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terça-feira

MEU PAI


MEU PAI (The father, 2020, Sony Pictures/Les Films du Cru/Film4/Orange Studio, 97min) Direção: Florian Zeller. Roteiro: Christopher Hampton, Florian Zeller, peça teatral de Florian Zeller. Fotografia: Ben Smithard. Montagem: Yorgos Lamprinos. Música: Ludovico Eunadi. Figurino: Anna Mary Scott Robins. Direção de arte/cenários: P
eeter Francis/Cathy Featherstone. Produção executiva: Daniel Battsek, Lauren Dark, Paul Grindey, Hugo Grumbar, Tim Haslam, Ollie Madden. Produção: Philippe Carcassone, Simon Friend, Jean-Louis Livi, David Parfitt, Christophe Spadone. Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Olivia Williams, Rufus Sewell, Imogene Poots, Mark Gatiss, Ayesha Dharker. Estreia: 27/01/2020 (Sundance Film Festival)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Anthony Hopkins), Atriz Coadjuvante (Olivia Colman), Roteiro Adaptado, Montagem, Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 2 Oscar: Ator (Anthony Hopkins), Roteiro Adaptado

A cerimônia do Oscar 2021 - dirigida por Steven Soderbergh e realizada em plena pandemia de Covid-19 - estava programada e organizada para acabar com a vitória de Chadwick Boseman na categoria de melhor ator, por "A voz suprema do blues". Até mesmo a regra já consagrada de deixar o anúncio de melhor filme para o final do evento havia sido alterada para que Boseman - morto precocemente poucos meses antes, aos 43 anos - fosse homenageado com um prêmio póstumo. Para surpresa geral, no entanto - de Soderbergh, dos convidados e dos telespectadores ao redor do mundo -, os membros da Academia preferiram oferecer sua cobiçada estatueta a um antigo vencedor. Por seu desempenho avassalador em "Meu pai", o galês Anthony Hopkins saiu da temporada seu segundo e inesperado Oscar - que foi fazer companhia ao prêmio dos críticos de Boston e ao BAFTA. E até mesmo os fãs do protagonista de "Pantera Negra" foram obrigados a reconhecer que, apesar de seu bom trabalho, sua derrota para Hopkins foi absolutamente justa. Assim como já havia acontecido em 1992, com "O silêncio dos inocentes", basta alguns momentos para que se perceba que premiar outro intérprete seria algo inconcebível.

Um dos mais devastadores retratos do mal de Alzheimer registrados no cinema, "Meu pai" é o filme de estreia do francês Florian Zeller, também autor da peça teatral que lhe deu origem e corroteirista da adaptação - pela qual levou um Oscar, que dividiu com Christopher Hampton. Seu trabalho é minucioso e sensível: sem abandonar a origem de seu texto, Zeller se utiliza de todos os recursos cênicos do cinema como forma de potencializar a sensação de desorientação do protagonista. Não à toa seus principais destaques além do elenco - a edição e o desenho de produção - foram igualmente lembrados pela Academia, rendida à inteligência do autor em contar sua história de forma a mergulhar o espectador na mente confusa de seu personagem central: ao invés de simplesmente mostrar a fragmentação de suas memórias e pensamentos, o filme perturba a zona de conforto do público ao fazê-lo questionar, desde suas primeiras cenas, o que é realidade e o que é parte do transtorno mental de Anthony, um inglês octogenário que se vê sucumbindo rapidamente à demência que borra radicalmente as linhas divisórias entre os fatos e as armadilhas de sua mente.

