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terça-feira

A GRANDE ILUSÃO

A GRANDE ILUSÃO (All the king's men, 2006, Columbia Pictures, 128min) Direçao: Steven Zaillian. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Robert Penn Warren. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Wayne Wahrman. Música: James Horner. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Patricia Schneider. Produção executiva: James Carville, Andy Grosch, Michael Hausman, Ryan Kavanaugh, Todd Phillips, Andreas Schmid, David Thwaites. Produção: Ken Lemberger, Mike Medavoy, Arnold W. Messer, Steven Zaillian. Elenco: Sean Penn, Jude Law, Kate Winslet, Anthony Hopkins, Mark Ruffalo, Patricia Clarkson, James Gandolfini, Jackie Earle Haley, Kathy Baker, Talia Balsam, Tom McCarthy. Estreia: 10/9/06 (Festival de Toronto)

O remake de "A grande ilusão", cujo original de 1949 ganhou os Oscar de melhor filme, ator (Broderick Crawford) e atriz coadjuvante (Mercedes McCambridge), serviu para reiterar duas verdades absolutas em Hollywood: primeiro, que política é um assunto que definitivamente não atrai as plateias americanas que frequentam as salas de cinema; segundo, que nem mesmo uma seleção de atores do primeiríssimo escalão é capaz de fazer mágica quando há o desinteresse do público. Com um elenco estrelado, repleto de astros vencedores e indicados ao Oscar, o filme de Steven Zaillian - ele mesmo ganhador da estatueta pelo roteiro de "A lista de Schindler" (93) - fracassou homericamente nas bilheterias e não obteve apoio nem mesmo da crítica especializada, que praticamente ignorou sua estreia - um ano depois, aliás, da data inicialmente prevista para seu lançamento. Mas o que é mais chocante nessa história toda é que o filme, apesar de violentamente rechaçado, está muito longe de ser ruim ou medíocre: é um trabalho bastante interessante, valorizado por seus intérpretes e com uma trama de grande relevância política, especialmente nos dias que seguem.

Baseado não no filme de Robert Rossen, mas mais especificamente no romance que lhe deu origem - escrito por Robert Penn Warren e inspirado na trajetória do político Huey Long, que foi governador da Louisiana - "A grande ilusão" tem como protagonista o populista Willie Stark (Sean Penn, em grande performance), que se torna governador do estado depois de desmascarar os conchavos de políticos mais experientes que queriam usá-lo como joguete. Incensado pela população carente, que vê nele uma sinceridade que inexiste em outros candidatos, Stark vê sua ascensão incomodar as camadas mais importantes da região, homens de grande poder financeiro que se sentem ameaçados com as promessas e obras do novo líder. Embriagado pelo poder - que o faz trair sucessivamente a esposa, tanto com jovens artistas quanto com sua auxiliar de campanha, Sadie Burke (Patricia Clarkson) - Stark entra na mira de seus inimigos, que iniciam uma campanha pedindo seu impeachment. Abusando de métodos pouco ortodoxos, ele então pede ajuda ao jornalista Jack Burden (Jude Law), que o acompanha desde seus primeiros dias de vida pública, a tentar descobrir algum podre no passado de seu principal rival, o juiz Irwin (Anthony Hopkins) - que vem a ser, por coincidência, padrinho do jovem. Não bastasse tanta confusão, Burden testemunha a forma como Stark se deixa envolver pelo lado sujo do poder, o que inclui seu melhor amigo de juventude, Adam Stanton (Mark Ruffalo) e a irmã deste, seu grande amor Anne (Kate Winslet).


Apesar da profusão de personagens importantes - defendidos por atores nunca aquém de brilhantes - e da trama com mais de um foco de interesse, "A grande ilusão" não incorre no erro tão comum de confundir o espectador, com idas e vindas desnecessárias: sempre que faz uso de flashback, o roteiro de Zaillian o faz com inteligência e parcimônia, servindo-se dele para iluminar detalhes a respeito de seus protagonistas e explicar ao público os caminhos que os levaram até determinado ponto da narrativa. Vista sob a ótica de Jack Burden - um Jude Law injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação - e, portanto, com um certo distanciamento que vai sumindo aos poucos, a história de Willie Stark não prescinde de tramoias, ameaças, chantagens e violência, mas, ao situar a trama na década de 50 (décadas antes da mídia imediatista dos dias atuais), o diretor/roteirista de certa forma justifica os atos quase desprezíveis de seu personagem central. É perceptível que, apesar dos erros cometidos por Stark em sua ascensão, há uma certa dose de simpatia por ele - talvez devido à atuação cheia de garra de Sean Penn, talvez devido à maneira brutal com que ele é desprezado pelos poderosos. Essa ambiguidade, bem retratada por Zaillian é outro ponto forte do filme, que jamais aponta uma verdade absoluta sobre Stark, oferecendo à plateia algo a refletir mesmo depois do fim da sessão.

