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sexta-feira

SNOWDEN: HERÓI OU TRAIDOR

SNOWDEN: HERÓI OU TRAIDOR (Snowden, 2016, Endgame Entertainment/Vendian Entertainment/KrautPack Entertainment, 134min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Kieran Fitzgerald, livro de Anatoly Kucherena e Luke Harding. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Alex Marquez, Lee Percy. Música: Craig Armstrong. Figurino: Bina Daigegler. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Véronique Melery. Produção executiva: Max Averlaiz, Michael Bassick, Olivier Cottet-Puinel, Douglas Hansen, José Ibañez, Peter Lawson, Romain Le Grand, Bahman Naraghi, Tom Ortenberg, Jérôme Seydoux, James Stern, Christopher Woodrow. Produção: Moritz Borman, Eric Kopeloff, Philip Schulz-Deyle, Fernando Sulichin. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Melissa Leo, Zachary Quinto, Shailene Woodley, Nicolas Cage, Rhys Ifans, Tom Wilkinson, Joely Richardson, Logan Marshall-Green, Timothy Olyphant, Ben Chaplin, Scott Eastwood. Estreia: 21/7/16

Se existe um cineasta certo para contar a história de Edward Snowden nas telas de cinema, esse cineasta é Oliver Stone. Politicamente ativo e pouco dado a sutilezas, Stone ganhou dois Oscar de direção por cutucar o governo americano a respeito da guerra do Vietnã (por "Platoon", de 1986, e "Nascido em 4 de julho", de 1989) e nunca mediu palavras - ou imagens - para deixar bem claras suas posições liberais e democratas. Há muito tempo sem um grande sucesso de bilheteria - seu último trabalho a fazer barulho comercialmente foi "JFK", em 1991 - e massacrado impiedosamente pela crítica por seus trabalhos mais recentes, como "As Torres Gêmeas" (2006) e "Selvagens" (2012), Stone encontrou na trajetória arriscada e corajosa do jovem informante a matéria-prima para uma produção não apenas contundente e atual, mas extremamente necessária. Como era de se esperar, o filme fracassou comercialmente - nos EUA rendeu pouco mais da metade de seu orçamento, estimado em 40 milhões de dólares - e dividiu a crítica, mas é inegável que é o melhor Stone desde "Assassinos por natureza" (94), o que é ainda mais admirável quando se percebe que é também um dos filmes de narrativa mais acessível da carreira do diretor.

Dispensando os cacoetes visuais e artifícios narrativos que vem marcando sua carreira desde a década de 90, Oliver Stone faz de "Snowden: herói ou traidor" uma obra linear e quase convencional, que aposta muito mais no roteiro quase didático do que no visual exuberante - é a primeira vez que o cineasta se utiliza de câmeras digitais sem que seja em um documentário. Apesar da edição continuar sendo um dos destaques (aqui a cargo de Alex Marquez e Lee Percy), Stone abre mão de suas manias de despejar diante da audiência imagens em ritmo alucinante e quase esquizofrênico: a história é, sim, contada em duas linhas de tempo distintas, mas sem que uma atropele a outra e sem que o público perca o fio da meada diante do excesso de informações. O roteiro, baseado no livro "Time of the Octopus" do advogado russo Anatoly Kucherena - tratado como ficção mas amplamente baseado em entrevistas com Snowden -, é a força motriz do filme, a base sobre a qual o diretor constrói uma severa crítica ao modo como os governos Bush e Obama lidaram com espionagem em grande escala e nas graves consequências de tais atos. Com imagens reais de governos atingidos pelo escândalo - incluindo o Brasil - e sem medo de apontar dedos, "Snowden" é surpreendentemente sóbrio e honesto. Stone parece dizer, com sua direção discreta, que a história (forte, assustadora, chocante) é maior do que qualquer tentativa de manipulação artística.


O filme começa em junho de 2013, quando o jovem Edward Snowden (Joseph Gordon-Levitt) se encontra com o jornalista Glenn Greenwald (Zachary Quinto) e a documentarista Laura Poitras (Melissa Leo) em um hotel de Hong Kong - Greenwald mais tarde seria um dos mais ferrenhos opositores ao golpe parlamentar que destitui a presidente Dilma Roussef, e Proitas ganharia o Oscar de documentário por "Cidadãoquatro" (2014), justamente sobre o escândalo denunciado por Snowden. O encontro entre os três tem uma razão muito simples, ainda que potencialmente explosiva: o rapaz, ex-funcionário da CIA e da NSA, tem documentos que comprovam sem espaço para quaisquer dúvidas, de que o governo norte-americano, em nome da defesa nacional, tem acesso irrestrito a informações pessoais e confidenciais de todo o planeta - e que as utiliza sem nenhum critério ético ou moral. A partir daí, o roteiro intercala as reuniões do grupo (que contam ainda com o repórter do jornal "The Guardian", Ewen MacAskill (Tom Wilkinson)) com a trajetória do rapaz dentro das agências de segurança do país. Com inteligência acima da média e digno da confiança de seus colegas e superiores, Snowden aos poucos vai tomando conhecimento do absurdo que é a rede de espionagem que ele mesmo criou (com objetivos outros, menos invasivos). Ao lado da namorada, Lindsay (Shailene Woodley), ele entra em uma severa crise de consciência até que resolve expor toda a verdade ao mundo.

Um thriller político da mais alta qualidade - que consegue equilibrar com maestria tanto o suspense quanto a crítica ao governo -, "Snowden" comprova que Oliver Stone é, apesar de alguns exageros de sua carreira, um dos cineastas mais instigantes de Hollywood. Destemido e feroz em suas declarações cinematográficas, é também um contador de histórias nato, convincente e quase diabólico em suas tentativas de vender seu peixe. Além do mais, é um excelente diretor de atores: se todo o elenco de "Snowden" é homogeneamente competente (incluindo uma pequena participação de Nicolas Cage), a composição de Joseph Gordon-Levitt é impressionante. Mesmo sem ter semelhanças físicas com o protagonista, quando está em cena o jovem ator simplesmente se transforma no personagem: a voz, o gestual e a forma de falar engolem Levitt e fazem surgir um Edward Snowden irretocável, capaz de confundir aos desavisados - tal similaridade física fica evidente na última cena, em que o verdadeiro Snowden faz uma aparição rápida e marcante. Injustamente esquecido pelo Oscar - que desde "Nixon", de 1995, nunca mais indicou filmes de Stone em nenhuma categoria - e por outras cerimônias de premiação (apenas o Satellite Awards lhe deu uma indicação), Gordon-Levitt comprova ser um dos mais talentosos e versáteis atores de sua geração, capaz de encarar desafios sem medo e sem se repetir. Se "Snowden: herói ou traidor" é tão bom, pode-se dizer que é devido à união perfeita entre diretor, tema, roteiro e ator principal. Um dos grandes filmes de 2016.

