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segunda-feira

O INCRÍVEL HULK


O INCRÍVEL HULK (The Incredible Hulk, 2008, Universal Pictures/Marvel Enterprises, 112min) Direção: Louis Leterrier. Roteiro: Zak Penn, personagens criados por Stan Lee, Jack Kirby. Fotografia: Peter Menzies Jr.. Montagem: Rick Shaine, Vincent Tabaillon, John Wright. Música: Craig Armstrong. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Kirk M. Petrucelli/Monica Delfino, Carolyn "Cal" Loucks, Monica Rochlin. Produção executiva: Stan Lee, David Maisel, Jim Van Wyck. Produção: Avi Arad, Kevin Feige, Gale Anne Hurd. Elenco: Edward Norton, Liv Tyler, William Hurt, Tim Roth, Tim Blake Nelson, Ty Burrell. Estreia: 08/6/08

Em 2003 os fãs de quadrinhos foram surpreendidos com "Hulk", um olhar bastante peculiar sobre um dos personagens mais queridos e populares da Marvel: sob a direção do premiado Ang Lee (acostumado a assinar produções mais artísticas, como "Razão e sensibilidade", de 1995, e "O tigre e o dragão", de 2000, pelo qual levou seu primeiro Oscar), o super-herói verde tornou-se protagonista de um filme de ação com tendências existencialistas e, apesar da bilheteria mundial acima de 245 milhões de dólares, não chegou a entusiasmar o público e dividiu a crítica. As chances de uma sequência no mesmo tom cerebral, escrita por James Schamus - colaborador habitual de Lee - acabaram sendo abandonadas em 2005, no entanto, quando a Universal Pictures devolveu os direitos do personagem à Marvel. Já dedicada a criar seu Universo Cinematográfico, a Marvel aproveitou a oportunidade para dar uma nova chance ao cientista Bruce Banner e seu monstruoso alterego - com um viés mais próximo de suas pretensões comerciais e possibilidades mais concretas de fazer dele parte de um projeto maior. Para isso, não apenas Ang Lee foi dispensado da função de diretor - em uma estratégia corajosa, o estúdio aproveitou a recusa de Eric Bana em retornar ao papel-título para, ao invés de recomeçar do zero, fazer de "O incrível Hulk" uma mistura entre um reboot e uma continuação. Pode não ter repetido o êxito de "Homem de ferro" (2008) - primeiro filme do ambicioso plano da Marvel e sucesso imenso de bilheteria -, mas marcou presença de forma nada desprezível.

A saída de Bana do projeto abriu a porta para perspectivas interessantes - e nomes como Matthew McConaughey, David Duchovny (da série "Arquivo X") e Dominic Purcell (astro de "Prision break") foram cogitados para assumir a liderança do elenco. Em uma espécie de clarividência, o novo diretor, o cineasta francês Louis Leterrier, chegou a propor, sem sucesso, o nome de Mark Ruffalo para o papel principal, mas foi voto vencido junto aos executivos da Marvel: poucos anos depois Ruffalo tornou-se o mais celebrado intérprete do personagem mesmo sem ter um filme-solo. A recusa da Marvel em aceitar Ruffalo em "O incrível Hulk" tinha uma razão, no entanto, e bem forte: sua preferência por Edward Norton, fã dos quadrinhos e um ator de prestígio o suficiente para garantir a boa vontade da crítica e de parte do público avesso a filmes-evento. Apesar de conhecido por seu gênio forte - e por sua interferência nas decisões criativas dos filmes dos quais participava -, Norton já tinha duas indicações ao Oscar no currículo e não era um ator que se prestava facilmente a produções comerciais: sua presença seria um belo chamariz e deixaria bastante claro a todos a intenção da Marvel em ser levada muito a sério.