 

Assistir a "Meu pai" é adentrar em um universo que impede qualquer tipo de certezas factuais. Logo na primeira cena, Anthony (em uma atuação nunca aquém de magistral de Hopkins) se vê encostado na parede por sua filha, Anne (Olivia Colman, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), que tenta convencê-lo a aceitar os cuidados de uma enfermeira: ciente de que o pai está a cada dia mais confuso e perdendo a noção do que é real, ela também lhe informa que está em vias de sair de Londres e se mudar para Paris com o novo namorado. A partir daí, no entanto, o estado mental do octogenário entra em colapso absoluto, confundido nomes, datas, cenários, conversas e cronologias. O filme de Zeller, então, trabalha com a inconstância psicológica de seu protagonista através de uma edição primorosa, que embaralha as cenas e as situações decorrentes da premissa inicial. Em seus delírios (devidamente testemunhados por um atarantado espectador), Anthony confunde rostos e nomes, datas e situações, aposentos domésticos e até mesmo mantém como viva a memória de uma filha morta precocemente. Sua angústia atinge principalmente Anne, cuja vida não consegue progredir enquanto não resolver o problema de conviver com o mal de seu pai - uma questão que prejudica seu relacionamento com Paul (Rufus Sewell), pouco paciente com a falta de perspectivas em relação ao futuro.

"Meu pai" é uma obra-prima em todos os aspectos. Anthony Hopkins oferece ao público o maior desempenho de sua carreira - o que, se tratando do homem que legou ao cinema o apavorante Hannibal Lecter de "O silêncio dos inocentes" (1991) - e a direção segura de Florian Zeller nem de longe dá pistas de que este é seu trabalho de estreia. Sofisticado e inteligente ao mesmo tempo em que não foge da emoção mais primordial - uma das cenas finais arrancou lágrimas até mesmo da equipe, no momento da filmagem -, fica na memória do público graças à feliz confluência de elementos essenciais para um resultado dos mais sólidos do cinema recente. Uma pena que o filme seguinte do diretor, "Um filho" (2022) - que acompanha a relação entre um pai e seu filho com problemas com drogas - ficou muito abaixo das expectativas apesar da presença do esforçado Hugh Jackman.

 

sexta-feira

MEDIDA PROVISÓRIA


MEDIDA PROVISÓRIA (Medida provisória, 2020, Lereby, 103min) Direção: Lázaro Ramos. Roteiro: Lázaro Ramos, Lusa Silvestre, Aldri Anunciação, Elísio Lopes Jr., peça teatral "Namíbia, não", de Aldri Anunciação. Fotografia: Adrian Teijido. Montagem: Diana Vasconcellos. Música: Kiko de Souza, Plínio Profeta, Rincon Sapiência. Figurino: Alex Brollo. Direção de arte/cenários: Tiago Marques Teixeira. Produção executiva: Mariza Figueiredo. Produção: Daniel Filho, Tânia Rocha. Elenco: Alfred Enoch, Taís Araújo, Seu Jorge, Adriana Esteves, Renata Sorrah, Emicida, Mariana Xavier, Flávio Bauraqui. Estreia: 03/10/2020 (Festival de Moscou)

É bem provável que, no panorama cultural brasileiro do momento, não pudesse haver alguém mais apropriado do que Lázaro Ramos para assinar a direção do filme "Medida provisória": ativista dos mais incansáveis da luta contra o racismo e pela preservação da cultura negra, Ramos se aproveita inteligentemente de sua visibilidade como artista global para pautar temas que, em mãos menos sensíveis, poderiam facilmente descambar para a militância oca e/ou oportunista. Se na peça teatral “No topo da montanha”, de Katori Hall – que estreou em 2015 e lotou teatros pelo país todo desde então – ele vivia Martin Luther King em seus últimos momentos de vida, em seu primeiro trabalho como cineasta ele reafirma seu compromisso com a causa da negritude com ainda mais contundência – a ponto de ter incomodado o governo e seus pretensos representantes culturais e ter atrasado seu lançamento comercial. A boa notícia é que, além de ter dado voz a uma história de interesse humano raro, o ator/diretor não deixou de lado seu talento como narrador, construindo uma obra cinematográfica consistente e aterradora.

A peça teatral em que "Medida provisória" se baseia, "Namíbia, Não", de Aldri Anunciação, foi montada pela primeira vez em 2011 – e é chocante como, nos dez anos que separam sua encarnação dos palcos de sua versão para as telas, as coisas não apenas não evoluíram como sofreram um revés brutal. O que há alguns anos poderia soar como uma distopia um tanto distante, hoje em dia surpreende por retratar, sem muitos retoques, uma realidade violenta e atroz que persegue, acua e mata com o aval de parte da população autodescrita como “cidadãos de bem” – muito bem representada, no filme, por uma (mais uma vez) brilhante Renata Sorrah. Discriminação disfarçada de boas intenções é o que move a trama de Medida Provisória – que encontra na direção segura de Lázaro Ramos terreno fértil para discussões relevantes e questionamentos urgentes.