segunda-feira

A TRAVESSIA

A TRAVESSIA (The walk, 2015, Sony Pictures Entertainment/TriStar Productions, 123min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Robert Zemeckis, Christopher Brown, livro de Philippe Petit. Fotografia: Darius Wolszki. Montagem: Jeremiah O'Driscoll. Música: Alan Silvestri. Figurino: Suttirat Anne Larlab. Direção de arte/cenários: Naomi Shohan/Geoffroy Gosselin, Ann Smart. Produção executiva: Jacqueline Levine, Cherylanne Martin, Ben Waisbren. Produção: Jack Rapke, Steve Starskey, Robert Zemeckis. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Ben Kingsley, Charlotte Le Bon, James Badge Dale, Ben Schwartz. Estreia: 26/9/15 (New York Film Festival)

O vencedor do Oscar de melhor documentário de 2008, "O equilibrista", dirigido por James Marsh, contava a inacreditável história de Philippe Petit, um francês que conseguiu, em 1974, quando as Torres Gêmeas ainda nem estavam totalmente prontas, atravessar a distância entre elas equilibrado no fio que utilizava em suas apresentações artísticas em Paris. Como documentários não são exatamente gêneros populares - com raras exceções - o cineasta Robert Zemeckis achou que a trajetória de Petit em sua tentativa de atingir seu objetivo poderia render um belo e emocionante filme, capaz de atrair as mesmas multidões que lotaram os cinemas para assistir a alguns de seus maiores sucessos de bilheteria, como a trilogia "De volta para o futuro", o divertidíssimo "Uma cilada para Roger Rabbit" (88) e o multi-oscarizado "Forrest Gump: o contador de histórias" (94). Enganou-se. Com uma renda de pouco mais de 10 milhões de dólares arrecadados no mercado doméstico, "A travessia" foi uma grande decepção comercial, e nem mesmo sua renda internacional conseguiu apagar o gostinho amargo do fracasso, mal ultrapassando os 50 milhões e nem sequer dobrando seu custo (relativamente baixo) de 35 milhões de dólares. Nem mesmo a Academia de Hollywood, tão generosa com Zemeckis em outras ocasiões, pareceu impressionar-se com seu novo filme, lhe ignorando até mesmo nas categorias técnicas. Uma tremenda injustiça! Mesmo longe de ser o melhor trabalho do diretor, "A travessia" é entretenimento honesto, tecnicamente irrepreensível e com um clímax poderoso o bastante para prender o espectador na poltrona até os minutos finais.

Construindo sua narrativa em um estilo que lembra os famosos "filmes de golpe", o roteiro, baseado em livro do próprio Petit, acompanha o protagonista desde seus primeiros passos como equilibrista - sob os cuidados do experiente e ranzinza Papa Rudy (Ben Kingsley) - até seu mais famoso e arriscado espetáculo, um acontecimento ao mesmo tempo poético e assustador, belo e transgressor. Na pele de um Joseph Gordon-Levitt com sotaque francês e lentes de contato azuis, o personagem central apresenta todas as características típicas de um protagonista arrojado: é intransigente, quase arrogante, obsessivo e dotado de uma visão artística muito superior à sua percepção do perigo. Zemeckis não tenta forçar a simpatia do público com seu herói, deixando a missão com o seu ator principal - que mais uma vez demonstra um carisma acima de qualquer dúvida, mesmo tendo em mãos um personagem cuja fixação chega, em determinados momentos, a por em risco inclusive aqueles que aceitam colaborar com ela. Ao equilibrar (sem trocadilhos) o tom cômico com um ritmo de filmes de aventura da velha Hollywood e efeitos visuais espetaculares, "A travessia" é um programa completo, capaz de agradar a todos os tipos de público, mas que infelizmente não conseguiu a atenção que merecia.


Milimetricamente construído como um programa para seduzir qualquer espectador, "A travessia" é um produto raro dentro da indústria hollywoodiana. Não apela para nenhum tipo de violência, não é inspirado em nenhuma história em quadrinhos, não é sequência de um sucesso ou tampouco tem como ator principal um nome de forte apelo popular, capaz de levar o público às salas de exibição somente por sua presença. Nem mesmo o nome de Robert Zemeckis foi o bastante para convencer a audiência, no entanto. De volta ao formato tradicional de contar histórias no cinema desde "O voo" - que concorreu aos Oscar de ator (Denzel Washington) e roteiro original - o cineasta que há anos dedicava-se a experimentações, como "O Expresso Polar" (2004) comprova que não perdeu a habilidade em mergulhar em tramas centradas mais em personagens do que em desafios técnicos. Ainda que "A travessia" tenha como maior atrativo o envolvente clímax que coloca Philippe Petit a centenas de metros do chão, é sua jornada para atingir seu objetivo que determina o ritmo do filme, ditado pela edição ágil (mas nunca histérica) e sublinhado pela trilha sonora discreta de Alan Silvestri. É assim que Petit vai explicando sua ideia fixa à plateia, enquanto vai recrutando colaboradores, entre elas a namorada Annie (Charlotte Le Bon) e seu fotógrafo oficial, Jean-Louis (Clement Sibony), que chegam à Nova York convencidos a participar de um evento sem igual - e ilegal.

