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domingo

FERIADOS EM FAMÍLIA

FERIADOS EM FAMÍLIA (Home for the holidays, 1995, Polygram Filmed Entertainment/Paramount Pictures, 103min) Direção: Jodie Foster. Roteiro: W. D. Richter, conto de Chris Radant. Fotografia: Lajos Koltai. Montagem: Lynzee Klingman. Música: Mark Isham. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Barbara Drake. Produção executiva: Stuart Kleinman. Produção: Jodie Foster, Peggy Rasjki. Elenco: Holly Hunter, Robert Downey Jr,. Anne Bancroft, Charles Durning, Dylan McDermott, Geraldine Chaplin, Steve Guttenberg, Cynthia Stevenson, David Straithairn, Claire Danes. Estreia: 03/11/95

Em sua segunda incursão como diretora, Jodie Foster não quis afastar-se muito da temática de sua estreia, o drama doméstico "Mentes que brilham". "Feriados em família", uma crônica agridoce sobre as difíceis porém indeléveis relações entre pais, filhos e irmãos mostra que a atriz/diretora/produtora amadureceu artisticamente ainda mais nos quatro anos que separam seus dois trabalhos, mas esbarra em uma certa frieza que contrasta com o calor humano demonstrado em seu primeiro filme. Equilibrando um senso de humor amargo com um elenco de grandes atores, ela constrói um retrato sem exageros de um núcleo familiar cuja união está nas diferenças e, apesar da irregularidade, comprova que sua transição para o lado de trás das câmeras não foi apenas um capricho vaidoso.

Baseado em um conto de Chris Radant, "Feriados em família" se passa no mais tradicional feriado norte-americano, o Dia de Ação de Graças, quando - ao menos segundo o cinema hollywoodiano - todas as diferenças acumuladas durante o ano todo são exorcizadas em volta da farta mesa de jantar. E para a protagonista Claudia Larson (Holly Hunter) a coisa não será nada fácil: além de encarar as eternas discussões familiares, ela está passando por uma das piores crises da sua vida. Não só perdeu o emprego e saiu dele trocando um inesperado beijo com seu sexagenário ex-patrão como acaba de receber da única filha, a adolescente Kitt (Claire Danes), a notícia de que ela está decidida a perder a virgindade com o namoradinho. Chegando na pequena cidade onde moram seus pais, ela precisa enfrentar a insistência da mãe, Adele (Anne Bancroft), de que se entenda com um amigo de infância apaixonado por ela, Russell (David Straithairn) e voltar a ser tratada como adolescente pelo pai, Henry (Charles Durning). Sua pressão só diminui com a chegada do irmão caçula, Tommy (Robert Downey Jr.), homossexual assumido que traz à tiracolo um amigo, Leo Fish (Dylan McDermot), por quem ela logicamente sente-se atraída.


Não bastasse tudo isso, a reunião familiar fica completa quando entra em cena Glady (Geraldine Chaplin) - que mantém escondido um segredo há décadas e não se importa em revelá-lo à hora da refeição - e a terceira filha de Adele e Henry, a reprimida Joanne (Cynthia Stevenson), que se orgulha de ter uma família sólida ao lado do marido Walter (Steve Guttenberg) e mantém uma relação de desprezo com a vida sexual do irmão. A noite torna-se cada vez mais tumultuada quando as diferenças passam a ser resolvidas da pior maneira possível - o que inclui até um inesperado banho de recheio de peru. Nesse meio tempo, Claudia não consegue evitar a aproximação com Leo - a quem julga ser o novo parceiro do irmão, que também tem uma revelação a fazer a todos no final do feriado.

Ao contrário do que fez em "Mentes que brilham", Jodie Foster não busca a emoção da plateia com "Feriados em família". Sua opção pelo humor - sutil, quase imperceptível em sua discrição - mostra um distanciamento bastante saudável em relação às complicadas teias familiares descritas no roteiro, que vai tornando-se mais interessante à medida em que a trama realmente começa a mostrar seus desdobramentos e os personagens vão se despindo de suas cascas e mostrando suas dores e delícias. São nesses momentos, em que a individualidade de cada um vem à tona, que o filme mostra a que veio e Foster deixa claro seu maior talento como cineasta: dirigir atores. Sendo um drama centrado em personagens - mais do que em acontecimentos - "Feriados em família" depende quase que exclusivamente do elenco e sua escolha não poderia ter sido mais feliz: não há um único elo fraco entre todos os atores que, cada um à sua maneira, transmite toda a gama de sentimentos necessários para manter aceso o interesse da plateia.

Holly Hunter e Anne Bancroft - ambas premiadas com o Oscar por trabalhos anteriores e atrizes consagradas - roubam a cena sem precisar muito esforço, enquanto Robert Downey Jr. (que fez o filme inteiro à base de heroína, para tristeza de Foster) comprova que sempre foi um ator de imenso talento, felizmente reconhecido e recuperado a tempo de tornar-se popular. E não deixa de ser delicioso ver em cena uma atriz como Geraldine Chaplin, perfeita em seu timing de tia maluca que é bem menos demente do que todos pensavam. É ela, junto com todos os atores que transformam a sensação de assistir-se a "Feriados em família" em uma noite de (bom) teatro.