 

Como era de se esperar, Norton não apenas fez sua parte como ator - reescreveu várias cenas do roteiro de Zak Penn e dirigiu algumas sequências para ajudar a manter o cronograma de filmagens. Com locações no Rio de Janeiro e Toronto fazendo o papel de Manahattan (por questões de concessões comerciais oferecidas pelo prefeito local, David Miller, fã do personagem), "O incrível Hulk" sofreu várias alterações em relação a seu primeiro filme. Não apenas no visual escolhido pelo novo diretor (um verde mais escuro e um tamanho fixo para a criatura, por exemplo), mas também em sua tentativa de fazer dele um herói trágico sem abandonar seu propósito de entreter a plateia, ávida pelos melhores efeitos visuais que um orçamento de 150 milhões de dólares podem comprar. Para isso, a trama não perde tempo em estabelecer as origens do personagem - e conta com um vilão bastante interessante, interpretado pelo sempre ótimo (e frequentemente subestimado) Tim Roth. Da mesma forma, a relação entre Banner e Betty Ross (Liv Tyler substituindo Jennifer Connelly com competência e elegância) não precisa ser estabelecida desde o princípio - seu reencontro se dá em uma cena que resume perfeitamente o equilíbrio entre drama e ação que faltou ao primeiro filme. E é claro que ter William Hurt na pele do general Ross não atrapalha em nada: fã de Hulk, assim como seu filho e Edward Norton, Hurt é mais um elemento a emprestar prestígio à produção.

"O incrível Hulk" começa nas favelas do Rio de Janeiro, onde Bruce Banner está escondido depois dos catastróficos eventos do primeiro capítulo. Buscando incessantemente uma cura para sua condição, o cientista ainda precisa lidar com o fato de que forças militares lideradas pelo General Ross estão à sua procura, já que não pretendem abandonar o resultado de anos em estudos para a criação de um super soldado. Quando Banner retorna aos EUA, conta com o apoio da namorada, Betty (que, por caprichos do destino e dos roteiristas, é filha do general), para aproximar-se de um antídoto - uma questão que o colocará em rota de colisão com um monstro de poderes similares, criado justamente para enfrentá-lo e impedir sua deserção. O embate ente os dois é o centro do filme de Leterrier - que herdou a direção do filme depois que o comando de "Homem de ferro" foi parar nas mãos de Jon Favreau - e é bastante superior, em termos técnicos e emotivos, ao trabalho de Ang Lee, além de, é claro, deixar um espaço em aberto para as inevitáveis continuações ao lado de seus colegas vingadores. "O incrível Hulk" pode não ser um filme perfeito - mas funciona às mil maravilhas como entretenimento de qualidade.

quarta-feira

SEXO, ROCK E CONFUSÃO

SEXO, ROCK E CONFUSÃO (Empire Records, 1995, Warner Bros, 90min) Direção: Allan Moyle. Roteiro: Carol Heikkinen. Fotografia: Walt Lloyd. Montagem: Michael Chandler. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Peter Jamison/Linda Spheeris. Produção: Tony Ludwig, Arnon Milchan, Michael Nathanson, Alan Riche. Elenco: Anthony LaPaglia, Maxwell Caulfield, Debi Mazar, Rory Cochrane, Johnny Whitworth, Robin Tunney, Liv Tyler, Renée Zellweger, Ethan Embry, Brendan Sexton III. Estreia: 22/9/95

