AMAR É SOFRER (The country girl, 1954, Paramount Pictures, 104min) Direção: George Seaton. Roteiro: George Seaton, peça teatral de Clifford Odets. Fotografia: John F. Warren. Montagem: Ellsworth Hoagland. Música: Victor Young. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Roland Anderson, Hal Pereira/Sam Comer, Grace Gregory. Produção: William Perlberg. Elenco: Bing Crosby, Grace Kelly, William Holden, Anthony Ross, Gene Reynolds. Estreia: 15/12/54
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Seaton), Ator (Bing Crosby), Atriz (Grace Kelly), Roteiro, Fotografia (Preto-e-branco), Direção de Arte/Cenários (Preto-e-branco)
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Grace Kelly), Roteiro
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Grace Kelly)
Quando recebeu a proposta de protagonizar a adaptação da peça teatral "The country girl", de Clifford Odets, lançada nos palcos em 1950, Bing Crosby alegou dois motivos para sua recusa. Primeiro ele se considerava velho demais para o papel (no que tinha relativa razão). Depois, ele hesitava em dividir a cena com uma atriz a quem considerava pouco talentosa, Grace Kelly (o tempo e a história acabaram por mostrar a ironia da afirmação). Convencido posteriormente a aceitar o trabalho, ele não pode reclamar de absolutamente nada: não apenas recebeu um indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho, como se apaixonou pela colega de elenco a ponto de pedí-la em casamento. Foi recusado - segundo dizem, na época a estrela estava envolvida também com William Holden, Clark Gable e David Niven -, mas surpreendeu-se com sua dedicação à carreira e voltou a contracenar com ela no musical "Alta sociedade" (56), seu último filme antes de tornar-se Princesa de Mônaco. Uma das produçõess mais premiadas de 1952, "Amar é sofrer", de George Seaton, concorreu a sete Oscar - incluindo melhor filme, diretor e roteiro - e pegou todo mundo de surpresa quando deu à Grace a estatueta de melhor atriz, batendo a então favorita Judy Garland, por "Nasce uma estrela". O choque só não foi ainda maior porque a bela musa de Alfred Hitchcock realmente apresentou um trabalho primoroso - também reconhecido com um Golden Globe e prêmios da National Board of Review e dos críticos de Nova York, duas respeitadíssimas instituições norte-americanas.
Desprovida do glamour que a acompanhava frequentemente e lhe rendeu a fama de uma das mulheres mais elegantes do mundo - e o amor do Príncipe Rainier -, Grace Kelly mostra, em "Amar é sofrer" uma faceta inédita de seu talento. Nada mais da mulher sensual e fútil, da herdeira sofisticada ou da mocinha indefesa, vítima das circunstâncias. No filme de Seaton - um cineasta bem cotado entre os críticos americanos, mas que não obteve nenhum outro sucesso parecido na carreira - ela dá vida a uma personagem sofrida, triste, amargurada e aparentemente cruel, com uma carga dramática de que somente as grandes atrizes conseguem transmitir. Assumindo o lugar de Jennifer Jones - a escolha inicial dos produtores, que deixou o filme por estar grávida -, Kelly enterra sem piedade a persona idolatrada pelas revistas de moda e faz nascer uma atriz repleta de nuances, capaz de roubar a cena tanto de Crosby (um dos mais populares astros de sua geração) quanto de William Holden. Mesmo que auxiliada pela caracterização física (a lendária figurinista Edith Head lamentou ter em mãos uma dama como Kelly e ter que deixá-la feia), é sua garra em provar-se uma artista de verdade o que mais chama a atenção em sua performance, que prova que a indicação ao Oscar de coadjuvante um ano antes, por "Mogambo" não havia sido um acidente de percurso.
Na verdade, apesar de interpretar a garota do título original, Kelly não é exatamente a protagonista do filme. O primeiro nome nos créditos é o de Bing Crosby, cuja escalação para o papel de um alcóolico desagradou profundamente suas fãs católicas, que inundaram a Paramount com correspondência reclamando da escolha. Ele vive Frank Elgin, um antigo astro da música e dos palcos que tem a grande chance de voltar aos holofotes depois de um período amargando o ostracismo devido ao problema com álcool. Convidado pelo diretor Bernie Dodd (William Holden), ele enfrenta as dúvidas dos produtores de um musical e, contra todas as suas inseguranças, aceita o desafio. O problema maior de Dodd, no entanto, surge na figura de Georgie (Kelly), a esposa do artista, que parece exercer um domínio acima do normal sobre o marido, a quem ampara (ou mantém vivo) desde a morte trágica do filho pequeno. Aos poucos, Dodd começa a perceber que sua primeira percepção sobre o casal não é digna de confiança - e Georgie passa a se revelar mais admirável do que condenável.
Alterando o texto da peça original para poder incluir números musicais e assim explorar os múltiplos talentos de Bing Crosby, o roteiro de "Amar é sofrer" apresenta uma narrativa clássica, sem epsaço para experimentalismos. Seguindo uma estrutura de melodrama e apostando na força da trama e de seu elenco, George Seaton busca uma aproximação mais direta com a plateia, sem medo de soar excessivamente lacrimoso. Enquanto analisa a complexa relação entre seus protagonistas, aproveita para retratar os bastidores do teatro - mas sem a acidez de "A malvada" (50), por exemplo - e as consequências do alcoolismo - mas sem a profundidade de "Farrapo humano", que deu o Oscar de melhor ator a Ray Milland em 1945. A opção em centrar o foco do terceiro ato no triângulo amoroso que acaba se formando é acertada, por enfatizar as diferenças entre os pretendentes ao coração de Georgie - e o final é coerente, ainda que pareça um tanto apressado em relação ao andamento até então tranquilo do filme. Válido principalmente pelo trabalho excelente de seu elenco, "Amar é sofrer" é um autêntico clássico e a incontestável prova de que, além de deslumbrante, Grace Kelly era uma estupenda atriz.