quinta-feira

COLCHA DE RETALHOS

COLCHA DE RETALHOS (How to make an american quilt, 1995, Amblin Entertainment/Universal Pictures, 109min) Direção: Jocelyn Moorhouse. Roteiro: Jane Anderson, romance de Whitney Otto. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Jill Bilcock. Música: Thomas Newman. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Marvin March. Produção executiva: Laurie MacDonald, Deborah Jelin Newmyer, Walter F. Parkes. Produção: Sarah Pilsbury, Midge Sanford. Elenco: Winona Ryder, Anne Bancroft, Ellen Burstyn, Dermot Mulroney, Kate Nelligan, Alfre Woodard, Claire Danes, Lois Smith, Jean Simmons, Kate Capshaw, Adam Baldwin, Maya Angelou, Dennis Arnt, Rip Torn, Johnathon Schaech, Samantha Mathis, Loren Dean, Melinda Dillon, Richard Jenkins, Jared Leto. Estreia: 06/10/95

Se é que existe um subgênero cinematográfico que se pode chamar "filme de mulher", o drama romântico "Colcha de retalhos" é um perfeito exemplar dele. Dirigido pela australiana Jocelyn Moorhouse com base no romance de Whitney Otto, o filme lembra a estrutura do belo "O clube da felicidade e da sorte", substituindo as gerações de nipo-americanas do filme de Wayne Wang por um grupo de amigas de meia-idade que se utilizam de suas experiências de vida para dar rumo à confusa neta de uma delas, que não se sente preparada para assumir o compromisso de um casamento - ao mesmo tempo em que termina uma tese para a faculdade. Com um invejável elenco feminino e dotado de sensibilidade e delicadeza, o filme de Moorhouse pode não ter feito muito barulho em seu lançamento, mas dentro do que se propõe não deixa de ser um entretenimento agradável, apesar de ser prejudicado por sua estrutura frágil e um tanto previsível.

Finn Todd (Winona Ryder, linda e disfarçando seus defeitos como atriz com carisma e simpatia) é uma jovem de 26 anos que acaba de ser pedida em casamento por seu namorado, o arquiteto Sam (Dermot Mulroney). Com medo das responsabilidades que vem junto com o compromisso, ela pede a ele um tempo e viaja para a fazenda de sua avó, Hy (Ellen Burstyn). Lá, ela espera concluir sua tese de mestrado, enquanto decide os rumos de sua vida. Suas dúvidas aumentam quando ela conhece o sedutor Leon (Johnathon Schaech), que balança seus alicerces com seu ar romântico que contrasta com a praticidade de Sam. No decorrer do verão, Finn - que tem como espelho de relacionamento o casamento frustrado dos pais - passa a conhecer as diversas histórias que circundam as amigas de sua avó e da irmã dela, Glady Joe (Anne Bancroft), que se reunem diariamente para confeccionar uma colcha de retalhos: cada uma delas, incluindo suas familiares, tem dramas e tragédias pessoais em seu passado, que ajudarão a jovem a decidir seu destino.


Apesar de ser a espinha dorsal do filme, a hesitação de Finn em entregar-se a uma vida adulta romanticamente estável é a parte menos interessante do trabalho de Moorhouse, talvez por não ser suficientemente explorada psicologicamente - a protagonista parece mais uma jovem mimada do que uma mulher realmente em busca de estabilidade emocional, apesar dos esforços de Winona Ryder, uma atriz limitada mas aqui razoavelmente convincente. São as tramas paralelas que a envolvem que fazem valer a pena assistir-se a "Colcha de retalhos", principalmente porque sempre é um prazer testemunhar os shows de interpretação de gente como Anne Bancroft e Ellen Burstyn, que, na pele de duas irmãs com um passado traumático, roubam sem muito esforço cada cena em que aparecem. O elenco veterano, aliás, está extremamente à vontade, provando à Hollywood que, se bons papéis para atrizes maduras são raros, não o são intérpretes de talento e carisma. Uma pena, porém, que tais atrizes - Lois Smith, Kate Nelligan, Melinda Dillon - tenham tão pouco tempo em cena.

No final das contas, "Colcha de retalhos" cumpre o que promete. É romântico, sincero, dramático sem exageros e bem interpretado. Não ousa nem surpreende, mas tampouco eram essas as intenções dos produtores e da diretora. Seu público-alvo certamente não tem do que se queixar. É um entretenimento simples e eficiente que tem, entre seus coadjuvantes juvenis, Claire Danes e Jared Leto em início de carreira. Talvez carregue no açúcar em alguns momentos, mas não tem contra-indicações.

sexta-feira

O HOMEM ELEFANTE

O HOMEM ELEFANTE (The elephant man, 1980, Brooksfilms, 124min) Direção: David Lynch. Roteiro: Christopher De Vore, Eric Bergren, David Lynch, livros "The elephant man and other reminiscences", de Frederick Treves e "The elephant man: a study in human dignity", de Ashley Montagu. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Anne V. Coates. Música: John Morris. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Bob Cartwright. Produção executiva: Stuart Cornfeld. Produção: Jonathan Sanger. Elenco: John Hurt, Anthony Hopkins, Anne Bancroft, John Gielgud, Wendy Hiller, Freddie Jones, Hannah Gordon. Estreia: 03/10/80

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David Lynch), Ator (John Hurt), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Quem conhece os trabalhos mais célebres de Mel Brooks - como as amalucadas comédias "O jovem Frankenstein" (74) e "Banzé no Oeste" (74) - talvez fique estarrecido ao final de uma sessão de "O homem elefante". O humor característico do diretor inexiste completamente na recriação cinematográfica da história de Joseph Carey Merrick, jovem inglês que, devido a deformidades de nascença, foi tratado como aberração de circo na Londres do século XIX, até ser resgatado do sofrimento por um médico interessado em sua doença. Ao produzir o segundo filme do diretor David Lynch - depois do cultuado mas pouco visto "Eraserhead" (77) - Brooks chegou a tirar seus nomes dos créditos, temeroso de que o público julgasse que a trama seguisse seu estilo cômico. O resultado é um fenomenal e arrebatador drama de época capaz de emocionar sem, no entanto, apelar para o sentimentalismo barato.

