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sexta-feira

PAPILLON (1973)


PAPILLON (Papillon, 1973, Allied Artists/Columbia Pictures, 151min) Direção: Franklin J. Schaffner. Roteiro: Dalton Trumbo, Lorenzo Semple Jr., livro de Henri Charrière. Fotografia: Fred Koenekamp. Montagem: Robert Swink. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Anthony Powell. Direção de arte/cenários: Anthony Masters. Produção executiva: Ted Richmond. Produção: Franklin J. Schaffner. Elenco: Steve McQueen, Dustin Hoffman, Victor Jory, Don Gordon, Anthony Zerbe. Estreia: 16/12/73

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original

Era a receita para um grande sucesso. Um best-seller internacional de não-ficção. Um cineasta recém saído da consagração de uma chuva de Oscar. Um dos maiores e mais populares astros de Hollywood. E um ator em ascensão. Tudo estava a favor de "Papillon", adaptação do livro escrito por Henri Charrière que contava (com fartas licenças poéticas) seu período na famigerada Ilha do Diabo - uma das prisões mais seguras do mundo, localizada na Guiana Francesa. Depois de passar pelas mãos de Richard Brooks (que sonhava em ter Alain Delon e Jean-Paul Belmondo nos papéis centrais) e Roman Polanski (cujo projeto ruiu quando Warren Beatty recusou fazer parte do elenco), a produção finalmente chegou a Franklin J. Schaffner, que, do alto de seus Oscar de melhor filme e diretor por "Patton: rebelde ou herói?" (1970), pareceu a escolha mais acertada para transformar em imagens um roteiro que explorava tanto a relação de confiança e amizade os entre protagonistas quanto momentos da mais pura adrenalina. O resultado foi mais que positivo: elogios entusiasmados da crítica e sucesso de bilheteria. Porém, nem tudo foram flores durante as filmagens - e a esperança de colecionar mais algumas estatuetas morreu por motivos bem pouco relacionados à qualidade final da produção.

Os problemas começaram quando os produtores descobriram que, apesar da contratação de Dustin Hoffman pelo salário de 1,25 milhão de dólares, seu personagem no livro de Charrière era muito menor do que eles esperavam (uma questão que poderia ter sido evitada com uma leitura prévia do material original). A solução foi fazer com que o roteiro, escrito pelo premiado Dalton Trumbo e Loreno Semple Jr., expandisse sua importância no filme para acomodar o novo status de estrela do ator. E então, não bastassem os episódios de furtos nos sets construído na Jamaica (prejuízos que custaram cerca de trinta mil dólares à produção), uma crise de egos instalou-se nos bastidores quando chegou aos ouvidos de Hoffman (já então um ator considerado "difícil") a informação de que, apesar do mesmo destaque nos créditos que seu colega de cena Steve McQueen, seu salário era consideravelmente menor (a McQueen, já estabelecido como um dos grandes nomes de Hollywood, foram pagos 2 milhões de dólares). Tal revelação não ajudou em nada a relação entre os dois atores, que, a partir daí, tornou-se unicamente profissional, sem direito sequer a qualquer tipo de confraternização fora das câmeras. Nem mesmo a presença de Henri Charrière em pessoa nas filmagens ajudou a melhorar o clima, prejudicado pelo fato de que Schaffner e Trumbo ainda não estavam com o roteiro completo no início dos trabalhos: em encontros diários, os dois trabalhavam no que seria feito durante o dia de trabalho - o que resultou no fato de "Papillon" ter sido filmado quase todo em ordem cronológica, uma ajuda e tanto para o desempenho de seus atores.

 

E se Hoffman brilhou como o estelionatário Louis Dega, responsável por financiar as tentativas de fuga de seu companheiro Papillon, foi Steve McQueen quem recebeu os maiores elogios da crítica - principalmente por sua entrega ao papel a ponto de dispensar dublês em sequências perigosas. Porém, sua atuação, louvada unanimemente, não foi o suficiente para lhe garantir uma esperada indicação ao Oscar: apesar de concorrer ao Golden Globe de melhor ator dramático, McQueen se viu esnobado pela Academia e não demorou para que fofocas a respeito de sua vida pessoal servissem como explicação para a situação. Mulherengo contumaz, o ator não era bem visto pelos maridos da indústria, temerosos que seu charme viril pudesse causar o estrago que havia feito no casamento do produtor Robert Evans, um dos mais poderosos de então: durante as filmagens de "Os implacáveis" (1972), sua mulher, a atriz Ali McGraw, encantou-se pelo ator, seu colega de cena, e nem pensou duas vezes em pedir divórcio e abandonar os ambiciosos projetos do marido para viver sua história de amor. Certamente tal escândalo em um ambiente tão sexualmente hipócrita minou as chances de McQueen de ganhar uma estatueta, principalmente quando se percebe que "Papillon" foi seu último grande trabalho - ao menos o último a chamar a atenção do público e explorar seu carisma e talento em igual medida.

