Mostrando postagens com marcador MIA FARROW. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador MIA FARROW. Mostrar todas as postagens

domingo

SONHOS ERÓTICOS DE UMA NOITE DE VERÃO

SONHOS ERÓTICOS DE UMA NOITE DE VERÃO (A midsummer night's sex comedy, 1982, Orion Pictures, 88min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Santo Loquasto. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Carol Joffe. Produção executiva: Charles H. Joffe. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, José Ferrer, Julie Hagerty, Tony Roberts, Mary Steenburgen. Estreia: 16/7/82

Em 1982, o prestígio de Woody Allen, conquistado pelos Oscar de filme, roteiro e direção por "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77) já não era mais o mesmo, principalmente entre crítica e público, que não aderiram com o mesmo entusiasmo a seus filmes seguintes. O denso "Interiores" (78), o poético mas pouco compreendido à época "Manhattan" (79) e o onírico e surreal "Memórias" (80) haviam afastado a plateia das salas de cinema, e o cineasta nova-iorquino parecia ter perdido o caminho para reconquistá-la. Antes que "Zelig" (83) - o falso documentário sobre um homem com a capacidade de transmutar-se em qualquer coisa que estivesse perto de si - recuperasse parte de seu sucesso, porém, Allen teve de enfrentar outro revés artístico: a comédia "Sonhos eróticos de uma noite de verão", que não apenas passou praticamente em branco pelas telas como amargou uma pouco agradável indicação ao Framboesa de Ouro de Pior Atriz para Mia Farrow - então em sua primeira colaboração com o diretor, com quem viveria até 1992 e faria ao todo 13 filmes.

Farrow, aliás, não era a primeira escolha para o papel que lhe coube, e só entrou no projeto porque a atriz inicialmente escalada, Diane Keaton, foi obrigada a abdicar do papel quando as filmagens foram adiantadas. Na verdade, "Zelig" - este sim com Farrow no papel principal feminino - deveria chegar às telas antes, conforme o combinado com a Orion Pictures, estúdio responsável pela produção. Uma série de problemas técnicos, porém, adiaram o lançamento por um ano, o que fez com que Allen, devendo um filme para estrear ainda em 1982, resolvesse criar um novo roteiro, despretensioso e leve, para ser filmado simultaneamente e lançado antes. Surgia, então, "Sonhos eróticos de uma noite de verão", com o título original inspirado em Shakespeare e o roteiro calcado em outra referência do cineasta, "Sorrisos de uma noite de amor" (55), de Ingmar Bergman. Com um elenco enxuto para dar conta de apenas oito personagens, o filme foi rodado no interior de Nova York e, com a fotografia sempre iluminada de Gordon Willis e as belas paisagens a serviço da trama, é uma lufada de ar fresco em uma filmografia que estava em um período de severa transição entre o humor popular e a busca pelo respeito artístico.

A trama, simples e repleta de um humor inteligente e sem as elocubrações intelectuais costumeiras na filmografia de Allen gira em torno de três casais e sua constante busca pela realização amorosa e sexual no início do século XX. O cenário é uma bucólica casa no interior, onde mora o inventor Andrew (Woody Allen) e sua esposa, Adrian (Mary Steenburgen), que passam por uma crise de vácuo sexual em seu relacionamento. É durante esse doloroso processo que eles resolvem receber a visita do respeitado professor Leopold (Jose Ferrer), que está a dias de casar-se com a jovem Ariel (Mia Farrow), filha de uma família de políticos e que teve, no passado, uma história mal resolvida com Andrew. Não bastasse esse reencontro inesperado, Ariel também chama a atenção de Maxwell (Tony Roberts), um médico mulherengo, amigo de Andrew, que chega à propriedade na companhia de sua nova conquista, Dulcy (Julie Hagerty). A ciranda de romance entre esses seis personagens é que move a trama, com elementos que remetem ao dramaturgo Anton Tchekov e um clima pastoril radicalmente oposto às características urbanas do diretor.

Mesmo fazendo parte do grupo de filmes menos louvados e conhecidos de Woody Allen, "Sonhos eróticos de uma noite de verão" apresenta alguns momentos de pura poesia visual e diálogos saborosos de que apenas o cineasta é capaz. As discussões entre os personagens a respeito de amor e sexo ficam no meio-termo entre a profundidade de suas obras mais densas e o deboche de suas comédias puras, valorizadas pelo elenco à vontade diante de um dos textos mais acessíveis de Allen - e isso inclui a própria Mia Farrow, cuja indicação ao Framboesa soa um tanto injusta. Mesmo que seja um pouco difícil de engolir o fato de sua personagem despertar tantas paixões, ela sai-se bastante bem em sua primeira incursão no grupo de colaboradores habituais do cineasta, como o ator Tony Roberts, que trabalhou com ele sete vezes em sua carreira e parece não ter a menor dificuldade em encarnar os personagens criados pelo amigo. É ele o maior destaque do elenco, fazendo uma dupla e tanto com Allen, em especial quando ambos se dedicam a disputar o amor de Ariel - uma situação que ameaça terminar em tragédia mas, graças ao bom humor do roteiro, leva a um desfecho inesperado e poético. Um filme que merece ser redescoberto.

sábado

MARIDOS E ESPOSAS

MARIDOS E ESPOSAS (Husbands and wives, 1992, TriStar Pictures, 103min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Judy Davis, Sydney Pollack, Liam Neeson, Juliette Lewis, Ron Rifkin, Blythe Danner. Estreia: 14/9/92 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Judy Davis), Roteiro Original

Em 1992, o mundo do cinema foi pego de surpresa com um escândalo envolvendo um de seus mais discretos membros: o mesmo Woody Allen avesso à badalações e que preferia tocar jazz a frequentar as cerimônias de entrega do Oscar - estatueta que ele já havia ganho por "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77) e "Hannah e suas irmãs" (86) - estampava as capas dos tabloides sensacionalistas graças ao controverso final de sua relação amorosa e profissional com a atriz Mia Farrow, que vinha desde 1980 e computava uma dúzia de filmes: aos 66 anos, Allen estava apaixonado por Soon-yi Previn, filha adotiva de Mia de apenas 21 anos. No rastro da polêmica, todo mundo se aproveitou: Farrow acusou o cineasta de pedofilia (fato que ainda em 2014 despertava acaloradas discussões), jornais venderam como nunca, os detratores de Allen encontraram finalmente um motivo para desprezá-lo (a despeito das afirmações de Farrow se mostrarem improcendentes com o passar do tempo) e a TriStar Pictures antecipou a estreia de "Maridos e esposas", comédia dramática que analisava os relacionamentos de dois casais de amigos - e que mostrava Woody se afastando de Mia por estar interessado em uma aluna décadas mais jovem - para lucrar em cima da polêmica. Por baixo de tanta gritaria, porém, o que pouca gente percebeu foi que, fofocas à parte, o filme era muito bom. Desde "Crimes e pecados" (89) o diretor/roteirista não encontrava um equilíbrio tão grande em drama, humor e insights sobre relações humanas.

