúvidas de que, à parte Dakota e seu talento inverso a seu tamanho, o que existe de melhor em "Uma lição de amor" é sua trilha sonora. Composta por canções dos Beatles - ídolos do protagonista, que tem a capacidade de divagar sobre eles por horas a fio - interpretadas por artistas contemporâneos com Sheryl Crow, Rufus Weinright e Eddie Vedder, ela dá um interesse extra ao projeto, deixando as mais de duas horas de projeção menos pesadas. No entanto, o que fica é a conclusão definitiva de que Penn é muito melhor do que o filme, apesar do equívoco de sua atuação.
quarta-feira
POUCAS E BOAS
POUCAS E BOAS (Sweet and lowdown, 1999, Sweetland Films, 95min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Fei Zhao. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Laura Cunningham Bauer. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Jessica Lanier. Produção executiva: J.E. Beaucaire. Produção: Jean Doumanian. Elenco: Sean Penn, Samantha Morton, Uma Thurman, Anthony LaPaglia. Estreia: 04/9/99
2 indicações ao Oscar: Ator (Sean Penn), Atriz Coadjuvante (Samantha Morton)
No livro "Conversas com Woody Allen" o cineasta nova-iorquino repete inúmeras vezes que fala pouquíssimo com os atores de seus filmes durante as filmagens, acreditando que, com o talento que eles acrescentam à obra, não é preciso dirigi-los, no sentido literal da palavra. Se tudo não passa de uma série crise de modéstia, é preciso então louvar a forma com que Sean Penn - talvez o melhor ator americano de sua geração - entregou-se de corpo e alma a seu trabalho em "Poucas e boas", um projeto de estimação do diretor que, mesmo não estando entre seus trabalhos mais populares é fascinante, inteligente e emocionante como suas obras-primas mais conhecidas.
Em uma atuação impecável que equilibra com precisão a insanidade e a insegurança próprias dos gênios, Penn vive Emmet Ray, um dos mais intensos e talentosos violinistas dos anos 30 (que fica atrás apenas de Django Reinhardt, a quem idolatra a ponto de desmaiar sempre que se vê frente a ele). Excêntrico, com conexões no submundo, portador de uma certa ingenuidade disfarçada de indiferença e mulherengo, Ray tem sua vida contada em forma de semi-documentário, sendo analisado e narrado por fãs de jazz como o próprio Woody Allen. A pegadinha é que Ray nunca existiu, sendo apenas fruto da imaginação do diretor/roteirista, fã confesso de Reinhardt e que sempre sonhou em criar um filme que recriasse a era de ouro do gênero musical, com seus principais ícones como protagonistas. Levando-se em conta de que seus filmes não são exatamente máquinas de fazer dinheiro, pode-se concluir que "Poucas e boas" é a versão econômica de sua ambição. E ainda assim é muito, muito bom.
O roteiro de Allen não segue o padrão de uma cinebiografia, mostrando uma infância complicada ou problemas da adolescência e juventude de seu protagonista. Ele prefere focar-se em um período específico da vida de Ray, cujo talento imenso não o impede de ser obrigado a tocar para públicos que não sabem reconhecer o tamanho de sua arte - mas ao mesmo tempo o aproxima da alta sociedade de sua época, em especial da escritora Blanche (Uma Thurman), que vê nele a inspiração para um novo livro e acaba se casando com ele, em um romance destinado a fracassar graças ao gênio do músico - e seu narcisismo flagrante. Seduzida pelo estilo de vida aparentemente fascinante do violinista (que tem por hábito dar tiros nos ratos que vivem no lixão e ver trens passando por ele), Blanche é o oposto de Hattie (Samantha Morton), uma jovem lavadeira muda que, apaixonada por Ray, sofre com sua incapacidade de amar.
Se a forma com que Allen conduz sua narrativa imprime um ritmo ágil e mágico à época em que se passa a história (bem reconstituída visualmente, graças à direção de arte, ao figurino e à fotografia em tons neutros), muito dos méritos de sua qualidade vem de dois de seus atores centrais. Enquanto Penn usa e abusa de seus dons histriônicos, chegando a tocar violão de verdade em várias cenas e saindo-se extremamente bem tanto em sequências de humor quanto nos momentos mais comoventes (em especial no terço final da projeção), a maior revelação é a novata Samantha Morton, que rouba a cena com a silenciosa Hattie, capaz de quebrar a barreira do coração de Ray sem dizer uma única palavra, em uma ironia mestra que acrescenta uma camada a mais de profundidade ao filme. Morton - criada no interior rural da Inglaterra e que nem sabia quem era Woody Allen quando foi fazer o teste para o filme - foi indicada ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho, que lhe abriu as portas de Hollywood para outros trabalhos igualmente poderosos.
