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terça-feira

MELINDA E MELINDA


MELINDA E MELINDA (Melinda and Melina, 2004, Fox Searchlight Pictures, 99min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem,: Alisa Lepselter. Figurino: Judy Ruskin Howell. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Regina Graves. Produção executiva: Stephen Tenenbaum. Produção: Letty Aronson. Elenco: Radha Mitchell, Chloe Sevigny, Jonny Lee Miller, Will Ferrell, Amanda Peet, Wallace Shawn, Brooke Smith, Steve Carrell, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin. Estreia: 17/9/2004 (Festival de San Sebastian)

A carreira de Woody Allen é repleta de altos e baixos. Para cada "Noivo neurótico, noiva nervosa" e "Crimes e pecados", ele entrega produções pouco memoráveis como "Trapaceiros" e "Dirigindo no escuro" - que, por mais simpáticas que sejam, estão longe de seu auge criativo. "Melinda e Melinda", lançado em 2004, infelizmente faz parte do rol de seus trabalhos menos brilhantes. Com um roteiro pouco inspirado (escrito em um mês) e um elenco de bons atores subaproveitados, seu 33° longa falha tanto no drama quanto na comédia - e sim, sua estrutura é totalmente baseada nessa dicotomia que é, a rigor, o centro da obra do cineasta nova-iorquino. Prejudicado ainda pela falta de carisma de Radha Mitchell - que substituiu Winona Ryder em um momento complicado junto aos investidores -, o filme foi solenemente ignorado pelas cerimônias de premiação e, apesar do potencial de sua ideia central, é frustrante e apático (o que raramente pode ser dito de uma produção do diretor).

Como em quase todos os filmes de Allen, "Melinda e Melinda" usa e abusa de diálogos rápidos, com personagens que transitam no sofisticado mundo cultural e social de sua filmografia - mas que aqui soa um tanto pedante, sem a autocrítica de seus melhores trabalhos. O ponto de partida da trama é uma discussão aparentemente banal a respeito da superioridade do drama em relação à comédia - talvez uma cutucada do cineasta quanto à sempre relevante polêmica que relega produções mais leves ao limbo das premiações e do prestígio da indústria. Max (Larry Pine) é um dramaturgo especializado em tragédias e seu amigo, Sy (Wallace Shawn), é famoso por suas comédias. Durante um jantar ao lado de outros amigos, surge a questão sobre qual dos gêneros teatrais melhor sintetiza a natureza humana. Como uma espécie de exercício de imaginação, Al conta ao grupo a história de Melinda Robicheaux (Radha Mitchell), uma mulher problemática que surge inesperadamente à porta de um casal de amigos durante um importante jantar de negócios. Separada do homem por quem terminou um casamento e com um histórico de tentativas de suicídio, Melinda transforma, mesmo involuntariamente, a vida daqueles que entram em seu caminho, e não é diferente em sua nova fase. 

 

A chegada de Melinda ao lar de Laurel (Chloe Sevigny) e Lee (Jonny Lee Miller) acontece durante um jantar oferecido a um produtor teatral que pode escalar o jovem para uma de suas próximas peças. Passando a morar com o casal, Melinda tenta firmar-se na vida procurando emprego e um novo amor - que pode surgir na figura do músico Ellis Moonsong (Chiwetel Ejiofor), caso a própria Laurel não se descubra interessada no rapaz. Em outra versão da história, Melinda interrompe o jantar de seus vizinhos Hobie (Will Ferrell) e Susan (Amanda Peet) - uma cineasta que busca investidores para seu novo filme, no qual ela espera poder empregar o marido. Passando por uma crise no casamento, Hobie se vê atraído por Melinda - que, por sua vez, vê no bem-sucedido Greg Earlinger (Josh Brolin) a última chance de uma vida relativamente normal. Enquanto a primeira Melinda tem sua história contada por um viés dramático, a segunda é apresentada com um tom de humor - ainda que bastante sutil.

O principal problema de "Melinda e Melinda" é sua incapacidade de criar qualquer tipo de empatia por sua personagem central - uma questão que mina completamente sua ambição de emocionar ou fazer rir. Apesar de escolhida pelo próprio Woody Allen depois de seu trabalho em "Ten tiny love stories" (2002), Radha Mitchell não encontra o tom certo em seu desempenho, não oferecendo diferenças entre a Melinda dramática e a cômica - mesmo contando com atores como Will Ferrell e Steve Carell, seu timing de comédia fica muito aquém do esperado, o que torna sua personagem apenas desinteressante e cansativa. Conhecido também por conceber personagens coadjuvantes marcantes - e frequentemente premiados ou indicados ao Oscar -, dessa vez Allen falhou em criar papéis fortes o bastante para sustentar uma história frágil por si só. Para sua sorte (e dos fãs), seu projeto seguinte seria o extraordinário "Match point: ponto final", que lhe devolveria o prestígio e o sucesso de seus melhores filmes.

 

quarta-feira

O ÂNCORA: A LENDA DE RON BURGUNDY

 


O ÂNCORA: A LENDA DE RON BURGUNDY (Anchorman: the legend of Ron Burgundy, 2004, DreamWorks Pictures/Apatow Productions, 94min) Direção: Adam McKay. Roteiro: Adam McKay, Will Ferrell. Fotografia: Thomas E. Ackerman. Montagem: Brent White. Música: Alex Wurman. Figurino: Debra McGuire. Direção de arte/cenários: Clayton R. Hartley/Jan Pascale. Produção executiva: Shauna Robertson, David O. Russell. Produção: Judd Apatow. Elenco: Will Ferrell, Christina Applegate, Paul Rudd, Steve Carell, David Koechner, Fred Willard, Seth Rogen, Vince Vaughn, Ben Stiller, Owen Wilson, Kathryn Hahn, Jack Black, Tim Robbins. Estreia: 28/6/2004

Na segunda metade da década de 1970 nenhum jornalista era mais importante e prestigiado em San Diego do que Ron Burgundy, âncora do programa de maior audiência da televisão regional, admirado pelo público e desejado pelas mulheres. Em uma emissora dominada por uma mentalidade machista, ele era o símbolo máximo de uma sociedade ainda impermeável às conquistas profissionais femininas. Porém, seu poder considerado definitivo sofreu um baque violento com a chegada de Veronica Corningstone, uma repórter dedicada e ambiciosa da Carolina do Norte, decidida a buscar seu lugar ao sol como o primeiro nome do telejornal. A disputa entre os dois - e o inesperado romance entre eles - movimentou os bastidores do telejornalismo da época, e precipitou a ascensão das mulheres no mercado de notícias televisivas. Uma história empolgante - mas que existiu apenas nas mentes dos roteiristas Will Ferrell e Adam McKay, responsáveis por "O âncora: a lenda de Ron Burgundy", uma comédia despretensiosa que, depois de ter sido esnobada diversas vezes pelo estúdio (a DreamWorks), surpreendeu ao ultrapassar a marca de 80 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico (EUA e Canadá) e tornar-se cult por parte do público a ponto de render uma continuação, lançada mais dez anos depois. Com um humor que beira o ofensivo e flerta abertamente com a estupidez, o filme é ideal para quem gosta de rir sem precisar ligar o cérebro - mas, paradoxalmente, faz um crítica sagaz ao machismo e à indústria do jornalismo televisivo.

Com um elenco que é praticamente um quem é quem do humor norte-americano do começo dos anos 2000 - incluindo um Steve Carrel pré-estrelato - e participações especiais de nomes como Tim Robbins, Jack Black e Ben Stiller, "O âncora" parte de uma estrutura clássica narrativa para permitir a seus atores todo tipo de improviso, ampliando consideravelmente seu tom debochado e anárquico. Will Ferrell - também um dos autores do roteiro - deita e rola com um personagem sob medida para seu humor histriônico, que a tantos agrada e a muitos outros repele, e encontra no carisma de Christina Applegate um equilíbrio muito bem-vindo. Juntos em cena, os dois ilustram com perfeição o casamento entre a comédia rasgada e um romantismo que, por mais distorcido que seja, ameniza os exageros de uma produção que não tem medo de ir fundo na palhaçada e não poupa nada nem ninguém. Adam McKay - que pouco mais de uma década depois levaria um Oscar de roteiro por "A grande aposta" (2015), que também lhe renderia uma indicação à estatueta de direção - demonstra segurança ao comandar o que poderia facilmente transformar-se em um absoluto caos: com atores craques no improviso, ele mantém uma surpreendente coesão no desenvolvimento da narrativa mesmo diante de situações propensas ao bizarro.