 

A trama do filme se passa em um futuro pouco distante, onde o governo, sob a falácia de reparação histórica – mas com objetivos claríssimos de limpeza étnica – inicia a deportação de todos os cidadãos negros do país para a África. A ideia, logicamente, por sua natureza autoritária e discriminatória, não é aceita passivamente por todos – enquanto alguns brasileiros embarcam de boa vontade e com esperanças de uma nova vida, outros, cientes de suas raízes nacionais e de seu direito à cidadania, batem de frente com o poder estabelecido. Dentre eles, está o jovem advogado Antonio (Alfred Enoch, conhecido pela série "How To Get Away With Murder") e sua esposa, a médica Capitu (Taís Araújo): separados pelas circunstâncias, cada um deles resiste como pode à novidade; ele se recusa a abandonar o apartamento onde mora e se transforma em símbolo de luta; ela, grávida de poucas semanas, se junta a um grupo de opositores à nova medida (uma espécie de quilombo, rebatizado de afrobunker) para organizar uma forma de defesa mais radical. Nesse meio-tempo, batalhas sangrentas ocupam as ruas e o racismo velado da sociedade vem à tona, forçando a uma ruptura de graves consequências.

Seria muito mais confortável ao espectador médio assistir a "Medida provisória" como um filme de ficção científica, como uma espécie de pesadelo cruel e impossível. No entanto, não deixa de ser extremamente incômodo perceber que o que está sendo transmitido na tela diante de nossos olhos é uma metáfora pouco disfarçada de uma situação cada vez menos distante. Felizmente Lázaro Ramos não apela para o sentimentalismo ou a violência gratuita, optando pelo tom de fábula (ainda que realista) e acreditando na potência da trama e de seus personagens – a ponto de ousar fazer um paralelo entre os diferentes tipos de intolerância racial e social. Amparado por um elenco de ouro – Adriana Esteves deita e rola como uma Damares tão cínica e cruel quanto a verdadeira e Seu Jorge quase rouba a cena como o primo do protagonista, dono de uma das cenas mais fortes da produção – e por uma edição ágil e sucinta, "Medida provisória" não funciona apenas como mensagem. É, também, cinema de primeira linha.

quarta-feira

EDUARDO E MÔNICA


EDUARDO E MÔNICA (Eduardo e Mônica, 2020, Gávea Filmes/Barr Company/Fogo Cerrado/Globo Filmes) Direção: Renê Sampaio. Roteiro: Claudia Souto, Jessica Candal, Matheus Souza, Michele Frants, canção de Renato Russo. Fotografia: Gustavo Hadba. Montagem: Lucas Gonzaga, Letícia Giffoni. Música: Pedro Guedes, Fabiano Krieger, Lucas Marcier. Figurino: Valeria Stefani. Direção de arte/cenários: Tiago Marques Teixeira. Produção executiva: Gabriel Bortolini, Mariana Ricciardi. Produção: Bianca De Felippes, Juliana Funaro, Renê Sampaio. Elenco: Alice Braga, Gabriel Leone, Otávio Augusto, Juliana Carneiro da Cunha, Victor Lamoglia. Estreia: 08/3/2020 (Festival de Miami)

Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar: ficou deitado e viu que horas eram, enquanto Mônica tomava um conhaque noutro canto da cidade, como eles disseram...