Nem só de escritores consagrados e adaptações literárias vive o cinema americano. Vez ou outra, uma voz nova e solitária surge com alguma ideia interessante o suficiente para despertar a cobiça de algum estúdio, sedento por alguns milhares de dólares a mais no cofre (ou um produto com potencial a cult). Foi assim, por exemplo, com Carol Heikkinen, ex-funcionária da Tower Records de Phoenix, Arizona, e autora do roteiro da comédia "Sexo, rock e confusão", lançada pela Warner em 1995 com um elenco jovem que incluía as então iniciantes Renée Zellweger e Liv Tyler. Tudo bem que Heikkinen já havia assinado o script de "Um sonho, dois amores" (93), dirigido por Peter Boganovich e estrelado por River Phoenix (um fracasso de bilheteria e crítica), mas foi sua coletânea de memórias afetivas de seu tempo em uma das lojas de discos mais famosas dos EUA que a colocou no radar de Hollywood: com uma mistura quase anárquica de música, humor adolescente e despretensão, sua trama (simples e superficial) chegou às telas sob a direção de Allan Moyle - que já tinha no currículo outra comédia musical jovem, "Um som diferente" (90), com Christian Slater - e, se não arrebentou nas bilheterias, ao menos consegue divertir seu público-alvo mesmo passando longe de apresentar alguma novidade.

A estrutura central de "Sexo, rock e confusão" lembra a do clássico juvenil "Clube dos cinco" (85), de John Hughes, mas sem a profundidade emocional deste. Sua ambientação pode lembrar aos cinéfilos o genial "Alta fidelidade" (99), de Stephen Frears - mesmo que ele tenha sido lançado anos depois. Mas o filme de Moyle não parece querer ser mais do que um passatempo leve e simpático, embalado por uma trilha sonora pop-rock e enfeitado por um elenco fotogênico. Todo o roteiro gira em torno da Empire Records do título original, uma loja independente de discos que está a um passo de ser absorvida por uma cadeia de empreendimentos semelhantes. Seu gerente, Joe (Anthony LaPaglia) ainda não quer revelar aos funcionários tal situação, mas este parece ser o menor dos problemas da equipe, toda ela envolvida em algum problema pessoal. Lucas (Rory Cochrane), o único que sabe da verdade, tentou reverter o quadro roubando a féria do dia anterior e perdendo no jogo em Atlantic City; A. J. (Johnny Withworth) planeja declarar seu amor à colega Corey (Liv Tyler) - que está mais interessada em perder a virgindade com o astro popular Rex Manning (Maxwell Caulfield), que irá autografar seu novo disco nas dependências da loja; Debra (Robin Tunney) acaba de tentar o suicídio depois do fim do namoro com outro vendedor, Berko (Coyote Shivers); Mark (Ethan Embry) sonha em ser roqueiro; e Gina (Renée Zellweger) administra seu jeito liberal de ser enquanto aconselha Corey a manter seu objetivo de entregar-se à Manning. Nesse meio-tempo, até mesmo um ladrãozinho de meia-tigela, Warren (Brendan Sexton) entra na jogada, tornando-se uma espécie de refém dos jovens funcionários que esperam a chegada de Rex Manning e sua assessora Jane (Debi Mazar).


Uma série de anedotas ligadas tenuamente por um roteiro ligeiro e inconsequente, "Sexo, rock e confusão" se beneficia principalmente por seu elenco, formado por jovens atores então em ascensão. Robin Tunney logo estaria no elenco de "Jovens bruxas" (96) e futuramente participaria da série "O mentalista". Liv Tyler - então recém reconhecida como filha do roqueiro Steven Tyler e musa do clipe "Crazy" ao lado de Alicia Silverstone - se tornaria símbolo sexual instantâneo graças aos filmes "Beleza roubada" (96) e "Armageddon" (98). E Renée Zellweger iria ainda mais longe, conquistando a crítica e o público com filmes como "Jerry Maguire: a grande virada" (96) e "O diário de Bridget Jones" (01), além de ganhar um Oscar de coadjuvante por "Cold Mountain" (03) depois de duas infrutíferas indicações. Jovens, belas e talentosas, elas disfarçam a falta de novidades do roteiro e até a falta de consistência do filme como um todo - não há, a rigor, nenhum personagem que realmente crie empatia com o espectador médio, que assiste a tudo facilmente, é verdade, mas sempre à espera de alguma cena, algum momento que acabe com a nítida impressão de que ele é, na verdade, um produto feito especificamente para a geração MTV.

