SNOWDEN: HERÓI OU TRAIDOR (Snowden, 2016, Endgame Entertainment/Vendian Entertainment/KrautPack Entertainment, 134min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Kieran Fitzgerald, livro de Anatoly Kucherena e Luke Harding. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Alex Marquez, Lee Percy. Música: Craig Armstrong. Figurino: Bina Daigegler. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Véronique Melery. Produção executiva: Max Averlaiz, Michael Bassick, Olivier Cottet-Puinel, Douglas Hansen, José Ibañez, Peter Lawson, Romain Le Grand, Bahman Naraghi, Tom Ortenberg, Jérôme Seydoux, James Stern, Christopher Woodrow. Produção: Moritz Borman, Eric Kopeloff, Philip Schulz-Deyle, Fernando Sulichin. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Melissa Leo, Zachary Quinto, Shailene Woodley, Nicolas Cage, Rhys Ifans, Tom Wilkinson, Joely Richardson, Logan Marshall-Green, Timothy Olyphant, Ben Chaplin, Scott Eastwood. Estreia: 21/7/16
Se existe um cineasta certo para contar a história de Edward Snowden nas telas de cinema, esse cineasta é Oliver Stone. Politicamente ativo e pouco dado a sutilezas, Stone ganhou dois Oscar de direção por cutucar o governo americano a respeito da guerra do Vietnã (por "Platoon", de 1986, e "Nascido em 4 de julho", de 1989) e nunca mediu palavras - ou imagens - para deixar bem claras suas posições liberais e democratas. Há muito tempo sem um grande sucesso de bilheteria - seu último trabalho a fazer barulho comercialmente foi "JFK", em 1991 - e massacrado impiedosamente pela crítica por seus trabalhos mais recentes, como "As Torres Gêmeas" (2006) e "Selvagens" (2012), Stone encontrou na trajetória arriscada e corajosa do jovem informante a matéria-prima para uma produção não apenas contundente e atual, mas extremamente necessária. Como era de se esperar, o filme fracassou comercialmente - nos EUA rendeu pouco mais da metade de seu orçamento, estimado em 40 milhões de dólares - e dividiu a crítica, mas é inegável que é o melhor Stone desde "Assassinos por natureza" (94), o que é ainda mais admirável quando se percebe que é também um dos filmes de narrativa mais acessível da carreira do diretor.
Dispensando os cacoetes visuais e artifícios narrativos que vem marcando sua carreira desde a década de 90, Oliver Stone faz de "Snowden: herói ou traidor" uma obra linear e quase convencional, que aposta muito mais no roteiro quase didático do que no visual exuberante - é a primeira vez que o cineasta se utiliza de câmeras digitais sem que seja em um documentário. Apesar da edição continuar sendo um dos destaques (aqui a cargo de Alex Marquez e Lee Percy), Stone abre mão de suas manias de despejar diante da audiência imagens em ritmo alucinante e quase esquizofrênico: a história é, sim, contada em duas linhas de tempo distintas, mas sem que uma atropele a outra e sem que o público perca o fio da meada diante do excesso de informações. O roteiro, baseado no livro "Time of the Octopus" do advogado russo Anatoly Kucherena - tratado como ficção mas amplamente baseado em entrevistas com Snowden -, é a força motriz do filme, a base sobre a qual o diretor constrói uma severa crítica ao modo como os governos Bush e Obama lidaram com espionagem em grande escala e nas graves consequências de tais atos. Com imagens reais de governos atingidos pelo escândalo - incluindo o Brasil - e sem medo de apontar dedos, "Snowden" é surpreendentemente sóbrio e honesto. Stone parece dizer, com sua direção discreta, que a história (forte, assustadora, chocante) é maior do que qualquer tentativa de manipulação artística.
O filme começa em junho de 2013, quando o jovem Edward Snowden (Joseph Gordon-Levitt) se encontra com o jornalista Glenn Greenwald (Zachary Quinto) e a documentarista Laura Poitras (Melissa Leo) em um hotel de Hong Kong - Greenwald mais tarde seria um dos mais ferrenhos opositores ao golpe parlamentar que destitui a presidente Dilma Roussef, e Proitas ganharia o Oscar de documentário por "Cidadãoquatro" (2014), justamente sobre o escândalo denunciado por Snowden. O encontro entre os três tem uma razão muito simples, ainda que potencialmente explosiva: o rapaz, ex-funcionário da CIA e da NSA, tem documentos que comprovam sem espaço para quaisquer dúvidas, de que o governo norte-americano, em nome da defesa nacional, tem acesso irrestrito a informações pessoais e confidenciais de todo o planeta - e que as utiliza sem nenhum critério ético ou moral. A partir daí, o roteiro intercala as reuniões do grupo (que contam ainda com o repórter do jornal "The Guardian", Ewen MacAskill (Tom Wilkinson)) com a trajetória do rapaz dentro das agências de segurança do país. Com inteligência acima da média e digno da confiança de seus colegas e superiores, Snowden aos poucos vai tomando conhecimento do absurdo que é a rede de espionagem que ele mesmo criou (com objetivos outros, menos invasivos). Ao lado da namorada, Lindsay (Shailene Woodley), ele entra em uma severa crise de consciência até que resolve expor toda a verdade ao mundo.
Um thriller político da mais alta qualidade - que consegue equilibrar com maestria tanto o suspense quanto a crítica ao governo -, "Snowden" comprova que Oliver Stone é, apesar de alguns exageros de sua carreira, um dos cineastas mais instigantes de Hollywood. Destemido e feroz em suas declarações cinematográficas, é também um contador de histórias nato, convincente e quase diabólico em suas tentativas de vender seu peixe. Além do mais, é um excelente diretor de atores: se todo o elenco de "Snowden" é homogeneamente competente (incluindo uma pequena participação de Nicolas Cage), a composição de Joseph Gordon-Levitt é impressionante. Mesmo sem ter semelhanças físicas com o protagonista, quando está em cena o jovem ator simplesmente se transforma no personagem: a voz, o gestual e a forma de falar engolem Levitt e fazem surgir um Edward Snowden irretocável, capaz de confundir aos desavisados - tal similaridade física fica evidente na última cena, em que o verdadeiro Snowden faz uma aparição rápida e marcante. Injustamente esquecido pelo Oscar - que desde "Nixon", de 1995, nunca mais indicou filmes de Stone em nenhuma categoria - e por outras cerimônias de premiação (apenas o Satellite Awards lhe deu uma indicação), Gordon-Levitt comprova ser um dos mais talentosos e versáteis atores de sua geração, capaz de encarar desafios sem medo e sem se repetir. Se "Snowden: herói ou traidor" é tão bom, pode-se dizer que é devido à união perfeita entre diretor, tema, roteiro e ator principal. Um dos grandes filmes de 2016.
