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segunda-feira

NA CAPTURA DOS FRIEDMAN


NA CAPTURA DOS FRIEDMAN (Capturing the Friedmans, 2003, HBO Documentary, 107min) Direção: Andrew Jarecki. Fotografia: Adolfo Doring. Montagem: Richard Hankin. Música: Andrea Morricone. Direção de arte: Nava Lubelski. Produção: Andrew Jarecki, Marc Smerling. Estreia: 17/01/2003 (Festival de Sundance)

Indicado ao Oscar de Melhor Documentário

No começo dos anos 2000, o cineasta Andrew Jarecki estava trabalhando na produção de um documentário que falaria sobre pessoas que ganhavam a vida como palhaços em festas de aniversário infantis em Nova York. Sua pesquisa o levou até David Friedman, considerado então o melhor profissional do ramo, na cidade. Mal sabia Jarecki que tal encontro o levaria a caminhos bem diferentes em sua carreira - incluindo uma indicação ao Oscar e uma polêmica que chegou a questionar o sistema judiciário norte-americano. "Na captura dos Friedman", o filme que gerou tanta controvérsia e o colocou na luta pela estatueta da Academia é, ainda hoje, quase duas décadas depois de seu lançamento, uma produção capaz de fazer questionar não apenas os desdobramentos de uma história no mínimo dúbia - mas também o papel da mídia na divulgação e cobertura de crimes graves.

O encontro de Jarecki com David Friedman o apresentou a uma história que lhe pareceu muito mais interessante e promissora do que seu projeto original - que foi lançado como extra na versão em DVD de "Na captura dos Friedman" nos EUA. Em 1987, seguindo uma investigação sobre pornografia infantil, a polícia chegou até a casa de Arnold Friedman  - um conhecido professor de computação para pré-adolescentes, pai de família e membro respeitado da comunidade de Great Neck, Long Island. Ao confessar ser receptador do material, Arnold acabou por dar margem a um aprofundamento maior àsinvestigações, e viu sua vida completamente destruída a partir daí. Acusado de molestar sexualmente seus alunos - devidamente interrogados pelas autoridades -, o aparentemente exemplar cidadão é preso juntamente com seu filho caçula, Jesse (de dezoito anos de idade), igualmente acusado pelos crimes. Enquanto aguardam julgamento em liberdade, pai e filho lidam com a pressão da vizinhança, da imprensa, da opinião pública e, mais grave ainda, da própria família. Enquanto os filhos mais velhos, David e Seth, acreditam na inocência do pai e do irmão mais jovem, Elaine, a esposa de Arnold, não tem tanta certeza assim - e essa desconfiança é a pá de cal na harmonia familiar.


 

Repleto de imagens registradas por David em filmes caseiros feitos durante o período pré-julgamento - e que acabaram sendo providenciais para a edição final do documentário de Jarecki -, "Na captura dos Friedman" é um estudo fascinante sobre a dissolução de um núcleo familiar de aparência sólida e, ao mesmo tempo, um inquietante drama policial, em que nada parece ser exatamente o que é. Mesmo que o filme seja perceptivelmente favorável à teoria de que as investigações sobre os abusos sexuais foram em boa parte forjadas - por interrogatórios duvidosos e tecnicidades que acabaram por prejudicar os réus -, há muito espaço, entre as entrevistas, as imagens de arquivo e as consequências do caso em si, para vastos questionamentos. O próprio Arnold Friedman assume, em determinado momento, que não a imagem que sempre transmitiu não corresponde à realidade: não apenas confessa ser pedófilo, mas revela também já ter cometido abusos sexuais em menores (fato nunca confirmado por qualquer evidência, mas mesmo assim perturbador). E o que dizer da possibilidade de Jesse ter sido molestado pelo próprio pai? Verdade ou jogada da defesa para diminuir a pena do rapaz? E as entrevistas do filme com as alegadas vítimas do professor - postas em xeque depois da estreia, por suas inconsistências? Nada é definitivo em "Na captura dos Friedman" - o que explica seus desdobramentos judiciais, que se mantiveram ativos por muitos anos depois da morte do patriarca.

As críticas feitas a "Na captura dos Friedman" à época de seu lançamento tinham muito mais a ver com a postura dúbia do cineasta em relação à culpa ou não de seus protagonistas do que a respeito do filme em si. Realmente há pouco do que reclamar em relação ao documentário de Andrew Jarecki - que depois mergulharia na história de outro réu célebre nos EUA, com o filme "Entre segredos e mentiras" (2010), estrelado por Ryan Gosling e Kirsten Dunst, e com a série documental "The Jinx: a vida e as mortes de Robert Durst" (2015): mantendo o interesse do público até seu último minuto, graças a uma edição ágil mas recheada de informações, o diretor conduz seu trabalho com seriedade e respeito aos envolvidos, evitando ao máximo o sensacionalismo barato. O resultado final pode até ser discutido em termos morais, éticos e/ou jurídicos, mas enquanto cinema é daqueles filmes de tirar o fôlego.

domingo

AMY

AMY (Amy, 2015, Film4/On The Corner Films, 128min) Direção: Asif Kapadia. Fotografia: Rafael Bettega, Jake Clennell, Ernesto Herrmann. Montagem: Chris King. Música: Antonio Pinto. Produção executiva: Adam Barker, David Joseph. Produção: James Gay-Rees. Estreia: 16/5/15 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Melhor Documentário

Foi meteórica, mas foi marcante e inesquecível. A passagem da cantora britânica Amy Winehouse pela vida - breve, de meros 27 anos - não deixou ninguém indiferente. Dona de uma voz peculiar, um estilo próprio e uma existência recheada tanto de sucesso quanto de polêmicas, Winehouse deixou o mundo em 23 de julho de 2011, e seu final melancólico nem chegou a ser surpreendente. Foi a crônica de uma morte anunciada: seus problemas com álcool e drogas, que a levavam constantemente às páginas de tabloides sensacionalistas mais do que às reportagens sobre música, estavam claramente a conduzindo para um desfecho trágico. E pior ainda: o mundo estava testemunhando calado sua decadência física, mais preocupado no folclore ligado a seu nome no que na qualidade de seu talento. Vítima frequente de deboche e caricaturas, Winehouse pereceu diante da mesma audiência que um dia a cobriu de aplausos - e no outro viu nela o alvo perfeito para uma perseguição mórbida e criminosa. Uma personalidade fascinante e complexa, a cantora que tirou o pó do jazz e o apresentou para uma geração de fãs de música pop é o tema de "Amy", o belo e triste documentário dirigido pelo mesmo Asif Kapadia do celebrado "Senna" (2010). Vencedor do Oscar da categoria e outros 50 prêmios em festivais e por associações de críticos, o filme é um retrato fiel e carinhoso da artista - e uma feroz crítica à indústria das celebridades.

Com acesso a imagens exclusivas e raras da adolescência e juventude de Amy - cortesia da família da cantora, que posteriormente rejeitou o resultado final do projeto, alegando que o filme não lhes era simpático ou ao menos justo - o documentário de Kapadia é um presente para os fãs, mostrando um lado de Winehouse que poucas vezes chegava até à mídia. Através de filmes caseiros, é possível conhecer um Amy ainda bastante jovem e já concentrada em seu desejo de fazer música, mas cercada de amigos e familiares que lhe davam amor e apoio - ao menos até que a ausência paterna tenha começado a fazer seus estragos: sofrendo de bulimia e uma insegurança quase patológica, Amy viu no palco e nos estúdios a válvula de escape para uma existência mais significativa, mas jamais poderia supor que, ao lado do sucesso, de mãos dadas com ele, estava o fim da privacidade que tanto amava. Sem buscar o sucesso a qualquer preço ou a celebridade oca, sua intenção era compor e cantar seus sentimentos mais profundos - o que acabou levando-a, com o tempo, a chegar nas paradas de sucesso e ver-se soterrada por responsabilidades e cobranças que ela preferia evitar. Por trás do abuso de drogas e álcool, sempre esteve a menina deslumbrada com seus ídolos (Tony Bennett entre eles) e a filha carente de amor paterno, que, como qualquer pessoa normal, errava ao escolher seus amores da mesma forma com que conquistava o coração de milhares de admiradores de boa música.