E nesse ponto, justiça seja feita, o filme não deixa de ser uma delícia. Não tão inteligente quanto outros realizados pela mesma época, como "As patricinhas de Beverly Hills" ou "Pânico" - que não apenas retratavam uma geração, mas o faziam com um grau de ironia carinhosamente único - mas agradável e bem-humorado. Sem pesar a mão nem mesmo quando trata de assuntos um tanto polêmicos como suicídio e virgindade, "Sexo, rock e confusão" é pontuado por uma trilha sonora que inclui The Cranberries, AC/DC, Dire Straits e Better Than Ezra, além de outros nomes do rock anos 90, o que imprime imediatamente um ar nostálgico e irreverente a uma trama facilmente esquecível, mas que não faz mal a ninguém. Uma sessão da tarde para aqueles que cultuam a década de 90 - e suas musas.

domingo

BELEZA ROUBADA

BELEZA ROUBADA (Stealing beauty, 1996, Fiction Films/France 2 Cinéma, 118min) Direção: Bernardo Bertolucci. Roteiro: Susan Minot, estória de Bernardo Bertolucci. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Pietro Scalia. Música: Richard Hartley. Figurino: Louise Stjernsward. Direção de arte/cenários: Gianni Silvestri/Cinzia Sleiter. Produção executiva: Yves Attal. Produção: Jeremy Thomas. Elenco: Liv Tyler, Jeremy Irons, Sinéad Cusack, Rachel Weisz, Joseph Fiennes, Jason Flemyng, Jean Marais, Stefania Sandrelli. Estreia: 29/3/96

Durante as entrevistas de divulgação de "O pequeno Buda", estrelado por Keanu Reeves, o cineasta Bernardo Bertolucci não se cansava de dizer que seu filme seguinte teria que ser, necessariamente, um projeto pequeno, familiar, que não envolvesse as dificuldades logísticas de suas últimas obras - entre elas, o ambicioso "O céu que nos protege". Quando "Beleza roubada" estreou no Festival de Cannes de 1996, dois meses de ter chegado aos cinemas italianos, o mundo todo percebeu que ele falava muito sério. Simples e minimalista, a história da bela e inocente Lucy Harmon em busca da verdade sobre sua mãe suicida e do primeiro amor mostra um Bertolucci em registro discreto, a anos-luz do gigantismo de coisas como "O último imperador", que lhe rendeu 9 Oscar em 1988. Essa bem-vinda despretensão conquistou a simpatia da crítica e do público, que aprovou, entre outras coisas, a escolha acertadíssima de Liv Tyler para interpretar o papel principal. Com uma aura de pureza e inocência ao redor de um rosto deslumbrante, Liv - filha do vocalista da banda de rock Aerosmith, Steven Tyler - se desincumbe com graça e segurança de sua primeira protagonista, seduzindo o espectador logo nas primeiras cenas.

Ao som de Lizzy Phair e  sua "Rocket song", o público acompanha a chegada da bela Lucy, uma jovem americana de 19 anos, a uma afastada vila italiana de propriedade de Ian (Donald McCann), um artista plástico inglês que refugiou-se do mundo para levar uma existência tranquila ao lado da esposa, Diana (Sinéad Cusack) e dos amigos que frequentemente os visitam, como o poeta Alex (Jeremy Irons), que, contaminado pelo vírus da AIDS, passa seus últimos meses na companhia do casal. A visita de Lucy, porém, não é apenas um acontecimento social corriqueiro: com a desculpa de posar para uma escultura de Ian, a bela jovem tem também interesse em descobrir a verdade sobre sua paternidade, que ela sabe ter relação com um verão passado por sua mãe, uma recente suicida, no mesmo local da Toscana. Enquanto busca pistas que a levem à identidade de seu pai, ela passa a ter contato com o grupo de convidados excêntricos de Ian e Diana, que aproveitam ao máximo o calor da Itália e sua atmosfera altamente sensual. Envolvida pelo clima erótico do lugar, Lucy espera ansiosamente pelo reencontro com Niccólo (Roberto Zibetti), um flerte de adolescência que ela espera converter em seu primeiro homem.