Filmado em deslumbrante preto-e-branco pelo veterano Freddie Francis - retornando ao cinema depois de 16 anos afastado - "O homem elefante" tem seu roteiro inspirado principalmente nas memórias do Dr. Frederick Treves (um Anthony Hopkins uma década antes do triunfo de "O silêncio dos inocentes"), o responsável por tirar Merrick de um destino cruel como atração de um show de aberrações e levá-lo para um hospital público de Londres dirigido pelo rígido mas sensível  Dr. Carr Gomm (John Gielgud). Apesar disso - e de também ter contado com outros escritos a respeito do protagonista - o script não se furta a fazer alterações na história real, para fins dramáticos. Isso não diminui, no entanto, sua força excepcional como arte cinematográfica, que mostra o talento que David Lynch amadureceria posteriormente a ponto de ganhar uma Palma de Ouro em Cannes por "Coração selvagem", em 1990. Trabalhando pela primeira vez em um filme com pretensões comerciais (apesar do tema e do enfoque), Lynch viu sua obra concorrer merecidamente a oito Oscar. Infelizmente, a Academia preferiu a versão suburbana do drama familiar de "Gente como a gente", de Robert Redford - e se for levado em consideração que outro concorrente na principal categoria era "Touro indomável", de Martin Scorsese, percebe-se que erros no resultado final do Oscar não são novidade.


Trabalhando debaixo de uma maquiagem pesadíssima que demandava de sete a horas para aplicar - e que causou polêmica por não ter sido indicada ao Oscar, que ainda não tinha uma categoria fixa para a categoria - o ator John Hurt fez de seu desafio uma grande chance para brilhar. Como uma espécie de monstro de Frankenstein - um ser que esconde um enorme coração sob um visual aterrorizante - seu John Merrick (o nome real já estava modificado nos escritos do dr. Trevers) conquista o espectador sem fazer esforços, vítima que é de constantes crueldades, seja de seu "dono" Bytes (Freddie Jones), do público que paga para testemunhar suas deformidades ou do funcionário canalha do hospital (Michael Elphick) que faz excursões da boemia londrina a seu quarto com o objetivo de ganhar trocados (e de quebra humilhá-lo). O que mais emociona o público, porém, não é tanto seu sofrimento, mas sim seus momentos de felicidade. É difícil conter as lágrimas, por exemplo, na cena em que Merrick acompanha a atriz (Anne Bancroft) em um trecho de "Romeu e Julieta" ou quando ele encontra a esposa de Trevers pela primeira vez - "Desculpe, mas eu não estou acostumado com tanta gentileza vinda de mulheres tão bonitas." Também é arrepiante a sequência que mostra o primeiro encontro entre Merrick e seu futuro médico (e amigo): a lágrima solitária de Anthony Hopkins ao encarar algo jamais visto em sua profissão diz mais do que páginas e páginas de diálogos.

"O homem elefante" é uma pequena obra-prima. Visualmente deslumbrante, interpretada com sentimento e dirigida com inteligência, a história de John Merrick (ou Joseph, se for considerado seu real nome) é daquelas de apertar o coração e ficar na memória por um bom tempo. Mais do que isso, Lynch apresenta em seu trabalho um otimismo inesperado, mostrando como a bondade de poucas pessoas pode representar muito mais na vida de alguém do que a maldade de várias. A delicadeza ímpar de suas sequências finais comprova a afirmação, transformando o que poderia ser um desfecho catártico em uma poesia visual e delicada. Para quem duvida que Lynch é mais do que um cineasta esquisito, nada melhor do que "O homem elefante" para comprovar o contrário.

domingo

GRANDES ESPERANÇAS

GRANDES ESPERANÇAS (Great expectations, 1998, 20th Century Fox, 111min) Direção: Alfonso Cuarón. Roteiro: Mitch Glazer, romance de Charles Dickens. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Steven Weisberg. Música: Patrick Doyle. Figurino: Judianna Makowsky. Direção de arte/cenários: Tony Burrough/Susan Bode. Produção executiva: Deborah Lee. Produção: Art Linson. Elenco: Ethan Hawke, Gwyneth Paltrow, Anne Bancroft, Robert De Niro, Hank Azaria, Chris Cooper, Kim Dickens. Estreia: 30/01/98

"Não vou contar a história como aconteceu. Vou contar a história como me lembro dela." Com essa informação essencial, o jovem Finnegan Bell (Ethan Hawke) começa a narrar seu romance com a bela e inacessível Estella (Gwyneth Paltrow) na versão anos 90 do clássico "Grandes esperanças", de Charles Dickens. Ao deixar o espectador ciente de que é sob seu ponto de vista que a trama se desenrolará, Finn promete, subliminarmente, que lhe dará um visual exuberante, digno do artista plástico que ele é. Com uma fotografia inacreditável do mexicano Emmanuel Lubezki - que valoriza o verde e muitas silhuetas - o filme de Alfonso Cuarón conquista primeiramente pela visão. Aos poucos, pela audição (graças à belíssima trilha sonora de Patrick Doyle). E quando o público percebe, está envolto também pelo coração. Mesmo que tenha muito pouco a ver com o original de Dickens - filmado em 1946 pelo inglês David Lean - "Grandes esperanças" é um lindo espetáculo romântico, valorizado pelo extremo cuidado visual.