Se Ron Burgundy é o retrato perfeito do líder de um universo falocêntrico e egoísta, seu séquito de colaboradores/admiradores/amigos não fica atrás - e é um grande mérito que seus intérpretes tenham sido tão bem escalados. Paul Rudd vive Brian Fantana, um repórter de campo mulherengo e que considera irresistíveis suas qualidades físicas e suas táticas amorosas; Steve Carell dá vida a Brick Tamland, o responsável pela divulgação da previsão de tempo e com o raciocínio lento além da conta; e David Koechner é o ator ideal para criar Champion Kind, especialista em esportes e dono de um talento natural para a grosseria. Agindo como uma gangue de adolescentes rebeldes, o grupo não apenas é uma metralhadora giratória de absurdos verbais como também volta e meia se envolve em brigas físicas com o time da emissora rival, liderado por Wes Mantooth (Vince Vaughn), cuja principal ameaça é fisgar o primeiro lugar na audiência. Quando Veronica entra em cena, conquistá-la (e impedi-la de chegar à bancada do telejornal) passa a ser o objetivo principal de todos - e nem mesmo a aparentemente dócil forasteira parece imune a tal desejo. A forma com que McKay e Ferrell demonstram tais anseios (através de momentos que brincam até mesmo com filmes musicais e melodramas) é o que faz de "O âncora" uma pérola: é difícil não se deixar conquistar por pelo menos uma das táticas do roteiro, que abrange todos os tipos de comédia sem cair na falta de foco ou ritmo.

Apesar de ser engraçadíssimo e apresentar um elenco impecável, "O âncora" não chega a ser uma unanimidade. Seu humor pouco sutil pode não agradar a quem busca comédias sofisticadas ou menos explícitas - apesar de o roteiro apresentar nuances raras no típico besteirol americano -, e Will Ferrell, apesar de seu talento cômico preciso, não é exatamente um astro muito popular fora dos Estados Unidos. Mas o filme de McKay é a demonstração, além de qualquer dúvida, de que é possível fazer rir equilibrando inteligência, sarcasmo e um pouquinho de escatologia. Pena que demorou dez anos para que ganhasse um segundo - e igualmente divertido - segundo capítulo.

sexta-feira

UMA NOITE FORA DE SÉRIE

 


UMA NOITE FORA DE SÉRIE (Date night, 2010, 20th Century Fox, 88min) Direção: Shawn Levy. Roteiro: Josh Klausner.  Fotografia: Dean Semler. Montagem: Dean Zimmerman. Música: Christophe Beck. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: David Gropman/Jay Hart. Produção executiva: Joe Caraciollo Jr., Josh McLaglen. Produção: Shawn Levy. Elenco: Steve Carell, Tina Fey, Mark Wahlberg, Taraji P. Henson, Mark Ruffalo, Kristen Wiig, Common, James Franco, Mila Kunis, Jimmi Simpson. Estreia: 06/4/2010

A grosso modo, comédias produzidas por Hollywood se dividem entre bobagens calcadas em piadas grosseiras e ofensivas - como os filmes dos irmãos Farrelly - ou um humor sofisticado e frequentemente esnobados por plateias pouco afeita a raciocinar antes de rir - caso do cinema de Woody Allen, por exemplo. Raramente o público adulto tem a possibilidade de divertir-se sem ser tratado como mentalmente incapaz ou alguém necessitado de um vasto repertório cultural. Por isso, filmes como "Uma noite fora de série" surgem e, sem fazer muito alarde, conquistam o espectador. Com uma bilheteria internacional de mais de 150 milhões de dólares - que cobriu com folga seu orçamento -, o filme dirigido pelo experiente Shawn Levy (que já tinha no currículo o bem-sucedido "Uma noite no museu", de 2006, e sua continuação, de 2009) demonstrou-se o veículo perfeito para o encontro de dois dos mais populares nomes da comédia norte-americana da primeira década dos anos 2000, Steve Carell e Tina Fey. Carismáticos, donos de um timing perfeito para o humor e com uma química invejável, eles compensam as eventuais falhas de ritmo e enfatizam cada bom momento do roteiro - bobo, mas adequado a suas principais qualidades.

Carell - cuja trajetória no cinema já apresentava êxitos comerciais como "O virgem de 40 anos" (2005) e sucessos de crítica, como o oscarizado "Pequena Miss Sunshine" (2006) - é excepcional em papéis que exploram sua fisionomia apatetada e seu talento para o humor físico. Fey - roteirista celebrada de programas como "Saturday Night Live" e filmes como "Meninas malvadas" (2004), mas até então subaproveitada no cinema - é dona de uma rara perspicácia cômica, sempre pronta para uma tirada inteligente e sarcástica. Juntos, os dois deitam e rolam em uma história que explora cada um de seus talentos. Eles vivem Phil e Claire Foster, um típico casal de classe média americana cujas maiores preocupações são o trabalho, o lar e os filhos. Com profissões não exatamente glamorosas - ele vende seguros e ela é corretora de imóveis - e uma rotina entediante, eles tem medo de ver seu casamento sucumbir à rotina, e resolvem, em uma noite que prometia apenas um respiro em seu dia-a-dia, buscar algo excitante e divertido. Com um ousadia inesperada, eles mentem os nomes para ficarem com uma reserva em um restaurante da moda em Nova York e acabam sendo confundidos com um casal que está na mira de um misterioso criminoso chamado Joe Miletto. Os capangas de Miletto, acreditando que eles estão de posse de um pen drive com informações perigosas, saem em seu encalço, e resta aos dois uma desenfreada corrida pela noite - que envolve gente influente, o verdadeiro casal de quem roubaram o nome e até um antigo (e tentador) cliente de Claire.

 

Sem apresentar maiores novidades em seu roteiro - na verdade um palco para os talentos de seus protagonistas -, "Uma noite fora de série" acerta em cheio ao assumir os clichês do gênero e brincar com eles sem o menor pudor. Com diálogos espertos e situações absurdas que vão se acumulando de forma rocambolesca, a trama serve quase como apenas um pretexto para Carell e Fey desfilarem sua desenvoltura e talento em fazer rir em qualquer circunstância. Seja fugindo do cruel vilão (interpretado com gosto por Ray Liotta) ou encurralando o casal responsável por seus infortúnios (vividos por James Franco e Mila Kunis em participações especiais), a dupla é responsável por 90% da diversão - e tiram de letra o desafio de segurar noventa minutos de uma produção que equilibra com destreza humor físico e piadas verbais que lhes servem como uma luva. Mesmo que o elenco apresente coadjuvantes de luxo do porte de Mark Ruffalo, Taraji P. Henson e Mark Whalberg, são eles que dão o tom do espetáculo - e o fazem com maestria, comprovando seus cacifes como astros - alguns anos depois, Carell investiria também em sua carreira como ator dramático e seria indicado ao Oscar por "Foxcatcher: a história que chocou o mundo" (2014), enquanto Tina Fey se tornaria roteirista de séries e especiais de TV que lhe dariam espaço para a ironia e o sarcasmo que lhe são característicos.