Um filme quase atípico na carreira de Woody Allen, "Poucas e boas" merecia uma recepção mais calorosa e justa. É comovente, é engraçado, é sutil e é inteligente. Se nada disso fosse o bastante, ainda tem Sean Penn, que transforma qualquer filme em uma obra imperdível.
2 indicações ao Oscar: Ator (Sean Penn), Atriz Coadjuvante (Samantha Morton)
No livro "Conversas com Woody Allen" o cineasta nova-iorquino repete inúmeras vezes que fala pouquíssimo com os atores de seus filmes durante as filmagens, acreditando que, com o talento que eles acrescentam à obra, não é preciso dirigi-los, no sentido literal da palavra. Se tudo não passa de uma série crise de modéstia, é preciso então louvar a forma com que Sean Penn - talvez o melhor ator americano de sua geração - entregou-se de corpo e alma a seu trabalho em "Poucas e boas", um projeto de estimação do diretor que, mesmo não estando entre seus trabalhos mais populares é fascinante, inteligente e emocionante como suas obras-primas mais conhecidas.
Em uma atuação impecável que equilibra com precisão a insanidade e a insegurança próprias dos gênios, Penn vive Emmet Ray, um dos mais intensos e talentosos violinistas dos anos 30 (que fica atrás apenas de Django Reinhardt, a quem idolatra a ponto de desmaiar sempre que se vê frente a ele). Excêntrico, com conexões no submundo, portador de uma certa ingenuidade disfarçada de indiferença e mulherengo, Ray tem sua vida contada em forma de semi-documentário, sendo analisado e narrado por fãs de jazz como o próprio Woody Allen. A pegadinha é que Ray nunca existiu, sendo apenas fruto da imaginação do diretor/roteirista, fã confesso de Reinhardt e que sempre sonhou em criar um filme que recriasse a era de ouro do gênero musical, com seus principais ícones como protagonistas. Levando-se em conta de que seus filmes não são exatamente máquinas de fazer dinheiro, pode-se concluir que "Poucas e boas" é a versão econômica de sua ambição. E ainda assim é muito, muito bom.
O roteiro de Allen não segue o padrão de uma cinebiografia, mostrando uma infância complicada ou problemas da adolescência e juventude de seu protagonista. Ele prefere focar-se em um período específico da vida de Ray, cujo talento imenso não o impede de ser obrigado a tocar para públicos que não sabem reconhecer o tamanho de sua arte - mas ao mesmo tempo o aproxima da alta sociedade de sua época, em especial da escritora Blanche (Uma Thurman), que vê nele a inspiração para um novo livro e acaba se casando com ele, em um romance destinado a fracassar graças ao gênio do músico - e seu narcisismo flagrante. Seduzida pelo estilo de vida aparentemente fascinante do violinista (que tem por hábito dar tiros nos ratos que vivem no lixão e ver trens passando por ele), Blanche é o oposto de Hattie (Samantha Morton), uma jovem lavadeira muda que, apaixonada por Ray, sofre com sua incapacidade de amar.
Se a forma com que Allen conduz sua narrativa imprime um ritmo ágil e mágico à época em que se passa a história (bem reconstituída visualmente, graças à direção de arte, ao figurino e à fotografia em tons neutros), muito dos méritos de sua qualidade vem de dois de seus atores centrais. Enquanto Penn usa e abusa de seus dons histriônicos, chegando a tocar violão de verdade em várias cenas e saindo-se extremamente bem tanto em sequências de humor quanto nos momentos mais comoventes (em especial no terço final da projeção), a maior revelação é a novata Samantha Morton, que rouba a cena com a silenciosa Hattie, capaz de quebrar a barreira do coração de Ray sem dizer uma única palavra, em uma ironia mestra que acrescenta uma camada a mais de profundidade ao filme. Morton - criada no interior rural da Inglaterra e que nem sabia quem era Woody Allen quando foi fazer o teste para o filme - foi indicada ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho, que lhe abriu as portas de Hollywood para outros trabalhos igualmente poderosos.
