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sexta-feira

OS AGENTES DO DESTINO

 


OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto "Adjustment Team", de Philip K. Dick. Fotografia: John Toll. Montagem: Jay Rabinowitz. Música: Thomas Newman. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Susan Bode Tyson. Produção executiva: Isa Dick Hackett, Jonathan Górdon. Produção: Bill Carraro, Michael Hackett, Chris Moore, George Nolfi. Elenco: Matt Damon, Emily Blunt, Terence Stamp, Michael Kelly, Anthony Mackie, John Slattery. Estreia: 14/02/2011

Depois de perder uma eleição praticamente ganha para o Senado americano - devido à publicação de uma foto de sua juventude -, o carismático David Norris (Matt Damon) encontra, por acaso, a bela Elise Sellas (Emily Blunt), que sonha em tornar-se uma bailarina mundialmente famosa. Inspirado pelo otimismo da moça (e por um beijo trocado), Norris faz um discurso que imediatamente o faz voltar às graças dos eleitores e à disputa pelo Congresso. Ainda abismado com o encontro com Elise - de quem não sabe nem o nome -, o ambicioso político acaba a encontrando um mês depois, novamente sem esperar. O novo encontro faz nascer entre eles um romance promissor, mas o que Norris não sabe - e irá saber da pior maneira possível - é que a história desse nascente amor vai contra os planos do destino. Perseguido por um grupo misterioso de homens de preto - autointitulados Comitê de Ajuste -, David precisa decidir entre um brilhante futuro na política (o que deixaria Elise livre para realizar seus sonhos profissionais) ou a possibilidade de um final feliz com a mulher por quem está apaixonado. Para isso, ele recorre à ajuda de um dos agentes, o empático Harry Mitchell (Anthony Mackie) - principal responsável pelo desvio da rota programada para o destino do rapaz.

Sucesso apenas razoável de bilheteria, "Os agentes do destino", estreia do cineasta George Nolfi, chegou às telas com pedigree: baseado em conto de Philip K. Dick, o mesmo autor de clássicos da ficção científica, como "Blade Runner: o caçador de androides" e "O vingador do futuro", a produção estrelada por Matt Damon e Emily Blunt merecia sorte melhor. Elegante e ágil, inteligente e instigante, o filme de Nolfi consegue o equilíbrio quase perfeito entre um thriller e uma história de amor, evitando o caminho fácil das sequências de ação alucinantes e das explicações em excesso. Deixando que o espectador vá preenchendo as lacunas conforme elas vão aparecendo, o roteiro brinca com a percepção do público em relação a conceitos como destino, amor, livre arbítrio e futuro. Com efeitos visuais discretos que não chamam mais atenção que a trama e uma trilha sonora eficiente do veterano Thomas Newman, "Os agentes do destino" se beneficia, também, da química entre seus dois atores centrais. Era imprescindível para que a história funcionasse, que os intérpretes de David Norris e Elise Sellas convencessem o público de que desafiariam o que fosse para ficarem juntos, e, ótimos atores que são, Damon e Blunt fisgam o público já em seu primeiro contato - a ponto de, mesmo separados, jamais deixarem de ser a base de toda a trama.

 

Um dos roteiristas do estupendo "O ultimato Bourne" (2007), e portanto dono de pleno domínio de ritmo e narrativa, George Nolfi apresenta, em "Os agentes do destino", uma noção visual digna de veteranos. A elegância das sequências de ação demonstra um cuidado raro em não apenas deixar o espectador mergulhado na agonia de seus protagonistas, mas também em oferecer uma experiência mais rica em termos plásticos. Detalhes do figurino - como os chapéus que permitem o acesso ao mundo dos chamados agentes - e a fotografia eficiente mas que nunca chega a desviar a atenção da trama (cortesia do duplamente oscarizado John Toll) são exemplos claros do talento do cineasta em utilizar-se da imagem para contar a história com todos os elementos à sua disposição. Se o enredo criado por Dick em 1954 - e adaptado com total liberdade por Nolfi - já é interessante por si próprio, sua transposição para para as telas realça seus questionamentos éticos e atualiza a história, contrapondo em seu cerne a discussão entre o que é mais importante: o amor ou a carreira, a chance de um futuro alvissareiro ou a felicidade de um amor verdadeiro.

Sem exagerar nos efeitos visuais e conquistando o público mais por sua história do que pela aposta na adrenalina pura e simples, "Os agentes do destino" rendeu pouco mais de 127 milhões de dólares em sua carreira internacional, em um ano que viu, em seus dez maiores sucessos comerciais nove continuações e uma produção infantil com personagens já consagrados - "Os Smurfs". Competindo com Harry Potter, Jack Sparrow, Bella & Edward, Transformers, Ethan Hunt e Dominic Toretto, o conto de amor e rebeldia criada por Philip K. Dick não fez feio - principalmente por ser um respiro de criatividade e ineditismo em um universo saturado de marcas registradas. Pode não ser uma obra-prima e talvez nem mesmo uma produção memorável na filmografia de seus envolvidos, mas é digno, decente e francamente divertido.

segunda-feira

VIAGENS ALUCINANTES

 


VIAGENS ALUCINANTES (Altered states, 1980, Warner Bros, 102min) Direção: Ken Russell. Roteiro: Paddy Chayefsky (como Sidney Aaron), romance de sua autoria. Fotografia: Jordan Cronenweth. Montagem: Eric Jenkins. Música: John Corigliano. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Richard McDonald/Thomas Roysden. Produção executiva: Daniel Melnick. Produção: Howard Gottfried. Elenco: William Hurt, Bob Balaban, Blair Brown, Charles Haid, Drew Barrymore. Estreia: 25/12/80

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Som

Só mesmo quem não conhecia a obra pregressa do cineasta britânico Ken Russell poderia esperar que seu primeiro filme em Hollywood poderia ser algo diferente de "Viagens alucinantes": baseado em romance de Paddy Chayefsky publicado em 1978, sua estreia no cinema norte-americano é um mergulho sem freios em experiências lisérgicas, obsessão e, surpreendentemente, uma história de amor - que muitos interpretaram com uma releitura do mito de Orfeu e Eurídice, uma atualização de Dr. Jekyll e Mr. Hyde ou até com intenções religiosas. O fato é que, independente de qualquer ponto de vista, o filme fracassou nas bilheterias - nenhum choque, haja visto seu tema e o nome de Russell nos créditos - e, com o tempo, tornou-se uma espécie de cult movie, valorizado pela presença de William Hurt (em seu primeiro trabalho no cinema) e pela coragem do cineasta em explorar, com um visual exuberante e incômodo, um assunto que nem as mais radicais produções de ficção científica ousaram.

O roteiro - adaptado pelo próprio Chayefsky, que renegou o resultado final apesar de sua fidelidade ao material original - não era exatamente do agrado de Ken Russell, que embarcou no projeto após a desistência de Arthur Penn. Segundo Russell, o script era pesado, pretensioso e rebuscado demais, e o trabalho entre os dois profissionais esteve longe do ideal durante as filmagens, a ponto de o roteirista ser banido do set e ter tentado a demissão do diretor. Quando Chayefsky preferiu desligar-se do projeto (e assinar o roteiro com o pseudônimo de Sidney Aaron), o filme parecia já estar condenado, e o péssimo resultado nas bilheterias ajudou a relegar Ken Russell (que, segundo dizem, passou boa parte da produção sob o efeito de álcool) a uma espécie de limbo na indústria hollywoodiana. A morte de Chayefsky - que ganhou um Oscar pelo roteiro de "Hospital" (1971) -, poucos meses da estreia (e do fracasso) de "Viagens alucinantes" também não colaborou para o histórico do filme, apesar dos elogios da revista Time, que o elegeu um dos dez melhores do ano, e das duas indicações (técnicas) ao Oscar.


 

A trama concebida por Chayefsky já é, em si, bastante ousada: seu protagonista é o cientista e professor de psicologia Edward Jessup (William Hurt), um profissional brilhante mas pouco afeito às convenções impostas pela Medicina tradicional. Ambicioso em suas pesquisas alucinógenas, ele resolve, à revelia de seus superiores, fazer de si mesmo uma cobaia no uso de drogas em uma câmara de isolamento. Logo no começo ele consegue atingir regiões profundas da mente. Anos depois, já separado da também cientista Emily (Blair Brown) - que não consegue lidar com a obsessão do marido -, Jessup tem contato com rituais sagrados no México e com a utilização de drogas xamânicas. Tal novidade faz com que suas novas experiências fiquem ainda mais intensas: a cada sessão o audacioso professor vai ainda mais longe em suas viagens, chegando a formas progressivamente mais primárias de vida. O que muitos consideravam então simples alucinações começa a assustar seus colegas e familiares.

Produzido pela Warner depois que a Columbia Pictures desistiu do projeto por seu custo acima do esperado, "Viagens alucinantes" é, provavelmente, um dos melhores trabalhos de Ken Russell, mais conhecido pelo musical "Tommy" (1975) e por suas cinebiografias dos compositores Liszt, Mahler e Tchaicovsky. Com seu visual exuberante - influenciado por Magritte e Salvador Dalí - e uma trama consistente e frequentemente aflitiva, seu filme não apenas demonstra uma maturidade temática, mas confirma seu talento na direção de atores, que seria confirmado em sua produção seguinte, "Crimes do coração" (1984), estrelado por Anthony Perkins e Kathleen Turner: com um desempenho brilhante de William Hurt, que deixa verossímeis as teorias mais intrincadas, Russell ainda encontra espaço para trabalhar com efeitos visuais impressionantes que, ao contrário de atrapalhar, servem à história com uma inteligência ímpar. Injustamente esquecido pelo grande público, "Viagens alucinantes" é uma pequena obra-prima da ficção científica - e merece ser redescoberto e alçado à sua condição de clássico do gênero.

terça-feira

NÃO SE PREOCUPE, QUERIDA


NÃO SE PREOCUPE, QUERIDA (Don't worry, darling, 2022, Warner Bros, 123min) Direção: Olivia Wilde. Roteiro: Katie Silberman, estória de Carey Van Dyke, Shane Van Dyke, Katie Silberman. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Affonso Gonçalves. Música: John Powell. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Katie Byron/Rachael Ferrara. Produção executiva: Richard Brener, Catherine Hardwicke, Celia Khong, Alex G. Scott, Carey Van Dyke, Shane Van Dyke. Produção: Roy Lee, Katie Silberman, Olivia Wilde, Miri Yoon. Elenco: Florence Pugh, Harry Styles, Olivia Wilde, Chris Pine, Kiki Layne, Gemma Chan, Nick Kroll, Sydney Chandler, Kate Berlant, Asif Ali, Douglas Smith, Timothy Simons. Estreia: 05/9/2022 (Festival de Veneza)

Não deixa de ser estranho quando os bastidores de um filme chamam mais a atenção da mídia e do público do que seu resultado final. É o caso de "Não se preocupe, querida", segundo longa-metragem dirigido pela atriz Olivia Wilde, que estreou no Festival de Veneza de 2022 depois de uma chuva de fofocas a respeito dos inúmeros conflitos ocorridos durante as filmagens. Uma distopia aos moldes de "As mulheres perfeitas", de Ira Levin - que deu origem a duas versões cinematográficas, em 1968 e 2005 - e temperado com uma paranoia digna dos melhores filmes realizados em Hollywood nas décadas de 1950 e 1960 -, a obra de Wilde não teve a mais entusiasmada das recepções da crítica em seu lançamento, mas, apesar de não ser tão empolgante quanto seu primeiro trabalho atrás das câmeras - a comédia "Foras de série" (2019) -, é bem menos desastroso do que se poderia supor, diante da generalizada má-vontade da imprensa e de boa parte do público.

