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sexta-feira

O AMOR NÃO TEM SEXO

O AMOR NÃO TEM SEXO (Prick up your ears, 1987, Zenith Entertainment, 105min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Alan Bennett, biografia por John Lahr. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Mick Audsley. Música: Stanley Myers. Figurino: Bob Ringwood. Direção de arte/cenários: Hugo Luczyk Wyhowski/Philip Elton. Produção: Andrew Born. Elenco: Gary Oldman, Alfred Molina, Vanessa Redgrave, Wallace Shawn, Lindsay Duncan, Julie Walters, Frances Barber. Estreia: 17/4/87

Vencedor no Festival de Cannes: Melhor Trilha Sonora

Quem começar a assistir à "O amor não tem sexo" pensando tratar-se de mais um filme de temática gay com uma mensagem edificante certamente vai levar um choque ao final da sessão: o título em português de "Prick up your ears" (algo intraduzível mas pouco romântico ou formal) esconde a verdadeira e chocante história de amor, sexo, ciúme, violência e literatura do dramaturgo britânico Joe Orton e seu amante, Kenneth Halliwell, também escritor, mas sem o mesmo prestígio. Baseado em uma biografia de Orton escrita por John Larh, o filme de Stephen Frears (pouco antes de conquistar Hollywood com seu excepcional "Ligações perigosas", lançado em 1988) é seco, frio e um tanto irônico em sua tentativa de retratar não apenas um casal vivendo quase à margem da sociedade, mas também a própria sociedade hipócrita e falsamente liberal dos anos 1960.

Conhecido na Inglaterra como o autor de peças teatrais repletas de humor negro e críticas à sociedade, como "Entertaining Mr. Sloane" e "Loot", Orton chegou a ser chamado para escrever o roteiro de um filme dos Beatles e conhecer pessoalmente Paul McCartney. Enquanto ascendia profissionalmente, porém, sua relação com Halliwell entrava cada vez mais em uma crise sem fim: sete anos mais velho que Orton e sem seu charme, Halliwell sofria com as traições do parceiro - ainda que por vezes fosse chamado por ele para participar - e via sua carreira ser eclipsada pelo sucesso de Orton. A relação, desequilibrada sob todos os aspectos, parece atrair uma atmosfera de urgência e melancolia. Sob a visão de Frears, quase documental, os protagonistas parecem vislumbrar a tragédia, mas, ao mesmo tempo, sabem que não há como evitá-la. O tom de decadência impresso pelo cineasta nas aventuras sexuais de Orton transmitem uma sensação de incômodo e angústia - ainda que justamente essas jornadas pelo lado sombrio do sexo tenham feito dele o dramaturgo visceral que foi.


Um dos grandes trunfos de "O amor não tem sexo" é o elenco escolhido por Stephen Frears - notoriamente conhecido como um excelente diretor de atores. Antes de começar sua bem-sucedida carreira em Hollywood, Gary Oldman assume com perfeição o sotaque e os trejeitos de Joe Orton - um ano antes ele havia encarnado o roqueiro Sid Vicious e cinco anos mais tarde ele faria um Lee Harvey Oswald brilhante em "JFK: a pergunta que não quer calar", de Oliver Stone. Oldman, um ator dedicado e capaz de transformar-se fisicamente de um filme para outro encontra o par ideal em Alfred Molina. No papel, recusado por Ian McKellen (que anos mais tarde assumiu o arrependimento por isso), Molina brilha como o introvertido e apaixonado Halliwell, com um trabalho impressionante que vai se avolumando até o desfecho trágico. Não bastasse o par central, a excelente Vanessa Redgrave faz uma participação especial como a editora de Orton, Peggy Ramsay, em uma interpretação que lhe rendeu um prêmio de coadjuvante pela associação de críticos de Nova York e indicações ao Golden Globe e ao Bafta. É Redgrave quem surge como a voz da razão em um filme que mergulha sem medo no retrato de uma história de amor, sexo, inveja e literatura.

"O amor não tem sexo" não é, definitivamente, um filme que glamoriza a homossexualidade, mas tampouco a condena: é um desenho o mais fiel possível de uma tragédia, contado com imparcialidade e sem artifícios visuais ou melodramáticos. A fotografia crua de Oliver Stapleton e a edição ágil (mas nunca apressada) de Mick Ausdley são fatores cruciais para o sucesso do filme, mas é a direção incisiva de Stephen Frears quem reúne todos os elementos para formarem um único e chocante painel sobre um dos relacionamentos mais doídos da arte britânica dos anos 1960. É um filme desconfortável, mas, ao mesmo tempo, imprescindível!

segunda-feira

PROGRAMADO PARA VENCER

PROGRAMADO PARA VENCER (The program, 2015, Working Title Films, 89min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: John Hodge, livro de David Walsh. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Valerio Bonelli. Música: Alex Heffes. Figurino: Jane Petrie. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Gabriella Villarreal. Produção executiva: Liza Chasin, Olivier Courson, Amelia Granger, Ron Halpern. Produção: im Bevan, Eric Fellner, Tracey Seaward, Kate Solomon. Elenco: Ben Foster, Chris O'Fowd, Dustin Hoffman, Guillaume Canet, Jesse Plemons, Lee Pace, Denis Ménochet. Edward Hogg, Elaine Cassidy, Laura Donnelly. Estreia: 13/9/15 (Festival de Toronto)

No mundo do ciclismo profissional nenhum nome é mais conhecido - e celebrado, apesar de tudo - do que Lance Armstrong. Primeiro porque curou-se de um câncer no testículo (e tumores no pulmão e no cérebro) que o atingiu quando estava começando a ascender na carreira. Depois, por tornar-se campeão absoluto da famosa Tour de France, vencendo a competição por sete anos consecutivos (entre 1999 e 2005), um recorde absoluto. E, por fim e por uma razão menos admirável, por ter sido desmascarado como usuário recorrente de doping - mais precisamente uma droga chamada EPO (eritropoetina), que, aumentando a produção de glóbulos vermelhos no sangue, torna o metabolismo mais rápido. Tal descoberta, tornada pública após uma confissão do esportista no programa de TV de Oprah Winfrey, em janeiro de 2013 - e forçada por uma exaustiva investigação do FBI - jogou Armstrong no chão. Depois de perder todos os títulos conquistados, ter todas as homenagens feitas retiradas e ser banido do esporte pelo resto da vida, um dos maiores heróis do esporte norte-americano passou de mocinho a bandido, o que nem mesmo sua instituição criada para pesquisas contra o câncer ajudou a amenizar. E é justamente da história de Armstrong - entre o céu e o inferno - que trata "Programado para vencer", uma das cinebiografias mais subestimadas da temporada 2015 e um dos filmes menos aplaudidos do elogiado Stephen Frears.