Fotografada com extrema luminosidade por Darius Khondji - em um trabalho oposto ao que realizou no soturno "Seven, os sete crimes capitais" - a Toscana de Bernardo Bertolucci surge soberana diante dos olhos do público em cada cena de "Beleza roubada". As paisagens deslumbrantes combinam magistralmente com a beleza espectral de Liv Tyler, em uma composição irresistível que ilustra com perfeição os temas essenciais do filme: a busca pelo prazer, pelo amor e pela identidade. Narrado de forma poética - através de trechos de escritos da protagonista, do visual arrebatador e da relação estabelecida entre sexo e arte, com mostrado na festa da qual os personagens participam - o filme ressente-se apenas de um rimo pouco atraente. Ainda que seja bem mais ágil que muitos outros filmes do diretor, "Beleza roubada" empresta das produções europeias sua velocidade discreta em contar sua história, o que pode incomodar os espectadores mais afoitos.

Apoiado basicamente no trabalho de Liv Tyler - ainda inexperiente mas dotada de um carisma que ameniza suas falhas como atriz - "Beleza roubada" consegue alcançar seu maior objetivo (ser um filme pequeno, leve, discreto) sem maiores esforços. Experiente na direção de seus atores, Bernardo Bertolucci conduz a trama com mão leve, deixando que a ação transcorra sem pressa como um verão na Toscana. Tal clima transparece em cada sequência, mergulhando o espectador em uma história de gente normal passando por acontecimentos normais - que se engrandecem apenas graças ao visual estonteante imposto pela fotografia impecável. É um filme comum, capaz de agradar a quem procura se ver retratado nas telas. Se é que a beleza de Liv pode ser considerada comum.

terça-feira

TESTEMUNHA DO SILÊNCIO

TESTEMUNHA DO SILÊNCIO (Silent fall, 1994, Warner Bros, 101min) Direção: Bruce Beresford. Roteiro: Akiva Goldsman. Fotografia: Peter James. Montagem: Ian Crafford. Música: Stewart Copeland. Figurino: Colleen Kelsall. Direção de arte/cenários: John Stoddart/Patty Malone. Produção executiva: Gary Barber. Produção: James G. Robinson. Elenco: Richard Dreyfuss, Linda Hamilton, Liv Tyler, J.T. Walsh, John Lithgow, Ben Faulkner. Estreia: 28/10/94

Um dos atores mais populares da segunda metade dos anos 70 - quando protagonizou "Tubarão" (75) e "Contatos imediatos de terceiro grau" (77) e foi o mais jovem vencedor do Oscar na categoria principal até então, por "A garota do adeus" (77) - Richard Dreyfuss não teve a mesma sorte nas décadas seguintes, equilibrando bons filmes de más bilheterias ("Querem me enlouquecer", com Barbra Streisand, de 87 e "Além da eternidade", de Steven Spielberg, de 89, por exemplo), filmes agradáveis que fizeram sucesso de público ("Tocaia", de 1987 e "Nosso querido Bob", de 1991) e produções francamente ruins, que não chegavam nem perto de explorar todo o seu talento (a continuação de "Tocaia", lançada em 1993). Infelizmente, antes de tentar uma volta por cima com a indicação merecida ao Oscar de melhor ator por "Mr. Holland, adorável professor" (95), ele acrescentou mais um filme desnecessário à sua carreira. Com uma trama instigante e uma lista de créditos excitante - o cineasta Bruce Beresford, a atriz Linda Hamilton e a beldade Liv Tyler estreando no cinema - "Testemunha do silêncio" acabou decepcionando o público, a crítica e a Warner, que empatou 30 milhões de dólares em uma produção que não recuperou nem 10% do orçamento. E o pior é que a culpa nem é de Dreyfuss.