Com influência declarada de "A origem (2010) e "O show de Truman: o show da vida" (1998), o filme de Olivia Wilde também cita, de uma forma ou outra, obras aparentemente díspares, como os livros "Frankenstein", de Mary Shelley, e "Alice no país das maravilhas", de Lewis Carroll. Com uma direção de arte elaborada de maneira a soar claustrofobicamente simétrica e soluções visuais criativas e inteligentes - que homenageiam os clássicos números musicais coreografados por Busby Berkeley na Hollywood dos anos 1930 -, "Não se preocupe, querida" demonstra, em certos aspectos, uma evolução da diretora em termos de ambição e técnica. Substituindo a simplicidade de sua primeira obra por uma narrativa mais rebuscada e repleta de camadas, Wilde exige mais do espectador do que simplesmente acompanhar sua trama - um roteiro intrincado que apresenta inúmeras perguntas e não faz questão de respondê-las de forma simples. Valorizado pela fotografia de Matthew Libatique - que sublinha o desespero da protagonista ao mesmo tempo em que ilustra o tom monocromático de seu ambiente - e pela edição do brasileiro Affonso Gonçalves - que deixa pistas pelo caminho, indicando ao espectador os rumos da história -, "Não se preocupe, querida" também ousa fugir do óbvio ao enveredar, em seu terço final, por uma mudança de gênero que surpreende e o deixa ainda mais instigante: por mais que se suspeite do que pode estar acontecendo, o desfecho não deixa de ser um choque.

 

A trama se passa em algum momento da década de 1950, e apresenta o jovem e apaixonado casal Alice (a sensacional Florence Pugh) e Jack Chambers (o cantor britânico Harry Styles se saindo bastante bem), que estão vivendo um feliz momento de seu casamento. Jack está em franca ascensão profissional, ainda que sua bela esposa não saiba exatamente qual seu ramo de atuação. O que ela sabe - assim como as outras esposas que vivem em sua vizinhança, em uma idílica cidade californiana chamada Victory - é que todos os maridos trabalham sob as asas do poderoso e carismático Frank (Chris Pine) e que tudo relacionado à empresa é envolto em mistério, sob a alegação de segurança nacional. A vida repetitiva de Alice - que suas companheiras consideram um bálsamo - consiste de cuidar da casa, beber à beira da piscina com as amigas, aulas de balé e ocasionais jantares frequentados sempre pelos mesmos convidados. De uma hora para outra, no entanto, Alice começa a ter pesadelos e visões estranhas, que a atormentam a ponto de incomodar seu relacionamento e a lei do silêncio que perpassa sua rotina. Quando uma outra esposa começa a se comportar de forma inconveniente e é violentamente silenciada, Alice resolve desafiar as regras - e entra em um território assustador.

Olivia Wilde consegue conduzir seu filme com segurança o bastante para manter o interesse do público até seus minutos finais - apesar de seu ritmo por vezes um tanto hesitante - e extrair de seus atores performances notáveis, mesmo com todos os problemas nos bastidores, que começaram com a demissão de Shia LaBeouf, cuja saída de cena nunca chegou a ser devidamente explicada. Algumas fontes creditavam tal situação a um conflito de agendas, mas não demorou muito para que surgisse a informação de que LaBeouf havia sido despedido por causa de uma série de embates com a diretora e o elenco - o que confirmava a reputação de difícil que sempre precede o ator. Um terceiro round, porém, veio à tona quando o ator afirmou que ele mesmo havia abandonado o projeto apesar dos apelos de Wilde, que queria mantê-lo no papel principal mesmo diante da falta de harmonia entre ele e Florence Pugh - que, por sua vez, foi escolhida para o elenco graças a seu desempenho em "Midsommar: o mal não espera a noite" (2019). Um vídeo chegou a vazar na Internet com os pedidos de Wilde para que ele permanecesse no filme -  mas mais tarde, textos entre Pugh e o ator, também disponibilizados online, não demonstravam pistas de tal conflito entre eles. Não bastasse tanta confusão por trás das câmeras, o romance entre Wilde e seu novo ator central, Harry Stles, caiu como uma bomba: a atriz/diretora estava recém saindo de um casamento de sete anos com o ator Jason Sudeikis e o novo namoro pareceu atrapalhar sua concentração nos sets - o que resultou em constantes rusgas entre a cineasta e sua protagonista feminina, que, por acaso ou não, não demonstrou o menor esforço em promover o filme além do expressamente necessário. 

O fato é que, apesar dos problemas fora das telas, "Não se preocupe, querida" é um filme que sobrevive aos pequenos escândalos durante seu processo de realização. Intrigante, inteligente e visualmente atraente, é um filme que merece ser apreciado por suas qualidades - e não rechaçado por questões alheias a seus méritos artísticos.

quinta-feira

ANIQUILAÇÃO


ANIQUILAÇÃO (Annihilation, 2018, Paramount Pictures/Skydance Media/Scott Rudin Productions, 115min) Direção: Alex Garland. Roteiro: Alex Garland, romance de Jeff VanderMeer. Fotografia: Rob Hardy. Montagem: Barney Pilling. Música: Geoff Barrow, Ben Salisbury. Figurino: Sammy Sheldon Differ. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: Jo Burn, David Ellison, Dana Goldberg, Don Granger. Produção: Eli Bush, Andrew Macdonald, Allon Reich, Scott Rudin. Elenco: Natalie Portman, Jennifer Jason Leigh, Oscar Isaac, Gina Rodriguez, Tuva Novotny, Tessa Thompson. Estreia: 13/02/2018

Experiente como escritor - é dele o romance "A praia", que Danny Boyle levou às telas com Leonardo DiCaprio, em 2000 - e roteirista - ele é o nome por trás de "Extermínio" (2002), também de Boyle, e da adaptação de "Não me abandone jamais" (2001), baseado em livro de Kazuo Ishiguro -, o inglês Alex Garland sabe que a pressão não é pouca quando se transfere uma obra literária para o cinema. Com isso em mente, a primeira coisa que fez quando anunciou que estaria no comando da versão cinematográfica do livro "Annihilation", início de uma trilogia escrita por Jeff VanderMeer, foi declarar que, ao invés de reler a obra para escrever o roteiro, o faria como "um sonho do livro". Qualquer coisa que isso possa significar, o resultado foi um filme que não exatamente agradou aos fãs do original por suas diferenças claras - mas que, como produto audiovisual, caminha muito bem pelas próprias pernas. Inteligente, intrigante e oferecendo mais perguntas que respostas, "Aniquilação" ainda se beneficia da presença sempre magnética de Natalie Portman - por ironia uma das principais críticas dos leitores mais exigentes da trama de VanderMeer.

Indignados com a escalação de Portman para um dos papéis principais da história - que nas páginas é descrita como asiática - os fãs da trilogia tampouco gostaram de ver Jennifer Jason Leigh na pele de uma personagem de descendência indígena. Em sua defesa, Garland alegou - com certa coerência - que os detalhes físicos das protagonistas são revelados apenas no segundo livro da série (lançado apenas depois que o roteiro da adaptação já estava finalizado). A esta altura da pré-produção, o cineasta - cujo "Ex-machina: instinto artificial" (2014) havia agradado plenamente crítica e público - preferiu escolher seu elenco de acordo com as audições e com sua experiência anterior como diretor. Talvez a explicação não tenha sido completamente aceita pelos detratores, mas o fato é que, apesar da polêmica, "Aniquilação" é um suspense de ficção muito acima da média, que se utiliza de efeitos visuais como parte integrante da narrativa, e não como seu principal atrativo, e cujos elementos remetem ao clássico russo "Stalker" (1979), de Andrei Tarkovski - apesar das veementes negativas de VanderMeer a respeito de suas inspirações.

 

A trama começa quando o militar Kane (Oscar Isaac), tido como desaparecido em uma missão há pelo menos um ano, retorna à companhia da mulher, a biologista Lena (Natalie Portman). Kane não tem memória alguma a respeito do que aconteceu com ele e seus demais colegas - e subitamente começa a passar mal, sendo levado por seus superiores (sem maiores explicações) a uma instalação militar. É neste local que Lena começa a conhecer, ainda que superficialmente, a história por trás de todo o mistério que cercava a missão do marido - através da psicóloga Ventress (Jennifer Jason Leigh), Lena fica sabendo que Kane fazia parte de uma expedição que buscava informações científicas a respeito da Área X - uma região da Terra repentinamente cercada por uma cúpula a qual se convencionou chamar de Brilho. Sabendo que uma outra expedição está em vias de tentar novamente a sorte - até mesmo como forma de descobrir o paradeiro dos demais membros da primeira missão -, Lena se oferece como voluntária. Assim, se une a Ventress, à física Josie Radek (Tessa Thompson), à antropologista Cassie Sheppard (Tuva Novotny) e à paramédica Anya Thorensen (Gina Rodriguez) e entra em um universo novo, onde aparentemente organismos alienígenas estão provocando mutações genéticas das mais variadas - e ameaçando a existência da Terra nos moldes tradicionais.