Logicamente, o filme de Zaillian não é perfeito, e sua demora em engrenar é um de seus pecados - a primeira sequência, que mostra Stark, Burden e seu segurança/capanga (Jackie Earle Haley) em direção à residência de um de seus inimigos mais confunde do que intriga. A transformação de Stark também é um tanto problemática, uma vez que não fica muito claro ao espectador em que momento de sua trajetória ele se deixou seduzir pelo poder fácil e por suas vantagens - e qual o destino de sua esposa, a princípio importantíssima em suas decisões e repentinamente desaparecida da narrativa. Mas são defeitos pequenos diante de um filme forte, interessante e realizado perceptivelmente com esmero e dedicação - Sean Penn e Mark Ruffalo, por exemplo, são atores politicamente engajados, o que deve ter contribuído consideravelmente em suas decisões de participar do projeto. Uma pena que não encontrou sua audiência: "A grande ilusão" é um filme que merece ser descoberto.

quarta-feira

UM DIA

UM DIA (One day, 2011, Focus Features, 107min) Direção: Lone Scherfig. Roteiro: David Nicholls, romance de David Nicchols. Fotografia: Benoit Dellhome. Montagem: Barney Pilling. Música: Rachel Portman. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Dominic Capon. Produção executiva: Tessa Ross. Produção: Nina Jacobson. Elenco: Anne Hathaway, Jim Sturgess, Patricia Clarkson, Romola Garai, Rafe Spall. Estreia: 08/8/11

Parafraseando Nelson Rodrigues, "envergonha-me estar aqui proclamando o óbvio", mas, ao assistir-se à adaptação para o cinema de um livro querido é preciso estar perfeitamente ciente de que é virtualmente impossível ficar totalmente satisfeito. Isso acontece com uma raridade impressionante. Aconteceu com "As horas", magistral transição do romance de Michael Cunninhgam por Stephen Daldry em 2002. Aconteceu de novo em 2007 com "Desejo e reparação", que Joe Wright dirigiu com base no espetacular drama literário de Ian McEwan. Mas infelizmente não aconteceu com "Um dia", que a dinamarquesa Lone Scherfig assina depois do êxito de seu "Educação", que ano passado chegou a concorrer ao Oscar de Melhor Filme. Tudo bem, o livro de David Nicholls não é uma obra-prima como os citados trabalhos de Cunningham e McEwan, mas é uma leitura deliciosa, ágil, comovente,engraçada e inteligente como poucas conseguem ser. E sua versão em celuloide pode até não ser um filme que vá ganhar estatuetas a granel, mas tem uma honestidade e uma simpatia tão grandes que é difícil não relevar seus pecadilhos.

Ao acompanhar vinte anos na vida de um casal de amigos que se conhece na formatura da faculdade - e que nunca deixam de se falar, escondendo até deles mesmos a paixão que sentem um pelo outro - o roteiro de David Nicholls falha em fazer um inventário de sonhos despedaçados, relacionamentos frustrados e outras tantas decepções pelas quais todos passamos. Enquanto no livro tudo é emocionante e frequentemente hilariante devido à prosa esperta do autor, no filme as coisas acontecem com uma velocidade tão grande que muitas vezes os protagonistas não conseguem atingir o grau de realismo e densidade necessários. Logicamente é preciso muito malabarismo para condensar duas décadas em pouco mais de cem minutos de projeção, mas a pressa com que o roteiro passa por momentos cruciais das personagens - em especial quando eles finalmente começam a amadurecer - acaba prejudicando sua complexidade, deixando-os quase como duas personagens clichê de comédias românticas, o que - e quem leu o livro sabe disso - não pode estar mais longe da verdade.


Dexter Mayhew (vivido com graça e carisma por Jim Sturgess) e Emma Morley (interpretada pela linda e talentosa Anne Hathaway) são apaixonantes. Ele é sedutor, imaturo, no limite do egocentrismo. Ela é inteligente, ambiciosa e idealista. Eles passam a noite juntos no dia 15 de julho de 1988 e prometem ser amigos. Ele torna-se apresentador de um programa ruim de TV, envolve-se com drogas, mulheres e um certo tipo nocivo de fama até se casar com uma mulher que não ama (Romola Garai, de "Desejo e reparação"). Ela vira garçonete, inicia um relacionamento com um aspirante a humorista (Rafe Spall) mas jamais desiste de ser uma escritora. Eles nunca deixam de se falar. Mas são incapazes de perceber que se amam (ou pelo menos escondem esse sentimento tão fundo que desenterrá-lo pode trazer mais dor do que felicidade). Até que um dia...