Um filme quase atípico na carreira de Woody Allen, "Poucas e boas" merecia uma recepção mais calorosa e justa. É comovente, é engraçado, é sutil e é inteligente. Se nada disso fosse o bastante, ainda tem Sean Penn, que transforma qualquer filme em uma obra imperdível.
sábado
NA NATUREZA SELVAGEM
NA NATUREZA SELVAGEM (Into the wild, 2007, Paramount Vantage, 148min) Direção: Sean Penn. Roteiro: Sean Penn, livro de Jon Krakauer. Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Jay Cassidy. Música: Michael Brook, Kaki King, Eddie Vedder. Figurino: Mary Claire Hannan. Direção de arte/cenários: Derek Hill/Danielle Berman, Christopher Nelly. Produção executiva: David Blocker, Frank Hildebrand, John J. Kelly. Produção: Art Linson, Sean Penn, Bill Pohlad. Elenco: Emile Hirsch, William Hurt, Marcia Gay Harden, Jena Malone, Hal Holbrook, Vince Vaughn, Catherine Keener, Kristen Stewart. Estreia: 01/9/07 (Festival de Telluride)
2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Hal Holbrook), Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("Guaranteed")
Que Sean Penn é um ator superlativo qualquer fã de cinema sabe. Mas que por detrás da persona agressiva com que ficou conhecido nos anos 80 - quando era casado com Madonna e tinha por hobby espancar paparazzi - existe um cineasta sensível e talentoso pouca gente sabia até o lançamento de "Na natureza selvagem", adaptação do livro de Jon Krakauer. Tudo bem que ele já tinha três filmes no currículo, mas pouca gente notou "Unidos pelo sangue" (91), "Acerto final" (95) e "A promessa" (01), por mais qualidades que eles tivessem. Mas foi somente com a história triste/pungente/libertadora de Christopher McCandless, jovem que abandona uma vida abastada para buscar um contato com a liberdade que só mesmo a natureza poderia lhe oferecer é que Penn carimbou de vez seu passaporte rumo ao panteão dos grandes cineastas.
Depois de um flerte de mais de uma década com a história de McCandless, Penn finalmente conseguiu o apoio da família do rapaz para realizar um dos filmes mais emocionantes e pungentes a chegar às telas dos cinemas no século XXI. Versando sobre liberdade pessoal, o amor à natureza e a importância das relações interpessoais, "Na natureza selvagem" é um espetáculo de delicadeza, inteligência e sensibilidade, valorizado por um roteiro maduro, um elenco excepcional - que consegue arrancar atuações convincentes até mesmo de Kirsten Stewart e Vince Vaughn - e uma trilha sonora que, mais do que comentar a ação, é uma personagem importante e onipresente.
Vivido por um sensacional Emile Hirsch - que ficou com o papel felizmente recusado por Leonardo DiCaprio - o jovem Christopher McCandless salta das páginas do livro de Krakauer para ganhar uma dimensão de herói moderno, um homem capaz de correr atrás de uma vida que fuja de tudo que ele sempre desprezou em relação aos pais (William Hurt e Marcia Gay Harden) e à sociedade em geral. Livrando-se dos cartões de crédito, do nome verdadeiro (e assumindo o pseudônimo de Alexander Supertramp) e das amarras de qualquer tipo de relacionamento (inclusive com a irmã com quem se dá bem, interpretada por Jena Malone), ele parte em busca da realização pessoal junto à natureza. Logicamente, sem preparo algum para tal aventura, ele passa por situações nada convencionais e bastante arriscadas, somente para descobrir, surpreso, que são as pessoas - e o carinho que surge entre elas - que dá sentido à vida. "A felicidade só é real quando compartilhada" é o que ele aprende, talvez tarde demais.