Trazendo o original para a época atual - quando na verdade se passa no século XIX - a adaptação de Mitch Glazer (incompleta quando as filmagens começaram, para desgosto de Cuarón) difere e muito do original de Dickens, que se concentra na ascensão social de seu protagonista (que se chama Pip e não Finn), que não é um artista plástico. Modificando também os nomes das demais personagens, Glazer distancia-se do livro de Dickens quase a ponto de torná-lo irreconhecível. Os puristas, logicamente, detestaram. Quem nunca teve contato com o romance, porém, se encantou com uma história de amor que, se vendida sem nenhum vínculo literário poderia ter sido ainda mais bem-sucedida. A versão de Alfonso Cuarón - que foi revelado ao mundo com o excelente "Como água para chocolate" - reveste o erotismo pulsante do filme com uma sofisticação e uma elegância de encher os olhos. E ninguém melhor para encarnar essa sofisticação e essa elegância toda do que a deslumbrante Gwyneth Paltrow.


Ainda conhecida apenas como a noiva de Brad Pitt, apesar de seu ótimo trabalho em "Emma", Paltrow estava em vias de tornar-se uma atriz respeitada, dona de um controverso Oscar por "Shakespeare apaixonado" quando encarnou a bela, loira, chique e fria Estella. Sua beleza glacial e distante não apenas seduz Finn, mas a audiência masculina em peso (ao menos aqueles que consideram mais sexy uma beleza delicada do que a vulgaridade de mulheres-frutas). Estonteante, Gwyneth representa um mundo de glamour e luxo para o protagonista, um mundo de promessas fascinantes e possibilidades infinitas. Não é à toa que Finn se deixa levar pela ambição para conquistá-la.
 
Quando o filme começa, Finn é apenas um menino, criado pela irmã (Kim Dickens) e Joe (Chris Cooper), o namorado dela, que trabalha como pescador. Durante um passeio de barco para desenhar, Finn conhece Arthur Lustig (Robert DeNiro), um foragido da cadeia que exige que ele lhe ajude em sua fuga. Logo em seguida, o garoto vai com Joe para a famosa Mansão Paradiso Perduto, refúgio de uma enclausurada milionária que adentrou no mundo da loucura depois de ser abandonada no altar. É através da Sra. Dinsmoor (Anne Bancroft) que Finn conhece sua sobrinha, a bela Estella, por quem se apaixona à primeira vista. Os anos passam com o rapaz sempre fascinado com a beleza e a frieza da jovem, que viaja para morar em Nova York depois de acenar-lhe com uma possibilidade de amor. Sentindo-se inferiorizado por ser pobre e mal-nascido, Finn tem a chance de sua vida quando recebe a ajuda de um misterioso benfeitor, que lhe proporciona uma exposição em Manhattan e dinheiro suficiente para que ele se torne um bem-sucedido artista plástico. Famoso, reconhecido e rico, Finn tem, então, a possibilidade de conquistar o amor de sua vida.
 
Tudo bem que o roteiro de "Grandes esperanças" não é exatamente um primor e que seus protagonistas soem um tanto rasos. Tudo bem que quase nada sobre do romance que lhe deu origem. E tudo bem que a obsessão de Finn por sua amada Estella chegue às raias do exagero. Mas sobram, no filme de Cuarón, o que falta em muitas histórias de amor que chegam às telas: uma emoção transbordante e uma sensualidade à flor da pele. Juntos em cena, Gwyneth Paltrow e Ethan Hawke tem uma química sexual que se revela em pequenos olhares e pequenos toques. A cena em que Finn pinta retratos de uma Estella completamente nua ao som da bela "Like a friend", da banda Pulp, é digna de figurar em qualquer antologia de momentos eróticos do cinema. E eles nem precisam se tocar para isso...
 
E se Hawke e Paltrow se seguram muito bem como o casal central, é preciso também aplaudir o elenco coadjuvante, composto por veteranos que mostram em cada cena os motivos pelos quais são respeitados pela crítica e pelo público. Robert DeNiro equilibra bem os elementos repulsivos e generosos de seu Arthur Lustig, uma personagem crucial para a história. Chris Cooper quase rouba o show como o humilde Joe, em especial em seu reencontro com Finn, na vernissage do rapaz. E Anne Bancroft tem uma corajosa atuação, despindo-se de qualquer vaidade na pele da devastada Sra. Dinsmoor, em algumas das cenas mais comoventes do filme. Unidos à trilha sonora espetacular de Patrick Doyle e à beleza pictória de sua deslumbrante fotografia, eles fazem de "Grandes esperanças" uma bela história de amor, apesar do final um tanto abrupto.
 