Lançado no Festival de Toronto como um dos prováveis candidatos às cerimônias de premiação de final de ano nos EUA, "Programado para vencer" passou em brancas nuvens, sendo esnobado mesmo com o nome de Frears lhe servindo como cartão de visitas. Diretor de filmes admirados, como "Ligações perigosas" (88), "Os imorais" (90) e "A rainha" (2007), o britânico - que emplacaria Meryl Streep na corrida do Oscar pelo pouco memorável "Florence: quem é essa mulher?" no ano seguinte - não conseguiu o destaque esperado e tampouco chamou a atenção do público, que praticamente ignorou sua passagem pelos cinemas. Quem saiu mais prejudicado, no entanto, além dos produtores, foram os espectadores, que perderam a oportunidade de testemunhar (mais) uma atuação impecável de Ben Foster e conhecer os detalhes de uma história quase inacreditável, contada com um ritmo ágil e uma seriedade acima de qualquer suspeita.


Em uma interpretação irretocável, Ben Foster, um dos atores mais talentosos de sua geração, vive um Lance Armstrong repleto de nuances - da arrogância ao medo, da autoconfiança ao cinismo - com segurança ímpar. O roteiro, baseado no livro "Seven deadly sins: my pursuit of Lance Armstrong", do jornalista David Walsh (vivido por Chris O'Dowd no filme), acompanha a carreira do ciclista desde seus primeiros passos até sua decadência moral, dando ênfase em sua vida profissional e aos detalhes relacionados à sua relação com as drogas que acabaram por encerrar sua vitoriosa carreira. Mesmo que muitas vezes a narrativa precise utilizar-se de momentos mais didáticos para explicar ao público como funcionava a tática do atleta e seu médico italiano, Michele Ferrari (Guillaume Canet), a edição criativa de Valerio Bonelli não permite tempos mortos. Intercalando cenas de arquivo com sequências filmadas para a produção, "Programado para vencer" envolve a audiência sem fazer maiores esforços, principalmente graças a um visual atraente, uma trilha sonora eficaz e um elenco coadjuvante que conta até mesmo com o veterano Dustin Hoffman em uma participação especial - pequena mas crucial para marcar o início da queda do protagonista. Além dele, o jovem Jesse Plemmons - uma das novas promessas de Hollywood - também mostra que pode ir bastante longe na carreira ao dar vida a Floyd Landis, um colega (e posteriormente testemunha ocular dos abusos) do ciclista.

Mesmo sendo considerada uma obra menor na filmografia de Stephen Frears - um cineasta eclético, que flerta com todos os gêneros e normalmente sai-se muito bem em todos eles -, "Programado para vencer" tem muito mais qualidades do que defeitos. Pode-se dizer que por vezes soa como um telefilme ou que dá a impressão de ser um pouco superficial em sua reta final, quando os acontecimentos parecem atropelar-se, mas nada disso atrapalha o prazer de ver em cena grandes atores, uma história importante e um tema a ser discutido com seriedade e sem sensacionalismos. Ben Foster, nunca é demais dizer, brilha no papel central, e certamente merecia maior reconhecimento por isso, e Frears mais uma vez prova sua elegância natural em injetar sutileza e certo humor em um tema tão árduo. Um filme que precisa ser visto e recomendado!

quinta-feira

FLORENCE: QUEM É ESSA MULHER?

FLORENCE: QUEM É ESSA MULHER? (Florence Foster Jenkins, 2016, Qwerthy Films/Pathé Pictures International/BBC Films, 111min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Nicholas Martin. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Valerio Bonelli. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Consolata Boyle. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Caroline Smith. Produção executiva: Christine Langan, Cameron McCracken, Malcolm Ritchie. Produção: Michael Kuhn, Tracey Seaward. Elenco: Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg, Rebecca Ferguson, Nina Arianda, Stanley Townsend. Estreia: 23/4/16 (Festival de Belfast)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Figurino

Em 1994, o cineasta Tim Burton retratou, em seu sublime "Ed Wood", a história de um diretor de cinema cuja paixão pela arte era tamanha que o impedia de perceber a absoluta falta de qualidade de seus filmes - e que, após a sua morte, passou a ser considerado unanimemente como "o pior diretor da história do cinema". A história de Florence Foster Jenkins - socialite nova-iorquina que virou tema de uma produção do inglês Stephen Frears - pode não ser exatamente igual, por questões econômicas, sociais e pela diferença no objeto da paixão, mas tem suas similaridades. Incapaz de perceber a si mesma como uma péssima cantora lírica (sendo que péssima, no caso, é eufemismo), Jenkins usava seu dinheiro para financiar compositores e saraus em uma Nova York ainda sofrendo com a II Guerra Mundial - e, de quebra, se autopromovia em pequenas apresentações e até mesmo em disco. Objeto de adoração por amigos e de deboche quase explícito por quem a conhecia somente através de seu suposto dom, ela chegou a lotar o Carnegie Hall, em um show para o qual distribuiu mil convites para soldados americanos. A música era seu grande amor - assim como o marido mais jovem, St. Clair Bayfield - e essa relação íntima e feliz é o tema de "Florence: quem é essa mulher?", comédia dramática que rendeu à Meryl Streep a vigésima indicação ao Oscar de sua carreira, uma marca impressionante que não comprova apenas seu imenso talento mas também o prestígio gigantesco dentro da indústria hollywoodiana.

Exercitando sua veia cômica ao mesmo tempo em que encontra o tom dramático certo para os momentos mais emocionantes de sua personagem, Streep faz uso também de seu vasto carisma para compor uma Florence que transita sem descanso entre o naturalismo e a quase caricatura. Esse equilíbrio - que já vem no roteiro fluido de Nicholas Martin - esbarra apenas na direção um tanto pesada de Stephen Frears. Veterano com duas indicações ao Oscar no currículo - por "Os imorais" (1990) e "A rainha" (2006) - e eclético por natureza, a ponto de adaptar escritores tão díspares quanto Chorderlos de Laclos (em "Ligações perigosas", de 1988) e Nick Hornby (em "Alta fidelidade", de 2000), Frears parece não saber exatamente se prefere imprimir um tom de pastiche à trajetória da protagonista ou concentrar-se em seus dramas particulares (como a sífilis adquirida no primeiro casamento e a relação aberta com o segundo marido). Essa dubiedade - talvez proposital - acaba por dificultar uma entrega completa do público, que gargalha facilmente com o timing cômico perfeito de Streep mas estranha quando a trama escorrega, sem aviso prévio, para o dramalhão. Sorte que Frears sabe escolher seus colaboradores como ninguém, e "Florence: quem é essa mulher?" é exemplar em cada um de seus quesitos.