A despeito das questionáveis afirmações de Henri Charrière sobre seu período na prisão localizada na Guiana Francesa, a trama de "Papillon" empolga justamente pela presença de McQueen, um ator que se utilizava de um tom naturalista para aproximar-se do espectador mesmo em personagens de caráter duvidoso: mesmo que afirme ser inocente do homicídio que o condenou, o protagonista da história não oferece ao público maiores explicações sobre seu passado, deixando no ar toda e qualquer certeza a respeito de seu caráter. Ao roteiro tampouco interessa detalhes anteriores à sua condenação - o filme de Schaffner se dedica a equilibrar-se entre as tentativas de fuga de Papillon e suas consequências, muitas delas bastante violentas. O ritmo é um tanto problemático - uns vinte minutos a menos faria milagres pela narrativa - mas a química entre McQueen e Hoffman é admirável, especialmente quando se sabe da relação pouco amistosa entre ambos fora de cena. Com belas sequências de ação e bons momentos dramáticos, "Papillon" não chegou a ser visto por Carrière, morto de câncer no pulmão em julho de 1973, menos de seis meses antes da estreia, e nunca emplacou sua continuação, "Banco", nas telas. Mas tornou-se clássico o suficiente para merecer um remake em 2017, estrelado por Charlie Hunnam e Rami Malek. É um filme cult, ainda hoje capaz de envolver a plateia com seu misto de ação e homenagem à resistência humana.

segunda-feira

O DORMINHOCO


O DORMINHOCO (Sleeper, 1973, United Artists, 89min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: O. Nicholas Brown, Ron Kalish, Ralph Rosenblum. Figurino: Joel Schumacher. Direção de arte/cenários: Dale Hennesy/Gary Moreno. Produção executiva: Charles H. Joffe. Produção: Jack Grossberg. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, John Beck. Estreia: 17/12/73

Até a estreia de "O dorminhoco", no final de 1973, o cinema de Woody Allen ainda era uma espécie de extensão de seu trabalho como comediante - mais como uma plataforma para desenvolver piadas verbais e físicas do que para exatamente contar uma história. Foi a partir de sua ambiciosa ideia de realizar um filme de ficção científica com início, meio e fim, que ele tornou-se, de fato, um homem de cinema, capaz de explorar sem medo todos os recursos da linguagem. Grande sucesso de crítica e de bilheteria (custou cerca de 2 milhões de dólares e rendeu quase dez vezes isso), "O dorminhoco" é a prova de que Allen também sabe ser popular, a despeito de sua imagem de humorista sofisticado. Com sequências hilariantes e diálogos impagáveis, seu quarto longa-metragem - se for descontado "O que há, tigresa", de 1966, no qual ele utilizava um filme já feito para dublar e editar à sua maneira - é o pontapé inicial de uma fase que culminaria em seus Oscar de filme, direção e roteiro original de "Noivo neurótico, noiva nervosa" (1977).

Se a maioria de suas comédias brinca com o surreal, "O dorminhoco" pode, facilmente, ser considerada a mais alucinada delas. Seu personagem, Miles Monroe, é um músico amador e dono de uma loja de comida natural que, hospitalizado para uma pequena cirurgia, se torna parte de uma experiência criogênica. Depois de duzentos anos dormindo, ele é acordado em 2173 e dá de cara com um mundo completamente diferente daquele que conhecia. Dominada pelo totalitarismo de um tirânico líder, a população sofre sob um regime violento e pouco afeito a qualquer tipo de questionamento. Para sua surpresa, Miles é considerado peça-chave na revolução que está sendo concebida por um grupo de rebeldes: sem nenhum registro junto a um governo que apagou toda e qualquer lembrança do passado, ele tem as características ideais para infiltrá-los em um novo projeto de poder. A princípio relutante em envolver-se em tal aventura, Miles muda de ideia quando passa a ser perseguido pelas forças políticas locais - e quando se apaixona pela alienada Luna (Diane Keaton), manter-se vivo se torna objetivo prioritário.