Uma prova de que o humor não precisa abdicar de inteligência para atingir o grande público, "Uma noite fora de série" é um meio-termo entre o que se espera de uma comédia tipicamente hollywoodiana e um programa de televisão iconoclasta e debochado. Agrada justamente por não tentar revolucionar o gênero e respeitar as regras do jogo, ao mesmo tempo em que não se deixa nivelar por um humor apelativo e adolescente. Pode não ter mudado a história do cinema - e talvez até seja um tanto esquecível -, mas é um passatempo honesto, bem-humorado e inofensivo.

quinta-feira

AGENTE 86

 


AGENTE 86 (Get Smart, 2008, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 110min) Direção: Peter Segal. Roteiro: Tom J. Astle, Matt Ember, personagens criados por Mel Brooks, Buck Henry. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Richard Pearson. Música: Trevor Rabin. Figurino: Deborah L Scott. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Suzanne Cloutier, Paul Rotte, Leslie E. Rollins. Produção executiva: Bruce Berman, Steve Carell, Dana Goldberg, Jimmy Miller, Brent O'Connor, Peter Segal. Produção: Michael Ewing, Alex Gartner, Andrew Lazar, Charles Roven. Elenco: Steve Carell, Anne Hathaway, Dwayne Johnson, Alan Arkin, Terence Stamp, Terry Crews, David Koechner, Bill Murray, James Caan. Estreia: 20/6/2008

Em 1998, poucos nomes em Hollywood pareciam mais apropriados para uma versão cinematográfica da série de TV "Agente 86" do que o de Jim Carrey, Astro de comédias de sucesso que exploravam seu humor físico, o ator canadense soava como a escolha ideal para assumir o mais icônico papel do veterano Don Adams. Por uma série de razões, no entanto, o projeto acabou sendo deixado de lado até metade dos anos 2000 - mas, com a morte de Adams, em 2005, tornou-se quase obrigatória uma homenagem digna a um dos programas mais populares dos anos 1960. Para sorte de todos, foi também em 2005 que estreou, na NBC, a releitura da telessérie britânica "The office": seu protagonista, Steve Carell, mostrou-se, em poucos episódios, uma opção inequívoca para vestir a personalidade de Maxwell Smart, um agente secreto cujo brilhantismo intelectual contradizia sua total inabilidade para o trabalho de campo. Ciente de seu talento cômico - revelado e consagrado em "O virgem de 40 anos" (2005) - e da importância do trabalho, Carell entrou de corpo e alma em sua missão. Como produtor executivo e líder do elenco, ele transformou o que poderia ser apenas uma produção caça-níqueis em um sucesso quase inesperado: com 230 milhões de dólares arrecadados pelo mundo, "Agente 86" não apenas demonstrou respeitar o material original, mas também conquistou uma nova geração de fãs.

CONTROL, agência secreta norte-americana está em risco: boa parte de seus integrantes teve suas identidades reveladas por um grupo terrorista chamado KAOS - liderado pelo infame Siefgried (Terence Stamp) -, que ameaça praticar um atentado à bomba em local ainda desconhecido. Para impedir que tal hecatombe aconteça, o chefe no comando (Alan Arkin) resolve finalmente realizar o sonho de um seus mais dedicados agentes, Maxwell Smart (Steve Carell), e incumbí-lo de um trabalho de campo. Genial em suas missões intelectuais mas desastrado e desligado no dia-a-dia, Smart é rebatizado como Agente 86 e é designado a fazer dupla com a atraente Agente 99 (Anne Hathaway) - cujo rosto pós-cirurgia plástica é desconhecido pelos criminosos. A dupla pouco provável viaja então para a Rússia - e seus métodos opostos acabam por aproximá-los. A descoberta de um agente duplo, porém, põe em xeque seu incipiente relacionamento.

O roteiro - que contou com a colaboração não creditada de Carell e de seu colega de "The office", B.J. Novak - é apenas uma desculpa para uma série de piadas visuais e verbais, lançadas em um ritmo vertiginoso que realça o talento de sua dupla de protagonistas. Se Carell demonstra estar totalmente à vontade em cena, arrancando gargalhadas com sua simples presença, o trabalho de Anne Hathaway tampouco fica atrás: sexy e com um excelente tempo de comédia, a futura vencedora do Oscar não se deixa suplantar por seu parceiro (a sequência em que os dois dançam em uma festa, cada um com seu par, deixa qualquer um com um sorriso nos lábios). E se os protagonistas deitam e rolam, o elenco coadjuvante faz o mesmo, desde o veterano Alan Arkin até um surpreendente Dwayne Johnson, como o Agente 23, ídolo de Smart e seu exemplo dentro da agência. Até nomes pouco conhecidos, como Masi Oka e Nate Torrence conseguem fazer rir, graças à direção precisa de Peter Segal - cujo currículo inclui o terceiro capítulo da série "Corra que a polícia vem aí" e "Terapia de choque", estrelado por Jack Nicholson e Adam Sandler - que transforma todo pequeno momento em entretenimento puro.

O sucesso de "Agente 86" não foi suficiente, no entanto, para uma continuação. Apesar dos desejos da equipe, alguns fatores colaboraram para que o primeiro filme não rendesse uma sequência. A morte do produtor Alan Horn (que abandonou o projeto quando ele saiu das mãos da Disney) e do ator Alan Arkin e a agenda apertada de Anne Hathaway, além da dificuldade de encontrar um roteiro à altura acabaram por sepultar a possibilidade, para desgosto do público que esperava voltar a rir com as trapalhadas de Maxwell Smart. E se tudo funcionou como um relógio no primeiro capítulo não deixa de ser um alívio pensar que ninguém conseguiu estragar tudo com uma produção menos feliz em uma continuação equivocada.

sexta-feira

TODO PODEROSO

 


TODO PODEROSO (Bruce Almighty, 2003, Universal Pictures, 103min) Direção: Tom Shadyac. Roteiro: Steve Koren, Mark O'Keefe, Steve Oedekerk, estória de Steve Koren, Mark O'Keefe. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Scott Hill. Música: John Debney. Figurino: Judy Ruskin Howell. Direção de arte/cenários: Linda DeScenna/Rick McElvin. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum, Steve Oedekerk. Produção: Michael Bostik, James D. Brubaker, Jim Carrey, Steve Koren, Michael O'Keefe, Tom Shadyac. Elenco: Jim Carrey, Morgan Freeman, Jennifer Aniston, Philip Baker Hall, Steve Carell, Sally Kirkland. Estreia: 14/5/2003

Depois de provar-se como um ator capaz de alçar maiores voos dramáticos - em filmes como "O show de Truman: o show da vida" (1998), "O mundo de Andy" (1999) e "Cine Majestic" (2001) - o canadense Jim Carrey achou que já era hora de voltar à sua zona de conforto e abraçar o gênero que lhe deu fama, dinheiro e o amor de milhares de fãs. Ao reunir-se com o cineasta Tom Shadyac - que lhe deu seu primeiro grande sucesso de bilheteria, "Ace Ventura: um detetive diferente" (1994) e lhe confirmou o status de astro com "O mentiroso" (1997) - e assumir novamente seu talento em fazer rir com caras e bocas, Carrey tornou "Todo poderoso" a comédia de maior sucesso de sua carreira e, mais impressionante ainda, da história (batendo o recorde de "Esqueceram de mim", lançado em 1990). Contando com a luxuosa ajuda de Morgan Freeman e Jennifer Aniston - no auge do sucesso de "Friends" -, Carrey nem precisa se esforçar muito para arrancar gargalhadas das plateias, mesmo que nem sempre o roteiro atinja todas as suas possibilidades. Baseado livremente no romance "Almighty me", de Robert Bausch - que não é citado em nenhum momento como fonte oficial -, o filme de Shadyac brinca com a ideia universal de um ser humano adquirir poderes divinos, e aposta todas as suas fichas em seu astro. E ganha.

Criado como veículo para Kevin Hart, que abandonou o projeto por considerar o tema sacrílego, "Todo poderoso" apresenta Carrey como Bruce Nolan, um repórter televisivo infeliz com o rumo de sua carreira. Constantemente subestimado por seus superiores - que lhe escalam sempre para cobrir amenidades irrelevantes -, Nolan atinge o ápice de seu desgosto com a vida quando vê seu maior rival profissional, Evan Baxter (Steve Carrell), ficar com seu almejado posto de âncora do telejornal local. Frustrado e irado com a situação, ele acaba chamando a atenção de Deus, que ouve seus lamentos e lhe aparece (na figura de Morgan Freeman) para informar que, durante um período em que estará de férias, é o próprio Nolan quem irá ficar em seu lugar, tomando todas as decisões inerentes à função. Dotado de super poderes e com o dom de realizar milagres, conceder graças e - em pequenos atos de mesquinhez - prejudicar seu arquirrival no caminho do sucesso. Enquanto se diverte com a situação, porém, o aspirante a celebridade percebe que o Homem-aranha já sabe ("grandes poderes trazem grandes responsabilidades") e passa a negligenciar seu romance com a apaixonada Grace (Jennifer Aniston).

