SNOWDEN: HERÓI OU TRAIDOR (Snowden, 2016, Endgame Entertainment/Vendian Entertainment/KrautPack Entertainment, 134min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Kieran Fitzgerald, livro de Anatoly Kucherena e Luke Harding. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Alex Marquez, Lee Percy. Música: Craig Armstrong. Figurino: Bina Daigegler. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Véronique Melery. Produção executiva: Max Averlaiz, Michael Bassick, Olivier Cottet-Puinel, Douglas Hansen, José Ibañez, Peter Lawson, Romain Le Grand, Bahman Naraghi, Tom Ortenberg, Jérôme Seydoux, James Stern, Christopher Woodrow. Produção: Moritz Borman, Eric Kopeloff, Philip Schulz-Deyle, Fernando Sulichin. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Melissa Leo, Zachary Quinto, Shailene Woodley, Nicolas Cage, Rhys Ifans, Tom Wilkinson, Joely Richardson, Logan Marshall-Green, Timothy Olyphant, Ben Chaplin, Scott Eastwood. Estreia: 21/7/16
Se existe um cineasta certo para contar a história de Edward Snowden nas telas de cinema, esse cineasta é Oliver Stone. Politicamente ativo e pouco dado a sutilezas, Stone ganhou dois Oscar de direção por cutucar o governo americano a respeito da guerra do Vietnã (por "Platoon", de 1986, e "Nascido em 4 de julho", de 1989) e nunca mediu palavras - ou imagens - para deixar bem claras suas posições liberais e democratas. Há muito tempo sem um grande sucesso de bilheteria - seu último trabalho a fazer barulho comercialmente foi "JFK", em 1991 - e massacrado impiedosamente pela crítica por seus trabalhos mais recentes, como "As Torres Gêmeas" (2006) e "Selvagens" (2012), Stone encontrou na trajetória arriscada e corajosa do jovem informante a matéria-prima para uma produção não apenas contundente e atual, mas extremamente necessária. Como era de se esperar, o filme fracassou comercialmente - nos EUA rendeu pouco mais da metade de seu orçamento, estimado em 40 milhões de dólares - e dividiu a crítica, mas é inegável que é o melhor Stone desde "Assassinos por natureza" (94), o que é ainda mais admirável quando se percebe que é também um dos filmes de narrativa mais acessível da carreira do diretor.
Dispensando os cacoetes visuais e artifícios narrativos que vem marcando sua carreira desde a década de 90, Oliver Stone faz de "Snowden: herói ou traidor" uma obra linear e quase convencional, que aposta muito mais no roteiro quase didático do que no visual exuberante - é a primeira vez que o cineasta se utiliza de câmeras digitais sem que seja em um documentário. Apesar da edição continuar sendo um dos destaques (aqui a cargo de Alex Marquez e Lee Percy), Stone abre mão de suas manias de despejar diante da audiência imagens em ritmo alucinante e quase esquizofrênico: a história é, sim, contada em duas linhas de tempo distintas, mas sem que uma atropele a outra e sem que o público perca o fio da meada diante do excesso de informações. O roteiro, baseado no livro "Time of the Octopus" do advogado russo Anatoly Kucherena - tratado como ficção mas amplamente baseado em entrevistas com Snowden -, é a força motriz do filme, a base sobre a qual o diretor constrói uma severa crítica ao modo como os governos Bush e Obama lidaram com espionagem em grande escala e nas graves consequências de tais atos. Com imagens reais de governos atingidos pelo escândalo - incluindo o Brasil - e sem medo de apontar dedos, "Snowden" é surpreendentemente sóbrio e honesto. Stone parece dizer, com sua direção discreta, que a história (forte, assustadora, chocante) é maior do que qualquer tentativa de manipulação artística.
O filme começa em junho de 2013, quando o jovem Edward Snowden (Joseph Gordon-Levitt) se encontra com o jornalista Glenn Greenwald (Zachary Quinto) e a documentarista Laura Poitras (Melissa Leo) em um hotel de Hong Kong - Greenwald mais tarde seria um dos mais ferrenhos opositores ao golpe parlamentar que destitui a presidente Dilma Roussef, e Proitas ganharia o Oscar de documentário por "Cidadãoquatro" (2014), justamente sobre o escândalo denunciado por Snowden. O encontro entre os três tem uma razão muito simples, ainda que potencialmente explosiva: o rapaz, ex-funcionário da CIA e da NSA, tem documentos que comprovam sem espaço para quaisquer dúvidas, de que o governo norte-americano, em nome da defesa nacional, tem acesso irrestrito a informações pessoais e confidenciais de todo o planeta - e que as utiliza sem nenhum critério ético ou moral. A partir daí, o roteiro intercala as reuniões do grupo (que contam ainda com o repórter do jornal "The Guardian", Ewen MacAskill (Tom Wilkinson)) com a trajetória do rapaz dentro das agências de segurança do país. Com inteligência acima da média e digno da confiança de seus colegas e superiores, Snowden aos poucos vai tomando conhecimento do absurdo que é a rede de espionagem que ele mesmo criou (com objetivos outros, menos invasivos). Ao lado da namorada, Lindsay (Shailene Woodley), ele entra em uma severa crise de consciência até que resolve expor toda a verdade ao mundo.