Filmando em tom de documentário - câmera na mão, entrevistas diretas, cortes abruptos - "Maridos e esposas" é, na verdade, um Woody Allen típico, na forma e no conteúdo. Ele mesmo interpreta Gabe Roth, professor de literatura que acaba de escrever seu próprio livro e vive um relacionamento pacifico e quase tedioso com Judy (Mia Farrow), que está no segundo casamento. O filme começa quando eles recebem a visita de um casal de amigos, Jack (Sydney Pollack) e Sally (Judy Davis) que, para sua surpresa, anunciam sua separação. Tidos como um exemplo de relacionamento, Jack e Sally resolveram seguir caminhos diferentes na vida e tal fato cai como uma bomba na vida de Gabe e Judy, que lidam com a situação de maneiras opostas: enquanto Judy tenta servir de cupido entre Sally e Michael (Liam Neeson), um colega de trabalho pelo qual ela mesma está atraída, Gabe se envolve com Rain (Juliette Lewis), uma brilhante aluna com uma queda por homens com o triplo de sua idade.


Sob a luz do escândalo Soon-yi, "Maridos e esposas" foi dissecado exaustivamente pela mídia, pelo público e por qualquer pessoa que julgasse ter uma opinião sobre o caso. Não adiantou que fosse divulgado que o papel pensado para Mia Farrow fosse o de Sally e não o de Judy (uma passivo-agressiva neurastência e manipuladora): os conspiradores de plantão já afirmavam que Allen estava propositalmente dando à atriz um papel amargo e antipático. Não bastava que o final do filme contrariasse o final da história na vida real: todos achavam que o diretor estava justificando, em seu roteiro, as atitudes que tomara fora dos sets. Foram tantas teorias, tantos boatos transformados em fatos e opiniões pessoais tidas como verdades universais que o filme - enquanto produto cinematográfico - acabou ficando em segundo plano. Uma pena. Nem mesmo as duas indicações ao Oscar (roteiro e atriz coadjuvante) foram o suficiente para que fosse dada mais importância a ele. E isso que Judy Davis simplesmente arrasa na pele da insegura Sally: além de concorrer ao Oscar e ao Golden Globe, ela foi premiada pelos críticos de Los Angeles, pelo National Board of Review e pela National Society of Film Critics. Só a cena em que ela discute a relação com o ex-marido pelo telefone da casa do homem com quem está de saída para a ópera vale o filme todo.

À parte escândalos e teorias, "Maridos e esposas" é um Woody Allen da melhor safra. Inteligente, engraçado, perspicaz e realista, o roteiro nunca se deixa mergulhar na autocomplacência ou na crítica exagerada às relações, dando a todas elas uma dose de generosidade, independente de seu grau de neurose. Além do mais, é o ponto final de uma parceria que muito deu ao cinema americano nos anos 80. Uma chave de ouro que ainda será descoberta como um dos melhores filmes da década de 90.

terça-feira

MORTE SOBRE O NILO

MORTE SOBRE O NILO (Death on the Nile, 1978, EMI Films/Mersham Productions Ltd, 140min) Direção: John Guillermin. Roteiro: Anthony Shaffer, romance de Agatha Christie. Fotografia: Jack Cardiff. Montagem: Malcolm Cooke. Música: Nino Rota. Figurino: Anthony Powell. Direção de arte: Peter Murton. Produção: John Brabourne, Richard Goodwin. Elenco: Peter Ustinov, David Niven, Mia Farrow, Bette Davis, Maggie Smith, Simon MacCorckindale, Lois Chiles, Angela Lansbury, Olivia Hussey, Jane Birkin, Jon Finch, George Kennedy, Jack Warden. Estreia: 29/9/78

Vencedor do Oscar de Figurino

Poucas vezes os fãs da literatura policial de Agatha Christie puderam ver uma adaptação decente de seus romances para a tela de cinema. Aliás, não é preciso utilizar nem mesmo os cinco dedos de uma mão para contar quantos filmes baseados em sua obra valeram a pena. Primeiro, foi em 1956, com a obra-prima "Testemunha da acusação", dirigida por Billy Wilder e estrelada por Charles Laughton e Marlene Dietrich. Depois, em 1974, quando "Assassinato no Orient Express" chegou a dar um Oscar de coadjuvante para Ingrid Bergman. E por fim, em 1978, quando John Guillermin - co-diretor de "Inferno na torre" - assumiu o comando de "Morte sobre o Nilo" que marcou a primeira vez em que o grande ator Peter Ustinov vestiu a pele do detetive belga Hercule Poirot - outras cinco ocasiões vieram, sem o mesmo êxito em termos de crítica e público. Com uma produção bem cuidada, que resultou em um Oscar para o figurino de Anthony Powell, um roteiro bastante fiel à sua origem e um elenco de grandes atores, "Morte sobre o Nilo" é um filme policial à moda antiga que certamente não decepciona os leitores da Rainha do Crime.

Mesmo que Albert Finney tenha recebido calorosos elogios e uma indicação ao Oscar por sua composição como Poirot, Ustinov consegue sair-se ainda melhor na pele do famoso e egocêntrico detetive, equilibrando um senso de humor sutil com a seriedade que o papel pede em seus momentos mais sérios. E seriedade é o que não falta na trama criada por Agatha Christie, que se utiliza de uma paisagem exótica - os pontos turísticos do Egito e uma viagem de barco pelo caudaloso rio Nilo - para criar uma trama que aproveita todos os ingredientes de sua vasta literatura para prender a atenção do público desde suas primeiras cenas até a climática revelação do nome do criminoso, com todos os suspeitos reunidos na mesma sala para ouvir as conclusões do detetive mais famoso do universo do romance policial.


A vítima da vez é a bela, milionária e fria Linnet Ridgeway (Lois Chiles em papel recusado por Cybill Sheperd), recentemente casada com o sedutor Simon Doyle (Simon MacCorkindale, da extinta telessérie "Manimal"), que ela roubou de sua amiga pobre Jacqueline De Bellefort (Mia Farrow). Em plena lua-de-mel e perseguida por sua antiga companheira, ela embarca com o marido em uma viagem pelo Egito e se vê cercada de potenciais inimigos, que incluem uma escritora de livros baratos que foi processada por ela (Angela Lansbury), o advogado que cuida de suas finanças (George Kennedy), uma dama-de-companhia que a acusa de ser filha do homem que roubou o dinheiro de sua família (Maggie Smith), um médico que a culpa por um processo por imperícia (Jack Warden) e até uma ambiciosa e impulsiva ladra de joias (Bette Davis). Junto a outros suspeitos que desejam a morte de Linnet, porém, está no barco o detetive belga Hercule Poirot (Ustinov), que se unirá a um coronel inglês (David Niven) para desvendar o crime - que logo se multiplicará em três conforme a viagem vai prosseguindo.