 

Logo que teve a ideia para o roteiro de "O dorminhoco", Woody Allen buscou respaldo junto ao escritor Isaac Asimov, célebre por seus livros de ficção científica: depois de um breve encontro em que o autor de "Eu, robô" confirmou a relativa plausibilidade, o cineasta deu asas à imaginação e acabou com a concepção de um ambicioso filme de três horas de duração, em que a primeira parte mostraria a vida do protagonista em 1973. Com a negativa da United Artists, restou a Allen concentrar seu foco no que teria sido a segunda metade de seu projeto, ou seja, o embate de Miles Monroe com um admirável mundo novo onde as regras são completamente opostas as conhecidas por ele - basta saber que, ao contrário do que se acreditava no final do século XX, comida gordurosa e cigarros são considerados benéficos à saúde - e seus desajeitados métodos para conquistar o amor de Luna (uma Diane Keaton no auge da beleza). Inspirado no humor de dois de seus ídolos, Groucho Marx e Bob Hope, o cineasta consegue fazer rir sem deixar de lado a inteligência que é sua característica mais marcante. Seja quando põe Miles disfarçado de robô ou quando ele pega um nariz como refém (sim, isso mesmo, um nariz), Allen sempre encontra um caminho único para buscar a gargalhada da plateia. É de se imaginar como seria o resultado do filme se ele realmente tivesse levado a cabo a ideia de realizá-lo sem diálogos.
 
Com 35 horas de material filmado e apenas 90 minutos em sua versão final, "O dorminhoco" é um passo adiante na carreira já promissora de Allen no começo da década de 1970, com uma cenografia cuidadosamente planejada (o diretor queria filmar em Brasília por causa de seu visual futurista, o que se mostrou proibitivo pelos altos custos) e um roteiro estruturado de forma mais madura que seus trabalhos anteriores. Finalizado dois dias antes de sua estreia, "O dorminhoco" ainda diverte mesmo depois de quatro décadas, com seu humor iconoclasta e debochado revelando um período brilhante de seu criador - que em seguida lançaria seu engraçadíssimo "A última noite de Boris Grushenko", uma homenagem impagável à literatura russa e que teria, em seu enredo principal, ecos das aventuras de Miles e Luna. Imperdível

sexta-feira

LUA DE PAPEL

LUA DE PAPEL (Paper moon, 1973, Paramount Pictures, 102min) Direção: Peter Bogdanovich. Roteiro: Alvin Sargent, romance de Joe David Brown. Fotografia: László Kovácks. Montagem: Verna Fields. Figurino: Polly Platt. Direção de arte/cenários: Polly Platt/John Austin. Produção: Francis Ford Coppola. Elenco: Ryan O'Neal, Tatum O'Neal, Madeline Kahn, John Hillerman, P.J. Johnson, Jessie Lee Fulton. Estreia: 09/4/73

4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Madeline Kahn), Atriz Coadjuvante (Tatum O'Neal), Roteiro Adaptado, Som
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Tatum O'Neal)

Os créditos de abertura já anunciam com precisão o tom saudosista e leve que virá pela frente: "Lua de papel", filme seguinte de Peter Bogdanovich à escrachada comédia "Essa pequena é uma parada" (72), estrelada por Barbra Streisand e Ryan O'Neal. No auge da carreira, é O'Neal também quem lidera o elenco dessa adaptação charmosa e lírica do romance de Joe David Brown, um olhar carinhoso sobre os EUA pós-Grande Depressão - que, por coincidência ou acesso de nostalgia por parte de Hollywood, era também o cenário do vencedor do Oscar do mesmo ano, "Golpe de mestre". Pensado inicialmente como um veículo para Paul Newman e sua filha Nell Potts sob a direção do veterano John Huston, "Lua de papel" acabou chegando às telas com outra dupla de pai e filha: Ryan - tentando apagar a imagem de mocinho romântico conquistado em "Love story: uma história de amor" (70) - e sua filha Tatum, estreando em cinema por sugestão da então esposa de Bogdanovich, a desenhista de produção Polly Platt. O resultado não poderia ter sido mais favorável: aos dez anos de idade, Tatum tornou-se a mais jovem vencedora do Oscar de atriz coadjuvante, recorde mantido ainda hoje, mais de quatro décadas depois - uma vitória que, diga-se de passagem, causou muita polêmica.

Primeiro foi a acusação, de parte de alguns membros da indústria, de que a atuação vivaz e inspirada da pequena Tatum, então com apenas oito anos, havia sido completamente fabricada por Bogdanovich na sala de edição - e que o cineasta havia realizado dezenas e mais dezenas de takes até dar-se por satisfeito com a menina (como se inúmeros outros diretores não fizessem o mesmo com atores bem mais experientes). Não bastasse essa controvérsia (que acabou por apagar-se com tempo e curiosamente não se repetiu com outra competidora juvenil da mesma categoria e do mesmo ano, Linda Blair, por "O exorcista"), anos mais tarde a própria Tatum O'Neal pôs lenha na fogueira a respeito de sua vitória, declarando em sua biografia, "Paper life", que Ryan, humilhado por ver a filha receber um Oscar ainda na infância enquanto ele sequer havia sido indicado, a espancou depois da premiação. Apesar da revelação contradizer as palavras do ator em uma entrevista de 1973 - em que afirmava ter aceito fazer o filme com a filha como forma de fortalecer seus laços familiares e que, se não fosse com ela, não teria sido convencido por Bogdanovich a ficar com o papel -, o fato é que as duras lembranças de Tatum provavelmente justificaram seus posteriores problemas com drogas e no relacionamento com os próprios filhos, de seu casamento com o tenista John McEnroe, encerrado em 1994.