Sem medo de apontar o dedo para aqueles que certamente contribuíram para a decadência física e mental de Amy, o documentário dá ênfase a dois homens que nortearam a vida e a carreira da cantora. O primeiro deles, seu próprio pai, Mitch Winehouse, que aproveitou-se do sucesso da filha para lucrar mesmo que isso fosse contra sua vontade (e as necessidades médicas e psicológicas). O segundo, seu marido, o músico Blake Fielder, que inspirou seu álbum mais famoso, "Back to black" quando a abandonou para voltar para uma ex-namorada e aprofundou seu consumo de drogas, lhe apresentando a heroína e iniciando um relacionamento marcado por escândalos, clínicas de reabilitação, manchetes sensacionalistas e uma série de decepções que transformaram a Amy Winehouse vencedora do Grammy, fenômeno do jazz e adorada por milhares de fãs na Amy Winehouse agressiva, irresponsável e alvo mais de chacotas e críticas do que de elogios. Sua fragilidade física e mental é mostrada de forma clara e direta por Kapadia, que novamente descarta qualquer tipo de narração em off para construir seu filme unicamente com imagens e áudios, que dão a exata noção de como vivia (e como morreu) uma das mais exploradas figuras da música popular do século XXI. E, como não poderia deixar de fazer, também responsabiliza o público por seu drama pessoal.

Perseguida incansavelmente pela mídia, Amy Winehouse passou de estrela da música a atração de programas e jornais sensacionalistas. Em pouco tempo sua música deixou de ter o destaque que merecia e foi substituída por um interesse quase doentio da imprensa, que sabia que, a cada escândalo, a cada internação, a cada show cancelado e a cada fofoca de bastidores, mais jornais e revistas venderia. Amy virou a pessoa certa para quem procurava barracos e situações constrangedoras, um fato alimentado pelos leitores e telespectadores que começavam a enxergá-la como parte do folclore do mundo das celebridades. O documentário não hesita em forçar o espectador em colocar a mão na consciência e perceber o quanto isso tudo influenciou negativamente na trajetória de Amy, uma jovem que queria apenas cantar suas dores e frustrações e se viu diante do furacão incontrolável da fama mundial. Enquanto se faziam piadas sobre seu estado e a colocavam como uma patética personagem de si mesma, ela se afundava mais e mais em um estado irremediável de angústia e solidão. Esse retrato sem piedade de um ser humano e suas tentativas de sobreviver diante de fatos sobre os quais não tinha controle é o mais triste de "Amy", mas é também o que o faz imprescindível para se compreender a verdadeira Winehouse por trás da fama, dos boatos e do falso glamour da fama. Um filme obrigatório, e não somente para os fãs.

quarta-feira

EDIFÍCIO MASTER

EDIFÍCIO MASTER (Edifício Master, 2002, Videofilmes, 110min) Direção e roteiro: Eduardo Coutinho. Fotografia: Jacques Cheuiche. Montagem: Jordana Berg. Produção executiva: João Moreira Salles, Mauricio Andrade Ramos. Estreia: 03/10/02

Quem conhece a obra do cineasta Eduardo Coutinho sabe de sua quase sobrenatural capacidade de arrancar declarações inesperadas de seus entrevistados - e até mesmo de transformar a mais comum das pessoas em um personagem inesquecível e fascinante. Esse talento único está em grande forma em um dos seus melhores trabalhos, "Edifício Master", lançado em 2002 e referência obrigatória para todos os fãs do gênero. Parte da lista dos 100 melhores filmes nacionais de todos os tempos elaborada pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) em 2015 e premiado nos festivais de Gramado e Havana, além da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), o brilhante trabalho de Coutinho reflete como poucos a diversidade do país, utilizando-se para isso um prédio de apartamentos residenciais, localizado em Copacabana, no Rio de Janeiro. Ao contrário da imagem de glamour e luxo que o endereço pode transmitir em um primeiro momento, os moradores escolhidos pelo diretor para contarem um pouco a respeito de suas vidas são pessoas simples e idiossincráticas, que compõem um panorama eclético e emocionante de uma parte numerosa e frequentemente ignorada do Brasil: a classe média baixa, com seus altos e baixos pessoais, profissionais e familiares.

Ao dar voz a indivíduos aparentemente simples mas dotados de complexidades que são reveladas gradualmente, conforme as entrevistas vão se desenrolando, Eduardo Coutinho deixa claro ao espectador que, mais do que buscar a excentricidade de cada um, ele procura suas banalidades - e, por consequência, sua humanidade mais radical. Com uma variada gama de personalidades em mãos, o cineasta faz do público o voyeur não apenas de um vizinho qualquer, mas de quase quatro dezenas deles, devassando suas intimidades e pensamentos mais honestos. Desfilam pela tela tanto jovens sonhadores e/ou presos a doenças psicológicas ou sociais, casais com histórias de amor variadas, um veterano ator de televisão, uma garota de programa, pessoas de meia-idade amarradas a um passado saudoso que não volta mais, uma ex-dançarina que fez fama no Japão na juventude e vários outros rostos desconhecidos que vão revelando suas grandezas e mesquinharias sem medo de julgamentos ou críticas. Dotado de momentos emocionantes - como o morador que canta "My way", de Frank Sinatra, com os olhos marejados de lágrimas - e outros bastante curiosos - a jovem maníaco-depressiva que tem fobia de pessoas e não consegue sequer olhar nos olhos de Coutinho, por exemplo - "Edifício Master" é um fascinante compêndio sobre a natureza humana, repleto de uma verdade de que somente os melhores documentários conseguem atingir.


Mesmo que tenha escolhido um número relativo pequeno de moradores - 37, de um universo de cerca de 500 à época das filmagens - Eduardo Coutinho comprova, com sua inteligente amostragem, que existem sentimentos que unem todos os seres humanos. A solidão, por exemplo, é uma constante participante das entrevistas, tanto nos personagens mais jovens quanto naqueles mais experientes - tanto nos solteiros quanto nos casados. O que Coutinho faz com admirável destreza é escancarar as portas de cada apartamento, convidando o público a penetrar em vidas de completos estranhos que, alguns minutos mais tarde, tornam-se quase íntimos. Nenhuma história soa pequena diante do vasto interesse do diretor na alma humana: da senhora assaltada que não consegue livrar-se do trauma, da jovem expulsa grávida da casa dos pais e que recomeça a vida no prédio, dos jovens músicos em busca de uma oportunidade, de uma rígida imigrante que acredita que o trabalho duro é a única forma de manter a sanidade física e financeira e do casal de viúvos apaixonados depois de se conhecerem em um anúncio de jornal, tudo é matéria-prima para a curiosidade carinhosa do documentário, que prescinde de artifícios narrativos para atingir seu objetivo: não há nada mais no cinema de Coutinho do que ele mesmo, seus convidados, uma câmera e a emoção que surge em cada minuto. É simples, direto e extremamente eficiente.