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A GRANDE APOSTA
A GRANDE APOSTA (The big short, 2015, Plan B Entertainment/Regency Enterprises, 130min) Direção: Adam McKay. Roteiro: Adam McKay, Charles Randolph, livro de Michael Lewis. Fotografia: Barry Ackroyd. Montagem: Hank Corwin. Música: Nicholas Britell. Figurino: Susan Matheson. Direção de arte/cenários: Clayton Hartley/Linda Sutton-Doll. Produção executiva: Kevin Messick, Louise Rosner-Meyer. Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Arnon Milchan, Brad Pitt. Elenco: Ryan Gosling, Steve Carrell, Christian Bale, Brad Pitt, Marisa Tomei, Tracy Letts, Rafe Spall, Melissa Leo, Finn Wittrock. Estreia: 12/11/15
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Adam McKay), Ator Coadjuvante (Christian Bale), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado
Subprime. Trenchs. Bolha imobiliária. Termos como esses, comuns a quem lida com o mercado financeiro mas totalmente desconhecidos de 95% da população mundial, são frequentemente mencionados em "A grande aposta", vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado de 2015, batendo nomes fortes, como "Perdido em Marte", de Ridley Scott, e "Carol", de Todd Haynes. Dirigido pelo mesmo Adam McKay de "O Âncora" (2005) e "Tudo por um furo" (2013), e estrelado por astros do porte de Brad Pitt, Christian Bale, Ryan Gosling e Steve Carrell, o filme, baseado em uma história real, caiu nas graças da crítica e chegou a concorrer a outras quatro estatuetas, entre elas melhor filme e direção. Tanto sucesso (inclusive de bilheteria, já que ultrapassou os 70 milhões de dólares no mercado doméstico) não deixa de ser estranho e surpreendente: apesar do elenco milionário e das tentativas de familiarizar a plateia com seu palavreado técnico através de inserções cômicas e didáticas, "A grande aposta" não deixa de ser um filme muito complexo para os não-iniciados (e até para aqueles mais ou menos interessados no assunto). Como cinema é muito bom (bem editado, ágil, inteligente, com ótimos atores e uma direção precisa), mas falha em sua principal missão: se fazer compreender completamente.
Talvez seja exagero afirmar que é preciso um conhecimento prévio de economia para melhor aproveitar todos os detalhes de "A grande aposta", mas é fato que inúmeros de seus diálogos são repletos de jargões e conceitos simplesmente complicados demais para o padrão médio do público. A trama - dividida em vários núcleos cuja intersecção é justamente a grande crise imobiliária de 2005, que arruinou milhares de americanos e causou uma onda de demissões, falências e prisões - apresenta personagens pouco simpáticos, quase todos francamente amorais e/ou meramente gananciosos, o que dificulta ainda mais sua conexão com o público, por mais que sejam interpretados por grandes atores. Quem sai-se melhor nesse quesito é Steve Carrell, que consegue imprimir um pouco de humanidade a seu Mark Baum, um homem torturado pelas lembranças do irmão suicida e por um casamento em frangalhos com a compreensiva Cynthia (Marisa Tomei). Afora ele, os personagens falham em se comunicar com a emoção da plateia, desfilando pela tela desesperados por dinheiro e tentando lucrar com a desgraça alheia. É difícil encontrar um ponto de conexão com qualquer um deles, o que, somado à relativa complexidade da trama, torna o espetáculo ainda mais árduo para o público que procura apenas um entretenimento leve. Por mais que o esforço da produção em se fazer entender seja louvável, o filme de Adam McKay esbarra na própria natureza de seu tema, hermético desde sempre.
Christian Bale chegou a ser indicado ao Oscar de ator coadjuvante - e é seu personagem quem dá o pontapé inicial na história: Michael Burry é um excêntrico investidor, dono de um olho de vidro e modos esquisitos que, analisando o mercado, percebe que em alguns anos a bolha imobiliária que sobrevive de hipotecas da população norte-americana irá estourar, causando uma crise sem precedentes na economia. Esperto, ele resolve apostar nessa certeza e compra milhares de dólares em títulos - e acaba chamando a atenção de outros ambiciosos especialistas no setor, entre eles o próprio Mark Baum, que entra por acaso no negócio depois de um telefonema por engano e leva seus sócios e colegas de trabalho com ele na aventura. É também buscando a fortuna rápida que dois jovens empresários, Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), embarcam na arriscada tentativa de vencer contra o mercado - e tudo é visto à distância (mas não muita) pelo experiente Jared Vennett (Ryan Gosling), que é uma espécie de narrador, que tenta dar luz a todas as tramoias e complicações do roteiro.
Baseado em um livro do mesmo Michael Lewis de "O homem que mudou o jogo" - em que Brad Pitt tentava vencer como gerente de um time de futebol americano baseado exclusivamente em cálculos matemáticos - e dotado de um ritmo empolgante que quase disfarça o fato de ser tão complicado, "A grande aposta" se ressente basicamente de tratar de um assunto tão radicalmente distante do público médio. Não há nada de errado em sua estrutura ou sua costura cinematográfica, tudo funciona como um relógio, desde as atuações inspiradas até a direção precisa e a edição exata. O que atrapalha é unicamente seu tema, por mais que o roteiro oscarizado tente traduzir em imagens e exemplos mundanos todo o festival de jargões e complexidades de seu universo. Quem quiser arriscar-se a uma sessão mesmo sabendo de antemão que deixará passar muitos detalhes tem muito com o que se divertir, mas não deixa de ser um tanto chato passar mais de duas horas batalhando arduamente com o cérebro quando o objetivo é se divertir. Não é um filme ruim, apenas bastante complicado.