Um thriller político da mais alta qualidade - que consegue equilibrar com maestria tanto o suspense quanto a crítica ao governo -, "Snowden" comprova que Oliver Stone é, apesar de alguns exageros de sua carreira, um dos cineastas mais instigantes de Hollywood. Destemido e feroz em suas declarações cinematográficas, é também um contador de histórias nato, convincente e quase diabólico em suas tentativas de vender seu peixe. Além do mais, é um excelente diretor de atores: se todo o elenco de "Snowden" é homogeneamente competente (incluindo uma pequena participação de Nicolas Cage), a composição de Joseph Gordon-Levitt é impressionante. Mesmo sem ter semelhanças físicas com o protagonista, quando está em cena o jovem ator simplesmente se transforma no personagem: a voz, o gestual e a forma de falar engolem Levitt e fazem surgir um Edward Snowden irretocável, capaz de confundir aos desavisados - tal similaridade física fica evidente na última cena, em que o verdadeiro Snowden faz uma aparição rápida e marcante. Injustamente esquecido pelo Oscar - que desde "Nixon", de 1995, nunca mais indicou filmes de Stone em nenhuma categoria - e por outras cerimônias de premiação (apenas o Satellite Awards lhe deu uma indicação), Gordon-Levitt comprova ser um dos mais talentosos e versáteis atores de sua geração, capaz de encarar desafios sem medo e sem se repetir. Se "Snowden: herói ou traidor" é tão bom, pode-se dizer que é devido à união perfeita entre diretor, tema, roteiro e ator principal. Um dos grandes filmes de 2016.
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PROMETHEUS
PROMETHEUS (Prometheus, 2012, 20th Century Fox, 124min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Jon Spaihts, Damon Lindelof, elementos criados por Dan O'Bannon, Ronald Shusett. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Pietro Scalia. Música: Marc Streitenfeld. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Sonja Klaus. Produção executiva: Michael Costigan, Michael Ellenberg, Mark Huffam, Damon Lindelof. Produção: David Giler, Walter Hill, Ridley Scott. Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Logan Marshal-Green, Charlize Theron, Guy Pearce, Idris Elba, Rafe Spall, Patrick Wilson. Estreia: 11/4/12
Em 1979, o filme "Alien: o oitavo passageiro" estreou e mudou a forma como o público e a crítica passaram a enxergar a ficção científica no cinema. Referência absoluta no gênero desde então, gerou fortunas com suas sequências - dirigidas por James Cameron (86), David Fincher (92) e Jean-Pierre Jeunet (98) - e nunca deixou de suscitar especulações a respeito de possíveis novas continuações. Demorou mais de três décadas, porém, para que seu diretor original, Ridley Scott, retomasse as rédeas do universo que ajudou a moldar. Para surpresa de muitos, porém, o cineasta inglês não retomou as aventuras da destemida Tenente Ripley, interpretada por Sigourney Weaver nos quatro primeiros capítulos da série: em "Prometheus", ele conta, de maneira elegante mas não menos tensa, fatos acontecidos décadas antes de tudo que foi mostrado no original, em uma jogada ousada e inteligente. Foi parcialmente bem-sucedido: nos EUA, a bilheteria foi apenas razoável (126 milhões de dólares contra o orçamento generoso de 130), mas no resto do mundo, aproveitando-se da fama de uma das marcas mais famosas de Hollywood, chegou perto de 280 milhões. Longe de ser também uma unanimidade entre a crítica, ficou no meio-termo entre aqueles que louvaram a coragem do diretor em fugir do óbvio e aqueles que esperavam muito mais do reencontro do criador com a criatura. Mas, afinal, "Prometheus" é um bom filme ou apenas um mero caça-níqueis de luxo?
Há duas maneiras de se assistir e julgar "Prometheus": como um espectador neófito, a quem todo o universo criado nos quatro primeiros filmes simplesmente inexiste (e a quem portanto tudo é novidade, como um filme qualquer do gênero), ou como um fã da série, ansioso por conhecer as origens de um dos monstros mais longevos da ficção científica cinematográfica (e, consequentemente, muito mais exigente quando se trata do assunto). Para ambas as tribos, o roteiro oferece belos momentos de ação e suspense - tudo orquestrado com a elegância natural de Ridley Scott e um visual estonteante, cortesia da bela fotografia de Dariusz Wolski e da extraordinária direção de arte, concebida a partir do filme original de 1979, mas mostrada ao público do século XXI com todo o requinte que um orçamento generoso e efeitos visuais caprichados podem proporcionar. Porém, ao tentar abraçar esses dois mundos, Scott acabou por ficar no meio do caminho entre a claustrofobia do primeiro capítulo e o senso de espetáculo que James Cameron injetou na continuação de 1986. Coerentemente, em seus dois primeiros atos - em que a atmosfera de tensão sobrepõe-se à ação graficamente violenta - Scott mostra-se mais à vontade em conduzir sua narrativa, dosando com parcimônia momentos mais contemplativos com sequências que dão pistas sobre o que virá pela frente, quando seus personagens finalmente serão obrigados a encarar que não estão sozinhos no universo - e, pior ainda, o estão dividindo com uma espécie não exatamente amistosa.
A trama de "Prometheus" se passa em 2093 - vinte e nove anos antes, portanto, dos acontecimentos do primeiro "Alien". A dupla de arqueologistas Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) faz parte da seleta tripulação escolhida pelo milionário Peter Weyland (Guy Pearce sob pesadíssima maquiagem) para explorar vida extra-terrestre, uma vez que foram responsáveis por encontrar, em uma remota ilha da Escócia algum tempo antes, desenhos rupestres que confirmam suas teorias de há recados para a humanidade desde tempos imemoriais. Depois de hibernar por alguns anos, o grupo de cientistas desembarca em um planeta desconhecido, com a missão de encontrar aqueles que acredita-se ser os criadores da raça humana. A diretora da missão, a ambiciosa Meredith Vickers (Charlize Theron), os proíbe de qualquer contato com tais seres e permanece na nave, ao contrário de David (Michael Fassbender), um androide perfeitamente construído para conviver entre os humanos que é o homem de confiança de Weyland. Assim como em "Alien", eles encontram o que não deveriam encontrar, e sobem a bordo de posse da cabeça de um humanoide que encontram no planeta. Durante a investigação que busca mais detalhes sobre o encontrado, uma série de violentos incidentes que vitimam os cientistas fazem com que Vickers e Shaw entrem em conflito sobre como lidar com a situação e de que forma podem sair com vida do planeta - e ao mesmo tempo manter a salvo as descobertas que seus estudos realizaram.