Levando-se bastante a sério - uma vantagem em um gênero que frequentemente apela para um humor vazio como forma de conquistar plateias mais jovens - e oferecendo efeitos visuais criativos e longe do lugar-comum, "Aniquilação" estreou em um acordo entre a Paramount Pictures e a Netflix, resultado de bastidores pouco tranquilos entre os executivos do estúdio - enquanto David Ellison, preocupado com o tom intelectual do filme pedia por refilmagens e alterações cruciais no filme (incluindo mudanças substanciais na personalidade da protagonista interpretada por Portman), o produtor Scott Rudin declarava total apoio à integridade da obra de Garland. A briga resultou no lançamento do filme em streaming, uma aposta arriscada para uma produção de 40 milhões de dólares que, sem uma estreia tradicional, ficou muito aquém do que poderia ter conquistado - tanto em termos financeiros quanto de prestígio. Uma das mais interessantes ficções científicas a surgir em um período repleto de boas opções no gênero - "Interestelar" (2015), "Perdido em Marte (2015) e "A chegada" (2016) elevaram o patamar em muitos graus -, o filme de Garland tem, certamente, um lugar garantido no coração dos fãs.


quarta-feira

VAMPIROS DE ALMAS


VAMPIROS DE ALMAS (Invasion of the body snatchers, 1956, Walter Wanger Productions, 80min) Direção: Don Siegel. Roteiro: Daniel Mainwaring, série de Jack Finney. Fotografia: Ellsworth Fredericks. Montagem: Robert S. Eisen. Música: Carmen Dragon. Direção de arte/cenários: Edward Haworth/Joseph Kish. Produção: Walter Wanger, Walter Mirisch. Elenco: Kevin McCarthy, Dana Wynter, Larry Gates, King Donovan, Carolyn Jones. Estreia: 05/02/56

Não deixa de ser um tanto irônico que um filme constantemente lembrado como uma metáfora do macarthismo, que tantas baixas causou na indústria do cinema, não seja oficialmente uma obra com tais pretensões. Lançado em 1956, quando a política de caça aos comunistas de Hollywood promovida pelo senador Joseph McCarthy ainda estava a pleno vapor, "Vampiros de almas" parecia a alegoria perfeita para o clima de paranoia que rondava o país. Porém, apesar de o diretor Don Siegel afirmar que era impossível fugir das conexões com a realidade, o ator central do filme, Kevin McCarthy, e o autor da história na qual o roteiro era baseado, Jack Finney, negavam qualquer ligação, classificando o filme como apenas mais um thriller de ficção científica a alcançar as telas. É inegável, no entanto, que, sabendo o contexto em que foi realizado, o clássico de Siegel assume um subtexto muito mais interessante e lhe confere uma aura de relevância histórica de que não muitos filmes podem se gabar.

Realizado com pouco mais de 500 mil dólares e filmado em 19 dias - já contando com o atraso causado pela teimosia do diretor em filmar cenas noturnas sem apelar para efeitos visuais, "Vampiros de almas" sofreu com o orçamento apertado. O desenhista de produção, Edward Haworth, por exemplo, esteve sempre à beira de um ataque de nervos: depois de trabalhar com Alfred Hitchcock em "Pacto sinistro" (1951) e "A tortura do silêncio" (1953) - e pouco antes de ganhar um Oscar por "Sayonara" (1957) -, ele chegou a escrever uma carta ao diretor do Allied Artists, preocupado com o destino do filme. De pouco adiantou: Haworth teve de multiplicar sua criatividade para fazer com que o principal elemento da trama - os casulos que abrigavam cópias dos habitantes da pequena cidade de Santa Mira - não fosse prejudicado pelos exíguos trinta mil dólares à sua disposição. Como a história mostrou, ele não apenas conseguiu, mas também forjou um visual que influenciou várias outras obras do gênero pelos anos seguintes - inclusive o remake, lançado em 1978.

 

A trama de "Vampiros de almas" é uma pérola do kitsch - e é tratada como tal por Don Siegel, que mais tarde se consagraria dirigindo Clint Eastwood em sucessos como "Perseguidor implacável" (1971) e "Alcatraz: fuga impossível"" (1979). Tudo se passa em uma típica cidadezinha norte-americana da década de 1950. É para lá que o médico Miles Bennell (Kevin McCarthy) retorna depois de um congresso, para encontrar parte da população sofrendo do que parece um surto de paranoia coletiva: vários de seus pacientes insistem em dizer que seus parentes foram substituídos por algum tipo de impostor. A princípio cético, Bennell leva um choque ao descobrir que todos estão falando a verdade, e que alienígenas estão tomando os corpos dos humanos. Ao lado de uma antiga namorada, Becky (Dana Wynter em papel para o qual foram consideradas Anne Bancroft, Kim Hunter, Vera Miles e Donna Reed), o médico fará o possível para avisar as autoridades a respeito da invasão, mas conforme avança em sua cruzada, percebe que talvez já seja tarde demais - e que não irá demorar para que ele e sua amiga se tornem vítimas.

O roteiro original de "Vampiros de almas" se assumia um pouco como filme trash, repleto de passagens cômicas que se intercalavam às sequências mais sérias da narrativa. Acreditando que a fórmula "humor + tragédia" seria um fator positivo para o sucesso do filme, Siegel, o roteirista Daniel Mainwaring e o produtor Walter Wanger fizeram exibições-teste às escondidas do diretor do estúdio. Realmente o público parecia aprovar a mistura de gêneros, mas Steve Broidy (o mesmo que recebeu a carta desesperada de Edward Haworth) nem considerou a ideia: para a estreia oficial, mandou editar o filme sem qualquer resquício dos momentos leves - uma espécie de contradição, já que foi justamente o estúdio quem exigiu mudanças no final da história original, deixando de lado o tom pessimista e acenando com uma esperança para os personagens e o público. Tais decisões, por mais ditatoriais que possam parecer, acabaram por funcionar: o filme é, hoje em dia, uma das ficções científicas mais conhecidas do cinema.

domingo

FAHRENHEIT 451

FAHRENHEIT 451 (Fahrenheit 451, 1966, Anglo Enterprises, 112min) Direção: François Truffaut. Roteiro: François Truffaut, Jean-Louis Richard, romance de Ray Bradbury. Fotografia: Nicolas Roeg. Montagem: Thom Noble. Música: Bernard Herrmann. Figurino: Tony Walton. Direção de arte/cenários: Syd Cain. Produção executiva: Miriam Brickman. Produção: Lewis M. Allen. Elenco: Oskar Werner, Julie Christie, Cyril Cusack, Anton Diffring. Estreia: 07/9/66 (Festival de Veneza)

Em 1953, o escritor Ray Bradbury imaginou um futuro distópico onde livros seriam proibidos pelo governo e incinerados pelos bombeiros, impedindo a população a ter acesso a qualquer palavra escrita. Alguns anos mais tarde, seu romance, batizado de "Fahrenheit 451" - em teoria, a temperatura necessária para a combustão das publicações - chegou às mãos do francês François Truffaut, notoriamente avesso a ficções científicas, e transformou completamente a opinião do célebre cineasta. Apaixonado pelo conceito da trama concebida por Bradbury e certo de que poderia fazer dela um filme memorável, Truffaut passou os próximos seis anos em busca de financiamento para o projeto. Nascia então seu primeiro - e único - filme falado em inglês. Lançado no Festival de Veneza de 1966, "Fahrenheit 451" é um clássico por excelência: inteligente, perturbador e emocionante, se mantém como uma crítica feroz ao totalitarismo ao mesmo tempo que convida o público a uma poética homenagem à literatura e seu poder transformador.

Antes de chegar às telas, porém, "Fahrenheit 451" mostrou-se um desafio dos mais trabalhosos para o inveterado cinéfilo, colaborador assíduo do prestigioso "Cahièrs du Cinéma" e já consagrado por filmes como "Os incompreendidos" (59) e "Jules e Jim: uma mulher para dois" (62). Não apenas o financiamento demorava a sair, mas também seu elenco dos sonhos parecia impossível de escalar. Para os dois principais papéis femininos, por exemplo, Truffaut queria a francesa Jean Seberg e a americana Tippi Hedren, mas viu seu desejo frustrado em dose dupla: Hedren estava ocupada com Alfred Hitchcock e Seberg (estrela do seminal "Acossado", de Jean-Luc Godard) foi considerada um nome pouco comercial pelos produtores. Nem mesmo Jane Fonda acertou sua participação e a contratação de Julie Christie para ambos os papéis (pela metade do cachê cobrado então pela atriz), ao contrário de ajudar, só complicou ainda mais a situação: sua presença causou a defecção do ator Terence Stamp - escolhido para interpretar o protagonista, Montag. Ex-namorado de Christie, o ator inglês não ficou confortável com a ideia de trabalhar com ela - especialmente quando havia a forte possibilidade de, fazendo dois personagens em cena, a bela Christie roubar a atenção. O resultado foi uma tremenda dor de cabeça aos produtores, que passaram a cogitar nomes tão diversos quanto Montgomery Clift, Marlon Brando, Paul Newman, Jean-Paul Belmondo, Charles Aznavour e Peter O'Toole - até que Truffaut finalmente bateu o martelo com Oskar Werner... e se arrependeu amargamente.


Não foi a primeira vez que cineasta e ator trabalharam juntos - ambos foram parte fundamental do sucesso de "Jules e Jim". Mas certamente Truffaut jamais imaginaria que a parceria outrora tão feliz se tornaria motivo de tanto desgosto. Com visões completamente opostas a respeito da forma como retratar o bombeiro Montag - personagem principal e que serve de ponte entre o filme e o público -, diretor e ator entraram em frequente rota de colisão durante as filmagens, e o próprio Truffaut declarou posteriormente que só não chegou a ponto de desistir do projeto devido à sua paixão pela história e pelo tempo que havia gasto na pré-produção. A situação ficou tão delicada que os dois chegaram a ficar sem dirigir a palavra um ao outro durante as duas últimas semanas de trabalho - some-se a isso uma crise nervosa de Julie Christie e as dificuldades do diretor em comunicar-se em inglês enquanto trabalhava em Londres e chega a ser quase um milagre que "Fahrenheit 451" tenha sido completado - e indo ainda mais longe, tenha ficado tão bom. Com o roteiro escrito em inglês por Truffaut e Jean-Louis Richard (que não dominavam o idioma e não ficaram totalmente satisfeitos com o resultado final), a adaptação do romance de Bradbury acerta em todos os aspectos - como cinema, como crítica social e como transposição de uma obra literária para as telas.