A reconstituição de época - dos cenários sofisticados ao figurino de Consolata Boyle, copiado das extravagantes roupas da personagem-título, também indicado ao Oscar - é primorosa: a Nova York dos anos 40 é retratada com riqueza de detalhes e um requinte que poderia tranquilamente uma outra nomeação à estatueta dourada. A trilha sonora de Alexandre Desplat faz-se notar apenas quando necessário, deixando que as óperas amadas por Florence ilustrem com mais frequência sua trajetória. E a fotografia acinzentada sublinha a opressão dos anos de guerra, situando a narrativa em um período histórico bastante específico, em que nem mesmo a beleza da música e da arte eram suficientes para fazer esquecer o sangrento conflito na Europa. A atmosfera de festa da alta sociedade em que circula Florence e seus amigos contrasta com a dureza do front - que só chega até eles pelo rádio e pela presença constante de soldados (objetos de admiração e caridade por parte da socialite, que nem por isso deixava de ser alvo de seus comentários debochados). O clímax do filme - o concerto de Florence no Carnegie Hall - é representativo: estão na plateia a alta sociedade nova-iorquina, celebridades (a atriz Tallulah Bankhead, o compositor Cole Porter) e o povo (representado pelos soldados), e no palco, a diva de meia-idade sem noção de sua falta de talento e seu fiel escudeiro, o desajeitado porém competente Cosmé McMoon (Simon Helberg, da série "The Big Bang Theory", e indicado ao Golden Globe de ator coadjuvante). É um encontro e tanto, resumido na declaração da vulgar e emergente Agnes Stark (Nina Arianda): "Não riam! Ela está cantando com o coração!".

Essa grande mensagem do filme - a de que a paixão e o amor podem ser mais importantes que o talento e a afinação - é que faz de "Florence" uma obra tão simpática e calorosa (apesar de estar longe de ser um dos melhores trabalhos de seu diretor). É difícil não se deixar conquistar pela personagem principal, por sua química com o marido adúltero porém carinhoso (que marcou a volta de Hugh Grant ao cinema e lhe rendeu uma indicação ao Golden Globe) e sua relação com o novato Cosmé, a princípio abismado com o fato de ninguém falar a verdade à sua nova patroa mas logo envolvido por seu sentimento de absoluta devoção à música. A interrelação entre os três personagens centrais é o que há de melhor no filme de Stephen Frears - uma conexão impecável que o torna agradável e encantador a ponto de ter seus pecadilhos deixados de lado. Um belo e descompromissado entretenimento!

segunda-feira

PHILOMENA

PHILOMENA (Philomena, 2013, The Weinstein Cmpany, 98min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Steve Coogan, Jeff Pope, livro "The lost child of Philomena Lee", de Martin Sixsmith. Fotografia: Robbie Ryan. Montagem: Valerio Bnnelli. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Consolata Boyle. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Barbara Herman Skelding. Produção executiva: Carolyn Marks Balckwood, François Ivernel, Christine Langan, Cameron McCracken, Henry Normal. Produção: Steve Coogan, Tracey Seaward, Gabrielle Tana. Elenco: Judi Dench, Steve Coogan, Sophie Kennedy Clark, Mare Winningham, Barbara Jefford, Peter Herman, Sean Mahon. Estreia: 31/8/1 (Festival de Veneza)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Judi Dench), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original

Uma jovem irlandesa católica tem seu filho pequeno entregue à adoção pelas freiras do convento onde vive, como forma de punição por seus pecados da carne. Quase cinco décadas mais tarde, torturada pelas lembranças do menino e decidida a fazer o possível para reencontrá-lo, a enfermeira aposentada une-se a um jornalista acostumado com os bastidores da política - e preso em um impasse profissional - para juntar as pistas sobre seu paradeiro. O jornalista, a princípio pouco interessado na história acaba, porém, descobrindo que reportagens de "interesse humano" podem ser tão gratificantes quanto escândalos do poder quando passa a conviver com a complexa Philomena Lee, uma mulher surpreendente e fascinante.

Parece trama de telenovela, mas o roteiro de "Philomena" - indicado ao Oscar de melhor filme na cerimônia de 2013, mas eclipsado pela mídia em torno de produções milionárias entediantes como "Gravidade" - é real, é revoltante e, mais importante ainda, conquista por escapar com maestria das armadilhas que uma história assim oferece a cada momento. Philomena, a protagonista vivida com sutileza emocional pela sempre competente Judi Dench (também indicada ao prêmio da Academia), é uma mulher triste, incompleta e remoída pela culpa cristã que a acompanhou a vida inteira, mas isso não a impede de brindar o público com um senso de humor inesperado, uma esperança inquebrantável e uma grandeza de espírito inacreditável. Fugindo das possibilidades melodramáticas da história contada pelo jornalista Martin Sixmith em seu livro "The lost child of Philomena Lee", o roteiro de Jeff Pope e do ator Steve Coogan (que também é produtor do filme e interpreta Sixmith) é redondo e ágil, nunca se deixando levar pelas lágrimas fáceis. É triste, sim, e emociona quando necessário, mas jamais se permite mergulhar no dramalhão barato. Soma-se a ele a direção precisa de Stephen Frears - um cineasta de extremo bom-gosto e sensibilidade - e a atuação brilhante de Dench e tem-se um dos filmes mais merecedores de figurar entre os melhores da temporada. E, não bastasse isso tudo, ainda consegue encontrar espaço para discutir religião, culpa, rancor e homossexualidade. Sim, caro leitor, "Philomena" é um tapa na cara dos fundamentalistas - de qualquer religião que força dogmas absurdos em detrimento da felicidade e do prazer.


Enquanto segue as pistas que ligam o nascimento do pequeno Anthony em um convento da Irlanda até uma família norte-americana que o adotou juntamente com a filha de outra interna, Martin Sixsmith embarca também em uma jornada pessoal: demitido do emprego por motivos políticos e tentando encontrar um novo sentido para a vida, ele acaba por ver em sua nova amiga - leitora compulsiva de romances baratos e capaz de fazer amizade com qualquer pessoa que lhe cruze o caminho - um exemplo de como levar a vida com mais leveza, apesar do drama devastador que a consome. Os diálogos entre Sixsmith e Philomena são deliciosos, graças a um roteiro esperto e à química entre seus dois atores, que conduzem o filme com fluidez e interesse até os momentos finais. É impressionante como a emoção que emana das cenas é contida pela direção discreta de Frears mas mesmo assim consegue se impor sem maior exagero. E é brilhante o modo como todas as peças da história se encaixam com suavidade, sem pressa mas também sem enrolação - em pouco mais de uma hora e meia tudo já está resolvido, mas sem contar com o peso de uma superficialidade que poderia lhe condenar à mediocridade.