É quando o grupo de Petit chega à Nova York - depois de mais de uma hora de filme - que "A travessia" parece finalmente começar, e talvez essa demora em engrenar seja seu maior problema. Quando finalmente é hora do clímax - poderoso, engraçado, tenso e emocionante - é possível que boa parte da plateia já tenha se incomodado com os dois terços iniciais, interessantes mas sem maiores atrativos exceto a produção impecável e o carisma de Gordon-Levitt. Àqueles que tem paciência, porém, Zemeckis entrega um belo presente em seus trinta minutos finais: a sequência em que finalmente Petit faz sua travessia entre as torres do World Trade Center não apenas é um feito técnico impressionante (em especial em uma sessão 3D) como também é uma linda homenagem à cidade e aos edifícios, que surgem como personagens indispensáveis à história. Essa etapa final do filme - cuidadosamente filmada, editada e sonorizada - apaga todo e qualquer deslize anterior, mostrando porque o diretor é um dos mais conceituados e bem-sucedidos de Hollywod apesar de alguns fracassos no caminho. Os efeitos visuais deslumbrantes (injustamente esquecidos pelo Oscar) podem ser o que fica na memória do espectador, mas o carinho de Petit e do cineasta por Nova York também ficam evidentes no tom melancólico de seus últimos minutos. "A travessia" pode não ser um dos melhores filmes de Zemeckis, mas não faz feio em uma carreira vitoriosa e principalmente repleta de respeito a seu público.

quarta-feira

COMO NÃO PERDER ESSA MULHER

COMO NÃO PERDER ESSA MULHER (Don Jon, 2013, Voltage Pictures/HitRecord Films, 90min) Direção e roteiro: Joseph Gordon-Levitt. Fotografia: Thomas Kloss. Montagem: Lauren Zuckerman. Música: Nathan Johnson. Figurino: Leah Katznelson. Direção de arte/cenários: Meghan C. Rogers/Cindy Coburn. Produção executiva: Nicolas Chartier, Ryan Kavanaugh, Tucker Tooley. Produção: Ram Bergman. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Scarlett Johansson, Julianne Moore, Tony Danza, Glenne Headley, Brie Larson. Estreia: 18/01/13 (Festival de Sundance)

Em "Sintonia de amor", a personagem central, vivida por Meg Ryan, reclamava dos estragos causados pelo cinema romântico hollywoodiano, que faz com que as mulheres busquem histórias de amor ilusórias em detrimento da realidade. Clássico do cinema pejorativa e erroneamente chamado de "filme de mulherzinha", a obra de Nora Ephron encontra em "Como não perder essa mulher" sua versão masculina, guardadas as devidas proporções. Estreia como diretor do ator Joseph Gordon-Levitt, que também interpreta o papel central, o filme substitui os romances de plástico de Hollywood por filmes pornográficos, as mocinhas sonhadoras por um bartender hedonista e transmuta o santo graal dos protagonistas de um amor verdadeiro em uma satisfatória vida sexual.

Jon, o protagonista que Gordon-Levitt escreveu para Channing Tatum - que faz uma participação afetiva e bastante engraçada ao lado de Anne Hathaway - e depois pegou para si, é um jovem bartender que divide suas noites em um curso profissionalizante e noitadas em baladas que sistematicamente acabam em insatisfatórias relações sexuais. Conquistador inveterado, ele não hesita em reconhecer a si mesmo - e ao padre com que frequentemente se confessa - que prefere masturbações frequentes diante de filmes pornográficos do que sexo propriamente dito. Segundo sua concepção, as mulheres são sempre desapontamentos, por não realizarem na vida real o que os filmes adultos prometem em suas cenas pra lá de quentes. Seu vício em pornografia não se revela problemático, porém, até que ele conhece e cai de amores por Barbara (Scarlett Johansson, vivendo pela enésima vez a mulher sexy). Aparentemente um vulcão, Barbara se revela uma mulher extremamente conservadora, que mais uma vez frustra suas expectativas de orgias alucinantes. Surge então Esther (Julianne Moore), uma mulher mais velha, com uma trágica história de vida, que acaba lhe mostrando um outro caminho a seguir.


A ideia do roteiro de Gordon-Levitt é ótima, afinal de contas falta ao cinema hollywoodiano filmes com pontos de vista masculinos a respeito de relações amorosas. O problema é que falta a ele um pouco mais de profundidade, em especial na relação entre Jon e Esther, que poderia ter sido explorada com menos pressa - o que poderia inclusive ter dado à sempre ótima Julianne Moore maior oportunidade de brilhar. O jovem ator demonstra personalidade em sua direção, fazendo uso inteligente da edição e da trilha sonora e demonstrando bom senso estético - além de proporcionar à Glenne Headley ótimos diálogos na pele de sua mãe desesperada por uma nora e conseguir se dividir entre a direção e a protagonização com segurança de veterano: a transformação de seu Jon, que em mãos menos talentosas poderia soar patética, com ele não é apenas crível, mas também encantadora. Ajuda muito, é claro, que ele seja um ator carismático e bastante talentoso.

Dividindo sua carreira em produções independentes - como a deliciosa "(500) dias com ela" - e filmes de enorme visibilidade - "A origem" e "Batman, o Cavaleiro das Trevas ressurge" - Gordon-Levitt passou sem traumas do status de adolescente promissor a um dos mais requisitados jovens astros de Hollywood. Fugindo de um possível estigma de galã adolescente, ele passou a fazer escolhas ousadas - o polêmico "Mistérios da carne", de Gregg Araki, o mostra em um personagem do qual muitos colegas de geração fugiriam apavorados - até conquistar o respeito dos colegas e a admiração da plateia. Sua decisão em estrear como diretor, como mostra "Como não perder essa mulher" (um título nacional, diga-se de passagem, constrangedor) não foi apenas fruto de egocentrismo: seguro e dotado de ritmo, seu trabalho aponta para uma nova e auspiciosa carreira. Uma comédia romântica atípica, seu filme pode não agradar a todas as plateias - talvez o público feminino se sinta um tanto incomodado com os frequentes (mas contextualizados) frames de mulheres nuas e cenas pornográficas - mas é, sem dúvida, uma estreia digna de nota.

quinta-feira

BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE

BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE (The Dark Knight rises, 2012, Warner Bros/Legendary Pictures, 165min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan, estória de Christopher Nolan, David S. Goyer, personagens criados por Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming, Craciunica Roberto. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Kevin Kavanaugh. Produção executiva: Kevin De La Noy, Benjamin Melniker, Thomas Tull, Michael E. Uslan. Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco: Christian Bale, Anne Hathaway, Michael Caine, Joseph Gordon-Levitt, Tom Hardy, Marion Cottilard, Gary Oldman, Morgan Freeman, Matthew Modine, Cillian Murphy, Ben Mendelsohn, Juno Temple, Thomas Lennon, Liam Neeson. Estreia: 16/7/12

O que falta dizer sobre "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge" que ainda não foi dito, analisado, dissecado e elogiado desde sua estreia, a maior de 2012, com uma bilheteria arrasadora que confirmou de uma vez por todas a força do personagem e do talento de todos os envolvidos? O encerramento da trilogia dirigida por Christopher Nolan - que provou que entretenimento e inteligência podem conviver pacificamente em um blockbuster, haja visto também o sucesso merecido de "A origem", que chegou a concorrer ao Oscar de melhor filme - pode não ser tão impactante quanto o segundo capítulo da série (que, afinal de contas, contava com a atuação assombrosa de Heath Ledger) mas consegue ser empolgante, comovente e surpreendente, apesar de alguns pequenos defeitos. De quantos "filmes de verão", pouco afeitos a "detalhes" como roteiro e direção de atores se pode pode afirmar a mesma coisa?