A criatividade de Truffaut começa já nos créditos de abertura: uma vez que no universo proposto pelo roteiro a leitura é algo proibido, não há letreiros e sim uma narração em off apresentando o elenco e a equipe técnica. Logo em seguida, o público passa a conhecer uma sociedade opressiva e totalitária, onde a população vive à mercê de um governo que proíbe o consumo de livros - e incentiva as denúncias contra aqueles que desafiam as leis. Nesse universo quase asséptico intelectualmente, a única função do corpo de bombeiros é justamente incinerar todos os livros descobertos e impedir que outros meios de comunicação senão a televisão sejam acessíveis como meio de informação. O protagonista, vivido por Oskar Werner, é Guy Montag, um desses bombeiros, um profissional dedicado e à espera de uma promoção que está em vias de chegar. E é justamente nesse ponto de sua carreira que Montag é surpreendido por um novo sentimento: fascinado pela bela Clarisse (Julie Christie), ele se vê subitamente curioso em conhecer o prazer da leitura, para desespero de sua mulher, a fútil Linda (também Christie). Tentado a mergulhar cada vez mais em um novo ambiente (onde o livre-pensar é uma realidade e o idealismo intelectual é capaz de forjar mártires orgulhosos), Montag descobre que seus fechados horizontes podem transformar-se em infinitas possibilidades - mas, para isso, precisa escolher entre a vida que leva e os perigos do não-conformismo.

Visualmente interessante - ainda que pareça um tanto datado - e contado em ritmo fluido e envolvente, "Fahrenheit 451" é uma obra-prima. Nem mesmo os embates dos bastidores foi capaz de minar o que há de mais brilhante no filme: sua mensagem de amor à liberdade e à literatura. Um pouco incômoda em seus momentos iniciais - até que a plateia finalmente compreenda exatamente o que está acontecendo - e fascinante em seu terço final, quando Montag descobre um novo caminho para sua vida, a obra de Truffaut sobrevive ao tempo como uma das mais importantes ficções científicas do cinema moderno (mesmo que abra mão de alguns elementos icônicos do gênero, como a violência e os efeitos visuais abundantes, que transformariam os filmes das décadas seguintes mais e mais parecidos com videogames do que com cinema). Felizmente a ideia de Mel Gibson em refilmá-lo não vingou: dificilmente alguém seria capaz de ser tão competente em transmitir as ideias do romance de Bradbury do que Truffaut foi em seu único filme em língua inglesa.

sábado

ELYSIUM

ELYSIUM (Elysium, 2013, TriStar Pictures, 109min) Direção e roteiro: Neill Blomkamp. Fotografia: Trent Opaloch. Montagem: Julian Clarke, Lee Smith. Música: Ryan Amon. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Philip Ivey/Peter Lando. Produção executiva: Sue Baden-Powell. Produção: Bill Block, Neill Blomkamp, Simon Kinberg. Elenco: Matt Damon, Jodie Foster, Sharlto Copley, Alice Braga, William Fitchner, Diego Luna, Wagner Moura. Estreia: 07/8/13

Depois do inesperado - ainda que justo - sucesso de "Distrito 9", que chegou a concorrer aos Oscar de melhor filme e roteiro adaptado em 2010, todo mundo em Hollywood estava curioso em saber qual seria o projeto seguinte de seu diretor, Neill Blomkamp. Inteligente e sabendo que em time que está ganhando não se mexe, o cineasta sul-africano resolveu então que o melhor a fazer seria manter o que havia dado certo em sua obra-prima (a crítica social através da ficção científica, seu amigo de infância Sharlto Copley e o equilíbrio entre drama e ação), injetar um orçamento mais generoso (que ultrapassou a barreira dos 100 milhões de dólares) e contar com a presença de astros populares (Matt Damon e Jodie Foster). Nem tudo deu exatamente certo: apesar do relativo sucesso nos EUA, "Elysium" não repetiu a mesma performance de "Distrito 9", dividiu a crítica e só conseguiu se pagar com a bilheteria mundial. Não deixa de ser injusto. Apesar de não ter o mesmo brilhantismo do filme mais conhecido de Blomkamp, "Elysium" é uma produção muito mais interessante do que a grande maioria dos lançamentos do gênero: diverte, faz pensar, é tecnicamente impecável e conta com um elenco internacional de fazer inveja a qualquer diretor muito mais experiente.

Com um filme tão impressionante como "Distrito 9" como cartão de visitas, não foi difícil a Neill Blomkamp escalar um time de sonhos para o elenco de "Elysium". além dos prestigiados Matt Damon e Jodie Foster (dois dos mais inteligentes e confiáveis astros de Hollywood), o cineasta contou com o mexicano Diego Luna e os brasileiros Alice Braga e Wagner Moura para dar vida a uma história fascinante sobre um mundo pós-apocalíptico onde a diferença de classes não é apenas endêmica: ela faz também a diferença entre a vida e a morte. Com uma impressionante direção de arte e uma fotografia assombrosa, "Elysium" é um filme de extrema urgência e relevância social, uma metáfora pouco sutil sobre a política de imigração e, melhor ainda, um entretenimento que jamais esquece sua principal função: divertir a plateia com cenas de ação empolgantes e personagens cativantes. Pode-se até dizer que em sua segunda metade as situações se atropelam um pouco, mas mesmo assim é difícil não concordar que sua mistura entre cinema e crítica social é construída com precisão cirúrgica - e que é virtualmente impossível desviar os olhos da tela do primeiro ao último minuto da sessão.


A trama se passa em 2154, e a Terra está completamente arruinada, sofrendo com escassez de recursos e uma superpopulação escravizada em subempregos e miséria. Sua condição miserável contrasta radicalmente com aquela que levam os felizardos que, com dinheiro o suficiente para isso, moram em uma estação espacial chamada Elysium, praticamente um clube de luxo, sofisticado e habitado por aqueles considerados a nata da sociedade. O único problema do local - mantido com mão de ferro pela secretária de defesa, Delacourt (Jodie Foster) - são as constantes tentativas de invasão por moradores da Terra, que procuram desesperadamente chegar até as milagrosas camas existentes por lá (e que curam qualquer doença). Uma dessas desesperadas é Frey (Alice Braga), cuja filha pequena sofre de leucemia: amiga de infância do operário Max (Matt Damon) - que abandonou a vida de pequenos crimes para viver em paz -, Frey acaba pedindo ajuda ao melhor amigo, que aceita o desafio quando ele mesmo é exposto à radiação em seu trabalho e se vê condenado a poucos dias de vida. Contando com o apoio logístico do rebelde Spider (Wagner Moura), Max vai fazer o possível para salvar-se e à filha de Frey - e para isso terá de bater de frente com o violento Kruger (Sharlto Copley), capaz de qualquer coisa para defender os privilégios da alta sociedade de Elysium.

Visualmente impressionante, "Elysium" é um filme de grande impacto, especialmente quando mostra os contrastes entre os moradores de uma Los Angeles completamente destruída e o luxo que envolve a estação espacial da classe privilegiada. Mesmo que o tema implore por um discurso mais incisivo em termos de crítica, porém, o roteiro prefere ater-se às regras da ficção científica, desenvolvendo mais uma história (fascinante e bem resolvida) do que uma tese de mestrado. Acerta em cheio nessa opção: sem jamais deixar de ilustrar sua simpatia pelos habitantes da Terra (sofridos, doentes, explorados, expostos a uma dura realidade de vida), Blomkamp conta sua história focando-se basicamente na trajetória de seu herói (vivido com garra por Matt Damon) e deixando a luta de classes como um tema incidental (potente, doloroso, relevante, mas incidental). Dessa forma, ele realiza um filme que é, ao mesmo tempo, um entretenimento dos mais empolgantes (em termos técnicos e emocionais) e um comentário socialmente importantíssimo - em especial em vista do que viria pela frente na política de imigração dos EUA da era Trump. Indispensável tanto pelo discurso quanto por suas qualidades artísticas, "Elysium" é um filme subestimado - mas que deve, com o passar do tempo, ter reconhecido seu devido valor.

terça-feira

A CHEGADA

A CHEGADA (Arrival, 2016, Sony Entertainment,  116min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Eric Heisserer, conto "Story of your life", de Ted Chiang. Fotografia: Bradford Young. Montagem: Joe Walker. Música: Jóhan Jóhansson. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Marie-Soleil Dénomné, Paul Hotte, André Valade. Produção executiva: Dan Cohen, Eric Heisserer, Karen Lunder, Tory Metzger, Milan Popelka, Stan Wlodkowski. Produção: Dan Levine, Shawn Levy, David Linde, Aaron Ryder. Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O'Brien. Estreia: 01/9/16 (Festival de Veneza)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Dennis Villeneuve), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Edição de Som 

Quando um filme - seja de ficção científica, seja do gênero que for - permanece na memória e no coração do espectador muito depois de seus créditos finais, certamente ele é muito mais do que um simples filme. Produções que ultrapassam os limites da arte e suscitam reflexões acerca de temas como destino, finitude e livre arbítrio tendem a tornar-se clássicas já em seu nascimento - haja visto obras como "2001: uma odisseia no espaço" (68), de Stanley Kubrick, e "Blade Runner: o caçador de androides" (82), de Ridley Scott, que se mantém no imaginário popular há décadas justamente por inserir, em um gênero específico, um vasto material intelectual e sensorial que vai além do que é exposto na tela, exercitando tanto o coração quanto o cérebro da plateia. Não chega a ser uma surpresa, portanto, que "A chegada" possa facilmente entrar na seleta lista dos grandes filmes de ficção científica da história do cinema - e que certamente irá resistir à passagem dos anos: inteligente, sensível e tecnicamente impecável, a primeira incursão do canadense Denis Villeneuve no gênero é simplesmente uma obra-prima que confirma o cineasta como uma das vozes mais originais e criativas a surgirem nos últimos anos.

Desde que seu "Incêndios" (2010) encantou o mundo e concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Villeneuve passou a demonstrar, em sua filmografia, uma preocupação constante com a alma e a psicologia de seus personagens. Fossem eles baseados em livros consagrados ("O homem duplicado", baseado em José Saramago) ou dentro dos limites de filmes de gênero (o suspense "Os suspeitos" ou o policial "Sicário: terra de ninguém"), seus protagonistas viviam sempre no fio da navalha, torturados por questões pessoais que os empurravam à frente e mexiam com as engrenagens das tramas. Em "A chegada" não é diferente: com base no conto "Story of your life", de Ted Chiang, o roteiro de Eric Heisserer, apesar de se utilizar fartamente dos elementos da ficção científica, é escorado totalmente nas emoções muito humanas de sua personagem central, a linguista Louise Banks, interpretada com brilhantismo por Amy Adams. Por mais que os efeitos visuais originais e criativos imaginados pela equipe de Martine Bertrand e Patrice Vermette sejam empolgantes e fujam do lugar-comum, é o coração de Louise que sustenta a ação do filme, que preenche aos poucos os vácuos que o roteiro vai propositalmente deixando pelo caminho até o final avassalador e comovente. Genialmente concebido como uma espécie de quebra-cabeças cujas peças só vão fazer sentido quando a imagem estiver totalmente formada, o roteiro de "A chegada" é uma aula de narrativa - em que cada cena, cada linha de diálogo e cada silêncio é parte indispensável para o resultado final.