Problemas de bastidores à parte, "Lua de papel" é uma delícia. Com algumas alterações em relação ao livro de Brown (como a idade da protagonista mirim, tornada mais jovem, o cenário - do Alabama para Kansas e Missouri - e o terço final, suprimido completamente), o roteiro de Alvin Sargent conquista o público sem dificuldade, graças principalmente ao carisma irresistível da pequena Tatum e do cinismo sedutor de Ryan, ambos excelentes e com uma química que somente a relação entre pai e filha de verdade conseguiria alcançar. A trama se passa nos anos 30, e começa quando Moses Pray chega ao funeral de uma antiga conhecida e é convencido pelos parentes da falecida a levar sua única filha, Addie, até a casa de uma tia, no Missouri. Acontece que Moses é um golpista contumaz, que se faz passar por vendedor de Bíblias para arrancar dinheiro de famílias enlutadas, e apesar de desconfiar que a menina pode ser sua filha (coisa que ela sabe que pode ser verdade), não tem a menor intenção de aproximar-se dela. No caminho, porém, a relação entre os dois sofre uma reviravolta quando a garota demonstra ser tão astuta quanto seu veterano companheiro - e os dois resolvem formar uma lucrativa parceria em golpes até o fim da jornada a caminho de casa.

Fotografado por László Kóvacs em um belo preto-e-branco (sugerido a Bogdanovich pelo cineasta Orson Welles) e dotado de uma reconstituição de época impecável, "Lua de papel" tem o ritmo de uma comédia clássica, mas é dotado de um coração e uma alma que, vez ou outra, se deixam entrever através do quase cinismo de seus personagens. São emocionantes os momentos em que a pequena Addie se lembra da mãe ou tenta conquistar o carinho daquele que tem certeza que é seu pai; é surpreendente quando Trixie Delight (Madeline Kahn, indicada ao Oscar de coadjuvante), que se prostitui para sobreviver em um país assolado pela pobreza, se permite ser honesta em relação à sua vida com a pequena rival pelas atenções de Moses; e são particularmente felizes as cenas em que a cumplicidade dos protagonistas se torna evidente mesmo diante de situações pouco felizes. No auge de sua carreira como cineasta - havia apenas dois anos que havia lançado o elogiadíssimo "A última sessão de cinema" -, Peter Bogdanovich oferece em seu filme um equilíbrio notável entre humor e emoção, sem deixar nunca de afirmar, ainda que sem palavras, que até mesmo os brutos também amam. Um filme delicioso e de aquecer o coração!

quinta-feira

SERPICO

SERPICO (Serpico, 1973, Paramount Pictures, 130min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Wado Salt, Norman Wexler, livro de Peter Maas. Fotografia: Arthur J. Ornitz. Montagem: Dede Allen. Música: Mikis Theodorakis. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenários: Charles Bailey/Thomas H. Wright. Produção executiva: Roger M. Rothstein. Produção: Martin Bregman. Elenco: Al Pacino, John Randolph, Jack Kehoe, Biff McGuire, Barbara Eda-Young, Cornelia Sharpe. Estreia: 05/12/73

 2 indicações ao Oscar: Ator (Al Pacino), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Al Pacino) 

Um período de ouro para cineastas e jovens atores dispostos a tratar com realismo as mazelas da sociedade norte-americana, a década de 70 foi também uma época bastante fértil para todos aqueles que não tinham medo de ousar dentro da indústria frequentemente rígida de Hollywood. Uma das duplas mais interessantes de então foi formada por Sidney Lumet e Al Pacino. Dois anos antes de lançarem sua obra-prima "Um dia de cão" (75) e logo depois de Pacino tornar-se astro com "O poderoso chefão" (72), diretor e astro foram os pilares de um grande sucesso de crítica, uma história real que apontava sua tendência em provocar polêmica e discussões: "Serpico" estreou em dezembro de 1973 nos cinemas dos EUA e tornou-se um clássico imediato. Elogiado unanimemente pela crítica, premiado no National Board of Reviwe e no Golden Globe (ambos escolheram Al Pacino como melhor ator do ano) e até hoje considerado pelo consagrado intérprete um de seus melhores desempenhos, o filme de Lumet é um soco no estômago de uma das instituições mais controversas do país: a polícia nova-iorquina.