A essa altura todo mundo sabe que a trama mantida em segredo por Nolan antes da estreia começa sete anos depois dos acontecimentos do segundo filme, mostrando Bruce Wayne (Christian Bale) isolado em sua mansão e a imagem de Batman manchada pela acusação da morte de Harvey Dent (Aaron Eckhart) - na verdade obra das armações do Coringa (Heath Ledger).  Batman e Wayne são obrigados a voltar à ação, no entanto, quando um mercenário chamado Bane (o impressionante Tom Hardy) passa a ameaçar Gotham City com a destruição em massa proposta por Ra's Al Ghul (Liam Neeson), mentor de ambos na Liga das Sombras. Junta-se à receita a charmosa ladra Selina Kyle (Anne Hathway na ingrata tarefa de ofuscar a Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer no filme comandado por Tim Burton em 1992), o jovem policial idealista Blake (Joseph Gordon-Levitt) e a milionária Miranda Tate (Marion Cotillard) - que ambiciona tornar-se sócia de Wayne em seus experimentos - e pronto: Nolan oferece à audiência cenas de ação de extrema competência, dramas humanos críveis e reviravoltas em número suficiente para que as quase três horas de projeção passem voando diante dos olhos do público.


Fugindo do limitativo nicho de "filmes de super-herói", a trilogia do Homem-morcego criada por Nolan tem uma consistência rara, mantendo um nível de qualidade que encanta tanto aos fãs de histórias em quadrinhos quanto àqueles interessados apenas em um bom filme de ação. Tudo tem espaço no roteiro do cineasta, que tem óbvio carinho pelas personagens e pelos atores que as interpretam (não é à toa que o "time Nolan" está todo aqui, de Bale, Michael Caine e Cillian Murphy aos novos integrantes da troupe, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt e Tom Hardy, saídos direto de "A origem"). A história que conta é mais importante para o homem que despontou para o grande público com o fantástico "Amnésia" do que efeitos desconcertantes de câmera e efeitos especiais de ponta (e mesmo assim ele proporciona à plateia bons momentos assim). E é um desafio a qualquer um não sair do cinema bastante satisfeito com as ideias do excelente roteiro e com o final emocionante, com direito até mesmo a uma pequena e feliz surpresa. Seguindo o caminho de costurar várias linhas narrativas simultâneas e com inúmeros personagens, que pode ser bastante perigoso - caso do terceiro "Homem-aranha", de Sam Raimi - quanto bem-sucedido - como aconteceu com a trilogia "O Senhor dos Anéis", de Peter Jackson - Nolan conta com uma edição de extrema competência, que consegue dar conta de tudo mesmo quando a aparência é de uma bagunça descontrolada. Realmente existe um acúmulo de personagens, mas Nolan mantém o pulso firme até o final - e ainda consegue chocar a audiência com uma das cenas mais impressionantes da trilogia (retirada diretamente dos quadrinhos).

Difícil falar de "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge", em especial depois que tudo foi dito. Mas algo precisa ser afirmado apesar de tudo: é absolutamente imperdível e satisfaz até ao mais exigente fã do personagem de Bob Kane. É um encerramento absolutamente digno e se Anne Hathway não rouba a coroa de Michelle Pfeiffer ao menos faz bonito em cena, com beleza, carisma e talento. Uma pena, no entanto, que a personagem de Marion Cottilard seja tão pouco aproveitada e que agora estejamos todos reféns de novas e temíveis adaptações do herói para o cinema. Obrigado, Nolan, por esses anos de entretenimento de primeira qualidade.

sexta-feira

MISTÉRIOS DA CARNE

MISTÉRIOS DA CARNE (Mysterious skin, 2004, Antidote Films/Desperate Pictures,105min) Direção: Gregg Araki. Roteiro: Gregg Araki, romance de Scott Heim. Fotografia: Steve Gainer. Montagem: Gregg Araki. Música: Harold Budd, Robin Guthrie. Figurino: Alix Hester. Direção de arte/cenários: Devorah Herbert/Erin K. Smith. Produção executiva: Wouter Barendrecht, Michael J. Werner. Produção: Gregg Araki, Mary Jane Skalski. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Elisabeth Shue, Brady Corbet, Bill Sage, Lisa Long, Chris Mulkey, David Lee Smith, Michelle Trachtenberg. Estreia: 03/9/04 (Festival de Veneza)

Falar sobre assuntos polêmicos como abuso sexual infantil e prostituição homossexual juvenil não é tarefa das mais fáceis e assustaria qualquer cineasta cioso dos riscos que isso pode trazer a uma carreira no conservador cinema norte-americano. Porém, se existe algo que o independente Gregg Araki sabe é desafiar as convenções morais com seus filmes, que frequentemente abordam temas que os grandes estúdios tentam evitar a todo custo, como triângulos amorosos desprovidos de culpa, uso farto de drogas, todas as modalidades de sexo e violência. Por isso, não é de surpreender que seu nome esteja por trás de "Mistérios da carne", uma trama forte e perturbadora sobre as consequências traumáticas do estupro na vida de dois adolescentes de uma pequena cidade do interior do Kansas. Baseado em romance de Scott Heim - ele mesmo habitante do local e que emprestou a seus protagonistas algumas características de sua própria juventude - e roteirizado por Araki, o filme apresenta duas narrativas paralelas que, a despeito de suas diferenças de tom, acabam por encontrar-se em um clímax coerente e melancólico, ainda que previsível desde seus primeiros momentos.