Os românticos irão se deliciar com "Um dia". É um filme lindamente fotografado, com uma bela trilha sonora de Rachel Portman, dirigido com sensibilidade e leveza e repleto de um clima de delicadeza que se torna patente quando o roteiro permite que Sturgess brilhe com seu perdido Dexter (em especial em suas cenas com o ótimo Ken Stott, que interpreta seu pai ou com a sempre eficiente Patricia Clarkson, que interpreta sua mãe) ou com sua química com Hathaway (ainda que ela esteja aquém das possibilidades mostradas em filmes como "O casamento de Rachel" ou até mesmo em "Amor e outras drogas" e nem sempre consiga sustentar o sotaque inglês). É uma história de amor que emociona por tratar de pessoas de verdade e por fugir (dentro de suas possibilidades) de um final previsível. Quem leu o livro vai dizer (com razão) que poderia ser melhor. Mas ainda assim é um belo programa para os fãs do gênero e tem tudo para tornar-se cult com o passar dos anos.

terça-feira

AMIZADE COLORIDA

AMIZADE COLORIDA (Friends with benefits, 2011, Screen Gems/Castle Rock Entertainment, 109min) Direção: Will Gluck. Roteiro: Keith Merryman, David A. Newman, Will Gluck, estória de Harley Peyton, Keith Merryman, David A. Newman. Fotografia: Michael Grady. Montagem: Tia Nolan. Figurino: Renee Ehrlich Kalfus. Direção de arte/cenários: Marcia Hinds/Cindy Coburn, Alyssa Winter. Produção executiva: Glenn S. Gainor. Produção: Liz Glotzer, Will Gluck, Martin Shafer, Janet Zucker, Jerry Zucker. Elenco: Justin Timberlake, Mila Kunis, Woody Harrelson, Patricia Clarkson, Richard Jenkins, Jenna Elfman, Bryan Greenberg, Nolan Gould, Andy Samberg. Estreia: 18/7/11

Talvez reflexo inconsciente das relações modernas, filmes sobre casais que elegem o sexo como base para seu relacionamento - sem que exista nenhum outro tipo de vínculo sentimental - e depois se apaixonam pipocaram nas telas de cinema como nunca em 2011, com qualidades variadas. Houve o ótimo "Amor e outras drogas", com Jake Gylenhaal e Anne Hathaway e houve o tenebroso "Sexo sem compromisso", com Natalie Portman e Ashton Kutcher. No meio do caminho entre os dois fica "Amizade colorida", o divertido e sexy filme estrelado por Justin Timberlake e Mila Kunis e dirigido por Will Gluck, cujos créditos anteriores incluem o pouco visto, mas muito engraçado, "A mentira" - cuja estrela, Emma Stone, aparece aqui em uma pequena participação especial como a namorada que dá o fora no protagonista na primeira cena.

No filme de Gluck, a bela Kunis interpreta Jamie, uma caça-talentos de Nova York que convence o jovem diretor de arte Dylan (vivido com surpreendente timing cômico por Timberlake) a sair de Los Angeles e mudar-se para a Grande Maçã, para trabalhar para a revista GQ. Ambos saídos de relacionamentos fracassados, Jamie e Dylan tornam-se amigos e, bonitos, inteligentes e sexies, resolvem iniciar uma relação de sexo sem compromisso. Logicamente as coisas não andam da maneira com que eles pretendem (mas seguem à risca as comédias românticas que Jamie adora): eles se apaixonam um pelo outro, ainda que a princípio não o percebam e renegam o sentimento enquanto podem, mesmo quando as evidências estão bem diante de seus olhos. Quem irá ajudá-los a esclarecer as coisas são pessoas tão díspares quanto a mãe promíscua de Jamie (vivida por Patricia Clarkson, sempre ótima em personagens liberais), o editor de esportes homossexual da GC (Woody Harrelson, sem levar-se a sério, como de hábito) e o pai de Dylan, um homem abandonado pela esposa e que sofre de Alzheimer (Richard Jenkins).