Por mais que esteja quase no piloto automático em sua atuação, Dreyfuss não pode ser responsabilizado pelo fracasso de "Testemunha de silêncio", dirigido de forma burocrática e sem emoção por Beresford - que sintomaticamente, cinco anos antes, viu seu "Conduzindo Miss Daisy" levar o Oscar de melhor filme sem que ele ao menos tivesse sido indicado. Seu personagem, o terapeuta infantil Jake Rainer, especializado em autismo infantil e traumatizado com o suicídio de um paciente em seu centro de tratamento, poderia ser rico em nuances, mas o roteiro de Akiva Goldsman - que oito anos depois também seria premiado pela Academia por "Uma mente brilhante" - parece não ter interesse em desenvolver a complexidade de seu protagonista, ilustrando seu drama com uma ou duas cenas ligeiras e alguns poucos diálogos com a esposa Karen (Linda Hamilton, subaproveitada ao máximo). O foco da trama - interessante, mas igualmente desenvolvido de forma capenga e quase inverossímil - é uma investigação policial na qual ele é envolvido a contragosto e que vai acabar por fazê-lo rever sua decisão de abandonar a medicina.


O filme começa quando Rainer é chamado pelo xerife Mitch Rivers (J.T. Walsh) - com quem tem uma antiga relação de amizade - à cena de um brutal assassinato ocorrido na pequena cidade onde vive. A princípio o médico não entende os motivos que o levaram a ser convocado à propriedade onde um casal de classe média alta foi violentamente atacado a facadas em seu quarto, mas a razão logo surge quando ele encontra o filho caçula do casal, Tim (o ótimo Ben Faulkner), coberto de sangue, com uma faca nas mãos e falando coisas desconexas. Fica claro que o menino é autista e testemunhou o crime, mas não é do interesse de Rainer fazer parte das investigações até que a bela Sylvie (Liv Tyler), filha mais velha das vítimas implora que ele os ajude. Percebendo que, caso se recuse a colaborar com seu tratamento à base de psicologia infantil o pequeno Tim cairá nas mãos de outro médico (John Lithgow), bem mais afeito a drogas do que a conversas, ele aceita o desafio. No meio do caminho, pistas e revelações levam a polícia para inúmeros caminhos na busca pelo assassino.

A história de "Testemunha do silêncio" é interessante, e o desfecho poderia surpreender, caso tudo não corresse de forma tão preguiçosa. O roteiro, como afirmado anteriormente, desperdiça a chance de equilibrar um filme policial tenso com um drama médico eficiente ao optar sempre pelas soluções mais fáceis - e menos críveis. A direção é fria e quadrada, sem buscar em seu elenco de bons atores - Dreyfuss, Hamilton, Lithgow - interpretações mais do que corretas. E, se o pequeno Ben Faulkner dá show vivendo o atormentado Tim, o mesmo não pode ser dito de Liv Tyler, que estreava no cinema na pele de sua irmã mais velha, Sylvie. Vinda do mundo do rock - é filha do vocalista da banda Aerosmith, Steven Tyler, e havia estrelado o videoclipe "Crazy", da banda do papai, ao lado da atriz Alicia Silverstone - Liv mostrou que realmente era uma mulher deslumbrante, mas desprovida de talento dramático em um papel-chave para a trama. Felizmente, com o tempo, ela melhorou bastante e hoje é uma atriz relativamente competente. Mas, diante de tantos erros cometidos por "Testemunha do silêncio" sua apatia fica ainda mais gritante. Uma pena.