Um prédio de 12 andares com 276 apartamentos e que já foi o lar de nomes como Rogéria, Elke Maravilha e Leila Diniz, o Edifício Master passou por mudanças radicais desde o lançamento do filme. Se no momento da realização ele já não era mais o lar de prostitutas, drogados e cafetões que foi por um período de tempo - graças à uma administração mais séria e menos liberal - mais de uma década depois as coisas estavam ainda mais atraentes para seus moradores. O preço dos apartamentos, por exemplo, disparou de cerca de R$ 35 mil em 2002 para R$ 700 mil em 2015, ano em que Eduardo Coutinho morreu assassinado pelo próprio filho, vítima de esquizofrenia. O porteiro ganhou uniforme, as câmeras de vigilância ficaram mais sofisticadas e os moradores tornaram-se, por algum tempo, celebridades do bairro, sendo reconhecidas nas ruas e supermercados como estrelas de cinema. Suas solidões encontraram eco na plateia, que descobriu, graças à imensa sensibilidade que escorre de cada entrevista, que seres humanos são, essencialmente, uns iguais aos outros, com suas dores e delícias. Uma obra-prima atemporal e universal!

terça-feira

DZI CROQUETTES

DZI CROQUETTES (Dzi Croquettes, 2009, Canal Brasil, 110min) Direção: Raphael Alvarez, Tatiana Issa. Montagem: Raphael Alvarez. Produção executiva: Raphael Alvarez, Tatiana Issa. Produção: Raphael Alvarez. Estreia: 04/9/09

Em 1972, em plena ditadura militar, que havia privado a população civil da liberdade de expressão, um grupo de teatro formado por 13 atores/dançarinos sem medo de enfrentar o preconceito e dispostos a quebrar todas as regras pré-estabelecidas surgiu como um sopro de ar fresco nos palcos do Rio de Janeiro. Batizados de Dzi Croquettes - em uma homenagem debochada ao grupo norte-americano The Coquettes - e desafiando o bom-comportamento compulsório que vigorava no país, eles chocaram e conquistaram públicos surpreendidos com um humor cáustico e transgressor que não demorou em chamar a atenção da repressão - e os levar a buscar novos horizontes na Europa. Celebrados em Paris (onde tinham como madrinha ninguém menos que Liza Minelli), eles conheceram a fama, o delírio e uma liberdade artística que influenciou todo o teatro brasileiro dos anos subsequentes. Como forma de resgatar as lembranças de um período histórico da cultura nacional e apresentar às novas gerações uma das mais importantes manifestações artísticas já criadas nos palcos, o documentário "Dzi Croquettes" estreou no Festival Internacional de Cinema do Rio em setembro de 2009 e começou uma vitoriosa trajetória internacional, arrebatando prêmios em Los Angeles, Miami, São Francisco e Turim. Dirigido por Raphael Alvarez e Tatiana Issa, o filme é um precioso estudo sobre o amor ao teatro, a liberdade de expressão, a amizade e a genialidade de um grupo de pessoas que, munidas de bom-humor, garra, dedicação e muito talento, deixaram uma marca indelével nas artes cênicas do Brasil.

Acompanhando a trajetória da companhia desde seus primeiros passos - com a liderança crucial do bailarino norte-americano Lennie Dale, que também foi responsável por transformar Elis Regina em fenômeno dos palcos além da grande cantora que sempre foi - e mergulhando o espectador em um universo de alegria e coragem, os diretores constroem um minucioso mosaico histórico e cultural, que não apenas joga luz sobre cada um dos treze integrantes da divertida trupe, mas também ilumina um período de trevas pelo qual passou a arte brasileira, cerceada e violentada pela repressão mais vil e ignorante. Apesar de situar com clareza sua narrativa no auge da ditadura militar, porém, o filme opta, acertadamente, pelo tom alegre e alto-astral que caracterizava as apresentações. Borrando propositalmente as barreiras da sexualidade, eles subiam ao palco travestidos como mulheres, mas sem a preocupação de esconder a barba ou os pelos do corpo, criando um novo estilo de encenação que misturava música, teatro, dança e crítica social da mais inteligente e cáustica possível. De sua criação até o exílio na Europa - com direito a um final melancólico e algumas mortes traumatizantes - o documentário de Alvarez e Issa mapeia com precisão a importância de seus espetáculos para o futuro do teatro nacional e não tem medo de ensaiar momentos de grande emoção, mesmo que sutil.


Filha do cenógrafo Américo Issa, que trabalhou em alguns espetáculos do Dzi Croquettes, a codiretora Tatiana aproveita a deixa para acrescentar a um trabalho já relevante e imprescindível como documento histórico, uma dose de nostalgia e sensibilidade extra. Sem deixar-se cair na armadilha do sentimentalismo, ela usa de sua própria experiência (ainda criança) nos bastidores dos espetáculos para situar a companhia como um núcleo familiar sui generis, conforme eles mesmos se consideravam. Dando a cada um dos atores o espaço merecido, o roteiro mescla imagens de arquivo preciosas e entrevistas reveladoras de integrantes, fãs e artistas cujo trabalho foi diretamente influenciado por seu espírito transgressor e cáustico. Miguel Falabella, Cláudia Raia e Pedro Cardoso, por exemplo, revelam como o besteirol - gênero teatral brasileiro por nascimento e excelência - deve muito de sua estrutura aos roteiros nonsense das peças e como Lennie Dale fez dos palcos nacionais um pedaço da Broadway. Algumas integrantes das Frenéticas também dão seu depoimento, lembrando como a personalidade de cada membro da equipe oferecia ao conjunto uma identidade própria e inimitável.

Mas são as entrevistas com os Dzi Croquettes ainda vivos que dão ao documentário o sabor especial que lhe transforma em um espetáculo raro. Inteligentes, sensíveis e cientes de sua importância no cenário teatral brasileiro (e mundial), eles contam histórias saborosas a respeito dos bastidores, enquanto relembram suas relações interpessoais, muitas vezes difíceis e muitas outras fascinantes. Amigos, colegas, amantes e familiares, os atores da companhia viviam sob o signo da liberdade total, inserindo em seu teatro todas as rebeldias e idiossincrasias que faziam deles artistas únicos que afrontavam toda e qualquer regra que porventura considerassem ultrapassadas. Uma festa constante nos palcos e nos bastidores, o grupo acabou por dar origem a um documentário que mantém vivos seus ideais e reflete, com delicadeza e a devida reverência, toda a grandeza de sua coragem. Um filme imprescindível para os amantes do teatro, das artes e da liberdade!

sexta-feira

TIROS EM COLUMBINE

TIROS EM COLUMBINE (Bowling for Columbine, 2002, United Artists, 120min) Direção e roteiro: Michael Moore. Montagem: Kurt Engfehr. Música: Jeff Gibbs. Produção executiva: Wolfram Tichy. Produção: Charles Bishop, Jim Czarnecki, Michael Donovan, Kahtleen Glynn, Michael Moore. Estreia: 16/5/02 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Melhor Documentário

Foi ao receber seu Oscar de melhor documentário, por este "Tiros em Columbine", que Michael Moore tornou-se mundialmente conhecido: diante de milhões de telespectadores que assistiam à cerimônia, o rotundo cineasta vociferou contundentemente contra George W. Bush, seu mandato - segundo ele, resultado de eleições fictícias - e a guerra do Iraque que, conforme se soube mais adiante, começou com o falso pretexto de que o país tinha um arsenal de armas de destruição em massa. Vaiado por uns, aplaudido por outros e criticado por muitos, Moore aproveitou, sem dúvida, para dar um belo empurrão em seu filme seguinte, "Fahrenheit 11/9" (2004), que tornou-se, já em sua estreia, o documentário de maior bilheteria da história, além de ganhar a Palma de Ouro em Cannes - e que falava, para surpresa de ninguém, sobre as sujeiras escondidas do presidente norte-americano. "Tiros em Columbine", no entanto, não centra seu fogo unicamente em um alvo - ainda que acuse, sem papas na língua, o governo dos EUA de colaborar com os países que posteriormente apelaram para atos terroristas - e, com extrema contundência e um mordaz senso de humor, faz uma séria análise da fascinação do povo ianque por armas de fogo a partir do massacre cometido por dois alunos adolescentes de uma escola de ensino médio chamada Columbine, no estado do Colorado, em 1999.