Logicamente o roteiro de "Amizade colorida" é repleto de clichês (e é o tipo de filme cujo final se adivinha só de olhar-se o cartaz). Mas a grande sacada - e que o diferencia de bombas como "Sexo sem compromisso" - são alguns diálogos realmente engraçados, os coadjuvantes afiados e que não servem apenas para fazer piada (Clarkson e Richard Jenkins, ambos de "A sete palmos" estão ótimos) e a química sensacional entre seus protagonistas. Kunis, que já se atracou com Natalie Portman em "Cisne negro", já provou que não tem pudores e Timberlake mostra-se extremamente à vontade em cenas pra lá de provocantes que mixam com equilíbrio invejável uma sensualidade discreta e um bom-humor muito bem-vindo. Mesmo quando não estão na cama, Kunis e Timberlake convencem o público que estão apaixonados (mesmo que não o saibam) e conseguem o que qualquer dupla romântica sonha em filmes como este: uma torcida por seu final feliz. E Will Gluck sabe, como poucos cineastas recentes, brincar com as referências pop do espectador e utilizá-las a seu favor.

Tudo bem que "Amizade colorida" não vai mudar a vida de ninguém, nem tampouco consegue escapar da queda de ritmo em sua segunda metade, quando o humor picante e desbocado da primeira fase dá lugar ao drama e a um romantismo convencional. Mas é tão charmoso, despretensioso e bem-humorado (outro destaque é sua maneira de tratar a rivalidade entre Los Angeles e Nova York, com seus hábitos muito diferentes) que é impossível não se deixar cativar. Uma grata surpresa que mostra que Will Gluck é um nome a se memorizar.

quinta-feira

A MENTIRA

A MENTIRA (Easy A, 2010, Screen Gems/Olive Bridge Entertainment, 92min) Direção: Will Gluck. Roteiro: Bert V. Royal. Fotografia: Michael Grady. Montagem: Susan Litterberg. Música: Brad Segal. Figurino: Mynka Draper. Direção de arte/cenários: Marcia Hinds/Karen Agresti. Produção: Zanne Devine, Will Gluck. Elenco: Emma Stone, Amanda Bynes, Dan Byrd, Penn Badgley, Thomas Haden Church, Patricia Clarkson, Lisa Kudrow, Malcolm McDowell, Stanley Tucci. Estreia: 11/9/10 (Festival de Toronto)

De vez em quando as comédias adolescentes - gênero pródigo em empurrar belas porcarias à audiência - geram uma ovelha negra, um filme que, além de divertido e inofensivo, consegue atingir um patamar acima de seus semelhantes utilizando-se apenas de um elemento cada vez mais raro: a inteligência. Foi isso que aconteceu, por exemplo, com "Eleição", de Alexander Payne, realizado em 1999 e estrelado por Reese Witherspoon, que lançava mão de um humor irônico e sarcástico como forma de criticar a obsessão dos americanos pelo sucesso a qualquer custo. Um dos exemplares desse grupo tão rarefeito é "A mentira", uma cáustica comédia que, do nada, tornou-se um grande sucesso de bilheteria nos EUA - rendeu quase 60 milhões de dólares - e deu à sua protagonista, Emma Stone, uma merecida indicação ao Golden Globe de melhor atriz em comédias ou musicais.

Stone - que anos depois teve a oportunidade de viver Gwen Stacy na nova versão do Homem-aranha nos cinemas - deita e rola nas enormes oportunidades que o divertido roteiro lhe proporciona. Ela vive Olive Penderghast, uma estudante secundarista sem maiores atrativos que, depois de ter contado uma pequena e inocente mentira à sua melhor amiga a respeito de ter perdido a virgindade, vira o assunto da escola. Taxada de "fácil", ela torna-se popular do dia para a noite, e, quanto mais tenta ajudar seus colegas a subirem de status dentro do universo escolar - mentindo sobre noites de sexo com todos os nerds que conhece, inclusive seu amigo gay, Brandon (Dan Byrd) - mais ela complica sua situação, principalmente quando se descobre apaixonada por um amigo de infância, Todd (Penn Badgley).


Logicamente a trama de "A mentira" não é das mais criativas, mas a forma como a história de Olive é contada faz toda a diferença. Repleto de referências culturais - que vão do pop de "Crepúsculo" e John Hughes aos clássicos literários de Nathaniel Hawthorne e Mark Twain - e de um humor ácido e extremamente engraçado (ao menos para o público mais antenado), o script do estreante Bert V. Royal brinca com a hipocrisia da sociedade americana e com seus exageros religiosos da mesma forma que o ótimo e subapreciado "Galera do mal", de 2004, ainda que com menos contundência. Nem mesmo o artíficio um tanto batido de ter a protagonista contando sua história em flashback diminui seu frescor e inteligência. Com piadas sendo lançadas em ritmo vertiginoso e com um apelo afetivo a filmes essenciais para a cultura cinematográfica dos filhos dos anos 80 - "Clube dos cinco", "Namorada de aluguel" e "Digam o que quiserem" são citados nominalmente - "A mentira" conquista pela simpatia e pelo bom humor irresistível. E, logicamente, não atrapalha ter ótimos atores em seu elenco de apoio, como Stanley Tucci e Patricia Clarkson - como os modernos pais da protagonista -   e Lisa Kudrow, da série "Friends" que, mesmo utilizando os mesmos trejeitos de sua Phoebe Buffay, ainda consegue ser muito engraçada como a conselheira da escola, que também tem seus segredinhos sujos.