Quando começa, "A chegada" parece mais uma ficção científica convencional: doze naves espaciais de formato ovalado chegam à Terra, provocando pânico e desconfiança na população e nas lideranças mundiais. Em busca de comunicação com os visitantes, um coronel norte-americano, Weber (Forest Whitaker) recruta a linguista Louise Banks (Amy Adams), que já havia trabalhado para o governo em circunstâncias anteriores (e bem menos inusitadas). Louise se junta a um time de cientistas que inclui o matemático Ian Donnelly (Jeremy Renner) e centenas de pesquisadores espalhados pelo mundo. Conforme vai avançando em seus contatos com uma dupla de alienígenas - a quem eles batizam de Abbott e Costello - e aprendendo sua forma de comunicação, Louise passa a ter visões de sua vida e começa a questionar seu senso de realidade e até que ponto ela será capaz de controlar os limites de sua interação com os desconhecidos viajantes.

Contar qualquer detalhe a mais de "A chegada" é estragar a bela experiência que ele é. Descobrir as razões que trazem os alienígenas ao nosso planeta e de que forma seu contato com os humanos irá alterar o destino de Louise é uma das melhores e mais emocionantes surpresas de um filme que, apesar de ter em seu desfecho um de seus grandes trunfos, cresce a cada revisão. Cuidadosamente realizado - da fotografia suja de Bradford Young à música impactante de Jóhan Jóhansson - e dotado de uma inteligência rara em blockbusters (rendeu mais de 200 milhões de dólares nas bilheterias contra um orçamento relativamente baixo de 47 milhões), o filme de Villeneuve é uma viagem sensorial das mais empolgantes, que trata o espectador com respeito e jamais subestima sua capacidade intelectual. O que é injustificável é a ausência de Amy Adams entre as oito indicações ao Oscar recebidas pela produção - que incluíram melhor filme, diretor e roteiro adaptado: com uma atuação extraordinária que demonstra toda a extensão de seu talento dramático, Adams simplesmente carrega a plateia por uma trajetória emocional das mais enriquecedoras, capaz de prender a atenção do primeiro ao último minuto sem jamais cair no óbvio ou no previsível. Conduzido com elegância e segurança por um cineasta nitidamente apaixonado por sua história, "A chegada" é uma pequena obra-prima moderna - e que fez de Villeneuve o cineasta ideal para assinar a esperada continuação de "Blade Runner". Imperdível e inesquecível!

quarta-feira

VIDA

VIDA (Life, 2017, Columbia Pictures/Skydance Pictures, 104min) Direção: Daniel Espinosa. Roteiro: Rheet Reese, Paul Wernick. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Mary Jo Markey, Frances Parker. Música: Jon Ekstrand. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Nigel Phelps/Celia Boback. Produção executiva: Vicki Dee Rock, Don Granger. Produção: Bonnie Curtis, David Ellison, Dana Goldberg, Julie Lynn. Elenco: Jake Gyllenhaal, Ryan Reynolds, Rebecca Ferguson, Hiroyuki Sanada, Olga Dykhovichnaya, Ariyon Bakare. Estreia: 18/3/17

A cenografia lembra "2001: uma odisséia no espaço" (68), de Stanley Kubrick. A trama é nitidamente inspirada em "Alien, o oitavo passageiro" (79), de Ridley Scott. Mas "Vida", do sueco Daniel Espinosa, apesar das referências clássicas e da aparência derivativa, tem muito mais qualidades que sua bilheteria doméstica (pouco mais de 30 milhões de dólares, contra um orçamento de estimados 58) pode fazer crer. Mesmo que não acrescente muito aos elementos já consagrados de um gênero sempre em constante busca de novidade, o filme de Espinosa não faz feio em provocar suspense, em imprimir um constante ar de tensão e, principalmente, em criar um vilão que foge do já tradicional visual forjado na obra de Scott - já utilizado à exaustão em suas continuações. Apostando em efeitos visuais de primeira linha, "Vida" pode até ser mais do mesmo, mas assume sem medo o desafio de conquistar os fãs de ficção científica - e o faz com dignidade e elegância.

A trama - que também não é um primor de originalidade, mas ao menos tem um senso de lógica e verossimilhança mínimos para um filme do gênero - se passa dentro de uma estação espacial internacional que está retornando de uma expedição à Marte, onde foi tentar encontrar provas de vida alienígena. A tripulação, formada por seis passageiros, inclui médicos e cientistas encantados com a descoberta de um organismo que, divulgado à população da Terra, recebe o carinhoso apelido de Calvin. Fascinado com seu novo bichinho de estimação, um dos tripulantes, Hugh Derry (Ariyon Bakare) - que sofre de paralisia dos membros inferiores -, acaba por dedicar-se quase integralmente a seu estudo. Porém, curioso em descobrir como suas células funcionam quando acordadas, ele acidentalmente desperta um ser de inteligência acima da média e com o poder de crescer de forma acelerada - além de defender-se de forma violenta, atacando a todos a quem considera uma ameaça. Nesse ambiente de tensão, os demais viajantes tentam encontrar uma maneira de mantê-lo preso em uma compartição segura da nave - mas talvez nem mesmo isso seja o suficiente para poupar suas vidas.


O roteiro de "Vida", escrito por Rheet Reese e Paul Wernick - a dupla responsável pelo texto de "Zumbilândia" (2009) e "Deadpool" (2016) - não tem nada de seus trabalhos mais conhecidos, filmes de ação construídos sobre um humor quase juvenil. Sério e com um desenvolvimento claustrofóbico, o filme de Espinosa se equilibra entre o suspense visual (com uma bela fotografia em tons azulados, de Seamus McGarvey) e o drama que surge em consequência dos trágicos desdobramentos do encontro entre terráqueos e a misteriosa forma de vida marciana. São esses momentos emocionalmente mais densos que abrem espaço para as atuações inspiradas de Jake Gyllenhaal e da sueca Rebecca Ferguson - um rosto que começou a ser conhecido das plateias graças a suas participações em "Missão: impossível: Nação Secreta" (2015) e "A garota no trem" (2016). Ele vive o médico David Jordan, que está atingindo o recorde de permanência no espaço (por não saber exatamente como conviver com as pessoas em seu planeta natal), e ela interpreta a líder da missão, Miranda North, a quem caberá tomar as decisões mais importantes a respeito da reviravolta na viagem. As cenas em que Gyllenhaal e Ferguson reagem à situação em que estão vivendo são bem escritas, bem dirigidas e oferecem um tom pessoal que evita que o filme acabe sendo apenas mais uma produção caprichada de efeitos visuais de última geração.

Conciso e eficiente, ainda que careça de uma força maior em seu clímax e soe perigosamente parecido com suas fontes de inspiração, "Vida" é um filme inteligente, que discute com sobriedade o limite a que pode chegar a interferência do seres humanos a ecossistemas alheios - e por consequência, as fontes de vida que os habitam. Ao mostrar Calvin não como um vilão cruel e sanguinário, mas como uma criatura lutando por sua própria defesa, o roteiro encontra seu maior diferencial - assim como o final, uma aula de edição que pega o espectador de surpresa e dilacera o heroísmo individual tão caro ao cinemão mainstream. Contando com a participação especial de Ryan Reynolds - o Deadpool em pessoa, que não pode aceitar o papel de David Jordan por falta de tempo - e um diretor que parece ter aprendido direitinho sua lição de como comandar uma ficção científica de suspense, "Vida" é um filme acima da média, que pode não agradar aos fãs do "Alien" original pelo excesso de similaridades mas que cumpre exatamente o que promete: assusta, entretém e surpreende.

EX-MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL





EX-MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL (Ex Machina, 2014, Universal Pictures International, 108min) Direção e roteiro: Alex Garland. Fotografia: Rob Hardy. Montagem: Mark Day. Música: Geoff Barrow, Ben Salisbury. Figurino: Sammy Sheldon Differ. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: Eli Bush, Tessa Ross, Scott Rudin. Produção: Andrew Macdonald, Allon Reich. Elenco: Domhnall Gleeson, Oscar Isaac, Alicia Vikander, Sonoya Mizuno. Estreia: 16/12/14

2 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais


A cerimônia do Oscar 2016 não foi exatamente surpreendente, com as esperadas vitórias de Leonardo DiCaprio, Brie Larson e "Spotlight: segredos revelados" nas principais categorias e o arrastão proporcionado por "Mad Max: Estrada da fúria". Mas mesmo assim, a Academia sempre guarda um trunfo para não deixar a noite tão previsível e nessa ocasião o susto, em especial para as grandes produções que concorriam ao prêmio de efeitos visuais, foi imenso: concorrendo contra pesos-pesados como "Star Wars: o despertar da força", "Mad Max" e "O regresso" (todos com orçamentos acima dos 150 milhões de dólares), o pequeno "Ex-machina: instinto artificial", com seu custo irrisório de 15 milhões, levou a estatueta e reafirmou sua posição de Davi contra Golias. Pouco visto nos cinemas americanos (ao menos em comparação com seus oponentes diretos) e lançado sem muito alarde, a estreia do roteirista e escritor Alex Garland como cineasta é uma instigante e curiosa fantasia a respeito do alcance da Ciência em um futuro não muito distante. Usando os efeitos especiais como parte integrante da narrativa e não como um espetáculo à parte, o filme envolve a plateia em um jogo de manipulação que só fará sentido completamente nos minutos finais. Ao não subestimar a inteligência do espectador, Garland criou uma pequena pérola, uma ficção científica que tem apelo até mesmo àquele que torcem o nariz em relação ao gênero.