A maior qualidade de "Morte sobre o Nilo", além de sua trama bem urdida e intrigante, é a elegância com que John Guillermin conduz a história, a despeito da violência inerente à narrativa policial. A impecável reconstituição de época e o elenco à prova de qualquer crítica servem à perfeição para o desfile de tipos excêntricos criados por Agatha Christie e retratados com respeito e seriedade pelo cineasta, que contrabalança todo o sangue da história (mostrado com parcimônia, nas horas exatas) com o senso crítico de humor que caracteriza a obra da escritora inglesa - e para o qual contribui a atuação perspicaz de Peter Ustinov e a classe de sempre de Bette Davis e Maggie Smith, roubando as cenas como patroa e dama-de-companhia. Mesmo que o filme chegue a quase duas horas e meia de duração em nenhum momento o ritmo fica cansativo, mostrando o talento de Guillermin em dosar com inteligência o suspense policial com o estudo irônico de seus personagens. Uma enorme bola dentro quando se fala em adaptações de Christie para o cinema.

quarta-feira

NEBLINA E SOMBRAS

NEBLINA E SOMBRAS (Shadows and fog, 1991, Orion Pictures, 85min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr., Amy Marshall. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, John Malkovich, Madonna, Donald Pleasance, Lily Tomlin, Jodie Foster, Kathy Bates, John Cusack, John C. Reilly, Philip Bosco, Kurtwood Smith, Kate Nelligan, Fred Gwyne, William H. Macy, Wallace Shawn. Estreia: 05/12/91

Os detratores adoram dizer que os filmes de Woody Allen são repetitivos, que seu estilo não é exatamente criativo e que seu humor judaico/neurótico/nova-iorquino/sofisticado não sai do chove-não molha. No entanto, se o diretor não estivesse no elenco de "Neblina e sombras" - seu filme de maior orçamento até hoje - era bem pouco provável que qualquer crítico do cineasta pudesse reconhecer no filme qualquer das características que marcaram sua carreira. Com exceção da inteligência - e da marca registrada de usar nomes famosos em papéis pequenos ou quase pontas - nada nessa bela homenagem ao expressionismo alemão do início do século XX aponta para o fato que seu diretor é Allen.

A primeira diferença entre "Neblina e sombras" e o resto da filmografia de Woody diz respeito à geografia. Enquanto a vasta maioria de seus filmes se passa em Nova York e arredores, aqui a história acontece em uma pequena cidade da Alemanha aterrorizada por um assassino serial que mata suas vítimas estranguladas. Para caçar o criminoso vários grupos se formam, com moradores buscando resolver a situação com as próprias mãos, uma vez que o governo parece não se importar com os trágicos acontecimentos. Kleinman (vivido pelo diretor) é um homem comum - preocupado em ser deixado em uma promoção no trabalho - que é escalado por uma dessas facções, que pedem sua ajuda, sem nunca lhe explicar sua missão. Enquanto vaga pela cidade, envolta em neblina e sombras como o título do filme sugere, ele dá de cara com Irmy (Mia Farrow), a engolidora de espadas de um circo que está se apresentando na cidade. Depois de flagrar o marido, o palhaço do circo (John Malkovich) nos braços de sua sedutora colega Marie (Madonna), Irmy encontra abrigo no bordel da cidade, onde desperta o desejo do jovem estudante Jack (John Cusack). Ao lado de Kleinman, ela tentará manter-se longe do assassino e reconstruir sua vida.

 

Fotografado em belíssimo preto-e-branco por Carlo Di Palma, "Neblina e sombras" também foge do estilo forjado pelo cineasta em décadas de experiência ao evitar piadas intelectualizadas demais - talvez Allen já soubesse que o projeto em si já era suficientemente arriscado comercialmente para que ele confiasse na fidelidade cega de seu público. Ao misturar um humor muito disfarçado e um suspense sem sustos, ele criou um gênero híbrido que, obviamente, não encontrou sua audiência e nem encantou a crítica. Motivos não faltam para essa frieza toda, mas não deixa de ser um exagero essa absoluta apatia em relação ao filme.

Sem dúvida nenhuma, "Neblina e sombras" não é nem de longe um Woody Allen das melhores safras: não é particularmente engraçado, nem denso ou mesmo leve. Mas é inteligente como qualquer trabalho seu - com ecos de "O processo", de Kafka e do filme "M, o vampiro de Dusseldorf", de Fritz Lang -, é extraordinariamente bem realizado - os sets foram construídos especificamente - e só o fato de reunir o elenco que reuniu é de aplaudir entusiasticamente: ao lado dos já citados, desfilam pela tela Jodie Foster, Kathy Bates, Kate Nelligan, Lily Tomlin e Donald Pleasance. Mas aparenta ser mais longo, talvez culpa da morosidade do roteiro e tem um clímax um tanto quanto fraco em relação ao que promete em seu promissor começo.

Para os fãs de Woody Allen, é obrigatório como todos os seus filmes. Para aqueles que acreditam que ele é sempre o mesmo, é necessário. Mas para quem simplesmente não gosta do diretor, não é a maneira correta de começar a gostar.

SIMPLESMENTE ALICE

SIMPLESMENTE ALICE (Alice, 1990, Orion Pictures, 102min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Mia Farrow, Alec Baldwin, Blythe Danner, Judy Davis, William Hurt, Joe Mantegna, Cybill Sheperd, Gwen Verdon, Julie Kavner. Estreia: 25/12/90

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Que Woody Allen é um cineasta autoral, independente e criativo todo mundo sabe! Dono de uma carreira que, a despeito de não ter nenhum êxito comercial retumbante é absolutamente respeitada pela integridade, ele é capaz de equilibrar pequenas obras-primas como "Crimes e pecados" com filmes que não obtiveram o mesmo sucesso entre a crítica e o público, como é o caso de "Simplesmente Alice". Mesmo tendo sido indicado ao Oscar de roteiro original, o 21º longa-metragem de Allen não tem o mesmo frescor que a maioria de seus trabalhos, utilizando elementos de outros filmes com a sua assinatura ao lado de um elemento novo:a fantasia.

Mia Farrow é novamente a protagonista em "Simplesmente Alice". Ela vive Alice Tate, uma mulher que vive dividida entre compromissos sociais, visitas ao shopping e aos salões de beleza e um casamento morno com o bem-sucedido Doug (William Hurt). Sofrendo de constantes dores nas costas, ela visita o afamado Dr. Yang (Keye Luke), acunpunturista recomendado por todas as suas amigas. Surpreendida pelo tratamento do médico oriental, que lhe oferece os mais variados tipos de ervas naturais - que permitem que ela fique invisível, que fale com um ex-namorado morto (Alec Baldwin) e que se torne menos tímida - ela aproveita o momento para levar adiante um hesitante romance com Joe Ruffalo (Joe Mantegna), músico divorciado, pai de uma colega de seus filhos pequenos. Além disso, passa a questionar suas escolhas em abandonar tudo para tornar-se esposa e mãe.



A trama lembra "A outra", filme bastante superior dirigido por Allen em 1988. No entanto, o cineasta não é feliz em lançar mão de alguns artifícios que não combinam com seu estilo. Ver Alice voando sobre Nova York ao lado do falecido namorado não encanta como deveria e sim torna-se bobo. Até mesmo o fato de conseguir ficar invisível para espionar a vida do amante, das melhores amigas e do marido infiel soa como uma solução fácil e sem imaginação. Suas dúvidas a respeito de seguir uma nova carreira como escritora e sua relação mal-resolvida com a irmã advogada (Blythe Danner, mãe da atriz Gwyneth Paltrow) são extremamente semelhantes às questões levantadas por Gena Rowlands em "A outra", mas sem o peso e a densidade do filme anterior.