Pode não ser uma unanimidade entre a crítica - e até mesmo entre os fãs de cinema - mas "Grandes esperanças" é um filme para ver e rever, sempre se deixando levar pelos sonhos românticos de Finnegan Bell.

sexta-feira

ATÉ O LIMITE DA HONRA

ATÉ O LIMITE DA HONRA (G.I. Jane, 1997, Hollywood Pictures/Caravan Pictures/First Independent Films, 125min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: David Twohy, Danielle Alexandra, história de Danielle Alexandra. Fotografia: Hugh Johnson. Montagem: Pietro Scalia. Música: Trevor Jones. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Cindy Carr. Produção executiva: Danielle Alexandra, Julie Bergman Sender, Chris Zarpas. Produção: Roger Birnbaum, Demi Moore, Ridley Scott, Suzanne Todd. Elenco: Demi Moore, Anne Bancroft, Viggo Mortensen, Jason Beghe, Daniel Von Bargen, Jim Caviezel. Estreia: 22/8/97

Mais do que as críticas à sua qualidade ou ao salário milionário de sua protagonista, "Até o limite da honra" ficou conhecido como "o filme em que Demi Moore raspou a cabeça". Vinda do fracasso absoluto de "Stritpease", uma pretensa comédia pela qual recebeu o estratosférico cachê de 12 milhões de dólares - o mais alto pago a uma atriz até então - Moore precisava urgentemente de um sucesso de bilheteria que a fizesse merecer o status de estrela que lhe escapava rapidamente das mãos. O projeto escolhido - e no qual ela assumiu também o papel de produtora - foi um filme onde ela poderia testar seu poder de atração junto ao público sem precisar tirar a roupa. Com um diretor de categoria como Ridley Scott no comando da brincadeira, era de se esperar que tudo desse muito certo. Mas não deu. Apesar de não ser o fiasco que muitos previam, "Até o limite da honra" ficou longe de ser o êxito que Demi necessitava e de certa forma abalou a carreira de Scott, cujo filme anterior, "Tormenta", também havia fracassado comercialmente.

Honestamente, não se pode dizer que "Até o limite da honra" seja um grande filme, assim como é injusto apedrejá-lo como muitos fizeram - e o Framboesa de Ouro de Pior Atriz para Demi Moore é mais implicância do que exatamente justiça. Seu problema maior é o excesso de clichês no qual ele se atola, sem que tenha o distanciamento crítico para ao menos não levar-se a sério. Não há nenhum senso de humor no roteiro feminista e seu ritmo sofre um sério abalo na segunda metade, precisamente quando tinha tudo para conquistar a plateia com cenas de ação que Scott sabe dirigir muito bem - como comprovou em filmes posteriores como "Gladiador" e "Falcão negro em perigo". Tudo é feito com grande competência, desde a fotografia inspirada de Hugh Johnson até a bela música de Trevor Jones, mas falta coração a "Até o limite da honra". Coração e paixão.


Demi Moore - bela como sempre e evitando o uso de dublês - vive Jordan O'Neil, uma especialista em topologia que é escolhida para ser a primeira mulher a enfrentar o treinamento mais radical dos fuzileiros americanos, do qual 60% dos inscritos desiste antes do final. Sua escolha é menos altruísta do que interesseira: quem está por trás de tudo é a senadora Lilian DeHaven (Anne Bancroft), uma raposa velha política que vê na mudança das atitudes da Marinha americana em relação às mulheres um benefício para sua própria carreira. Hostilizada pelos colegas de treinamento - que não sabem nem ao menos como lidar com sua presença entre eles - O'Neil aos poucos passa a ganhar o respeito e a admiração de todos, ao mostrar-se tão forte, corajosa e persistente quanto qualquer um. Sua trajetória, porém, fica ameaçada quando a própria senadora tenta puxar-lhe o tapete, lançando boatos sobre sua sexualidade.

A primeira parte de "Até o limite da honra" é a melhor. Apesar de usar e abusar de todos os clichês do gênero, o treinamento de Jordan e seus colegas consegue ser interessante, principalmente por contar com a atuação vigorosa de Viggo Mortensen como o comandante John Urgayle - que, honrando a tradição máxima do lugar-comum é um brucutu que recita T.E. Lawrence e se desmancha de admiração pela heroína nas cenas finais. Antes de sua consagração com a trilogia "O Senhor dos anéis", Mortensen já mostrava que tinha um talento incomum, conseguindo fazer o possível e o impossível com uma personagem unidimensional. Sua participação engrandece o filme, assim como o trabalho mais uma vez irrepreensível de Anne Bancroft, que rouba todas as (infelizmente poucas) cenas em que aparece. São eles que dão sustentação à Demi Moore, cuja protagonista, apesar de forte e determinada não é desenvolvida a contento pelo roteiro. Ainda assim, a então esposa de Bruce Willis merece elogios por sua dedicação e pela coragem de arriscar-se em um terreno dominado quase exclusivamente pelos homens.

Sem maiores expectativas pode-se gostar bastante de "Até o limite da honra" - que apresenta inclusive uma bela canção original interpretada pela banda The Pretenders em seus créditos finais. É um exemplar muito digno de seu gênero, ainda que fique muito aquém de tudo já realizado por Ridley Scott. E tem Demi Moore botando muito homem no chinelo, o que sempre é muito interessante...

domingo

MOMENTO DE DECISÃO


MOMENTO DE DECISÃO (The turning point, 1977, 20th Century Fox, 119min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Arthur Laurents. Fotografia: Robert Surtees. Montagem: William Reynolds. Figurino: Tony Faso, Albert Wolski. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. Casting: David Graham, Juliet Taylor. Produção executiva: Nora Kaye. Produção: Arthur Laurents, Herbert Ross. Elenco: Shirley MacLaine, Anne Bancroft, Tom Skerrit, Leslie Browne, Mikhail Baryshnikov, Martha Scott, Alexandra Danilova. Estreia: 14/11/77