 


Se o roteiro escrito por Steve Koren, Mark O'Keefe e Steve Oedekerk não consegue escapar das armadilhas de uma trama quase moralista (com uma mensagem que não exatamente combina com o tom iconoclasta do humor praticado por seu ator central), Jim Carrey deita e rola em um papel que remete aos melhores momentos da comédia física que lhe consagrou. Quando o roteiro insiste em falar sério ou até mesmo apelar para o romantismo, o filme de Shadyac mostra que ambiciona mais do que simplesmente fazer rir descompromissadamente - como em seus outros trabalhos com o astro -, mas acaba por criar, involuntariamente, uma quebra de ritmo que compromete o resultado final. Os fãs de Carrey, logicamente, tem muito a aproveitar - o ator está em plena forma - e encontrarão diversos momentos hilariantes. De brinde, ainda há a participação de Steve Carell (ainda creditado como Steven) em uma sequência das mais engraçadas - não por acaso o próprio Carell assumiu a protagonização da continuação, lançada, sem o mesmo êxito, em 2007.

Banido no Egito devido a seu conteúdo considerado ofensivo, "Todo poderoso" é mais um sucesso incontestável na bem-sucedida carreira de Jim Carrey - que levou uma bolada de 25 milhões de dólares de cachê. Leve, despretensioso (ainda que levemente mais profundo do que boa parte de suas comédias) e solar, contrasta radicalmente de seu currículo até então - um currículo que seria enriquecido ainda mais no ano seguinte com o belo "Brilho eterno de uma mente sem lembranças", que ofereceria às plateias um novo lado do ator: o romântico. Antes de sua estreia, porém, o público pode divertir-se às pencas com uma trama que apostava em seu humor debochado e frequentemente exagerado - características que sempre fizeram dele uma aposta certeira quando se tratava de arrancar gargalhadas quase histéricas do espectador.

terça-feira

QUERIDO MENINO


QUERIDO MENINO (Beautiful boy, 2018, Amazon Studios/Plan B Entertainment, 120min) Direção: Felix Von Groeningen. Roteiro: Luke Davies, Felix Von Groeningen, livros "Beautiful boy", de David Sheff, e "Tweak", de Nic Sheff. Fotografia: Ruben Impens. Montagem: Nico Leunen. Figurino: Emma Potter. Direção de arte/cenários: Ethan Tobman/Jennifer Lukehart. Produção executiva: Sarah Esberg, Nan Morales. Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Brad Pitt. Elenco: Steve Carell, Timothée Chalamet, Maura Tierney, Amy Ryan, Jack Dylan Grazer. Estreia: 07/9/2018 (Festival de Toronto)

Talvez fosse difícil imaginar que o protagonista de um filme chamado "O virgem de 40 anos"(2005) pudesse, com o tempo, tornar-se um ator dramático de prestígio, capaz de emocionar o público com a mesma desenvoltura com que o fazia gargalhar. Porém, se Steve Carell levava a audiência às lágrimas de riso com a série "The office", também mostrava um lado menos solar em produções como "Pequena Miss Sunshine" (2006) - em que vivia um professor suicida, gay e fã de Proust. Dividido entre o gênero que o consagrou - e que lhe rendeu cenas memoráveis em "Agente 86" (2008), "Uma noite fora de série" (2010) e "Amor à toda prova" (2011) - e o desejo de provar-se um intérprete versátil, Carell chegou até o Oscar com o incômodo "Foxcatcher: uma história que chocou o mundo" (2014) e entrou para o rol dos atores respeitáveis. Seguindo em sua opção de intercalar humor e drama, ele marcou outro gol com "Querido menino", um avassalador drama familiar que em sua estreia, no Festival de Toronto de 2018, foi aplaudido de pé - mas que, apesar das altas expectativas, falhou em conquistar a Academia e ser lembrado pelo Oscar.

Inspirado não apenas em um, mas em dois livros - escritos por pai e filho -, "Querido menino" tem a seu favor, além do trabalho sensível de Carell e do desempenho de Timothée Chalamet, um dos mais promissores astros de sua geração, a direção inteligente do belga Felix Von Groeningen, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro pelo impressionante "Alabama Monroe" (2012). Assim como fez em seu filme mais famoso, Von Groeningen evita o sentimentalismo fácil e faz uso de flashbacks constantes para construir uma narrativa quase em fluxo de consciência, que mergulha o espectador em uma relação familiar repleta de angústias e dor, mas também ancorada em amor e afeto. Ao contrário de julgar seus personagens e limitá-los a estereótipos, o roteiro co-escrito pelo diretor e Luke Davis (um ex-viciado cujo livro de memórias, "Candy", foi filmado com Heath Ledger em 2006) apresenta ao público um núcleo familiar que, a despeito de seus problemas, ainda é capaz de manter a esperança de um futuro menos cruel. Nem sempre o estilo narrativo funciona - por vezes é um tanto cansativo -, mas a edição (que levou sete meses e só encontrou seu caminho definitivo quando o colaborador do cineasta, Nico Leunen, juntou-se à equipe) é parte fundamental da estética do filme - e uma forma eficaz de apresentar à plateia os pontos de vista de ambos os protagonistas.


Os livros "Beautiful boy", do jornalista David Sheff, e "Tweak", escrito por seu filho, Nic, são a base do roteiro de "Querido menino" - e contam a mesma história, ainda que sob diferentes perspectivas. O filme se detém principalmente no olhar de David (Steve Carell), que vê sua rotina doméstica tranquila ser repentinamente abalada pelo vício em drogas do filho mais velho, Nic (Timothée Chalamet). Até então um adolescente típico mas sem maiores crises, o rapaz passa a apresentar um comportamento errático e agressivo, o que o leva a centros de reabilitação, conflitos frequentes com os pais (separados) e a nova família (madrasta e dois irmãos pequenos) e assustadoras ameaças de overdoses. Abalado com a nova realidade, David se vê diante de um dilema: proteger o que ainda resta de sua família ou arriscar tudo na tentativa de recuperar a integridade física do jovem. Suas dúvidas passam a ameaçar seu  casamento com Karen (Maura Tierney) - e nem mesmo a reaproximação com a primeira mulher, Vicki (Amy Ryan), é suficiente para consolá-lo em sua cruzada. Enquanto isso, Nic tenta, à sua maneira, lidar com o vício e suas consequências (físicas e psicológicas) - o que inclui um romance atribulado com outra viciada, Lauren (Kaitlyn Dever) e um entra-e-sai em programas de desintoxicação. 

É difícil imaginar como seria o resultado se "Querido menino" não tivesse caído nas mãos talentosas e poéticas de Felix Von Groeningen - e o diretor Cameron Crowe esteve perto de assumir as rédeas do projeto, com Mark Wahlberg no papel principal. Certamente o enfoque e o tom seriam muito diferentes, sem o olhar europeu do cineasta belga e a sutileza do trabalho de Carell, que foge corajosamente de sua zona de conforto e entrega um desempenho brilhante. O mesmo pode ser dito a respeito de Timothée Chalamet, indicado ao Golden Globe, ao BAFTA e ao Screen Actors Guild Awards por sua atuação delicada e honesta. A química entre Chalamet e Carell é preciosa e eleva o filme a um patamar acima da média - sublinhada pela discrição de Von Groeningen ao tratar das emoções mais básicas do ser humano. Não há lágrimas em excesso em "Querido menino". É apenas (e isso já é o bastante) o retrato de uma família quebrada tentando juntar os pedaços e colá-los com amor e respeito. Um belo filme, que merece ser descoberto e aplaudido.