Não havia quem ouvisse rádio na segunda metade da década de 1980 que não conhecesse a terna história de amor de Eduardo e Mônica, personagens principais de uma das mais populares obras da banda Legião Urbana. Lançada no álbum "Dois", de 1986, a canção tornou-se, com o tempo, atemporal e parte do inconsciente coletivo nacional, conhecida até mesmo por aqueles para quem o grupo liderado por Renato Russo não passa de uma peça de museu. Como uma crônica irônica e ao mesmo tempo sensível de um tempo e uma geração, a quilométrica letra de Russo já era, desde sua gênese, um roteiro implorando para ser filmado - e diante disso até que demorou para que Eduardo e Mônica passassem de ícones culturais oitentistas a protagonistas de uma produção cinematográfica. Dirigido pelo mesmo Renê Sampaio que traduziu outra obra de Russo para as telas - o polêmico "Faroeste Caboclo", de 2013 - e estrelado pelos carismáticos Alice Braga e Gabriel Leone, a versão em carne de osso dos improváveis amantes teve seu lançamento atrasado pela Covid-19 (sua pré-estreia aconteceu em março de 2020, no Festival de Miami), mas finalmente chegou ao público. A boa notícia: apesar de alguns probleminhas de ritmo e de uma segunda metade que praticamente abandona o material original, o resultado final é leve, agradável e romântico na medida certa. 

A primeira metade do roteiro de Claudia Souto, Jessica Candal, Matheus Souza e Michele Frantz segue quase à risca a letra de Renato Russo. Está tudo lá: Mônica fazendo Medicina, falando alemão, gostando de Bauhaus e Rimbaud; Eduardo vendo novela e jogando futebol de botão com seu avô; as diferenças dos dois como combustível para a paixão nascente. Nessa fase, é fascinante a maneira como Renê Sampaio se utiliza dos anos 1980 como cenário de um período onde tudo apontava para tempos melhores. A trilha sonora repleta de hits da época ajuda não apenas a situar cronologicamente a trama, mas também para comentar a ação - por coincidência, a balada "Total Eclipse Of The Heart", clássico de Bonnie Tyler, que serve como catarse para uma divertida sequência, também serve como apoio no belo "Deserto particular", de Aly Muritiba - e não deixa de ser inteligente acrescentar um tom político à trama. Se a música da Legião Urbana sequer tocava em temas espinhosos, o filme de Sampaio faz do avô de Eduardo um militar aposentado e conservador e do falecido pai de Mônica um comunista exilado durante a ditadura. Tal subtrama não chega a ser desenvolvida como poderia, mas levando-se em conta que a história se passa em Brasília no período da abertura democrática, não deixa de ser interessante - principalmente graças ao talento de Otávio Augusto dando vida a um famigerado "cidadão de bem".

 

A segunda metade do filme, no entanto, deixa de lado o que se conhece para apostar na fórmula já consagrada do cinema romântico a que todos estão acostumados. Separados por motivos profissionais, Eduardo e Mônica precisam lidar com a distância, com as inseguranças a respeito de suas diferenças - as mesmas que os atraíram a princípio - e com todas as questões complicadas atreladas a um relacionamento. A queda do ritmo nessa fase da narrativa é perceptível, e é de se questionar os motivos que levaram os roteiristas a tal opção - talvez os mesmos que fizeram com que a versão para as telas de  Faroeste Caboclo tenha sido tão diferente de sua origem musical. Na tentativa de fugir do previsível e do óbvio, os realizadores de "Eduardo e Mônica" acabaram por desfigurar uma história já consagrada na mente de milhões de fãs. Para sua sorte, contam com atores do nível de Alice Braga e Gabriel Leone - ele, principalmente, transmite toda a gama de sentimentos de seu Eduardo com segurança de veterano, e impede que os clichês atrapalhem a diversão. É difícil não se identificar com seu adolescente desajeitado apaixonado por uma mulher mais velha e experiente - justamente a questão que fez com que todo mundo, por décadas a fio, questionasse se existe razão nas coisas feitas pelo coração.

"Eduardo e Mônica" é um drama romântico com tudo que isso tem de bom e de ruim. É repleto de lugares-comuns, é previsível e não se preocupa em aprofundar psicologicamente seus personagens. Porém, é agradável, é simpático, é leve e tem um irresistível apelo nostálgico que disfarça muito bem seus defeitinhos. Renato Russo estaria orgulhoso!