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Herbert Ross), Atriz (Anne Bancroft, Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Mikhail Baryshnikov), Atriz Coadjuvante (Leslie Browne), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de arte, Som
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Herbert Ross)


No início de 1978, o cineasta americano Herbert Ross se viu em uma situação um tanto rara em seu meio, ainda que de certa forma bastante agradável. Seus dois trabalhos lançados no ano anterior concorriam ao Oscar de Melhor Filme, tornando-o rival dele mesmo. A comédia romântica "A garota do adeus" deu o prêmio de melhor ator a Richard Dreyfuss, enquanto sua maior aposta, o drama familiar "Momento de decisão" saiu da cerimônia de mãos abanando, apesar de suas generosas 11 indicações à estatueta. No entanto, sua fragorosa derrota - que faz dele, até hoje, empatado com "A cor púrpura", de Steven Spielberg, o maior perdedor da história do Oscar - no entanto, não espelha suas inúmeras qualidades. Tivesse tido mais sorte na noite que consagrou Woody Allen e seu "Noivo neurótico, noiva nervosa", o filme de Ross certamente estaria eternizado como um dos mais consistentes dramas sobre os bastidores do balé, mesmo que o utilize apenas como pano de fundo de uma história humana e envolvente.

Escrito por Arthur Laurents (o mesmo roteirista de "Nosso amor de ontem"), "Momento de decisão" conta a história de duas mulheres de mundos aparentemente diferentes mas que possuem dentro delas muito mais em comum do que aparentam. Shirley MacLaine (deixando de lado o frescor juvenil de filmes como "Se meu apartamento falasse") vive Deedee Rodgers, uma dona-de-casa que abandonou uma promissora carreira como bailarina profissional para dedicar-se à família. Ao lado do marido (Tom Skerrit), cuida de uma escola de dança, enquanto vê o tempo passar e os filhos - dois dos quais também nutrem a mesma paixão pelo balé - crescerem. Sua amiga de juventude, Emma Jacklin (Anne Bancroft, elegantíssima e a excelente atriz de sempre) é exatamente seu contrário. Ao abdicar da vida pessoal para cuidar da carreira, tornou-se uma admirada, famosa e invejada bailarina, protagonista dos maiores clássicos coreografados para os palcos. Quando as duas se reencontram, o conflito se instala logo que as doces lembranças começam a realmente soar como lembranças; Emilia (Leslie Browne) é aceita na companhia de Emma e resolve morar em Nova York. Temerosa com essa mudança tão radical na vida da filha, Deedee decide acompanhá-la, mas a proximidade com seu passado e com Emma a faz questionar suas escolhas, o que leva as duas a uma dura batalha emocional pelo amor e pela atenção da adolescente.


É notável a maneira com que Laurents consegue equilibrar os dois polos de seu roteiro sem torná-lo maniqueísta ou apelar para o dramalhão choroso. Suas duas protagonistas soam verdadeiras e honestas, sem o ranço dos melodramas familiares que poluem as telas de cinema em busca de premiações. Deedee é uma mulher realizada com sua vida familiar, mas que não consegue deixar de lado as dúvidas sobre a opção que fez para seu futuro, principalmente quando surge diante de seus olhos um dèja-vu de sua história, protagonizado por sua filha. Emma, por sua vez, atingiu o ápice de sua carreira, o máximo de sucesso que poderia almejar, mas esbarra no beco sem saída de um amanhã incerto quanto à dança e solitário quanto a relações familiares. Entre as duas, no epicentro do furacão, Emilia tenta seguir seu próprio caminho, que se complica quando ela se apaixona por Yuri (Mikhail Baryshnikov), um bailarino russo com quem divide os palcos e suas primeiras noites.

"Momento de decisão" tinha tudo para ser um daqueles filmes lacrimosos que testam a paciência do espectador. Mas Herbert Ross não foi indicado ao Oscar à toa. Contando com o estofo de suas grandes atrizes centrais (Audrey Hepburn chegou a cobiçar o papel que ficou com Anne Bancroft), ele criou uma história sobre sonhos destruídos, segundas chances e a força inquebrável da amizade sem abusar dos clichês que tinha à disposição. O clímax poderoso - que acontece logo depois dos belíssimos números musicais que contam inclusive com a participação da brasileira Marcia Haydée - apenas comprova a força de sua trama e de seu elenco. Elegante, sofisticado mas nunca chato ou aborrecido, é um filme que merece uma revisão, nem que seja para que seja feita justiça a sua dupla principal.

sexta-feira

A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM


A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (The graduate, 1967, Universal Pictures, 105min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Calder Willingham, Buck Henry, baseado no romance de Charles Webb. Fotografia: Robert Surtess. Montagem: Sam O'Steen. Música: Dave Grusin, canções de Paul Simon. Produção: Lawrence Turman. Elenco: Anne Bancroft, Dustin Hoffman, Katharine Ross, William Daniels, Elizabeth Wilson, Murray Hamilton, Brian Avery. Estreia: 21/12/67

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mike Nichols), Ator (Dustin Hoffman), Atriz (Anne Bancroft), Atriz Coadjuvante (Katharine Ross), Roteiro Adaptado, Fotografia
Vencedor do Oscar de Melhor Diretor (Mike Nichols)
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Diretor (Mike Nichols), Atriz Comédia/Musical (Anne Bancroft), Most Promising Newcomer Male (Dustin Hoffman), Most Promising Newcomer Female (Katharine Ross)


