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segunda-feira

O MAURITANO

 


O MAURITANO (The Mauritanian, 2021, Wonder Street/BBC Films, 129min) Direção: Kevin Macdonald. Roteiro: Michael Bronner (M. B. Traven), Rory Haines, Sohrab Noshirvani, livro "Guantánamo Diary", de Mohamedou Ould Slahi, Larry Siems. Fotografia: Alwin H. Kuchler. Montagem: Justine Wright. Música: Tom Hodge. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: James Collett/Michele Barfoot. Produção executiva: Michael Bloom, Adam Fogelson, John Friedberg, Dan Friedkin, Rose Garnett, Micah Green, Robert Halmi, Ryan Heller, Zak Kilberg, Jim Reeve, Rober Simonds, Russell Smith, Daniel Steinman, Maria Zuckerman. Produção: Adam Ackland, Michael Bronner, Leah Clarke, Benedict Cumberbatch, Christine Holder, Mark Holder, Beatriz Levin, Lloyd Levin, Branwen Prestwood Smith. Elenco: Tahar Rahim, Jodie Foster, Benedict Cumberbatch, Shailene Woodley, Denis Ménochet. Estreia: 12/02/2021 

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Jodie Foster)

Nos meses imediatamente posteriores aos atentados de 11/9, o governo norte-americano tornou-se obcecado na caça aos responsáveis pela tragédia – conforme Kathryn Bigelow mostrou quase didaticamente em seu “A hora mais escura” (2012). No rastro desse apetite por vingança, nem sempre cumpriu à risca tudo aquilo que prega sob sua máscara de defensor ferrenho da democracia, e muitas vezes escorregou feio ao impor a força bruta em detrimento da inteligência – algo que o cineasta sul-africano Gavin Hood denunciou em “O suspeito”, seu subestimado thriller lançado em 2007. Os abusos cometidos pelos EUA em nome de justiça – e sua absoluta falta de escrúpulos em encontrar bodes expiatórios – volta às telas em “O mauritano”, contundente drama político dirigido pelo escocês Kevin Macdonald que deu à Jodie Foster o Golden Globe de melhor atriz coadjuvante deste ano e nem tão surpreendentemente assim, levando-se em consideração seu tema, foi solenemente ignorado pela Academia.

Temas politicamente controversos não assustam Macdonald, um cineasta que tem em seu currículo o oscarizado documentário “Munique, 1972: um dia em setembro” (1999) – sobre o atentado terrorista que matou atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique – e o elogiado “O último rei da Escócia” (2006) – que retratava sem pudor as atrocidades cometidas na Uganda sob o comando de Idi Amin. Tal característica faz dele o diretor ideal para um roteiro que, se não é exatamente inovador em suas revelações sobre o tratamento dado pelos EU a seus pretensos inimigos, ao menos não subestima a inteligência do público - nem tampouco evita ilustrar seus pontos de vista com sequências bastante incômodas. Assim como no filme que deu o Oscar de melhor ator a Forest Whitaker, em “O mauritano” não faltam cenas de violência explícita, ainda que coerentes com a trama e o clima denso da narrativa. Macdonald intercala momentos quase pacíficos – longos diálogos e manobras jurídicas – com explosões de uma crueldade física e psicológica capazes de revoltar ao mais zen dos espectadores. Para isso, conta com um time de colaboradores brilhantes: da trilha sonora angustiante de Tom Hodge à fotografia caprichada do alemão Alwin H. Kuchler (de “Steve Jobs”), tudo funciona para sublinhar a tensão constante do roteiro – que surpreende ao fugir dos clichês dos filmes de julgamento ao focar sua atenção não no tribunal, e sim em seus preâmbulos.


