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terça-feira

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS (Dona Flor e seus dois maridos, 1976, LC Barreto Produções, 110min) Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Bruno Barreto, Eduardo Coutinho, Leopoldo Serran, romance de Jorge Amado. Fotografia: Murilo Salles. Montagem: Raimundo Higino. Música: Chico Buarque, Francis Hime. Figurino: Anísio Medeiros. Direção de arte: Anisio Medeiros. Produção: Luiz Carlos Barreto, Newton Rique. Elenco: Sônia Braga, José Wilker, Mauro Mendonça, Nelson Xavier, Nelson Dantas, Dinorah Brillanti, Francisco Dantas, Hélio Ary. Estreia: 22/11/76

Não há melhor palavra para descrever "Dona Flor e seus dois maridos", a adaptação do romance de Jorge Amado para as telas de cinema, lançada em 1976, do que fenômeno: estrelado por Sônia Braga no auge da beleza e sensualidade, o filme estabeleceu de cara dois recordes que só foram quebrados décadas mais tarde. Não foi apenas a produção nacional mais vista no país por mais de trinta anos - suplantada apenas por "Tropa de elite 2" (2010) - como também foi, por mais de vinte anos, o maior sucesso de público entre os espectadores brasileiros - só perdeu o posto quando "Titanic", de James Cameron, atracou nas salas de exibição em 1998. Não bastasse o indiscutível sucesso popular, o filme de Bruno Barreto (que tinha inacreditáveis 19 anos de idade durante as filmagens e já estava em seu terceiro longa) conquistou também a crítica internacional - concorreu ao Golden Globe de melhor filme estrangeiro e deu à Sônia uma indicação ao BAFTA de revelação do ano - a crítica brasileira - levou dois prêmios no Festival de Gramado - e os produtores de Hollywood - que seis anos mais tarde lançaram um remake pouco inspirado, chamado "Meu adorável fantasma", estrelado por Sally Field, James Caan e Jeff Bridges. Sua permanência no inconsciente coletivo nacional é tão notável que nem a adaptação em forma de minissérie, com Giulia Gam, Edson Celulari e Marco Nanini, ou a refilmagem, com Juliana Paes, Marcelo Faria e Leandro Hassum, conseguiram apagar da memória do público algumas das cenas mais marcantes do cinema nacional.

A figura de Sônia Braga saindo da missa dominical de braços dados com os dois maridos (um deles nu em pelo) é, sem favor, uma das sequências mais inesquecíveis produzidas pelos cineastas brasileiros - talvez não tão poderosa quanto aquelas concebidas por Glauber Rocha em "Deus e o Diabo na Terra do Sol", mas igualmente icônica. O irônico é que, durante as filmagens, ninguém poderia imaginar o quão longe o filme iria em sua trajetória - uma trajetória fundamental para fortalecer o nome de Sônia Braga e Bruno Barreto no exterior. Sônia, que acabava de fazer outra heroína de Jorge Amado na televisão - a Gabriela Cravo e Canela que ela voltaria a encarnar no cinema, ao lado de Marcello Mastroianni e novamente dirigida por Barreto -, em poucos anos deixaria o Brasil para tentar uma carreira internacional, enquanto o cineasta também buscaria o reconhecimento mundial e se casaria com a atriz Amy Irving - ex de ninguém menos que Steven Spielberg. Lançado quase uma década depois da publicação do romance original, que já havia sido traduzido para o mercado norte-americano em 1969, "Dona Flor e seus dois maridos" pegava carona na estética das pornochanchadas que mantinham o público do cinema brasileiro, mas apresentava uma sofisticação inédita: o roteiro bem-humorado e sensual de Leopoldo Serran e do documentarista Eduardo Coutinho, a música de Chico Buarque e Francis Hime (cantada por Simone, em início de carreira), as caracterizações detalhistas e o trabalho primoroso de direção imediatamente o colocava muitos níveis acima do que era feito no país, à época. E, de carona com o carisma radiante de Sônia, o produtor Luiz Carlos Barreto entrou para a história da cultura tupiniquim.


Se é que alguém ainda não conhece a trama, ela se passa na Salvador dos anos 40, e é protagonizada pela jovem Flor (Sônia Braga), uma professora de culinária que vive um casamento atribulado com o mulherengo e irresponsável Vadinho (José Wilker) - ele não apenas não trabalha como ainda tira dinheiro da mulher para apostar e pagar farras homéricas com os amigos e prostitutas. Apesar disso, e de sofrer violência física do marido, Flor é apaixonada por ele, com quem vive uma história de muita paixão e desejo físico. De repente, de uma hora para outra, Vadinho morre do coração durante o Carnaval, deixando sua viúva inconsolável, seus amigos devastados e o mulherio baiano de luto. Alguns anos depois, Flor passa a ser cortejada por Teodoro (Mauro Mendonça), um farmacêutico respeitado, financeiramente estabilizado e dono de uma maturidade a qualquer prova. Incentivada pela mãe, Flor aceita se casar novamente, mas não demora para perceber que, apesar de lhe oferecer uma vida pacata e sem sobressaltos, Teodoro é incapaz de lhe prover o fogo com que Vadinho sempre a preencheu. Um tanto desiludida com essa conclusão, Flor passa a suspirar de saudades do falecido marido - que, para sua surpresa, volta a lhe aparecer como fantasma e exigir seus direitos matrimoniais.

Contada em tom de humor debochado e brejeiro, a história de "Dona Flor e seus dois maridos" encontra os intérpretes ideais em Sônia, Wilker e Mauro Mendonça. Como os dois lados da mesma moeda, os homens da relação oferecem à protagonista feminina (e, até por um lado, feminista, ao não abrir mão do que deseja) a estabilidade e a paixão, o apolíneo e o dionisíaco, o céu e o inferno. Lançado em meio à ditadura militar, o filme obviamente teve cenas cortadas em seu lançamento, mas isso não o impediu de ganhar o apoio massivo do público e transformar um projeto ambicioso (o mais caro até então em produção nacional) em um êxito indiscutível. Visto com olhos atuais, tem alguns pequenos problemas (o visual datado, o ritmo claudicante em determinado momento), mas, no geral, é um filme que merece o sucesso que fez - e ainda faz. Ilustrado pela belíssima música de Chico Buarque, é um marco indelével na cultura popular brasileira - e o trabalho definitivo de Sônia Braga em seu caminho ao sucesso mundial.

sexta-feira

TRAMA MACABRA

TRAMA MACABRA (Plot family, 1976, Universal Pictures, 120min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Ernest Lehman, romance de Victor Canning. Fotografia: Leonard J. South. Montagem: J. Terry Williams. Música: John Williams. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/James W. Payne. Produção: Alfred Hitchcock. Elenco: Bruce Dern, Barbara Harris, William Devane, Karen Black, Ed Lauter, Cathleen Nesbit. Estreia: 21/3/76

O 53º e último filme do mestre do suspense - lançado quatro anos antes de sua morte, em 29 de abril de 1980 - pode ser considerado também sua mais atípica produção. Tudo bem que seu senso de humor frequentemente cruel ainda pode ser visto em algumas sequências, mas "Trama macabra" em quase nada lembra o auge do cinema de Alfred Hitchcock: sem grandes momentos de tensão, sem cenas antológicas e com personagens não exatamente carismáticos ou simpáticos, a adaptação do romance de Victor Canning feita por Ernest Lehman (colaborador do cineasta no bem mais lembrado "Intriga internacional", de 1959) é, na verdade, uma comédia de humor negro com alguns (poucos) lances de suspense e um elenco sem os grandes astros que frequentemente enfeitavam as obras do cineasta. Não deixa de ser um melancólico final de carreira para um dos maiores diretores da história do cinema.