Sem medo de causar polêmica - e certamente procurando por uma boa dose dela - Michael Moore estende sua reflexão social e política nas mais variadas direções, confirmando sua tendência para o autopromoção, uma característica que sempre lhe causa pesadas críticas mas que invariavelmente funciona à perfeição para atingir seus objetivos. Confiante em seus argumentos e movido por uma admirável cara-de-pau, Moore faz o espectador testemunhar situações que vão do constrangedor - a já clássica entrevista com Charlton Heston, defensor ferrenho do armamento da população e presidente da malfadada NRA (National Rifle Association) - ao surpreendente - como a visita do cineasta e dois jovens sobreviventes da tragédia em Columbine (um deles preso a uma cadeira de rodas) a uma rede de lojas que vende indiscriminadamente munição para armas de fogo. Conversando com pessoas envolvidas diretamente com as consequências de uma legislação francamente favorável (e até mesmo incentivadora) ao acesso quase irrestrito do público ao municiamento, o documentarista também faz questão de mostrar absurdos inimagináveis, como um banco que oferece uma arma de brinde aos novos clientes e não vê nada de errado com isso. Assim como acontece com Charlton Heston - que fica sem argumentos diante de questões pontuais e lógicas de Moore - outros entrevistados acabam por deixar que o diretor derrube suas convicções equivocadas mesmo sem precisar empurrar muito: argumentos como o histórico de violência na história da construção do país e a influência dos meios de comunicação são jogados por terra a cada nova conversa com explicações quase didáticas e fatos inquestionáveis.


Para cada tentativa de justificar a obsessão americana por armas, Michael Moore oferece estatísticas, contradições e muita história. Como forma de não tornar seu documentário algo tedioso, ele brinca com várias linguagens, como animação e videoclipes, que esclarecem ao espectador a forma como o governo dos EUA fomentou sem clemência um estado de constante paranoia para sustentar sua indústria armamentista. É sintomático que celebridades como Marilyn Manson se defendam com tanta inteligência e lucidez: vendo suas músicas e seu visual pouco normal sendo responsabilizados pela tragédia em Columbine, ele questiona o porquê de Bill Clinton e sua política de guerra não foram tão demonizados quanto, e continua sua defesa acusando comerciais de tv e a cultura do medo pelos desastres. Moore não deixa passar a oportunidade e apresenta, logo em seguida, números que mostram que nem mesmo os mais violentos filmes produzidos em Hollywood são capazes de incentivar algo que já não está radicalmente encravado em uma mentalidade quase doentia que vem de gerações. Em uma visita ao Canadá - uma região também muito mais armada do que a média - ele mostra ao surpreendido público que, apesar de igualmente armado além do normal, o país tem uma número de crimes muito abaixo do registrado nos EUA. Por que? É a grande questão do filme.

"Tiros em Columbine" lança diversas perguntas à plateia durante suas duas horas de duração. A maior parte delas o próprio Michael Moore responde, à sua maneira - às vezes exagerada, às vezes quase agressiva, quase sempre de forma contundente e assertiva. Outras ele apenas deixa no ar, oferecendo subsídios o suficiente para que os espectadores as respondam. Muito criticado por colocar-se como estrela de seus filmes, sobressaindo-se ao tema retratado, Moore realmente é uma figura marcante e não faz a menor questão de delicadezas ou sutilezas. No entanto, bem ou mal, é isso que faz de seus filmes grandes obras de não-ficção, tão empolgantes quanto qualquer suspense ou thriller político. "Tiros em Columbine" informa, indigna, choca e emociona em doses iguais - além de mostrar em um até então respeitável astro da era clássica de Hollywood um lado fascista jamais imaginado em alguém que fez o papel de Moisés. Um clássico contemporâneo, imprescindível e fascinante!

quinta-feira

RAUL: O INÍCIO, O FIM E O MEIO

RAUL: O INÍCIO, O FIM E O MEIO (Raul: o início, o fim e o meio, 2012, A.F. Cinema e Vídeo/Elixir Entretenimento, ) Direção: Walter Carvalho. Roteiro: Walter Gudel. Fotografia: Lula Carvalho. Montagem: Pablo Ribeiro. Produção: Denis Feijão. Estreia: 23/3/12

Não é preciso ser fã do rock indefinível criado por seu protagonista para se gostar de "Raul: o início, o fim e o meio", documentário de Walter Carvalho sobre um dos mais polêmicos astros da música brasileira, que escapava facilmente de qualquer rótulo que porventura o mercado quisesse lhe impor. Basta gostar de história da cultura popular nacional - ou de documentários inteligentes - para se deixar envolver. Ao contrário do filme anterior de Carvalho - um dos mais renomados diretores de fotografia do cinema nacional - que contava a vida do roqueiro Cazuza em tom ficcional, esse seu trabalho é resultado de uma pesquisa que consumiu mais de dois anos de sua vida, além de entrevistas com mais de 90 pessoas que tiveram algum tipo de contato com Seixas. O resultado é um filme emocionante, engraçado, nostálgico e revelador, ainda que felizmente não tenha a intenção de "definir" seu personagem principal.

Inserido em uma tradição recente da cinematografia nacional - que vem trazendo à luz nomes esquecidos e/ou injustiçados do cancioneiro popular brasileiro, como "Loki" (sobre Arnaldo Baptista) e "Ninguém sabe o duro que eu dei" (genial trabalho sobre Wilson Simonal) - "Raul: o início, o fim e o meio" tem a seu favor o carisma de seu investigado, um artista cuja obra rica e surpreendente ainda hoje mantém-se viva graças a legiões de fãs apaixonados e à contemporaneidade de sua música, que se presta a inúmeras leituras. É impossível para qualquer brasileiro nunca ter escutado ou cantarolado Seixas, e essa espécie de "inconsciente coletivo" apenas ajuda o filme, que, através de depoimentos de gente que realmente tem o que contar sobre o artista, cria um mosaico tão vasto sobre sua personalidade que, ao término da sessão não apenas um Raul fica na mente do público e sim vários: tudo depende do olho do espectador.


Entremeadas às canções saudosas de Seixas - e a seleção de Carvalho é fenomenal - existe depoimentos de todas as suas companheiras (e, com a exceção de sua primeira mulher, Edith, todas ainda mantém um perceptível carinho por ele), de seus amigos de infância, de suas filhas, de fãs, de colegas de trabalho e, como não poderia deixar de ser, de dois polêmicos parceiros: Paulo Coelho e Marcelo Nova. Enquanto o primeiro dá um longo depoimento sobre sua relação com Raul - e não tem medo aí de assumir que apresentou a eles todas as drogas possíveis, além de conduzi-lo ao estranho mundo da contracultura - o segundo tem que lidar com as acusações de alguns fãs e amigos do compositor de que foi o responsável por sua morte precoce (enquanto outras vozes, como Caetano Veloso, o defendem, acreditando em seu relacionamento de admiração genuína). Doente, Seixas morreu aos 44 anos - mas aparentando bem mais - depois de uma tourné de 50 shows com Nova (que o resgatou de um triste "chega pra lá" da indústria fonográfica).