O FESTIVAL DO AMOR


O FESTIVAL DO AMOR (Rifkin's Festival, 2020, Gravier Productions/Wildside/Orange, 88min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Alisa Lepselter. Música: Stephane Wrembel. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Alain Bainée/Mariona Ferrer. Produção executiva: Lorenzo Gargarossa, Mario Gianani, Lorenzo Mieli, Javier Méndez, Adam B. Stern. Produção: Erika Aronson, Letty Aronson, Jaume Rouers. Elenco: Wallace Shawn, Gina Gershon, Louis Garrell, Christoph Waltz, Sergi Lopez, Elena Anaya, Steve Guttenberg. Estreia: 18/9/2020 (Donostia-San Sebastian Film Festival)

Uma das críticas mais frequentes à obra cinematográfica de Woody Allen diz respeito à sua pretensa intelectualidade – uma falácia, como se percebe facilmente diante de alguns de seus melhores trabalhos, que vão da comédia rasgada de “Um assaltante bem trapalhão” (1969) ao drama nostálgico de “A era do rádio” (1987) – passando pelo suspense de “Match point: ponto final” (2005), a comédia romântica atípica de “Noivo neurótico, noiva nervosa” (1977) e o agridoce suspense de “Crimes e pecados” (1989). Seu “O festival do amor”, dá munição bastante aos detratores que o acusam de autorreferente, mas, ao mesmo tempo, oferece aos fãs uma dose a mais do charme, da inteligência e do bom humor sofisticado que Allen já havia apresentado em “Meia-noite em Paris” (2011), seu último grande filme (premiado com o Oscar de roteiro original). Se em sua incursão pela capital francesa durante a década de 1920 – quando ela abrigava uma efervescência cultural das mais férteis do século XX – o diretor apresentava nomes como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Picasso, Cole Porter, Salvador Dalí e Gertrude Stein convivendo pacificamente com um escritor nascido quarenta anos mais tarde, dessa vez ele volta seus olhos ao cinema clássico europeu –berço de alguns de seus maiores ídolos.

Fã confesso de Ingmar Bergman e Federico Fellini, Woody Allen já havia feito citações a suas obras – de forma mais ou menos explícita. “Memórias” (1980) flertava com o estilo surreal do cineasta italiano e “Interiores” (1978) emulava claramente a filmografia do diretor sueco. Em “O festival do amor” a obsessão vai ainda mais longe – mas compartilhada com sua paixão por Godard, Truffaut, Orson Welles e Luís Buñuel. Pode soar hermético a um público menos afeito à nostalgia e a produções menos comerciais, mas é uma festa aos olhos e ao coração dos cinéfilos. Fotografado com excelência pelo veterano Vittorio Storaro – que aproveita cada cantinho dos deslumbrantes cenários naturais de San Sebástian para emoldurar uma história repleta das neuroses típicas do cineasta -, “O festival do amor” tem o cinema em seu cerne: a sétima arte não é apenas o ganha-pão de seus protagonistas, mas é também seu referencial, a régua pela qual suas próprias vidas são medidas. Mort Rifkin (Wallace Shawn finalmente assumindo um papel principal em uma produção do amigo Allen) é um professor de cinema, apaixonado por clássicos, que aceita acompanhar a esposa mais jovem, Sue (Gina Gershon), uma publicista, a um festival de cinema na Espanha, onde ela será responsável pela assessoria de imprensa de um novo talento do cinema francês, Philippe (Louis Garrell) – cujo próximo filme, segundo ele mesmo, terá a solução para a crise no Oriente Médio. Enquanto Sue não abandona seu cliente – para ciúme de Rifkin -, ele se vê irremediavelmente atraído pela bela Jo (Elena Anaya), a médica que lhe atende em uma emergência.