Apesar do espaço aberto para reflexões a respeito dos erros que as crenças religiosas podem cometer e da melancolia de seu tema, "Philomena" é, acima de tudo, um filme sobre a esperança, sobre o perdão e sobre a tolerância. Com sua alma generosa e sua tenacidade admirável, Philomena acaba sendo um exemplo de ser humano, capaz de um perdão que muitos espectadores jamais dariam. E essa grandeza - da personagem e da atriz - transformam o filme de Frears em uma pequena obra-prima de delicadeza. Se o Oscar não tivesse ido parar (com justiça) nas mãos de Cate Blanchett - por sua deslumbrante "Blue Jasmine" - somente Dench teria sido uma escolha mais acertada.

COISAS BELAS E SUJAS

COISAS BELAS E SUJAS (Pretty dirty things, 2002, BBC Films, 97min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Steven Knight. Fotografia: Chris Menges. Montagem: Mick Audsley. Música: Nathan Larson. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Hugo Luczyc-Wyhowski/Linda Wilson. Produção executiva: Julie Goldstein, Teresa Moneo, Allon Reich, Tracey Scoffield, Paul Smith, David M. Thompson. Produção: Robert Jones, Tracey Seaward. Elenco: Chiwetel Ejiofor, Audrey Tautou, Sergi Lopez, Sophie Okonedo, Benedict Wong, Zlatko Buric. Estreia: 05/09/02 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Duas chagas da sociedade europeia estão retratadas em "Coisas belas e sujas", primeiro filme em língua inglesa da atriz Audrey Tautou, a eterna Amélie Poulain: a imigração ilegal e o mercado negro de órgãos. Com base em um roteiro esperto e enxuto que acabou sendo indicado ao Oscar mais de um ano depois de sua estreia no Festival de Veneza de 2002, o diretor inglês Stephen Frears - autor de obras tão diversas como "Ligações perigosas", "Os imorais", "Herói por acidente" e "O segredo de Mary Reilly" - construiu um filme instigante, austero e sensível que equilibra os elementos de um bom thriller com aspectos de denúncia social, além de uma comovente e discreta história de amor. Equilibrando sua história entre hotéis de luxo e as sarjetas do submundo ilícito dos estrangeiros que lutam por uma vida digna longe de seus países de origem, Frears conta com um fabuloso elenco internacional para dar vida a um conto muitas vezes cruel, mas dotado de uma ponta de esperança que o salva de tornar-se mais um petardo doloroso e cínico sobre as mazelas humanas. Para isso, nada colabora mais do que o rosto angelical de Tautou, que imprime delicadeza mesmo aos mais pútridos atos.

No entanto, apesar de ser o rosto de Tautou que enfeita o cartaz, o real protagonista de "Coisas belas e sujas" é Chiwetel Ejiofor - que alcançaria fama com sua indicação ao Oscar por "12 anos de escravidão", mais de uma década depois. Ele interpreta Okwe, um imigrante nigeriano que trabalha em Londres dirigindo um táxi durante o dia e como recepcionista de um hotel à noite. No meio-tempo ele dorme (ou tenta descansar, já que faz uso de ervas medicinais para manter-se acordado durante o horário comercial) no sofá do apartamento de uma colega, a turca Senay (Audrey Tautou), que sonha em viajar para Nova York mas precisa trabalhar sem visto tanto no hotel quanto em uma fábrica de roupas cujo dono a obriga a favores sexuais a despeito de sua virgindade. Senay é apaixonada por Okwe, que não percebe tal sentimento e esconde uma tragédia pessoal em seu passado - além do fato de ser formado em Medicina em seu país de origem. E é justamente esse detalhe profissional que irá empurrar o dedicado nigeriano em um pesadelo kafkiano: ao desentupir o vaso do banheiro de um dos quartos do hotel onde trabalha, ele encontra um coração humano. Intrigado com tal acontecimento bizarro - e com a indiferença com que tal é tratado por seu superior, Juan (Sergi Lopez) - o rapaz passa a investigar e descobre, para seu choque, um esquema de tráfico de órgãos do qual o próprio Juan faz parte.




Fotografado pelo veterano Chris Menges em tons pastel que reforçam o sentimento de claustrofobia, "Coisas belas e sujas" passa, com elegância, de um drama sobre os problemas dos imigrantes ilegais, sujeitos a humilhações e inseguranças constantes, a um suspense concebido com inteligência e altas doses de melancolia - um detalhe que o distancia de seus congêneres e o destaca como um dos melhores trabalhos da carreira de Frears. Substituindo o herói intocável e incorruptível por um ser humano passível de erros e dilemas éticos, o filme aproxima o espectador de seus personagens, se esgueirando por seus apartamentos minúsculos, seus subempregos, seus dramas pessoais e suas soluções frequentemente equivocadas sem fazer nenhum tipo de julgamento de juízo. Comovendo com a história de amor delicada entre Okwe e Senay - um romance casto, ingênuo e repleto de dores e decepções - e surpreendendo com os devios da trama de suspense - que envolve uma sequência perto do final de deixar qualquer um tenso na poltrona - o roteiro jamais escorrega na esquizofrenia, equilibrando com maestria os dois fios narrativos a fim de encerrá-los com coerência e delicadeza.