Assim como acontece em todos os episódios da série "Alien", a trama de "Prometheus" gira em torno de um alienígena assassino que vai trucidando cada um dos personagens, normalmente apresentados com pouca profundidade pelo roteiro. No filme de Scott não é diferente. Com exceção da protagonista vivida por Noomi Rapace (a estrela da versão sueca de "Os homens que não amavam as mulheres"), nenhum dos tripulantes da nave é explorado além de um nível superficial pelo roteiro - até mesmo o romance entre Elizabeth e Charlie é tratado sem muito cuidado, apesar da boa química entre os atores. Charlize Theron está bem na pele da ambiciosa Meredith Vickers, mas não tem muito o que fazer além de servir de um empecilho a mais na missão de seus colegas de viagem. Sobra, então, a Michael Fassbender roubar a cena mais uma vez: como o androide David, ele chama a atenção da plateia desde sua primeira cena, transmitindo com perfeição todas as nuances de um personagem que, mesmo não sendo humano, apresenta muito mais complexidades do que se poderia esperar. É Fassbender quem dá o toque de mais sensibilidade de um filme que, apesar de alguns exageros inverossímeis (que tal uma personagem sair correndo depois de uma cesareana?), diverte e impressiona pela qualidade técnica. Não chega a ser um "Alien: o oitavo passageiro" - mas algum dos filmes da série chega?
Em 1979, o filme "Alien: o oitavo passageiro" estreou e mudou a forma como o público e a crítica passaram a enxergar a ficção científica no cinema. Referência absoluta no gênero desde então, gerou fortunas com suas sequências - dirigidas por James Cameron (86), David Fincher (92) e Jean-Pierre Jeunet (98) - e nunca deixou de suscitar especulações a respeito de possíveis novas continuações. Demorou mais de três décadas, porém, para que seu diretor original, Ridley Scott, retomasse as rédeas do universo que ajudou a moldar. Para surpresa de muitos, porém, o cineasta inglês não retomou as aventuras da destemida Tenente Ripley, interpretada por Sigourney Weaver nos quatro primeiros capítulos da série: em "Prometheus", ele conta, de maneira elegante mas não menos tensa, fatos acontecidos décadas antes de tudo que foi mostrado no original, em uma jogada ousada e inteligente. Foi parcialmente bem-sucedido: nos EUA, a bilheteria foi apenas razoável (126 milhões de dólares contra o orçamento generoso de 130), mas no resto do mundo, aproveitando-se da fama de uma das marcas mais famosas de Hollywood, chegou perto de 280 milhões. Longe de ser também uma unanimidade entre a crítica, ficou no meio-termo entre aqueles que louvaram a coragem do diretor em fugir do óbvio e aqueles que esperavam muito mais do reencontro do criador com a criatura. Mas, afinal, "Prometheus" é um bom filme ou apenas um mero caça-níqueis de luxo?
Há duas maneiras de se assistir e julgar "Prometheus": como um espectador neófito, a quem todo o universo criado nos quatro primeiros filmes simplesmente inexiste (e a quem portanto tudo é novidade, como um filme qualquer do gênero), ou como um fã da série, ansioso por conhecer as origens de um dos monstros mais longevos da ficção científica cinematográfica (e, consequentemente, muito mais exigente quando se trata do assunto). Para ambas as tribos, o roteiro oferece belos momentos de ação e suspense - tudo orquestrado com a elegância natural de Ridley Scott e um visual estonteante, cortesia da bela fotografia de Dariusz Wolski e da extraordinária direção de arte, concebida a partir do filme original de 1979, mas mostrada ao público do século XXI com todo o requinte que um orçamento generoso e efeitos visuais caprichados podem proporcionar. Porém, ao tentar abraçar esses dois mundos, Scott acabou por ficar no meio do caminho entre a claustrofobia do primeiro capítulo e o senso de espetáculo que James Cameron injetou na continuação de 1986. Coerentemente, em seus dois primeiros atos - em que a atmosfera de tensão sobrepõe-se à ação graficamente violenta - Scott mostra-se mais à vontade em conduzir sua narrativa, dosando com parcimônia momentos mais contemplativos com sequências que dão pistas sobre o que virá pela frente, quando seus personagens finalmente serão obrigados a encarar que não estão sozinhos no universo - e, pior ainda, o estão dividindo com uma espécie não exatamente amistosa.
A trama de "Prometheus" se passa em 2093 - vinte e nove anos antes, portanto, dos acontecimentos do primeiro "Alien". A dupla de arqueologistas Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) faz parte da seleta tripulação escolhida pelo milionário Peter Weyland (Guy Pearce sob pesadíssima maquiagem) para explorar vida extra-terrestre, uma vez que foram responsáveis por encontrar, em uma remota ilha da Escócia algum tempo antes, desenhos rupestres que confirmam suas teorias de há recados para a humanidade desde tempos imemoriais. Depois de hibernar por alguns anos, o grupo de cientistas desembarca em um planeta desconhecido, com a missão de encontrar aqueles que acredita-se ser os criadores da raça humana. A diretora da missão, a ambiciosa Meredith Vickers (Charlize Theron), os proíbe de qualquer contato com tais seres e permanece na nave, ao contrário de David (Michael Fassbender), um androide perfeitamente construído para conviver entre os humanos que é o homem de confiança de Weyland. Assim como em "Alien", eles encontram o que não deveriam encontrar, e sobem a bordo de posse da cabeça de um humanoide que encontram no planeta. Durante a investigação que busca mais detalhes sobre o encontrado, uma série de violentos incidentes que vitimam os cientistas fazem com que Vickers e Shaw entrem em conflito sobre como lidar com a situação e de que forma podem sair com vida do planeta - e ao mesmo tempo manter a salvo as descobertas que seus estudos realizaram.