Sendo assim, "Simplesmente Alice" é um filme ruim? De jeito nenhum. Woody Allen é incapaz de criar alguma coisa que seja menos do que interessante. Mia Farrow novamente entrega uma atuação consistente, mesmo quando sua personagem passa por situações quase inverossímeis. O elenco coadjuvante também não atrapalha nem um pouco - até mesmo Joe Mantegna consegue apagar sua imagem de "gângster" e William Hurt, apesar de não ter muito o que fazer, pontua com correção mais uma grande interpretação de Mia. Nem mesmo o final um tanto abrupto consegue esconder o fato, no entanto, de que Allen tem o que dizer em qualquer trabalho que assine.

"Simplesmente Alice" não é um dos mais populares trabalhos de Woody Allen. Ao assistí-lo logo se vê os motivos. Não é particularmente engraçado nem especialmente sério. Mas é Woody Allen é sempre Woody Allen, quer seja para o bem ou para o mal.

quinta-feira

CRIMES E PECADOS

CRIMES E PECADOS (Crimes and misdemeanors, 1989, Orion Pictures, 104min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Alan Alda, Martin Landau, Anjelica Huston, Claire Bloom, Sam Waterston, Jerry Orbach. Estreia: 13/10/89

3 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Ator Coadjuvante (Martin Landau), Roteiro Original

Em sua vasta carreira como cineasta, onde comédias sofisticadas dividem espaço com dramas existenciais profundos e densos, Woody Allen criou quase que um universo próprio, facilmente reconhecível dentro de sua filmografia. Mesmo que nem sempre acerte em cheio - ainda que até mesmo seus filmes menores sejam excelentes -, Allen de vez em quando aparece no auge de seu ofício, entregando à plateia filmes tão sensacionais que é difícil não reconhecer sua importância seminal no cinema americano. Um desses exemplos é "Crimes e pecados", um trabalho impecável de roteiro e direção, que é quase que uma reunião do que de melhor ele pode oferecer ao público. Um certo senso de humor melancólico, neuroses urbanas e uma dose de pessimismo (realismo?) fazem do ... do diretor uma de suas obras-primas. E para isso, ele não precisou nem de grandes astros nem de um orçamento estratosférico. Não foi ao Vietnã (como em "Nascido em 4 de julho"), não assumiu nenhum tom paternalista em relação à velhice (como em "Conduzindo Miss Daisy") nem falou de superações pessoais (como em "Em nome do pai"). "Crimes e pecados" fala de pessoas simples, com problemas que lhes atormentam a alma. Talvez por isso não tenha encontrado lugar entre os finalistas ao Oscar principal - ainda que tenha concorrido nas categorias de diretor, roteiro original e ator coadjuvante.

Retomando a ciranda de relacionamentos com que já havia brincado em "Hannah e suas irmãs" - com matizes mais leves e também bem-sucedidos - Allen conta várias histórias paralelas que se encontram sutilmente, graças a um roteiro bem costurado. O próprio diretor interpreta Cliff Stern um documentarista que se vê obrigado a ir contra os próprios ideais ao aceitar conduzir um programa de TV enfocando seu cunhado, o produtor de televisão Lester (Alan Alda, sensacional). Durante o processo, ele se apaixona pela produtora do show, Halley Reed (Mia Farrow), em quem reconhece uma alma parecida com a sua. Além de Lester, Cliff é também cunhado de Ben (Sam Waterston), um rabino sábio e inteligente que está em vias de perder a visão. Por isso, ele frequenta o consultório do renomado Judah Rosentahl (Martin Landau, indicado ao Oscar de coadjuvante), um homem aparentemente em paz com a vida mas que esconde uma terrível angústia: sua amante Delores Paley (Anjelica Huston) está ameaçando revelar seu caso com ele e ainda por cima denunciar uma fraude cometida anos antes.


As personagens de "Crimes e pecados" estão entre as melhores já criadas por Woody Allen. O roteiro investiga, de forma concisa e inteligente, os questionamentos humanos em relação à fé e a justiça divina. A visita de Judah à casa onde passou a infância (homenagem explícita a Ingmar Bergman), por exemplo, é um primor, assim como a conversa imaginária que ele tem com o rabino Ben, quando decide finalmente eliminar seus problemas da maneira menos ética possível, recorrendo a um assassinato. Segundo o filme, "o olho de Deus tudo vê", mas também segundo o roteiro, Deus pode ser apenas uma ideia, o que concede à humanidade e a seus atos uma aleatoriedade triste mas realista. Fugindo do otimismo de "Hannah", Allen é cético e quase cínico em sua abordagem sobre as pessoas e suas relações, o que se retrata na opção de Halley em abandonar seus ideais em nome do sucesso e na escolha de Judah em seguir o caminho mais "fácil" para sentir-se livre das pressões que o afligem.

Poucas vezes o cinema de Woody Allen foi tão contundente quanto em "Crimes e pecados". Infelizmente!

quarta-feira

CONTOS DE NOVA YORK


CONTOS DE NOVA YORK (New York Stories, 1989, Touchstone Pictures, 124min) Estreia: 01/3/89

"Lições de vida" (Life lessons) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Richard Price. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Thelma Schoonmaker. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Nina F. Ramsey. Casting: Ellen Lewis. Produção: Barbara DeFina. Elenco: Nick Nolte, Rosanna Arquette, Steve Buscemi

"A vida sem Zoe" (Life without Zoe") Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola & Sofia Coppola. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Barry Malkin. Música: Carmine Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George DeTitta Jr. Casting: Aleta Chappelle. Produção executiva: Produção: Fred Fuchs, Fred Roos. Elenco: Heather McComb, Talia Shire, Giancarlo Giannini

"Édipo arrasado" (Oedipus wrecks) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Julie Kavner, Mae Questel


A ideia parecia genial e infalível: reunir 3 dos maiores cineastas americanos em atividade no mesmo filme, cada um contando uma história curta passada no mesmo cenário natural preferido por 10 entre 10 diretores, a bela Nova York. No entanto, mesmo com o talento inegável dos escolhidos para a empreitada, "Contos de Nova York" sofre do mesmo mal de quase todos os filmes do mesmo formato: irregularidade. E se Francis Ford Copolla e Martin Scorsese tiveram a coragem de afastar-se dos estilos pelos quais ficaram consagrados, é Woody Allen quem se sai melhor, justamente por apresentar mais do mesmo de maneira engraçada e refrescante.


O filme começa bem, com a belíssima canção "A whiter shade of pale", do grupo Procol Harum, tocando durante os créditos de abertura de "Lições de vida", orquestrado por Scorsese. Dessa vez, o nova-iorquino que mostra o lado obscuro da Grande Maçã conta uma história de amor e criatividade: o pintor Lionel Dobie (vivido com garra por Nick Nolte) não consegue superar o fim de seu relacionamento com a aprendiz e assistente (Rosanna Arquette), que o abandonou para ficar com um performer (o ótimo Steve Buscemi). Ainda dividindo com ela o enorme loft que habita, ele trabalha furiosamente como forma de sublimar o despeito e o sofrimento. Contando com a ajuda de uma caprichada trilha sonora (que inclui Rolling Stones, entre outros), Scorsese deixa de lado a violência e a vida marginal de seus protagonistas anteriores para mergulhar na mente de um homem talentoso mas um tanto auto-destrutivo, que vê no amor sua maior inspiração. Apesar da forma elegante com que o diretor conta sua história, no entanto, ela não consegue seduzir a audiência, em parte pela falta de carisma de Lionel Dobie, um anti-herói romântico, que busca conquistar a amada da maneira menos adequada possível. Também não ajuda a quase apatia de Rosanna Arquette, insípida como sempre. É um Scorsese com qualidades, mas bastante aquém do esperado.