Intenso e bem dirigido, emocionante e interpretado com extrema força, "Coisas belas e sujas" é um filme subestimado ao extremo. Sua indicação ao Oscar - perdeu para o sensível "Encontros e desencontros", de Sofia Coppola - apenas destacou uma de suas inúmeras qualidades, mas a Academia errou em deixar de fora a direção precisa de Stephen Frears, a fotografia excelente de Menges, a edição impecável e a atuação de Chiwetel Ejiofor, que transmite com um único olhar uma variedade insana de sentimentos. Merece ser descoberto e aplaudido.

sábado

O SEGREDO DE MARY REILLY

O SEGREDO DE MARY REILLY (Mary Reilly, 1996, TriStar Pictures, 108min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Christopher Hampton, romance de Valerie Martin. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Lesley Walker. Música: George Fenton. Figurino: Consolata Boyle. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Lynn Pleshette. Produção: Norma Heyman, Nancy Graham Tanen, Ned Tanen. Elenco: John Malkovich, Julia Roberts, George Cole, Michael Gambon, Glenn Close, Michael Sheen, Kathy Staff, Linda Bassett, Ciarán Hinds. Estreia: 23/02/96

Depois de explodir como a bela e longilínea prostituta de "Uma linda mulher" - e de quebra conquistar uma indicação ao Oscar e tornar-se a atriz mais bem paga de Hollywood - Julia Roberts entrou em um prolongado inferno astral, quando passou a chamar mais a atenção do público por sua atribulada vida pessoal do que por seus trabalhos no cinema. Acumulando filmes que não encantavam nem à crítica nem tampouco ao público, ela foi perdendo espaço junto à plateia - que encontrava em atrizes como Sandra Bullock uma espécie de substituta nas suas tradicionais comédias românticas - e à indústria - que não via com bons olhos a queda de popularidade e bilheteria de seus filmes. Tentando provar que era bem mais do que um sorriso carismático e que seu talento se estendia além do tradicional feijão com arroz das produções comerciais, ela resolveu arriscar tudo em um projeto no mínimo inusitado: uma versão da clássica história do médico e do monstro contada através do ponto de vista da empregada do protagonista. Sob a direção do conceituado Stephen Frears e ao lado de John Malkovich, Julia Roberts deixava de ser uma estrela para se tornar uma atriz. A expectativa era enorme. E a decepção se mostrou igualmente gigantesca.

Com uma bilheteria que mal passou os cinco milhões de dólares - contra um orçamento relativamente generoso de quase cinquenta - "O segredo de Mary Reilly" foi um dos maiores fiascos dos anos 90, atrapalhando os planos de Roberts de estabelecer-se como atriz séria (o que aconteceria com seu Oscar por "Erin Brockovich", de 2000) e abalando o prestígio até mesmo de Stephen Frears e Malkovich - trabalhando juntos oito anos depois do sucesso de "Ligações perigosas". Massacrado pela crítica e ignorado pelo público que cinco anos havia lotado as salas de cinema para assistir Julia no esquecível "Dormindo com o inimigo", o filme baseado no romance de Valerie Martin acabou se transformando, nos bastidores de Hollywood, em sinônimo de desastre artístico. Mas hoje, visto à luz dos anos, sem a má-vontade velada que cercava a carreira de sua atriz principal e a pressão de ver nele uma obra-prima absoluta, o filme surpreende por ter mais qualidades do que defeitos. Não é, logicamente, uma produção excepcional, mas tampouco o diabo é tão feio quanto pintaram há quase vinte anos. Em especial em sua primeira metade, "O segredo de Mary Reilly" é um belo drama de suspense gótico, envolvente e intrigante.

Não é imprescindível que se conheça detalhes da história de "O médico e o monstro", de Robert Louis Stevenson, para se apreciar o filme de Frears, mas é particularmente interessante saber ao menos sua premissa inicial para melhor saborear todos os detalhes espalhados pelo roteiro de Christopher Hampton - outro colaborador de "Ligações perigosas", assim como George Fenton, o responsável pela trilha sonora soturna e densa, e Glenn Close, exagerando como Mrs. Farraday, a dona do bordel que ajuda Jekyll em suas aventuras noturnas. Com base nos livros de Stevenson e Martin, publicados com séculos de distância entre si, Hampton escreveu uma história de ritmo lento, quase contemplativo em sua metade inicial, quando estabelece a relação entre a empregada doméstica Mary Reilly (Julia, desprovida de qualquer artifício que lhe dê glamour) e o misterioso Dr. Henry Jekyll (Malkovich, sempre exercitando sua persona desequilibrada). Traumatizada por uma infância violenta - que lhe deu cicatrizes no corpo e na alma - ela se torna a funcionária preferida de Jekyll, e, como tal, a responsável por manter em segredo suas experiências no laboratório nos fundos da mansão. Quando entra em cena Mr. Hyde, o assistente de Jekyll - que ao contrário dele não deixa passar a atração que sente por ela - Mary entra em um perigoso jogo de sedução: seduzida pela elegância de um e pela coragem de outro, ela começa a desconfiar que as violentas mortes ocorridas ao redor de todos eles tem o mesmo responsável.


Julia Roberts não está nada mal em sua interpretação de Mary Reilly, pelo contrário: contida, discreta e deixando de lado toda e qualquer vaidade, ela transmite com firmeza todas as angústias e inseguranças de uma personagem difícil e complexa, torturada pela atração que sente pelo mal que sabe vir do laboratório de seu patrão. O problema está justamente na escolha de John Malkovich para interpretar as duas faces do protagonista masculino: longe de ser um mau ator, ele escorrega apenas em criar um Jekyll cuja única diferença em relação a Hyde é a cara de enfado que carrega durante todo o filme e o exagero que deixa tomar conta de sua atuação no terço final da narrativa. A sutileza da obra de Stevenson e sua discussão a respeito de como o bem e o mal convivem dentro de uma mesma pessoa desaparecem totalmente no clímax sanguinolento que destoa radicalmente do promissor e instigante começo. A opção por explicitar o que era apenas sugerido pela bela fotografia acinzentada de Philippe Rousselot enfraquece o resultado final, transformando uma história de rara inteligência em mais um filme de terror banal e anticlimático. Essa indecisão entre ser um filme de arte e uma obra popular talvez seja o calcanhar de Aquiles, o erro maior de toda a produção.

 E a produção, diga-se de passagem, é de encher os olhos. Sem querer impor uma estética de beleza onde não convém, o desenho de produção de "O segredo de Mary Reilly" é exemplar, enfatizando o lado gótico e sombrio da trama com seus cenários assombrosos e com uma reconstituição de época fascinante, que inclui visitas à ruas escuras e mercados livres que só faltam exalar seus cheiros fortes e desagradáveis. A fotografia, como dito antes, não fica atrás, mergulhando o espectador em um mundo sem luzes, quase irrespirável de tensão e medo, e o figurino também deixa de lado o glamour para concentrar-se no eficaz, no verossímil. Esses detalhes, que enriquecem o filme, acabam se perdendo, porém, quando a ação se torna acelerada para agradar aos paladares mais convencionais - o que não aconteceu justamente pela dúvida hamletiana de Frears em seguir ou não o caminho mais difícil. Uma pena. O que poderia ser genial ficou apenas bom - bem melhor, aliás, do que sempre foi dito a respeito dele.