A seu favor, pode-se dizer que, mesmo com falhas, "Trama macabra" ainda é uma obra divertida, inteligente e capaz de prender a atenção do público até seu final (um tanto anticlimático, mas coerente com seu desenvolvimento e de certa forma esperto em fugir do caminho que parecia tomar em sua primeira metade). Mesmo aos 75 anos de idade e com a saúde frágil, Hitchcock sabia como manipular as expectativas de sua plateia, e, se o resultado final dessa sua comédia de erros não é mais consistente, é justo supor que boa parte da culpa vem do fato de que o cineasta estava, então, privado de três de seus maiores e mais importantes colaboradores: o editor George Tomasini, o diretor de fotografia Robert Burks (que havia morrido em um incêndio) e o compositor Bernard Herrmann (demitido pela Universal Pictures depois de ter sua trilha para "Cortina rasgada" recusada pelo estúdio). Por mais brilhante que fosse, Hitch já não estava mais confortável em seu meio - desde "Marnie: confissões de uma ladra" (64) ele vinha perdendo sua comunicação com o público e, pior ainda, não se conformava com as mudanças radicais que haviam passado a ditar as regras da indústria. Sem os grandes astros do passado com que havia trabalhado, sem suas musas inspiradoras e sem seus parceiros habituais nos bastidores, o diretor realizou "Trama macabra" quase como uma forma de mostrar que ainda tinha suas cartas na manga e que sabia se reinventar.


Buscando inspiração na obra do cineasta alemão Ernst Lubitsch, conhecido em Hollywood por suas comédias sofisticadas, Hitchcock fez de "Trama macabra" um desvio na sua filmografia e, pela primeira vez desde "O terceiro tiro" (56) optou pela leveza como tom narrativo, deixando de lado as neuroses e paranoias de suas obras mais celebradas. Impossibilitado de contar com Al Pacino ou Jack Nicholson em um dos papéis principais - o primeiro estava em alta devido ao sucesso de "O poderoso chefão" (72) e sua continuação, e o segundo estava ocupado nas filmagens de "Um estranho no ninho" (75), que lhe daria o primeiro Oscar - e depois de descartar Goldie Hawn e Liza Minnelli para viver a protagonista, Hitchcock acertou em escalar os menos conhecidos Bruce Dern e Barbara Harris como o casal central de sua estória. Ela interpreta a falsa paranormal Blanche Tyler, que ganha a vida oferecendo consultas a pessoas interessadas em comunicar-se com seus entes queridos já mortos - e ele é seu namorado, George Lumley, um taxista que lhe passa todas as informações necessárias para que as fraudes funcionem. O filme começa quando uma das clientes de Blanche,  a milionária Julia Rainbird (Cathleen Nesbitt) pede sua ajuda para encontrar um sobrinho, abandonado ainda bebê e que agora ela pretende fazer seu herdeiro. Entusiasmados com a possibilidade de embolsar um bom dinheiro com a situação, Blanche e George entram de cabeça na investigação sobre o paradeiro do tal sobrinho - e descobrem que tem muita coisa errada na história. Enquanto isso, o ambicioso Arthur Adamson (William Devane) - dono de uma joalheria - segue uma rotina de sequestros para aumentar sua coleção de pedras preciosas e nem desconfia que é, na verdade, o futuro herdeiro de uma fortuna.

O roteiro de Ernest Lehman é inteligente e apresenta seus personagens de maneira a nunca permitir ao público a antecipação de seus próximos movimentos - até o embate final, um tudo ou nada que, apesar de prometer bastante, não chega a empolgar. Talvez o maior problema do filme seja justamente a opção de Hitchcock em forçar humor em momentos que poderiam alcançar grande potência dramática - uma perseguição automobilística, por exemplo, em que os personagens principais agem como se estivessem em uma produção da Disney e não correndo um sério perigo de morte. Essa falha, por mais proposital que seja, enfraquece o resultado final de "Trama macabra" a ponto de transformar o filme em uma obra esquecível e decepcionante - mas mesmo assim acima da média. Graças ao talento de Hitchcock em dominar as regras do seu próprio jogo, ele consegue transformar um filme menor em um entretenimento no mínimo agradável. Pouco para quem, como ele, assinou obras-primas incontestáveis - mas bem mais do muita gente já tentou realizar.

domingo

UM DIA MUITO LOUCO

UM DIA MUITO LOUCO (Freaky friday, 1976, Walt Disney Productions, 95min) Direção: Gary Nelson. Roteiro: Mary Rodgers, romance de sua autoria. Fotografia: Charles F. Wheeler. Montagem: Cotton Warburton. Música: Johnny Mandel. Direção de arte/cenários: John B. Mansbridge, Jack Senter/Robert Benton. Produção: Ron Miller. Elenco: Barbara Harris, Jodie Foster, John Astin, Patsy Kelly, Dick Van Patten, Marc McClure. Estreia: 17/12/76

O ano de 1976 foi, no mínimo, bastante estranho para Jodie Foster, então uma atriz-mirim se encaminhando para tornar-se uma intérprete adulta: não apenas perdeu a chance de estrelar o que seria uma das maiores bilheterias da história ("Star Wars", onde faria o papel da Princesa Leia) por problemas de contrato com a Disney, como confirmou-se uma das mais talentosas promessas de sua geração ao mostrar duas facetas completamente opostas de seu trabalho. No início do ano viveu a jovem prostituta Iris no cultuado "Taxi driver", de Martin Scorsese - que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante - e no final do ano estava nas telas do cinema em mais uma comédia inconsequente do estúdio do Mickey: em "Um dia muito louco", ela provou que também sabia fazer rir, tirando de letra o desafio de viver não apenas uma pré-adolescente rebelde mas também sua mãe certinha, que toma seu corpo devido a uma troca inexplicável e que torna seu dia um pandemônio de que somente o cinema comercial americano é capaz de imaginar. Na verdade, nem ele: o roteiro de Nancy Rodgers é baseado em seu romance, publicado em 1972 e que rendeu, posteriormente, duas refilmagens: uma em 1995 (com Shelley Long e Gaby Hoffman) e outra, bem-sucedida, estrelada por Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan. Leve, despretensiosa e um clássico absoluto da Sessão da Tarde, "Um dia muito louco" é um filme de sabor nostálgico, em que até seus "defeitos" especiais contribuem para a sensação de voltar à infância.

Do visual cafona à configuração social que contrasta com as conquistas femininas das últimas décadas, tudo em "Um dia muito louco" remete imediatamente aos anos 70, um período de ouro para as produções familiares da Disney - estúdio pelo qual Jodie Foster fez vários filmes em sua infância e pré-adolescência. Uma produção nitidamente com ambições de conquistar as plateias infanto-juvenis, a comédia dirigida por Gary Nelson - veterano de telefilmes e episódios de séries de TV - é um primor de entretenimento descompromissado e bem-humorado. Contando com atuações inspiradas de Foster e Barbara Harris, ambas indicadas ao Golden Globe de melhor atriz em comédia ou musical (perderam a estatueta para Barbra Streisand, por "Nasce uma estrela"), o filme conquista pelo ritmo ágil, pela simpatia do elenco e pelas situações criadas pelo roteiro, que brincam não apenas com as percepções equivocadas de mãe e filha sobre suas rotinas mas também sobre como o mundo feminino (ou ao menos aquele dos EUA do final da década) se comportava diante de situações domésticas e profissionais. Mesmo que pareça estender-se demais em seu ato final - um clímax repleto de ação e cenas do mais puro pastelão (um deleite para as crianças) - e sofra com um tanto de superficialidade no desenvolvimento de suas personagens, o filme de Nelson entrega exatamente o que promete: diversão.