 Enquanto na maioria dos filmes hollywoodianos o clímax sempre acontece no embate entre defesa e promotoria – com revelações de última hora e reviravoltas inesperadas -, em “O mauritano” o jogo acontece muito antes que qualquer personagem surja diante de um juiz. Tudo começa quando, poucos meses depois do atentado ao World Trade Center, o mauritano Mohamedou Ould Slahi (Tahar Rahim) é preso e levado à prisão militar de Guantánamo, onde passa anos sofrendo de frequentes sessões de tortura e interrogatórios violentos. Largado na prisão por mais de uma década – sem ao menos uma acusação formal -, Mohamedou só vê uma luz no fim do túnel quando seu caso cai nas mãos de Nancy Hollander (Jodie Foster, competente como sempre), uma advogada especializada em causas humanitárias que usa de todas as suas armas e experiência para 1) ganhar a confiança do novo cliente, e 2) ter acesso aos documentos que podem lhe esclarecer (e aos tribunais) os motivos que levaram à sua prisão. O acusado, depois de anos de maus-tratos, não confia facilmente em sua nova defensora e até parece esconder alguns segredos cruciais – mas a justiça precisa ser feita e a lei, cumprida. E mesmo sem confiar plenamente na inocência de Mohamedou, Hollander entra em rota de colisão com o promotor Stuart Couch (Benedict Cumberbatch) – também pouco confortável com as meias-verdades da investigação.

Corajoso em enfrentar a imagem de defensor da democracia que os EUA tentam vender incansavelmente, “O mauritano” sofre com um ritmo irregular – apesar dos esforços da edição em criar vários tempos como forma de agilizar a narrativa. Jodie Foster, Benedict Cumberbatch e Shailene Woodley (como a advogada assistente de Hollander) são atores excepcionais, mas nem mesmo eles conseguem evitar uma certa queda de interesse em alguns momentos – especialmente quando comparados com todas as cenas em que Tahar Rahim está presente. Revelado no premiado “O profeta” (2009), Rahim apresenta um desempenho arrebatador, oferecendo consistência a um personagem cuja dubiedade é um de seus maiores trunfos. Às vezes simpático e ocasionalmente suspeito, Mohamedou é a prova viva de que, culpados ou inocentes, todos merecem o melhor e mais isento julgamento possível – algo que, conforme aponta o filme de Kevin Macdonald, nem sempre acontece nos domínios da terra do Tio Sam. Forte e contundente, “O mauritano” é um filme importante e relevante, uma história real que, mais do que apenas indignar e chocar, reafirma os reais bastidores da guerra ao terror imposta pelos EUA ao redor do mundo. Não é uma obra-prima, mas é suficientemente bem orquestrada para ressoar por um bom tempo na mente do público.

sexta-feira

SNOWDEN: HERÓI OU TRAIDOR

SNOWDEN: HERÓI OU TRAIDOR (Snowden, 2016, Endgame Entertainment/Vendian Entertainment/KrautPack Entertainment, 134min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Kieran Fitzgerald, livro de Anatoly Kucherena e Luke Harding. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Alex Marquez, Lee Percy. Música: Craig Armstrong. Figurino: Bina Daigegler. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Véronique Melery. Produção executiva: Max Averlaiz, Michael Bassick, Olivier Cottet-Puinel, Douglas Hansen, José Ibañez, Peter Lawson, Romain Le Grand, Bahman Naraghi, Tom Ortenberg, Jérôme Seydoux, James Stern, Christopher Woodrow. Produção: Moritz Borman, Eric Kopeloff, Philip Schulz-Deyle, Fernando Sulichin. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Melissa Leo, Zachary Quinto, Shailene Woodley, Nicolas Cage, Rhys Ifans, Tom Wilkinson, Joely Richardson, Logan Marshall-Green, Timothy Olyphant, Ben Chaplin, Scott Eastwood. Estreia: 21/7/16