Algumas situações da trama lembram outros trabalhos de Allen – incluindo aí a eterna paixão de um homem mais velho por uma mulher mais nova, situação dramática que tantos problemas causou ao cineasta em sua vida pessoal – e Rifkin apresenta muitas das características dos personagens criados pelo diretor ao longo de sua carreira. Longe de ser um problema, tal opção permite ao roteiro levar seu protagonista a devaneios que passeiam por “Acossado” (1960), “Jules & Jim: uma mulher para dois” (1962), “Morangos silvestres” (1957), “8 ½” (1963), “Um homem, uma mulher” (1966), “Cidadão Kane” (1941), “O anjo exterminador” (1962), “Quando duas mulheres pecam” (1966) e “O sétimo selo” (1957) – uma sequência genial com a participação especialíssima de Christoph Waltz. E se Mort Rifkin é um personagem típico da filmografia de seu criador, o desempenho de Wallace Shawn é exemplar: sem tentar ser maior que o filme em si, o ator serve como um mestre de cerimônias ao “festival” de citações cinematográficas, se apropriando com segurança de diálogos ferinos (“Francamente, eu preferiria não morrer por motivo nenhum. Nem por doença, nem por velhice e nem engasgado com um bagel....”) e fugindo da imitação óbvia de Allen (o que, de certa forma, atrapalhou Kenneth Branagh em “Celebridades”, de 1999). Seu interesse romântico, a espanhola Elena Anaya (de “A pele que habito”) já não tem muito a fazer senão enfeitar a tela – enquanto Gina Gershon e Louis Garrel parecem se divertir a cada cena.

E se a sétima arte é a razão de ser de “O festival do amor”, um dos maiores prazeres em se assistí-lo é tentar reconhecer suas referências e relembrar grandes momentos do cinema europeu – uma viagem simpática que demonstra claramente que, a despeito de suas dificuldades recentes em conseguir financiamento e distribuição nos EUA, Woody Allen ainda tem muito a oferecer a seus fãs – e àqueles que não abrem mão de inteligência quando procuram por uma boa diversão.

segunda-feira

AVA

 


AVA (Ava, 2020, Voltage Pictures/Freckle Films/Leeding Media, 96min) Direção: Tate Taylor. Roteiro: Matthew Newton. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Zach Staenberg. Música: Bear McCreary. Figurino: Megan Coates. Direção de arte/cenários: Molly Hughes/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Jonathan Deckter, William A. Earon, Erika Hampson, John Norris. Produção: Kelly Carmichael, Nicolas Chartier, Jessica Chastain, Dominic Rustam. Elenco: Jessica Chastain, John Malkovich, Colin Farrell, Common, Geena Davis, Jess Weixler, Ioan Gruffud, Joan Chen. Estreia: 02/7/2020 (Hungria)

Foi-se o tempo em que apenas homens monopolizavam o cinema de ação. Com o passar dos anos e a mudança nos hábitos do público, personagens femininas deixaram de ser apenas espectadoras passivas de sequências de adrenalina em profusão para se tornarem protagonistas de suas próprias aventuras. Agentes secretas, espiãs, matadoras de aluguel ou simplesmente defensoras do lar e da família, as mulheres passaram a donas do próprio destino - e atrizes como Angelina Jolie, Charlize Theron, Linda Hamilton, Jennifer Lawrence e Sigourney Weaver foram promovidas a estrelas de um gênero antes dominado por Stallone, Schwarzenegger, Van-Damme, Vin Diesel e Mel Gibson. Uma das mais recentes aquisições do estilo é Jessica Chastain. Linda, sexy e de constituição física aparentemente frágil, Chastain - mais conhecida por seus desempenhos dramáticos e por uma vitoriosa carreira nos palcos - assume, em "Ava", seu lado mais radical, e embarca sem receio em uma produção que aposta nos clichês como forma de segurar o espectador. Sem novidades e sem se aprofundar nos dramas pessoais de seus personagens centrais, o filme dirigido por Tate Taylor acabou por decepcionar os mais exigentes, mas consegue agradar aos entusiastas - da atriz e do gênero.