Tudo começa quando o jovem programador Caleb Smith (Domhnall Gleeson, cada vez mais presente nas telas) é escolhido para passar uma semana na propriedade isolada do misterioso e misantropo Nathan Bateman (Oscar Isaac), dono da empresa de informática onde ele trabalha. Introvertido e quase antissocial, o órfão e solitário Caleb ouve do próprio Nathan - um homem tanto excêntrico quanto genial - o motivo de sua visita: o que o milionário deseja é testar o quão longe foi em suas pesquisas a respeito de inteligência artificial. Para isso, apresenta a seu jovem funcionário à bela Ava (Alicia Vikander), um robô com aparência quase humana e inteligência acima da média. Sendo obrigado a dar um parecer depois de apenas algumas sessões a sós com Ava, o desajeitado Caleb acaba se deixando envolver pelo fascínio de estar diante de uma invenção humana e, aos poucos, começa a questionar as reais intenções de Nathan - sendo impelido por Ava a duvidar da honestidade do programa.


Como um jogo de gato e rato engenhoso e brilhantemente executado, "Ex-machina" é fascinante e hipnotizante: cada detalhe da direção de arte minimalista é crucial para o desenvolvimento da trama e suas inteligentes metáforas visuais. Com uma estética clean, quase desprovida de elementos mais elaborados, Garland cria uma atmosfera de suspense e expectativa que mantém a atenção até o final: as conversas entre Caleb e Ava são um perfeito exemplo da técnica do cineasta novato: ela é a experiência, mas a cada sessão quem mais se percebe preso e confinado é ele. A fotografia de Rob Hardy contribui para o clima opressivo, assim como a trilha sonora quase imperceptível, que enfatiza a solidão dos três protagonistas, cada um afogado em seus próprios dilemas éticos, morais e pessoais - o que inclui até (e principalmente) Ava. Misturando discussões filosóficas a uma trama por si só bastante interessante e questionadora, o roteiro foge do óbvio sempre que parece estar em vias de cair nas armadilhas das produções do gênero, levando o público mais longe do que se poderia supor em seus minutos iniciais. Fazendo uso de seu talento como escritor - é ele o autor do romance "A praia", que deu origem ao filme de Danny Boyle estrelado por Leonardo DiCaprio em 2000 - e merecidamente indicado ao Oscar de roteiro original, Alex Garland brinca com as percepções da plateia, desenvolve com precisão a personalidade de cada um de seus personagens e cria um desfecho poético e quase perturbador.

E se o roteiro e a direção de Alex Garland revelam um cineasta inteligente e sensível, seus atores não poderiam estar melhores. Domhnall Gleeson aos poucos vai traçando um caminho bastante consistente em Hollywood, marcando presença em sucessos de bilheteria e crítica, como "O regresso", "Invencível" - dirigido por Angelina Jolie - e "Anna Karenina" - a versão estrelada por Keira Knightley e Jude Law: seu estilo suave de interpretação cabe como uma luva em Caleb, um jovem desconfortável na própria pele e que se apaixona por uma inteligência artificial. Oscar Isaac - que Madonna praticamente revelou em "W/E: o romance do século" (2011) e depois seguiu um caminho de grande personalidade artística - constrói um Nathan Bateman exótico em seu brilhantismo, isolado e quase paranoico como a maioria dos gênios. E Alicia Vikander - às vésperas de levar um Oscar de coadjuvante por "A garota dinamarquesa" (2015) - seduz a plateia sem dificuldade, em uma atuação que mescla com maestria trejeitos robóticos e humanos e se revela, em seu final, o trabalho mais impressionante do filme. Uma feliz conjunção de fatores - elenco, direção, roteiro, técnica - e despretensão, "Ex-machina: instinto artificial" é um dos mais admiráveis filmes de sua temporada (e uma das melhores ficções científicas da década).

segunda-feira

PROMETHEUS

PROMETHEUS (Prometheus, 2012, 20th Century Fox, 124min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Jon Spaihts, Damon Lindelof, elementos criados por Dan O'Bannon, Ronald Shusett. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Pietro Scalia. Música: Marc Streitenfeld. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Sonja Klaus. Produção executiva: Michael Costigan, Michael Ellenberg, Mark Huffam, Damon Lindelof. Produção: David Giler, Walter Hill, Ridley Scott. Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Logan Marshal-Green, Charlize Theron, Guy Pearce, Idris Elba, Rafe Spall, Patrick Wilson. Estreia: 11/4/12

Em 1979, o filme "Alien: o oitavo passageiro" estreou e mudou a forma como o público e a crítica passaram a enxergar a ficção científica no cinema. Referência absoluta no gênero desde então, gerou fortunas com suas sequências - dirigidas por James Cameron (86), David Fincher (92) e Jean-Pierre Jeunet (98) - e nunca deixou de suscitar especulações a respeito de possíveis novas continuações. Demorou mais de três décadas, porém, para que seu diretor original, Ridley Scott, retomasse as rédeas do universo que ajudou a moldar. Para surpresa de muitos, porém, o cineasta inglês não retomou as aventuras da destemida Tenente Ripley, interpretada por Sigourney Weaver nos quatro primeiros capítulos da série: em "Prometheus", ele conta, de maneira elegante mas não menos tensa, fatos acontecidos décadas antes de tudo que foi mostrado no original, em uma jogada ousada e inteligente. Foi parcialmente bem-sucedido: nos EUA, a bilheteria foi apenas razoável (126 milhões de dólares contra o orçamento generoso de 130), mas no resto do mundo, aproveitando-se da fama de uma das marcas mais famosas de Hollywood, chegou perto de 280 milhões. Longe de ser também uma unanimidade entre a crítica, ficou no meio-termo entre aqueles que louvaram a coragem do diretor em fugir do óbvio e aqueles que esperavam muito mais do reencontro do criador com a criatura. Mas, afinal, "Prometheus" é um bom filme ou apenas um mero caça-níqueis de luxo?


Há duas maneiras de se assistir e julgar "Prometheus": como um espectador neófito, a quem todo o universo criado nos quatro primeiros filmes simplesmente inexiste (e a quem portanto tudo é novidade, como um filme qualquer do gênero), ou como um fã da série, ansioso por conhecer as origens de um dos monstros mais longevos da ficção científica cinematográfica (e, consequentemente, muito mais exigente quando se trata do assunto). Para ambas as tribos, o roteiro oferece belos momentos de ação e suspense - tudo orquestrado com a elegância natural de Ridley Scott e um visual estonteante, cortesia da bela fotografia de Dariusz Wolski e da extraordinária direção de arte, concebida a partir do filme original de 1979, mas mostrada ao público do século XXI com todo o requinte que um orçamento generoso e efeitos visuais caprichados podem proporcionar. Porém, ao tentar abraçar esses dois mundos, Scott acabou por ficar no meio do caminho entre a claustrofobia do primeiro capítulo e o senso de espetáculo que James Cameron injetou na continuação de 1986. Coerentemente, em seus dois primeiros atos - em que a atmosfera de tensão sobrepõe-se à ação graficamente violenta - Scott mostra-se mais à vontade em conduzir sua narrativa, dosando com parcimônia momentos mais contemplativos com sequências que dão pistas sobre o que virá pela frente, quando seus personagens finalmente serão obrigados a encarar que não estão sozinhos no universo - e, pior ainda, o estão dividindo com uma espécie não exatamente amistosa.


A trama de "Prometheus" se passa em 2093 - vinte e nove anos antes, portanto, dos acontecimentos do primeiro "Alien". A dupla de arqueologistas Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) faz parte da seleta tripulação escolhida pelo milionário Peter Weyland (Guy Pearce sob pesadíssima maquiagem) para explorar vida extra-terrestre, uma vez que foram responsáveis por encontrar, em uma remota ilha da Escócia algum tempo antes, desenhos rupestres que confirmam suas teorias de há recados para a humanidade desde tempos imemoriais. Depois de hibernar por alguns anos, o grupo de cientistas desembarca em um planeta desconhecido, com a missão de encontrar aqueles que acredita-se ser os criadores da raça humana. A diretora da missão, a ambiciosa Meredith Vickers (Charlize Theron), os proíbe de qualquer contato com tais seres e permanece na nave, ao contrário de David (Michael Fassbender), um androide perfeitamente construído para conviver entre os humanos que é o homem de confiança de Weyland. Assim como em "Alien", eles encontram o que não deveriam encontrar, e sobem a bordo de posse da cabeça de um humanoide que encontram no planeta. Durante a investigação que busca mais detalhes sobre o encontrado, uma série de violentos incidentes que vitimam os cientistas fazem com que Vickers e Shaw entrem em conflito sobre como lidar com a situação e de que forma podem sair com vida do planeta - e ao mesmo tempo manter a salvo as descobertas que seus estudos realizaram.

Assim como acontece em todos os episódios da série "Alien", a trama de "Prometheus" gira em torno de um alienígena assassino que vai trucidando cada um dos personagens, normalmente apresentados com pouca profundidade pelo roteiro. No filme de Scott não é diferente. Com exceção da protagonista vivida por Noomi Rapace (a estrela da versão sueca de "Os homens que não amavam as mulheres"), nenhum dos tripulantes da nave é explorado além de um nível superficial pelo roteiro - até mesmo o romance entre Elizabeth e Charlie é tratado sem muito cuidado, apesar da boa química entre os atores. Charlize Theron está bem na pele da ambiciosa Meredith Vickers, mas não tem muito o que fazer além de servir de um empecilho a mais na missão de seus colegas de viagem. Sobra, então, a Michael Fassbender roubar a cena mais uma vez: como o androide David, ele chama a atenção da plateia desde sua primeira cena, transmitindo com perfeição todas as nuances de um personagem que, mesmo não sendo humano, apresenta muito mais complexidades do que se poderia esperar. É Fassbender quem dá o toque de mais sensibilidade de um filme que, apesar de alguns exageros inverossímeis (que tal uma personagem sair correndo depois de uma cesareana?), diverte e impressiona pela qualidade técnica. Não chega a ser um "Alien: o oitavo passageiro" - mas algum dos filmes da série chega?

domingo

PASSAGEIROS

PASSAGEIROS (Passengers, 2016, Columbia Pictures, 116min) Direção: Morten Tyldum. Roteiro: Jon Spaihts. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Maryann Brandon. Música: Thomas Newman. Figurino: Jany Temime. Direção de arte/cenário: Guy Hendrix Dyas/Gene Serdena. Produção executiva: Greg Basser, Bruce Berman, Ben Browning, David B. Householter, Jon Spaihts, Lynwood Spinks, Ben Waisbren. Produção: Stephen Hamel, Michael Maher, Ori Marmur, Neal H. Moritz. Elenco: Chris Pratt, Jennifer Lawrence, Laurence Fishburne, Michael Sheen, Andy Garcia. Estreia: 14/12/16

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários

Quando um cineasta de fora de Hollywood consegue romper a barreira do bairrismo e chegar a uma indicação ao Oscar de melhor filme e direção, o que se espera que ele faça em seguida? Várias respostas seriam as corretas, mas o norueguês Morten Tyldum surpreendeu a todos optando pelo caminho menos provável: encarar uma ficção científica produzida por um grande estúdio e com um orçamento acima dos 100 milhões de dólares. Depois do contido e delicado "O jogo da imitação" - a história do matemático inglês que praticamente inventou o computador, abreviou a II Guerra Mundial em anos e foi condenado pelo governo por ser homossexual - Tyldum deixou a discrição de lado e abraçou sem medo o cinemão comercial com "Passageiros", realizado com todos os recursos de uma superprodução e dois atores em ascensão na liderança do elenco. Logicamente não obteve as mesmas críticas entusiasmadas de seu longa anterior, mas demonstrou um inesperado talento em lidar com as engrenagens de um gênero com regras próprias e bastante rígidas. Com um roteiro que equilibra com parcimônia ação, romance e suspense sem se preocupar com elocubrações metafísicas ou filosóficas, "Passageiros" cumpre o que promete, mesmo que jamais ouse.