A trama é simples e conhecida: em uma sexta-feira 13 aparentemente normal, uma dona-de-casa dedicada ao lar, ao marido e ao casal de filhos (Barbara Harris) se vê com a personalidade da filha pré-adolescente, Annabel (Jodie Foster) - uma jovem ligeiramente desleixada e rebelde que também percebe estar vivendo sob a perspectiva de sua mãe. A princípio se divertindo com a situação, aos poucos as duas notam que estão diante de um grande problema, já que justamente nesse dia o pai da família (John Astin) conta com a presença de ambas em uma recepção que pode lhe dar uma promoção no trabalho. A confusão, então, está armada: na pele de sua mãe, Annabel precisa lidar com a administração de uma casa (com eletrodomésticos que não sabe utilizar e problemas com fornecedores e uma empregada doméstica pouco afável) e sua mãe, chocada com o dia-a-dia da jovem, tenta disfarçar o caos que se instala quando ela precisa fazer parte do time da escola em uma partida importante de beisebol. Não bastasse isso, Annabel aproveita que está com o visual de sua mãe para tentar convencer o jovem vizinho, Boris (Marc McClure), de que é a namorada perfeita para ele apesar de seu jeito descuidado.

De posse de uma história surreal e que em nenhum momento tenta explicar-se além do superficial (o que, de certa forma, é melhor do que explicações rasteiras), o roteiro de "Um dia muito louco" leva o espectador a noventa minutos de um humor pueril e recheado de sequências que remetem diretamente a um cinema sem neuroses e totalmente desprovido de pretensões - um contraponto interessante ao que começava a acontecer junto a cineastas como Francis Ford Coppola, Sidney Lumet e Martin Scorsese. O fato de Jodie Foster ser a ponte entre esses dois estilos opostos de cinema não deixa de ser curioso - e uma prova do talento incrível da então jovem atriz, que se tornaria uma das mais respeitadas e inteligentes da Hollywood dos anos 90 em diante. Sua criação como a intrépida Annabel Andrews (em papel para o qual também foi testada Debra Winger) é definitivamente a prova de sua versatilidade e carisma. "Um dia muito louco" é diversão simples e descompromissada - com o selo de qualidade da Disney.

terça-feira

O INQUILINO

O INQUILINO (The tenant, 1976, Paramount Pictures, 126min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gérard Brach, romance de Roland Topor. Fotografia: Sven Kykvist. Montagem: Françoise Bonnot. Música: Philippe Sarde. Figurino: Jacques Schmidt. Direção de arte/cenários: Pierre Guffroy. Produção executiva: Hercules Bellville. Produção: Andrew Braunsberg. Elenco: Roman Polanski, Isabelle Adjani, Shelley Winters, Melvyn Douglas, Jo Van Fleet, Bernard Fresson, Lila Kedrova. Estreia: 24/5/76 (Festival de Cannes)

Último capítulo da famosa "trilogia do apartamento" de Roman Polanski, "O inquilino" antecede, em pelo menos uma década, o tom onírico e delirante das obras de David Lynch. Inspirado em um romance de Roland Topor que estava em vias de ser filmado por Jack Clayton ("Os inocentes" e "Todas as noites às nove") e lançado dois anos após a consagração do cineasta polonês com "Chinatown", que havia lhe dado uma indicação ao Oscar de melhor diretor, o suspense estrelado pelo próprio Polanski e pela musa francesa Isabelle Adjani na flor de seus 20 anos de idade, "O inquilino" é, ainda hoje, perturbador a ponto de dar um nó na cabeça do espectador, acostumado com as tramas mastigadinhas proporcionadas por Hollywood - é uma surpresa, aliás, saber que foi produzido por um estúdio americano e que tenha chegado às telas sem sua interferência. Sinal de que o prestígio do diretor por seu noir estrelado por Jack Nicholson e Faye Dunaway ainda estava em alta - o que só seria abalado por sua acusação de estupro de uma menor de idade e sua proibição de voltar a trabalhar nos EUA, o que lhe obrigou a manter uma carreira internacional, ainda que premiada e quase sempre louvada pela crítica.

Tema constante na filmografia de Polanski, a perda da sanidade mental é o mote central de "O inquilino", em que o diretor volta a trabalhar como ator. Ele é quem vive o protagonista, Trelkovski, um funcionário público simples e discreto que vê seu equilíbrio posto à prova depois de alugar o apartamento de uma jovem estudante que acaba de cometer suicídio. Constantemente assediado por seus estranhos vizinhos, que reclamam de barulhos que ele não faz e falam de outros moradores que ele sequer consegue ver, aos poucos o tímido burocrata passa também a ter visões estranhas e comportar-se de forma errática, como se assumisse a personalidade da antiga moradora do apartamento, uma egiptologista a quem visitou no hospital pouco antes de sua morte. Sem saber o que fazer para impedir que seu fim seja semelhante ao dela - cujos hábitos de consumo ele também começa a manter - Trelkovski pede ajuda a uma amiga da morta, Stella (Isabelle Adjani). Não demora muito, porém, para que ele veja nela uma outra ameaça à sua vida. Sem saber o que fazer, ele mergulha em uma espiral de loucura e obsessão.


O mais radical dos trabalhos de Roman Polanski - por sua profusão de simbolismos, seu tom delirante e por seu final em aberto que não explica nada e deixa tudo nas mãos da plateia - "O inquilino" estreou mundialmente no Festival de Cannes de 1976, de onde saiu sem nenhum prêmio mas com fartos elogios da crítica. Não é para menos: com um estilo econômico de narrativa, sem excessos ou artifícios que façam dele um suspense vulgar ou tipicamente comercial, seu filme é um soco no estômago de quem procura um thriller convencional. Não há sustos a cada dez minutos ou um desfecho trivial. O roteiro - co-escrito pelo diretor e seu colaborador habitual Gérard Brach - tem seu ritmo próprio, com uma pegada europeia que exige do espectador uma atenção que o gênero normalmente dispensa em seus exemplares mais banais. Até mesmo quando a trama ameaça escorregar com um grau bastante elevado de situações bizarras o controle de Polanski no comando da ação a impede de cair no ridículo. Poucas vezes investindo na carreira de ator, ele também consegue destacar-se com uma interpretação contida e adequada, trabalhando ao lado de vencedores do Oscar, como Melvyn Douglas, Shelley Winters, Lila Kedrova e Jo Van Fleet - todos perfeitamente inseridos na atmosfera de pesadelo criada por sua direção inspirada.

Que não se espere de "O inquilino" um suspense banal. Apostando fortemente no teor psicológico da trama e amparado em uma direção de arte que enfatiza cada ângulo distorcido e cada nota da bela trilha sonora de Philippe Sarde, o filme de Polanski conduz o espectador por um labirinto de emoções perversas e tensão, com um sentimento de incômodo de que somente os grandes cineastas conseguem imprimir em seus trabalhos. O final pode não agradar a todos, mas é inegável que poucos filmes são capazes de despertar tanto desconforto sem apelar para a sanguinolência explícita ou efeitos visuais de última geração. Polanski é sempre Polanski, para o bem e para o mal. Vale experimentar!

segunda-feira

MARATONA DA MORTE

MARATONA DA MORTE (Marathon man, 1976, Paramount Pictures, 126min) Direção: John Schlesinger. Roteiro: William Goldman, romance de William Goldman. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Jim Clark. Música: Michael Small. Figurino: Robert De Mora. Direção de arte/cenários: Richard MacDonald/George Gaines. Produção: Sidney Beckerman, Robert Evans. Elenco: Dustin Hoffman, Laurence Olivier, Roy Scheider, William Devane, Marthe Keller. Estreia: 06/10/76