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Adam McKay), Ator Coadjuvante (Christian Bale), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado
Subprime. Trenchs. Bolha imobiliária. Termos como esses, comuns a quem lida com o mercado financeiro mas totalmente desconhecidos de 95% da população mundial, são frequentemente mencionados em "A grande aposta", vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado de 2015, batendo nomes fortes, como "Perdido em Marte", de Ridley Scott, e "Carol", de Todd Haynes. Dirigido pelo mesmo Adam McKay de "O Âncora" (2005) e "Tudo por um furo" (2013), e estrelado por astros do porte de Brad Pitt, Christian Bale, Ryan Gosling e Steve Carrell, o filme, baseado em uma história real, caiu nas graças da crítica e chegou a concorrer a outras quatro estatuetas, entre elas melhor filme e direção. Tanto sucesso (inclusive de bilheteria, já que ultrapassou os 70 milhões de dólares no mercado doméstico) não deixa de ser estranho e surpreendente: apesar do elenco milionário e das tentativas de familiarizar a plateia com seu palavreado técnico através de inserções cômicas e didáticas, "A grande aposta" não deixa de ser um filme muito complexo para os não-iniciados (e até para aqueles mais ou menos interessados no assunto). Como cinema é muito bom (bem editado, ágil, inteligente, com ótimos atores e uma direção precisa), mas falha em sua principal missão: se fazer compreender completamente.
Talvez seja exagero afirmar que é preciso um conhecimento prévio de economia para melhor aproveitar todos os detalhes de "A grande aposta", mas é fato que inúmeros de seus diálogos são repletos de jargões e conceitos simplesmente complicados demais para o padrão médio do público. A trama - dividida em vários núcleos cuja intersecção é justamente a grande crise imobiliária de 2005, que arruinou milhares de americanos e causou uma onda de demissões, falências e prisões - apresenta personagens pouco simpáticos, quase todos francamente amorais e/ou meramente gananciosos, o que dificulta ainda mais sua conexão com o público, por mais que sejam interpretados por grandes atores. Quem sai-se melhor nesse quesito é Steve Carrell, que consegue imprimir um pouco de humanidade a seu Mark Baum, um homem torturado pelas lembranças do irmão suicida e por um casamento em frangalhos com a compreensiva Cynthia (Marisa Tomei). Afora ele, os personagens falham em se comunicar com a emoção da plateia, desfilando pela tela desesperados por dinheiro e tentando lucrar com a desgraça alheia. É difícil encontrar um ponto de conexão com qualquer um deles, o que, somado à relativa complexidade da trama, torna o espetáculo ainda mais árduo para o público que procura apenas um entretenimento leve. Por mais que o esforço da produção em se fazer entender seja louvável, o filme de Adam McKay esbarra na própria natureza de seu tema, hermético desde sempre.
Christian Bale chegou a ser indicado ao Oscar de ator coadjuvante - e é seu personagem quem dá o pontapé inicial na história: Michael Burry é um excêntrico investidor, dono de um olho de vidro e modos esquisitos que, analisando o mercado, percebe que em alguns anos a bolha imobiliária que sobrevive de hipotecas da população norte-americana irá estourar, causando uma crise sem precedentes na economia. Esperto, ele resolve apostar nessa certeza e compra milhares de dólares em títulos - e acaba chamando a atenção de outros ambiciosos especialistas no setor, entre eles o próprio Mark Baum, que entra por acaso no negócio depois de um telefonema por engano e leva seus sócios e colegas de trabalho com ele na aventura. É também buscando a fortuna rápida que dois jovens empresários, Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), embarcam na arriscada tentativa de vencer contra o mercado - e tudo é visto à distância (mas não muita) pelo experiente Jared Vennett (Ryan Gosling), que é uma espécie de narrador, que tenta dar luz a todas as tramoias e complicações do roteiro.
Baseado em um livro do mesmo Michael Lewis de "O homem que mudou o jogo" - em que Brad Pitt tentava vencer como gerente de um time de futebol americano baseado exclusivamente em cálculos matemáticos - e dotado de um ritmo empolgante que quase disfarça o fato de ser tão complicado, "A grande aposta" se ressente basicamente de tratar de um assunto tão radicalmente distante do público médio. Não há nada de errado em sua estrutura ou sua costura cinematográfica, tudo funciona como um relógio, desde as atuações inspiradas até a direção precisa e a edição exata. O que atrapalha é unicamente seu tema, por mais que o roteiro oscarizado tente traduzir em imagens e exemplos mundanos todo o festival de jargões e complexidades de seu universo. Quem quiser arriscar-se a uma sessão mesmo sabendo de antemão que deixará passar muitos detalhes tem muito com o que se divertir, mas não deixa de ser um tanto chato passar mais de duas horas batalhando arduamente com o cérebro quando o objetivo é se divertir. Não é um filme ruim, apenas bastante complicado.
sábado
OS SUSPEITOS
OS SUSPEITOS (Prisoners, 2013, Alcon Entertainment, 153min)
Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Aaron Guizowski. Fotografia: Roger
A. Deakins. Montagem: Joel Cox, Gary Roach. Música: Jóhan Jóhansson.
Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Frank
Galline. Produção executiva: Stephen Levinson, Edward L. McDonnell,
Robyn Meisinger, John H. Starke, Mark Wahlberg. Produção: Kira Davis,
Broderick Johnson, Adam Kolbrenner, Andrew A. Kosove. Elenco: Hugh
Jackman, Jake Gyllenhaal, Paul Dano, Melissa Leo, Terrence Howard, Maria
Bello, Viola Davis. Estreia: 30/8/13 (Festival de Telluride)
Indicado ao Oscar de Fotografia
Realizar um filme de gênero é sempre um desafio para um grande diretor: é preciso jogar com os elementos clássicos de forma inteligente, de maneira a prender a atenção de um público mal-acostumado com os clichês e ainda assim imprimir uma marca que o distingua de dezenas de outros lançamentos. Para sorte dos cinéfilos, vários mestres conseguiram esse feito: Pedro Almodovar fez isso magistralmente em "Má educação". David Fincher também, em "Zodíaco". Scorsese idem, em "A época da inocência" e Woody Allen em "Match point, ponto final". A lista, agora, tem um novo nome: Denis Villeneuve, o canadense do sublime "Incêndios", indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 2011. Seu "Os suspeitos" foge da simples definição de filme policial para transformar-se, em suas mãos, em um sério e claustrofóbico estudo sobre a culpa, a justiça pelas próprias mãos e o sentimento de perda.