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quarta-feira
quinta-feira
FEDORA
FEDORA (Fedora, 1978, Bavaria Atelier, 116min) Direção: Billy Wilder.
Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond, estória de Thomas Tryon.
Fotografia: Gerry Fisher. Montagem: Stefan Arnsten, Fredric Steinkamp.
Música: Miklos Rozsa. Figurino: Charlotte Fleming. Direção de
arte/cenários: Alexandre Trauner/Robert André. Produção: Billy Wilder.
Elenco: William Holden, Marthe Keller, Hildegard Knef, José Ferrer,
Frances Sternhagen, Henry Fonda, Michael York. Estreia: 30/5/78
(Festival de Cannes)
Em 1950, o filme "Crepúsculo dos deuses" retratava, de forma poética e um tanto cruel, o fim de um período de glamour dentro da indústria de cinema de Hollywood. Através da personagem Norma Desmond, vivida com propriedade pela extraordinária Gloria Swanson, o diretor e roteirista Billy Wilder criticava com ferocidade o tratamento dado pela nova geração aos ídolos do passado, normalmente relegados a um mero arremedo de existência quando longe dos holofotes. Vinte e oito anos mais tarde, em seu penúltimo filme, Wilder voltaria ao tema, porém sem o mesmo sucesso e o mesmo tom de ironia. "Fedora", inspirado em um conto de Thomas Tryon, não convenceu a crítica como tantos de seus trabalhos anteriores e acabou ficando conhecido como um filme menor na carreira do brilhante cineasta. De fato, é uma produção menos empolgante, mas ainda assim um filme acima da média, com uma história com reviravoltas o suficiente para manter a atenção até seu minuto final.
Pensado inicialmente como um telefilme a ser lançado na CBS, "Fedora" foi resgatado de tal destino pela United Artists, que, com o nome de Billy Wilder em vista, achou que o filme merecia uma estreia em grande estilo. A oportunidade perfeita surgiu com a retrospectiva da carreira do cineasta, no Festival de Cannes de 1978, mas a morna recepção ao resultado final foi responsável pelo descaso da distribuição do filme no mercado tanto doméstico quanto internacional. Para desgosto do próprio Wilder, até mesmo as exibições-teste foram um tanto desastrosas, com a plateia reagindo de forma inadequada ao desenvolvimento da trama, adaptada para as telas por ele mesmo e seu fiel colaborador I.A.L. Diamond. Recusando-se a editar ainda mais sua obra - já mutilada em 12 minutos pela UA - o diretor, cujo último filme havia sido o também pouco louvado "Avanti!... Amantes à italiana" (72), teve de contentar-se em vê-la passar quase em branco pelos cinemas, de forma melancólica e um tanto quanto injusta que nem mesmo sua apresentação no Festival de Cinema de Chicago deu conta de apagar. Ainda assim, é um filme que merece ser descoberto, nem que seja a título de curiosidade.
William Holden - por coincidência ou não o protagonista também de "Crepúsculo dos deuses" - trabalha novamente sob o comando de Wilder, na pele de Barry Detweiler, um produtor de cinema em crise financeira que, com uma adaptação de "Anna Karenina" em mãos, resolve oferecer o papel principal à reclusa atriz Fedora (Marthe Keller), aposentada das telas e moradora em uma escondida ilha mediterrânea, ao lado de uma condessa idosa e temperamental, um médico misterioso e uma governanta hostil. Em suas tentativas de convencer a atriz a voltar às telas, Barry não hesita em relembrá-la de um encontro de sua juventude, mas esbarra não apenas no perceptível desequilíbrio mental da antiga estrela mas também na resistência de todos que a rodeiam - um grupo de pessoas que parece esconder um grande segredo em relação a ela. Tal segredo acaba vindo à tona depois de uma tragédia inesperada - e Detweiler ficará sabendo, então, que a busca pela eterna juventude pode atingir patamares jamais imaginados.
Contando sua história com ares sombrios e repletos de surpresas mirabolantes, Billy Wilder deixa de lado (um pouco) sua habitual ironia, preferindo dedicar-se a enfatizar o lado doentio e claustrofóbico do mundo do cinema - e das celebridades em geral. Ao mudar completamente o rumo de sua narrativa em seu ato final, o cineasta convida o público a adentrar em uma nova história, digna dos melhores contos de horror de Edgar Allan Poe e dotada de uma melancolia surpreendente, em especial vinda de um homem que conseguiu falar de alcoolismo sem cair no sentimentalismo - em "Farrapo humano" (45) - e do sensacionalismo da imprensa sem apelar para o panfletarismo - em "A montanha dos sete abutres" (51). Como percebendo que também ele estava com sua carreira na reta final, Wilder dá seu recado de forma elegante mas contundente, utilizando-se de um gênero (o suspense) para iluminar uma forma quase patológica de vida, com elementos que lembram bastante "A pele que habito" (2011), de Pedro Almodóvar. Com participações especiais de Henry Fonda e Michael York como eles mesmos, "Fedora" é um Billy Wilder atípico, mas jamais menor. É apenas menos óbvio e requer mais atenção e dedicação.
Em 1950, o filme "Crepúsculo dos deuses" retratava, de forma poética e um tanto cruel, o fim de um período de glamour dentro da indústria de cinema de Hollywood. Através da personagem Norma Desmond, vivida com propriedade pela extraordinária Gloria Swanson, o diretor e roteirista Billy Wilder criticava com ferocidade o tratamento dado pela nova geração aos ídolos do passado, normalmente relegados a um mero arremedo de existência quando longe dos holofotes. Vinte e oito anos mais tarde, em seu penúltimo filme, Wilder voltaria ao tema, porém sem o mesmo sucesso e o mesmo tom de ironia. "Fedora", inspirado em um conto de Thomas Tryon, não convenceu a crítica como tantos de seus trabalhos anteriores e acabou ficando conhecido como um filme menor na carreira do brilhante cineasta. De fato, é uma produção menos empolgante, mas ainda assim um filme acima da média, com uma história com reviravoltas o suficiente para manter a atenção até seu minuto final.