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Laurence Olivier)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Laurence Olivier) 

Pode-se dizer, sem medo de errar, que existe o cinema policial e o cinema policial americano dos anos 70, com características próprias que o diferenciam substancialmente de outros exemplares do gênero. Não apenas pelo visual inconfundível - fotografia granulada, figurino típico da época - mas também e principalmente pelo estilo seco e direto de contar uma história, apostando na inteligência do espectador e apontando para temas relevantes e realistas. Al Pacino foi um dos grandes ícones do período, estrelando obras-primas como "Um dia de cão" (75) e "Serpico" (73), ambos dirigidos por Sidney Lumet. Não por acaso, Pacino, com seu jeito de homem comum, foi a primeira escolha do cineasta inglês John Schlesinger para protagonizar "Maratona da morte", adaptação do romance de William Goldman que tinha todos os elementos necessários a um eletrizante exemplar do gênero. O problema é que o produtor do filme, o todo-poderoso da Paramount Pictures, Robert Evans, não era exatamente um fã de Pacino - a quem tentou demitir das filmagens de "O poderoso chefão" (72) e apelidou maldosamente de "anão" - e vetou a ideia de Schlesinger, indicando outro pequeno grande ator para o papel do frágil protagonista Babe Levy: Dustin Hoffman.

Repetindo a parceria com o diretor que havia lhe dado o inesquecível Ratzo de "Perdidos na noite" (69), Hoffman entrega mais uma memorável atuação, tornando crível até mesmo o fato de, aos 38 anos, interpretar um estudante universitário muitos anos mais jovem - algo que já havia feito com propriedade em sua estreia nas telas, "A primeira noite de um homem" (67). Ele está completamente à vontade como Thomas "Babe" Levy, um rapaz que cursa a faculdade de História como forma de honrar a memória do pai, que cometeu suicídio após ter a reputação arruinada pela perseguição política no período do infame macarthismo - a caça aos comunistas que tomou conta dos EUA nos anos 50. Inteligente e dedicado, ele vê sua pacata rotina completamente alterada quando o inesperado retorno de seu irmão mais velho, Doc (Roy Scheider), acaba em uma tragédia que o transforma em alvo de uma misteriosa organização que tem ligações com o temível Christian Szell (Laurence Olivier), um criminoso nazista que abandona seu exílio para buscar, em Nova York, um valioso tesouro em diamantes. Nessa situação ambígua e aflitiva, ele não consegue confiar nem mesmo na nova namorada, a suíça Elsa Opel (Marthe Keller), que parece saber mais do que aparenta.


Inserindo aos poucos as informações a respeito de seus personagens e sua trama - uma aposta arriscada que o público atual, mal acostumado com roteiros quase didáticos - Schlesinger não poupa a plateia de cenas bastante violentas e uma dose de crueldade quase excessiva. Sua sequência mais famosa, em que Szell tortura Babe com uma broca de dentista, por exemplo, chegou a ter sua duração cortada na edição final, depois de reclamações sobre seu conteúdo, apesar de figurar, hoje em dia, em seletas listas que elegem as melhores cenas da história do cinema. Boa parte de sua tensão vem da forma como o cineasta constrói sua narrativa, com cortes secos e um senso de desorientação que aproxima a audiência do protagonista, uma pessoa normal diante de um turbilhão de violência inesperado e angustiante. O roteiro, adaptado pelo próprio William Goldman - que modificou, a contragosto, o final da história - não facilita as coisas para o público, que passa quase metade do filme sem ter a menor ideia de como personagens tão díspares - um estudante, um criminoso nazista e um executivo constantemente em viagens ao exterior - podem estar conectados. A paciência, porém, oferece um prêmio a partir da entrada de Laurence Olivier em cena: seu Christian Szell, é, sem dúvida, uma de suas maiores criações no cinema - e isso que ele fez todas as suas cenas sob forte medicação para tratamento de um câncer que todos acreditavam que seria fatal. Não apenas Olivier sobreviveu à doença como levou um Golden Globe e uma indicação ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho - e só morreu em 1989, aos 82 anos de idade.

A presença de Olivier no elenco de "A maratona da morte", no entanto, quase não aconteceu. Preocupados com seu estado de saúde precário, os executivos da Paramount não sentiam-se seguros em tê-lo em seu elenco. Foi preciso que Robert Evans apelasse aos veteranos David Niven e Merle Oberon para que eles pressionassem uma companhia de seguros londrina para que o grande intérprete shakespereano finalmente pudesse assinar contrato para interpretar o cruel Christian Szell. Demonstrando seu talento acima do normal, Olivier não deixou que sua condição médica ficasse em seu caminho - nem sua dificuldade de lembrar seus diálogos, consequência dos efeitos colaterais de seus remédios para dor - e entregou uma performance assustadora que ficou em 34º lugar em uma enquete feita pelo AFI (American Film Institute) sobre os maiores vilões na ocasião do centenário do cinema. Seu trabalho consegue até mesmo ofuscar a intensa atuação de Dustin Hoffman - em um de seus melhores momentos na carreira, diga-se de passagem - e disfarçar o ritmo um tanto lento da primeira hora de duração do filme. Não é injusto dizer que "A maratona da morte", apesar de suas qualidades, deve boa parte de sua permanência na memória graças à potência de Olivier como ator, em um show inesquecível. O filme como um todo pode não agradar a todo mundo, mas sua atuação chega a ser milagrosa.

domingo

A PROFECIA

A PROFECIA (The omen, 1976, 20th Century Fox, 111min) Direção: Richard Donner. Roteiro: David Seltzer. Fotografia: Gilbert Taylor. Montagem: Stuard Baird. Música: Jerry Goldsmith. Direção de arte: Carmen Dillon. Produção executiva: Mace Neufeld. Produção: Harvey Bernhard. Elenco: Gregory Peck, Lee Remick, David Warner, Billie Whitelaw, Harvey Stephens, Patrick Thoughton, Martin Benson. Estreia: 06/6/76 (Inglaterra)

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Canção ("Ave Satani")
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original

Em 1976, filmes de terror não eram mais objetos de desprezo pelos produtores de Hollywood, especialmente se envolvessem a eterna discussão sobre a existência ou não do demônio. Com o sucesso de bilheteria e crítica de "O bebê de Rosemary" (68) e "O exorcista" (73) - que chegaram até a ganhar Oscar - qualquer estúdio que prezasse por sua conta bancária passou a ver o gênero como uma galinha dos ovos de ouro. A 20th Century Fox, no entanto, quase deixou a sua escapar: o roteiro de "A profecia", escrito por David Seltzer (unica e exclusivamente por motivos financeiros, como ele mesmo assume), havia sido rejeitado pelo estúdio e estava nas mãos da Warner Bros quando Richard Donner - então um diretor apenas de filmes para a televisão - decidiu que tinha total condição de fazer dele a sua estreia como cineasta. Empolgado com a história, convenceu o chefão Alan Ladd Jr. (filho do eterno Shane, de "Os brutos também amam") a recuperar os direitos de filmagem - aproveitando que a Warner optou por uma sequência de "O exorcista" - e, com um ator do porte de Gregory Peck como protagonista, criou aquele que seria seu primeiro grande sucesso comercial, em uma carreira que inclui "Superman, o filme" (78), "Os goonies" (85) e a cinessérie "Máquina mortífera" (que começou em 1987). Mas até que o filme finalmente estreasse, na estratégica data de 6 de junho de 1976 (666), ninguém poderia ter a certeza de que a empreitada daria certo - ou se ao menos chegaria às telas.