Pontuado por uma belíssima trilha sonora, composta por canções deslumbrantes de Eddie Vedder (da banda Pearl Jam) que ilustram com extraordinária perfeição as cenas captadas pelo editor de fotografia Eric Gautier e editadas com maestria por Jay Cassidy, "Na natureza selvagem" emociona por proporcionar ao espectador uma viagem para dentro de seus próprios desejos de fuga de uma realidade massacrante e muitas vezes estéril. Alexander Supertramp vive, na tela, tudo que o público sonha em realizar mas tem medo (ou acomodação em demasia). As lágrimas que brotam ao final da projeção - e elas surgem, com toda certeza - limpam a alma, espelham vontades e, mais do que tudo, são a catarse mais absoluta de que o bom cinema é capaz.
"Na natureza selvagem" é uma obra-prima. Lindo, delicado, emocionante, inesquecível. E que atire a primeira pedra quem não se arrepiar com a fantástica atuação do veterano Hal Holbrook como Ron Franz, o aposentado que se oferece para adotar o protagonista em uma cena devastadora. Para ver, rever, trever e chorar sempre.
terça-feira
A INTÉRPRETE
A INTÉRPRETE (The interpreter, 2005, Universal Pictures, 128min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Charles Randolph, Scott Frank, Steven Zaillina, estória de Martin Stellman, Brian Ward. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: William Steinkamp. Música: James Newton Howard. Figurino: Sarah Edwards. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Beth A. Rubino. Produção executiva: G. Mac Brown, Anthony Minghella. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Kevin Misher. Elenco: Sean Penn, Nicole Kidman, Catherine Keener, Jesper Christensen, Yvan Attal. Estreia: 04/4/05
Depois dos sucessos comerciais de "Moulin Rouge" e "Os outros", do Oscar por "As horas" e do sucesso crítico do difícil "Dogville", a bela Nicole Kidman nem precisava provar mais nada pra ninguém. Saindo direto do set de filmagens do tenebroso "Mulheres perfeitas", ela chegou até "A intérprete", que viria a ser o último filme dirigido pelo prestigiado Sydney Pollack - e o primeiro a ser filmado dentro das dependências da sede das Nações Unidas, em Nova York. Um thriller político com inteligência acima da média, "A intérprete" também não fez feio nas bilheterias mundiais, chegando a mais de 160 milhões de dólares - contra seu custo relativamente alto de 80 milhões. Mas se consegue prender a atenção do público também não chega a ser tão brilhante quanto poderia, escorregando em uma correção política típica de sua época.
Linda como sempre, Kidman - que assinou o contrato mesmo sem ler o roteiro, depois que sua amiga Naomi Watts abriu mão dele em seu nome - vive Silvia Broome, uma talentosa intérprete das Nações Unidas que passa a correr perigo de morte depois de ouvir (sem querer) que um chefe de estado africano que está prestes a visitar os EUA em um congresso será alvo de um atentado. Posta sob a proteção do agente federal Tobin Keller (Sean Penn em um papel atípico em sua carreira), porém, Silvia passa de possível vítima a possível suspeita de estar envolvida na conspiração, uma vez que mistérios sobre seu passado vêem à tona. Recuperando-se de uma tragédia pessoal, Keller começa a se aproximar de sua protegida, mesmo sabendo que ela pode não ser tão inocente quanto alega.

O roteiro de "A intérprete" - que tem o dedo do oscarizado Steven Zaillian e do competente Scott Frank - peca principalmente por não ir mais fundo na suas possibilidades de suspense, preferindo focar sua atenção nos problemas pessoais de Keller e na sua relação com Silvia, privando o público de uma história que poderia render bem mais se tivesse se concentrado na trama política e no suspense - algo que "O pacificador", também estrelado por Kidman, fez com maestria. Sempre que Pollack dirige sua atenção para cenas de tensão - o que felizmente acontece algumas vezes - seu filme cresce, dando ao espectador momentos de grande impacto emocional. É o que acontece, por exemplo, quando Silvia embarca em um ônibus onde o potencial alvo dos terroristas se encontra: são minutos construídos com inteligência singular que faz lembrar o Pollack do conceituado "Três dias de Condor", filme de 1975 estrelado por Robert Redford e Faye Dunaway que virou referência no gênero.