Pensado inicialmente como um veículo para o ator Keanu Reeves - cuja companhia desenvolveu o projeto em seus primeiros estágios - "Passageiros" passou pelas mãos de vários nomes importantes de Hollywood antes de cair no colo de Tyldum, inclusive do criterioso David Fincher e do eclético Marc Forster. Depois da saída de Reeves - e consequentemente de sua cogitada colega de cena Rachel McAdams - a escolha de Chris Pratt, em alta depois do sucesso de "Guardiões da Galáxia" (2014) e "Jurassic World" (2015), pareceu uma escolha natural. Carismático e talentoso, Pratt conquista a plateia já em suas cenas iniciais, e sua simpatia consegue até mesmo fazer com que alguns de seus atos - bastante questionáveis - pareçam mais românticos do que realmente são. A seu lado, Jennifer Lawrence comprova que foi uma aposta certeira da indústria quando levou seu Oscar por "O lado bom da vida" (2012): bela, simpática e capaz de alcançar a nota certa em cada momento, ela ainda demonstra uma invejável química com seu parceiro de cena, transformando o que poderia ser mais uma experiência claustrofóbica e quase monótona em um agradável entretenimento, que agrada aos fãs do gênero sem afastar o espectador menos afeito a ele.


A história se passa na Starship Avalon, uma nave espacial que está levando 5.000 passageiros e mais duas centenas de tripulantes para uma das colônias da Terra, chamada Homestead Colony e que promete uma qualidade de vida muito superior à de seu planeta de origem. Atingida por uma chuva de asteroides, a nave sofre uma pane e acaba por despertar um dos viajantes, o engenheiro Jim Preston (Chris Pratt), que não demora a descobrir, para seu desespero, que ele acordou muito antes do esperado e que não há como chegar a seu destino final em menos de 90 anos. Tendo apenas o garçom androide Arthur (Michael Sheen) para conversar, ele leva um ano para chegar à conclusão de que a única maneira que tem de se relacionar com uma pessoa de verdade é acordando outro passageiro. Depois de examinar o perfil da escritora Aurora Lane (Jennifer Lawrence), ele acaba a escolhendo para ser sua parceira de desventura. A princípio acreditando que também despertou por acidente, ela ajuda o rapaz a procurar um modo de consertar a espaçonave e eles acabam se apaixonando. O despertar de um tripulante, Gus Mancuso (Laurence Fishburne) e a descoberta de que outros problemas ameaçam o sucesso da viagem - assim como a realidade sobre o despertar de Aurora (cujo nome é uma homenagem explícita à Bela Adormecida) - agitam ainda mais as coisas, obrigando a todos a forjar uma união para salvar suas vidas.

Ainda que o terço final carregue um pouco no exagero ao criar cenas de ação que justifiquem os gastos com efeitos especiais e o custo de 110 milhões de dólares, o roteiro de "Passageiros" tem uma vantagem em relação a alguns de seus congêneres: ao não se levar tão a sério como poderia, oferece ao público uma alternativa menos densa do que produções como "Gravidade" (2013), "Interestelar" (2014) e "A chegada" (2016), que se utilizaram dos elementos de ficção científica para discutir temas complexos e deixaram de lado, muitas vezes, a premissa básica do cinema de entretenimento: diversão. Sem intenção nenhuma a não ser levar a plateia a um passeio de duas horas em uma montanha-russa, Tyldum atinge plenamente seu objetivo, graças a um departamento técnico impecável - a direção de arte e a trilha sonora foram indicados ao Oscar - e a uma escalação certeira de elenco. Não muda a história da ficção científica e até pode ter alguns furos no roteiro, mas é praticamente impossível não se deixar envolver pela trama e por seu bom-humor contagiante. Uma ótima pedida.

INTERESTELAR

INTERESTELAR (Interstellar, 2014, Paramount Pictures/Warner Bros/Legendary Entertainment, 169min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jontahan Nolan. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Gary Fettis, Helen Kozora-Tell. Produção executiva: Jordan Goldberg, Jake Myers, Kip Thorne, Thomas Tull. Produção: Christopher Nolan, Lynda Obst, Emma Thomas. Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Matt Damon, Michael Caine, Ellen Burstyn, David Oyelowo, Wes Bentley, William Devane, Casey Affleck, Topher Grace. Estreia: 26/10/14

5 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais 

Em 2006, quando ainda era um projeto da Paramount Pictures, "Interestelar" seria dirigido por um tal de Steven Spielberg, que contratou Jonathan Nolan para escrever o roteiro, inspirado em teorias científicas do físico Kip Thorne. A história original, que envolvia um conceito chamado de "caminho de minhoca" e várias outras situações que também inspiraram Carl Sagan a escrever seu clássico "Contato", acabou sendo deixada de lado pelo oscarizado cineasta em 2012, quando foi parar, então, nas mãos do irmão do roteirista, um homem que, em poucos anos de carreira, já havia redefinido os filmes de super-heróis com uma sombria trilogia protagonizada por Batman e criado um dos mais fascinantes e inteligentes filmes de ação da história ("A origem"): assumindo um projeto arriscado, caro (165 milhões de dólares) e sujeito à boa vontade de uma plateia mal-acostumada com blockbusters que não exigem muito do cérebro, Christopher Nolan transferiu a produção para sua casa (Warner Bros) e, com uma equipe de confiança a seu lado, realizou mais uma obra-prima que conquistou o público. Com mais de 600 milhões de dólares arrecadados ao redor do mundo, "Interestelar" - uma ficção científica empolgante, inteligente e emocionante - também colocou seu diretor em uma posição bastante privilegiada na indústria, ao ser o quarto filme seguido do diretor eleito como um dos dez melhores do ano pelo American Film Institute.

Como é comum na filmografia de Nolan, "Interestelar" se utiliza de uma técnica impecável para contar uma história que, no fundo, tem ressonâncias emocionais da mais alta profundidade. Sua receita de sucesso - contar com personagens fortes e ligações interpessoais que conectem a plateia com a trama, por mais complexa que ela possa parecer a princípio - mostrou-se vitoriosa principalmente em "A origem" (2010), e volta a funcionar à perfeição neste que talvez seja seu filme mais difícil até o momento. Longo (quase três horas de duração), dotado de um ritmo próprio que evita os clichês de filmes de ação e repleto de explicações científicas que poderiam assustar qualquer espectador acostumado às explosões sem sentido de Michael Bay, "Interestelar" é a prova cabal de que inteligência e diversão podem tranquilamente caminhar lado a lado - e que o público não é tão avesso quanto se pensa ao ato de por o cérebro para funcionar de vez em quando. Vencedor do Oscar de efeitos visuais - concorreu também às estatuetas de edição de som, mixagem de som, trilha sonora e direção de arte - o filme seduz pelo visual estonteante, mas se torna uma experiência única quando deixa a sensibilidade falar mais alto que a tecnologia.


A história imaginada por Nolan começa como mais uma produção sobre futuros distópicos, onde a humanidade está ameaçada de desaparecer diante de uma série de catástrofes que foram minando, pouco a pouco, todos os recursos naturais da Terra. É nesse ambiente desolador que o público é apresentado ao protagonista, Cooper (Matthew McConaughey), um engenheiro e piloto de testes da NASA tornado fazendeiro no Texas após a morte da esposa, e que tenta, a muito custo, manter a propriedade da família e cuidar dos dois filhos e do sogro. Seu destino, porém, logo lhe será revelado: após investigar o aparecimento de misteriosos sinais em sua fazenda, Cooper resolve seguir suas coordenadas e acaba parando em um bunker secreto, comandado pelo veterano John Brand (Michael Caine), um cientista com quem já havia trabalhado no passado. É Brand quem convence Cooper a entrar na mais perigosa aventura de sua vida: juntar-se a um pequeno grupo de exploradores - que inclui a filha de seu ex-chefe, Amelia (Anne Hathaway) - e viajar no espaço à procura de planetas que possam servir de salvação para o aparentemente inevitável extermínio da Terra e seus habitantes. Pensando nos filhos e na possibilidade de salvar a humanidade - um plano B seria o de colonização de outro ambiente propício à sobrevivência humana - Cooper aceita a missão, para desespero de sua filha, Murphy (Mackenzie Foy), uma menina de inteligência acima da média que se recusa a aceitar a partida do pai. A viagem exploratória começa, e é a partir daí que "Interestelar" pega todo mundo de surpresa.