quinta-feira

OS ESTRANHOS

OS ESTRANHOS (The strangers, 2008, Rogue Pictures, 86min) Direção e roteiro: Bryan Bertino. Fotografia: Peter Sova. Montagem: Kevin Greutert. Música: tomandandy. Figurino: Susan Kaufman. Direção de arte/cenários: John D. Kretschmer/Missy Berent. Produção executiva: Joe Drake, Mark D. Evans, Kelli Konop, Trevor Macy, Sonny Mallhi. Produção: Doug Davison, Nathan Kahane, Roy Lee. Elenco: Scott Speedman, Liv Tyler. Estreia: 30/5/08

Em uma época onde os filmes de terror apelam com frequência cada vez maior ao sobrenatural e aos efeitos visuais, não deixa de ser surpreendente que algo como "Os estranhos" tenha sido realizado. Feito com cerca de 10 milhões de dólares - o que não paga nem um terço do salário dos grandes astros hollywoodianos - e protagonizado por um casal de atores de apenas razoável popularidade, o filme de estreia do cineasta Bryan Bertino é daqueles capazes de fazer o espectador pular da poltrona e roer as unhas de aflição do início ao fim. Tudo graças a uma edição de som espetacular, um roteiro que dá mais importância à sugestão do que ao explícito e a algumas palavrinhas no início da projeção: baseado em fatos reais.

Ainda que essas palavras não sejam exatamente verdadeiras - segundo o diretor e roteirista ele inspirou-se em uma vaga memória de infância e em alguns crimes da família Manson - isso fica insignificante diante da qualidade do terror apresentado pelo filme. Contando basicamente com dois atores centrais - e um elenco de apoio que sustenta a ação em momentos pontuais - "Os estranhos" é uma aula de narrativa de suspense, que daria orgulho ao mestre Hitchcock. Quase totalmente realizado com uma câmera na mão, o que acentua o clima de angústia e urgência da história, o filme de Bertino (que quase foi assinado pelo Mark Romanek de "Marcas de uma obsessão") é opressivo e claustrofóbico na medida certa. É, também, uma pequena obra-prima do gênero.


Construindo o suspense aos poucos, o roteiro começa apresentando seus protagonistas, o jovem casal James (Scott Speedman) e Kristen (Liv Tyler), que chegam à casa de campo da família do rapaz depois de uma noite que não correu exatamente como o esperado: apaixonado pela namorada, ele acaba de pedí-la em casamento e está decepcionado com sua recusa. O clima pesado entre os dois, porém, não é nada perto do que está por vir. O que começa com batidas repetidas na porta - e com estranhos pedindo informações a respeito de pessoas que eles não conhecem - termina com uma noite do mais puro desespero: um grupo de três desconhecidos passa a aterrorizá-los, impedindo-os de abandonar a propriedade.

É admirável a maneira com que o cineasta estreante consegue manter o nível de tensão constante, utilizando para isso elementos básicos como o silêncio e a sensação de desamparo da protagonista, vivida com garra e esforço pela bela Liv Tyler, que transmite com perfeição os sentimentos de pânico de sua personagem. É Tyler quem comanda o espetáculo, deixando a Scott Speedman a árdua tarefa de buscar atos de heroísmo em circunstâncias tão carregadas de medo. O pavor com que os dois se descobrem prisioneiros inocentes de uma brincadeira mortal é dividido com a plateia, que embarca sem reversas na trama urdida pelo roteiro. Tenso e angustiante, "Os estranhos" é o típico filme de deixar qualquer um com medo de dormir com as luzes apagadas.

quarta-feira

THE WONDERS, O SONHO NÃO ACABOU

THE WONDERS, O SONHO NÃO ACABOU (That thing you do!, 1996, 20th Century Fox, 108min) Direção e roteiro: Tom Hanks. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Richard Chew. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Merideth Boswell. Produção: Jonathan Demme, Gary Goetzman, Edward Saxon. Elenco: Tom Hanks, Jonathon Schaech, Tom Everett Scott, Liv Tyler, Steve Zahn, Ethan Embry, Giovanni Ribisi, Charlize Theron, Rita Wilson, Kevin Pollak, Chris Isaak. Estreia: 04/10/96

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("That thing you do!")