A história começa em 1991, quando o protagonista, Neil, aos oito anos de idade, é abusado sexualmente pelo treinador de seu time de baseball (Bill Sage)- aparentemente inofensivo e dedicado à profissão- e outro menino do time, Brian, é encontrado desacordado e com sangramento nasal pela família - o que o leva a crer que foi vítima de uma abdução extra-terrestre. Dez anos depois, Neil (na pele de Joseph Gordon-Levitt) ganha dinheiro fazendo programas com os homens casados de sua cidade, sem que tal atividade seja de conhecimento de sua mãe (Elisabeth Shue), tão carinhosa quanto desligada. Ciente da atração que exerce sobre os homens, o imberbe Neil os usa e despreza com a mesma intensidade, para preocupação de seu melhor amigo, Eric (Jeff Licon), que nem de longe desconfia dos acontecimentos da infância do rapaz. Quando Neil resolve ir para Nova York a exemplo de sua amiga Deborah (Michelle Trachtenberg), sua mãe é procurada por Brian (Brady Corbet): sofrendo de lapsos de memória que remetem a seus dias como criança, o jovem acredita que Neil é a chave para desvendar os fatos que lhe sumiram da mente. Primeiramente acreditando que tudo tem a ver com alienígenas - com o que é incentivado pela igualmente paranoica Avalyn Friesen (Mary Lynn Rajskub) - Brian nem de longe imagina tudo que o liga a Neil e seu passado.

Apesar do tema pesado e de nunca fugir de momentos que transitam entre o triste e o chocante - principalmente quando retrata o cotidiano de Neil em seus dias nova-iorquinos - "Mistérios da carne" tem a seu favor a sensibilidade de jamais utilizar-se deles com morbidez ou julgamentos morais. Mantendo-se sempre imparcial ao contar sua história, Araki contenta-se em mirar sua câmera para testemunhar momentos íntimos, sem fazer deles mais glamourosos ou tristes do que podem ser normalmente. Isso acontece, por exemplo, quando Neil encontra um cliente soropositivo que pede apenas que o toque (uma cena que equilibra sensacionalmente a melancolia e o grostesco) e quando ele acaba sendo vítima de uma violência inesperada que o tira do domínio da situação e o transforma em mais uma estatística (novamente tudo é filmado sem comentários excessivos de trilha sonora ou edição, o que acaba sublinhando a sensação de solidão e dor). Tais cenas contrastam com as polêmicas sequências que mostram (não explicitamente, é claro), o abuso sexual sofrido pelo rapaz na infância: corajosamente, o cineasta não descreve o ato como algo desagradável, mas sim como uma experiência aprazível ao menino, que sempre lembra dela envolta em uma chuva de jujubas a despeito das consequências de tal relação. Aliás, também é corajoso da parte do roteiro mostrar um Neil ainda criança tendo consciência de seus desejos homossexuais pelo namorado da mãe - o que Freud aplaudiria certamente pode chocar alguns espectadores, mas em nenhum momento isso é tratado com desrespeito ou como forma de capitalizar em cima de um assunto ainda tabu e controverso. Esse viés em narrar algo tão delicado é, provavelmente, o maior mérito do filme, que ainda conta com a presença já magnética de Joseph Gordon-Levitt em um papel difícil e desafiador.

Ainda sendo lembrado por sua participação na comédia romântica adolescente "10 coisas que eu odeio em você" - onde atuou ao lado de Heath Ledger - Gordon-Levitt arriscou a rejeição das fãs do filme ao apresentar um Neil arrogante, antipático e muitas vezes desagradável que carrega consigo uma carga emocional que nunca deixa transparecer por trás de suas atitudes egoístas e até preconceituosas. Seu poder em cena até mesmo acaba por eclipsar a atuação de seu jovem companheiro de cena, Brady Corbet, que, de posse de um personagem menos agressivo dramaticamente, surge em cena como o responsável por unir passado e presente, que se encontram como em uma tragédia grega - mas, coerente com o restante minimalista da narrativa de Araki, de forma bem menos melodramática do que se poderia esperar. Fugindo do previsível e do maniqueísmo, o diretor marca um gol de placa, perturba e, como se fosse pouco, atinge o espectador sem que para isso seja preciso espancá-lo visualmente. Um belo filme!

quinta-feira

NADA É PARA SEMPRE

NADA É PARA SEMPRE (A river runs through it, 1992, Allied Filmmakers/Wildwood Enterprises, 130min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Richard Friedenberg, estória de Norman MacLean. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Robert Estrin, Lynzee Klingman. Música: Mark Isham. Figurino: Kathy O'Rear. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Gretchen Rau. Produção executiva: Jake Eberts. Produção: Patrick Markey,Amalia Mato, Robert Redford. Elenco: Tom Skerrit, Brad Pitt, Craig Scheffer, Brenda Blethyn, Emily Lloyd, Joseph Gordon-Levitt. Estreia: 30/10/92

3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Fotografia


Há de se reconhecer que, vez ou outra, a Academia de Hollywood acerta em cheio em suas escolhas. Um perfeito exemplo dessa afirmação é o Oscar de melhor fotografia concedido a Philippe Rousselot na cerimônia de 1993: as belíssimas sequências captadas por ele para o filme "Nada é para sempre", são o que há de melhor no filme de Robert Redford, baseado na estória real do escritor Norman MacLean e na sua relação com a família e a natureza (mais especificamente a pesca). Tratando cada cena como se fosse um quadro, o diretor de fotografia francês - que já tinha no currículo uma indicação à estatueta por seu trabalho em "Esperança e glória" (87) - transforma as vastas paisagens de Montana em um personagem de crucial importância para a trama, ditando o ritmo da narrativa e emoldurando em deslumbrantes takes a bela e trágica história contada com delicadeza e poesia por um inspirado Redford - que conseguiu os direitos de filmagem por muito tempo cobiçados por gente como William Hurt.

Diretor bissexto - ele assinou apenas três filmes em doze anos - Robert Redford ganhou um Oscar já por sua estreia na função, com o dramático "Gente como a gente", de 1980, que, assim como "Nada é para sempre", tem um núcleo familiar como base para uma história que versa sobre amor, amizade, perdas e o duro aprendizado que vem com elas. Um cineasta arraigado aos valores mais tradicionais da sociedade americana - apesar de sua postura política liberal - Redford traduz, em seus filmes, uma visão poética e melancólica de seu país, seja através de um vilarejo lutando por seus direitos básicos - tema de "Rebelião em Milagro" (88) - ou de uma família desestruturada pelo suicídio de um adolescente incapaz de lidar com suas inseguranças frente a um futuro incerto. Em "Nada é para sempre", ele viaja até o inicio do século XX para vasculhar os preconceitos, a religiosidade e a estrutura social de uma pequena cidade americana que serve como microcosmo de um país em construção. E encontra uma poderosa história, que conta de maneira suave e caudalosa como um rio em toda a sua extensão.