O título original - "Prisoners" - pra variar tem muito mais camadas do que a tradução preguiçosa escolhida pela distribuidora, que já havia batizado outro grande filme, dirigido por Bryan Singer em 1995 e que deu o primeiro Oscar a Kevin Spacey. No filme de Villeneuve, os protagonistas são realmente prisioneiros, cada um a seu modo, das consequências do desaparecimento de duas meninas no feriado de Ação de Graças em Boston. O pai de uma delas, Keller Dover (Hugh Jackman) parte em uma busca obsessiva por seu paradeiro, que ele julga ser de conhecimento de Alex Jones (Paul Dano), um rapaz com problemas mentais visto nas redondezas do rapto. O policial Locki (Jake Gyllenhaal), encarregado do caso, sente-se em dívida de honra com o desesperado pai, especialmente quando o principal suspeito é liberado apesar de sua promessa de mantê-lo sob vigilância. E, logicamente, as duas famílias também estão aprisionadas à dúvida sobre a vida ou morte de suas crianças.
Os desdobramentos da trama, criada pelo roteirista Aaron Guzikowski, não valem a pena ser mencionados, sob pena de estragar a diversão - se é que "diversão" é o adjetivo adequado a um filme que mantém a tensão da plateia à flor da pele. No pleno domínio de seu trabalho como cineasta, Villeneuve constroi um suspense crescente, espalhando pistas sobre a resolução do caso (quase simplista, mas coerente) pelas cenas, dirigidas com economia de movimentos de câmera e atenção redobrada aos detalhes. A fotografia úmida e noir do mestre Roger Deakins colabora para o tom sombrio da narrativa, que não dá espaço para momentos desnecessários (e o faz com tanta competência que as duas horas e meia passam sem que se perceba). O roteiro segue o padrão que todos conhecem - o crime, a investigação, as pistas falsas, o clímax, o desenlace - mas o faz com uma propriedade ímpar, que faz com que tudo soe como novidade aos olhos da plateia, principalmente por dar uma importância rara às consequências dramáticas dos atos de seus personagens.
Ao contrário da maioria dos filmes policiais, onde os personagens existem somente para empurrar a história, em "Os suspeitos" é a história que empurra os personagens. Interessa a Villeneuve, cineasta com um olho cuidadoso para as mazelas do ser humano, mais a violência psicológica que se passa no subterrâneo da mente de Dover, Jones e Locki do que a violência física que porventura possa estar ocorrendo no cativeiro das meninas sequestradas. É a forma com que o pai angustiado e o policial dedicado lidam com o caso que eleva o filme a um patamar acima de seus congêneres, e para tal conta com um elenco brilhante, liderado por Hugh Jackman na melhor atuação de sua carreira - muito superior à sua interpretação indicada ao Oscar pelo modorrento "Os miseráveis" - e Jake Gyllenhaal, que constrói seu Locki com uma expressão corporal sutil e eficaz. O cada vez melhor Paul Dano e a oscarizada Melissa Leo também tem interpretações de destaque, em papéis que exploram a contento suas melhores qualidades.
Forte, intenso e digno de figurar entre os indicados ao próximo Oscar - o que infelizmente não deve ocorrer, haja visto sua ausência nas listas divulgadas até o momento - "Os suspeitos" é uma estreia alvissareira do diretor Dennis Villeneuve em Hollywood. Que se mantenha assim.
Indicado ao Oscar de Fotografia
Realizar um filme de gênero é sempre um desafio para um grande diretor: é preciso jogar com os elementos clássicos de forma inteligente, de maneira a prender a atenção de um público mal-acostumado com os clichês e ainda assim imprimir uma marca que o distingua de dezenas de outros lançamentos. Para sorte dos cinéfilos, vários mestres conseguiram esse feito: Pedro Almodovar fez isso magistralmente em "Má educação". David Fincher também, em "Zodíaco". Scorsese idem, em "A época da inocência" e Woody Allen em "Match point, ponto final". A lista, agora, tem um novo nome: Denis Villeneuve, o canadense do sublime "Incêndios", indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 2011. Seu "Os suspeitos" foge da simples definição de filme policial para transformar-se, em suas mãos, em um sério e claustrofóbico estudo sobre a culpa, a justiça pelas próprias mãos e o sentimento de perda.
O título original - "Prisoners" - pra variar tem muito mais camadas do que a tradução preguiçosa escolhida pela distribuidora, que já havia batizado outro grande filme, dirigido por Bryan Singer em 1995 e que deu o primeiro Oscar a Kevin Spacey. No filme de Villeneuve, os protagonistas são realmente prisioneiros, cada um a seu modo, das consequências do desaparecimento de duas meninas no feriado de Ação de Graças em Boston. O pai de uma delas, Keller Dover (Hugh Jackman) parte em uma busca obsessiva por seu paradeiro, que ele julga ser de conhecimento de Alex Jones (Paul Dano), um rapaz com problemas mentais visto nas redondezas do rapto. O policial Locki (Jake Gyllenhaal), encarregado do caso, sente-se em dívida de honra com o desesperado pai, especialmente quando o principal suspeito é liberado apesar de sua promessa de mantê-lo sob vigilância. E, logicamente, as duas famílias também estão aprisionadas à dúvida sobre a vida ou morte de suas crianças.
Os desdobramentos da trama, criada pelo roteirista Aaron Guzikowski, não valem a pena ser mencionados, sob pena de estragar a diversão - se é que "diversão" é o adjetivo adequado a um filme que mantém a tensão da plateia à flor da pele. No pleno domínio de seu trabalho como cineasta, Villeneuve constroi um suspense crescente, espalhando pistas sobre a resolução do caso (quase simplista, mas coerente) pelas cenas, dirigidas com economia de movimentos de câmera e atenção redobrada aos detalhes. A fotografia úmida e noir do mestre Roger Deakins colabora para o tom sombrio da narrativa, que não dá espaço para momentos desnecessários (e o faz com tanta competência que as duas horas e meia passam sem que se perceba). O roteiro segue o padrão que todos conhecem - o crime, a investigação, as pistas falsas, o clímax, o desenlace - mas o faz com uma propriedade ímpar, que faz com que tudo soe como novidade aos olhos da plateia, principalmente por dar uma importância rara às consequências dramáticas dos atos de seus personagens.