Pensado inicialmente como um telefilme a ser lançado na CBS, "Fedora" foi resgatado de tal destino pela United Artists, que, com o nome de Billy Wilder em vista, achou que o filme merecia uma estreia em grande estilo. A oportunidade perfeita surgiu com a retrospectiva da carreira do cineasta, no Festival de Cannes de 1978, mas a morna recepção ao resultado final foi responsável pelo descaso da distribuição do filme no mercado tanto doméstico quanto internacional. Para desgosto do próprio Wilder, até mesmo as exibições-teste foram um tanto desastrosas, com a plateia reagindo de forma inadequada ao desenvolvimento da trama, adaptada para as telas por ele mesmo e seu fiel colaborador I.A.L. Diamond. Recusando-se a editar ainda mais sua obra - já mutilada em 12 minutos pela UA - o diretor, cujo último filme havia sido o também pouco louvado "Avanti!... Amantes à italiana" (72), teve de contentar-se em vê-la passar quase em branco pelos cinemas, de forma melancólica e um tanto quanto injusta que nem mesmo sua apresentação no Festival de Cinema de Chicago deu conta de apagar. Ainda assim, é um filme que merece ser descoberto, nem que seja a título de curiosidade.
William Holden - por coincidência ou não o protagonista também de "Crepúsculo dos deuses" - trabalha novamente sob o comando de Wilder, na pele de Barry Detweiler, um produtor de cinema em crise financeira que, com uma adaptação de "Anna Karenina" em mãos, resolve oferecer o papel principal à reclusa atriz Fedora (Marthe Keller), aposentada das telas e moradora em uma escondida ilha mediterrânea, ao lado de uma condessa idosa e temperamental, um médico misterioso e uma governanta hostil. Em suas tentativas de convencer a atriz a voltar às telas, Barry não hesita em relembrá-la de um encontro de sua juventude, mas esbarra não apenas no perceptível desequilíbrio mental da antiga estrela mas também na resistência de todos que a rodeiam - um grupo de pessoas que parece esconder um grande segredo em relação a ela. Tal segredo acaba vindo à tona depois de uma tragédia inesperada - e Detweiler ficará sabendo, então, que a busca pela eterna juventude pode atingir patamares jamais imaginados.
Contando sua história com ares sombrios e repletos de surpresas mirabolantes, Billy Wilder deixa de lado (um pouco) sua habitual ironia, preferindo dedicar-se a enfatizar o lado doentio e claustrofóbico do mundo do cinema - e das celebridades em geral. Ao mudar completamente o rumo de sua narrativa em seu ato final, o cineasta convida o público a adentrar em uma nova história, digna dos melhores contos de horror de Edgar Allan Poe e dotada de uma melancolia surpreendente, em especial vinda de um homem que conseguiu falar de alcoolismo sem cair no sentimentalismo - em "Farrapo humano" (45) - e do sensacionalismo da imprensa sem apelar para o panfletarismo - em "A montanha dos sete abutres" (51). Como percebendo que também ele estava com sua carreira na reta final, Wilder dá seu recado de forma elegante mas contundente, utilizando-se de um gênero (o suspense) para iluminar uma forma quase patológica de vida, com elementos que lembram bastante "A pele que habito" (2011), de Pedro Almodóvar. Com participações especiais de Henry Fonda e Michael York como eles mesmos, "Fedora" é um Billy Wilder atípico, mas jamais menor. É apenas menos óbvio e requer mais atenção e dedicação.
quarta-feira
INFERNO NA TORRE
INFERNO NA TORRE (The towering inferno, 1974, 20th Century Fox/Warner Bros, 165min) Direção: John Guillermin, cenas de ação dirigidas por Irwin Allen . Roteiro: Stirling Siliphant, romances "The glass inferno", de Thomas N. Scortia, Frank M. Robinson e "The tower", de Richard Martin Stern. Fotografia: Fred Koenemkamp. Montagem: Carl Kress, Harold F. Kress. Música: John Williams. Figurino: Paul Zastupnevich. Direção de arte/cenários: William Creber/Raphael Bretton. Produção: Irwin Allen. Elenco: Paul Newman, Steve McQueen, William Holden, Faye Dunaway, Richard Chamberlain, Jennifer Jones, Fred Astaire, Susan Blakely, O.J. Simpson, Robert Vaughn, Robert Wagner. Estreia: 10/12/74
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Fred Astaire), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("We may never love like this again"), Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Fotografia, Montagem, Canção ("We may never love like this again")
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Fred Astaire)
Um fenômeno cinematográfico típico dos anos 70 - e que tentou uma sobrevida na década de 90 - o filme-catástrofe quase tornou-se uma espécie de gênero na indústria hollywoodiana, graças a sucessos como a série "Aeroporto" e "O destino do Poseidon". Em 1974, o filme que talvez tenha se tornado a quintessência do estilo levou multidões às salas de cinema, concorreu ao Oscar de melhor produção do ano, escalou um elenco de super-estrelas e, durante duas horas e meia, manteve o público em constante tensão - ancorado por efeitos especiais de última geração. "Inferno na torre" é o típico produto de entretenimento que o cinema americano sempre fez com maestria, ainda que peque no desenvolvimento pouco profundo de seus personagens - detalhe que fica em segundo plano, porém, uma vez que o roteiro, inspirado em dois romances de temática semelhante, consegue manter o suspense até seu final apoteótico.