Como acontece frequentemente quando se trata de filmes de terror icônicos - caso de "O exorcista", principalmente - acontecimentos nos bastidores de "A profecia" deixaram muita gente com os nervos à flor da pele. O fato de Gregory Peck ter aceito o papel principal - de um embaixador que perdeu o filho recém-nascido e anos mais tarde se vê obrigado a tomar uma decisão que pai nenhum gostaria de tomar - foi o primeiro sinal de que um filme diferente estava por vir: o filho do ator havia cometido suicídio em 1975, e muitos não imaginavam que ele pudesse querer viver na tela uma história tão forte em termos emocionais. Foi o "sim" de Peck, no entanto, que avalizou o projeto junto aos produtores e a nomes como o de Lee Remick - indicada ao Oscar por "Vício maldito" (62). Com o prestigiado ator no elenco - com o salário diminuído, mas com um contrato que lhe renderia 10% da bilheteria do filme - Donner mostrava a todos que seu primeiro trabalho para o cinema não seria um filme de terror qualquer. E então começaram os tétricos incidentes.

Coincidência ou não, uma série de eventos estranhos tomou conta dos bastidores das filmagens. Aviões diferentes que levavam Gregory Peck e o roteirista David Seltzer para Londres foram atingidos por raios com poucas horas de diferença; o produtor Harvey Bernhard escapou por pouco de ser atingido por outro raio, quando estava em Roma; cães escalados para o filme atacaram seus treinadores sem razão aparente; o diretor Richard Donner foi atropelado e o hotel onde estava hospedado na capital inglesa foi alvo de um atentado à bomba praticado pelo IRA; um avião que deveria estar levando Peck de Israel para Los Angeles caiu, matando os cinco passageiros japoneses que estavam a bordo; e a namorada do técnico em efeitos visuais John Richardson foi decapitada em um acidente automobilístico em uma estrada da Holanda, perto de uma cidade chamada Ommen. Não foi por acaso que o Vaticano declarou-se francamente contra a produção e muitos roteiristas anteriores a Seltzer se recusaram a tomar parte no projeto. Mal sabiam que, apesar de tudo, "A profecia" se tornaria um dos maiores sucessos de bilheteria de 1976, daria origem a sequências e daria o único Oscar da carreira do músico Jerry Goldsmith - além de um desnecessário remake em 2006.


Acertadamente assumindo um tom sério e realista "A profecia" começa com uma tragédia familiar: Robert Thorn (Gregory Peck), embaixador dos EUA em Roma, descobre que seu filho recém-nascido morreu logo após o parto e, para impedir que sua esposa, Katherine (Lee Remick), saiba do acontecido, aceita assumir a paternidade de um bebê órfão, oferecido pelo dedicado padre que cuida da maternidade. Alguns anos depois, já alocados em Londres, estranhos acontecimentos começam a cercar a família, a partir do suicídio da jovem babá do pequeno Damien (Harvey Stephens) e da chegada do perturbado Padre Brennan (Patrick Troughton), que procura o político para alertá-lo sobre as reais origens do menino - que estaria ligado a uma profecia a respeito da chegada do anticristo. A princípio cético, aos poucos Thorn passa a desconfiar de que a verdade pode ser muito mais aterradora do que ele poderia supor, e, com a ajuda do fotógrafo (David Warner), parte em busca de uma solução menos trágica do que gostaria.

Pontuado pela oscarizada trilha sonora de Jerry Goldsmith e cercado de uma atmosfera sinistra que enfatiza o tom cru da narrativa, "A profecia" é um perfeito exemplar dos melhores filmes de terror já realizados em Hollywood. Sem apelar para alívios cômicos ou para sangue em excesso, Richard Donner acaba por construir um conto macabro e tenso, em que o público é conduzido por um caminho repleto de sustos e revelações macabras, que se aproveitam de uma base religiosa bastante conhecida - o Livro do Apocalipse - para atingir um nível perturbador e realista. Com interpretações seguras e inspiradas de Gregory Peck (em papel recusado por Charlton Heston, Roy Scheider e William Holden) e Lee Remick - além do estreante Harvey Stephens no papel do demoníaco Damien - e uma edição concisa e eficiente, é um clássico absoluto do gênero, capaz de causar tensão mesmo nesses tempos em que efeitos visuais e orçamentos milionários parecem mais importantes do que boas histórias. Um filme de terror que se leva a sério, o que faz uma imensa diferença!

sábado

ASSASSINATO POR MORTE

ASSASSINATO POR MORTE (Murder by death, 1976, Columbia Pictures Corporation/Rastar Pictures, 94min) Direção: Robert Moore. Roteiro: Neil Simon. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: John F. Burnett. Música: Dave Grusin. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/Marvin March. Produção: Ray Stark. Elenco: Alec Guinness, Peter Sellers, Truman Capote, Peter Falk, David Niven, Maggie Smith, James Coco, Eileen Brennan, Elsa Lanchester, Nancy Walker, Estelle Winwood, James Cromwell, Richard Narita. Estreia: 23/6/76

Os fãs da literatura policial clássica, que não conseguem viver sem um crime repleto de suspeitos para lhes fazer companhia irão saborear ainda mais a brincadeira, mas é difícil não se deixar envolver com o clima de homenagem satírica que "Assassinato por morte", escrito pelo dramaturgo Neil Simon, faz a um dos gêneros mais populares das livrarias - e também do cinema, haja visto as constantes adaptações de seus mais famosos títulos para as telas. Reunir em um mesmo filme meia dúzia dos mais célebres detetives já criados pelas férteis mentes de Agatha Christie, Dashiel Hammett e Earl Derr Biggers (disfarçados sob outros nomes por motivos possivelmente jurídicos mas ainda assim facilmente identificáveis) é mérito de Simon, que criou um jogo de gato-e-rato inteligente, irônico e banhado em um carinho que só mesmo quem conhece seus personagens consegue. Junte-se a esse sarcasmo a direção aparentemente sóbria de Robert Moore e um elenco espetacular - que inclui David Niven, Peter Sellers, Maggie Smith, Alec Guinness, Truman Capote e um juvenil James Cromwell - e tem-se uma das comédias mais injustamente esquecidas dos anos 70.

O escritor Truman Capote não poderia ter sido escolha mais feliz para interpretar o excêntrico milionário Lionel Twain, que reúne em sua casa um grupo de famosos detetives para propor-lhes um perigoso jogo: ele anuncia que um assassinato irá ocorrer à meia-noite e que, a despeito de suas qualidades investigativas, nenhum deles será capaz de descobrir o criminoso - e se isso acontecer o vencedor sairá da mansão (repleta de quartos sombrios, uma campainha que grita e salas que aparecem e desaparecem) com um milhão de dólares em mãos. É o bastante para que todos fiquem bastante empolgados, uma vez que dívidas batem à porta de cada um deles. Quando o próprio anfitrião aparece morto com 12 facadas nas costas - depois da morte do mordomo cego (vivido por Alec Guinness em vias de tornar-se Obi Wan Kenobi em "Star Wars") - a corrida começa e verdades escondidas sobre os detetives ameaçam vir à tona.


Um triunfo de roteiro e de ambientação, "Assassinato por morte" diverte sem contra-indicações. Ao contrário das comédias histéricas que apostariam no riso descontrolado que viriam nos anos 80 - graças ao sucesso de filmes como "Apertem os cintos, o piloto sumiu..." (80) - a obra de Robert Moore aposta na inteligência do espectador em reconhecer os sinais inequívocos que distinguem seus personagens e em se deixar envolver por uma trama que brinca sem medo com os clichês dos romances policiais, distorcendo-os em função de suas possibilidades cômicas. E para isso, conta com um elenco de grandes atores mergulhando sem medo na paródia e até mesmo em sua auto-imagem. Estão em cena David Niven e Maggie Smith como o casal Charleston (inspirado em Nick e Nora Charles, criados por Dashiel Hammett), Peter Sellers brilhando como Sidney Wang (fazendo as vezes do Charlie Chan de Earl Derr Biggers), Peter Falk como o falastrão Sam Diamond (ou Sam Spade, imortalizado por Humphrey Bogart em adaptações de livros de Hammett), Elsa Lanchester como Miss Marbles (ou Miss Marple, criação de Agatha Christie, em cuja adaptação de "Testemunha de acusação" ela também atuou) e James Coco na pele de Milo Perrier (Hercule Poirot, outro inesquecível personagem da escritora inglesa). Cada um com suas características próprias, eles deleitam o espectador com piadas visuais e verbais capazes de alegrar o mais aficcionado fã da literatura policial.