O cerne de "Nada é para sempre" é a pesca, esporte praticado de forma quase sagrada pelos homens da família MacLean (sim, o sistema é patriarcal, onde à mãe, vivida por Brenda Blethyn, cabem apenas os afazeres domésticos e as eventuais visitas à Igreja presbiteriana local onde seu marido é o pastor). O chefe da casa - vivido com a medida certa de aspereza e delicadeza por Tom Skerrit - é o pastor da pequena localidade onde moram, e educa os dois filhos com rigidez, dentro das normas religiosas e morais com que também foi criado. A história começa realmente quando o mais velho dos irmãos, Norman (Craig Scheffer), retorna, depois de seis anos distante, à casa dos pais. Formado mas ainda indeciso em relação à seu futuro, ele encontra o caçula, Paul (Brad Pitt em seu primeiro papel de destaque depois do furor que causou em "Thelma & Louise", de 1991) respeitado como jornalista, mas metido em diversas encrencas relacionadas a jogo e bebidas. O reencontro dos irmãos - de personalidades distintas mas profundamente ligados um ao outro - também acontece quando Norman se apaixona por Jesse (Emily Lloyd), de convições religiosas diferentes às de sua família e Paul resolve desafiar a preconceituosa sociedade local envolvendo-se com uma bela mestiça indígena.

Como se pode perceber, a história é o que menos importa em "Nada é para sempre", uma vez que nada conta de diferente. O que faz a diferença no filme - e o que o torna tão fascinante - é a união de fatores que forma o conjunto. Além da espetacular fotografia e da trilha sonora sutil de Mark Isham (que substituiu outra, de autoria de Elmer Bernstein), o roteiro de Richard Friedenberg - indicado ao Oscar - mantém a poesia da prosa de Norman MacLean, tanto na narração em off quanto em vários diálogos, valorizados pelo elenco bem escalado. Apesar de Craig Scheffer ser o protagonista, Brad Pitt rouba todas as cenas com seu carisma jovem que, logo em seguida o tornaria o astro mais popular de Hollywood. Tom Skerrit e Brenda Blethyn emocionam sem fazer alarde e até mesmo um pequeno Joseph Gordon-Levitt, em sua estreia no cinema, dá as caras com o jovem Norman. Filmado com precisão, delicadeza e a dose certa de emoção - leia-se sem apelar para o sentimentalismo - "Nada é para sempre" é para ser degustado com calma, paciência e serenidade. Como uma boa pescaria.

terça-feira

50%

50% (50/50, 2011, Summit Entertainment, 100min) Direção: Jonathan Levine. Roteiro: Will Reiser. Fotografia: Terry Stacey. Montagem: Zene Baker. Música: Michael Giacchino. Figurino: Carla Hetland. Direção de arte/cenários: Annie Spitz/Shane Vieau. Produção executiva: Nathan Kahane, Will Reiser. Produção: Evan Goldberg, Ben Karlin, Seth Rogen. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Anna Kendrick, Anjelica Huston, Philip Baker Hall, Bryce Dallas Howard. Estreia: 12/9/11 (Festival de Toronto)

Passar por um câncer raro na coluna provavelmente não é exatamente uma das experiências mais agradáveis da vida, mas há quem consiga ver um lado bom até nisso. É o caso do roteirista Will Reiser, que utiliza suas lembranças da doença como matéria-prima de "50%", comédia dramática que arrancou elogios da crítica e até foi cotado para conquistar uma vaga entre os candidatos ao Oscar de roteiro original de 2011.  A maior qualidade do filme dirigido por Jonathan Levine? A forma franca e direta com que trata o tema, equilibrando com inteligência momentos de cortar o coração com um senso de humor que o afasta do dramalhão sentimentaloide.

Amparado pela bela atuação do cada vez melhor Joseph Gordon-Levitt - que substituiu James McAvoy dois dias antes do início das filmagens - o filme de Levine acompanha a trajetória do jornalista Adam Learner, de 27 anos, depois que ele descobre que tem um tipo raro de câncer (de origem genética) na coluna.  Atordoado com a notícia (como não poderia deixar de ser), ele conta com a ajuda do melhor amigo Kyle (Seth Rogen) para lidar com as consequências da doença. Entre sessões de terapia com a jovem médica Katherine (Anna Kendrick) e quimioterapia com o veterano paciente Alan (Philip Baker Hall), Adam precisa também superar a crise em seu relacionamento com a artista plástica Rachael (Bryce Dallas Howard) e recuperar sua relação com os pais, em especial a mãe superprotetora Diane (Anjelica Huston, dando olé em cada cena que aparece).


Realizado de forma independente com um orçamento irrisório de 8 milhões de dólares (que se transformaram em mais de 30 somente nos EUA), "50%" surpreende também pela forma não-romantizada com que trata a situação central da história, não derrapando na tentação de partir para clichês de autoajuda. Ainda que seja positivo, não esconde também o lado pesado da situação vivida pelo protagonista, interpretado com simpatia por Gordon-Levitt (indicado ao Golden Globe de melhor ator): para cada momento de humor (genuíno, inteligente e irônico) há uma cena capaz de emocionar (delicadamente, sem exageros), lembrando à audiência que, apesar das risadas, a história que está sendo contada não é um pastelão inconsequente.