Se existe um cineasta certo para contar a história de Edward Snowden nas telas de cinema, esse cineasta é Oliver Stone. Politicamente ativo e pouco dado a sutilezas, Stone ganhou dois Oscar de direção por cutucar o governo americano a respeito da guerra do Vietnã (por "Platoon", de 1986, e "Nascido em 4 de julho", de 1989) e nunca mediu palavras - ou imagens - para deixar bem claras suas posições liberais e democratas. Há muito tempo sem um grande sucesso de bilheteria - seu último trabalho a fazer barulho comercialmente foi "JFK", em 1991 - e massacrado impiedosamente pela crítica por seus trabalhos mais recentes, como "As Torres Gêmeas" (2006) e "Selvagens" (2012), Stone encontrou na trajetória arriscada e corajosa do jovem informante a matéria-prima para uma produção não apenas contundente e atual, mas extremamente necessária. Como era de se esperar, o filme fracassou comercialmente - nos EUA rendeu pouco mais da metade de seu orçamento, estimado em 40 milhões de dólares - e dividiu a crítica, mas é inegável que é o melhor Stone desde "Assassinos por natureza" (94), o que é ainda mais admirável quando se percebe que é também um dos filmes de narrativa mais acessível da carreira do diretor.

Dispensando os cacoetes visuais e artifícios narrativos que vem marcando sua carreira desde a década de 90, Oliver Stone faz de "Snowden: herói ou traidor" uma obra linear e quase convencional, que aposta muito mais no roteiro quase didático do que no visual exuberante - é a primeira vez que o cineasta se utiliza de câmeras digitais sem que seja em um documentário. Apesar da edição continuar sendo um dos destaques (aqui a cargo de Alex Marquez e Lee Percy), Stone abre mão de suas manias de despejar diante da audiência imagens em ritmo alucinante e quase esquizofrênico: a história é, sim, contada em duas linhas de tempo distintas, mas sem que uma atropele a outra e sem que o público perca o fio da meada diante do excesso de informações. O roteiro, baseado no livro "Time of the Octopus" do advogado russo Anatoly Kucherena - tratado como ficção mas amplamente baseado em entrevistas com Snowden -, é a força motriz do filme, a base sobre a qual o diretor constrói uma severa crítica ao modo como os governos Bush e Obama lidaram com espionagem em grande escala e nas graves consequências de tais atos. Com imagens reais de governos atingidos pelo escândalo - incluindo o Brasil - e sem medo de apontar dedos, "Snowden" é surpreendentemente sóbrio e honesto. Stone parece dizer, com sua direção discreta, que a história (forte, assustadora, chocante) é maior do que qualquer tentativa de manipulação artística.


O filme começa em junho de 2013, quando o jovem Edward Snowden (Joseph Gordon-Levitt) se encontra com o jornalista Glenn Greenwald (Zachary Quinto) e a documentarista Laura Poitras (Melissa Leo) em um hotel de Hong Kong - Greenwald mais tarde seria um dos mais ferrenhos opositores ao golpe parlamentar que destitui a presidente Dilma Roussef, e Proitas ganharia o Oscar de documentário por "Cidadãoquatro" (2014), justamente sobre o escândalo denunciado por Snowden. O encontro entre os três tem uma razão muito simples, ainda que potencialmente explosiva: o rapaz, ex-funcionário da CIA e da NSA, tem documentos que comprovam sem espaço para quaisquer dúvidas, de que o governo norte-americano, em nome da defesa nacional, tem acesso irrestrito a informações pessoais e confidenciais de todo o planeta - e que as utiliza sem nenhum critério ético ou moral. A partir daí, o roteiro intercala as reuniões do grupo (que contam ainda com o repórter do jornal "The Guardian", Ewen MacAskill (Tom Wilkinson)) com a trajetória do rapaz dentro das agências de segurança do país. Com inteligência acima da média e digno da confiança de seus colegas e superiores, Snowden aos poucos vai tomando conhecimento do absurdo que é a rede de espionagem que ele mesmo criou (com objetivos outros, menos invasivos). Ao lado da namorada, Lindsay (Shailene Woodley), ele entra em uma severa crise de consciência até que resolve expor toda a verdade ao mundo.