Narrado em tom semi-documental e propositalmente seco e direto, o filme acompanha a inglória luta do policial Frank Serpico, que, entre o final dos anos 60 e o começo dos 70, bateu de frente com seus colegas por recusar-se a participar dos mais variados esquemas de corrupção policial. Visto como uma aberração - tanto por seus princípios, considerados pouco inteligentes, quanto por seu visual quase hippie - e isolado por todos aqueles que percebiam nele uma ameaça real a um estilo de vida quase banal dentro da corporação, Serpico acaba por ter sua própria vida ameaçada quando passa da indignação passiva e resolve denunciar a prática de suborno para autoridades superiores: não apenas rejeitado em todas as tentativas de promoção, ele se torna persona non grata, chegando a ser vítima de um atentado. Idealista acima de tudo, ele resiste, contando com o apoio da namorada, Laurie (Barbara eda-young).





Realizado por Sidney Lumet de forma pouco comum - as filmagens começaram pelo fim da história e aconteceram em ordem reversa, por exemplo - e com um elenco sem astros - Pacino ainda estava começando a ser conhecido, graças a "O poderoso chefão" (72) -, "Serpico" pode ser quase considerado um precursor dos filmes independentes de Hollywood: com um custo de apenas 3 milhões de dólares, rendeu quase dez vezes esse valor somente no mercado doméstico, mostrando que o público do começo da década de 70 era muito mais aberto a produções sérias e maduras do que o que veio a partir do sucesso estrondoso de "Tubarão" (75), que marcou, de certa forma, a maneira com que a indústria passaria a perceber as bilheterias e as estratégias de marketing. Lançado pouco tempo depois que a história real aconteceu, o filme de Lumet ganhou pontos pelo frescor - e nem precisou contar com Paul Newman e Robert Redford para isso: concebido como um veículo para os dois astros de "Butch Cassidy e Sundance Kid", "Serpico" mudou completamente de formato e chegou às telas como um produto adulto e politicamente relevante - a ponto de receber duas indicações ao Oscar: melhor ator e roteiro adaptado.


Repleto de detalhes inteligentes - como o primeiro encontro entre o protagonista e Laurie, ao som da ópera "Tosca", de Puccini, que fala, entre outras coisas, de corrupção e abuso de poder - e editado com uma crueza que combina perfeitamente com seu tema, "Serpico" é um dos filmes mais importantes de sua época, um retrato poderoso e corajoso de um dos mais preocupantes problemas urbanos dos EUA. Para viver o personagem principal, Pacino não apenas conviveu com o verdadeiro Frank Serpico como visitou alguns lugares barra-pesada de Nova York, já caracterizado e tentando mergulhar no universo de um filme dirigido com firmeza e extrema sobriedade. Pode não ser seu melhor trabalho com Lumet - "Um dia de cão" consegue atingir níveis mais altos de qualidade final - mas é um desempenho digno de nota e aplausos. Não à toa, tornou-se um clássico contemporâneo.

segunda-feira

INVERNO DE SANGUE EM VENEZA

INVERNO DE SANGUE EM VENEZA (Don't look now, 1973, Casey Productions/Eldorado Films, 110min) Direção: Nicolas Roeg. Roteiro: Alan Scott, Chris Bryant, estória de Daphne Du Maurier. Fotografia: Anthony Richmond. Montagem: Graeme Clifford. Música: Pino Donaggio. Direção de arte: Giovanni Soccol. Produção executiva: Anthony B. Unger. Produção: Peter Katz. Elenco: Donald Sutherland, Julie Christie, Hilary Mason, Clelia Matania. Estreia: 09/12/73

É difícil um filme de suspense ganhar o espectador logo nas primeiras cenas sem que para isso precise apelar para a sanguinolência explícita. E já de cara o perturbador "Inverno de sangue em Veneza" fisga o público, com uma engenhosa edição que diz, apenas com imagens sublimes de crianças brincando em um gramado e uma trilha sonora espetacular de Pino Donaggio, que vem desgraça pela frente. Não demora muito e a plateia é testemunha de tal desgraça: a filha pequena do arquiteto John Baxter (Donald Sutherland) morre afogada praticamente diante dos olhos terrificados do pai e do irmão. Assim começa um dos filmes mais aclamados do cineasta inglês Nicolas Roeg, adaptado de um conto da escritora Daphne Du Maurier - a mesma autora de "Rebecca, a mulher inesquecível" e "Os pássaros", que aprovou de tal maneira a forma cinematográfica que sua estória recebeu que não hesitou em escrever uma carta ao diretor, cumprimentando-o pelo tom funesto que ele imprimiu à trama.

O tom funesto, aliás, não fica apenas na primeira e chocante sequência de "Inverno de sangue em Veneza". A morte da pequena Christine é apenas o ponto de partida para uma viagem angustiante a ruas escuras e pouco convidativas da cidade italiana do título nacional. Fugindo da tentação de mostrar Veneza como um paraíso turístico, Roeg a retrata como o cenário de um pesadelo psicológico, onde cegas videntes, premonições assustadoras e serial killers convivem pacificamente com igrejas em processo de restauração e imagens misteriosas se esgueirando em becos escuros com intenções ainda mais tenebrosas. Roeg se utiliza da fotografia estilizada de Anthony Richmond - que apresenta momentos de grande beleza plástica - e da edição repleta de elipses temporais de Graeme Clifford para traduzir em imagens uma narrativa densa que mantém o suspense até as cenas finais, que completam o complexo quebra-cabeça armado desde seu princípio.