Primeira vez na história que um filme foi co-produzido por dois grandes estúdios de Hollywood, "Inferno na torre" teve uma produção atípica. A Warner Bros, excitada com o sucesso de seu filme sobre o naufrágio do Poseidon, comprou os direitos do livro "The tower", escrito por Richard Martin Stern. Poucas semanas depois, a Fox, também ciente das possibilidades de lucro de um filme-catástrofe, arrebatou os direitos de "The glass inferno", de Thomas N. Scortia e Frank M. Robinson. Ao contrário do que aconteceria anos mais tarde em inúmeras circunstâncias em Hollywood - empresas diferentes competindo pela bilheteria com filmes similares - os dois estúdios resolveram então juntar forças em um único filme, já que ambos os romances tratavam de um incêndio em um arranha-céu (e coincidentemente ambos foram inspirados na construção do World Trade Center). Rachando as despesas de produção, eles também dividiriam o lucro: a Fox ficaria com a receita doméstica (EUA e Canadá) e a Warner com o lucro internacional. Tudo combinado, eles escalaram o roteirista Stirlig Siliphant para juntar as duas tramas em uma só, juntaram um elenco milionário, contrataram John Guillermin para assinar a co-direção - o produtor Irwin Allen fez questão de comandar as várias cenas de ação - e estavam preparados para correr para o abraço. Mas os problemas estavam apenas começando.
Reunir astros de primeira grandeza em um único set de filmagens não é tarefa das mais fáceis, especialmente quando tais astros são, digamos, temperamentais e egocêntricos. Os produtores de "Inferno na torre" descobriram isso da pior maneira possível. Escalado para viver o arquiteto Doug Roberts, Steve McQueen aceitou interpretar o chefe dos bombeiros desde que "alguém do mesmo calibre dele aceitasse interpretar o arquiteto". Paul Newman foi contratado, o papel do bombeiro teve que ser consideravelmente aumentado para ter exatamente o mesmo número de falas do arquiteto e uma espécie de rivalidade surgiu imediatamente entre os dois atores - que por pouco já não haviam dividido a tela em "Butch Cassidy e Sundance Kid" (69). Não bastasse isso, McQueen e a atriz Faye Dunaway proibiram quaisquer visitantes ao set de lhe dirigirem a palavra, além de McQueen também recusar-se a dar entrevistas para divulgar o filme. Além disso, Dunaway começou a incomodar a equipe com seus constantes atrasos e faltas, irritando William Holden a ponto do ator fazer-lhe sérias ameaças - o que resultou em um comportamento exemplar da atriz, que voltaria a contracenar com ele (e ganharia um Oscar por isso) em "Rede de intrigas". Tais problemas de bastidores, no entanto, não se refletiram no resultado final: "Inferno na torre" é o típico filme de ação hollywoodiano dos anos 70, com tudo que isso tem de bom e de ruim.
Os clichês dos filmes-catástrofe estão todos disponíveis para os fãs do gênero, na história do maior prédio do mundo que vê sua glória ser destruída já na festa de inauguração, quando um problema elétrico põe em chamas os andares mais altos da construção: existe o bombeiro heróico (McQueen), o arquiteto que se torna herói por acaso (Newman), os construtores vilões (Holden e Richard Chamberlain), a senhora que protege um casal de crianças (Jennifer Jones), figurantes que morrem queimados, momentos de tensão, uma trama romântica desnecessária (entre Newman e Dunaway) e até um gatinho de estimação que corre o risco de virar churrasco no meio da confusão orquestrada por Guillermin e Allen. Até mesmo o veterano Fred Astaire tem sua chance de brilhar - não dançando, é claro - mas na pele de um escroque que se apaixona por uma possível vítima de seus golpes. Astaire ganhou o Golden Globe de ator coadjuvante e chegou a ser sentimentalmente indicado ao Oscar, mas de certa forma desaparece diante do grandioso espetáculo pirotécnico que tornou-se um clássico da destruição. Para quem gosta é um prato cheio.
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Fred Astaire), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("We may never love like this again"), Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Fotografia, Montagem, Canção ("We may never love like this again")
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Fred Astaire)
Um fenômeno cinematográfico típico dos anos 70 - e que tentou uma sobrevida na década de 90 - o filme-catástrofe quase tornou-se uma espécie de gênero na indústria hollywoodiana, graças a sucessos como a série "Aeroporto" e "O destino do Poseidon". Em 1974, o filme que talvez tenha se tornado a quintessência do estilo levou multidões às salas de cinema, concorreu ao Oscar de melhor produção do ano, escalou um elenco de super-estrelas e, durante duas horas e meia, manteve o público em constante tensão - ancorado por efeitos especiais de última geração. "Inferno na torre" é o típico produto de entretenimento que o cinema americano sempre fez com maestria, ainda que peque no desenvolvimento pouco profundo de seus personagens - detalhe que fica em segundo plano, porém, uma vez que o roteiro, inspirado em dois romances de temática semelhante, consegue manter o suspense até seu final apoteótico.
Primeira vez na história que um filme foi co-produzido por dois grandes estúdios de Hollywood, "Inferno na torre" teve uma produção atípica. A Warner Bros, excitada com o sucesso de seu filme sobre o naufrágio do Poseidon, comprou os direitos do livro "The tower", escrito por Richard Martin Stern. Poucas semanas depois, a Fox, também ciente das possibilidades de lucro de um filme-catástrofe, arrebatou os direitos de "The glass inferno", de Thomas N. Scortia e Frank M. Robinson. Ao contrário do que aconteceria anos mais tarde em inúmeras circunstâncias em Hollywood - empresas diferentes competindo pela bilheteria com filmes similares - os dois estúdios resolveram então juntar forças em um único filme, já que ambos os romances tratavam de um incêndio em um arranha-céu (e coincidentemente ambos foram inspirados na construção do World Trade Center). Rachando as despesas de produção, eles também dividiriam o lucro: a Fox ficaria com a receita doméstica (EUA e Canadá) e a Warner com o lucro internacional. Tudo combinado, eles escalaram o roteirista Stirlig Siliphant para juntar as duas tramas em uma só, juntaram um elenco milionário, contrataram John Guillermin para assinar a co-direção - o produtor Irwin Allen fez questão de comandar as várias cenas de ação - e estavam preparados para correr para o abraço. Mas os problemas estavam apenas começando.