Uma ótima comédia romântica adolescente que tem tudo para agradar bem mais do que seu público-alvo - justamente por ousar mais, em termos de sarcasmo, do que seus congêneres - "A mentira" é o tipo de filme que trata o cérebro do espectador com carinho, e o faz rir graças à sua inteligência e leveza. Não muda a vida de ninguém, mas deixa todo mundo com um belo sorriso no rosto.

domingo

A GAROTA IDEAL

A GAROTA IDEAL (Lars and the real girl, 2007, MGM Pictures/Sidney Kimmel Entertainment, 106min) Direção: Craig Gillespie. Roteiro: Nancy Oliver. Fotografia: Adam Kimmel. Montagem: Tatiana S. Riegel. Música: David Torn. Figurino: Kriston Leigh Mann. Direção de arte/cenários: Arv Grewal/Steve Shewchuck. Produção executiva: Peter Berg, Whitney Brown, William Hornberg, Bruce Toll. Produção: Sarah Aubrey, John Cameron, Sidney Kimmel. Elenco: Ryan Gosling, Emily Mortimer, Paul Schneider, Patricia Clarkson, Kelli Garner, Nancy Beatty. Estreia: 16/9/07 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Bianca é linda, sexy e tímida. Adorável, leal e cativante. Meio brasileira e meio dinamarquesa, é órfã e conquista a todos com sua simpatia e caráter. Bianca é a mulher que todo homem pediu a Deus. Exceto seu namorado, Lars, que a pediu por outros meios: sim, Bianca é perfeita, mas não é humana. É uma boneca feita de silicone e encomendada através da Internet, o que não a impediu de deixar seu novo namorado absoluta e totalmente apaixonado - a ponto de levá-la para morar na casa de seu irmão e sua cunhada para não despertar o falatório da pequena cidade onde mora. Tímido, desajeitado e quase antissocial - a ponto de não conseguir tocar em outras pessoas sem sentir-se queimado fisicamente - Lars encontra em Bianca a companhia perfeita. E parece ser o único a perceber que a mulher de sua vida não se encaixa nos padrões normais da sociedade - fato que, afinal, acaba se tornando parte da rotina do local, quando os moradores, que viram o rapaz crescer e tem por ele um amor incondicional, entram no jogo para não magoá-lo e passam a tratar Bianca como parte integrante da comunidade.

Esse é o ponto de partida - fascinante, um tanto quanto bizarro, mas muito criativo - de "A garota ideal", comédia dramática do estreante Craig Gillespie e que concorreu merecidamente ao Oscar 2008 de melhor roteiro original. Ao sobrepor a uma trama quase inacreditável um senso notável de realismo e contar com uma atuação irrepreensível de Ryan Gosling no papel do introvertido Lars Lindstrom, Gillespie constroi um filme de delicadeza ímpar, que seduz a plateia graças à empatia dos personagens e à maneira com que a trama se desenvolve - sem sobressaltos, com a placidez típica das cidades pequenas e com um equilíbrio perfeito entre humor e emoção, que evita tanto a gargalhada histérica quanto as lágrimas fáceis. Pode não ser um filme para todo mundo - é preciso uma certa "suspensão de realidade" para embarcar sem reservas na história - mas é, sem sombra de dúvida, uma pérola a ser resgatada dentre as dezenas de comédias dramáticas insossas que Hollywood despeja frente aos espectadores a cada temporada.