A GUERRA DOS SEXOS

A GUERRA DOS SEXOS (Battle of the sexes, 2017, Fox Searchlight Pictures, 121min) Direção: Jonathan Dayton, Valerie Farris. Roteiro: Simon Beaufoy. Fotografia: Linus Sandgren. Montagem: Pamela Martin. Música: Nicholas Britell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Matthew Flood Ferguson. Produção: Danny Boyle, Christian Colson, Robert Graf. Elenco: Emma Stone, Steve Carell, Andrea Riseborough, Bill Pullman, Elisabeth Shue, Nathalie Morales, Sarah Silverman, Alan Cumming, Eric Christian Olsen. Estreia: 02/9/17 (Festival de Teluride)

Nada como um casal de verdade para comandar, diante dos olhos do público, uma batalha tão representativa sobre a disputa de gêneros quanto a protagonizada, em 1973, por dois jogadores de tênis populares e radicalmente diferentes quanto Billie Jean King e Bobby Riggs. Um dos mais importantes episódios esportivos - e por que não políticos? - da história dos EUA, a partida que uniu o país defronte a uma quadra de tênis ganhou, em "A guerra dos sexos", um retrato ao mesmo tempo irônico e emocionante nas mãos de Jonathan Dayton e Valerie Farris, diretores do já clássico "Pequena Miss Sunshine" (2006). Com um roteiro preciso de Simon Beaufoy - Oscar por "Quem quer ser um milionário? "(2008) - e atuações exemplares de Emma Stone e Steve Carell, o filme acabou sendo um inesperado fracasso de bilheteria e passou quase despercebido pelas cerimônias de premiação (Stone e Carell foram indicados apenas ao Golden Globe, sendo ignorados pelo Oscar e demais associações de críticos). Na verdade, tal resultado tão pouco auspicioso não reflete sua qualidade: sem apelar para o humor fácil ou o ativismo barato, o filme de Dayton e Farris diverte na mesma medida em que faz uma análise atualíssima sobre os papéis masculinos e femininos no final do século XX - e que encontra eco fortíssimo nas reivindicações sobre igualdade salarial no esporte, assunto mais do que em voga nessas primeiras décadas do XXI.

A trama começa em 1970, quando a famosa e vitoriosa Billie Jean King (Emma Stone) bate de frente com Jack Kramer (Bill Pullman), o organizador de um torneio mundial de tênis feminino cujo prêmio máximo é apenas 1/8 do prêmio oferecido ao campeão do campeonato masculino. Criando uma liga própria para mulheres, juntamente com outras jogadoras, Billie Jean acaba se tornando uma espécie de porta-voz de um movimento que pede equiparação de pagamento a homens e mulheres. Sua luta encontra resistência entre os executivos do esporte - todos homens que pregam a inferioridade de talento e força física das jogadoras em relação aos ídolos do chamado "sexo forte". É com essa gana de provar que existe igualdade entre os gêneros que Billie Jean aceita o desafio de Bobby Riggs (Steve Carell) para uma partida a ser transmitida internacionalmente. Jogador já aposentado - depois de uma carreira brilhante -, Briggs é um apostador compulsivo e vive sustentado pela esposa Priscilla (Elisabeth Shue), mas não resiste a bravatas pouco sutis e misóginas. E é para defender seu gênero que Billie Jean entra na quadra e se torna um ícone feminista.


Porém, fora das quadras, a jovem tenista também tem seus problemas pessoais. O casamento com Larry (Austin Stowell) está ameaçado por sua atração pela cabeleireira Marilyn Barnett (Andrea Riseborough) - e esta relação, se chegar até os meios de comunicação pode atrapalhar sua imagem diante do público. Além disso, Bobby tem a seu lado um séquito de atletas e jornalistas conservadores, o que lhe dá uma certa vantagem psicológica. O roteiro de Beaufoy acerta em tratar o romance entre Billie e Marilyn com naturalidade - inclusive dourando um pouco a pílula, uma vez que o relacionamento acabou em 1981 de forma pouco agradável (com Marilyn processando a jogadora). A direção de Dayton e Farris também foge do sensacionalismo e da polêmica, centrando seu foco muito mais na disputa entre os protagonistas (dentro e fora da quadra) e no trabalho irrepreensível de seus dois atores centrais. Emma Stone - que quase foi substituída por Brie Larson mas recuperou o papel a tempo - alterna os estados de espírito de sua personagem com extrema segurança, e Steve Carell parece ter nascido para interpretar Bobby Riggs: sua verve e seu timing cômico são precisos e dão a leveza necessária para não tornar a narrativa algo panfletário ou desinteressante. Da mesma forma, o elenco coadjuvante brilha sem roubar a atenção da dupla principal - e conta com nomes conhecidos como Bill Pullman e Elisabeth Shue.

Engraçado, importante e absolutamente atual, "A guerra dos sexos" talvez tenha fracassado nas bilheterias justamente por não se dobrar ao óbvio e ao cômodo. Não provoca gargalhadas fáceis nem tampouco tenta forçar a simpatia da plateia a um assunto bastante explosivo. É apenas um (bom) filme, contado com inteligência e sensibilidade, e que pode provocar discussões bastante saudáveis e pertinentes. Em uma época na qual poucos filmes tem a coragem de sair da zona de conforto, é um alento dos mais divertidos e simpáticos. Não vai mudar a história do cinema nem a vida do espectador, mas é muito mais relevante do que obras pretensamente sérias e politicamente corretas que conseguem enganar crítica e público. Um filme a ser descoberto e aplaudido!

sexta-feira

BEM-VINDOS A MARWEN

BEM-VINDOS A MARWEN (Welcome to Marwen, 2018, Universal Pictures/DreamWorks, 116min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Robert Zemeckis, Caroline Thompson. Fotografia: C. Kim Miles. Montagem: Jeremiah O'Driscoll. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Stefan Dechant/Hamish Purdy. Produção executiva: Jacqueline Levine, Jeff Malmberg. Produção: Cherylanne Martin, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Steve Carell, Leslie Mann, Diane Kruger, Janelle Monáe. Estreia: 21/12/18

Em 2015, Robert Zemeckis transformou o documentário "O equilibrista" (2008) no drama "A travessia", estrelado por Joseph Gordon-Levitt, e amargou um dos raros fracassos de bilheteria de uma carreira repleta de êxitos incontestáveis, como a trilogia "De volta para o futuro" e "Forrest Gump: o contador de histórias", que lhe deu o Oscar de melhor filme e direção em 1995. Depois de novamente decepcionar comercialmente com "Aliados" (2016), drama de guerra que, mesmo com a presença de Brad Pitt e Marion Cottilard não chamou a atenção do público, ele voltou a buscar na vida real a inspiração para seu trabalho. "Bem-vindos a Marwen", que estreou no final de 2018 nos cinemas americanos, é a dramatização do documentário "Marwencol", dirigido por Jeff Malmberg e vencedor de diversos prêmios da crítica desde seu lançamento. A fascinante história de um homem que tenta recobrar a sanidade mental através da criação de um mundo de fantasia protagonizado por bonecos encontrou, em Zemeckis, o diretor ideal - mas acabou se tornando o terceiro malogro consecutivo em sua trajetória. Completamente ignorado até pela Academia, que esnobou seus espetaculares efeitos visuais, o filme estrelado pelo cada vez melhor Steve Carell já pode ser considerado uma das mais injustiçadas produções de seu tempo - afinal, apesar de tudo, é um trabalho belo e sensível, que reitera o talento do cineasta em equilibrar com maestria técnica e emoção.