Um thriller político da mais alta qualidade - que consegue equilibrar com maestria tanto o suspense quanto a crítica ao governo -, "Snowden" comprova que Oliver Stone é, apesar de alguns exageros de sua carreira, um dos cineastas mais instigantes de Hollywood. Destemido e feroz em suas declarações cinematográficas, é também um contador de histórias nato, convincente e quase diabólico em suas tentativas de vender seu peixe. Além do mais, é um excelente diretor de atores: se todo o elenco de "Snowden" é homogeneamente competente (incluindo uma pequena participação de Nicolas Cage), a composição de Joseph Gordon-Levitt é impressionante. Mesmo sem ter semelhanças físicas com o protagonista, quando está em cena o jovem ator simplesmente se transforma no personagem: a voz, o gestual e a forma de falar engolem Levitt e fazem surgir um Edward Snowden irretocável, capaz de confundir aos desavisados - tal similaridade física fica evidente na última cena, em que o verdadeiro Snowden faz uma aparição rápida e marcante. Injustamente esquecido pelo Oscar - que desde "Nixon", de 1995, nunca mais indicou filmes de Stone em nenhuma categoria - e por outras cerimônias de premiação (apenas o Satellite Awards lhe deu uma indicação), Gordon-Levitt comprova ser um dos mais talentosos e versáteis atores de sua geração, capaz de encarar desafios sem medo e sem se repetir. Se "Snowden: herói ou traidor" é tão bom, pode-se dizer que é devido à união perfeita entre diretor, tema, roteiro e ator principal. Um dos grandes filmes de 2016.

segunda-feira

A CULPA É DAS ESTRELAS

A CULPA É DAS ESTRELAS (The fault in our stars, 2014, Fox 2000 Pictures/Temple Hill Entertainment, 126min) Direção: Josh Boone. Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber, romance de John Green. Fotografia: Ben Richardson. Montagem: Robb Sullivan. Música: Mike Mogis, Nathaniel Walcott. Figurino: Mary Claire Hannan. Direção de arte/cenário: Molly Hughes/Melissa Lombardo. Produção executiva: Michele Imperato Stabile, Isaac Klausner. Produção: Marty Bowen, Wyck Godfrey. Elenco: Shailene Woodley, Ansel Elgort, Natt Wolff, Laura Dern, Willem Dafoe, Sam Trammell, Lote Verbeek. Estreia: 16/5/14 (Festival de Seattle)

Quando um livro direcionado ao público adolescente - jovens adultos, como são chamados nos EUA por motivos mercadológicos - torna-se fenômeno, é natural que surja, entre os leitores mais exigentes, uma onda de rejeição e preconceito, justificados pelo atentado à literatura que foi a saga "Crepúsculo", de Stephenie Meyer (e suas consequentes adaptações para o cinema, tão intragáveis quanto). Porém, como toda regra tem sua exceção, o autor norte-americano John Green mostrou-se uma alternativa saudável e menos ofensiva ao bom-gosto com seu delicado "A culpa é das estrelas", que virou febre no mundo todo e deflagrou uma corrida atrás das outras obras do autor. Como não poderia deixar de acontecer, o cinema não tardou a perceber o potencial da bela história de amor do romance de Green e, com um grande trunfo em mãos - a fantástica atuação de Shailene Woodley no papel central - o filme chegou às telas fazendo o previsível barulho, com uma renda superior a 120 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico e repetindo o êxito mundo afora. A boa notícia? A adaptação mantém o tom leve e romântico de sua origem e é altamente recomendável até mesmo para aqueles que torcem o nariz para o gênero.