A produção de "Ava" não foi isenta de problemas. A mudança em seu nome original - "Eve" foi deixado de lado para que não houvesse confusão com a série "Killing Eve", também sobre matadoras de aluguel - foi o menor dos percalços. O principal deles, para preocupação dos produtores (Chastain incluída), foi a polêmica envolvendo o nome do roteirista Matthew Newton, também contratado como diretor: julgado em 2007 por violência doméstica contra a namorada (e absolvido sob a desculpa de sofrer de distúrbios psiquiátricos), Newton voltou a ser acusado por outras mulheres, desta vez de assédio sexual e abuso. A pressão das redes sociais foi pesada - Chastain chegou a ser questionada sobre o assunto, uma vez que é tida como uma das porta-vozes do movimento MeToo - e a cadeira de diretor não demorou a ficar vaga. Quem acabou assumindo o posto foi Tate Taylor - um cineasta competente mas nunca brilhante -, o nome responsável pelo oscarizado "Histórias cruzadas" (2011) e pelo sucesso "A garota no trem" (2016). Com Taylor no comando, "Ava" ficou nas mãos de um operário e não de um artista conhecido pela ousadia. A má notícia: não há quase nada no resultado final que não tenha sido visto em outras produções similares. A boa notícia: Taylor é um eficiente diretor de atores, e extrai interpretações primorosas de seu talentoso elenco mesmo sem ter um grande material em mãos.


O roteiro de Matthew Newton não se preocupa em aprofundar a psicologia ou o drama de seus personagens, preferindo centrar seu foco em uma trama um tanto quanto confusa sobre traição e lealdade no mundo dos matadores de aluguel. É assim que surge a história de Ava (Jessica Chastain, excelente tanto no drama como na porrada), uma bem-sucedida e talentosa assassina por contrato. Protegida pelo veterano Duke (John Malkovich) - que é, ao mesmo tempo, um mentor e uma figura paterna -, Ava se diferencia dos demais profissionais por sempre fugir dos rígidos protocolos da profissão ao buscar um mínimo de conexão com suas vítimas. Tal característica - e um atentado frustrado - acabam por colocá-la na mira de um dos líderes do grupo, Simon (Colin Farrell), que encomenda sua morte apesar dos clamores de Duke. Sem saber que está condenada pelos próprios  colegas, Ava se reaproxima da família de quem esteve afastada por oito anos, lutando contra o alcoolismo e o vício em drogas. Seu reencontro com o antigo namorado, Michael (Common), a põe em rota de colisão com a irmã, Judy (Jess Weixler), atual noiva do rapaz, e reacende os problemas com a mãe, Bobbi (Geena Davis).

Como era de se esperar, "Ava" tem nas sequências de ação o seu maior trunfo. Mesmo que o resultado esteja a anos-luz de distância da icônica trilogia Jason Bourne - só para citar um dos exemplares mais famosos do gênero - e a edição deixe a desejar, com um excesso de cortes que impede de aproveitar por inteiro as longas coreografias de luta, o filme de Taylor não decepciona por completo. Boa parte de sua qualidade está na escolha de um elenco que dá dignidade e consistência a uma trama frágil - e por vezes incompreensível. Jessica Chastain brilha como sempre, oferecendo nuances várias a uma personagem que em mãos erradas poderia ser apenas incoerente. Colin Farrell e John Malkovich protagonizam cenas de grande tensão com a tranquilidade de veteranos e até mesmo Geena Davis ressurge, em uma participação pequena mas emocionante - vale lembrar que Davis foi uma das pioneiras em tentar elevar as mulheres à protagonização de filmes de ação, com os malfadados "A ilha da garganta cortada" (1995) e " Despertar de um pesadelo" (1996). Divertido mas esquecível, "Ava" fica em um razoável meio-termo: agrada aos fãs do estilo mas dificilmente conquista novos adeptos.

terça-feira

SAÍDA À FRANCESA

 


SAÍDA À FRANCESA (French exit, 2020, Blinder Films/Elevation Pictures/Rocket Sciense/Sony Pictures, 113min) Direção: Azazel Jacobs. Roteiro: Patrick DeWitt, romance homônico de sua autoria. Fotografia: Tobias Datum. Montagem: Hilda Rasula. Música: Nicholas DeWitt. Figurino: Jane Petrie. Direção de arte/cenários: Jean-Andre Carriere/Manon Lemay, Joelle Péloquin. Produção executiva: Matt Aselton, Ian Cooper, Patrick DeWitt, Azazel Jacobs, Adrian Love, Stuart Manashil, Vincent Maraval, Marc Marrie, Laurie May, Darrin Navarro, Thorsten Schumacher, Lars Sylvest. Produção: Trish Dolman, Olivier Glaas, Christine Haebler, Katie Holly, Christina Piovesan, Noah Segal. Elenco: Michelle Pfeiffer, Lucas Hedges, Tracy Letts, Valerie Mahaffey, Susan Coine, Imogene Poots, Danielle Macdonald. Estreia: 10/10/2020 (New York Festival)