Os primeiros minutos de "Bem-vindos a Marwen" dão a impressão de que Zemeckis voltou a brincar  com suas técnicas de captura de movimento, que marcou uma fase de sua carreira na primeira década dos anos 2000. Na sequência de abertura, um capitão norte-americano sofre um acidente com seu avião e se vê prestes a morrer nas mãos de nazistas quando é salvo por um grupo de mulheres armadas, lideradas pela corajosa Wendy. Toda a cena é apresentada em forma de animação, e logo se percebe que a situação narrada é fruto da imaginação de Mark Hogancamp (Steve Carell), um homem que tenta esquecer de um traumático incidente, quando foi violentamente espancado por um grupo de neonazistas na saída de um bar. Preso à sua nova realidade, ele mergulha sem medo na confecção de uma narrativa na qual ele mesmo é um corajoso capitão do exército que conta com a ajuda de um time de mulheres - todas inspiradas em pessoas reais - e que luta contra os alemães durante a II Guerra, em uma cidadezinha belga chamada Marwen. Enquanto espera o julgamento de seus agressores, Mark se encanta com a nova vizinha, Nicol (Leslie Mann), que passa a fazer parte de sua imaginação fértil, assim como a hostil Deja Thoris (Diane Kruger), uma bruxa que serve como uma espécie de conselheira e terapeuta.


O roteiro de "Bem-vindos a Marwen" é um achado: ao mesmo tempo em que sensibiliza o espectador com o drama de Mark (interpretado com sutilezas por Carell, em uma atuação inspiradíssima), aproveita para demonstrar o domínio que tem das técnicas de animação, oferecendo à plateia momentos divertidos e violentos com os bonecos manipulados pelo protagonista. Os efeitos visuais são perfeitos - e criados a partir da ação dos próprios atores, em um processo fascinante que impede a sensação de frieza que muitas vezes acompanha as produções mais ambiciosas. O grande achado do diretor, porém, é a forma encontrada de transmitir, através dos bonecos, a angústia e a personalidade complexa do personagem central: aos poucos o público vai compreendendo a extensão de seu problema e de como seu hobby é, mais do que uma diversão, uma terapia que pode lhe salvar da depressão mais absoluta. Sem estender-se desnecessariamente em sua trama, Zemeckis encontra o contraponto ideal entre a realidade e a ilusão, convidando a audiência a uma viagem inusitada e emocionante, que foge dos clichês graças ao talento de todos os envolvidos - com especial destaque à trilha sonora de Alan Silvestri, que evoca docemente todas as fases mentais de Mark.

Talvez o motivo do fracasso de "Bem-vindos a Marwen" seja justamente sua delicadeza.  Acostumados ao excesso de informações dos blockbusters e à total falta de sutileza das produções dos grandes estúdios, é bem possível que os espectadores não tenham se interessado por um filme que fala de pequenas emoções, de pessoas feridas em seu mais íntimo e do poder da imaginação como parte da cura de um trauma inimaginável. Azar de quem perdeu a oportunidade de ter contato com uma pequena pérola do cinema hollywoodiano - que, vez ou outra, ainda consegue acertar no alvo quando se trata contar boas histórias de forma criativa. Que o tempo lhe faça justiça e que o filme se transforme, com o passar do anos, no cult movie que merece ser.

terça-feira

CAFÉ SOCIETY

CAFÉ SOCIETY (Café Society, 2016, Gravier Productions/Perdido Productions/FilmNation Entertainment, 96min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Suzy Benzinger. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Regina Graves, Nancy Haigh. Produção executiva: Ronald L. Chez, Adam B. Stern, Marc I. Stern. Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Edward Walson. Elenco: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Steve Carrell, Corey Stoll, Blake Lively, Parker Posey, Sheryl Lee, Jeannie Berlin, Ken Stott. Estreia: 11/5/16 (Festival de Cannes)

Em sua longa carreira como cineasta, Woody Allen pode ter seus filmes divididos em três grupos: as obras-primas (onde se inserem "Noivo neurótico, noiva nervosa", "Manhattan", "Crimes e pecados", "A rosa púrpura do Cairo", "Hannah e suas irmãs", "Match point" e "Meia-noite em Paris"), os pouco inspirados (onde cabem "O escorpião de jade", "Para Roma, com amor" e "Magia ao luar") e os simpáticos mas pouco memoráveis (caso de "Misterioso assassinato em Manhattan", "Igual a tudo na vida" e "Scoop: o grande furo"). "Café Society", que abriu o Festival de Cannes 2016 faz parte do último grupo: é uma comédia dramática sofisticada e inteligente como se poderia esperar do diretor, mas lhe falta aquele lance de genialidade que destaca suas melhores obras de tudo que é produzido em Hollywood. Filme mais caro de sua carreira (o orçamento inicial de 18 milhões de dólares inchou até inacreditáveis - para seus padrões - 30 milhões ao final da produção), ele também marca o primeiro trabalho de Allen depois da morte de seu coprodutor executivo Jack Rollins - seu parceiro artístico há 40 anos - e sua primeira colaboração com o festejado diretor de fotografia Vittorio Storaro. Além disso, retoma um dos temas mais caros ao veterano realizador (os bastidores da indústria cinematográfica, ainda que apenas como pano de fundo) e é um de seus filmes mas simples em termos de narrativa, além de ser um de seus raros filmes com protagonistas mais jovens.

Ao contrário da maioria de seus trabalhos anteriores, em que os personagens principais são normalmente intelectuais de meia-idade atravessando crises existenciais enquanto exorcizam seus dilemas nas melhores paisagens de Nova York (ou, no caso de seus filmes mais recentes, pelas cidades mais belas da Europa), em "Café Society" grande parte da trama se passa na Los Angeles dos anos 1930 e acompanha um jovem de vinte e poucos anos em sua tentativa de assumir uma vida adulta diante do glamour oferecido por seu tio milionário e do caminho da contravenção que vislumbra ao lado do irmão mais velho. Retornando o recurso da narração em off que tanto funcionou em "A era do rádio" (87), Allen apresenta o público ao desajeitado e ingênuo Bobby Dorfman (Jesse Eisenberg em seu segundo filme com o cineasta), que deixa o Brooklyn de seus pais e chega à capital do cinema para encontrar seu tio, Phil Stern (Steve Carell), um agente de astros de Hollywood a quem mal conhece. Stern lhe emprega como seu assistente e logo Bobby se vê frequentando festas à beira da piscina e coquetéis frequentados por grandes produtores. Deslocado, ele se apaixona pela secretária do tio, Vonnie (Kristen Stewart), que não esconde dele o fato de ter um relacionamento com um homem casado. Algum tempo depois, já de volta à sua cidade natal, ele se torna sócio do irmão mais velho, Ben (Corey Stoll) - que tem sérios problemas com os gângsters do submundo - em uma boate, e se casa com a bela Veronica (Blake Lively). Seu amor por Vonnie, porém, não o deixa ser completamente realizado e feliz.


O maior problema de "Café Society" nem é sua trama tênue - muitos grandes filmes de Allen se sustentam em enredos aparentemente banais -, mas sim a forma como o cineasta parece não saber exatamente como conectar os dois atos de seu roteiro. A impressão que se tem é de que são duas ideias distintas unidas por uma linha frágil demais para justificar um longa-metragem, especialmente quando personagens cruciais da primeira metade praticamente desaparecem de cena: é o caso de Steve Carell, cujo Phil Stern parece nunca atingir todo o seu potencial mesmo quando se revela muito mais importante do que parecia em um primeiro olhar. O mesmo pode ser dito do ótimo Corey Stoll, que brilhou como Hemingway em "Meia-noite em Paris" (2011) e aqui se vê tentando dar destaque a um personagem que é mais citado do que mostrado, apesar de ser uma das bússolas morais (ou amorais) do protagonista. Não bastasse isso, Jesse Eisenberg parece mais deslocado que seu Bobby Dorfman - como muitas vezes acontece na filmografia de Woody Allen, o ator transmite a sensação de estar tentanto emular o estilo do diretor, com seu gestual desajeitado e modo de falar titubeante. Para surpresa de todos, quem se sai melhor é Kristen Stewart, que consegue romper o estigma "Crepúsculo" e entrega uma atuação sensível e convincente.