Reunir astros de primeira grandeza em um único set de filmagens não é tarefa das mais fáceis, especialmente quando tais astros são, digamos, temperamentais e egocêntricos. Os produtores de "Inferno na torre" descobriram isso da pior maneira possível. Escalado para viver o arquiteto Doug Roberts, Steve McQueen aceitou interpretar o chefe dos bombeiros desde que "alguém do mesmo calibre dele aceitasse interpretar o arquiteto". Paul Newman foi contratado, o papel do bombeiro teve que ser consideravelmente aumentado para ter exatamente o mesmo número de falas do arquiteto e uma espécie de rivalidade surgiu imediatamente entre os dois atores - que por pouco já não haviam dividido a tela em "Butch Cassidy e Sundance Kid" (69). Não bastasse isso, McQueen e a atriz Faye Dunaway proibiram quaisquer visitantes ao set de lhe dirigirem a palavra, além de McQueen também recusar-se a dar entrevistas para divulgar o filme. Além disso, Dunaway começou a incomodar a equipe com seus constantes atrasos e faltas, irritando William Holden a ponto do ator fazer-lhe sérias ameaças - o que resultou em um comportamento exemplar da atriz, que voltaria a contracenar com ele (e ganharia um Oscar por isso) em "Rede de intrigas". Tais problemas de bastidores, no entanto, não se refletiram no resultado final: "Inferno na torre" é o típico filme de ação hollywoodiano dos anos 70, com tudo que isso tem de bom e de ruim.
Os clichês dos filmes-catástrofe estão todos disponíveis para os fãs do gênero, na história do maior prédio do mundo que vê sua glória ser destruída já na festa de inauguração, quando um problema elétrico põe em chamas os andares mais altos da construção: existe o bombeiro heróico (McQueen), o arquiteto que se torna herói por acaso (Newman), os construtores vilões (Holden e Richard Chamberlain), a senhora que protege um casal de crianças (Jennifer Jones), figurantes que morrem queimados, momentos de tensão, uma trama romântica desnecessária (entre Newman e Dunaway) e até um gatinho de estimação que corre o risco de virar churrasco no meio da confusão orquestrada por Guillermin e Allen. Até mesmo o veterano Fred Astaire tem sua chance de brilhar - não dançando, é claro - mas na pele de um escroque que se apaixona por uma possível vítima de seus golpes. Astaire ganhou o Golden Globe de ator coadjuvante e chegou a ser sentimentalmente indicado ao Oscar, mas de certa forma desaparece diante do grandioso espetáculo pirotécnico que tornou-se um clássico da destruição. Para quem gosta é um prato cheio.
sábado
QUANDO PARIS ALUCINA
QUANDO PARIS ALUCINA (Paris when it sizzles, 1964, Paramount Pictures, 110min) Direção: Richard Quine. Roteiro: George Axelrod, estória de Julien Duvivier, Henri Jeanson. Fotografia: Charles Lang, Jr. Montagem: Archie Marshek. Música: Nelson Riddle. Direção de arte/cenários: Jean D'Eaubonne/Gabriel Bechir. Produção: George Axelrod, Richard Quine. Elenco: William Holden, Audrey Hepburn, Noel Coward, Tony Curtis, Grégoire Aslan. Estreia: 08/4/64
Na teoria parecia uma ideia genial: unir o talento e o carisma de William Holden com a beleza e o perfeito timing cômico de Audrey Hepburn em uma trama metalinguística que brincaria com o universo do cinema e contaria com participações mais que especiais de Tony Curtis, Marlene Dietrich e Frank Sinatra em pontas. Porém, até mesmo as ideias aparentemente infalíveis podem se mostrar armadilhas e foi exatamente o que aconteceu com "Quando Paris alucina". O que poderia ser uma comédia das mais divertidas dos anos 60 transformou-se, nas mãos do diretor Richard Quine, em um pastiche exagerado, confuso e sem ritmo e que, a despeito de alguns bons momentos de criatividade, termina por não cumprir todas as promessas que faz em seu agradável início.
Considerado pela própria Audrey Hepburn seu filme menos querido de sua fase como grande estrela, "Quando Paris alucina" tem na irregularidade seu maior problema, o que não deixa de ser surpreendente, uma vez que o roteiro tem a assinatura de George Axelrod, que dois anos antes havia lançado o espetacular "Sob o domínio do mal", estrelado por Frank Sinatra, um primor de ritmo e concisão. Aqui, ele conta de forma atabalhoada uma história que em momento nenhum prende a atenção do espectador, que fica esperando (em vão) que as coisas façam algum sentido - e a quem só resta, depois de um tempo, aproveitar as belas paisagens da cidade-luz e a elegância sempre irretocável de Hepburn, que consegue tirar leite de pedra com uma personagem sem profundidade e que existe apenas para justificar a história de amor que se pretende contar - ou não, já que também há a indecisão entre o romance e a comédia de erros que satiriza o modo industrial de realizar-se filmes (sátira essa que acaba se mostrando um tanto inadequada, uma vez que o próprio produto final parece resultado mais de um comitê de criação do que exatamente uma obra original).