Frances Price é viúva há mais de dez anos – mais de uma década em que convive com a desconfiança das pessoas em relação ao fato de ter demorado muito mais que o conveniente para tomar qualquer atitude diante do marido morto. Mais de uma década vivendo de uma herança que, como quase tudo, tem prazo para acabar. Sabendo que sua imagem de socialite está com os dias contados – sua vida perdulária e irresponsável finalmente cobra o preço depois de excentricidades irresponsáveis -, Frances resolve esconder sua nova situação e, passando a mão em seus últimos bens e no único filho, Malcolm, viaja para morar em Paris, no apartamento da única amiga que ainda lhe resta. Lá, ela pretende fugir do olhar crítico da alta sociedade a que um dia pertenceu – e viver discretamente seus derradeiros anos de vida.

Talvez a sinopse de “Saída à francesa” não seja exatamente entusiasmante. Porém, por mais paradoxal que isso pareça quando se trata de uma produção cinematográfica made in Hollywood, a intenção do diretor Azazel Jacobs seja justamente esta: demonstrar que nem sempre são necessárias ideias mirabolantes para se criar um filme interessante. E “Saída à francesa”, a despeito da simplicidade de sua trama, É um filme interessante. Por trás da história banal de uma mulher incapaz de abandonar seu status social mesmo quando já não há onde se amparar, há um roteiro repleto de ironias, peculiaridades e personagens complexos, capazes de surpreender ao espectador que se permitir embarcar em sua estranha narrativa.

 

Não que Jacobs aposte em uma atmosfera bizarra ou escorada em um realismo fantástico para contar sua história. O roteiro, porém, escrito pelo mesmo Patrick DeWitt autor do livro que lhe deu origem, brinca com o público ao intercalar, com uma séria crítica à decadência da burguesia norte-americana, um tom quase surreal que mistura espíritos que falam através de gatos (ou tudo não passa de fraude?), pessoas cuja solidão desesperada gritam por ajuda e as belíssimas paisagens parisienses. Paris, aliás, não é apenas um cenário gratuito: com seu ar sofisticado, é o destino ideal para que Frances desfile sua classe e suas idiossincrasias, e, de forma discreta, saia de cena sem chamar atenção demais – nem mesmo de seu dileto e passivo rebento, um rapaz cuja falta de atitude contrasta com os rompantes da mãe. Sem forças nem mesmo para desafiar os desejos maternos e assumir o noivado com a namorada, Malcolm soa, na vida de Frances, mais como um percalço do que um filho – uma relação cuja placidez da superfície guarda cicatrizes bem mais profundas e que remetem a um passado bem menos atribulado.

E se o roteiro de “Saída à francesa” trabalha bem em deixar escondidos os sentimentos de seus personagens, é um acerto gigantesco que seu elenco seja tão bem escalado. Se Lucas Hedges mais uma vez aposta em uma atuação quase invisível e os atores de apoio entregam exatamente o que se espera deles – com destaque para a ótima Valerie Mahaffey, como uma insuspeita amizade que surge no período francês da protagonista e que é dona de algumas das cenas mais engraçadas -, é inegável que o show aqui é de Michelle Pfeiffer. Indicada ao Golden Globe por seu trabalho (e seriamente cotada para concorrer ao Oscar, em previsões da crítica), Pfeiffer está em um dos melhores momentos da carreira, com um desempenho sutil, que deixa antever um subtexto rico e complexo. Mesmo quando se vê diante de situações em que uma atriz menos experiente poderia escorregar, a eterna Mulher-gato surpreende ao optar sempre pelo menos óbvio. Sua interpretação é o apoio mais que perfeito para uma obra que, evitando os clichês e a crítica fácil, faz uma caricatura sensível e carinhosa de uma geração cuja decadência nem sempre aconteceu com elegância.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...