Ao contrário da maioria dos filmes policiais, onde os personagens existem somente para empurrar a história, em "Os suspeitos" é a história que empurra os personagens. Interessa a Villeneuve, cineasta com um olho cuidadoso para as mazelas do ser humano, mais a violência psicológica que se passa no subterrâneo da mente de Dover, Jones e Locki do que a violência física que porventura possa estar ocorrendo no cativeiro das meninas sequestradas. É a forma com que o pai angustiado e o policial dedicado lidam com o caso que eleva o filme a um patamar acima de seus congêneres, e para tal conta com um elenco brilhante, liderado por Hugh Jackman na melhor atuação de sua carreira - muito superior à sua interpretação indicada ao Oscar pelo modorrento "Os miseráveis" - e Jake Gyllenhaal, que constrói seu Locki com uma expressão corporal sutil e eficaz. O cada vez melhor Paul Dano e a oscarizada Melissa Leo também tem interpretações de destaque, em papéis que exploram a contento suas melhores qualidades.
Forte, intenso e digno de figurar entre os indicados ao próximo Oscar - o que infelizmente não deve ocorrer, haja visto sua ausência nas listas divulgadas até o momento - "Os suspeitos" é uma estreia alvissareira do diretor Dennis Villeneuve em Hollywood. Que se mantenha assim.
O VOO
O VOO (Flight, 2012, Paramount Pictures, 138min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: John Gatins. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Jeremiah O'Driscoll. Música: Alan Silvestri. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Nelson Coates/James Edward Ferrell Jr.. Produção executiva: Cherylanne Martin. Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Denzel Washington, John Goodman, Don Cheadle, Bruce Greenwood, Kelly Reilly, Melissa Leo, Brian Geraghty, James Badge Dale. Estreia: 14/10/12 (Festival de Nova York)
2 indicações ao Oscar: Ator (Denzel Washington), Roteiro Original
Levando-se em consideração que a filmografia de Robert Zemeckis inclui a trilogia "De volta para o futuro", o revolucionário "Uma cilada para Roger Rabbit" e o megapremiado "Forrest Gump" - e que desde "Náufrago", de um distante ano 2000 ele não brindava seu público com filmes em live-action - não deixa de ser surpreendente ver seu nome assinando "O voo", uma produção simples, honesta e humana e que, excetuando-se uma tensa sequência que mostra um acidente aéreo, prescinde de efeitos visuais e artifícios estilísticos para conquistar a plateia. Depois de uma sucessão de trabalhos cujo visual importava mais do que o conteúdo, o mais bem-sucedido discípulo de Steven Spielberg marcou sua volta de maneira discreta mas bastante eficiente. Com uma renda de mais de 90 milhões de dólares no mercado americano - contra seu custo de apenas 30 milhões - "O voo" ainda conseguiu agradar à crítica e à Academia de Hollywood, que o brindou com duas indicações ao Oscar: roteiro original e ator - Denzel Washington em uma atuação bem mais contida do que o normal e consequentemente mais humana e passível de identificação com o espectador.
Afeito à personagens heroicas e/ou arrogantes, Washington se sai notavelmente bem em um papel que foge de sua zona de conforto. Whip Whitaker, o piloto de aviões alcóolatra e viciado em drogas que consegue milagrosamente evitar uma tragédia de grandes proporções e depois se vê acossado por seus superiores e pela própria consciência é uma das melhores personagens de sua carreira, lhe proporcionando a chance de explorar nuances de seu talento até então escondidos sob a camada de exarcebada autoestima que seus trabalhos anteriores insinuavam. Poucas vezes o público viu Denzel tão frágil e inseguro e esse risco - talvez calculado, mas eficiente - é a maior qualidade de um filme, que, mesmo mantendo o interesse da plateia até seu final, não consegue deixar de esbarrar em alguns clichês. Ainda assim, é um filme acima da média, graças a uma união de talentos que não tinha como dar errado.
Dirigido com firmeza e sutileza por um Robert Zemeckis de volta à sua atenção às personagens e seus atores - qualidade que lhe rendeu um Oscar por "Forrest Gump" e que sempre ficou muito em evidência em seus trabalhos, mesmo os menos sérios - "O voo" é, na verdade, totalmente centrado na figura de Whitaker, um homem em constante luta contra seus fantasmas que, depois do desastre do avião que pilotava (mesmo calibrado de álcool e cocaína) vê suas certezas abaladas e tenta reencontrar seu caminho - e sente-se pressionado por uma investigação que pode dar fim à sua carreira. Zemeckis acerta em centrar a trama nas costas capazes de Washington, mas de certa forma isso acaba deixando de lado algumas possibilidades interessantes - como sua relação com a jovem viciada Nicole (Kelly Reilly), tratada de forma um tanto desajeitada pelo roteiro, escrito com seriedade e grande senso de ritmo. Sem ter muito onde apoiar-se - até mesmo as cenas de tribunal soam apenas corretas e não empolgantes, apesar do auxílio luxuoso de Melissa Leo - resta ao ator (indicado ao Oscar, mas sem muitas chances de vitória ao encarar Daniel Day-Lewis e sua recriação de Abraham Lincoln no filme de Spielberg) dar seu show particular, o que com certeza agrada a seus fãs e pode conquistar outros.c
"O voo" é um belo drama, dirigido com competência e estrelado por um ator em um grande momento. Pode não ser excepcional ou inesquecível, mas cumpre o que promete sem aborrecer ao espectador. Em uma temporada repleta de obras ambiciosas e morosas como os louvados "Lincoln" e "Os miseráveis", não deixou de ser um oásis de simplicidade e concisão - e que entrega a John Goodman um dos melhores papéis de sua carreira, como o amigo e fornecedor de drogas do protagonista que tem suas cenas ilustradas com canções dos Rolling Stones. É um alívio cômico não exagerado que ajuda personagem e plateia a respirar por alguns minutos diante de tanto drama.
2 indicações ao Oscar: Ator (Denzel Washington), Roteiro Original
Levando-se em consideração que a filmografia de Robert Zemeckis inclui a trilogia "De volta para o futuro", o revolucionário "Uma cilada para Roger Rabbit" e o megapremiado "Forrest Gump" - e que desde "Náufrago", de um distante ano 2000 ele não brindava seu público com filmes em live-action - não deixa de ser surpreendente ver seu nome assinando "O voo", uma produção simples, honesta e humana e que, excetuando-se uma tensa sequência que mostra um acidente aéreo, prescinde de efeitos visuais e artifícios estilísticos para conquistar a plateia. Depois de uma sucessão de trabalhos cujo visual importava mais do que o conteúdo, o mais bem-sucedido discípulo de Steven Spielberg marcou sua volta de maneira discreta mas bastante eficiente. Com uma renda de mais de 90 milhões de dólares no mercado americano - contra seu custo de apenas 30 milhões - "O voo" ainda conseguiu agradar à crítica e à Academia de Hollywood, que o brindou com duas indicações ao Oscar: roteiro original e ator - Denzel Washington em uma atuação bem mais contida do que o normal e consequentemente mais humana e passível de identificação com o espectador.