Depois da morte de sua filha, John aceita o trabalho de restaurar uma igreja em Veneza e vai para a Itália acompanhado da esposa, Laura (Julie Christie). Seu objetivo, além do interesse no emprego, é tentar superar o trauma da perda, mas a coisa não parece que vai ser assim tão fácil quando eles encontram duas irmãs em um restaurante da cidade. Uma das irmãs, cega e medium, afirma a Laura ter contato com a menina morta. Além disso, insiste que John também o dom da mediunidade e que precisa sair urgente da cidade, por sua vida estar correndo sério risco. Nesse meio-tempo, o arquiteto passa a ter visões de uma menina vestida com a mesma capa de chuva vermelha que sua filha usava na ocasião de sua morte - e, por coincidência ou não, o casal começa a esbarrar constantemente nas duas velhas irmãs.

Apesar de seu ritmo um tanto lento ser um risco ao espectador menos dado a experimentações estéticas e formais, "Inverno de sangue em Veneza" tem, inegavelmente, o poder de manter o suspense até seu clímax, que também foge do padrão do gênero. Intercalando cenas de extremo poder dramático com momentos de uma aparente paz de espírito entre o casal central - incluindo uma cena de sexo bastante longa e que acabou sendo uma das sequências mais comentadas do filme - Roeg conduz com sutileza uma trama forte e tensa que só vai fazer sentido totalmente em seus momentos finais. Pode ser que a audiência sinta-se incomodada, mas não é essa a intenção de uma obra de arte?

sábado

O EXORCISTA


O EXORCISTA (The exorcist, 1973, Warner Bros Pictures, 132min) Direção: William Friedkind. Roteiro: William Peter Blatty, baseado em seu romance homônimo. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Norman Gay, Evan Lottman. Figurino: Joe Fretwell. Direção de arte/cenários: Bill Malley/Jerry Wunderlich. Casting: Louis DiGiamo, Nessa Hyams, Juliet Taylor. Produção executiva: Noel Marshall. Produção: William Peter Blatty. Elenco: Ellen Burstyn, Max Von Sydow, Lee J. Cobb, Jason Miller, Linda Blair, Jack MacGowran, Kitty Winn. Estreia: 26/12/73

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Friedkin), Atriz (Ellen Burstyn), Ator Coadjuvante (Jason Miller), Atriz Coadjuvante (Linda Blair), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte, Som
Vencedor de 2 Oscar: Roteiro Adaptado, Som
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (William Friedkin), Atriz Coadjuvante (Linda Blair), Roteiro


Ao ganhar um prêmio de 10 mil dólares em um programa apresentado por Groucho Marx, um desconhecido chamado William Peter Blatty declarou que, com o dinheiro, ele tiraria um tempo de folga para escrever um romance. Publicado anos depois, este romance, chamado "O exorcista" assustaria milhares de pessoas, e não só através das palavras. Produzido pela Warner Bros e com produção e roteiro do próprio autor, "O exorcista" tornou-se um dos filmes de maior bilheteria da história do estúdio, ganhando em seguida, continuações, prequels e várias revisões, sempre com qualidade inferior.

Normalmente relegados a um inestimado segundo plano dentro da indústria cinematográfica, raramente os filmes de terror conseguem sair de dentro de seu gueto de fãs aficcionados e atingir não só uma plateia mais ampla mas também o reconhecimento devido junto à crítica. Por isso, não deixa de ser um fenômeno que "O exorcista" tenha conseguido essa façanha de forma tão absoluta e inegável. Incensado pela crítica e vencedor de 4 Golden Globes (inclusive melhor drama e diretor), logo a obra dirigida pelo mesmo William Friedkin do elogiado "Operação França" arrebataria surpreendentes 10 indicações ao Oscar, em especial nas categorias principais, tornando-se o primeiro filme de terror da história a conquistar tal honra. Não saiu vitorioso (o prêmio ficou com "Golpe de mestre"), mas, com milhões e milhões de dólares abarrotando seus cofres, a Warner definitivamente não tinha do que reclamar.