Assim como acontece em todos os episódios da série "Alien", a trama de "Prometheus" gira em torno de um alienígena assassino que vai trucidando cada um dos personagens, normalmente apresentados com pouca profundidade pelo roteiro. No filme de Scott não é diferente. Com exceção da protagonista vivida por Noomi Rapace (a estrela da versão sueca de "Os homens que não amavam as mulheres"), nenhum dos tripulantes da nave é explorado além de um nível superficial pelo roteiro - até mesmo o romance entre Elizabeth e Charlie é tratado sem muito cuidado, apesar da boa química entre os atores. Charlize Theron está bem na pele da ambiciosa Meredith Vickers, mas não tem muito o que fazer além de servir de um empecilho a mais na missão de seus colegas de viagem. Sobra, então, a Michael Fassbender roubar a cena mais uma vez: como o androide David, ele chama a atenção da plateia desde sua primeira cena, transmitindo com perfeição todas as nuances de um personagem que, mesmo não sendo humano, apresenta muito mais complexidades do que se poderia esperar. É Fassbender quem dá o toque de mais sensibilidade de um filme que, apesar de alguns exageros inverossímeis (que tal uma personagem sair correndo depois de uma cesareana?), diverte e impressiona pela qualidade técnica. Não chega a ser um "Alien: o oitavo passageiro" - mas algum dos filmes da série chega?
sábado
O CONVITE
O CONVITE (The invitation, 2015, Gamechanger Films, 100min) Direção: Karyn Susama. Roteiro: Phil Hay, Matt Manfredi. Fotografia: Bobby Shore. Montagem: Plummy Tucker. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Alysia Raycraft. Direção de arte/cenários: Almitra Corey/Ben Plunkett. Produção executiva: Nate Bolotin, Dan Cogan, Wendy Ettinger, Mynette Louie, Tony Mancilla, Julie Parkr Benello, Aubin Paul. Produção: Martha Griffin, Phil Hay, Matt Manfredi, Nick Spicer. Elenco: Logan Marshall-Green, Emayatzy Corinealdi, John Carroll Lynch, Tammy Blanchard, Michiel Huisman, Mike Boyle, Michelle Krusiec, Jordi Vilasuso, Jay Larson, Marieh Delfino, Toby Huss. Estreia: 13/3/15
As cenas iniciais, tensas e com um certo ar de estranhamento, já dá uma pista do que virá: em direção a um jantar na casa de amigos, o casal Will (Logan Marshall-Green) e Kira (Emayatzy Corinealdi) atropela um cervo, e, sem outra opção em vista, o rapaz é obrigado a sacrificar o animal com uma das ferramentas do carro. É esse tom de angústia e tensão que irá se desenvolver e aprofundar por todos os 100 minutos de duração de "O convite", primeiro longa-metragem da nova-iorquina Karyn Susama depois do terror adolescente "Garota infernal" (09). Amadurecida como cineasta e de posse de um material infinitamente mais rico e promissor, ela faz de seu filme um exercício constante de desconforto, enfatizado por uma fotografia opressiva e um elenco que, mesmo sem astros conhecidos, oferece ao espectador um senso de perigo iminente que vai crescendo cada vez mais, até o final aterrador e chocante.
Acostumada a lidar com protagonistas femininas - são dela também "Boa de briga" (2000), com Michelle Rodriguez, e "Aeon Flux" (05), com Charlize Theron - Susama dessa vez centra sua atenção no personagem de Logan Marshall-Green, do elenco de "Prometheus" (12) e idêntico à Tom Hardy em certos momentos. Com uma atuação minimalista e corajosa ao romper com os clichês do gênero, ele empresta a seu Will tintas de tristeza e sofrimento que o afastam do estereótipo de herói inabalável. Contando a história sob seu atormentado ponto de vista, a cineasta o aproxima do espectador sem apelar para artifícios desonestos, utilizando-se apenas de seus conflitos internos para transformá-lo em uma pessoa de carne e osso, falível e propensa a crises de desespero e solidão - mesmo quando rodeado de gente. Will, o protagonista de "O convite", é um personagem de tragédia perdido em meio a uma trama de suspense - uma espécie de Cassandra de calças, incapaz de fazer com que as pessoas enxerguem o óbvio destino reservado a elas.
Will é um homem com um passado traumático. Seu casamento com Eden (Tammy Blanchard) naufragou depois da morte acidental do filho pequeno, um golpe pesado demais para que eles se mantivessem juntos de maneira saudável. Dois anos depois de perder contato com a ex-mulher, ele recebe o convite para juntar-se a ela, a seu novo marido, David (Michiel Huisman), e a um grupo de antigos amigos em um jantar na casa onde viviam anteriormente. Acompanhado da nova companheira, Kira, ele aceita participar da reunião, mas tão logo chega no local passa a sentir uma estranha energia vinda de seus anfitriões. Suas dúvidas em relação às intenções do convite, porém, não são compartilhadas pelos demais convidados, que se sujeitam tranquilamente a todas as brincadeiras e testes propostos para animar a noite. Tranquilos e aparentemente felizes, Eden e David não se cansam de propalar os benefícios de um culto que conheceram durante uma viagem ao México - um simulacro de religião que a ensinou a lidar com a dor da perda e mudou sua vida. Convencido de que o encontro tem muitas ligações com tal culto, Will tenta alertar os amigos, mas ninguém dá ouvidos a seus avisos.... até que ele mesmo passa a duvidar de sua sanidade mental.