OS IMORAIS

OS IMORAIS (The grifters, 1990, Cineplex-Odeon Films, 110min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Donald E. Westlake, romance de Jim Thompson. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Mick Audsley. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Richard Honrnung. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Barbara de Fina. Produção: Robert A. Harris, Jim Painter, Martin Scorsese. Elenco: Anjelica Huston, John Cusack, Annette Bening, Pat Hingle, Xander Berkeley. Estreia: 14/9/90 (Festival de Toronto)

4 indicações ao Oscar: Diretor (Stephen Frears), Atriz (Anjelica Huston), Atriz Coadjuvante (Annette Bening), Roteiro Adaptado

Lilly Dillon ganha a vida lavando dinheiro da Máfia, frequentando hipódromos para buscar a grana de seu violento patrão, Bobo Justus. Seu filho, Roy, vive de golpe em golpe, arriscando-se em busca do ganha-pão e não a vê há oito anos. Sua nova namorada, a alegre sirigaita Myra Langrty, utiliza-se de sua beleza para pagar com o corpo o aluguel e outras dívidas que não consegue amortecer, depois de ver suas chances de enriquecer com um golpe milionário irem por água abaixo. Esse trio de bandidinhos, malandros pés-de-chinelo, a quilômetros de distância do glamour hollywoodiano são os protagonistas de "Os imorais", noir sujo, direto e sem concessões baseado com extrema fidelidade no romance de Jim Thompson e dirigido por Stephen Frears que conseguiu a façanha de, no mesmo ano de "Os bons companheiros", de Martin Scorsese, e "O poderoso chefão, parte III", de Francis Ford Coppola, chegar até a cerimônia do Oscar em categorias nobres como direção, roteiro e atriz. Scorsese, aliás, é produtor executivo do filme, o que talvez explique a maneira com que as entranhas do submundo do crime são tão cruamente expostas nessa pérola de Stephen Frears, até então mais conhecido pelo elegante "Ligações perigosas" (88).

Pela direção da adaptação do clássico romance de Choderlos de Laclos estrelado por Glenn Close e John Malkovich, o diretor foi esnobado pela Academia, apesar do filme concorrer à estatueta principal, mas dessa vez não teve como ignorá-lo. Sua direção firme, fria e direta casa perfeitamente com o texto incisivo e cínico de Jim Thompson, escritor americano que frequentou Hollywood contribuindo com o roteiro de  "O grande golpe" (56) e "Glória feita de sangue" (57), ambos de Stanley Kubrick: sem preocupar-se com firulas, sua obra vai direto à jugular, com uma violência verbal e física capaz de encantar aos fãs do tradicional cinema noir hollywoodiano - mas, ao contrário dos filmes mais famosos do gênero, abdica do glamour para concentrar-se nos escaninhos mais sórdidos das histórias de gângsteres, aqueles que até o mais amoral criminoso tem vergonha de admitir. Ao retratar bandidos ralé ao invés de poderosos chefões, "Os imorais" ganha pontos pela autenticidade, garantida por um trio de atores principais de tirar o chapéu.


Anjelica Huston (loiríssima) está sublime como Lilly, uma Jocasta extemporânea que, depois de oito anos de ausência, reencontra o filho, Roy (John Cusack iniciando uma expressiva fase da carreira que o levaria a trabalhar com cineastas do porte de Woody Allen e ser reconhecido como um dos atores mais promissores de sua geração) e de cara implica com sua nova namorada, Myra (Annette Bening, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), em uma antipatia recíproca, como se ambas percebessem a inevitável rivalidade prestes a ocorrer. Lilly quer que Roy a ajude a fugir de seu patrão, que desconfia de sua honestidade (não sem motivos). Myra deseja que o namorado se torne seu sócio em um esquema que lesa milionários desavisados. As duas sabem que qualquer escolha do rapaz anulará a outra e uma guerra silenciosa é declarada entre elas.

Contando com uma edição ágil mas nunca apressada de Mick Audsley - que começa o filme dividindo a tela em três, apresentando à plateia as personagens com quem irão conviver pelas próximas duas horas - "Os imorais" se beneficia também do roteiro enxuto de Donald E. Westlake, que segue religiosamente sua origem literária e da coragem de Stephen Frears em obrigar o publico a testemunhar cenas de grande impacto emocional (a tortura psicológica sofrida por Lilly e um punhado de laranjas enroladas em uma toalha) sem nunca ultrapassar os limites visuais da violência. Trabalhando principalmente sobre a personalidade de seus protagonistas - e até mesmo deixando no ar algumas questões como o tipo de relação entre Lilly e Roy, que beira o incesto - a trama prefere investigar os mecanismos tortuosos entre os três personagens como engrenagens de uma complexa história de amor, traição e vingança. Não deve agradar a todos - seu visual é desprovido de qualquer beleza e seu ritmo é brusco e árido - mas poucos filmes de sua época tiveram sua coragem de arrancar sem temores os véus de delicadeza que cobriam o gênero policial. Só por isso já merece aplausos.

sexta-feira

A RAINHA

A RAINHA (The queen, 2006, Pathe International Pictures, 103min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Peter Morgan. Fotografia: Affonso Beato. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Consolata Boyle. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Tina Jones. Produção executiva: François Ivernel, Cameron McCracken, Scott Rudin. Produção: Andy Harries, Christine Langan, Tracey Seaward. Elenco: Helen Mirren, Michael Sheen, James Cromwell, Alex Jennings, Roger Allam, Sylvia Syms. Estreia: 02/9/06 (Festival de Veneza)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stephen Frears), Atriz (Helen Mirren), Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Helen Mirren)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Helen Mirren)

A temporada 2006 de cinema foi particularmente generosa para a realeza. Enquanto Forest Whitaker extasiou o mundo com sua atuação espetacular como o ditador de Uganda Idi Amin Dada em "O último rei da Escócia", a inglesa Helen Mirren promoveu um arrastão nas cerimônias de premiação com seu trabalho irretocável como a Elizabeth II no festejado "A rainha", dirigido por Stephen Frears. Ovacionada pelos espectadores do Festival de Veneza - quando a obra foi lançada - Mirren pavimentou seu caminho para ganhar, entre vários outros prêmios, o Golden Globe e o Oscar. Quem assiste ao filme percebe claramente os motivos para tal comoção.

Fugindo da tentação de fazer uma simples imitação da monarca - ainda viva e ainda atuante - Mirren construiu uma personagem multidimensional, que equilibra uma frieza quase glacial com a maturidade necessária para o cargo que ocupa diante de seus respeitosos súditos. Esse respeito, porém, entra em xeque com a morte da princesa Diana, que deixa o mundo todo - e em especial os ingleses - em estado de choque. Considerando o fato de que a sua ex-nora não fazia mais parte da realeza depois do divórcio, a rainha não concorda com a pressão da mídia e da sociedade em geral para que seu funeral seja realizado com honras reais. Sua decisão acaba sendo o motivo pelo qual o primeiro-ministro Tony Blair (Michael Sheen), recém eleito, sempre esperava para levantar sua bandeira de um governo mais moderno.