A história de "A culpa é das estrelas" é, já em sua sinopse, de uma tristeza ímpar: a adolescente Hazel Grace Lancaster (Shaile Woodley, a filha mais velha de George Clooney em "Os descendentes") tem 17 anos de idade e sofre, desde os 13, com uma espécie rara de câncer que a obriga a carregar um tanque de oxigênio para onde quer que ela vá. Em um grupo de apoio que passa a frequentar - de má-vontade - por pressão de sua mãe (Laura Dern), ela conhece Augustus Waters (Ansel Elgort), sobrevivente de um tumor maligno que lhe amputou a parte inferior da perna direita. Mordaz e lidando com sua doença da forma mais leve possível, Hazel acaba encontrando em Augustus uma espécie de alma-gêmea - o rapaz tem senso de humor, inteligência e um otimismo aparentemente infinito - e os dois tornam-se ótimos amigos. Aos poucos, tal amizade vai se tornando um grande amor, que se torna ainda mais evidente quando eles viajam para Amsterdã, com o objetivo de conhecer Peter Van Houten (Willem Dafoe), o recluso autor do livro preferido de Hazel e que ela julga ser capaz de lhe dar respostas a questões não apenas literárias, mas a respeito da vida em si.


Respeitando a principal característica do romance de John Green - que faz uma participação especial ne cena em que os protagonistas estão no aeroporto, em vias de embarcar para Amsterdã - o roteiro de Scott Neustadter e Michael H. Weber se recusa a tratar a história de amor entre Hazel e Augustus como um conto de morte e tristeza absolutas. O segredo do livro (e por consequência de sua adaptação) é a forma bem-humorada e suave com que os personagens centrais encaram seus problemas de saúde, nunca assumindo os papéis de vítimas e tratando de aproveitar cada momento com a intensidade que lhes é permitida. Sem nunca deixar de tratá-los (e a seu público-alvo) como os adolescentes que são, o diretor Josh Boone faz uso inteligente de muitos dos diálogos de Green para atingir seu objetivo de emocionar, mas o faz sem apelar para o sentimentalismo puro e simples, deixando que a história e os personagens falem por si, conquistando aos poucos e se encaminhando para um desfecho de fazer qualquer um ruir em lágrimas - e não apenas adolescentes sensíveis, mas qualquer um que tenha sentimentos.

Fã confessa do livro, Shailene Woodley fez campanha aberta para ser escalada como Hazel Grace e, graças a seu teste - onde pôs todo mundo para chorar, inclusive o próprio John Green - conseguiu um dos papéis jovens mais cobiçados do ano. Fez por merecer. Sua interpretação é madura, intensa, delicada, irônica e destemida, tudo ao mesmo tempo e equilibrado com uma harmonia de gente muito mais experiente. Sua química com Ansel Elgort é palpável e encantadora a ponto de ser impossível não torcer pelo casal ou por um milagre que afaste de vez o câncer de seu caminho. Aliás, falar abertamente sobre um assunto tão triste sem cair no piegas é outro ponto alto da trama, que trata a doença com naturalidade e um certo conformismo sábio inesperado para uma história cujos protagonistas são adolescentes de 17 anos. Mérito do livro bem escrito, do roteiro bem adaptado, da direção sensível e do elenco escalado com maestria. Pode-se até ser considerado como o "Love story" de sua geração.

OS DESCENDENTES

OS DESCENDENTES (The descendants, 2011, Fox Searchlight Pictures, 115min) Direção: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Nat Faxon, Jim Rash, romance de Kaui Hart Hemmings. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Kevin Tent. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Matt Callahan. Produção: Jim Burke, Alexander Payne, Jim Taylor. Elenco: George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Nick Krause, Judy Greer, Matthew Lillard, Robert Forster, Beau Bridges, Michael Ontkean. Estreia: 02/9/11 (Festival de Telluride)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alexander Payne), Ator (George Clooney), Roteiro Adaptado, Montagem.
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado 
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Drama, Melhor Ator/Drama (George Clooney) 

Em 2004, o ator George Clooney já era um ator respeitado dentro da indústria cinematográfica, mas foi recusado pelo cineasta Alexander Payne para interpretar o protagonista de seu filme "Sideways - Entre Umas e Outras" justamente por já ser conhecido demais do grande público. O papel acabou indo parar nas mãos mais apropriadas de Paul Giamatti, o perdedor-mor de Hollywood. Sete anos depois, Clooney acabou sendo escolhido por Payne para protagonizar seu filme seguinte, a comédia dramática (ou drama com toques cômicos) "Os Descendentes", baseado em um romance de Kaui Hart Hemmings e lançada sete anos depois. Por suprema ironia do destino, enquanto Giamatti foi esnobado pela Academia a despeito dos elogios unânimes à sua atuação, Clooney não apenas recebeu uma nova indicação ao Oscar como chegou pertinho de levar sua segunda estatueta - acabou perdendo a disputa para Jean Dujardin, de "O artista".