Afeito à personagens heroicas e/ou arrogantes, Washington se sai notavelmente bem em um papel que foge de sua zona de conforto. Whip Whitaker, o piloto de aviões alcóolatra e viciado em drogas que consegue milagrosamente evitar uma tragédia de grandes proporções e depois se vê acossado por seus superiores e pela própria consciência é uma das melhores personagens de sua carreira, lhe proporcionando a chance de explorar nuances de seu talento até então escondidos sob a camada de exarcebada autoestima que seus trabalhos anteriores insinuavam. Poucas vezes o público viu Denzel tão frágil e inseguro e esse risco - talvez calculado, mas eficiente - é a maior qualidade de um filme, que, mesmo mantendo o interesse da plateia até seu final, não consegue deixar de esbarrar em alguns clichês. Ainda assim, é um filme acima da média, graças a uma união de talentos que não tinha como dar errado.
Dirigido com firmeza e sutileza por um Robert Zemeckis de volta à sua atenção às personagens e seus atores - qualidade que lhe rendeu um Oscar por "Forrest Gump" e que sempre ficou muito em evidência em seus trabalhos, mesmo os menos sérios - "O voo" é, na verdade, totalmente centrado na figura de Whitaker, um homem em constante luta contra seus fantasmas que, depois do desastre do avião que pilotava (mesmo calibrado de álcool e cocaína) vê suas certezas abaladas e tenta reencontrar seu caminho - e sente-se pressionado por uma investigação que pode dar fim à sua carreira. Zemeckis acerta em centrar a trama nas costas capazes de Washington, mas de certa forma isso acaba deixando de lado algumas possibilidades interessantes - como sua relação com a jovem viciada Nicole (Kelly Reilly), tratada de forma um tanto desajeitada pelo roteiro, escrito com seriedade e grande senso de ritmo. Sem ter muito onde apoiar-se - até mesmo as cenas de tribunal soam apenas corretas e não empolgantes, apesar do auxílio luxuoso de Melissa Leo - resta ao ator (indicado ao Oscar, mas sem muitas chances de vitória ao encarar Daniel Day-Lewis e sua recriação de Abraham Lincoln no filme de Spielberg) dar seu show particular, o que com certeza agrada a seus fãs e pode conquistar outros.c
"O voo" é um belo drama, dirigido com competência e estrelado por um ator em um grande momento. Pode não ser excepcional ou inesquecível, mas cumpre o que promete sem aborrecer ao espectador. Em uma temporada repleta de obras ambiciosas e morosas como os louvados "Lincoln" e "Os miseráveis", não deixou de ser um oásis de simplicidade e concisão - e que entrega a John Goodman um dos melhores papéis de sua carreira, como o amigo e fornecedor de drogas do protagonista que tem suas cenas ilustradas com canções dos Rolling Stones. É um alívio cômico não exagerado que ajuda personagem e plateia a respirar por alguns minutos diante de tanto drama.
A CONDENAÇÃO
A CONDENAÇÃO (Conviction, 2010, Omega Entertainment/Longfellow Pictures, 107min) Direção Tony Goldwin. Roteiro: Pamela Gray. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Jay Cassidy. Música: Paul Cantelon. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Rena DeAngelo. Produção executiva: Markus Barmettler, Anthony Callie, Alwyn Hight Kushner, Myles Nestel, James Smith, Hilary Swank. Produção: Tony Goldwin, Andrew S. Karsch, Andrew Sugerman. Elenco: Hilary Swank, Sam Rockwell, Melissa Leo, Peter Gallagher, Juliette Lewis, Loren Dean, Clea DuVall, Minnie Driver, Bailee Madison. Estreia: 11/9/10 (Festival de Toronto)
Baseado em uma história real, acontecida no Massachussets, o drama "A condenação" não apenas falhou em dar uma bem-vinda indicação ao Oscar para sua protagonista (e produtora executiva) Hilary Swank mas também causou a ela boas dores de cabeça. Indignados com o fato de não terem sido sequer consultados a respeito da transição para o cinema da história do crime que vitimou a garçonete Katheryn Brow, seus filhos criticaram publicamente a postura da atriz e dos envolvidos com o projeto. Nem mesmo o argumento - comprovado por quem assiste ao filme - de que o foco da narrativa não é o crime em si abrandou a situação e o resultado foi uma recepção apenas morna a um filme que merecia sorte melhor, apesar de estar longe do brilhantismo.
Dirigido por Tony Goldwin - o vilão de "Ghost, do outro lado da vida" se saindo surpreendentemente bem na nova carreira - "A condenação" começa em 1980, quando o simpático mas encrenqueiro Kenny Waters (Sam Rockwell) é preso, acusado do violento assassinato de uma conhecida. Condenado à prisão perpétua devido às provas circunstanciais e alguns testemunhos contundentes poucos anos depois, ele deixa sua irmã Betty Anne (Hilary Swank) desesperada. Decidida a tirar o irmão da cadeia, ela começa a faculdade de Direito, negligenciando até mesmo seus deveres de esposa e mãe. Dezoito anos depois do julgamento, ela se une ao advogado Barry Scheck (Peter Gallagher) - representante de uma ONG que tenta reparar erros judiciários - e tenta provar a inocência de Kenny através do DNA das amostras de sangue do assassino, recolhidas no local do homicídio.
Mesmo que o final da história seja conhecida - foi tema de um episódio famoso do programa "60 Minutes" - o roteiro de Pamela Gray consegue manter o interesse do público até seu final, um tanto anti-climático mas coerente com o estilo correto e quase burocrático da direção de Goldwin. Confiando na força da história que está contando, ele não se preocupa em fazer malabarismos com a câmera, frequentemente uma observadora passiva dos dramas de Betty Anne em seu caminho para fazer justiça. A maneira quase formal com que comanda seu filme combina com seu gênero, mas não há como negar que existe uma queda de ritmo na segunda metade. Enquanto a primeira parte do filme intercala a luta de Betty Anne com cenas de sua infância ao lado do irmão protetor - sequências bonitas e interessantes que jogam luz em sua decisão dramática de salvá-lo de um destino infeliz - a reta final concentra-se em uma corrida contra o tempo bastante clichê. Felizmente são nesses momentos que brilha seu elenco coadjuvante.