"O exorcista" se passa em Washington, onde a atriz Chris McNeil (Ellen Burstyn) está fazendo seu novo filme. Nos seus momentos livres, ela fica ao lado da filha adolescente Regan (Linda Blair) e dos colegas de produção. A relativa paz que reina entre ela e a filha começa a dar sinais de alarme quando a menina, normalmente doce e compassiva, começa a agir estranhamente: de uma hora pra outra, Regan começa a dizer palavrões, a comportar-se de forma agressiva e reclamar que sua cama fica pulando. Vários exames médicos depois, nada parece estar resolvido e as coisas ficam ainda piores. Inúmeros acontecimentos violentos e bizarros depois levam Chris a chegar à conclusão, com a ajuda do jovem Padre Karras (Jason Miller) - que trabalha com psicologia e está em uma crise de fé por causa da morte da mãe - que sua filha está possuida por um demônio. A única solução para o caso, seria, então, um exorcismo. A Igreja chama, para isso, o conceituado Padre Merrin (Max Von Sydow), que acaba de voltar aos EUA depois de uma escavação no Iraque.


Filmado em 224 dias (em oposição a seu cronograma inicial de 85), "O exorcista", assim como todos os filmes da época, foi objeto de muita especulação antes de ser produzido, com muitos nomes de Hollywood envolvidos - ou apenas citados - como possíveis colaboradores. Antes que William Friedkin assumisse o posto de diretor, por exemplo, nomes como John Boorman e Stanley Kubrick foram cogitados para o posto - Kubrick não acertou com o estúdio porque queria produzir ele mesmo o filme Boorman recusou porque o roteiro era "muito cruel com uma criança", o que não o impediu de, quatro anos depois, sentar-se na cadeira de diretor de sua bem inferior continuação.

Para a pele de Chris McNeil, nomes importantes foram considerados. Jane Fonda e Shirley MacLaine se interessaram pelo roteiro. Audrey Hepburn quis fazê-lo, mas somente se fosse filmado em Roma. E Anne Bancroft abandonou o barco devido a sua primeira gravidez. Até mesmo o nome de Debbie Reynolds foi cogitado, com sua filha Carrie Fisher (que em seguida atingiria a fama como a Princesa Leia de "Star Wars") vivendo Regan. Mas é inegável que a contratação de Ellen Burstyn foi acertada. Às vésperas de ganhar um Oscar por "Alice não mora mais aqui" (lançado em 1974), Burstyn entrega uma atuação visceral e desesperada, que exigiu dela fortes doses de emoção e trabalho físico (ela chegou a machucar seriamente a coluna durante um take).

Para viver o veterano Padre Merrin a coisa também não foi diferente. Marlon Brando poderia ter interpretado o papel que foi de Max Von Sydow, mas os produtores acharam - com razão, diga-se de passagem - que a presença de Brando no elenco faria de "O exorcista" um "filme de Marlon Brando" antes de qualquer outra coisa, o que não os interessava. E para viver o jovem Padre Karras, nomes fortes como Gene Hackman e Jack Nicholson foram sondados. Dá pra imaginar como tudo ficaria com esse elenco de sonhos??

Mesmo que os créditos de "O exorcista" não tenha sido repleto de astros, é impossível negar que as opções dos produtores não poderiam ter sido melhores. Rígido e decidido, William Friedkin foi o diretor ideal do filme, fazendo prevalecer sua visão desde o início das filmagens. Max Von Sydow e Jason Miller (pai do ator Jason Patric) equilibram com perfeição as dualidades de suas personagens religiosas. E Linda Blair demonstra, aos 14 anos, que sabe interpretar como gente grande, o que seu Golden Globe e a indicação ao Oscar comprovaram, apesar das dúvidas suscitadas pela atriz Mercedes McCambridge depois dos elogios ao filme. McCambridge foi a responsável pela voz do demônio encarnado em Regan e alegou que merecia tanta glória quanto a adolescente. Coisas de Hollywood!

"O exorcista" é brilhante! Assustador como poucos, é um filme que conta sua história sem pressa, sem correria. Até que Regan comece realmente a demonstrar os efeitos da possessão em seu corpo passa-se quase uma hora, onde o roteiro trabalha com eficiência as personalidades das personagens envolvidas na questão. A subtrama que envolve o Padre Karras e seu questionamento da fé mostra-se essencial à história central, assim como a primeira sequência no Iraque, onde o Padre Merrin tem seu primeiro contato com o demônio que irá exorcisar tempos depois - aliás, é sensacional a maneira com que Friedkin acusa a presença do mal nas cenas. No Iraque, dois cães começam a brigar, assim como duas crianças no hospital onde Regan é examinada, o que amplia a tensão nas cenas. E a edição especial - com 11 minutos a mais do que a versão lançada em 1973 - acrescenta rápidas imagens do mal inseridas entre as cenas, no melhor estilo "piscou, perdeu", o que dá um clima mais do que propício à tensão criada pela música e pela fotografia majestosa de Owen Roizman. E isso que nem é preciso falar dos inúmeros acontecimentos quase inexplicáveis ocorridos durante as filmagens e dissecados em extraordinário documentário sobre a produção infelizmente disponível no Brasil apenas em VHS (é de apavorar tanto quanto o filme em si!!)