Coppola, por sua vez, apela para um tom infanto-juvenil em seu segmento. Em seu roteiro, "A vida sem Zoe", co-escrito por sua filha Sofia - que levaria um Oscar quinze anos depois por "Encontros e desencontros" - ele utiliza elementos de fábula ao contar a história da pré-adolescente Zoe (Heather McComb), que vive confortavelmente em um hotel de Manhattan enquanto seus ocupados e milionários pais - um flautista internacional e uma fotógrafa - vivem em constantes viagens. Quando faz amizade com um novo colega de escola - mais rico ainda do que ela -, Zoe tem a oportunidade de salvar o casamento dos pais. Simplista e quase raso, o desenvolver da trama é sonolento, prejudicado por uma protagonista sem carisma e uma trama sem maiores interesses. O visual também não é exatamente atraente, o que deixa no público a sensação de que falta alguma coisa, quando finalmente os créditos finais aparecem. É, das três histórias a menos bem-sucedida, ainda que não deixe de ser simpática, em certos momentos.

E chegamos a Woody Allen e seu "Édipo arrasado". Desde o início, com os créditos inconfundíveis de seus filmes, percebe-se que Allen não quis inovar em absolutamente nada: temática, elenco e equipe técnicas de seus trabalhos anteriores comparecem fielmente e dão à plateia os melhores momentos do longa. A trama busca o surreal, mas ainda assim, o estilo claro do diretor é facilmente percebível. O próprio Allen interpreta o protagonista, um advogado relativamente bem-sucedido que no entanto não consegue livrar-se do assédio exagerado da mãe (Mae Questel), uma típica mãe judia que o super-protege e lhe causa extremos embaraços. Um dia, em um programa familiar com ela, sua nova namorada (Mia Farrow) e os filhos pequenos desta, ele vê seus sonhos se realizarem: sua mãe desaparece durante um truque de mágica. Mas como nada é perfeito, ela reaparece, nos céus de Nova York, falando com ele e quem quiser ouvir, além de mostrar fotos e contar histórias vergonhosas de sua infância. Só quem parece poder lhe ajudar é uma confusa esotérica (Julie Kavner). Às vésperas de lançar "Crimes e pecados", uma de suas obras-primas um tanto pessimistas, Allen brinca com sua persona cinematográfica, levando a plateia ao riso fácil e descompromissado do início de sua carreira, e dando à ótima Julie Kavner a oportunidade de demonstrar seu grande talento (como já havia feito em "A era do rádio").

No final das contas, "Contos de Nova York" não é exatamente um filme genial, a despeito de seus créditos. Mas é sempre interessante perceber que até mesmo os mais talentosos cineastas do mundo conseguem ser simples e delicados.

terça-feira

A OUTRA


A OUTRA (Another woman, 1988, Orion Pictures, 81min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Gena Rowlands, Mia Farrow, Ian Holm, Gene Hackman, Blythe Danner Martha Plimpton, Frances Conroy, Sandy Dennis, Philip Bosco, Betty Buckley. Estreia: 18/11/88

Emulando mais uma vez Ingmar Bergman, um de seus ídolos máximos (de quem conseguiu inclusive o diretor de fotografia Sven Nykvist), Woody Allen entrega, em “A outra” um de seus mais interessantes trabalhos de sua fase “séria”. Deixando de lado seu humor paranóico-judeu, o cineasta nova-iorquino criou uma pequena obra-prima (e pequena também é sua duração – meros 81 minutos, pouco menos de duas sessões de tearapia).

É justamente sobre terapia seu filme. A protagonista é Marion Post (uma sensacional Gena Rowlands), uma especialista em filosofia, que vive um segundo casamento estável e leva uma vida tranqüila e sem maiores sobressaltos. Para escrever seu novo livro, ela aluga um pequeno apartamento em uma rua tranqüila de Nova York. Para sua surpresa, no entanto, pelo aparelho de ventilação do apartamento, ela consegue ouvir todas as consultas do psicanalista que trabalha ao lado. A princípio incomodada com o fato, ela logo muda de idéia quando começa a ouvir o trabalho do médico com uma jovem grávida (Mia Farrow, que não poderia faltar), cujos problemas refletem aqueles que ela mesma tem e deixa guardados em seu inconsciente. A partir daí, Marion começa a examinar sua vida atual e pregressa, tentando resolver sua relação com o irmão, com o ex-marido, o pai e principalmente revendo seu casamento e seu acabado caso de amor com o melhor amigo de seu marido (em participação pequena mas marcante de Gene Hackman).

Allen consegue, em menos de hora e meia, levar o espectador para dentro da mente da personagem de Rowlands (ajudado, é claro pela performance espetacular da atriz), utilizando de idéias criativas, como uma peça de teatro e idas e vindas no tempo, bem ao gosto de seu mentor Bergman. Pode parecer difícil e pesado. Certamente, leve e divertido como a maioria dos trabalhos do diretor não é. Mas “A outra” tem uma qualidade redentora, além de seu roteiro brilhante e de seu elenco perfeito – é inteligente, faz pensar e não sai da mente do espectador por um bom tempo, como uma boa consulta ao terapeuta.

segunda-feira

SETEMBRO


SETEMBRO (September, 1987, 82min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Denholm Elliott, Mia Farrow, Dianne Wiest, Jack Warden, Sam Waterston, Elaine Stritch. Estreia: 18/12/87

É inegável que, como diretor e roteirista de comédias sofisticadas e inteligentes, Woody Allen é imbatível. No entanto, seu lado mais sombrio, profundo e melancólico muitas vezes agrada a crítica mas afugenta a audiência. Foi assim com "Interiores", de 1978 e o mesmo repetiu-se com "Setembro", feito quase uma década depois. Filmado quase como uma peça de teatro - sem muitos closes e com muitos planos longos - o 18º longa da carreira de Allen é um de seus menos louvados. Injustamente!

A trama de "Setembro" se passa em uma casa de praia em Vermont, no final de verão particularmente desgastante emocionalmente para a frágil Lane (Mia Farrow), que, recém-saída de uma profunda crise nervosa se apaixona pelo escritor Peter (Sam Waterston), que alugou a casa para escrever seu novo livro. Assediado pela mãe de Lane, a ex-modelo Diane (Elaine Stritch) - cujo passado conta com uma tragédia que abalou a vida da filha - para que escreva sua biografia, Peter se encanta com Stephanie (Dianne Wiest), a melhor amiga de Lane, uma mulher casada e romanticamente confusa. Enquanto tenta lidar com sua problemática relação com a mãe e tenta conquistar o amor de Peter, Lane desperta a paixão de um vizinho mais velho, Howard (Denholm Elliott).