Hepburn vive Gabrielle Simpson, uma secretária contratada para auxiliar o roteirista de Hollywood Richard Benson (William Holden, que se ausentou das filmagens para internar-se em uma clínica de reabilitação de álcool) a finalizar seu novo filme, intitulado "A garota que roubou a Torre Eiffel". Benson, que já está há semanas em Paris, tem um prazo exíguo para entregar o script a seu rígido produtor, Alexander Meyerheim (o dramaturgo Noel Coward), e, para seu desespero, nem sequer começou a escrevê-lo. Com a ajuda de Gabrielle, uma jovem sonhadora, criativa e alto-astral, ele passa a ter ideias e mais ideias a respeito da trama. Inspirado por ela, Benson começa uma história de espionagem que se desenvolve de várias e insuspeitas maneiras, incluindo até vampiros e lobisomens. Enquanto vai imaginando seu filme, o público vê suas ideias desenrolando-se na tela, sempre com ele e Gabrielle nos papéis centrais.
Como afirmado antes, a ideia de "Quando Paris alucina" não é das piores e poderia facilmente tornar-se um entretenimento dos mais divertidos se estivesse em mãos menos burocráticas e sem inspiração. Richard Quine construiu um filme engessado em suas próprias limitações que jamais surpreende o público. As brincadeiras do início - quando Benson vai modificando seu roteiro enquanto desfilam pela tela as participações especiais citadas anteriormente - logo tornam-se cansativas e o roteiro acaba por não oferecer nada que as substitua. Em pouco tempo a audiência se vê presa a uma história policial sem pé, cabeça ou graça e a uma história de amor que não desperta nada mais do que tédio - em parte devido à falta de química entre Audrey Hepburn e William Holden, subaproveitado ao extremo em um personagem que em nada acrescenta à sua brilhante carreira. No final das contas, vale apenas pela beleza de Audrey... e mesmo assim só para os fãs ardorosos.
Na teoria parecia uma ideia genial: unir o talento e o carisma de William Holden com a beleza e o perfeito timing cômico de Audrey Hepburn em uma trama metalinguística que brincaria com o universo do cinema e contaria com participações mais que especiais de Tony Curtis, Marlene Dietrich e Frank Sinatra em pontas. Porém, até mesmo as ideias aparentemente infalíveis podem se mostrar armadilhas e foi exatamente o que aconteceu com "Quando Paris alucina". O que poderia ser uma comédia das mais divertidas dos anos 60 transformou-se, nas mãos do diretor Richard Quine, em um pastiche exagerado, confuso e sem ritmo e que, a despeito de alguns bons momentos de criatividade, termina por não cumprir todas as promessas que faz em seu agradável início.
Considerado pela própria Audrey Hepburn seu filme menos querido de sua fase como grande estrela, "Quando Paris alucina" tem na irregularidade seu maior problema, o que não deixa de ser surpreendente, uma vez que o roteiro tem a assinatura de George Axelrod, que dois anos antes havia lançado o espetacular "Sob o domínio do mal", estrelado por Frank Sinatra, um primor de ritmo e concisão. Aqui, ele conta de forma atabalhoada uma história que em momento nenhum prende a atenção do espectador, que fica esperando (em vão) que as coisas façam algum sentido - e a quem só resta, depois de um tempo, aproveitar as belas paisagens da cidade-luz e a elegância sempre irretocável de Hepburn, que consegue tirar leite de pedra com uma personagem sem profundidade e que existe apenas para justificar a história de amor que se pretende contar - ou não, já que também há a indecisão entre o romance e a comédia de erros que satiriza o modo industrial de realizar-se filmes (sátira essa que acaba se mostrando um tanto inadequada, uma vez que o próprio produto final parece resultado mais de um comitê de criação do que exatamente uma obra original).
Hepburn vive Gabrielle Simpson, uma secretária contratada para auxiliar o roteirista de Hollywood Richard Benson (William Holden, que se ausentou das filmagens para internar-se em uma clínica de reabilitação de álcool) a finalizar seu novo filme, intitulado "A garota que roubou a Torre Eiffel". Benson, que já está há semanas em Paris, tem um prazo exíguo para entregar o script a seu rígido produtor, Alexander Meyerheim (o dramaturgo Noel Coward), e, para seu desespero, nem sequer começou a escrevê-lo. Com a ajuda de Gabrielle, uma jovem sonhadora, criativa e alto-astral, ele passa a ter ideias e mais ideias a respeito da trama. Inspirado por ela, Benson começa uma história de espionagem que se desenvolve de várias e insuspeitas maneiras, incluindo até vampiros e lobisomens. Enquanto vai imaginando seu filme, o público vê suas ideias desenrolando-se na tela, sempre com ele e Gabrielle nos papéis centrais.
Como afirmado antes, a ideia de "Quando Paris alucina" não é das piores e poderia facilmente tornar-se um entretenimento dos mais divertidos se estivesse em mãos menos burocráticas e sem inspiração. Richard Quine construiu um filme engessado em suas próprias limitações que jamais surpreende o público. As brincadeiras do início - quando Benson vai modificando seu roteiro enquanto desfilam pela tela as participações especiais citadas anteriormente - logo tornam-se cansativas e o roteiro acaba por não oferecer nada que as substitua. Em pouco tempo a audiência se vê presa a uma história policial sem pé, cabeça ou graça e a uma história de amor que não desperta nada mais do que tédio - em parte devido à falta de química entre Audrey Hepburn e William Holden, subaproveitado ao extremo em um personagem que em nada acrescenta à sua brilhante carreira. No final das contas, vale apenas pela beleza de Audrey... e mesmo assim só para os fãs ardorosos.
segunda-feira
SABRINA

SABRINA (Sabrina, 1954, Paramount Pictures, 113min) Direção e produção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Samuel Taylor e Ernest Lehman, baseado na peça teatral "Sabrina fair", de Samuel Taylor. Fotografia: Charles Lang Jr. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Friedericj Hollander. Figurino: Edith Head. Elenco: Humphrey Bogart, Audrey Hepburn, William Holden, John Williams, Walter Hampden. Estreia: Outubro de 1954
6 indicações ao Oscar: Diretor (Billy Wilder), Atriz (Audrey Hepburn), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Figurino e Direção de arte.