Não é difícil entender os motivos que levaram "A primeira noite de um homem" a tornar-se um dos filmes de maior sucesso de sua época e um dos mais influentes dramas geracionais de Hollywood. Quando o filme foi lançado, em 1967, a juventude americana encontrava-se em um estado que abandonava a letargia dos anos pós-guerra e começava a questionar seu país - envolvido em uma muito mal-explicada guerra no Vietnã - sua estrutura familiar e o estado social em que se encontravam - vale lembrar que Martin Luther King ainda vivia e liderava movimentos em prol dos direitos civis. Os jovens que estavam começando a entrar na faixa dos vinte anos sentiam-se sufocados pelas expectativas dos pais e perdidos quanto a um futuro que parecia cada vez mais incerto. Sufocado e perdido também estava Benjamin Braddock, o protagonista do livro de Carl Webb e do filme de Mike Nichols. Não tinha como não haver uma identificação imediata.

Ligeiramente diferente de sua versão literária - um pouco menos passiva - a personificação de Benjamin Braddock no filme de Nichols ainda assim mantém sua essência confusa e sem norte. Quando a história começa, o jovem Braddock (às vésperas de completar 21 anos) está de volta à casa dos pais, depois de formar-se na universidade. Sem saber o que fazer com seu futuro e nada sutilmente cobrado pela família e pelos amigos dela - um grupo de bem-sucedidos homens de negócios e mulheres que frequentam a alta sociedade - Benjamin fecha-se cada vez mais em si mesmo. Sua vida dá uma virada quando ele é seduzido pela Mrs. Robinson do título da canção de Paul Simon. Vivida magistralmente por Anne Bancroft, a sexy mulher mais velha, com idade para ser sua mãe lhe apresenta aos prazeres do sexo, que lhe foram negados por um casamento sem amor e uma maternidade indesejada. Absolutamente não-romântica, a experiente e prática esposa de um dos amigos de seu pai parece ser exatamente o que o jovem precisa em seus momentos de descoberta do mundo, mas acaba se tornando uma pedra em seu sapato quando ele conhece e se apaixona pela jovem Elaine (Katharine Ross em papel oferecido a Natalie Wood e para o qual foram testadas Candice Bergen e Sally Field). Doce e delicada, a bela jovem também se apaixona por ele, mas o romance esbarra em um grave problema: ela é filha da sedutora sra. Robinson.


Dustin Hoffman já tinha quase 30 anos de idade quando interpretou Benjamin Braddock, de apenas 21. Isso não o impediu, no entanto, de criar uma das personagens mais interessantes de sua carreira, um jovem inseguro e com uma dose de inocência e romantismo que ia de encontro à praticidade e o cinismo de sua amante. A atuação de Anne Bancroft é antológica, equilibrando genialmente a amargura de uma mulher cuja vida não seguiu o rumo sonhado com uma certa dose de egoísmo. A sra. Robinson não tem apenas ciúme da relação da filha com Benjamin e sim considera o rapaz indigno de ficar com ela. A complexidade da personagem encontra em Bancroft a atriz perfeita, o que não dá margem a qualquer dúvida sobre o acerto em sua escalação para o papel, uma vez que ela era apenas seis anos mais velha que Hoffman. É impossível imaginar alguém melhor, mais inteligente e mais sensível - e isso que inúmeras atrizes foram sondadas e/ou cotadas para vivê-la, nomes que iam de Jeanne Moreau e Ava Gardner até a Doris Day e Judy Garland. A química entre os dois protagonistas é preciosa e as cenas inicias de sua conquista são de figurar em qualquer antologia de diálogos geniais da história do cinema. Unidos à bela trilha sonora - que apresenta as clássicas instântaneas "Mrs. Robinson" e "The sound of silence" - e a um elenco coadjuvante impecável (onde até mesmo um jovem Richard Dreyfuss faz uma figuração de luxo), Hoffman e Bancroft elevam o filme a um patamar acima do corriqueiro.

"A primeira noite de um homem" é bem mais profundo do que mostra em sua superfície. Em um primeiro momento, é apenas a história do despertar de um homem em relação à sua sexualidade e ao amor. No entanto, como o próprio título original - a graduação, em bom português - sugere, fala sobre acordar para a vida, para um caminho que talvez não seja o mais seguro, mas ainda assim, é o que foi escolhido e não pré-determinado. Com seu jeito loser de ser, Dustin Hoffman é a perfeita encarnação de um rapaz abismado com o mundo à sua volta, que não sabe caminhar com as próprias pernas sem que alguém o empurre e que, de repente, nota que optar pelo que deseja é o caminho certo, mesmo que não saiba como agir depois de fazer suas escolhas. Nem Warren Beatty, nem Jack Nicholson nem Robert Redford - todos cotados para o papel - fariam melhor.

segunda-feira

O MILAGRE DE ANNE SULLIVAN


O MILAGRE DE ANNE SULLIVAN (The miracle worker, 1962, MGM Pictures, 106min). Direção: Arthur Penn. Roteiro: William Gibson, baseado em sua peça teatral homônima. Fotografia: Ernest Caparros. Montagem: Aram Avakian. Música: Laurence Rosenthal. Produção: Fred Coe. Elenco: Anne Bancroft, Patty Duke, Victor Jory, Inga Swenson, Andrew Prine, Kathleen Comegys. Estreia: 23/5/62