Como filme, "Raul: o início, o fim e o meio" é o que se propõe a ser: um documento sobre um dos mais criativos e verdadeiros artistas pop do Brasil, que misturou Elvis Presley a Luiz Gonzaga sem jamais deixar de imprimir sua personalidade forte. E é inteligente ao optar por não chegar a nenhuma conclusão, o que seria no mínimo incoerente com a própria arte de Raul, que se intitulava uma "metamorfose ambulante". Seja como "carimbador maluco" (que o apresentou a uma nova geração de fãs), como "maluco beleza" ou como o criador de uma "sociedade alternativa", ele deixou sua marca indelével na cultura musical nacional. E não deixa de ser uma obrigação assistir à sua história. Ele é, definitivamente, a mosca que não para de pousar na nossa sopa (que o diga Paulo Coelho em uma cena destinada à antológica do filme). E nós não cansamos desse zunido...

terça-feira

CÁSSIA

CÁSSIA (Cássia, 2014, Midgal Filmes,120min) Direção e roteiro: Paulo Henrique Fontenelle. Fotografia: Vinícius Brum. Montagem: Paulo Henrique Fontenelle. Música: Cássia Eller. Produção executiva: Alex Sander Silva. Produção: Iafa Britz. Estreia: 19/10/14

A morte da cantora Cássia Eller, no finalzinho de 2001, no auge do sucesso e da popularidade, pegou o Brasil inteiro de surpresa - um choque quase tão brutal quanto o falecimento de Elis Regina, em janeiro de 1982. A comparação não é gratuita: em ambos os casos houve a interrupção de uma carreira brilhante com muito ainda a oferecer, elogios unânimes de crítica e público e o desrespeito por parte da imprensa, que irresponsável e covardemente, buscou no sensacionalismo de uma tragédia o alimento para intermináveis boatos a respeito de suas causas. Sem querer aprofundar-se na morbidez da mídia em relação ao caso e sim celebrar a vida de Eller e seu imenso talento em encantar, transgredir e impressionar positivamente todos que porventura cruzassem seu caminho, o cineasta Paulo Henrique Fontenelle presenteou o público com o documentário "Cássia", um trabalho fascinante, emocionante e verdadeiro sobre uma das artistas mais irreverentes e surpreendentes da música popular brasileira de todos os tempos.


Seguindo uma narrativa cronológica que ajuda a situar a carreira da cantora àqueles que a conheciam apenas por seus trabalhos mais famosos - a saber, os álbuns "Com você... meu mundo ficaria completo" (em que flertava descaradamente com a MPB, em conflito com a alma roqueira dos primeiros discos) e "Acústico MTV" (sua consagração absoluta ao misturar Piaf, Chico Buarque, Nando Reis, Gilberto Gil e Mutantes) - o filme de Fontenelle começa mostrando os primeiros passos de Eller na música, ainda em Brasília, e acompanha, através de depoimentos de amigos, colegas, jornalistas e dela própria (através de imagens de arquivo e de cartas lidas em off pela atriz Malu Mader) sua trajetória rumo ao sucesso profissional. De aparência agressiva e vozeirão potente, Cássia primeiro conquistou um público mais afeito a seu jeito transgressor, assumidamente apaixonado pela forma com que ela mostrava no palco uma personalidade radicalmente distante de sua timidez quase patológica, rompida apenas pela intimidade de seus leais amigos. Aos poucos, foi sofisticando o repertório, variando os estilos musicais a que punha a voz e quando se deu conta já era matéria de revistas e jornais, que invariavelmente a chamavam de uma das maiores revelações da música nacional. Daí para a consagração definitiva foi um pulo. E junto com o sucesso em proporções jamais imaginadas, aquele velho e conhecido problema: a roda-viva da fama.


A leveza com que Cássia levava sua carreira transformou-se, da noite para o dia, em um peso que ela percebeu não ter forças para carregar. Ao mesmo tempo em que era amada desesperadamente pelos fãs - os antigos, os novos e os ocasionais - e vivia uma fase de plena felicidade ao lado da companheira Maria Eugênia e do filho Francisco, a cantora entrava em um esquema pesadíssimo de trabalho, uma rotina que ela tentava quebrar fazendo shows às escondidas em cidades do interior (para desespero de seu empresário). Como acontece com frequência no mundo musical - histórias como as de Kurt Cobain e Amy Winehouse (coincidentemente também tema de documentários feitos à mesma época) - o mundo de Eller, já completo, não soube lidar com a pressão da fama em escala tão gigantesca. E o desfecho que todo mundo acha que conhece é finalmente revelado por pessoas que realmente testemunharam o fim desde o seu princípio. E é aí que reside a maior força do documentário de Fontenelle: dar voz a quem tem algo a dizer e não a quem especula ou quer vender revistas. Pela primeira (e definitiva) vez a história verdadeira sobre o que aconteceu nos últimos dias de Cássia é contada - e, para alívio geral, a narração foge do sensacionalismo barato e do sentimentalismo fácil. É jornalismo puro. Do mais sincero.

Os minutos derradeiros de "Cássia" merecem um capítulo à parte. O documentário mostra a luta de Maria Eugênia pela guarda de Francisco - reivindicada pelo pai da cantora, com quem ela nem mantinha a melhor das relações. Por pura e simples ganância, o avô do menino buscava uma forma de usufruir de seu patrimônio e enfrentou uma batalha judicial contra a companheira de Cássia, que tinha a seu lado a opinião pública, os amigos da artista e o próprio menino - além do desejo expresso de Eller para que sua família se mantivesse unida caso algo lhe acontecesse (um pressentimento funesto, infelizmente tornado realidade). Fontenelle mostra com clareza a forma com que, mesmo sem querer, uma das cantoras mais insubordinadas a surgir no Brasil conseguiu furar o bloqueio do conservadorismo ao abrir um precedente legal para adoção de crianças por pais (e mães) homossexuais. Mais um tapa de sinceridade e espontaneidade na cara de um país que ainda não a mostrava totalmente e foi obrigado a aplaudir uma mulher sem papas na língua, que adorava subir ao palco e desafiar o status quo, que não tinha medo de expor sua alma e seu coração quando cantava e que principalmente uniu vários tipos de público ao misturar samba, rock, mpb, hip hop, Beatles, Nirvana e Zé Ramalho em um mesmo irresistível balaio musical.

"Cássia" é uma belíssima homenagem à sua musa. Sóbrio, respeitoso, honesto e generoso ao mostrar ao grande público a mulher delicada, terna e suave que existia debaixo de uma armadura de irreverência e deboche. Mas é, acima de tudo, um presente inestimável a todos aqueles que ainda se deixam levar por sua inconfundível voz sempre que ela surge, potente e imprevisível. Para ver, rever sempre e, mais do que tudo, ouvir com muita saudade.

domingo

AS CANÇÕES

AS CANÇÕES (As canções, 2011, Videofilmes Produções Artísticas, 90min) Direção: Eduardo Coutinho. Fotografia: Jacques Cheuiche. Montagem: Jordana Berg. Produção: João Moreira Salles, Maurício Andrade Ramos. Estreia: 09/12/11

Se não houvesse músicas, como as pessoas se lembrariam de partes de sua vida? Essa é a questão levantada por Queimado, um dos participantes do belo documentário "As canções", dirigido pelo experiente Eduardo Coutinho, e de certa forma é uma razão para que o filme tenha sido feito: com seu talento incomum de arrancar de seus entrevistados depoimentos emocionantes e verdadeiramente humanos, Coutinho apresenta ao público 18 histórias comoventes sobre amor, tendo como elo de ligação o fato de todas terem uma canção-tema. São pessoas desconhecidas, simples e muitas vezes sem maior instrução que dão um show de sinceridade e até bom-humor. Mais uma vez o cineasta veterano de "Cabra marcado para morrer" acerta em cheio.