O roteiro de Peter Morgan - que segue da maneira mais fiel possível os fatos retratados - brilha por ser isento de qualquer tipo de julgamento moral, se atendo a descrever alguns dos mais difíceis dias da história da monarquia britânica com sobriedade e elegância, sem deixar de lado nem mesmo o tipíco humor local, sempre de maneira discreta e sutil. Já Stephen Frears - conhecido por obras impecáveis como "Ligações perigosas" e "Alta fidelidade", bastante díspares entre si - mostra um outro lado de seu talento, mantendo-se humilde diante da história narrada. Sua direção não apela para ângulos de criatividade duvidosa ou uma edição nervosa, preferindo deixar que a trama siga por si mesma, sem maiores intromissões. Contando com uma direção de arte esplêndida e uma trilha sonora das melhores do ano - merecidamente indicada ao Oscar - ele faz de seu filme uma homenagem justa e - melhor ainda! - respeitosa à memória de Diana, cujo carisma é comprovado pelas cenas de arquivo utilizadas na montagem final. Ao confrontar o antigo (a monarquia, na figura quase anacrônica de sua majestade maior) com o moderno (Tony Blair e sua desajeitada mas bem intencionada vontade de ajudar o país e seu povo), o roteiro de Morgan e a direção de Frears apontam para uma discussão sadia e bastante interessante, ajudada pelo elenco, que faz extraordinário uso dos diálogos que lhe cabem.

Se James Cromwell está competente como sempre como o príncipe Phillip e Michael Sheen deita e rola com as possibilidades de seu Tony Blair, é inegável que é mesmo Helen Mirren quem comanda o show, com um trabalho baseado em detalhes. Os olhares, os gestos comedidos, o tom de voz e as expressões faciais com que Mirren monta sua Elizabeth II é que mostram porque atrizes como ela são raras e especiais. Mesmo que na disputa por sua estatueta estivessem nomes de peso como Judi Dench, Kate Winslet e Meryl Streep, o prêmio realmente deveria ser dela. Uma premiação incontestável!

quarta-feira

HERÓI POR ACIDENTE

HERÓI POR ACIDENTE (Hero, 1992, Columbia Pictures, 117min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: David Webb Peoples, história de Laura Ziskin, Alvin Sargent, David Webb Peoples. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Mick Audsley. Música: George Fenton. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo. Produção: Laura Ziskin. Elenco: Dustin Hoffman, Geena Davis, Andy Garcia, Joan Cusack, Chevy Chase, Stephen Tobolowski, Tom Arnold. Estreia: 02/10/92

"Quando a lenda é mais interessante do que a história, publica-se a lenda." A célebre frase, dita no filme "O homem que matou o facínora", parece ser o lema que orienta o roteiro de "Herói por acidente", ácida e cínica comédia dirigida pelo inglês Stephen Frears que falhou vergonhosamente em suas intenções de arrebatar prêmios nas cerimônias de 1992. Uma espécie de sátira ao estilo Frank Capra - repleto de ironias, mas sem as lições de moral dos filmes deste - o filme escrito por David Webb Peoples (autor de "Os imperdoáveis") não encontrou nem mesmo sua audiência, estacionando em uma bilheteria de menos de 20 milhões de dólares, a despeito de seu cartaz estampar os nomes de Dustin Hoffman e Geena Davis - ela então no auge da carreira depois do sucesso de "Thelma & Louise".

Davis interpreta Gale Gayley, uma repórter dedicada e ambiciosa, capaz de entrevistar suicidas momentos antes de seus atos finais. Durante um vôo de volta de Nova York - onde havia ido para receber um prêmio - seu avião sofre um acidente e os passageiros são resgatados por um homem misterioso, com o rosto sujo de lama e sem um pé de sapato. Não demora para que esse herói receba, na mídia, o apelido de "O anjo do vôo 104" e passe a ser procurado para entrevistas e glórias. Quando uma recompensa de 1 milhão de dólares é oferecida, porém, o novo astro surge: o mendigo John Bubber (Andy Garcia) assume o posto e torna-se ídolo das multidões, chegando inclusive a ensaiar um romance com a repórter. O problema maior é que Bubber não é o verdadeiro salvador: quem realmente merece as honras é Bernie LaPlante (Dustin Hoffman), um homem que vive de expedientes, sem emprego fixo e que foi parar na cadeia logo depois do acidente, acusado de revender objetos roubados. LaPlante tenta provar que ele é o verdadeiro herói, mas tem que lutar contra o fato de que Bubber é bonito, simpático e bem mais apropriado às intenções da mídia.

Um feroz ataque à futilidade da mídia, "Herói por acidente" esbarra, em certos momentos, em um cinismo exagerado. Ainda que a intenção do roteiro seja justamente ampliar os erros cometidos em nome do sucesso - afinal de contas é isso que faz uma comédia - às vezes a coisa parece sair do controle. Excelente diretor, Frears escorrega em carregar nas tintas das personagens, a ponto de nem mesmo o público saber discernir entre o que é verdadeiro ou não em suas personalidades. O romance entre Gale e John Bubber, por exemplo, não encanta justamente por esse motivo. Por melhores atores que sejam, Geena Davis e Andy Garcia saem-se muito melhor nas sequências menos dramáticas do filme - Garcia está sublime em seus momentos de demagogia explícita (ainda que o roteiro nem sempre se decida se ele é honesto ou não em suas intenções).

Mas Dustin Hoffman, mais uma vez, brilha intensamente. Apesar de manter alguns tiques de seu "Rain Man", ele dá a seu Bernie LaPlante nuances que o fazem driblar as armadilhas do roteiro um tanto maniqueísta. O protagonista criado por David Peoples não tem nada que o faça ser mais do que um ser humano um tanto desagradável, um pai relapso (mas amoroso) e um ex-marido decepcionante. Ainda assim, o carisma de Hoffman contorna as falhas de caráter de sua personagem, levando o público a torcer por sua vitória. A longa sequência em que ele conversa com um suicida John Bubber é um primor de inteligência, e seu diálogo esperto e realista compensa plenamente os percalços do roteiro até então.