Se o trabalho de Hilary Swank está no nível de suas atuações premiadas - por "Meninos não choram" e "Menina de ouro" - ela conta com um apoio de ouro. Não apenas Sam Rockwell brilha como Kenny Waters - seu estilo bagaceiro de ser cabendo como uma luva no personagem - mas também existe espaço para que se destaquem Melissa Leo e Juliette Lewis. Melissa - premiada com o Oscar de coadjuvante de 2010, por "O vencedor" - tem o papel pequeno mas crucial de Nancy Taylor, uma policial corrupta e mal-intencionada e Lewis, uma promessa não cumprida do início dos anos 90 aparece quase irreconhecível como Roseanna Perry, uma das testemunhas de acusação: suas rápidas aparições foram suficientes para que ela fosse laureada como Melhor Atriz Coadjuvante do ano pela Associação de Críticos de Boston.
Mesmo que não seja uma obra-prima, "A condenação" merece ser descoberto e apreciado pelo que ele é: um correto drama de tribunal com um belo elenco e boas intenções. A família de Katheryn Brow não deveria ter se preocupado.
Baseado em uma história real, acontecida no Massachussets, o drama "A condenação" não apenas falhou em dar uma bem-vinda indicação ao Oscar para sua protagonista (e produtora executiva) Hilary Swank mas também causou a ela boas dores de cabeça. Indignados com o fato de não terem sido sequer consultados a respeito da transição para o cinema da história do crime que vitimou a garçonete Katheryn Brow, seus filhos criticaram publicamente a postura da atriz e dos envolvidos com o projeto. Nem mesmo o argumento - comprovado por quem assiste ao filme - de que o foco da narrativa não é o crime em si abrandou a situação e o resultado foi uma recepção apenas morna a um filme que merecia sorte melhor, apesar de estar longe do brilhantismo.
Dirigido por Tony Goldwin - o vilão de "Ghost, do outro lado da vida" se saindo surpreendentemente bem na nova carreira - "A condenação" começa em 1980, quando o simpático mas encrenqueiro Kenny Waters (Sam Rockwell) é preso, acusado do violento assassinato de uma conhecida. Condenado à prisão perpétua devido às provas circunstanciais e alguns testemunhos contundentes poucos anos depois, ele deixa sua irmã Betty Anne (Hilary Swank) desesperada. Decidida a tirar o irmão da cadeia, ela começa a faculdade de Direito, negligenciando até mesmo seus deveres de esposa e mãe. Dezoito anos depois do julgamento, ela se une ao advogado Barry Scheck (Peter Gallagher) - representante de uma ONG que tenta reparar erros judiciários - e tenta provar a inocência de Kenny através do DNA das amostras de sangue do assassino, recolhidas no local do homicídio.
Mesmo que o final da história seja conhecida - foi tema de um episódio famoso do programa "60 Minutes" - o roteiro de Pamela Gray consegue manter o interesse do público até seu final, um tanto anti-climático mas coerente com o estilo correto e quase burocrático da direção de Goldwin. Confiando na força da história que está contando, ele não se preocupa em fazer malabarismos com a câmera, frequentemente uma observadora passiva dos dramas de Betty Anne em seu caminho para fazer justiça. A maneira quase formal com que comanda seu filme combina com seu gênero, mas não há como negar que existe uma queda de ritmo na segunda metade. Enquanto a primeira parte do filme intercala a luta de Betty Anne com cenas de sua infância ao lado do irmão protetor - sequências bonitas e interessantes que jogam luz em sua decisão dramática de salvá-lo de um destino infeliz - a reta final concentra-se em uma corrida contra o tempo bastante clichê. Felizmente são nesses momentos que brilha seu elenco coadjuvante.
Se o trabalho de Hilary Swank está no nível de suas atuações premiadas - por "Meninos não choram" e "Menina de ouro" - ela conta com um apoio de ouro. Não apenas Sam Rockwell brilha como Kenny Waters - seu estilo bagaceiro de ser cabendo como uma luva no personagem - mas também existe espaço para que se destaquem Melissa Leo e Juliette Lewis. Melissa - premiada com o Oscar de coadjuvante de 2010, por "O vencedor" - tem o papel pequeno mas crucial de Nancy Taylor, uma policial corrupta e mal-intencionada e Lewis, uma promessa não cumprida do início dos anos 90 aparece quase irreconhecível como Roseanna Perry, uma das testemunhas de acusação: suas rápidas aparições foram suficientes para que ela fosse laureada como Melhor Atriz Coadjuvante do ano pela Associação de Críticos de Boston.
Mesmo que não seja uma obra-prima, "A condenação" merece ser descoberto e apreciado pelo que ele é: um correto drama de tribunal com um belo elenco e boas intenções. A família de Katheryn Brow não deveria ter se preocupado.
O VENCEDOR
O VENCEDOR (The fighter, 2010, Closest to the bone Productions, 116min) Direção: David O. Russell. Roteiro: Scott Silver, Paul Tamasy, Eric Johnson, estória de Paul Tamasy, Eric Johnson, Keith Dorrington. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Pamela Martin. Música: Michael Brook. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Gene Serdena. Produção executiva: Darren Aronofsky, Keith Dorrington, Eric Johnson, Tucker Tooley, Leslie Varrelman, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Dorothy Aufiero, David Hoberman, Ryan Kavanaugh, Todd Lieberman, Paul Tamasy, Mark Wahlberg. Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams, Melissa Leo. Estreia: 10/12/10
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David O. Russell), Roteiro Original, Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Amy Adams/Melissa Leo), Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Melissa Leo)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Melissa Leo)
“O vencedor” não é apenas o primeiro da série de três filmes do cineasta David O. Russell que conquistou a Academia de Hollywood a ponto de chegarem a concorrer aos Oscar de filme, direção e roteiro: é, também, o que melhor soube se aproveitar do estilo despojado e espontâneo do diretor, depois tornado regra e, consequentemente, diluído nos bastante inferiores “O lado bom da vida” (12) e “Trapaça” (13). Baseado no drama real do lutador de boxe Dicky Ecklund – uma lenda em sua comunidade e que viu sua carreira escorrer pelo ralo graças ao vício em heroína – o filme de Russell faz uso inteligente das atuações viscerais e orgânicas de seu elenco principal (seu principal destaque) ao contar uma história onde o esporte divide espaço com as relações familiares de um clã tão disfuncional e problemático quanto interesseiro. Deixando sua câmera circular por um ambiente suburbano quase palpável em sua decadência, o cineasta acerta no registro que beira o documental, mas peca em deixar que tanta liberdade atrapalhe o ritmo da narrativa. No fim das contas, “O vencedor” é um filme acima da média, mas bastante irregular.