Assistir a "O exorcista" hoje ainda é extremamente impressionante! Poucas vezes o cinema de horror foi tão a fundo - e tão gráfico - em investigar o mal. Apesar de nunca poupar o espectador, ele jamais ultrapassa os limites do que é verdadeiramente útil para contar sua história, sem apelar para sustos desnecessários. Um exemplo a ser seguido pelos Eli Roth da vida...

sexta-feira

NOSSO AMOR DE ONTEM


NOSSO AMOR DE ONTEM (The way we were, 1973, Columbia Pictures, 118min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Arthur Laurents. Fotografia: Harry Stradling Jr. Montagem: John F. Burnett. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Dorothy Jeakins, Moss Mabry. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/William Kiernan. Produção: Ray Stark. Elenco: Barbra Streisand, Robert Redford, Lois Chiles, Bradford Dilman, Viveca Lindfords,Murray Hamilton, James Woods. Estreia: 17/10/73

6 indicações ao Oscar: Atriz (Barbra Streisand), Fotografia, Trilha Sonora Original, Canção Original ("The way we were"), Figurino, Direção de arte
Vencedor de 2 Oscar: Trilha Sonora Original e Canção Original ("The way we were")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção Original ("The way we were")


Em um dos melhores episódios da saudosa série "Sex and the city", Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) relembra, ao lado das amigas, a cena final do filme "Nosso amor de ontem", identificando-se com sua protagonista e seu malfadado romance. No filme "Somente elas", de Herbert Ross, a sensível personagem de Mary-Louise Parker, também apaixonada pela história de amor contada na obra de Sydney Pollack meio que obriga sua nova amiga (vivida por Whoopi Goldberg) a assistí-la, dizendo tratar-se de uma de suas preferidas. Afinal, o que esse filme tem que conquista tanto o público, especialmente aquele formado por mulheres?

Não há dúvidas que o romantismo desbragado do roteiro de Arthur Laurents é o ponto principal do amor da audiência feminina a ele. Mas, espertamente, Laurents temperou sua história de amor relativamente banal com elementos políticos e ideológicos que o retirou gloriosamente da vala comum do gênero. Mesmo que para o público médio e não-americano muitas das referências sócio-políticas da trama passem quase batidas, a história de amor entre os protagonistas ainda soa verdadeira, graças principalmente à química entre seus atores, Barbra Streisand e Robert Redford.


Quando o filme começa, Kate Morosky (Streisand) trabalha em uma rádio e reencontra um antigo colega de escola, Hubbell Gardiner (Redford), que alistou-se na Marinha e a quem não via há anos. A paixão que sempre sentiu por ele volta com toda força e eles acabam iniciando um romance. No entanto, suas diferenças ideológicas também se fazem notar: comunista desde sempre, Kate não compreende o jeito despreocupado de Hubbell, um rapaz bonito, de alta classe e pra quem sempre as coisas aconteceram de maneira fácil. Quando eles se mudam para a Califórnia - onde ele vai tentar adaptar seu livro para o cinema - as coisas ficam ainda mais complicadas. A "caça às bruxas" do senador Joseph McCarthy contra o comunismo os coloca em lados opostos, ameaçando seu relacionamento.

Apesar de colocar suas personagens em meio a furacões políticos - a ascensão do comunismo, a ameaça do nazismo, a caçada provocada por McCarthy - Laurents e o diretor Sydney Pollack não tentam se aprofundar nas questões levantadas pela trama. Mesmo que alguns diálogos toquem diretamente no ponto (em especial a última discussão do casal, em um restaurante vazio), a superficialidade do roteiro chega quase a transformar Kate em uma mulher mais apaixonada pelas causas que defende do que pelo homem que ama. Em inúmeros momentos é mais fácil entender o lado de Hubbell - que pretende levar sua vida e sua carreira sem envolver-se em problemas universais - do que identificar-se com Kate, mesmo que a atuação de Streisand seja passional e crível. Mesmo que se possa acreditar no amor entre os protagonistas é visível, desde suas primeiras cenas, que eles combinam tanto quanto Fidel Castro e Hitler.

No geral "Nosso amor de ontem" funciona. A belíssima trilha sonora de Marvin Hamlisch (vencedora do Oscar, assim como a canção-título gravada por Streisand) contribui para o clima da história contada, assim como a caprichada reconstituição de época e o elenco bem escalado (Redford, no auge da beleza e do carisma, quase perdeu o papel para Ryan O'Neal devido a sua demora em comprometer-se com o projeto). Mas sua perenidade junto às fãs mais sensíveis provavelmente deve-se ao fato de ter um final menos feliz do que o corriqueiro. É um filme que merece ser conhecido, mas que não encanta tanto quanto promete.

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