A ciranda amorosa-romântica criada por Allen até pode lembrar alguns de seus filmes anteriores, mais notadamente "Hannah e suas irmãs", também estrelado por Farrow e Wiest. Mas em "Setembro" o senso de humor do cineasta é deixado de lado, o que colabora para o clima quase claustrofóbico imposto pela sóbria fotografia de Carlo Di Palma. As personagens, aqui, não relaxam frequentando museus ou visitando o Central Park. Na opressiva trama escrita por Allen na casa de verão de sua então mulher Mia Farrow, viver é complicado, tomar decisões é sacrificante, encarar a realidade é difícil. Lane tem que conviver com um trauma do passado, que praticamente destruiu sua vida, e a impede de ter uma relação saudável com sua mãe, que, em contrapartida, não deixa que nenhum problema a atinja com a devida força. Stephanie luta contra o desejo por Peter, porque não quer magoar Lane nem destruiur seu próprio casamento. E Howard, apaixonado por Lane, deseja arrancá-la da tristeza e da prostação emocional, mas esbarra na fragilidade da própria moça.

Woody Allen filmou "Setembro" duas vezes por achar a primeira versão insatisfatória. Substituiu Maureen O'Sullivan (mãe de Farrow na vida real) por Elaine Stricht (que entregou uma performance bastante distinta de sua personagem), Charles Durning por Denholm Elliot e Sam Shepard por Sam Waterston (sendo que Shepard já substituía Christopher Walken). Ainda achando que o filme não estava à altura do que imaginava, pensou em refilmar uma terceira versão. Ainda bem que não o fez!

"Setembro" tem diálogos belíssimos, interpretações intensas e uma melancolia deslumbrante. Não é para ser assistido em momentos de crise emocional, mas é um trabalho fascinante de um diretor extremamente inteligente e talentoso.

terça-feira

A ERA DO RÁDIO


A ERA DO RÁDIO (Radio days, 1987, Orion Pictures, 88min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Les Bloom, Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Seth Green, Mia Farrow, Dianne Wiest, Danny Aiello, Wallace Shawn, Julie Kavner, Mike Starr. Estreia: 30/01/87

2 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Direção de arte/cenários

Nada como um bom Woody Allen engraçado e nostálgico! Emulando o Fellini de "Amarcord", o cineasta nova-iorquino, acostumado a presentear seus fãs com sofisticadas e neuróticas comédias de costumes e/ou densos e profundos dramas psicológicos mostra, em "A era do rádio", que sabe como poucos ter também a saudável melancolia que as memórias de infância sempre proporcionam. "A era do rádio" é um dos mais deliciosos filmes de Allen, mesclando um humor inocente com um delicado retrato de uma época que, apesar dos pesares - e uma grande guerra mundial está entre eles - legou à humanidade muitos talentos artísticos.

O alter-ego de Allen em "A era do rádio" é Joe, um garotinho judeu criado com dificuldades econômicas mas muito amor pelos pais e pela numerosa família, que inclui a casadoira tia Bea (Dianne Wiest, colaboradora constante do cineasta). Vivido por Seth Green - que na década de 90 ficaria conhecido como Scott Evil na série "Austin Powers" - com um misto de ingenuidade e deslumbramento, Joe é testemunha de fatos marcantes (ao menos para seu universo restrito), como a tragédia que envolve uma menina presa em um bueiro e os programas radiofônicos que encantavam sua família. É Joe - adulto, e em uma narração inteligente - que conta também a história de Sally White (Mia Farrow), uma vendedora de cigarros que sonha com o estrelato.


"A era do rádio" é nostalgia pura! Ao evocar um período específico de tempo, Woody Allen destrincha carinhosamente os sentimentos das pessoas da época, retratando a família de Joe de forma emocionante e extremamente engraçada - graças principalmente aos diálogos geniais e o elenco em ótima forma. Apesar de não haver exatamente um protagonista em cena, o diretor dá espaço a excelentes coadjuvantes e participaçõe especialíssimas: rapidamente aparecem no filme Diane Keaton, Jeff Bridges e Danny Aiello, entre outros. Até mesmo o Brasil é homenageado no filme: Denise Dummont aparece cantando "Tico-tico no fubá" e uma cena alto-astral ouve-se a voz de Carmen Miranda...

"A era do rádio" é mais uma pequena obra-prima de Woody Allen, para se assistir com um enorme sorriso no rosto e talvez uma ou outra lágrima nos olhos...

segunda-feira

HANNAH E SUAS IRMÃS


HANNAH E SUAS IRMÃS (Hannah and her sisters, 1986, Orion Pictures, 103min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/Cenários: Stuart Wurtzel/Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Michael Caine, Barbara Hershey, Dianne Wiest, Max Von Sydow, Maureen O'Sullivan, Julia Louis-Dreyfus, Carrie Fisher, J.T. Walsh, John Turturro. Estreia: 07/02/86

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Ator Coadjuvante (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Roteiro Original, Montagem, Direção de arte/cenários
Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Comédia/Musical


Um ano depois do emocionante “A rosa púrpura do Cairo”, o cineasta Woody Allen volta às origens com “Hannah e suas irmãs”, onde apresenta seus tradicionais elementos de estilo em um filme que pode tranqüilamente constar na lista de seus melhores trabalhos. Ao misturar com equilíbrio invejável o drama e a comédia fina, Allen criou um espetáculo adulto e verdadeiro, sem os apelos emocionais e fantasiosos de seu excelente trabalho anterior.

Mia Farrow novamente é a protagonista, se é que pode-se dizer que existe um protagonista. Hannah é uma atriz que está de volta aos palcos depois de um retiro opcional. Dedicada à família, ela nem sequer percebe que seu marido, Elliot (um Michael Caine exemplar, vencedor do Oscar de ator coadjuvante) está caindo de amores por sua irmã caçula, a perdida Lee (Barbara Hershey), que vive com um artista plástico mais velho e isolado (Max Von Sydow). Enquanto Elliot e Lee vivem seu hesitante caso extra-conjugal, Hannah tem que lidar também com a falta de rumo profissional de sua irmã do meio (Dianne Wiest, impecável e premiada com o Oscar de atriz coadjuvante) e a busca de seu ex-marido (o próprio Allen), que, ao julgar-se fatalmente doente, parte em busca de uma nova religião que lhe dê as respostas que ele procura.


"Hannah e suas irmãs" é um filme delicioso, um drama leve que usa e abusa de seu elenco formidável e da veia cômico/dramática de Allen, em um momento inspiradíssimo de sua carreira. Ao optar por ser um coadjuvante e abrir espaço para um trio de atrizes espetaculares, ele mostra sua generosidade e talento em criar personagens complexas e verossímeis, além de nunca abandonar a ironia característica de seus melhores trabalhos. E a química invejável entre Mia Farrow (dona do apartamento de Hannah na vida real), Barbara Hershey (em papel oferecido a Brooke Shields) e Dianne Wiest transforma a experiência de assistir ao filme em uma delícia.

Sem buscar alcançar objetivos maiores do que um bom par de horas com diálogos inteligentes e personagens bem delineados, Allen mostra mais uma vez sua força em escrever roteiros. Não à toa, ele também levou seu Oscar na categoria, o que prova que filmes adultos, bem escritos e dirigidos também têm seu lugar garantido entre os fãs de cinema. E uma prova da qualidade de seu roteiro é o fato do mesmo ter sido considerado para um Pulitzer, o que nunca aconteceu com scripts cinematográficos até hoje. Prestígio merecido!

quarta-feira

A ROSA PÚRPURA DO CAIRO


A ROSA PÚRPURA DO CAIRO (The purple rose of Cairo, 1985, Orion Pictures, 82min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello, Dianne Wiest. Estreia: 01/3/85

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro


Uma das obras-primas de Woody Allen, o curtinho (pouco mais de uma hora e dez minutos de filme) “A rosa púrpura do Cairo” é também uma das mais belas declarações de amor de um cineasta à sua arte. O cinema é um dos personagens mais importantes de um trabalhos mais queridos do diretor (inclusive por ele mesmo). E os fãs da sétima arte só podem agradecer, comovidos.