A estrutura de "As canções" lembra um pouco a de "Jogo de cena", brilhante documentário que contou com Andrea Beltrão, Marília Pêra e Fernanda Torres, entre outras: o entrevistado entra em um cenário escuro, sem nada mais do que uma cadeira e conta sua história, intercalando-a com a música que a marcou. Desfilam pela tela histórias trágicas e felizes, entre maridos e esposas, entre pai e filho, entre amantes... Em todas elas existe o elemento da paixão, do arrependimento, do amor quase irracional. Em todas elas a audiência se reconhece (se não ao todo ao menos em parte). Em todas elas o ser humano (material de supremo interesse do documentarista) é o astro central, dividindo o palco com sua trilha sonora particular. Em todas elas há aquilo que faz da obra de Coutinho tão especial: seu carinho pelo ser humano.


É esse carinho que abraça as histórias registradas pela câmera do cineasta, que interfere o mínimo possível nos depoimentos escolhidos, todos regidos principalmente pela emoção. Entre os inúmeros talentos de Coutinho está aquele essencial a um bom documentarista: garimpar sentimentos genuínos, personagens cativantes e histórias universais e ao mesmo tempo muito particulares. É fascinante a forma com que os entrevistados se entregam à emoção sem hesitação, seja por saudade, por remorso, por amor puro e deslavado. Talvez o mais emblemático de todos os depoimentos seja o de dona Maria Aparecida, uma mineira que foi expulsa de casa pelos pais ao ficar grávida quando ainda era solteira: em sua narrativa surge drama, humor, romance, preconceito e uma ferrenha paixão pela vida e pela família. Assim como ela, os outros convidados desfilam diante da câmera adultérios, mortes, malandragem, amores imortais, saudade e um sentimento palpável de conformismo em relação ao fim de uma história de amor. É a vida como ela é, sob o olhar compreensivo e neutro de um dos maiores diretores de documentários que o país já teve.

Característica central da filmografia de Eduardo Coutinho, sua paixão pelas pessoas fica patente em "As canções": enquanto suas "personagens" estão em cena é difícil não se envolver, não ser tocado, não compreender cada história, por mais distante que esteja do universo do espectador. Tudo é responsabilidade da capacidade do diretor em despertar a confiança absoluta do interlocutor, que sente-se como em um terapeuta. Lágrimas são constantes nos depoimentos, mas  ninguém parece se incomodar com esse devassar sentimental. Todos estão ali para dividir suas experiências. E esse jogo de compartilhamento de vida é arrebatador. Entre as músicas de Roberto Carlos, Jorge Benjor, Chico Buarque e Noel Rosa que são trilha sonora de vidas de gente como a gente, fica a certeza de que o amor não escolhe sexo, classe social ou idade para aparecer e fazer seus estragos. E é isso que faz de "As canções" um filme tão especial e caloroso. Imperdível!

sábado

FAHRENHEIT 11 DE SETEMBRO

FAHRENHEIT 11 DE SETEMBRO (Fahrenheit 9/11, 2004, Fellowship Adventure Group, 122min) Direção e roteiro: Michael Moore. Montagem: Kurt Engfehr, T. Woody Richman, Christopher Seward. Música: Jeff Gibbs. Produção executiva: Agnes Mentre, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Jim Czarnecki, Kathleen Glynn, Michael Moore. Estreia: 17/5/04 (Festival de Cannes)

Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes

Quando subiu ao palco que premiou os vencedores do Oscar 2002 para receber sua estatueta de melhor documentário do ano por "Tiros em Columbine", o cineasta Michael Moore foi aplaudido entusiasticamente pela plateia de celebridades quando vociferou um discurso incendiário contra o então presidente George W. Bush. Em seu agradecimento, Moore declarou que fazia documentários porque gostava da verdade e tinha vergonha de viver um país governado por um presidente eleito de forma fictícia (referindo-se ao controverso pleito que derrotou Al Gore) que inventou uma guerra fictícia no Iraque apenas para saciar seus desejos gananciosos. Não é preciso dizer que tal polêmica acendeu no mundo todo uma curiosidade quase desesperada pelo trabalho seguinte do diretor, "Fahrenheit 11 de setembro", que investigava as relações econômicas de Bush com o Oriente Médio - e consequentemente com Osama Bin Laden, o terrorista que articulou o ataque às Torres Gêmeas em 2001. Feito para alertar a população sobre as reais intenções do presidente - e impedir sua reeleição - o filme acabou estreado no Festival de Cannes de 2004, seis meses antes que os eleitores americanos fossem às urnas, mas acabou, apesar de sua contundência, falhando em seu principal objetivo: Bush continuou na Casa Branca mandando jovens inocentes a guerras inúteis. Porém, o propósito do diretor em atingir o maior número possível de espectadores - a ponto de encorajar inclusive downloads ilegais - não pode ter sido atingido com mais sucesso: com uma renda de mais de 200 milhões de dólares de arrecadação mundo afora, "Fahrenheit 11 de setembro" é um dos documentários mais influentes e bem-sucedidos da história. Nada mais merecido.

Se "Tiros em Columbine" já era empolgante e chocante em seu estudo sobre a obsessão americana por armas de fogo - um tema deflagrado pelos assassinatos cometidos por dois adolescentes em uma escola de ensino médio que também inspiraram o elogiado "Elefante", de Gus Van Sant  - "Fahrenheit 11 de setembro" consegue ser ainda mais contundente, pelo fato de focar sua artilharia no dirigente do país mais poderoso do mundo sem dó nem piedade. Retratando Bush como um misto de ganancioso sanguinário e frio e um boçal apatetado e manipulado por interesseiros empresários do ramo do petróleo, Moore foi o responsável pelo ataque mais direto e agressivo jamais realizado pelo cinema a um presidente - mas o faz de forma tão direta e com tantas informações relevantes que é impossível não acabar a sessão concordando com toda a sua fúria. Manipulador? Talvez. Exagerado? Provavelmente. Mas, assim como Oliver Stone fez em "JFK" - um dos melhores filmes dos anos 90 - Michael Moore tem o dom de apresentar suas ideias de maneira tão fascinante que não é dada ao público sequer a chance de questioná-las. E, mesmo que não se conheça os detalhes da história dos EUA ou não se tenha um interesse em particular sobre o assunto, é um desafio até mesmo tirar os olhos da tela enquanto absurdos cada vez maiores desfilam por ela.