Premiado com dois Oscar consecutivos de melhor ator e um dos astros mais populares de Hollywood, Tom Hanks acrescentou mais um sucesso à sua carreira, em 1996, dessa vez em uma missão tripla. Em "The Wonders, o sonho não acabou", ele não apenas faz um pequeno papel coadjuvante: ele é também o roteirista e o diretor, unindo-se ao time dos atores tornados cineastas. Porém, ao contrário de nomes que foram ambiciosos em suas incursões para trás das câmeras, como Mel Gibson e Kevin Costner - só para citar nomes mais recentes - Hanks não fez sua estreia com um projeto grandioso ou de olho em estatuetas douradas. "The Wonders" é a cara de seu criador: agradável, simples e bem-humorado.

Ligeiramente inspirado na trajetória dos Beatles, Hanks inventou a história dos Wonders, um grupo de rock que, no início dos anos 60, conhece o gostinho do sucesso mas vê toda a sua possibilidade de reconhecimento internacional ruir devido aos problemas entre seus integrantes. Apesar de parecer mais um dramalhão que analisa egos inflados e retrata violentas auto-destruições, o filme do eterno Forrest Gump opta pelo viés cômico e leve, com um revestimento romântico e delicado que a trilha sonora vibrante e dançante reitera lindamente. Sob os olhos otimistas e generosos de Hanks, a história dos Wonders não é nada mais do que uma deliciosa viagem musical para o início do rock'n'roll.

É 1964, e a pequena cidade de Erie, na Pensilvânia é o lar de um grupo de amigos que aproveitam seus tempos livres para brincar de músicos. Depois que seu baterista sofre um acidente e quebra o braço, o jovem Guy Patterson (Tom Everett Scott) é convidado por Jimmy Mattingly (Jonathon Schaech) a assumir seu lugar. Dando uma batida mais rápida à balada "That thing you do!", composta por Jimmy - e tocada à exaustão no decorrer do filme - Guy acaba empurrando o grupo às paradas de sucesso. Empresariados pelo competente White (Tom Hanks), do selo Play-Tone, eles logo começam a galgar posições nas paradas de sucesso. Seu êxito logo torna-se uma ameaça ao relacionamento entre Guy e sua bela namorada, a doce Faye (Liv Tyler).



Deixando de lado toda e qualquer preocupação melodramática ou existencialista, o roteiro de Hanks é um primor de leveza e simpatia. Não há nenhum drama insuperável nem intrigas de bastidores como normalmente ocorre em produções do tipo. O baixista acidentado (vivido por Giovanni Ribisi) não tenta sabotar seu substituto nem existe uso de drogas ou bebidas. O universo rock'n'roll criado por Hanks é um universo totalmente desprovido das mazelas do mundo da música e isso talvez seja a razão porque o filme seja tão irresistível, mesmo que não tenha feito o barulho esperado em termos de bilheteria. Para um público acostumado aos excessos de Jim Morrison, Sid Vicious e Janis Joplin, encarar um grupo tão certinho como os Wonders talvez soe como um retrocesso inadmissível. O que esse público não desconfia é que nem só de overdoses e orgias sexuais vive o mundo da música (ao menos dentro da mente Polyanna de Tom Hanks)

No fim das contas, "The Wonders" é um delicioso entretenimento, capaz de divertir por duas horas em exigir nada mais do que a vontade de se deixar acompanhar por personagens simpáticos, uma trilha sonora dançante e a reconstituição de uma época dourada (mesmo que já manchada pela morte de Kennedy e pela guerra do Vietnã). E além de tudo, o filme tem Liv Tyler, deslumbrante e meiga, no auge de sua beleza etérea. Quem precisa mais do que isso para se divertir?

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...