O cenário dessa vez não é Nova York e sim Nova Jersey, onde segundo um dos personagens, “tudo pode acontecer”. E a trama agora não é contemporânea e sim passada nos tristes anos da Grande Depressão americana, depois da queda da bolsa de valores de 1929. Cecília, a protagonista, vivida por Mia Farrow em mais uma colaboração com o diretor e provavelmente na melhor atuação de sua carreira, é uma sofrida garçonete que vive explorada e espancada pelo marido brucutu Monk (Danny Aiello). Seus únicos momentos de diversão são suas idas quase diárias ao cinema, onde é conhecida desde pela bilheteira até pelos lanterninhas. Um dia, ao assistir pela quinta vez a aventura romântica épica “A Rosa Púrpura do Cairo”, Cecília é notada por um dos personagens da trama, o explorador arqueólogo Tom Baxter (Jeff Daniels), que, encantado por ela, sai da tela para viver seu romance. Obviamente a situação surreal desgosta os colegas de cena de Baxter, que não conseguem dar prosseguimento à ação do seu filme. A confusão chega até Hollywood e Gil Shepperd (novamente Jeff Daniels), preocupado com a má reputação que a notícia pode causar à sua promissora carreira chega a Nova Jersey decidido a resolver o problema. O que não poderia jamais supor é que, ao conhecer Cecília, ela ficaria dividida entre o personagem e o ator.


Brilhante em sua idéia original, nos diálogos geniais que estão sem dúvida entre os melhores da carreira de Woody Allen e nos engraçados e irônicos insights sobre a dualidade realidade/ficção, “A rosa púrpura do Cairo” é pura magia. Ao utilizar uma fantasia de qualquer fã de cinema – o romance com um personagem de filme – Allen chega no coração e na mente de seu público sem apelar para filosofias complicadas e dramas bergmanianos que vinha utilizando em seus trabalhos imediatamente anteriores. Ele conta uma história enxuta, sem cenas desnecessárias e com um elenco de aplaudir de pé. Jeff Daniels, dividido entre seus dois papéis mostra uma evolução fantástica desde “Laços de ternura” e Danny Aiello, na pele do truculento Monk pontua com correção o trabalho espetacular de Mia Farrow, que compõe uma Cecília frágil, romântica mas ao mesmo tempo capaz de sustentar sozinha uma casa e com a coragem de romper com a inércia de sua rotina modorrenta para viver seu grande amor.

A seqüência final, ao som de Fred Astaire cantando “Cheek to cheek” é de encher os olhos de lágrimas, o peito de emoção e o cérebro de alegria, diante da sutileza e da inteligência de Allen. O cinema agradece a bela homenagem.

domingo

BROADWAY DANNY ROSE


BROADWAY DANNY ROSE (Broadway Danny Rose, 1984, Orion Pictures, 84 min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Les Bloom. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Nick Apollo Forte. Estreia: 27/01/84

2 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Roteiro Original

Depois de ser extremamente elogiado com "Zelig", um dos melhores filmes de sua carreira, Woody Allen resolveu que queria fazer uma comédia italiana ao estilo dos anos 50. Contando com o apoio de seu habitual diretor de fotografia Gordon Willis - que compreendeu exatamente o sentido da coisa toda, em termos pictórios - ele realizou então "Broadway Danny Rose", um feliz encontro entre a latinidade passional dos "carcamanos" com a intelectualidade sarcástica dos nova-iorquinos típicos.

Danny Rose (interpretado por Allen com a costumeira eficácia) é um agente de talentos cujos clientes estão longe de ser superstars: um escultor de balões, um hipnotizador ineficiente e um maestro de passarinhos estão em seu rol de contratados. Sua maior dedicação, no entanto, é ao cantor Lou Canova (Nick Apollo Forte), que teve seu momento de glória no passado e deseja voltar aos holofotes. Justamente na noite em que irá fazer uma apresentação que poderá devolver-lhe ao sucesso, Lou tem uma briga homérica com sua amante, a egoísta Tina Vitale (Mia Farrow) e exige que Danny a convença a assistir ao show, mesmo sabendo que sua mulher estará presente. Na tentativa de convencer a irredutível Tina, o agente acaba sendo confundido como seu amante pela vingativa família italiana de um apaixonado pela moça. Perseguido por gângsters e tentando arrastar a amante de seu agenciado para seu show, ele nem de longe desconfia que está sendo traído por ele, que, por intermédio de Tina, tenciona trocá-lo por um agente mais bem-relacionado.



Apesar de não ser um dos mais brilhantes trabalhos de Woody Allen, "Broadway Danny Rose" seduz por seu humor inteligente e pela imprevisibilidade de seu roteiro. Ao contar duas histórias paralelas - sua aventura com Tina e a traição de Lou - o cineasta/roteirista mistura gêneros com uma familiaridade invejável. Ainda que nem sempre funcione à perfeição - as cenas de ação soam um tanto forçadas - o desenvolvimento da história contada por ele (através da narração de um grupo de agentes que conheceu o protagonista) é suficientemente interessante para não deixar a peteca cair em momento algum - e para isso colabora muito a química perfeita entre ele e Mia Farrow.

Assim como acontecia com Diane Keaton em seus filmes anteriores, Allen encontrou em Farrow a musa perfeita de sua obra. Na pele de Tina Vitale, a atriz entrega um trabalho de composição que foge do seu padrão de atuação até então. Espalhafatosa, vulgar e sem um pingo de classe, sua Tina é uma espécie de mãe da Linda Ash que Mira Sorvino defendeu em "Poderosa Afrodite", dez anos mais tarde. Munida de um indefectível par de óculos escuros e um penteado exagerado, Farrow brilha como nunca e eleva a qualidade do filme, assim como Allen e um surpreendente Nick Apollo Forte - em um papel para o qual o cineasta pensou em Sylvester Stallone.

Dentre tantas obras-primas criadas por Woody Allen, "Broadway Danny Rose" quase se perde. Mas não deixa de ser admirável perceber que mesmo em seus filmes menos brilhantes ele consegue manter um nível de excelência com que a maioria dos cineastas apenas sonha

quinta-feira

ZELIG



ZELIG (Zelig, 1983, Orion Pictures, 79min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Santo Loquasto. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Les Bloom, Janet Rosenbloom. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Patrick Horgan, John Buckwalter. Estreia: 15/7/83

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Figurino


Os detratores de Woody Allen, que o acusam de ser repetitivo e sem criatividade provavelmente nunca assistiram a "Zelig", uma de suas mais sensacionais obras. Ao contar a história de seu protagonista através de um documentário fake mas absolutamente crível em formato e linguagem, ele adiantou em dez anos a tecnologia que faria a glória de Robert Zemeckis em "Forrest Gump" e de quebra mostrou que é muito mais do que um cineasta limitado ao circuito do humor judaico-intelectual-neurótico com o qual foi rotulado por parte da crítica - e até mesmo por alguns fãs.