Quem procurar em "Assassinato por morte" um humor fácil pode se decepcionar. Apesar de algumas gags geniais - como os impagáveis diálogos entre o mordomo cego e a cozinheira surda-muda - o roteiro de Neil Simon privilegia a inteligência e o sarcasmo em detrimento da piada previsível ou do riso forçado. Suas referências podem afastar a plateia menos afeita à sátira, mas aqueles que se arriscarem certamente terão uma hora e meia de diversão de primeiro nível - e que fatalmente os levará de volta aos livros de Christie, Hammett e Biggers. Afinal, nada como uma boa homenagem para dar valor a quem merece!

sexta-feira

CARRIE, A ESTRANHA

CARRIE, A ESTRANHA (Carrie, 1976, United Artists, 98min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Lawrence D. Cohen, romance de Stephen King. Fotografia: Mario Tosi. Montagem: Paul Hirsch. Música: Pino Donaggio. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: Jack Fisk, William Kenney/Robert Gould. Produção: Paul Monash. Elenco: Sissy Spacek, Piper Laurie, Amy Irving, Nancy Allen, John Travolta, William Katt, Betty Buckley. Estreia: 03/11/76

2 indicações ao Oscar: Atriz (Sissy Spacek), Atriz Coadjuvante (Piper Laurie)

Em 1976 ninguém conhecia Stephen King. Se hoje seu nome é amplamente reconhecido por todos os fãs de livros e filmes de terror - além de outras obras que fogem do gênero e também foram adaptadas com sucesso para o cinema, como "Conta comigo" (86) e "Um sonho de liberdade" (94) - a situação era bem diferente então. Seu primeiro romance, escrito enquanto trabalhava em uma lavanderia, chegou a ser recuperado da lata de lixo por sua esposa antes de ser publicado e chegar às telas de cinema no rastro de sucessos de bilheteria como "O bebê de Rosemary" (68) e "O exorcista" (73). Inspirado em duas colegas de escola que eram isoladas dos colegas graças ao fanatismo religioso de suas famílias e que morreram bastante jovens, ele criou Carrie White, a adolescente que tornou-se uma das personagens clássicas de sua literatura principalmente depois que conquistou os espectadores de cinema. Dirigido por Brian DePalma, "Carrie, a estranha", foi um enorme sucesso de bilheteria, cimentou o nome de King entre os apaixonados pelo gênero e, surpreendentemente para um filme de terror, indicou sua protagonista (a então estreante Sissy Spacek) ao Oscar de melhor atriz.

Spacek, que tinha 26 anos à época das filmagens, convence plenamente como a colegial Carrie, especialmente devido à sua franzina compleição física. Indicada ao cineasta por seu marido, o diretor de arte Jack Fisk, Spacek agarrou sua oportunidade com unhas e dentes, entregando uma atuação até hoje lembrada como uma das mais intensas de sua vitoriosa carreira - que inclui um Oscar por sua interpretação da cantora country Loretta Lynn em "O destino mudou sua vida" (80). Desde a primeira cena, em que a ingênua Carrie descobre (da pior maneira possível) o que acontece com as mulheres quando elas menstruam, até o apoteótico e pirotécnico final (copiado até mesmo na telenovela "Rainha da sucata", porém com menos violência), a atriz dá um show particular, transitando com firmeza entre a timidez e a insegurança de uma jovem estudante renegada pelas colegas e a fúria incontrolável que surge diante das humilhações sofridas, que despedaçam cruelmente seus momentos de maior felicidade. Seus embates com Piper Laurie, que interpreta sua mãe, uma religiosa cujo fanatismo beira a caricatura, são dignos de figurar entre os maiores momentos do cinema de terror, mesmo que o suspense esteja principalmente nas entrelinhas dos diálogos e no clima absorvente criado pela fotografia de Mario Tosi e pela trilha sonora impecável de Pino Donaggio.


Piper Laurie, aliás, que foi indicada ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho, acreditava piamente que o filme de DePalma era um comédia de humor negro, uma sátira ao gênero, devido ao exagero das atitudes de sua personagem, capaz de trancar a filha adolescente em um armário como forma de castigá-la. Sumida das telas desde "Desafio à corrupção" (61), Laurie é um destaque absoluto do filme, com seu olhar apavorado, seus discursos louvatórios e sua figura assustadora. Nem mesmo Julianne Moore, com seu enorme talento, conseguiu resultado melhor na reinvenção do filme dirigida por Kimberly Peirce em 2013 - que, como fatalmente acontece, optou pelos efeitos visuais em detrimento do clima. O que há de mais interessante em "Carrie" são as dicotomias propostas pelo tema: bem/mal, amor/ódio, amizade/desprezo, religiosidade/paganismo. King consegue até mesmo criar uma teoria para o despertar da telecinese de sua protagonista, que tem início justamente quando ela torna-se mulher, menstruando pela primeira vez diante de um grupo de colegas maldosas e irresponsáveis: ela está pronta para o mundo, mas junto com o amor (de que ela tem apenas um vislumbre momentâneo) vem o ódio, a inveja e, consequentemente, as reações a isso.

Para quem não conhece a trama, é fácil resumir: Carrie White, uma jovem de 17 anos, filha de uma mãe fanaticamente religiosa que a mantém isolada de todos - à exceção de seus colegas de escola - descobre que tem o poder de mover objetos e até mesmo provocar incêndios apenas com a força do pensamento. Tal descoberta ocorre justamente depois que ela é humilhada no vestiário da escola, depois de desesperar-se quando menstrua pela primeira vez. A represália que suas colegas sofrem por tal "travessura" acaba por jogar Carrie em uma armadilha sádica que ocorre justamente em seu baile de formatura, quando ela é coroada a Rainha. Seus minutos de glória e felicidade são logo transformados em um pesadelo e ela acaba se vingando de todos os seus inimigos utilizando seus poderes recém-descobertos - até ser obrigada a encarar sua mãe, que não aceita o fato de sua filha estar despertando para o mundo.

Clássico absoluto, "Carrie, a estranha" consegue manter, mesmo em tempos onde a violência é moeda corrente no cinema mundial, seu status de referência do gênero. Além do mais, apresenta, em início de carreira, os jovens John Travolta e Amy Irving. Obrigatório!