Mas é preciso, acima de tudo, louvar "A intérprete" por sua coragem em ser discreto, elegante e inteligente, ao rejeitar a receita cenas de ação + sangue + efeitos visuais. Com sua sutileza característica, Pollack oferece à audiência um espetáculo que mexe mais com o cérebro do que a maioria dos filmes do gênero, onde a violência é tanta que nem chega a incomodar. Se a química entre Kidman e Penn é quase inexistente a despeito de seu enorme talento isso não se torna um problema maior porque a história contada independe de sua relação. São os segredos e angústias de Silvia Broome que interessam ao espectador e Kidman sai-se muito bem mais uma vez em conquistar o público. No final das contas, o último filme de Pollack cumpre seu papel com louvor e deixa saudade de um cineasta que legou ao mundo grandes obras.
Depois dos sucessos comerciais de "Moulin Rouge" e "Os outros", do Oscar por "As horas" e do sucesso crítico do difícil "Dogville", a bela Nicole Kidman nem precisava provar mais nada pra ninguém. Saindo direto do set de filmagens do tenebroso "Mulheres perfeitas", ela chegou até "A intérprete", que viria a ser o último filme dirigido pelo prestigiado Sydney Pollack - e o primeiro a ser filmado dentro das dependências da sede das Nações Unidas, em Nova York. Um thriller político com inteligência acima da média, "A intérprete" também não fez feio nas bilheterias mundiais, chegando a mais de 160 milhões de dólares - contra seu custo relativamente alto de 80 milhões. Mas se consegue prender a atenção do público também não chega a ser tão brilhante quanto poderia, escorregando em uma correção política típica de sua época.
Linda como sempre, Kidman - que assinou o contrato mesmo sem ler o roteiro, depois que sua amiga Naomi Watts abriu mão dele em seu nome - vive Silvia Broome, uma talentosa intérprete das Nações Unidas que passa a correr perigo de morte depois de ouvir (sem querer) que um chefe de estado africano que está prestes a visitar os EUA em um congresso será alvo de um atentado. Posta sob a proteção do agente federal Tobin Keller (Sean Penn em um papel atípico em sua carreira), porém, Silvia passa de possível vítima a possível suspeita de estar envolvida na conspiração, uma vez que mistérios sobre seu passado vêem à tona. Recuperando-se de uma tragédia pessoal, Keller começa a se aproximar de sua protegida, mesmo sabendo que ela pode não ser tão inocente quanto alega.
O roteiro de "A intérprete" - que tem o dedo do oscarizado Steven Zaillian e do competente Scott Frank - peca principalmente por não ir mais fundo na suas possibilidades de suspense, preferindo focar sua atenção nos problemas pessoais de Keller e na sua relação com Silvia, privando o público de uma história que poderia render bem mais se tivesse se concentrado na trama política e no suspense - algo que "O pacificador", também estrelado por Kidman, fez com maestria. Sempre que Pollack dirige sua atenção para cenas de tensão - o que felizmente acontece algumas vezes - seu filme cresce, dando ao espectador momentos de grande impacto emocional. É o que acontece, por exemplo, quando Silvia embarca em um ônibus onde o potencial alvo dos terroristas se encontra: são minutos construídos com inteligência singular que faz lembrar o Pollack do conceituado "Três dias de Condor", filme de 1975 estrelado por Robert Redford e Faye Dunaway que virou referência no gênero.
Mas é preciso, acima de tudo, louvar "A intérprete" por sua coragem em ser discreto, elegante e inteligente, ao rejeitar a receita cenas de ação + sangue + efeitos visuais. Com sua sutileza característica, Pollack oferece à audiência um espetáculo que mexe mais com o cérebro do que a maioria dos filmes do gênero, onde a violência é tanta que nem chega a incomodar. Se a química entre Kidman e Penn é quase inexistente a despeito de seu enorme talento isso não se torna um problema maior porque a história contada independe de sua relação. São os segredos e angústias de Silvia Broome que interessam ao espectador e Kidman sai-se muito bem mais uma vez em conquistar o público. No final das contas, o último filme de Pollack cumpre seu papel com louvor e deixa saudade de um cineasta que legou ao mundo grandes obras.