A grande ideia de "A garota ideal" nem é optar por uma boneca de silicone como protagonista feminina de uma história de amor - e não sexo puro e simples, ao estilo "American pie", onde ela se encaixaria com mais facilidade: seu maior trunfo é a forma como o roteiro se utiliza dessa premissa inicial para mergulhar fundo na psicologia de Lars, um jovem traumatizado por uma infância solitária e emocionalmente carente que encontra em seu relacionamento com uma mulher idealizada a maneira menos dolorida de lidar com seus fantasmas. Suas conversas com Dagmar (Patricia Clarkson), a médica que ele procura para lidar com a "anemia" de Bianca acabam por fazê-lo encarar suas limitações em relação à família - Gus (Paul Schneider), que sente-se culpado pela condição extrema do irmão, e Karin (Emily Mortimer), a cunhada grávida e esforçada em adequá-lo à uma vida normal - e os colegas de trabalho, entre as quais a igualmente tímida Margo (Kelli Garner), que sente uma indisfarçável atração por ele.

Vindo de uma indicação ao Oscar de melhor ator por "Half Nelson" - inédito nos cinemas brasileiros - e começando a construir uma carreira repleta de personagens fortes e interessantes, Ryan Gosling está excepcional como Lars, em uma interpretação rica em termos físicos e emocionais. Transmitindo sem muito esforço uma vasta gama de sentimentos - de inadequação, de paixão, de medo, de tristeza, de raiva - Gosling mostra porque tornou-se um dos atores jovens mais requisitados de sua geração nos anos seguintes. É principalmente devido à veracidade de seu desempenho que a trama, por mais surreal que pareça, soa natural e verossímil diante dos olhos do espectador, encantado diante de um filme simples e sensível, que aposta no inusitado para atingir o coração do público.A

quarta-feira

ILHA DO MEDO

ILHA DO MEDO (Shutter Island, 2010, Paramount Pictures, 138min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Laeta Kalogridis, romance de Dennis Lehane. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesca Lo Schiavo. Produção executiva: Chris Brigham, Laeta Kalogridis, Dennis Lehane, Gianni Nunnari, Louis Philips. Produção: Mike Medavoy, Arnold W. Messer, Martin Scorsese. Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Michelle Williams, Ben Kingsley, Max Von Sydow, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley, John Carrol Lynch, Elias Koteas, Emily Mortimer, Ted Levine. Estreia: 13/02/10 (Festival de Berlim)

Nenhum fã de cinema de verdade pode, em sã consciência negar o fato de que Martin Scorsese é um dos cineastas mais geniais em atividade em Hollywood. Quem duvida só precisa dar uma conferida na lista de algumas de suas obras-primas e perceber que esta não é uma declaração leviana: "Taxi driver", "Touro indomável", "A última tentação de Cristo" e "Os bons companheiros" são filmes essenciais do panorama do cinema americano dos últimos 40 anos. Por isso não deixa de ser decepcionante assistir-se a "Ilha do medo", seu primeiro trabalho pós-Oscar por "Os infiltrados". Nem mesmo o fato de basear-se em um espetacular romance de Dennis Lehane (que também escreveu "Sobre meninos e lobos", filmado por Clint Eastwood) salva o filme de ser apenas um esboço do que poderia ter sido, caso escolhas mais corretas tivessem sido feitas no processo de produção.

Talvez o maior erro do filme seja a escolha de Leonardo DiCaprio para o papel principal. Novo queridinho de Scorsese - substituindo sem o mesmo brilho sua parceria com Robert DeNiro nos anos 70 e 80 -, o astro de "Titanic" ainda não consegue convencer como adulto, sempre deixando capenga filmes que poderiam ter sido melhores com outro ator em seu lugar (alguém duvida que "O aviador" poderia ter sido infinitamente melhor com alguém do porte de Edward Norton, por exemplo?). Sendo assim, mais uma vez ele atrapalha o resultado final. Não que seja mau ator, apenas é um tanto limitado, incapaz de alçar voos maiores. Aqui mesmo ele alterna momentos de puro tédio com alguns lapsos de brilhantismo (uma pena que tão poucos).



Mas não se pode culpar apenas DiCaprio pelos equívocos do filme. A própria trama é intrincada o bastante para servir maravilhosamente bem a um romance, mas como roteiro, tropeça em seu excesso de informações, levando o espectador para tantas direções diferentes que em determinado momento a impressão que se tem é que nem mesmo a roteirista sabe pra onde está indo. O próprio clímax demora tanto a acontecer que, quando ocorre, não tem mais o impacto que teria caso tivesse acontecido uns bons minutos antes. O livro de Lehane (lançado no Brasil com o apropriado título de "Paciente 67" e relançado com o nome do filme - uma prova da falta de criatividade das editoras nacionais) é excepcional, com surpresas constantes e um ritmo invejável. Sua adaptação, no entanto, sofre do mesmo mal da maioria das adaptações: é fiel à trama, mas não busca soluções apropriadas à linguagem cinematográfica. Quando tenta fugir do literário, nem o próprio Scorsese consegue escapar do clichê e de um surrealismo banal e sem maiores surpresas. Até mesmo o visual de "Ilha do medo" - cujo título força uma ligação com "Cabo do medo", do mesmo diretor - sofre de certa esquizofrenia, misturando cores e texturas sem maiores explicações lógicas a não ser que se converse com o próprio diretor e ele explique suas ideias - coisa que ninguém tem a oportunidade de fazer. E dizer que até mesmo a edição da até então infalível Thelma Schoonmaker - que edita seus filmes há décadas - tem falhas gritantes (que mesmo explicáveis devido ao tom do filme incomodam mais do que ajudam) apenas comprova que algo errado está acontecendo quando se diz que esta é a maior bilheteria da carreira do diretor.