ROCKY, UM LUTADOR


ROCKY, UM LUTADOR (Rocky, 1976, United Artists, 119min) Direção: John G. Avildsen. Roteiro: Sylvester Stallone. Fotografia: James Crabe. Montagem: Scott Conrad, Richard Halsey. Música: Bill Conti. Direção de arte/cenários: Bill Cassidy/Raymond Molyneaux. Casting: Caro Jones. Produção executiva: Gene Kirkwood. Produção: Robert Chartoff, Irvin Winkler. Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Youg, Burgess Meredith, Carl Wheaters. Estreia: 21/11/76

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John G. Avildsen), Ator (Sylvester Stallone), Atriz (Talia Shire), Ator Coadjuvante (Burgess Meredith, Burt Young), Roteiro Original, Montagem, Canção ("Gonna fly now"), Som
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Diretor (John G. Avildsen), Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama


A festa de entrega do Oscar para os melhores de 1976 tinha no páreo a obra-prima "Taxi driver", de Martin Scorsese e o festejado e politicamente importante "Todos os homens do presidente", de Alan J. Pakula, além do merecidamente incensado "Rede de intrigas", de Sidney Lumet (que tem previsão de lançamento em DVD no Brasil para 23/6/10). Com esse trio forte de candidatos, não deixou de ser uma enorme surpresa que a estatueta de melhor filme tenha ficado justamente com "Rocky, um lutador", uma produção pequena e simples que louvava, acima de tudo, a auto-superação de um homem comum, gente como a gente. Escrito e estrelado por um jovem Sylvester Stallone (30 anos em 1976), o filme tornou-se um sucesso instântaneo, rendendo milhares de dólares e gerando várias continuações com o passar dos anos (a última, intitulada "Rocky Balboa", foi lançada em 2006, três décadas depois da estreia do primeiro filme).

O primeiro - e melhor filme da série - se passa na Filadélfia, onde vive o protagonista, Rocky Balboa (vivido por um inspirado Stallone, que recebeu uma inédita indicação ao Oscar de melhor ator). Outrora um promissor boxeador, Rocky trabalha como uma espécie de capanga de um agiota, utilizando seus músculos como objeto de pressão contra os inadimplentes. Logo que começa a namorar a tímida Adrian (Talia Shire), a irmã de seu melhor amigo, Paulie (Burt Young), Rocky vislumbra a maior chance de sua vida profissional: lutar contra o campeão de boxe Apollo Creed (Carl Wheaters), que quer dar a um desconhecido a oportunidade de desafiá-lo no ringue. Contando com a ajuda de seu ex-técnico Mickey (Burgess Meredith), ele inicia um treinamento intensivo, pois sabe que, mesmo que saia da luta derrotado - como é o mais provável que aconteça - ele precisa provar que não é o fracassado que todo mundo pensa que ele é.


Filmado em apenas 28 dias, com um orçamento de pouco mais de 1 milhão de dólares, "Rocky" é, na verdade, um estudo sobre um assunto sobre o medo do fracasso, que há muito fascina o público médio americano. Mas não é um estudo sério, pedante ou enfadonho. Da forma como foi escrito por Stallone - em apenas 3 dias, conforme a lenda - é uma história de amor simples e humana, capaz de atingir várias parcelas de público. Seu romance hesitante com Adrian emociona o público feminino por sua delicadeza e sensibilidade e é pouco provável que a audiência masculina não se empolgue com o teor esportivo do filme - o treinamento de Rocky, inclusive gerou cenas antológicas, casadas com a canção "Gonna fly now", que tornou-se símbolo de toda a série.

A série, aliás, nunca fez justiça à qualidade de seu primeiro capítulo, tornando-se, com o tempo, uma máquina caça-níqueis sem a mesma essência que fez da primeira parte da saga de Rocky tão especial e querida pelo público. O que provavelmente os produtores não entenderam é que o sucesso comercial e de crítica do filme surgiu principalmente pelo fato do filme ser tão azarão quanto seu protagonista. Quando escreveu a primeira versão do roteiro, Stallone estava em uma situação tão crítica quanto a de Rocky, com meros 106 dólares na conta bancária e em vias de se desfazer do próprio cachorro, a quem não conseguia alimentar decentemente. A batalha de Rocky em provar seu valor - e a urgência com que precisava fazer isso - era, de uma certa forma um reflexo bastante claro da batalha do ator em ser levado a sério em sua profissão. Essa identificação era tão forte que, mesmo praticamente falido, Stallone exigiu fazer o papel principal, mesmo quando os produtores insistiam em um nome mais bancável - que giravam em torno dos mesmos atores de sempre nessas circunstâncias; Robert Redford, Ryan ONeal, Burt Reynolds ou James Caan. Sua insistência fez o orçamento do filme diminuir, mas deu a ele a veracidade e o sentimento palpável indispensáveis a seu sucesso - ainda que o final seja consideravelmente diferente da primeira versão do script.

"Rocky, um lutador" não é uma obra-prima, aliás não passa nem perto de o ser. Seu roteiro é repleto de clichês - que não incomodam justamente por combinarem perfeitamente com o estilo simples dos protagonistas - e as interpretações não são exatamente geniais, apesar de 4 de seus atores terem levado indicações ao Oscar. Mas é extremamente bem realizado - as cenas de luta são tecnicamente corretas - e é dono de uma energia tão positiva e inspiradora que se torna quase impossível não gostar de seu resultado final. É um filme que fala ao coração mais do que ao cérebro e é justamente aí que se encontra seu ingrediente secreto.

quinta-feira

TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE


TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE (All the president's men, 1976, Warner Bros, 138min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: William Goldman, baseado no livro de Bob Woodward e Carl Bernstein. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Robert L. Wolfe. Música: David Shire. Direção de arte/cenários: George Jenkins/George Gaines. Casting: Alan Shayne. Produção: Walter Coblenz. Elenco: Dustin Hoffman, Robert Redford, Jack Warden, Martin Balsam, Jason Robards, Hal Holbrook, Ned Beatty, Jane Alexander, Stephen Collins, Meredith Baxter. Estreia: 09/4/76

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alan J. Pakula), Ator Coadjuvante (Jason Robards), Atriz Coadjuvante (Jane Alexander), Roteiro Adaptado, Montagem, Direção de arte, Som
Vencedor de 4 Oscar: Ator Coadjuvante (Jason Robards), Roteiro Adaptado, Direção de Arte, Som


Enquanto no Brasil normalmente escândalos no governo acabam em pizza - e em reeleições alguns poucos anos depois - nos EUA as coisas não são assim tão fáceis para quem está no poder, vide a crise instaurada por um simples caso extra-conjugal de Bill Clinton quando ele estava na Casa Branca. Tida como o quarto poder, a imprensa é responsável por balançar as estruturas do poder, e o maior exemplo disso provavelmente é o caso Watergate, que, revelado por dois jornalistas do Washington Post, resultou na renúncia do presidente Richard Nixon em 9 de agosto de 1974. Contada com detalhes no extenso livro "Todos os homens do presidente", escrito pelos repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward, uma das investigações mais famosas da história do jornalismo moderno foi parar nas telas de cinema já em 1976, quando o caso ainda estava fresquinho na memória do público. Resultado? Um sucesso enorme de bilheteria e crítica, além de 8 indicações ao Oscar (sendo que 4 converteram-se em estatuetas). Nada mal para um filme que, apesar da presença fulgurante do então astro do momento Robert Redford, foge do padrão filme-pipoca que começava a mandar nas salas de exibição desde que o tubarão de Steven Spielberg surgiu, no verão de 1975.

Dirigido por Alan J. Pakula - que ficou com a direção depois que o inglês John Schlesinger declinou do convite por acreditar que tratava-se de uma história que deveria ser contada por um americano - o filme, roteirizado por William Goldman (que ganhou o Oscar por isso) começa em 17 de junho de 1972, quando um arrombamento na Sede do Partido Democrata americano, localizado no edifício Watergate chama a atenção do jornalista Bob Woodward (Robert Redford), que, recém-contratado pelo Washington Post, tenta mostrar serviço, mesmo que não entenda nada de política. Contando com a ajuda do colega Carl Bernstein (Dustin Hoffman), mais experiente na área e nos meandros do serviço, ele passa a correr atrás de pistas deixadas por atitudes estranhas dos criminosos, que parecem estar ligados à Casa Branca. Quando um misterioso informante, apelidado de Garganta Profunda (Hal Holbrook) confirma suas suspeitas, os dois rapazes tem que não apenas provar sua teoria - que culpa pessoas do mais alto escalão do governo americano - mas convencer seus superiores no jornal (Jack Warden, Martin Balsam e o premiado com o Oscar de coadjuvante Jason Robards) a publicar o que poderá ser a reportagem mais incendiária da história política do país.