Dizer que "Herói por acidente" é ruim é um pecado, bem como incensá-lo como uma obra-prima. É um filme de rara inteligência e sarcasmo, mas que resvala em alguns exageros. Não mereceu ser ignorado e deve ser redescoberto, ao menos para que a crítica furiosa que faz ao quarto poder não caia no vazio.

sábado

LIGAÇÕES PERIGOSAS


LIGAÇÕES PERIGOSAS (Dangerous liaisons, 1988, Warner Bros, 119min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Christopher Hampton, romance de Choderlos de Laclos, peça teatral de Christopher Hampton. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Mick Audsley. Música: George Fenton. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Gérard James. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção: Norma Heyman, Hank Moonjean. Elenco: Glenn Close, John Malkovich, Michelle Pfeiffer, Uma Thurman, Keanu Reeves, Swoosie Kurtz, Mildred Natwick. Estreia: 21/12/88

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Glenn Close), Atriz Coadjuvante (Michelle Pfeiffer), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor de 3 Oscar: Roteiro Adaptado, Figurino, Direção de arte/cenários


"Crueldade" é a palavra preferida da Marquesa de Merteuil. Uma mulher em um mundo dominado por homens, ela vê na sua possibilidade de manipular aqueles a quem considera inferiores sua vingança contra a humanidade em geral. Com o rosto de Glenn Close, ela é a personificação do mal em "Ligações perigosas", brilhante adaptação do romance epistolar de Choderlos de Laclos dirigida pelo inglês Stephen Frears e que concorreu a merecidos 7 Oscar em 1988. Escrito pelo mesmo Christopher Hampton que fez a transição do livro para os palcos londrinos, o roteiro excepcional (vencedor de uma estatueta dourada) consegue transpor para a tela, com perfeição, a futilidade, a maldade e a falta de escrúpulos de nobres franceses entediados que se divertem às custas do sofrimento alheio.

Na interpretação mais espantosa de sua carreira, Close interpreta uma venal Marquesa que, sentindo-se traída em seus brios por um antigo amante, propõe a seu colega de egocentrismo e vaidade Visconde de Valmont (John Malkovich) um jogo de sedução que ele quase descarta como sendo "fácil demais": levar para a cama a inocente e virginal Cécile de Volanges (Uma Thurman, em um papel para o qual foram testadas Drew Barrymore e Sarah Jessica Parker), que está de casamento marcado com um homem que não apenas abandonou a Marquesa como traiu-a com uma amante do Visconde. Para recuperar sua fama de conquistador, o cínico aristocrata concorda com o plano, mas também se dedica a uma sedução muito mais desafiadora. Encorajado por Merteuil - que lhe promete uma tórrida noite caso ele seja bem-sucedido em seus intentos - ele ambiciona levar para sua alcova a virtuosa Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer), uma mulher casada e religiosa.



Praticamente ao mesmo tempo em que "Ligações perigosas", uma outra versão da obra de Laclos também chegou aos cinemas. Dirigido pelo tcheco Milos Forman, "Valmont" não teve a mesma repercussão que o filme de Stephen Frears, apesar do elenco mais jovem (Annette Bening e Colin Firth foram os protagonistas, sendo que Bening substituiu Michelle Pfeiffer, que acertadamente preferiu viver outra personagem da história e foi indicada ao Oscar de coadjuvante por isso). Mas é certo que, mesmo com suas qualidades, a versão de Forman não tem o mesmo peso e a mesma qualidade quase literária e teatral da visão de Frears, injustamente deixado de lado na corrida ao Oscar de direção.

Apesar do roteiro de Hampton (inteligente e sagaz, mas nunca deixando de ser extremamente sexy) ser o sonho de qualquer cineasta que se preze, devido a suas inúmeras possibilidades, é Frears quem conduz com sutileza e elegância uma história calcada basicamente em sexo e suas consequências - quando foi publicado, em 1782, o romance que deu origem ao filme era considerado tão escandaloso que Maria Antonieta o lia às escondidas, com uma capa falsa. Esse conteúdo "picante" de "Ligações perigosas" é que faz, no entanto, que o filme seja tão, mas tão bom que deu origem a um filhote: sua versão modernizada, "Segundas intenções", com elenco adolescente, estreou em 1999 e fez grande sucesso junto a seu público alvo.

"Ligações perigosas" também pode se vangloriar de outras qualidades indispensáveis a um filme com suas pretensões artísticas - e essas qualidades também foram devidamente recompensadas com as estatuetas oferecidas pela Academia. A reconstituição de época é primorosa, tanto em termos visuais quanto quando se trata do comportamento da alta sociedade francesa pré-revolução. O cuidado de Frears em utilizar esses elementos para contribuir com a intrincada trama proposta pelo roteiro faz com que a plateia mergulhe intensamente nos sentimentos dos protagonistas, todos eles enredados em uma teia de luxúria e paixão desesperada.

Mas seria inútil um roteiro coeso e denso e um visual caprichado se Frears não tivesse escalado um elenco tão forte quanto o que escalou. Com exceção de um jovem Keanu Reeves que já mostrava a extrema fragilidade de seus dotes dramáticos, cada ator que surge em cena é de uma excelência a toda prova. Uma Thurman, jovial e ainda bela, apresenta a inocência de sua personagem com delicadeza e sensibilidade. Michelle Pfeiffer, linda como sempre, constrói a decadência amorosa de sua Madame de Tourvel com a firmeza de uma veterana e John Malkovich equilibra com maestria todas as nuances de um Visconde de Valmont venal, ególatra e até mesmo apaixonado. Sua ausência na lista dos indicados ao Oscar de melhor ator do ano ecoa a ausência de Frears na categoria de diretor. Mas é Glenn Close quem rouba descaradamente para si o filme todo, em uma atuação fascinante.

Depois de ter encarnado a psicótica Alex Forrest de "Atração fatal" e ter sido duramente criticada pelo exagero em sua interpretação - apesar da indicação ao Oscar - Close entrega, como a Marquesa de Merteuil uma atuação contida, discreta, quase silenciosa. Seu olhar de ódio, aliado a um tom de voz sussurrante e modos delicados enquanto maquina horrores em sua mente diabólica deram à atriz um dos papéis mais interessantes da história e ela não perde a oportunidade de mostrar seu talento. Em uma das cenais finais, em que ela simplesmente tropeça no salto do sapato diz mais - sem nenhuma palavra - do que páginas e páginas de diálogos seriam capazes. Suas conversas com Malkovich são, sem exagero nenhum, algumas das mais fascinantes que as telas de cinema mostraram ao público.

"Ligações perigosas" é uma aula de como contar uma história utilizando classe, inteligência e sutileza. É o melhor filme de Stephen Frears e injustamente foi preterido no Oscar pelo correto mas não ousado "Rain Man".

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...