Certamente foi o nome de DiCaprio no cartaz que levou boa parte do público do filme às salas de cinema - e mesmo assim, é difícil acreditar que eles tenham gostado de um trabalho assim tão fora do padrão para o ídolo de metade das adolescentes de 1998. Ele interpreta - com seus habituais trejeitos - o policial Ted Daniels, veterano da II Guerra que, como agente do FBI chega a uma sombria ilha onde vivem pacientes psiquiátricos graves. Acompanhado do parceiro Chuck (Mark Ruffalo) e traumatizado pela morte da esposa (Michelle Williams) em um incêndio, ele tem a missão de localizar - dentro das instalações da ilha - uma interna perigosa, que matou os próprios filhos e desapareceu misteriosamente. Enquanto investiga o sumiço da paciente, ele passa a desconfiar que sua presença no local faz parte de uma conspiração governamental. O encontro com uma ex-doutora (Patricia Clarkson, a melhor coisa do filme) apenas aumenta sua confusão, que o leva a um confronto com os principais médicos do local (vividos por Ben Kigsley e Max Von Sydow).

O fato é que "Ilha do medo" não é um material apropriado a Scorsese. Longe de seu habitat natural - leia-se sua Nova York escura e violenta - ele tateia em busca de uma assinatura visual que não condiz com a trama que se desenrola frente aos olhos do espectador. É um filme sem a energia inata a ele, sem a força que ele normalmente imprime a seus trabalhos. É um bom filme, bastante superior à média - pelo menos exige bem mais cérebro que seus congêneres - mas uma decepção em termos de Scorsese. Ainda bem que logo em seguida ele veio com o brilhante e encantador "A invenção de Hugo Cabret", para deixar para trás esse pequeno tropeço em uma trajetória excepcional.

quinta-feira

TUDO PODE DAR CERTO


TUDO PODE DAR CERTO (Whatever works, 2009) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Harris Savides Montagem: Alisa Lepselter Figurino: Suzy Benzinger Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Ellen Christiansen Produção executiva: Brahim Chioua, Vincent Maraval Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum Elenco: Larry David, Evan Rachel Wood, Henry Cavill, Patricia Clarkson, Ed Begley Jr. Estreia: 22/4/09

Boris Yellkinoff é um sexagenário a um passo da misantropia, que passa seus dias ensinando xadrez a crianças que ele considera zumbis sem cérebro e pregando a seus amigos sua visão particular (e obviamente negativa) do mundo, da vida e da humanidade em geral, que ele considera um fracasso absoluto. Manco de uma perna – consequência de uma abortada tentativa de suicídio ocorrida à época de seu divórcio – e incapaz de dar-se ao luxo de um simples prazer, ele também sofre de um transtorno psicológico que o faz cantar “Parabéns a você” quatro vezes sempre que lava as mãos e é o protagonista de “Tudo pode dar certo”, 45º filme de Woody Allen, que volta à sua Nova York natal depois de uma refrescante volta ao mundo que legou aos fãs obras geniais como “Match point: ponto final” (rodado na Inglaterra) e “Vicky Cristina Barcelona” (que, como o próprio título deixa claro, se passava na Espanha). Interpretado por Larry David – conhecido do público por seu papel na série de TV “Curb your enthusiasm” – Yelnikoff é mais um personagem icônico criado por Allen, um diretor que, apesar da longevidade da carreira e da prolífica produção, ainda encontra meios de surpreender e encantar a plateia, mesmo que em pequenas proporções.
“Tudo pode dar certo” não é um dos melhores filmes do cineasta, mas ainda assim tem momentos brilhantes – em especial graças aos diálogos inteligentes e sardônicos – e alguns insights geniais a respeito do mundo e da sociedade atuais (difícil não ver em Yelnikoff muito do próprio Allen, que por mais que tente, nunca consegue convencer crítica e público que seus personagens são totalmente obra de ficção e não inspirados em sua própria e conhecidíssima persona). Boris é um resmungão chato e rabugento, mas não deixa de ter razão em muitas de suas afirmações, o que o torna deliciosamente verdadeiro: percebendo antes de todo mundo a insignificância dos problemas humanos e acreditando piamente que os homens não tem dentro de si a bondade inerente que muitos afirmam, ele é um espectador atento do colapso da Criação, mas seu mau-humor e cinismo constantes são tão desprovidos de maldade que se tornam hilariantes e encantadores, especialmente para a segunda protagonista criada por Allen – tão radicalmente diferente em sua inocência e otimismo que acaba, inevitavelmente, colidindo e invadindo compulsoriamente o mundinho cético do veterano professor.