Embora a opção do roteiro em não estigmatizar a doença através do humor possa ser considerada de mau-gosto por uma parcela mais conservadora do público, é inegável que a leveza com que Reiser revestiu sua triste (mas esperançosa) história é muito mais palatável à plateias contemporâneas do que o petardo emocional "Laços de ternura", citado nominalmente em um diálogo do filme. "50%" é muito melhor do que sua aparência de filme indie e metido a modernoso. Embalado por uma irresistível trilha sonora (que une Roy Orbison a Eddie Vedder) e interpretado por um elenco em dias inspirados (inclusive o bobalhão Seth Rogen, provando que por trás do comediante exagerado existe um ator de grande potencial), é uma das gratas surpresas da temporada, infelizmente lançada diretamente em DVD no Brasil (em mais uma prova da falta de visão das distribuidoras).

sexta-feira

A ORIGEM

A ORIGEM (Inception, 2010, Warner Bros, 148min) Direção e roteiro: Christopher Nolan. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Larry Dias, Doug Mowat. Produção executiva: Chris Brigham, Thomas Tull. Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas. Elenco: Leonardo DiCaprio, Marion Cottilard, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Michael Caine, Pete Postlewhaite, Tom Berenger, Cillian Murphy. Estreia: 08/7/10

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Fotografia, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais 

Ser sequestrado por um filme e levado para um mundo à parte, como se estivesse sendo hipnotizado é uma experiência das mais raras, especialmente em um panorama comercial como o de Hollywood, que insiste em empurrar uma dieta anêmica de bobagens para consumo rápido e esquecível. Por isso - além de suas qualidades intrínsecas, logicamente - foi um susto quando "A origem" chegou aos cinemas americanos e mundiais na metade de 2010. Dirigido por Christopher Nolan - que ressuscitou a franquia "Batman" de forma assombrosa em termos de bilheteria e inteligência - o filme estrelado por Leonardo DiCaprio e um elenco de sonhos é uma das mais impressionantes manifestações cinematográficas saídas de Hollywood desde sempre, capaz de dar um nó na cabeça até mesmo do mais perspicaz dos espectadores e surpreendê-los com um final não apenas emocionante, mas também coerente e de uma inteligência rara no cinema mainstream.

O próprio Nolan é o roteirista de "A origem" - e levando-se em conta que ele também criou "Amnésia" em 2001 e "O grande truque" em 2006, dá pra perceber que o sujeito tem fetiche em confundir a mente da plateia. Nesse seu mais ambicioso e arriscado filme ele criou um universo tão, mas tão surreal que só resta ao público embarcar sem cinto de segurança em uma trama fascinante que mistura cenas de ação inacreditáveis, uma história de amor realmente comovente e um clima abstrato de dar inveja a David Lynch - porém sem as bizarrices psicológicas do pai de Laura Palmer.


A história de "A origem" é difícil de resumir. Basicamente, pode-se dizer, sem estragar as surpresas do impecável roteiro, que DiCaprio (que não ajuda nem atrapalha) interpreta um profissional que vive de invadir os sonhos das pessoas para roubar-lhes os segredos mais íntimos. Impedido de entrar nos EUA devido a trágicos acontecimentos passados que envolvem sua esposa (a sempre bela e ótima atriz Marion Cottilard), ele cede à tentação de desafiar a si mesmo e ir além do corriqueiro, plantando na mente de um empresário ideias que favorecerão seu rival profissional. Contando com a ajuda de uma equipe talentosa e bem treinada, ele entra no perigoso terreno dos sonhos dentro dos sonhos.

Mesmo com toda a complexidade do roteiro e com a sua acertada opção em não fazer concessões ao mais fácil - o que em tese poderia afastar o público médio das salas de exibição - "A origem" surpreendeu com uma bilheteria de quase 300 milhões de dólares somente no mercado doméstico, o que prova que às vezes a plateia sabe escolher seus programas. Sua excelência também refletiu-se junto à Academia, que lhe indicou a oito estatuetas do Oscar, inclusive melhor filme do ano - inexplicavelmente deixou Nolan de fora na categoria de diretor e Lee Smith  na de edição. Porém, mostrando o quão obtusos seus votantes podem ser, o prêmio ficou com o intragável "O discurso do rei" - que em poucos anos será lembrado apenas como o amontoado de clichês que tirou o Oscar de "A origem" e "A rede social".

Sim, "A origem" é complexo. Sim, é uma viagem total. Sim, é necessária uma atenção total. Mas vale a pena cada minuto. É também criativo, diferente, empolgante. E é sem dúvida o melhor filme de 2010.

(500) DIAS COM ELA

(500) DIAS COM ELA ((500) days of Summer, 2009, Fox Searchlight Pictures, 95min) Direção: Marc Webb. Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Alan Edward Bell. Música: Mychael Danna, Rob Simonsen. Figurino: Hope Hanafin. Direção de arte/cenários: Laura Fox/Jennifer Lukehart. Produção: Mason Novick, Jessica Tuchinsky, Mark Waters, Steven J. Wolfe. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Geoffrey Arend, Chloe Grace-Moretz, Matthew Gray Gubler. Estreia: 17/01/09 (Festival de Sundance)

Normalmente o público sabe o que esperar de uma comédia romântica: um casal se conhece, se apaixona e depois de inúmeros obstáculos que encontram no caminho, ou vivem felizes para sempre ou são separados definitivamente, para alegria ou lágrimas dos fãs do gênero. Quando um filme tem a ideia de desconstruir esse paradigma tão bem-sucedido (ao menos em termos de longevidade) tudo pode acontecer, desde um silêncio avassalador quanto um louvor unânime por parte da crítica e do público. "(500) dias com ela", a divertida história de amor e separação entre Tom e Summer encaixa-se na segunda opção. Estreando no Festival de Sundance de 2009, o filme de Marc Webb imediatamente conquistou a plateia e encantou a imprensa com seu equilíbrio perfeito entre romance e comédia, com seu realismo enfeitado com um visual moderno e com sua dupla de atores centrais - que saíram imediatamente do circuito independente para se tornarem respeitados e conhecidos além dos festivais de cinema.

Conhecido principalmente por ter feito parte do elenco de "10 coisas que eu odeio em você" - ao lado do amigo Heath Ledger - Joseph Gordon-Levitt pavimentou seu caminho rumo às superproduções hollywoodianas na pele do romântico, sensível e idealista Tom, um escritor de cartões comemorativos que cai de amores pela nova colega de trabalho, a realista, independente e decidida Summer (Zooey Deschanel). Com ideias bastante diferentes a respeito de uma relação amorosa, eles acabam se envolvendo, mas logicamente as coisas começam a complicar conforme o tempo passa e eles percebem que tem intenções distintas em relação ao futuro. Contando a turbulenta relação fora de ordem cronológica - o que permite ao espectador substituir o "o que irá acontecer?" pelo "como aconteceu?" - o roteiro de Michael H. Weber e Scott Neustadter oferece mais do que simplesmente uma história com começo, meio e fim bem definidos, preferindo, ao contrário, embaralhar suas cartas para analisar (não sem um senso de humor discreto e altas doses de melancolia) os altos e baixos de um relacionamento, por mais unilateral que ele seja.