Visualmente atraente, com a fotografia deslumbrante de Vittorio Storaro enchendo os olhos do espectador e uma direção de arte caprichadíssima, "Café Society" se ressente de um roteiro mais coeso e de personagens mais empáticos do que aqueles que apresenta. Bobby Dorfman, com sua falta de traquejo social e uma interpretação quase preguiçosa de Jesse Eisenberg (repetindo tiques de seu Mark Zuckerberg, de "A rede social", filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar), não cativa a plateia e acaba abrindo espaço para personagens coadjuvantes muito mais interessantes, como sua irmã - cuja rixa com um vizinho acelera o destino da família - e a socialite vivida por Parker Posey, que infelizmente é quase totalmente posta de lado em detrimento da história principal. São pequenos defeitos estruturais, mas que comprometem o resultado final e fazem do filme um produto apenas regular, muito longe do brilhantismo dos melhores momentos da carreira de Woody Allen - mas também acima de seus maiores tropeços. Um entretenimento de classe, mas apenas isso.

quinta-feira

A GRANDE APOSTA

A GRANDE APOSTA (The big short, 2015, Plan B Entertainment/Regency Enterprises, 130min) Direção: Adam McKay. Roteiro: Adam McKay, Charles Randolph, livro de Michael Lewis. Fotografia: Barry Ackroyd. Montagem: Hank Corwin. Música: Nicholas Britell. Figurino: Susan Matheson. Direção de arte/cenários: Clayton Hartley/Linda Sutton-Doll. Produção executiva: Kevin Messick, Louise Rosner-Meyer. Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Arnon Milchan, Brad Pitt. Elenco: Ryan Gosling, Steve Carrell, Christian Bale, Brad Pitt, Marisa Tomei, Tracy Letts, Rafe Spall, Melissa Leo, Finn Wittrock. Estreia: 12/11/15

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Adam McKay), Ator Coadjuvante (Christian Bale), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado 

Subprime. Trenchs. Bolha imobiliária. Termos como esses, comuns a quem lida com o mercado financeiro mas totalmente desconhecidos de 95% da população mundial, são frequentemente mencionados em "A grande aposta", vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado de 2015, batendo nomes fortes, como "Perdido em Marte", de Ridley Scott, e "Carol", de Todd Haynes. Dirigido pelo mesmo Adam McKay de "O Âncora" (2005) e "Tudo por um furo" (2013), e estrelado por astros do porte de Brad Pitt, Christian Bale, Ryan Gosling e Steve Carrell, o filme, baseado em uma história real, caiu nas graças da crítica e chegou a concorrer a outras quatro estatuetas, entre elas melhor filme e direção. Tanto sucesso (inclusive de bilheteria, já que ultrapassou os 70 milhões de dólares no mercado doméstico) não deixa de ser estranho e surpreendente: apesar do elenco milionário e das tentativas de familiarizar a plateia com seu palavreado técnico através de inserções cômicas e didáticas, "A grande aposta" não deixa de ser um filme muito complexo para os não-iniciados (e até para aqueles mais ou menos interessados no assunto). Como cinema é muito bom (bem editado, ágil, inteligente, com ótimos atores e uma direção precisa), mas falha em sua principal missão: se fazer compreender completamente.

Talvez seja exagero afirmar que é preciso um conhecimento prévio de economia para melhor aproveitar todos os detalhes de "A grande aposta", mas é fato que inúmeros de seus diálogos são repletos de jargões e conceitos simplesmente complicados demais para o padrão médio do público. A trama - dividida em vários núcleos cuja intersecção é justamente a grande crise imobiliária de 2005, que arruinou milhares de americanos e causou uma onda de demissões, falências e prisões - apresenta personagens pouco simpáticos, quase todos francamente amorais e/ou meramente gananciosos, o que dificulta ainda mais sua conexão com o público, por mais que sejam interpretados por grandes atores. Quem sai-se melhor nesse quesito é Steve Carrell, que consegue imprimir um pouco de humanidade a seu Mark Baum, um homem torturado pelas lembranças do irmão suicida e por um casamento em frangalhos com a compreensiva Cynthia (Marisa Tomei). Afora ele, os personagens falham em se comunicar com a emoção da plateia, desfilando pela tela desesperados por dinheiro e tentando lucrar com a desgraça alheia. É difícil encontrar um ponto de conexão com qualquer um deles, o que, somado à relativa complexidade da trama, torna o espetáculo ainda mais árduo para o público que procura apenas um entretenimento leve. Por mais que o esforço da produção em se fazer entender seja louvável, o filme de Adam McKay esbarra na própria natureza de seu tema, hermético desde sempre.



Christian Bale chegou a ser indicado ao Oscar de ator coadjuvante - e é seu personagem quem dá o pontapé inicial na história: Michael Burry é um excêntrico investidor, dono de um olho de vidro e modos esquisitos que, analisando o mercado, percebe que em alguns anos a bolha imobiliária que sobrevive de hipotecas da população norte-americana irá estourar, causando uma crise sem precedentes na economia. Esperto, ele resolve apostar nessa certeza e compra milhares de dólares em títulos - e acaba chamando a atenção de outros ambiciosos especialistas no setor, entre eles o próprio Mark Baum, que entra por acaso no negócio depois de um telefonema por engano e leva seus sócios e colegas de trabalho com ele na aventura. É também buscando a fortuna rápida que dois jovens empresários, Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), embarcam na arriscada tentativa de vencer contra o mercado - e tudo é visto à distância (mas não muita) pelo experiente Jared Vennett (Ryan Gosling), que é uma espécie de narrador, que tenta dar luz a todas as tramoias e complicações do roteiro.

Baseado em um livro do mesmo Michael Lewis de "O homem que mudou o jogo" - em que Brad Pitt tentava vencer como gerente de um time de futebol americano baseado exclusivamente em cálculos matemáticos - e dotado de um ritmo empolgante que quase disfarça o fato de ser tão complicado, "A grande aposta" se ressente basicamente de tratar de um assunto tão radicalmente distante do público médio. Não há nada de errado em sua estrutura ou sua costura cinematográfica, tudo funciona como um relógio, desde as atuações inspiradas até a direção precisa e a edição exata. O que atrapalha é unicamente seu tema, por mais que o roteiro oscarizado tente traduzir em imagens e exemplos mundanos todo o festival de jargões e complexidades de seu universo. Quem quiser arriscar-se a uma sessão mesmo sabendo de antemão que deixará passar muitos detalhes tem muito com o que se divertir, mas não deixa de ser um tanto chato passar mais de duas horas batalhando arduamente com o cérebro quando o objetivo é se divertir. Não é um filme ruim, apenas bastante complicado.

sábado

AMOR POR DIREITO

AMOR POR DIREITO (Freeheld, 2015, Double Feature Films, 103min) Direção: Peter Sollett. Roteiro: Ron Nyswaner. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Andrew Mondsheim. Música: Johnny Marr, Hans Zimmer. Figurino: Stacey Battat. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Joanne Ling. Produção executiva: Hilary Davis, Adam Del Deo, Richard Fischoff, Stephen Kelliher, Taylor Latham, Tiller Russell, Natalia Saenz, Robert Salerno, Gregory R. Schenz, Ameet Shukla, Scott Stone. Produção: Kelly Bush Novak, Julie Goldstein, Phil Hunt, Duncan Montgomery, Ellen Page, Compton Ross, Jack Selby, Michael Shamberg, Stacey Sher, James D. Stern, Cynthia Wade. Elenco: Julianne Moore, Ellen Page, Michael Shannon, Steve Carrell, Josh Charles, Luke Grimes. Estreia: 13/9/15 (Festival de Toronto)

Laurel Hester é uma detetive da polícia de Nova Jersei. Inteligente, corajosa e absolutamente dedicada ao trabalho, ela é respeitada pela corporação e pelos colegas, além de ser considerada uma das mais competentes policiais da cidade. Porém, sem que ninguém de suas relações profissionais saiba, Laurel é lésbica - e tem plena consciência de que assumir sua sexualidade em um ambiente machista e conservador pode ter consequências óbvias em sua carreira, como o deslocamento para o serviço burocrático e seu afastamento da lista de promoções. Mesmo quando se apaixona pela jovem Stacei Andree, que trabalha como mecânica, Laurel sabe que precisa manter seu relacionamento o mais discreto possível, apesar de ser quase obrigada a dividir seu segredo com o parceiro, Dane Wells. Sua condição, no entanto, vem à tona no pior momento de sua vida: diagnosticada com um agressivo e incurável câncer no pulmão, a séria e responsável agente entra na Justiça para exigir que, após a sua morte, sua pensão fique com Stacei, assim como acontece como todos os casais heterossexuais da força policial. O preconceito e a burocracia ameaçam interromper o processo, mas a entrada em cena do militante gay Steven Goldstein - excêntrico, pouco discreto e barulhento - torna o caso algo de interesse nacional.