O próprio Allen interpreta Leonard Zelig, um homem aparente comum, que, a partir do final dos anos 20, torna-se mania no mundo inteiro devido à sua condição médica: por algum motivo desconhecido, ele é capaz de metamorfosear-se em qualquer tipo de pessoa que esteja por perto. Ao lado de burgueses, ele é um deles. Perto de um obeso, torna-se obeso, e assim por diante. Intrigada com essa surpreendente novidade, a psiquiatra Eudora Fletcher (Mia Farrow) resolve tratá-lo e os dois acabam se apaixonando.

"Zelig" é, sem sombra de dúvida, um dos filmes mais criativos realizados em Hollywood nos anos 80. Irônico ao extremo e ao mesmo tempo carinhoso com seus protagonistas, o roteiro de Allen brinca com tudo que tem direito, sem nunca apelar para o riso escancarado: seu filme faz uma engraçada homenagem aos documentários, aos anos 20 de Fitzgerald e do charleston, ao nascimento da terapia, aos exageros da mídia e debocha descaradamente do nazismo e da busca por fama fácil. Além de tudo isso, ainda encontra espaço para questionar até que ponto os seres humanos podem chegar em sua procura por aceitação.


Se não bastasse seu roteiro espetacular, "Zelig" ainda conta com uma parte técnica além do excepcional. A fotografia de Gordon Willis (envelhecida propositalmente para dar o efeito de antiguidade) e a reconstituição de época são primorosas - não à toa, tanto Willis quanto o figurinista Santo Loquasto foram indicados ao Oscar por seus trabalhos. E é genial a maneira com que o diretor mistura seus protagonistas a celebridades verdadeiras (Charles Chaplin, por exemplo) e cenas de arquivo da época retratada, sem nunca perder o seu principal foco: a hilariante mas nunca pouco comovente história de Zelig e seu problema de auto-ajuste à sociedade.

"Zelig" é o perfeito exemplo de filme que merece ser visto para que se descubra suas vastas qualidades. Tudo que se disser a respeito dele sempre será incompleto, pois é, talvez, o trabalho de Woody Allen mais repleto de nuances e detalhes visuais e contextuais. Uma obra-prima irretocável!

sábado

O BEBÊ DE ROSEMARY


O BEBÊ DE ROSEMARY (Rosemary's baby, 1968, Paramount Pictures, 136min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, baseado no romance de Ira Levin. Fotografia: William Fraker. Montagem: Sam O'Steen, Bob Wyman. Música: Christopher Komeda. Produção: William Castle. Elenco: Mia Farrow, John Cassavetes, Ruth Gordon, Sidney Blackmer, Maurice Evans, Charles Grodin, Ralph Bellamy, Patsy Kelly. Estreia: 12/6/68

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Ruth Gordon), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Ruth Gordon)
Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Ruth Gordon)


Em 1969, a atriz Sharon Tate, esposa do cineasta Roman Polanski, foi violentamente assassinada a mando de Charles Manson, um lunático que se auto-proclamava Jesus Cristo. Pode ter sido apenas uma trágica coincidência, mas não deixa de ser ainda mais apavorante e angustiante assistir a “O bebê de Rosemary” à luz desse bizarro acontecimento.

Um dos mais assustadores e marcantes filmes de suspense da história, essa adaptação do romance de Ira Levin é considerada até hoje como a obra-prima de Polanski e a encarnação cinematográfica mais cruel da maternidade, tendo como cenário o Edifício Dakota, em frente ao qual, anos depois, John Lennon seria assassinado por um fã - em mais uma bizarra coincidência, Manson alegava que os Beatles, através das letras de suas músicas, é que lhe mandava mensagens subliminares...

No filme de Polanski o Dakota tem outro nome, mas os acontecimentos sinistros que se passam em seus apartamentos não deixam nada a dever aos piores pesadelos da plateia. É para esse prédio que se muda o jovem casal Woodhouse. O marido, Guy (o cineasta independente John Cassavetes) é um ator em busca de seu lugar ao sol. A esposa é a doce e tímida Rosemary (Mia Farrow, frágil e delicada na melhor atuação de sua carreira), cujo maior sonho é aumentar a família. Esse sonho logo começa a tornar-se realidade depois de um sonho onde Rosemary sonha ser violentada por uma assustadora figura. Justo quando descobre que está grávida, ela comemora também o fato de seu marido ter sido escolhido para substituir um outro ator, que ficou inexplicavelmente cego.

Emagrecendo ao invés de engordar, comendo carne crua e sentindo dores excruciantes, logo a jovem gestante começa a desconfiar que há algo de errado em sua gravidez. Afastada dos amigos e do seu médico de confiança pelo marido e pelos misteriosos e solícitos vizinhos Roman e Minnie Castevet (Sidney Blackmer e a vencedora do Oscar Ruth Gordon), ela tem acesso a um livro sobre bruxaria e passa a ter a certeza absoluta de que o filho que espera é do demônio.


Poucas vezes o cinema de suspense foi tão inclemente quanto em “O bebê de Rosemary”. Sem poupar o que é considerada a melhor fase da vida de uma mulher, o roteiro claustrofóbico do diretor (bastante fiel às páginas do livro de Levin) joga com a angústia da protagonista, que praticamente definha em frente às câmeras nervosas do fotógrafo William Fraker. Mia Farrow, que ganhou o papel em uma época difícil de sua vida (estava se divorciando de Frank Sinatra), brilha como nunca, jamais se deixando seduzir pelas armadilhas do roteiro. Sua fragilidade física contribui muito para a evolução do suspense, por isso fica difícil imaginar Jane Fonda ou Julie Christie - ambas testadas para o papel, ambas boas atrizes, mas ambas com aparências mais robustas - sentindo-se encurraladas no terror proporcionado pela situação. O elenco secundário também ajuda a criar o clima denso e pesado do filme. Não foi à toa que Ruth Gordon levou o Oscar de coadjuvante: sua atuação como a misteriosa e bisbilhoteira vizinha é com certeza uma das mais marcantes de sua carreira, com uma personagem dúbia como o final, que, fugindo admiravelmente dos clichês que assolam o gênero, deixa no ar uma dúvida cruel e apavorante: não teria sido tudo um sonho paranóico de Rosemary?

O próprio Roman Polanski, em uma reveladora entrevista que consta no lançamento do filme em dvd, afirma que construiu todo o filme em cima dessa dubiedade que na maior parte das vezes nem é percebida pelo público. Ficou convencionado de que "O bebê de Rosemary" é um filme que fala sobre uma mulher grávida do diabo, mas pouquíssimas vezes houve o questionamento básico proposto pelo diretor: e se a influenciável Rosemary apenas se deixou levar por sua mente facilmente impressionável durante um período conhecidamente vulnerável na vida de uma mulher? Talvez essa pergunta seja ainda mais interessante do que o apavorante filme de Polanski, que comprova admiravelmente o poder da sugestão ao invés do grafismo explícito que assolaria o gênero terror alguns anos depois.

Não são sustos fáceis nem sangue aos borbotões que fazem de “O bebê de Rosemary” uma obra-prima. É sua inteligência, aliada à parte técnica impecável e a um elenco inspirado que fazem com que assisti-lo seja uma experiência tão angustiante hoje quanto foi em seu lançamento. Assista com as luzes apagadas e tente dormir depois!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...