Filha do diretor de fotografia Caleb Deschanel e parte do duo musical She & Him, Zooey Deschanel encarna de forma perfeita todas as nuances de Summer, com seu visual etéreo, seu gosto musical fora do comum e suas ideias particulares a respeito das relações amorosas. Mesmo tendo em mãos um papel que pode facilmente ser alvo de críticas pesadas - afinal de contas, é difícil não ver Tom como uma vítima de sua insensibilidade, ainda que isso só possa ser depreendido por espectadores propensos ao maniqueísmo - a bela atriz construiu uma personagem que tanto encanta quanto repele, de acordo com as atitudes mostradas no desenrolar do filme e pela forma como elas são interpretadas pelo apaixonado Tom. Salpicando sua obra com uma vastidão de detalhes que formam um doloroso quebra-cabeças em seu final, Marc Webb - que viu seu talento reconhecido com o convite de dirigir "O espetacular Homem-aranha" - faz rir e emociona ao imprimir um visual que flerta com o moderno e acena para o clássico: é especialmente fascinante a sequência onde Tom, deprimido pelo fim da relação, assiste a si mesmo em filmes ao estilo do sueco Ingmar Bergman e as demais referências culturais (Smiths, Sid Vicious) nunca soam deslocadas, graças ao roteiro esperto e à edição ágil.

Pontuado por uma trilha sonora das mais agradáveis, "(500) dias com ela" é um filme capaz de dividir opiniões. Os fãs das tradicionais comédias românticas podem sentir-se desconfortáveis pelo tom de realismo da história e aqueles que esperam mais do mesmo provavelmente não irão aprovar as inovações narrativas. Mas aqueles que se despirem de expectativas outras que não assistir a um filme criativo e inteligente provavelmente acabarão a sessão encantados e apaixonados. Se não por Summer, ao menos pelo filme.

10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ

10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ (10 things I hate about you, 1999, Touchstone Pictures, 97min) Direção: Gil Junger. Roteiro: Karen McCullah Lutz, Kirsten Smith, peça teatral "A megera domada", de William Shakespeare. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: O. Nicholas Brown. Música: Richard Gibbs. Figurino: Kimberly A. Tillman. Direção de arte/cenários: Carol Winstead Wood/Charles Graffeo. Produção executiva: Jeffrey Chernov, Seth Jaret. Produção: Andrew Lazar. Elenco: Heath Ledger, Julia Stiles, Joseph Gordon-Levitt, Larisa Oleynik, David Krumholtz, Andrew Keegan, Allison Janney. Estreia: 31/3/99

A primeira vez em que o ator australiano Heath Ledger chamou a atenção dos frequentadores de cinema foi na pele de Patrick Verona, o rebelde com cara de mau de "10 coisas que eu odeio em você", uma despretensiosa comédia romântica inspirada em "A megera domada", de Shakespeare. Antes mesmo de encantar a plateia com seu Ennis Del Mar de "O segredo de Brokeback Mountain", chocar o mundo com sua morte precoce ou ser um dos raros atores a levar um Oscar póstumo - por sua brilhante atuação em "Batman, o Cavaleiro das Trevas", ele já demonstrava que, por trás de um adolescente enfurecido, havia um ator de alto gabarito. Não é por morbidez de espécie alguma, mas é Ledger a principal atração do filme de Gil Junger, que, no saldo final, não vai muito além das comédias juvenis que volta e meia fabricam novos (e efêmeros) ídolos.

O jovem Cameron James (Joseph Gordon-Levitt, uma década antes de ser reconhecido por "(500) dias com ela") chega à Escola Pádua e logo de cara se apaixona pela bela e quase fútil Bianca Stratford (Larisa Oleynik). Seus planos de conquistá-la caem por terra, no entanto, quando seu cicerone na escola, Michael (David Krumholtz) deixa bem claro que ela é um amor impossível. Além de cobiçada por metade dos colegas, ela é a irmã caçula da detestada Kat (Julia Stiles), uma garota mal-humorada e briguenta que desperta raiva e desprezo de todos. Ao saber que Bianca só poderá sair com rapazes quando sua irmã também o fizer, Cameron tem a brilhante ideia de contratar alguém para o sacrifício. O escolhido é Patrick Verona (Heath Ledger), que, segundo lendas que o desenham como praticamente um marginal, é a pessoa mais apropriada para lidar com a jovem megera. Precisando de dinheiro, Patrick aceita a proposta e passa a assediar Kat, que logo cede a seus encantos grosseiros. Quando eles se descobrem apaixonados, porém, a farsa ameaça vir à tona.



O que diferencia "10 coisas que eu odeio em você" de seus congêneres é a boa vontade do roteiro em homenagear a obra de William Shakespeare (sempre uma homenagem justa). A base da trama é, logicamente, "A megera domada", mas encontra-se ecos de "Romeu e Julieta", "Hamlet" e alguns sonetos, além de referências ao local de nascimento do bardo, através do sobrenome - Stratford - da protagonista. Também é bastante divertido o romance entre Mandella (Susan May Pratt), a melhor amiga de Kat, com o atrapalhado Michael (David Krumholtz), que utiliza da paixão da menina pelo dramaturgo inglês para seduzí-la. Ao contrário de muitas comédias para adolescentes, no filme de Junger os coadjuvantes também tem função importante na narrativa, não servindo apenas de escada para piadas sem graça. Aqui, o humor é um nível acima do corriqueiro, ainda que isso não signifique que seja brilhante ou imperdível - e em alguns momentos emperra na nulidade dramática de sua atriz central.

Enquanto Heath Ledger - que bateu Ashton Kutscher e Josh Hartnett na disputa pelo papel principal - seduz a audiência com seu rude Patrick Verona, sua companheira de cena nunca ultrapassa o comum. Julia Stiles não é particularmente bonita nem tampouco é boa atriz. Seu desempenho chega a atrapalhar o resultado final do filme, que fica capenga em algumas cenas cruciais - em especial no clímax que justifica o título. Ao lado de gente talentosa como Ledger e Gordon-Levitt, a jovem que seria figurinha carimbada nas comédias românticas do final dos anos 90 mostra toda as suas deficiências. Porém, se for levado em consideração que analisar talento dramático é a última coisa que o público-alvo do filme pretende, "10 coisas que eu odeio em você" funciona muito bem. É um dos melhores produtos direcionados ao público jovem de sua época.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...