Vencedor do Oscar de Figurino
Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro
Em 1973 o autor Lauro César Muniz lançou, no horário das 19h da Rede Globo, a novela "Carinhoso", estrelada pela dupla mais popular de então - Regina Duarte e Cláudio Marzo. Apesar do sucesso momentâneo, a novela não ficou na memória dos espectadores (chegou a ser encurtada devido à gravidez de Regina, que deu à luz em 1974 a hoje atriz Gabriela). O que pouca gente deve ter notado na época - e tampouco importa hoje, quando a novela nem mais é lembrada - é que sua trama principal era descaradamente inspirada em "Sabrina", filme de Billy Wilder por sua vez inspirado em uma peça de teatro de Samuel Taylor. Lançado em 1954, o filme foi o trabalho de Audrey Hepburn seguinte a seu Oscar por "A princesa e o plebeu" e comprova seu carisma, talento e classe. Unida a um texto ácido de Wilder (que, ao lado de Ernest Lehman e do próprio autor da peça nunca deixa que seu romantismo caia na vala do piegas ou do lugar-comum), Hepburn mais uma vez brilha em um papel feito sob medida - mas que quase foi parar nas mãos de Lauren Bacall, que era a primeira escolha do ator principal do filme, Humphrey Bogart (não por acaso, seu marido).
Na verdade, o próprio Bogart não foi o primeiro ator escolhido para viver o sério, sisudo e impenetrável Linus Larrabee, um homem que vive do trabalho burocrático nas milionárias empresas da família. Cary Grant foi o primeiro nome a ser cotado para o papel, mas acabou saindo do filme, sendo substituído por um Bogart que não suportava nem Hepburn (a quem considerava má atriz) nem seu colega de cena William Holden (que se apaixonou por Hepburn durante as filmagens, em um romance que terminou quando ela descobriu que ele não queria ter mais filhos).
A Sabrina do título é uma jovem doce, romântica e sonhadora apaixonada por David Larrabee (Holden), um playboy irresponsável, três vezes divorciado e mulherengo. O grande problema dessa paixão é que ele não faz a menor ideia da existência da moça, filha de seu motorista (vivido com delicadeza pelo ótimo John Williams). No início do filme, desiludida de amor, Sabrina pensa em suicídio, mas é impedida por Linus, o irmão mais velho de David, que, conforme dito acima, é sério, sisudo e impenetrável, vivendo em função de números e contratos. Sem esperanças de conquistar o amor de David, Sabrina viaja a Paris para fazer um curso de gastronomia. Dois anos depois, ela retorna ao quarto de empregada onde morava com o pai, mas, belíssima, elegante e cosmopolita, não passa mais incólume ao sedutor David, que se apaixona por ela, arriscando uma negociata de milhares de dólares vinculada a seu iminente casamento com uma socialite. Para impedir que o casal fique junto e estrague os planos milionários da empresa, Linus se aproveita de um pequeno acidente de David para separá-los. O que ele não contava, no entanto, era se apaixonar também por Sabrina.

É impossível negar que o maior mérito de "Sabrina" é o talento enorme de Billy Wilder em transformar até mesmo uma história de amor sem maiores novidades em um filme inesquecível. Apesar da trama do filme não ser das mais geniais ou surpreendentes, seu roteiro esperto e divertido conquista pela sutileza, pelo humor suave e pelo romantismo na medida certa. O timing cômico de Wilder é evidente em pequenos detalhes - em especial nas cenas com o hilário Walter Hampden, como o patriarca Larrabee - mas o cineasta, espertamente, nunca deixa que o romantismo da trama principal deixe de ser o centro do interesse do espectador. Seu uso exemplar do humor serve apenas como um alívio cômico para uma trama quase banal, ainda que contada com tanto zelo e cuidado que chega a arrebatar em seus momentos mais sentimentais.
Uma das críticas mais frequentes a "Sabrina" é o fato de Humphrey Bogart ser muito mais velho do que Hepburn, e realmente a química entre os dois não é das mais fascinantes. No entanto, é fácil acreditar no amor que nasce entre os dois, em parte devido ao talento dos dois atores, em parte devido ao clima proporcionado pela bela fotografia de Charles Lang Jr. (indicada ao Oscar). A trilha sonora (que inclui a própria atriz entoando uma versão de "La vie en rose") colabora com o ritmo suave que envolve o espectador sem exigir dele mais do que o desejo de ser entretido com categoria e inteligência.
Mas, sem sombra de dúvida, além do roteiro eficaz, do clima contagiante e do elenco de astros, o que sobressai de "Sabrina" é Audrey Hepburn. Pelo seu talento e pela sua postura elegante (apesar do Oscar de figurino ter ficado nas mãos de Edith Head as roupas usadas pela atriz são do estilista Givenchy - que confundiu-a primeiramente com Katharine Hepburn e depois tornou-se grande amigo e colaborador), Audrey é o rosto e a alma do filme. Tanto sua estampa tornou-se a imagem máxima do filme que, quando Sydney Pollack fez um desnecessário remake do filme, em 1995, colocou a sem-sal Julia Ormond no papel-título e amargou um merecido fracasso. "Sabrina" É Audrey Hepburn.
quarta-feira
CREPÚSCULO DOS DEUSES

CREPÚSCULO DOS DEUSES (Sunset boulevard, 1950, Paramount Pictures, 110min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Charles Brackett, Billy Wilder, D. M. Marshman Jr. Fotografia: John F. Seitz. Montagem: Arthur P. Schmidt, Doane Harrison. Música: Franz Waxman. Figurino: Edith Head. Produção: Charles Brackett. Elenco: Gloria Swanson, William Holden, Erich Von Stroheim, Nancy Olson, Jack Webb. Estreia: 04/8/50
11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (William Holden), Atriz (Gloria Swanson), Ator Coadjuvante (Erich Von Stronheim), Atriz Coadjuvante (Nancy Olson), História e Roteiro Originais, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte
Vencedor de 3 Oscar: História e Roteiro Originais, Trilha Sonora Original, Direção de Arte
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Atriz (Gloria Swanson), Trilha Sonora Original
Poucas vezes na história do cinema um título nacional conseguiu atingir tão precisamente a essência de um filme quanto "Crepúsculo dos deuses", a versão brasileira de "Sunset Blvd", uma das várias obras-primas legadas ao mundo pelo cineasta Billy Wilder. Poético, trágico e imponente, o título já dá uma ideia do alcance da obra, que utiliza a trágica história de uma atriz veterana em busca de uma nova chance como metáfora assustadora da inevitabilidade da decadência e da efemeridade da juventude, da beleza e, por que não?, da sanidade mental.