Um suspense psicológico que substitui com eficiência a violência gráfica pelo clima claustrofóbico e aflitivo, "O convite" vai construindo sua tensão gradualmente, mergulhando o público em um caldeirão de estranheza que vai ficando mais aguda conforme o tempo passa. De inocentes jogos de salão até revelações melancólicas, a noite alegre vai se tornando um círculo de paranoia crescente, que leva a plateia consigo até explodir em um clímax sangrento que não apenas cumpre o que promete desde seus primeiros minutos, como também critica contundentemente a forma como alguns tipos de religião se aproveitam da dor alheia para promover a violência e o desespero. Desviando com esperteza dos clichês que inundam o gênero, Karyn Susama entrega um filme de horror que prescinde de assassinos mascarados para promover o medo e a agonia. Com os dois pés bem fincados na realidade, ela conquista a audiência e levanta questionamentos relevantes em dias de obscurantismo religioso. De quantos filmes de terror pode-se dizer a mesma coisa?
As cenas iniciais, tensas e com um certo ar de estranhamento, já dá uma pista do que virá: em direção a um jantar na casa de amigos, o casal Will (Logan Marshall-Green) e Kira (Emayatzy Corinealdi) atropela um cervo, e, sem outra opção em vista, o rapaz é obrigado a sacrificar o animal com uma das ferramentas do carro. É esse tom de angústia e tensão que irá se desenvolver e aprofundar por todos os 100 minutos de duração de "O convite", primeiro longa-metragem da nova-iorquina Karyn Susama depois do terror adolescente "Garota infernal" (09). Amadurecida como cineasta e de posse de um material infinitamente mais rico e promissor, ela faz de seu filme um exercício constante de desconforto, enfatizado por uma fotografia opressiva e um elenco que, mesmo sem astros conhecidos, oferece ao espectador um senso de perigo iminente que vai crescendo cada vez mais, até o final aterrador e chocante.
Acostumada a lidar com protagonistas femininas - são dela também "Boa de briga" (2000), com Michelle Rodriguez, e "Aeon Flux" (05), com Charlize Theron - Susama dessa vez centra sua atenção no personagem de Logan Marshall-Green, do elenco de "Prometheus" (12) e idêntico à Tom Hardy em certos momentos. Com uma atuação minimalista e corajosa ao romper com os clichês do gênero, ele empresta a seu Will tintas de tristeza e sofrimento que o afastam do estereótipo de herói inabalável. Contando a história sob seu atormentado ponto de vista, a cineasta o aproxima do espectador sem apelar para artifícios desonestos, utilizando-se apenas de seus conflitos internos para transformá-lo em uma pessoa de carne e osso, falível e propensa a crises de desespero e solidão - mesmo quando rodeado de gente. Will, o protagonista de "O convite", é um personagem de tragédia perdido em meio a uma trama de suspense - uma espécie de Cassandra de calças, incapaz de fazer com que as pessoas enxerguem o óbvio destino reservado a elas.
Will é um homem com um passado traumático. Seu casamento com Eden (Tammy Blanchard) naufragou depois da morte acidental do filho pequeno, um golpe pesado demais para que eles se mantivessem juntos de maneira saudável. Dois anos depois de perder contato com a ex-mulher, ele recebe o convite para juntar-se a ela, a seu novo marido, David (Michiel Huisman), e a um grupo de antigos amigos em um jantar na casa onde viviam anteriormente. Acompanhado da nova companheira, Kira, ele aceita participar da reunião, mas tão logo chega no local passa a sentir uma estranha energia vinda de seus anfitriões. Suas dúvidas em relação às intenções do convite, porém, não são compartilhadas pelos demais convidados, que se sujeitam tranquilamente a todas as brincadeiras e testes propostos para animar a noite. Tranquilos e aparentemente felizes, Eden e David não se cansam de propalar os benefícios de um culto que conheceram durante uma viagem ao México - um simulacro de religião que a ensinou a lidar com a dor da perda e mudou sua vida. Convencido de que o encontro tem muitas ligações com tal culto, Will tenta alertar os amigos, mas ninguém dá ouvidos a seus avisos.... até que ele mesmo passa a duvidar de sua sanidade mental.
Um suspense psicológico que substitui com eficiência a violência gráfica pelo clima claustrofóbico e aflitivo, "O convite" vai construindo sua tensão gradualmente, mergulhando o público em um caldeirão de estranheza que vai ficando mais aguda conforme o tempo passa. De inocentes jogos de salão até revelações melancólicas, a noite alegre vai se tornando um círculo de paranoia crescente, que leva a plateia consigo até explodir em um clímax sangrento que não apenas cumpre o que promete desde seus primeiros minutos, como também critica contundentemente a forma como alguns tipos de religião se aproveitam da dor alheia para promover a violência e o desespero. Desviando com esperteza dos clichês que inundam o gênero, Karyn Susama entrega um filme de horror que prescinde de assassinos mascarados para promover o medo e a agonia. Com os dois pés bem fincados na realidade, ela conquista a audiência e levanta questionamentos relevantes em dias de obscurantismo religioso. De quantos filmes de terror pode-se dizer a mesma coisa?