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David O. Russell), Roteiro Original, Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Amy Adams/Melissa Leo), Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Melissa Leo)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Melissa Leo)
“O vencedor” não é apenas o primeiro da série de três filmes do cineasta David O. Russell que conquistou a Academia de Hollywood a ponto de chegarem a concorrer aos Oscar de filme, direção e roteiro: é, também, o que melhor soube se aproveitar do estilo despojado e espontâneo do diretor, depois tornado regra e, consequentemente, diluído nos bastante inferiores “O lado bom da vida” (12) e “Trapaça” (13). Baseado no drama real do lutador de boxe Dicky Ecklund – uma lenda em sua comunidade e que viu sua carreira escorrer pelo ralo graças ao vício em heroína – o filme de Russell faz uso inteligente das atuações viscerais e orgânicas de seu elenco principal (seu principal destaque) ao contar uma história onde o esporte divide espaço com as relações familiares de um clã tão disfuncional e problemático quanto interesseiro. Deixando sua câmera circular por um ambiente suburbano quase palpável em sua decadência, o cineasta acerta no registro que beira o documental, mas peca em deixar que tanta liberdade atrapalhe o ritmo da narrativa. No fim das contas, “O vencedor” é um filme acima da média, mas bastante irregular.
Um diretor adepto do naturalismo – o
que contraria a condução de seu trabalho mais conhecido até então, a comédia de
guerra “Três reis” (00), realizada dentro dos padrões mais tradicionais do
gênero – Russell frequentemente deixa que o trabalho de seus atores comande a
dinâmica das cenas de seus filmes, e tal tendência fica extremamente clara em
“O vencedor”, uma obra totalmente calcada em seus (ótimos) atores e que em
determinados momentos sofre de uma evidente fragilidade de estrutura dramática.
A opção estética de Russell em tratar sua história em forma semi-documental
remete à maior das obras-primas sobre o mundo do boxe, o brilhante “Touro
indomável” (80), de Martin Scorsese (que também privilegia a energia dos atores
em detrimento de um andamento mais convencional), mas é covardia comparar os
dois filmes: enquanto Scorsese mergulha fundo na alma e nos demônios de Jake La
Motta (interpretação inesquecível de Robert DeNiro), Russell prefere se manter
à margem dos dramas de seu protagonista – que surpreendentemente, não é Dicky
Ecklund, e sim seu irmão mais jovem, Micky Ward, interpretado com segurança por
Mark Wahlberg – como uma espécie de voyeur
de luxo. É inegável que tal opção combina com seus métodos de direção, mas
também é flagrante que é somente em alguns (raros) momentos em que se permite
um pouco mais de emoção que o filme realmente conquista seu público.
Na maior parte do tempo “O vencedor”
acompanha a complicada tentativa de Micky em tornar-se um campeão de boxe, a
despeito da pressão exercida sobre ele por sua mãe, a ambiciosa e por vezes
cruel Alice (Melissa Leo) e pelo resto de sua família – um grupo de irmãs
cafonas e histéricas e seu patético irmão mais velho, Dicky, que passa os dias
enchendo o organismo de drogas enquanto relembra um passado que considera
glorioso. Considerando-se os donos de Micky, Dicky e Alice armam uma cruzada
impiedosa contra sua nova namorada, Charlene (Amy Adams), uma garçonete que não
tem medo de enfrentar a corja que cerca o rapaz e o conduz em direção ao
sucesso no esporte. Dividindo seu tempo entre as brigas entre os dois lados da
questão (com muita gritaria, tapas e desaforos) e as batalhas de Micky dentro
dos ringues, “O vencedor” flui sem maiores problemas – graças à edição
competente também indicada ao Oscar – mas poucas vezes chega a realmente
encantar. Para sorte de Russell, seu elenco se responsabiliza por segurar (e
muito bem) as pontas.
Na pele de Charlene, Amy
Adams foi indicada à estatueta de coadjuvante feminina, mas perdeu para sua
colega de cena Melissa Leo, que rouba a cena sempre que surge na pele da
peruíssima e desagradável Alice. Brilhante, Leo teve sua vitória contestada
devido à feroz campanha feita por ela junto aos membros eleitores – algo não
exatamente proibido pelas regras da Academia, mas no mínimo constrangedor –
porém é difícil não reconhecer sua entrega ao papel, especialmente quando precisa
fazer frente à interpretação impecável de Christian Bale, que levou o Oscar de
ator coadjuvante. Macérrimo na pele de Dicky, o ator inglês confirma com sua
atuação o que todo mundo já conseguia antever desde sua estreia aos onze anos
de idade, em “Império do sol” (87): o fato de que, por trás de sua tão falada
arrogância (que o digam os técnicos agredidos por ele nas filmagens de “O
exterminador do futuro 4”), existe um ator excepcional, capaz de equilibrar
grandes produções comerciais como a trilogia do Batman dirigida por Christopher
Nolan com obras menos imponentes e centradas em personagens mais próximos da
realidade. A cena em que Melissa e Bale abrem seus corações cantando “I started
a joke” é um exemplo perfeito de como “O vencedor” poderia ter sido ainda
melhor se lhe tivesse sido permitido ser mais emocional do que racional.
Para os fãs de boxe “O vencedor” não
irá decepcionar – as lutas são bem filmadas, ainda que não cheguem perto da
energia de outros filmes com a mesma temática, como “Rocky, um lutador” (76) e
“Menina de ouro” (04). Mas é um filme indeciso entre abraçar o lado emotivo de
sua história ou focar na glória (ou na decadência) de um esporte cujas
possibilidades dramáticas são imensas. Ficando no meio-termo acaba por tornar-se
apenas mais um dentre muitos, a despeito de sua calorosa receptividade junto à
Academia – que, além dos prêmios de Leo e Bale, ainda lhe indicou às estatuetas
de filme, direção, roteiro, atriz coadjuvante (Amy Adams) e edição. Um exagero
que o tempo há de deixar ainda mais explícito, apesar das qualidades do filme.
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