21 GRAMAS
2 indicações ao Oscar: Atriz (Naomi Watts), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro)
A vida vista pelos olhos do roteirista Guillermo Arriaga e pelo diretor Alejandro Gonzalez Iñarritu não é exatamente cor-de-rosa. Pelo contrário, a dupla de mexicanos que deu ao mundo o excepcional “Amores brutos” volta a analisar o lado sombrio e triste da alma humana em seu segundo longa-metragem, desta vez sob os auspícios generosos de um orçamento hollywoodiano, sem, no entanto, perder em qualidade dramática. A estrutura do primeiro filme – histórias aparentemente isoladas que se entrecruzam – se mantém. O ritmo próprio idem. Mas, se antes o elenco não contava com nenhum nome internacionalmente conhecido – Gael García Bernal ainda não havia estourado – agora a história é bem diferente. Quando “21 gramas” estreou, Benicio Del Toro já tinha um Oscar na prateleira, Sean Penn estava em vias de ganhar o seu primeiro por "Sobre meninos e lobos" e Naomi Watts já era famosa entre os críticos por sua atuação em “Cidade dos sonhos” e entre os fãs de cinema pelo remake de “O chamado”.
Contado de forma aparentemente desconecta, “21 gramas” conta três histórias que se encontram (se chocam talvez seja a melhor expressão) devido a um trágico acidente de carro (ecoando a mesma situação de “Amores brutos”). O professor Paul Rivers (Sean Penn, mais uma vez sensacional) sofre de uma doença grave no coração e precisa de um transplante – para salvar sua vida e manter seu abalado casamento com Mary (Charlotte Gainsbourg), que sonha em ter um filho mas esconde um aborto em seu passado. Christina Peck (Naomi Watts merecidamente indicada ao Oscar) é uma dona-de-casa dedicada que vive uma vida de faz-de-conta com o marido Michael (Danny Huston) e as filhas pequenas. E Jack Jordan (Benicio Del Toro, avassalador) é um ex-presidiário que, convertido a um catolicismo fanático na prisão, tenta reestabelecer o convívio com a família. O destino, irônico como nunca, porém, prega uma peça a todos eles: em um final de tarde, Jack atropela e mata a família de Michael, cujo coração vai parar no peito de Paul, que, em um ato de desatino, procura Christina e se apaixona por ela, que desesperada, deseja vingança.
É desesperador assistir-se à "21 gramas". Ao contrário do que normalmente acontece no cinemão americano, a angústia e a dor de seus protagonistas não são disfarçados por um humor deslocado ou por belas imagens - ainda que a fotografia excepcional de Rodrigo Prieto esteja totalmente de acordo com a intenção de Iñarritu de aproximar o espectador de suas personagens, em closes tensos e uma iluminação que reflete com perfeição todos os estados de espíritos. A edição picotada de Stephen Mirrione - vencedor do Oscar por "Traffic" - também colabora para corroborar a desorientação dos três anti-heróis criados por Guillermo Arriaga, em um roteiro tão coeso que é o ápice de sua carreira: Paul, Christina e Jack são pessoas reais, de carne-e-osso, construídas com tal verdade que é impossível à audiência não acreditar em seus dramas e dúvidas. E para isso, logicamente, o cineasta conta com um elenco nunca menos do que espetacular.
É difícil lembrar um filme cujo trio de protagonistas seja tão especial quanto aquele que forma a tríade de ouro de "21 gramas". Enquanto Penn mais uma vez comprova seu talento e versatilidade, Naomi Watts surpreende demonstrando um alcance dramático vislumbrado em "Cidade dos sonhos" e aqui visto em sua totalidade de nuances. Mas é Benicio Del Toro com seu devastador Jack Jordan quem rouba o filme, com diálogos substanciais e uma crença tão absoluta no destino - a quem ele coloca o nome de Deus - que é impossível não lhe crer em cada fala, em cada silêncio, em cada olhar. Mais ainda do que no papel que lhe deu o Oscar - em "Traffic" - é aqui que Del Toro demonstra todo seu imenso talento, em uma interpretação arrepiante.
Por mais árduo e dolorido que seja compartilhar das duas horas de sofrimento imposto por "21 gramas" é também impossível não se deixar emocionar e envolver com sua trama. Forte, emocionante e triste, é um dos grandes filmes de seu tempo, e a obra-prima - até a data - de seu extraordinário realizador.
Por mais árduo e dolorido que seja compartilhar das duas horas de sofrimento imposto por "21 gramas" é também impossível não se deixar emocionar e envolver com sua trama. Forte, emocionante e triste, é um dos grandes filmes de seu tempo, e a obra-prima - até a data - de seu extraordinário realizador.
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