segunda-feira
DEMÔNIO
DEMÔNIO (Devil, 2010, Universal Pictures, 80min) Direção: John Erick Dowdle. Roteiro: Brian Nelson, estória de M. Night Shyamalan. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Elliot Greenberg. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Erin Benach. Direção de arte/cenários: Martin Whist. Produção executiva: Drew Dowdle, Trish Hofman. Produção: Sam Mercer, M. Night Shyamalan. Elenco: Chris Messina, Logan Marshall-Green, Jenny O'Hara, Bojana Novakovic, Bookem Woodbine, Geoffrey Arend, Jacob Vargas, Matt Craven, Josh Peace. Estreia: 17/9/10
Depois de praticamente ter virado piada em Hollywood graças a filmes como "Fim dos tempos" e "O último mestre do ar", o cineasta M. Night Shyamalan precisava urgentemente se reinventar. Porém, enquanto seu público fiel esperava seu renascimento comercial e artístico - que ainda não veio - ele manteve sua carreira de produtor, sem o peso exagerado de ter seu nome acima do título. Um de seus filmes nessa função foi "Demônio", que fez um sucesso bastante razoável nos EUA: ao custo de apenas 10 milhões de dólares, ele recuperou o orçamento em seu fim-de-semana de estreia e terminou contabilizando uma bilheteria de mais 30 milhões. Primeira parte de uma planejada trilogia chamada "The night chronicles" - que pretendia utilizar elementos sobrenaturais dentro de perímetros urbanos - o filme de John Erick Dowdle (diretor do remake americano de "[REC]") é interessante o bastante para justificar seu êxito e fazer o público aguardar as novas estreias da série, que infelizmente acabaram por não sair.
A história de "Demônio" lembra um pouco as tramas de Stephen King e se beneficia de não apelar para efeitos visuais, monstros ou maquiagem exagerada. O protagonista é Bowden (o ótimo Chris Messina, de "Julie & Julia"), um policial da Filadélfia que tenta recuperar-se da trágica morte da família em um acidente de carro, cinco anos antes. Enquanto investiga um suicídio em um luxuoso prédio comercial da cidade, ele é chamado com urgência para ajudar no resgate de cinco pessoas que ficaram presas em um elevador do mesmo edifício. Enquanto não conseguem ser resgatadas, as cinco pessoas tem que lidar com estranhos acontecimentos dentro do elevador. Um mecânico, uma senhora de idade, um segurança terceirizado, um executivo e uma bela e requintada jovem começam a morrer misteriosa e violentamente, praticamente frente às câmeras de segurança e um dos guardas do prédio, fervorosamente religioso, é o único com uma explicação para os acontecimentos: segundo ele, um dos cinco presos no elevador é o demônio disfarçado, que veio à Terra para buscar os demais.
Sem exigir mais do seu público do que simplesmente atenção e um pouco de credulidade, o roteiro enxuto de Brian Nelson utiliza todos os clichês do gênero a seu favor - algo que Shyamalan faz como poucos. O uso da cor vermelha, característica sua, se faz presente em elementos visuais das personagens, e o uso inteligente do som também colabora na tensão, nunca exagerada e usada na medida certa. E contar com Chris Messina no elenco não atrapalha em nada, muito pelo contrário: é Messina quem transmite humanidade ao filme, em uma interpretação que não lhe ajudará em cerimônias de premiação, mas que comprova o seu status de promessa (e currículo ele tem: além de "Julie & Julia", ele fez parte da última temporada da inesquecível "A sete palmos" e trabalhou com Woody Allen em "Vicky Cristina Barcelona", além de ter entrado também no elenco do premiado "Argo" e do elogiado "Cake", ao lado de Jennifer Aniston.
Tendo sua despretensão e seriedade como principais armas contra a mesmice do suspense, preso em filmes que subestimam a inteligência do público com sustos baratos e tramas ocas, "Demônio" cumpre o que promete e vai mais além, oferecendo à plateia bons momentos de tensão e uma história suficientemente interessante e coerente até seus minutos finais - uma solução inspirada em Agatha Christie e que é capaz de deixar qualquer fã do gênero com um suspiro de alívio em relação a seu futuro. Agora resta esperar que Shyamalan cumpra a promessa e entregue os demais capítulos de sua trilogia.
Depois de praticamente ter virado piada em Hollywood graças a filmes como "Fim dos tempos" e "O último mestre do ar", o cineasta M. Night Shyamalan precisava urgentemente se reinventar. Porém, enquanto seu público fiel esperava seu renascimento comercial e artístico - que ainda não veio - ele manteve sua carreira de produtor, sem o peso exagerado de ter seu nome acima do título. Um de seus filmes nessa função foi "Demônio", que fez um sucesso bastante razoável nos EUA: ao custo de apenas 10 milhões de dólares, ele recuperou o orçamento em seu fim-de-semana de estreia e terminou contabilizando uma bilheteria de mais 30 milhões. Primeira parte de uma planejada trilogia chamada "The night chronicles" - que pretendia utilizar elementos sobrenaturais dentro de perímetros urbanos - o filme de John Erick Dowdle (diretor do remake americano de "[REC]") é interessante o bastante para justificar seu êxito e fazer o público aguardar as novas estreias da série, que infelizmente acabaram por não sair.