A eleição de Bush à presidência - surpreendente até mesmo para os eleitores que já haviam sido noticiados da vitória de seu rival Al Gore pelas emissoras de TV - é que dá o pontapé inicial ao filme, mostrando de cara as manobras políticas e econômicas que permitiram a ele chegar à Casa Branca e manter em pauta os interesses financeiros de sua família, mesmo que a custo da vida de milhares de americanos. Em seguida, o atentado ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001 serve como ponto de partida para um estudo detalhado e indignado sobre como o governo usou a maior tragédia do século até agora para manter a população em constante estado de tensão, medo e paranoia - e assim justificar a invasão ao Iraque e esconder toda a sujeira que envolve a relação do então presidente com empresas de petróleo que lhe rendem milhares e milhares de dólares. Ao mesmo tempo em que expõe de forma clara e didática os meandros da estrutura de poder banhada pela ganância, Moore também mostra aos espectadores o outro lado da moeda, através de depoimentos categóricos que se contradizem quando confrontados com a realidade: é o caso da ufanista dona-de-casa que diariamente iça a bandeira do país em frente à sua casa, acredita piamente nas práticas militares do governo e manda o próprio filho para a guerra - só para depois desabar ao perdê-lo em uma batalha. E também questiona o fato de nenhum congressista - com exceção de um único, democrata - ter filhos no front, já que são favoráveis à guerra.

Ilustrando suas teorias com imagens chocantes dos conflitos no Oriente Médio e sublinhando as ironias da situação com cenas que dispensam quaisquer comentários - como o próprio Bush impassível em uma escola infantil ao saber dos atentado em Nova York e Britney Spears afirmando confiar no presidente durante uma entrevista para a TV - "Fahrenheit 11 de setembro" é um petardo dos maiores já lançados pelo cinema americano contra o status quo. É triste, é inacreditável, é revoltante. E é um dos melhores documentários da história do cinema.

segunda-feira

NA CAMA COM MADONNA

NA CAMA COM MADONNA (Madonna: Truth or Dare, 1991, Boy Toy/Miramax Films, 120min) Direção: Alek Keshishian. Montagem: Barry Alexander Brown. Produção executiva: Madonna. Produção: Tim Clawson, Jay Roewe. Elenco: Madonna, Donna DeLory, Niki Harris, Luis Camacho, Oliver Crumes, Salim Gauwloos, Jose Guitierrez, Kevin Stea, Gabriel Trupin, Carlton Wilborn. Estreia: 10/5/90

Em 1991, Madonna estava em um momento especial de sua carreira, iniciada quase uma década antes: divorciada de seu primeiro marido (o ator Sean Penn, com quem manteve uma relação no mínimo atribulada), elogiada por seu desempenho no filme "Dick Tracy" (em cujos bastidores conheceu e seduziu o diretor/ator/Don Juan Warren Beatty) e contando os milhares de dólares arrecadados por sua turnê mundial "Blonde Ambition", a material girl planejava a dominação do planeta com um pacote ousado em três frentes: o cinema, a literatura e a música. Com o álbum "Erotica", o polêmico livro de fotos sensuais chamado "Sex" e o filme "Corpo em evidência" - onde interpretaria uma mulher acusada de matar o amante de exaustão sexual que envolve seu advogado em uma teia de sadomasoquismo - ela selaria de vez junto a seu fiel público o compromisso de manter sempre viva a chama da controvérsia e das discussões sobre os limites entre arte e pornografia. Antes disso, porém, ela chamou a atenção de todo mundo com outra obra que lhe dirigiu os holofotes até mesmo do sério Festival de Cannes: seu documentário-musical "Na cama com Madonna", que misturava apresentações de seus shows (fotografadas em cores e que mostrava a excelência da produção) e os bastidores da turnê (em um preto-e-branco que revelava detalhes tanto engraçadíssimos quanto chocantes perante os olhos dos mais puritanos). Com o irrisório custo de U$ 4,5 milhões, o filme tornou-se rapidamente na segunda maior bilheteria de um filme do gênero, perdendo apenas para o icônico "Woodstock", de 1969.

Dirigido por Alek Keshishian - depois que David Fincher, que havia assinado os videoclipes "Oh, father", "Express yourself" e "Vogue", da cantora - "Na cama com Madonna" é um filme para fãs, sem dúvida, mas é bem capaz de divertir até mesmo aqueles que não veem nela nada mais do que apenas a mais bem-sucedida estrela da música pop mundial até hoje. Se artistas como Lady Gaga, Britney Spears e Beyoncé hoje são reconhecidas, admiradas e tem sua legião de admiradores, muito devem à coragem de Madonna em, desde sempre, tomar as rédeas de sua carreira e fazer o que bem entendia. Essa ousadia - misturada com um tanto de arrogância que frequentemente vem junto com a genialidade - fica óbvia em cada momento do documentário. Obcecada com a perfeição de seus shows, Madonna não aceita erros, compra briga com o próprio Papa na ocasião de sua apresentação na Itália e chega a ser ameaçada de prisão graças às insinuações de sexo de suas coreografias. Esses problemas legais, inclusive, a empurram mais adiante: percebe-se claramente que o combustível da cantora é justamente a vontade de provocar a audiência. E isso, ninguém pode negar, ela faz com maestria.


As cenas de bastidores captadas pela lente indiscreta de Keshishian registram momentos antológicos da carreira de Madonna. São elas que mostram o desprezo da cantora por Kevin Costner (na época em que ele era o queridinho da América graças ao soporífero "Dança com lobos"), sua paixão enrustida por Antonio Banderas (de quem ela leva uma esnobada clássica e com quem mais tarde dividiria a cena em "Evita"), sua provocação à vaidade do então namorado Warren Beatty, o reencontro com uma amiga de infância (e sua pouca importância a ela), a relação com a família e principalmente a maneira frequentemente carinhosa com que se relacionava com a equipe do show - em especial os bailarinos que, como diz o titulo nacional do filme, revelam-se diante das câmeras em conversas na cama de sua patroa. Tais conversas - e tais revelações, especialmente - acabaram criando polêmica também após o lançamento do filme, quando três dançarinos abriram um processo por invasão de privacidade, fraude e manipulação de imagem (o que é, no mínimo, suspeito, uma vez que todos sabiam perfeitamente bem que estavam sendo filmados). Tais momentos, que incluem um surpreendente jogo da verdade onde ela revela ainda amar Sean Penn e simula sexo oral em uma garrafa, estão entre os mais marcantes em um filme repleto deles.

E se os bastidores de "Blonde Ambition" são sensacionais o show em si é ainda mais empolgante. Uma das primeiras estrelas pop a utilizar a tecnologia como algo mais do que simplesmente coadjuvante no palco, Madonna apresenta um espetáculo acima de qualquer crítica. Recheado de sucessos que vão desde o início de sua carreira, como "Like a virgin" (cuja performance é uma das mais polêmicas e que lhe rendeu as ameaças do Vaticano) até aqueles que estavam começando a bombar nas pistas de dança, com "Vogue", a turnê mostra que Madonna, mais do que simples cantora, é também uma entertainer completa, que conduz com firmeza e segurança uma série de números musicais brilhantes, concatenados como uma espécie de narrativa que fala da força feminina, da fé, da família e da liberdade sexual. Se as pessoas veem Madonna apenas como uma aberração da mídia é porque ainda não tiveram a oportunidade de assistir a seu documentário: muito antes de enveredar por outros caminhos na carreira (como a preocupação social e espiritual que deu o tom de seu "I'm going to tell you a secret", vindo anos depois), ela já mostrava que sabia, como poucas de sua geração, utilizar todas as armas disponíveis para chegar ao topo. De onde ainda não saiu, mais de vinte anos depois.

quinta-feira

JOGO DE CENA

JOGO DE CENA (Jogo de cena, 2007, Matizar/VideoFilmes, 100min) Direção: Eduardo Coutinho. Fotografia: Jacques Heuiche. Montagem: Jordana Berg. Produção executiva: Guilherme Cezar Coelho, João Moreira Salles, Mauricio Andrade Ramos. Produção: Bia Almeida, Raquel Freire Zangrandi. Elenco: Andrea Beltrão, Fernanda Torres, Marília Pera. Estreia: 09/11/07

A trágica e inesperada morte de Eduardo Coutinho no último dia 02 de fevereiro calou uma das mais instigantes e brilhantes vozes do documentário brasileiro. Coutinho, que assinou a direção do clássico "Cabra marcado para morrer" sempre pautou sua obra pelo carinho com seus entrevistados, pelo respeito pelas histórias contadas e principalmente pela inteligência com que conduzia suas entrevistas, repletas de calor humano e sinceridade. Se em "Edifício Master" ele deu um passo à frente em sua obra - focando sua atenção para pessoas aparentemente comuns - foi com "Jogo de cena", fascinante estudo sobre a arte do ator e o estoicismo humano que ele atingiu seu ponto máximo. Embaralhando as cartas da ficção com as da realidade, o mestre Coutinho construiu uma das mais fabulosas obras de sua genial filmografia.