O mais fascinante em "Todos os homens do presidente" é a forma com que o roteiro de Goldman e a direção de Pakula se desenrola frente aos olhos privilegiados da plateia. O público acompanha cada passo dos protagonistas do filme, suas altas expectativas, suas frustrações e seus insights de maneira a torcer por eles como se fossem heróis de um filme de ação, ainda que não façam muito mais do que ficar ao telefone ou interrogando dezenas de pessoas possivelmente ligadas à investigação. Não é à toa que ainda hoje o filme seja recomendado em todas as faculdades de Jornalismo, uma vez que detalha admiravelmente a jornada de dois profissionais idealistas em busca da verdade, mesmo que ela possa lhes ser prejudicial. Para isso colabora também a escolha de seus dois atores centrais: Robert Redford assumiu o papel de Woodward para garantir o financiamento do filme - além do fato de ter sido ele o responsável pela compra dos direitos do livro - e Dustin Hoffman entregou ao filme a credibilidade artística necessária à atenção da crítica.

Ainda que seja um filme bastante complexo para não-americanos - a enormidade de nomes, cargos e responsabilidades citadas no roteiro chega a confundir em certas passagens - "Todos os homens do presidente" tem momentos de puro cinema político, no melhor estilo do cineasta grego Costa-Gavras. A música de David Shire aparece nas horas certas, sem atrapalhar o andamento da narrativa, apenas sublinhando a tensão de algumas cenas e a edição confere um tom semi-documental ao resultado final - e ainda que o filme seja um tanto longo demais, é inegável que o roteiro conseguiu enxugar todas as informações necessárias ao máximo possível para que a trama seja compreendida pela audiência sem que prejuízo de suas ambições comerciais.

"Todos os homens do presidente" é um filme bastante interessante e importante, principalmente para quem gosta de histórias reais contadas com cuidado e atenção. Nâo é adrenalina pura, mas ainda se mantém como um dos mais influentes do seu gênero.

quarta-feira

TAXI DRIVER


TAXI DRIVER (Taxi driver, 1976, Columbia Pictures, 113min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Tom Rolf, Melvin Shapiro. Música: Bernard Herrmann. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Charles Rosen/Herbert Mulligan. Casting: Juliet Taylor. Produção: Julia Phillips, Michael Phillips. Elenco: Robert DeNiro, Sybil Sheperd, Jodie Foster, Harvey Keitel, Albert Brooks, Peter Boyle, Martin Scorsese. Estreia: 08/02/76

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Robert DeNiro), Atriz Coadjuvante (Jodie Foster), Trilha Sonora Original
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes


Nada como a garra e a ousadia da juventude. Em 1976, aos 34 anos, Martin Scorsese - recém saído do sucesso de crítica de "Alice não mora mais aqui", que deu o Oscar de melhor atriz a Ellen Burstyn - concebeu um dos filmes mais perturbadores e fascinantes de uma carreira que ainda viria a legar ao mundo obras-primas como "Touro indomável" e "Os bons companheiros". Unido ao roteirista Paul Schrader e ao ator Robert DeNiro, o cineasta nova-iorquino criou uma sufocante fábula sobre solidão, obsessão e violência passada nas ruas escuras e úmidas de Times Square: "Taxi driver", vencedor da Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes de 1976.

De Niro, em uma atuação irretocável, vive Travis Bickle, um ex-combatente do Vietnã que começa a trabalhar como motorista de táxi no horário noturno como forma de lidar com a insônia. Convivendo com passageiros excêntricos e/ou patéticos, ele se torna obcecado pela bela Betsy (Sybil Sheperd), que trabalha no comitê eleitoral de um candidato à Presidência. Enquanto tenta conquistá-la a seu modo um tanto grosseiro e equivocado (em seu primeiro encontro, por exemplo, ele a leva a um cinema pornô), ele também conhece e fica interessado na história de Iris (Jodie Foster, aos 12 anos de idade), uma prostituta adolescente que ele acredita ser explorada por seu cafetão Matthew "Sport" (Harvey Keitel). Fascinado pelas duas, Travis decide impressioná-las usando de violência como cartão de visitas, o que o leva a uma carnificina.

Escrito por Schrader em apenas 5 dias - sempre com a arma carregada do roteirista em seu campo de visão como objeto de inspiração e motivação, segundo reza a lenda - "Taxi driver" encantou vários estúdios que se interessaram em produzí-lo, mesmo que alguns deles tivessem algumas ideias estapafúrdias para seu elenco: até mesmo o cantor Neil Diamond foi sugerido para o papel principal, escrito por Schrader com o ator Jeff Bridges em mente. Quando Scorsese assumiu a função de diretor no lugar de Brian de Palma, chamou seu amigo e colaborador Robert DeNiro para viver o protagonista e o resto é história.


Para as personagens femininas é que as coisas não foram assim tão fáceis. A bela e etérea Betsy, por exemplo, teve possibilidade de ser interpretada por dezenas de atrizes hoje bastante conhecidas: Farrah Fawcett, Jane Seymour, Glenn Close, Susan Sarandon, Meryl Streep, Sigourney Weaver, Liza Minelli, Barbara Hershey, Mary Steenburgen, Mia Farrow e Goldie Hawn. Cybil Sheperd ficou com o papel que foi escrito inspirado em sua imagem somente depois que sua agente ficou sabendo desse pequeno detalhe, mas sua dificuldade em decorar as falas foi motivo de muitos conflitos durante as filmagens, principalmente em relação aos produtores, o casal Julia e Michael Phillips. Mas se Sheperd, apesar de lindíssima não atrapalha nem impressiona, o mesmo não pode ser dito a respeito de Jodie Foster que, aos 12 anos, mostra que seu talento já vem de longe.

Para viver a prostituta-mirim Iris - que lhe deu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante - Foster teve que bater 250 candidatas ao papel. Entre essas candidatas estavam, Melanie Griffith, Kim Basinger, Geena Davis, Michelle Pfeiffer, Brooke Shields, Debra Winger, Linda Blair, Carrie Fisher, Mariel Hemingway e, acreditem ou não, Kim Cattrall, a famosa Samantha Jones da série "Sex and the city". Seu trabalho, no entanto, é impecável. Mesmo com sua pouca idade, ela demonstra um talento incomum, que, anos depois a consagraria como uma das melhores atrizes de sua geração.

Na verdade, é difícil dizer o que funciona mais nesse impressionante trabalho de um cineasta-autor. O trabalho de atores, liderados por um Robert De Niro assustador e completo com uma juvenil Jodie Foster e um supreendente Harvey Keitel (que transformou uma personagem negra em uma branca) é cuidadoso, detalhista e seguro. A música hipnotizante de Bernard Herrman (em seu último trabalho, uma vez que morreu uma semana depois de concluí-lo) impõe-se como um pesadelo, especialmente em contato com a fotografia quase polidimensional de Michael Chapman, que deixa de lado o visual de cartão-postal de Nova York para mostrar uma cidade tensa, angustiada e nervosa como deseja o roteiro sufocante de Paul Schrader, transformado em imagens por um Scorsese em um de seus melhores trabalhos como diretor, cheio da energia e da garra dos cineastas iniciantes e engajados.

Sem fazer concessões ao agradável e a finais felizes incoerentes e desnecessários, “Taxi driver” é um dos filmes obrigatórios dos anos 70.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...