A protagonista de "Crepúsculo dos deuses" é Norma Desmond, uma diva do cinema mudo que não resistiu à transição para os filmes falados. Vivendo isolada em um mundo particular, dentro de uma mansão decadente na Sunset Boulevard (o tal título original) e refugiando-se nas glórias de seu passado, ela sonha em voltar às telas em uma adaptação de "Salomé", de Oscar Wilde, com ela no papel-título (o fato de ter muito mais idade que a personagem não lhe preocupa nem um pouco). Servida fielmente pelo mordomo Max Von Mayerling (Erich Von Stronheim), Desmond vive do passado enquanto sonha por um futuro pouco provável (ao menos para olhos mais racionais). Sua vida sofre uma reviravolta quando ela conhece o aspirante a roteirista Joe Gillis (William Holden), que, foragido dos credores, se esconde na garagem de sua mansão. Apaixonada por ele, a atriz o contrata para ajudá-la a escrever seu retorno ao cinema, que, acredita ela, é um evento esperado ansiosamente por seus fãs. No entanto, o rapaz, que submete-se a sua dominação por estar sem dinheiro e sem possibilidades de trabalho, apaixona-se pela doce namorada de um amigo (Nancy Olson) e, rejeitada, Norma Desmond embarca em um caminho sem volta de rancor e desilusão.

Quando um filme fala sobre cinema corre o sério risco de cair nas armadilhas de auto-referência, narcisismo e pior ainda, metalinguagem (o que, quando usado sem parcimônia pode transformar um filme em uma tortura). Não é qualquer cineasta que tem auto-crítica em quantidade suficiente para realizar um filme sobre os bastidores de sua profissão sem fazer dele um exercício de auto-adoração. Felizmente Billy Wilder não é "qualquer cineasta". Dono de uma visão toda particular da vida e principalmente da sétima arte, ele oferece ao espectador um ângulo poucas vezes visto do mundo do cinema, onde o talento muitas vezes é relevado a melancólicos segundos planos diante da beleza e do "novo". O roteiro - escrito por Wilder com seu habitual colaborador Charles Brackett - é repleto de um cinismo delicioso, mas seco, cruel e a um passo do pessimismo. As cenas entre Desmond e seu mordomo - que já foi seu marido e diretor de alguns filmes seus - são de partir o coração, tamanha a compaixão que a protagonista desperta na audiência. Sim, ela é louca. Sim, ela é arrogante e sim, ela é egocêntrica. Mas a atuação de Gloria Swanson é tão, mas tão perfeita, que fica difícil não ficar fascinado com seus gestos, seus olhares - em determinado momento ela diz, com certa razão: "Não preciso de falas, tenho meus olhos..." - sua grandeza intrínseca. Norma Desmond é, sem dúvida, uma das grandes personagens da história do cinema e Swanson apropriou-se dela de tal maneira que é difícil imaginar outra atriz em seu lugar - e isso que Mae West, Mary Pickford e Pola Negri foram convidadas antes dela, recusando o papel para sorte nossa. Como ela e Bette Davis (por "A malvada") foram preteridas na premiação do Oscar de melhor atriz em nome de Judy Holiday (por "Nascida ontem") ainda é um mistério inexplicável.
Em cena, Swanson é poderosa, frágil, romântica, enlouquecida, uma estrela ou apenas uma sombra da glória de sua personagem. Ao lado de William Holden (que ficou com o papel recusado por Montgomery Clift, por pouco não oferecido a Marlon Brando e que não pôde ficar com Gene Kelly por questões contratuais), ela é uma mulher apaixonada. Diante de seu mordomo, uma diva atemporal. Para os espectadores, uma mulher perdida entre o passado de sucesso e o presente sufocante.
Além da magnífica ambientação soturna do filme (que pode sem medo ser encaixado na categoria de filme noir, ainda que não corresponda a todas as suas regras), do roteiro extraordinário, da direção precisa e do elenco irretocável (Erich Von Strohneim também foi cineasta, assim como seu personagem), "Crepúsculo dos deuses" ainda encontra espaço para homenagear astros que, assim como Norma Desmond, viram seus melhores anos esquecidos pelo advento do som, como Buster Keaton, que faz seu próprio papel em uma breve cena de jogo de cartas. E o cineasta Cecil B. de Mille também dá o ar da graça, interpretando ele mesmo, em uma cena que demonstra como poucas a divisão claramente estabelecida entre a velha e a nova (da época) Hollywood.
"Crepúsculo dos deuses" é um dos melhores filmes da história, digo sem medo de errar. Tudo funciona, tudo está no lugar certo, tudo faz sentido. E quando acaba, mesmo sem querer ser saudosista não há como negar que Norma Desmond está certá quando diz que "os filmes é que ficaram pequenos".
PS - Havia um boato de que o musical da Broadway inspirado em "Sunset Blvd" seria adaptado para o cinema com Glenn Close como Norma Desmond e Ewan McGregor como Joe Gillis. Tem lugar na primeira fila???
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