A ideia do documentário em si já é instigante: 83 mulheres, habitantes do Rio de Janeiro, responderam a um anúncio de jornal para que se encontrassem com a produção para contar alguma história de sua vida. As histórias selecionadas foram gravadas pelas próprias mulheres diante das câmeras de Coutinho e em seguida, atrizes consagradas (Fernanda Torres, Marilia Pera, Andrea Beltrão) contavam essas mesmas histórias como se fossem delas. Pronto. A base é essa. O que surpreende, encanta e comove é a forma com que o diretor explora essa dualidade entre a realidade e sua imitação sem fazer nada mais do que simplesmente deixar que as histórias - quase todas de forte impacto emocional - falem por si mesmas, ora disfarçadas por um oportuno senso de humor, ora sublinhadas por sentidas lágrimas de tristeza ou emoção. É hipnotizante a forma com que a edição do filme intercala a verdade (as pessoas "reais") com seu arremedo (as atrizes, buscando atingir as notas da vida real), mostrando ao público tanto a vida como ela é quanto um ensaio genial sobre os bastidores da criação artística - mesmo que as personagens não sejam exatamente personagens.


Sendo assim, Coutinho apresenta à plateia a triste história de uma jovem mãe que se vê diante da perda do filho recém-nascido (e depois representada por uma comovida Andrea Beltrão) e uma mulher com dificuldades de relacionamento com a filha que mora nos EUA (posteriormente interpretada por Marilia Pera), assim como nubla a divisão entre real/fictício com a narrativa de uma jovem atriz negra que superou as dificuldades raciais e econômicas graças ao teatro e com o toque de mestre de apresentar uma história final contada por uma atriz desconhecida do grande público e por uma mulher comum: quem é quem é a grande questão que faz com que "Jogo de cena" se transforme de um filme em uma experiência rica e avassaladora.

Um mergulho na alma feminina e nas técnicas de interpretação de grandes atrizes, "Jogo de cena" é um dos mais apaixonantes filmes nacionais da história, ao revelar à plateia as entranhas de suas "personagens" sem nenhum tipo de julgamento ou manipulação. E é também fascinante para qualquer fã de cinema, teatro ou seres humanos com todas as suas imperfeições. Absolutamente impecável!

segunda-feira

A FESTA NUNCA TERMINA

A FESTA NUNCA TERMINA (24 hour party people, 2002, Revolution Films, 117min) Direção: Michael Winterbottom. Roteiro: Frank Cottrell Boyce. Fotografia: Robby Muller. Montagem: Trevor Waite. Figurino: Stephen Noble, Steven Noble, Natalie Ward. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Lucy Howe. Produção executiva: Henry Normal. Produção: Andrew Eaton. Elenco: Steve Coogan, Paddy Considine, Andy Serkis, Shirley Henderson, Sean Harris. Estreia: 18/5/02 (Festival de Cannes)

É preciso ter muito talento para misturar as linguagens documental e ficcional no mesmo filme sem atrapalhar a compreensão da audiência. Mas talento é o que não falta ao inglês Michael Winterbottom, que tem no currículo o denso "Paixão proibida" (adaptação do romance "Jude, o obscuro", de Thomas Hardy) e o polêmico "Bem-vindo a Sarajevo", lançado em 1997, em plena efervescência da guerra na Bósnia. Em "A festa nunca termina" o cineasta deixa um pouco de lado sua visão negativa de mundo para contar a história de um dos períodos mais férteis da música pop britânica, tendo a figura de Tony Wilson - dono da gravadora Factory, que deu ao mundo nomes como Joy Divison (mais tarde New Order) e Happy Mondays.

O filme escrito por Frank Cottrell Boyce - também autor de "Bem-vindo a Sarajevo" - não segue a tradicional estrutura das cinebiografias nem tampouco pode ser considerado um documentário. O protagonista é vivido com a necessária dose de sarcasmo e desespero pelo ótimo Steve Coogan, que assume a persona de Tony Wilson com propriedade para mostrar o surgimento de um dos movimentos mais importantes para a música dos anos 80 e 90 - para o bem e para o mal. Falando diretamente para a câmera, o Tony Wilson de Coogan não poupa comentários ácidos a respeito de amigos, conhecidos, inimigos e amantes, o que carrega o filme de um humor tipicamente inglês, ainda que um tanto restrito aos interessados no assunto. É pouco provável que um espectador que jamais tenha ouvido a respeito de Sex Pistols e Ian Curtis (se é que existe algum) possa chegar até "A festa nunca termina". Mas é justamente essa espécie de restrição que faz com que o filme de Winterbottom seja tão especial. Ele é quase como uma festa para poucos convidados.


Quando o filme começa o protagonista está encantado com a crueza do som da banda Sex Pistols e seu vocalista Sid Vicious (vivido com garra e paixão por Gary Oldman em "Sid & Nancy, o amor mata"). É o ano de 1976 e Wilson, repórter televisivo de uma emissora de Manchester, vê em Vicious e seus congêneres a possibilidade de um novo estilo de música, onde atitude conta tanto quanto a qualidade sonora. Incentivado pela namorada, Lindsay (Shirley Henderson) e por amigos, ele inaugura um clube noturno chamado Factory, que se torna um dos mais comentados e influentes da cidade. Entusiasmado com as bandas que fazem shows em seu palco, ele cria uma gravadora e dá a primeira chance a um grupo chamado Joy Divison, liderado pelo problemático Ian Curtis (Sean Harris). Tem início, então, a cena musical de Manchester, uma das mais criativas do final do século XX.

A câmera de Winterbottom passeia confortavelmente pela noite de Manchester, ciceroneada por Tony Wilson, uma personagem central muitas vezes perdida, mas inteligentemente perto do público. Falível e cheio de defeitos, Wilson não hesita em trair a namorada, em jogar-se às drogas e em administrar mal seus negócios, mas na pele de Coogan ele ri de si mesmo de maneira sardônica, nunca permitindo que se leve as coisas muito a sério. O tom irônico do filme só dá espaço a um drama real e poderoso quando conta a trágica história de Ian Curtis (também retratada no sensacional "Control", de Anton Corbjin): são nesses momentos que se percebe o carinho do cineasta e do roteirista pelo material que tem em mãos.

Repleto de imagens raras das bandas citadas no roteiro, com uma trilha sonora impecável e um senso de humor delicioso (que cede lugar a um tom nostálgico em seus momentos finais), " A festa nunca termina" é, acima de tudo, o documento de uma era onde a diversão ainda era o que importava e a criatividade musical estava em seus melhores momentos. Pode-se inclusive dizer que este filme de Michael Winterbottom é tudo o que "Studio 54" poderia ter sido e não foi. Para ver e sair pra dançar alucinadamente!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...