5 indicações ao Oscar: Diretor (Arthur Penn), Atriz (Anne Bancroft), Atriz Coadjuvante (Patty Duke), Roteiro Adaptado, Figurino P&B
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Anne Bancroft), Atriz Coadjuvante (Patty Duke)


Helen Keller nasceu em 1880 e morreu em 1968. Em 1904, formou-se em filosofia. Dominava inglês, francês, latim e alemão. Foi agraciada com títulos honorários de diversas universidades, inclusive na Escócia, Alemanha, Índia e África do Sul. Foi nomeada Cavaleira da Legião de Honra da França. Foi condecorada com a Ordem do Cruzeiro do Sul, no Brasil e com a do Tesouro Sagrado, no Japão. Era escritora, filósofa e conferecista e desenvolveu extensos trabalhos em prol de pessoas portadoras de deficiências. Tinha admiradores como Chaplin, JFK, Mark Twain e Graham Bell. E era cega, surda e muda.

Uma das personalidades mais fascinantes do século XX, Helen Keller é o assunto principal de "O milagre de Anne Sullivan", que o cineasta Arthur Penn dirigiu com roteiro de William Gibson baseado em sua peça teatral homônima, grande sucesso na Broadway. Estrelado por Anne Bancroft e a adolescente Patty Duke (ambas vencedoras do Oscar por suas atuações), o filme é um fascinante retrato da tenacidade e da força de vontade de uma mulher em busca de um objetivo. E é também, e principalmente, a história quase inacreditável de uma superação além de toda e qualquer expectativa.

O filme de Penn não acompanha a vida adulta de Keller, nem tampouco a sua glória. Concentra-se especificamente no período de poucas semanas em que deu-se seu "retorno ao mundo", graças à incansável batalha de sua professora, também uma vítima das limitações impostas por uma deficiência física. Anne Sullivan (papel oferecido a Ingrid Bergman) é uma professora que chega a uma pequena cidade do Alabama com a missão de cuidar da pequena Helen, de sete anos, que, aos dezoito meses de idade sofreu de uma rara febre cerebral (hoje acredita-se que tenha sido escarlatina) que a impede de ver, ouvir ou falar. Isolada do mundo como se fosse um animal selvagem, a menina é tratada como tal pela família que, sem ter mais a quem (ou a que) recorrer, contrata Annie para tentar ensinar-lhe o básico que, acreditam eles, ela jamais conseguirá aprender. Sem ter nenhuma noção do mundo ao seu redor, Helen é violenta, mimada e incapaz de se comunicar, mas a chegada de Anne (que também sofreu de uma cegueira parcialmente curada após nove cirurgias) lhe abre um novo horizonte. Mesmo sem nenhuma didática ou experiência, Sullivan resolve dedicar-se a seu projeto, utilizando-se até mesmo da mesma violência física que a garota emprega para fazer-se compreender.



Apesar de volta e meia focar suas cenas nas dúvidas da família Keller em relação ao tratamento oferecido por Anne Sullivan à sua filha, o hipnotizante roteiro de Gibson concentra-se basicamente no duelo entre professora e aluna. Por meio de incontáveis tentativas, inúmeras noites em claro e dezenas de bofetadas, pancadas e agressões corporais, a protagonista batalha incansavelmente pelo sucesso de seus planos, proporcionando a Anne Bancroft o trabalho de sua carreira (e isso que "A primeira noite de um homem" ainda estava por vir...). O duelo de interpretação de Bancroft com a jovem Patty Duke (que mesmo aos 16 anos convencia como uma menina de sete) é digno de figurar entre os maiores da história do cinema. É absolutamente impressionante, por exemplo, o embate físico entre as duas na sala de jantar, quando Annie tenta obrigar Helen a sentar-se à mesa e comer como um ser humano civilizado. Aos tapas e pontapés, as duas se engalfinham por quase dez minutos de uma cena sem qualquer diálogo, centrado unicamente na expressão corporal de suas atrizes. É de cair o queixo, e segurar a vontade de aplaudí-las de pé ao fim da cena é tarefa tão hercúlea quanto fazer com que o pai da garota (vivido por Victor Jory) consiga entender a forma de ensinar da estranha mestra de sua filha. E no final da cansativa sequência, ainda somos brindados com a genial frase: "A sala de jantar está destruída, mas o guardanapo está dobrado."

"O milagre de Anne Sullivan" conquista aos poucos, assim como sua protagonista demora a convencer seus empregadores de seus métodos pouco ortodoxos de ensino. De certa forma é uma revisão da história do "bom selvagem", aqui revestida por uma camada de emoção honesta e delicada. É admirável lembrar-nos que sua história é verdadeira, principalmente quando, ao final do filme, os primeiros sinais de sucesso começam a aparecer - em outra cena igualmente comovente e nunca piegas.

É inegável que os Oscar conquistados pelo filme foram absolutamente merecidos. Enquanto a Helen Keller de Patty Duke é uma perfeita encarnação de uma garota totalmente fora do mundo civilizado como o conhecemos - com toda a compaixão e até a angústia que suscita - a Anne Sullivan criada por Anne Bancroft é um exemplo extraordinário da inteligência da atriz, que nunca permite que sua personagem caia na vala comum da "professora inicialmente desacreditada que muda a vida dos alunos" que fez a glória de dezenas de filmes sobre a relação entre mestres e aprendizes. "O milagre de Anne Sullivan" é mais que um filme, é um tributo à força de vontade do ser humano. E, filme de atrizes que é, é um modelo a ser seguido por estrelas que confiam apenas nos seus sorrisos.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...