Durante mais de duas horas, o roteiro dos irmãos Nolan segue o padrão dos filmes de ficção científica a que o público está habituado: efeitos visuais de primeira, alguns diálogos recheados de termos complexos, sequências de ação deslumbrantes e com altas doses de suspense, personagens que não são exatamente o que parecem. São seus trinta minutos finais, porém, que o tornam especial. Com uma reviravolta que põe em perspectiva tudo que foi mostrado até então e torna essenciais cada linha de diálogo e cada detalhe mostrados anteriores, a trama fecha um ciclo que, mais do que científico e metafísico, é essencialmente familiar e emotivo, oferecendo à uma Murphy adulta (e vivida com a competência de sempre por Jessica Chastain) uma importância crucial para um desfecho de arrepiar até ao mais cínico dos espectadores. Não importa se a plateia entende os conceitos de "buraco de minhoca" ou tem domínio da maior parte das explanações científicas da trama: é a humanidade que vem dos personagens que faz do filme universal e atemporal. Mais uma obra-prima de Christopher Nolan.

quarta-feira

PERDIDO EM MARTE

PERDIDO EM MARTE (The martian, 2015, 20th Century Fox, 144min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Drew Goddard, romance de Andy Weir. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Pietro Scalia. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Celia Bobak, Zoltán Horváth. Produção executiva: Drew Goddard. Produção: Mark Huffman, Simon Kinberg, Michael Schaefer, Ridley Scott, Aditya Sood. Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Kristen Wiig, Jeff Daniels, Michael Peña, Sean Bean, Kate Mara, Chiwetel Ejiofor, Sebastian Stan, Aksel Hennie. Estreia: 11/9/15 (Festival de Toronto)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Matt Damon), Roteiro Adaptado, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Ator Comédia/Musical (Matt Damon) 

Uma das maiores polêmicas na ocasião de entrega dos Golden Globes 2016 ocorreu com a vitória dupla de "Perdido em Marte", de Ridley Scott, premiado como melhor filme e ator (Matt Damon) na subcategoria comédia ou musical. Não que o filme não tivesse méritos para isso, já que é um dos melhores trabalhos do cineasta inglês desde o megasucesso "Gladiador" (2000): o problema é que a adaptação do romance de Andy Weir NÃO é uma comédia, apesar de alguns momentos menos pesados e um certo tom de ironia no protagonista. Uma ficção científica à moda antiga, mas com todo o requinte visual que a tecnologia moderna pode oferecer, "Perdido em Marte" acabou sendo inscrito para as premiações para não enfrentar uma concorrência maior com os dramas lançados na temporada - e dos quais saiu vencedor o controverso "Spotlight: segredos revelados" - e se deu muito bem. Além das estatuetas do Golden Globe (de resto merecidas), arrebatou sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, ator e roteiro adaptado. Ridley Scott, inexplicavelmente, ficou de fora.

Um dos grandes cineastas de sua época a ainda não terem um Oscar em casa, Ridley Scott tem familiaridade com a ficção científica, gênero que deu à sua carreira alguns de seus maiores êxitos (comerciais ou de crítica). São dele filmes essenciais, como "Alien: o oitavo passageiro" (79) e "Blade Runner: o caçador de androides" (82), e nem mesmo seu "Prometheus" (2012), que dividiu opiniões, é um filme menor. Confortável em lidar com os paradigmas do gênero e com as dificuldades de comandar orçamentos generosos - mais de 100 milhões de dólares no caso de "Perdido em Marte" - Scott tirou de letra orquestrar as aventuras e desventuras de Mark Watney, o protagonista de uma história que, apesar de carregar todos os elementos clássicos, conhecidos e amados pelos fãs da ficção científica, agrada também à plateia um tanto avessa a eles. Leve, divertido e emocionante na medida certa, é um filme com tudo de melhor que Hollywood tem a oferecer, embrulhado em um atraente pacote visual e dramático.


O filme não demora a começar, impondo o ritmo desde suas primeiras cenas, que mostram uma equipe de astronautas da NASA sendo obrigada a abortar sua missão em Marte devido a uma violenta e inesperada tempestade que praticamente os expulsa do planeta. Além do fracasso de sua viagem, o grupo liderado pela Comandante Melissa Lewis (Jessica Chastain) ainda precisa lidar com a morte de um de seus integrantes, o botânico Mark Watney (Matt Damon), atingido pelos destroços da tormenta. O que eles não sabem, porém, é que Watney não apenas sobreviveu - graças a um incrível golpe de sorte - como, ciente de sua situação desesperadora, começou a fazer planos para manter-se vivo enquanto não é resgatado. Utilizando-se de sua experiência e seus conhecimentos de física e matemática, ele calcula milimetricamente cada porção de comida, cada fração de oxigênio e cada possibilidade de ser descoberto pelos cientistas na Terra. O que ele não sabe é que, mesmo depois de ter sua sobrevivência descoberta (por acaso), os planos da agência não são tão favoráveis assim em relação a seu resgate. É somente quando as forças do governo, de cientistas estrangeiros e de sua própria equipe são reunidas que um mirabolante e arriscado plano é posto em prática - mesmo sem a certeza de que dará certo.

Com um roteiro surpreendente, que versa sobre teorias complexas mas nunca deixa o público alienado, "Perdido em Marte" tem duas linhas narrativas empolgantes, cada uma com seu próprio ritmo e tom. Enquanto Watney inventa e reinventa modos de comunicação com a Terra e meios de sobreviver com a escassez de comida e oxigênio, membros de diversas agências científicas tentam encontrar soluções para o problema - a essa altura já compartilhado pelo mundo inteiro. Matt Damon dá um show na pele do perseverante protagonista, injetando um senso de humor inesperado a uma espécie de Robinson Crusoé da era moderna. É ele quem comanda o espetáculo - e sua indicação ao Oscar foi extremamente justa, uma vez que ele praticamente atua sozinho por mais de duas horas de sessão. Dividindo a atenção com sua odisseia, as manobras científicas para resgatá-lo igualmente seguram a plateia na poltrona, equilibrando com maestria momentos de pura tensão com cenas brilhantemente executadas, onde se destacam a edição de som e os efeitos visuais (também indicados ao Oscar). É mérito do roteiro e da direção costurar com tanta precisão o drama e a ação, levando o espectador a uma experiência divertida e altamente competente. Com uma trilha sonora onde se destacam sucessos conhecidos do público - "I will survive", de Gloria Gaynor e "Starman", de David Bowie surgem em momentos exatos - e um tom de esperança louvável, "Perdido em Marte" consegue também a façanha de ser o primeiro filme ambientado em Marte a se dar bem na bilheteria e na opinião dos críticos - depois que os execráveis "Planeta Vermelho" e "Missão: Marte", ambos de 2000, praticamente estragaram o planeta por mais de uma década com seus roteiros tenebrosos. É um êxito merecido, de um cineasta ainda não devidamente reconhecido pela Academia.

sábado

O PREDESTINADO

O PREDESTINADO (Predestination, 2014, Screen Australia/Screen Queensland, 97min) Direção: The Spierig Brothers (Michael e Peter). Roteiro: The Spierig Brothers, estória de Robert A. Heinlein. Fotografia: Ben Nott. Montagem: Matt Villa. Música: Peter Spierig. Figurino: Wendy Cork. Direção de arte/cenários: Matthew Putland/Vanessa Cerne. Produção executiva: Michael Burton, Gary Hamilton, Matt Kennedy, James M. Vernon. Produção: Paddy McDonald, Tim McGahan, Michael Spierig, Peter Spierig. Elenco: Ethan Hawke, Sarah Snook, Noah Taylor, Christopher Kirby, Christopher Sommers, Cate Wolfe. Estreia: 08/3/14 (South by Southwest Festival)

Em 1999, dois irmãos pegaram o mundo da ficção científica de surpresa com um dos filmes mais impactantes e criativos do gênero em muitos anos. Eram Larry e Andy Wachowski, e seu filho, "Matrix", fascinou crítica e público, além de abiscoitar quatro Oscar - efeitos especiais, montagem, som e efeitos sonoros - e dar origem a uma trilogia que ainda hoje influencia muitos cineastas. Quinze anos mais tarde, outra dupla de irmãos - Michael e Peter Spierig - abdicou das pirotecnias visuais e, de posse de um conto do mestre Robert A. Heinlen (autor do clássico "Duna"), assinou um dos mais interessantes exemplares do gênero a surgir nas telas em muito tempo. Injustamente ignorado pela plateia, "O predestinado" pode e deve ser descoberto no mercado de dvd/bluray: sem apelar para orçamentos milionários e apostando basicamente na força de sua história, o filme é simplesmente sensacional em sua complexidade e fatalismo, e apresenta ao público uma atriz a se prestar atenção, a ótima Sarah Snook.

O protagonista da intrincada história é Ethan Hawke, excelente na pele de um agente policial, parte de um grupo de elite a quem são permitidas viagens no tempo para impedir crimes e prender seus autores - uma trama que lembra "Minority report, a nova lei", que Steven Spielberg dirigiu baseado em conto do mesmo Philip K. Dick de "Blade Runner, o caçador de andróides". Na caça por um terrorista chamado pelas autoridades de "Detonador sussurrante", que irá provocar a morte de dez mil civis na explosão de uma bomba em Nova York no ano de 1975, o rapaz se disfarça de barman e trava conhecimento com um misterioso cliente que, depois de beber um pouco demais, lhe conta sua trágica e inacreditável história, que envolve treinamentos para o Programa Espacial americano, bebês sequestrados e intervenções cirúrgicas radicais. Sabendo que há alguém responsável pelas desventuras de seu novo amigo, o agente lhe propõe que viaje com ele ao passado para acertar suas contas.


O ideal é que se saiba o mínimo possível sobre a trama de "O predestinado" para que mais o filme dos irmãos Spierig surpreenda o espectador com suas imprevisíveis reviravoltas, mas mesmo em uma segunda sessão é fascinante perceber o cuidado dos cineastas em dar pistas sobre o desfecho da história sem explicitar nada - algo que M. Night Shyamalan fez com maestria com seu "O sexto sentido". Com uma bela fotografia em tom amarelado de Ben Nott emoldurando uma narrativa rocambolesca e repleta de níveis, a produção oferece à plateia mais do que simplesmente um jogo de gato e rato entre o agente que busca um criminoso desconhecido: versando sobre assuntos importantes como o livre arbítrio e a força do destino, o filme dá um nó na cabeça da audiência sem nunca apressar seu ritmo, que destoa da velocidade tradicional dos filmes de sua geração. O roteiro não tem pressa em resolver tudo que propõe, enfatizando mais o suspense do que a ficção científica - ainda que seja inegável que seu núcleo seja nitidamente da tradição dos grandes escritores do gênero.

E além da qualidade do texto e da direção inspirada, outro elemento faz de "O predestinado" um filme a ser cultuado: a atuação brilhante de Sarah Snook. Na pele da tímida Jane, que descobre ainda na juventude seu imenso talento em fugir das convenções e o utiliza para superar as humilhações e tristezas que cruzam seu caminho, Snook dá conta de um dos personagens mais complexos e inusitados do cinema dos últimos anos. Injustamente ignorada pelas cerimônias de premiação, ela rouba a cena com uma transformação física e emocional das mais corajosas já vistas nas telas. Em um duelo de interpretação com Ethan Hawke ela acaba saindo-se vitoriosa mesmo diante da vasta experiência do colega. Ela é, sem dúvida, o corpo e a alma de um dos filmes mais subestimados da temporada 2014. Imperdível!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...