A história de "Demônio" lembra um pouco as tramas de Stephen King e se beneficia de não apelar para efeitos visuais, monstros ou maquiagem exagerada. O protagonista é Bowden (o ótimo Chris Messina, de "Julie & Julia"), um policial da Filadélfia que tenta recuperar-se da trágica morte da família em um acidente de carro, cinco anos antes. Enquanto investiga um suicídio em um luxuoso prédio comercial da cidade, ele é chamado com urgência para ajudar no resgate de cinco pessoas que ficaram presas em um elevador do mesmo edifício. Enquanto não conseguem ser resgatadas, as cinco pessoas tem que lidar com estranhos acontecimentos dentro do elevador. Um mecânico, uma senhora de idade, um segurança terceirizado, um executivo e uma bela e requintada jovem começam a morrer misteriosa e violentamente, praticamente frente às câmeras de segurança e um dos guardas do prédio, fervorosamente religioso, é o único com uma explicação para os acontecimentos: segundo ele, um dos cinco presos no elevador é o demônio disfarçado, que veio à Terra para buscar os demais.
Sem exigir mais do seu público do que simplesmente atenção e um pouco de credulidade, o roteiro enxuto de Brian Nelson utiliza todos os clichês do gênero a seu favor - algo que Shyamalan faz como poucos. O uso da cor vermelha, característica sua, se faz presente em elementos visuais das personagens, e o uso inteligente do som também colabora na tensão, nunca exagerada e usada na medida certa. E contar com Chris Messina no elenco não atrapalha em nada, muito pelo contrário: é Messina quem transmite humanidade ao filme, em uma interpretação que não lhe ajudará em cerimônias de premiação, mas que comprova o seu status de promessa (e currículo ele tem: além de "Julie & Julia", ele fez parte da última temporada da inesquecível "A sete palmos" e trabalhou com Woody Allen em "Vicky Cristina Barcelona", além de ter entrado também no elenco do premiado "Argo" e do elogiado "Cake", ao lado de Jennifer Aniston.
Tendo sua despretensão e seriedade como principais armas contra a mesmice do suspense, preso em filmes que subestimam a inteligência do público com sustos baratos e tramas ocas, "Demônio" cumpre o que promete e vai mais além, oferecendo à plateia bons momentos de tensão e uma história suficientemente interessante e coerente até seus minutos finais - uma solução inspirada em Agatha Christie e que é capaz de deixar qualquer fã do gênero com um suspiro de alívio em relação a seu futuro. Agora resta esperar que Shyamalan cumpra a promessa e entregue os demais capítulos de sua trilogia.
quarta-feira
ACROSS THE UNIVERSE
ACROSS THE UNIVERSE (Across the universe, 2007, Revolution Studios, 133min) Direção: Julie Taymor. Roteiro: Dick Clement, Ian LaFrenais, estória de Julie Taymor, Dick Clemente, Ian La Frenais. Fotografia: Bruno Delbonnel. Montagem: Françoise Bonnot. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Albert Wolksy. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Ellen Christiansen de Jonge. Produção executiva: Derek Dauchy, Charles Newirth, Rudd Simmons. Produção: Matthew Gross, Jennifer Todd, Suzane Todd. Elenco: Jim Sturgess, Evan Rachel-Wood, Joe Anderson, Dana Fuchs, Martin Luther, T.V. Carpio, Dylan Baker, Lynn Cohen, Joe Cocker, Bono Vox, Salma Hayek. Estreia: 09/9/07 (Festival de Toronto)
Indicado ao Oscar de Melhor Figurino
Quem não gosta dos Beatles bom sujeito não é, e a cineasta Julie Taymor certamente o é. Depois de ter ousado visualmente com a biografia da artista plástica Frida Kahlo no filme estrelado por Salma Hayek - e que ganhou 2 Oscar, de maquiagem e trilha sonora - Taymor desviou sua atenção para um projeto menos sério, mas igualmente ambicioso: um musical totalmente calcado nas inesquecíveis canções do quarteto de Liverpool. Aproveitando-se da boa vontade com que o gênero vinha sendo recebido pelo público - "Moulin Rouge" e "Chicago" foram elogiados e tiveram bilheterias consideráveis - ela concebeu uma obra que é capaz de fazer cantar o mais tímido espectador.
Aprovado por Paul McCartney e George Harrison - os Beatles remanescentes à época do lançamento do filme - "Across the universe" é uma história de amor simples, com roteiro direto e sem maior profundidade dramática, mas que cumpre perfeitamente o que promete. Quando a trama tem início, o jovem Jude (Jim Sturgess, simpático e carismático) deixa sua pequena cidade inglesa para procurar o pai - que não sabe de sua existência - em Nova York. Lá chegando - e descobrindo que a imagem que fazia de seu progenitor está bem longe da verdade - ele faz amizade com o rebelde Max (Joe Anderson), que vive em constante crise com a família, que cobra dele mais responsabilidade e seriedade. Os dois vão morar no apartamento de Sadie (Dana Fuchs), uma cantora que busca um lugar ao sol e lá fazem amizade também com o músico Jojo (Martin Luther) e com a bissexual Prudence (TV Carpio). Enquanto convive com as lutas pelos direitos civis e com as manifestações contra a guerra do Vietnã, Jude conhece e se apaixona pela irmã de Max, a bela Lucy (Evan Rachel-Wood), que acaba de perder um namorado no conflito asiático.
Repleto de referências à obra dos Beatles - até mesmo em pequenos detalhes que só serão reconhecidos pelos fãs mais atentos - e buscando cobrir todas as épocas da banda (desde seu começo no Cavern Club até sua fase psicodélica), "Across the universe" é visualmente empolgante: fotografado com capricho por Bruno Delbonnell (de "O fabuloso destino de Amélie Poulain), o filme de Taymor equilibra com maestria o romantismo, o drama e a psicodelia dos anos 60 com números musicais que vão do doce e terno - caso de "Something" e "Because" - até os mais radicais - como "Helter skelter" e "Happiness is a warm gun"- passando por sequências de tirar o fôlego, como a versão gospel de "Let it be" e a magistralmente editada visão de "Strawberry fields forever". Salpicando sua obra com diálogos e situações que remetem diretamente às canções do grupo, a cineasta criou uma pequena obra-prima pictória, uma compilação visual fascinante do talvez mais irrepreensível cancioneiro popular inglês. O seu único problema, porém, está naquele que é, provavelmente, o calcanhar de Aquiles de quase todo filme musical: o roteiro.