Melody Celestine (a bela e talentosa Evan Rachel Wood, de “Aos treze” (03) e “Across the universe” (07) é o extremo oposto de Boris. Ingênua, otimista e pouco dotada intelectualmente, ela chega à Nova York disposta a vencer na vida – o que ela acha que pode acontecer facilmente, haja visto seus prêmios em concursos de beleza em sua pequena cidade do interior do país. Contrariando todas as regras que sua ojeriza à boa parte das pessoas manda, o homem que um dia foi candidato a um Nobel de Física deixa que a jovem – que não conhece ninguém na cidade e nem tem onde dormir - entre em seu apartamento e passe a noite lá. Quando ele percebe, já se passaram meses e a situação não dá sinais de mudança – a não ser na personalidade da própria Melody, que passa a ver o mundo com os olhos do novo amigo até que se declara, para surpresa geral, apaixonada por ele. Os dois universos aparentemente antagônicos acabam por se unir em um casamento inusitado, mas uma nova visita pode pôr tudo a perder: abandonada pelo marido, sem a propriedade que foi obrigada a vender e querendo reaproximar-se da filha, a mãe de Melody, Marietta (Patricia Clarkson, sempre ótima) chega à Manhattan – e ao mesmo tempo em que se envolve simultaneamente com dois homens e descobre a fotografia como carreira, resolve livrar a filha do relacionamento com Boris, aproximando-a do jovem ator inglês Randy James (Henry Cavill, o futuro “Homem de aço” (13)).



Mesmo sem apresentar nada de muito novo dentro do universo no qual transitam suas criações, Woody Allen consegue, em “Tudo pode dar certo”, conquistar o público com personagens deliciosamente construídos, repletos de contradições e angústias como qualquer pessoa normal. Com sua visão ácida da vida e a experiência adquirida em décadas de carreira, o cineasta/roteirista demonstra um conhecimento único da alma humana, brindando suas criações com uma dose certeira de coerência e impulsividade. É assim que a religiosa e rígida Marietta abandona a conduta irretocável de sua vida pregressa para entregar-se a um relacionamento afetuoso e satisfatório com dois homens ao mesmo tempo – mas nem por isso deixa de lado a vontade de encontrar para a filha um homem mais adequado à sua idade e possibilidades futuras. É assim que Melody se encanta por um homem com idade para ser seu avô por causa de sua forma quase crua de enxergar o mundo – mas acaba percebendo que isso o impede (e a ela, por consequência) de enxergar as coisas boas da vida. É assim que o pai de Melody (Ed Begley Jr.) redescobre uma nova faceta de sua vida – escondida até de si mesmo por décadas – quando chega à cidade atrás da ex-mulher. E, finalmente, é assim que Boris descobre, da maneira mais prosaica do mundo, que nem tudo é parte de um plano maior – e que é preciso fazer o que for mais acessível para finalmente encontrar um mínimo de felicidade.
Contrastando com o pessimismo irredutível de algumas das obras mais bem-sucedidas de Allen (caso do excepcional “Crimes e pecados”, de 1989), o final feliz de “Tudo pode dar certo” contraria até mesmo a forma como Boris apresenta o filme, quebrando a quarta parede e dirigindo-se diretamente ao público. Segundo ele, o que está para ser visto não é um filme alto-astral, feito para agradar e fazer com que todos saiam do cinema sorrindo e felizes. Mas, de forma irônica e como que enfatizando a impotência do homem em ditar as regras do seu futuro, Allen faz com que o desfecho da trama vire pelo avesso as teorias radicais de seu ranzinza protagonista, dando até mesmo a ele a chance de uma redenção e revisão de ideologias. No fim das contas, é um Woody Allen otimista e benevolente que se mostra em “Tudo pode dar certo” – o que, de certa forma, não deixa de ser também uma reversão de expectativas das mais agradáveis e bem-vindas.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...