Fiel a seu estilo de contar histórias simples sobre gente comum - e encontrar dentro delas elementos dramáticos suficientes para sustentar um roteiro interessante - Payne desta vez centra seu foco em Matt King (George Clooney), um advogado americano que vive no Havaí com a esposa e as duas filhas e vê sua vida transformada por duas situações distintas: na primeira, ele precisa, como responsável pelo espólio da família, decidir a venda das terras que são de sua propriedade há centenas de anos. Na segunda, precisa lidar com o coma irreversível da esposa depois de um acidente de barco - e a revelação de que ela o traía com outro homem. Desnorteado com a notícia, ele parte em busca do amante da esposa, acompanhado das duas filhas e do amigo de uma delas - uma trajetória regada a lágrimas, gargalhadas e o reencontro emocional com a filha mais velha, Alexandra (Shailene Woodley), com quem mantinha uma relação distante e fria.


Certamente a maior qualidade de "Os descendentes" é a direção segura e sutil de Alexander Payne, que parece ter encontrado o equilíbrio perfeito entre o drama e o humor, sem pesar a mão nos momentos de maior emoção nem tampouco exagerar na ironia que sempre perpassa sua obra. Seu discreto trabalho permite ao elenco - no qual se destaca a ótima Shailenne Woodley, injustamente esquecida pelo Oscar apesar da indicação ao Golden Globe e que poucos anos depois se tornaria ídolo adolescente graças ao filme "A culpa é das estrelas" - um tom naturalista que aproxima as personagens da plateia e faz com que todas as situações do enredo, por mais surreais que possam parecer, soem extremamente verossímeis. O roteiro, fluente e agradável, remete aos melhores momentos de sua carreira - a ironia sardônica de "Eleição" e "Ruth em questão" e o tom melancólico de "As confissões de Schmidt" - e a trilha sonora adequada (composta por uma música típica havaiana) surge nos momentos certos, nunca atrapalhando a narrativa ou buscando chamar mais a atenção do que a trama.

Mas, mais do que a direção suave de Payne e que o roteiro equilibrado premiado com o Oscar da categoria, o que mais chama a atenção em "Os descendentes" é, sem dúvida, a atuação impecável de George Clooney. Demonstrando uma maturidade e uma segurança ímpares, o ator (que ficou injustamente de fora do Oscar também como diretor pelo espetacular "Tudo pelo poder") transforma seu trabalho como Matt King na melhor interpretação de sua carreira, transmitindo uma vastidão de sentimentos que nenhuma atuação anterior lhe permitiu. Tudo que King sente - a perplexidade de saber-se traído, a dor de perder a mulher que ama, as dúvidas em relação aos negócios familiares, o medo de não saber como cuidar das filhas - Clooney transparece no olhar, no gestual, nas entonações nunca fora de tom. Em especial a cena em que se despede da esposa é capaz de emocionar sem apelar para o piegas, e suas sequências com Shailene Woodley demonstram também uma generosidade cada vez mais rara no cinema americano.

"Os descendentes" é um ótimo pequeno filme. Pequeno porque não chama a atenção com efeitos visuais ou campanhas agressivas de marketing, preferindo conquistar pela simplicidade. Ótimo porque filmes assim não acontecem a toda hora. E ótimo porque lembra a plateia que emoções humanas nunca irão sair da pauta dos grandes estúdios, independentemente de quanto rendem filmes sobre robôs, hobbits ou mundos inexistentes.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...