Ao concentrar-se em uma maneira de concatenar as músicas que pretendia utilizar em seu filme, Taymor pecou em não se aprofundar devidamente ao desenho de suas personagens e ao desenvolvimento de sua trama. Por mais atraentes e carismáticos que sejam seus intérpretes, as personagens criadas pela cineasta - e desenvolvidas por outros roteiristas - não conseguem atingir todo o seu potencial, especialmente devido à necessidade da diretora em ligá-las às canções. Dessa forma, perde-se minutos valiosos em uma longa e enfadonha sequência que envolve uma espécie de guru místico (vivido pelo cantor Bono Vox), ao invés de aprofundar o romance entre os protagonistas. Tudo bem que a intenção era citar a fase "maluco beleza" de Lennon, McCartney e cia., mas foge da trama central e desvia a atenção.
Porém, há muitos mais acertos do que erros em "Across the universe", uma deliciosa e emocionante viagem através da música e dos sentimentos de quatro dos mais importantes músicos da história. Como disse McCartney após uma sessão, "o que há para não se gostar?".
Indicado ao Oscar de Melhor Figurino
Quem não gosta dos Beatles bom sujeito não é, e a cineasta Julie Taymor certamente o é. Depois de ter ousado visualmente com a biografia da artista plástica Frida Kahlo no filme estrelado por Salma Hayek - e que ganhou 2 Oscar, de maquiagem e trilha sonora - Taymor desviou sua atenção para um projeto menos sério, mas igualmente ambicioso: um musical totalmente calcado nas inesquecíveis canções do quarteto de Liverpool. Aproveitando-se da boa vontade com que o gênero vinha sendo recebido pelo público - "Moulin Rouge" e "Chicago" foram elogiados e tiveram bilheterias consideráveis - ela concebeu uma obra que é capaz de fazer cantar o mais tímido espectador.
Aprovado por Paul McCartney e George Harrison - os Beatles remanescentes à época do lançamento do filme - "Across the universe" é uma história de amor simples, com roteiro direto e sem maior profundidade dramática, mas que cumpre perfeitamente o que promete. Quando a trama tem início, o jovem Jude (Jim Sturgess, simpático e carismático) deixa sua pequena cidade inglesa para procurar o pai - que não sabe de sua existência - em Nova York. Lá chegando - e descobrindo que a imagem que fazia de seu progenitor está bem longe da verdade - ele faz amizade com o rebelde Max (Joe Anderson), que vive em constante crise com a família, que cobra dele mais responsabilidade e seriedade. Os dois vão morar no apartamento de Sadie (Dana Fuchs), uma cantora que busca um lugar ao sol e lá fazem amizade também com o músico Jojo (Martin Luther) e com a bissexual Prudence (TV Carpio). Enquanto convive com as lutas pelos direitos civis e com as manifestações contra a guerra do Vietnã, Jude conhece e se apaixona pela irmã de Max, a bela Lucy (Evan Rachel-Wood), que acaba de perder um namorado no conflito asiático.
Repleto de referências à obra dos Beatles - até mesmo em pequenos detalhes que só serão reconhecidos pelos fãs mais atentos - e buscando cobrir todas as épocas da banda (desde seu começo no Cavern Club até sua fase psicodélica), "Across the universe" é visualmente empolgante: fotografado com capricho por Bruno Delbonnell (de "O fabuloso destino de Amélie Poulain), o filme de Taymor equilibra com maestria o romantismo, o drama e a psicodelia dos anos 60 com números musicais que vão do doce e terno - caso de "Something" e "Because" - até os mais radicais - como "Helter skelter" e "Happiness is a warm gun"- passando por sequências de tirar o fôlego, como a versão gospel de "Let it be" e a magistralmente editada visão de "Strawberry fields forever". Salpicando sua obra com diálogos e situações que remetem diretamente às canções do grupo, a cineasta criou uma pequena obra-prima pictória, uma compilação visual fascinante do talvez mais irrepreensível cancioneiro popular inglês. O seu único problema, porém, está naquele que é, provavelmente, o calcanhar de Aquiles de quase todo filme musical: o roteiro.
Ao concentrar-se em uma maneira de concatenar as músicas que pretendia utilizar em seu filme, Taymor pecou em não se aprofundar devidamente ao desenho de suas personagens e ao desenvolvimento de sua trama. Por mais atraentes e carismáticos que sejam seus intérpretes, as personagens criadas pela cineasta - e desenvolvidas por outros roteiristas - não conseguem atingir todo o seu potencial, especialmente devido à necessidade da diretora em ligá-las às canções. Dessa forma, perde-se minutos valiosos em uma longa e enfadonha sequência que envolve uma espécie de guru místico (vivido pelo cantor Bono Vox), ao invés de aprofundar o romance entre os protagonistas. Tudo bem que a intenção era citar a fase "maluco beleza" de Lennon, McCartney e cia., mas foge da trama central e desvia a atenção.
Porém, há muitos mais acertos do que erros em "Across the universe", uma deliciosa e emocionante viagem através da música e dos sentimentos de quatro dos mais importantes músicos da história. Como disse McCartney após uma sessão, "o que há para não se gostar?".
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