Foi logo que assistiu à história de Laurel e Stacei, no documentário em curta-metragem "Freeheld", dirigido por Cynthia Wade e vencedor do Oscar da categoria em 2008, que o roteirista Ron Nyswaner resolveu que ela precisava ser contada para um público mais amplo - e com um alcance maior do que o curta original. Também indicado ao Oscar - por seu trabalho em "Filadélfia" (93) - e autor do roteiro do telefilme "Um amor na trincheira" (2003), que narrava a trágica história real do amor entre um jovem soldado e uma transformista, Nyswaner parecia a pessoa mais adequada para explorar todas as dramáticas nuances de uma batalha jurídica que buscava, mais do que apenas justiça, o respeito e a igualdade. Tendo entre seus produtores a própria Cynthia Wade e a atriz Ellen Page - que assumiu sua homossexualidade durante as filmagens, oferecendo um senso extra de realismo ao projeto - "Amor por direito" estreou no Festival de Toronto de 2015 prometendo emocionar o público e dar a largada na disputa pelos principais prêmios da temporada (a saber, Golden Globo e Oscar). Não deu muito certo: saiu sem nenhuma estatueta nos festivais e foi ignorado tanto pela imprensa estrangeira em Hollywood quanto pela Academia - mais por ter sido lançado em um ano bastante disputado do que por falta de qualidades, ainda que o resultado final nunca seja mais do que apenas correto.


Com a direção do pouco conhecido Peter Sollett, cujo trabalho mais famoso é o cult jovem "Nick & Norah: uma noite de amor e música", de 2008, "Amor por direito" tem como seu principal atrativo o nome de Julianne Moore, no papel da corajosa Laurel Hester. Recém premiada com o Oscar de melhor atriz por seu desempenho em "Para sempre Alice", Moore mais uma vez entrega uma atuação caprichada, ainda que esbarre em um roteiro pouco inspirado. Talvez preso em sua tentativa de honrar a trajetória de sua protagonista, Nyswaner pouco ousa em sua narrativa, adotando uma linearidade que por vezes soa bastante apática. Demorando em finalmente chegar ao ponto - e explorando sem necessidade procedimentos policiais para enfatizar a dedicação de Laurel à carreira - o roteiro também parece ter medo de apelar para a emoção: em sua opção de evitar o sentimentalismo, "Amor por direito" falha em seu objetivo de comover o público, apesar do esforço de seu elenco. A história de amor entre Laurel e Stacei, acaba, portanto, sendo menos interessante do que sua batalha judicial por igualdade - um enfoque que acaba por tornar-se o ponto mais certeiro do filme.

Quando abandona o drama romântico para concentrar-se na luta de Laurel e Stacei por seus direitos civis, o filme de Sollett cresce, especialmente quando entra em cena o melhor personagem do filme, o gay judeu interpretado por Steve Carrell (em substituição à Zach Galifianakis). Ator revelado em comédias mas alçado ao status de ator dramático graças a interpretações surpreendentes em filmes como "Pequena Miss Sunshine" (2006) e "Foxcatcher" (2014), Carrell equilibra bem suas duas vertentes de atuação, transformando Steven Goldstein no catalisador de uma corrente de solidariedade e apoio às duas protagonistas mesmo quando seus exageros e extravagâncias correm o risco de por tudo a perder. Seu desempenho vibrante é o contraste perfeito da atuação discreta e sempre eficiente de Michael Shannon, que vive o parceiro profissional de Laurel com sutileza ímpar. Sempre que a história se concentra nas reuniões com os responsáveis por aprovar ou não o pedido de pensão para Stacei, o filme ganha humanidade e relevância - e de certa forma compensa a falta de química entre Julianne Moore e Ellen Page, duas excelentes atrizes, mas que parecem pouco à vontade em cena. Ainda assim, são convincentes o bastante para manter a atenção do espectador até o final. "Amor por direito" pode não ser o grande filme que prometia, mas sua importância e urgência é inegável.

quarta-feira

FOXCATCHER: UMA HISTÓRIA QUE CHOCOU O MUNDO

FOXCATCHER: UMA HISTÓRIA QUE CHOCOU O MUNDO (Foxcatcher, 2014, Annapurna Pictures/Media Rights Capital, 134min) Direção: Bennet Miller. Roteiro: Dan Futterman, E. Max Frye. Fotografia: Greig Fraser. Montagem: Jay Cassidy, Stuart Levy, Conor O'Neil. Música: Ron Simonsen. Figurino: Kasia Walicka-Maimone. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Kathy Lucas. Produção executiva: Mark Bakshi, Chelsea Barnard, Michael Coleman, John P. Giura, Tom Heller, Ron Schmidt. Produção: Anthony Bregman, Megan Ellison, Jon Kilik, Bennett Miller. Elenco: Steve Carrell, Mark Ruffalo, Channing Tatum, Vanessa Redgrave, Siena Miller, Anthony Michael Hall. Estreia: 19/5/14 (Festival de Cannes)

5 indicações ao Oscar: Diretor (Bennett Miller), Ator (Steve Carrell), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Roteiro Original, Maquiagem
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes (Bennett Miller)

Se existe um caminho para conquistar o coração dos eleitores da Academia, esse caminho deve ser do conhecimento do diretor Bennett Miller. Desde que lançou seu primeiro longa - a cinebiografia "Capote", que contava com a brilhante atuação de Philip Seymour Hoffman como o famoso autor de "À sangue frio" - o cineasta nova-iorquino viu seus três filmes conquistarem importantes indicações ao Oscar: o primeiro e "O homem que mudou o jogo" - estrelado por Brad Pitt e Jonah Hill - chegaram mesmo a concorrer à estatueta de melhor filme, apesar da qualidade apenas razoável do segundo. Seu novo trabalho (e novamente uma história verdadeira) é "Foxcatcher, uma história que chocou o mundo", que, apesar de não ter alcançado a glória de ser indicado na categoria de de melhor filme, chegou ao páreo de direção, ator (um irreconhecível Steve Carrell), ator coadjuvante (Mark Ruffalo) e roteiro original. Tido como um dos favoritos às estatuetas desde que estreou no Festival de Cannes, em maio passado, o filme foi aos poucos perdendo fôlego e, se conseguiu atravessar a cobiçada linha que separa as especulações da realidade é porque conta com um invejável conjunto de atores, todos eles em momento de grande inspiração: no cômputo geral, "Foxcacther" está muito longe de ser o filme memorável que poderia ser.

O subtítulo nacional - "Uma história que chocou o mundo" - já é um exagero desproporcional, uma vez que, antes da estreia mundial, pouca gente sabia a respeito da tragédia que deu origem ao roteiro (ao menos fora dos EUA, onde os personagens eram relativamente famosos), mas não é a pior coisa do filme de Miller, que sofre de uma direção distante e impessoal que lhe dá um equivocado tom de semi-documentário - uma opção discutível que acaba por afastar o envolvimento emocional do espectador com uma história já recheada de personagens ambíguos e frios. Mesmo que em certos momentos crie algumas cenas de inegável impacto visual - que acentuam o viés melancólico e denso da trama - o cineasta incorre no erro de evitar qualquer mudança no ritmo quase letárgico de sua narração, dando a todos os acontecimentos mostrados a mesma importância dramática. O que poderia ser inteligente - ir montando aos poucos um quebra-cabeças de peças aparentemente desconexas - acaba por se mostrar apenas aborrecido quando se percebe, ao final, que todos aqueles momentos silenciosos e repetitivos não ajudaram em nada a entender o principal: o que levou o milionário John Du Pont a tomar a drástica atitude que inspirou o subtítulo em português.


Não saber muito a respeito da trama ajuda a manter o clima de suspense que, de certa forma, é um dos trunfos de "Foxcatcher" - mesmo que não se conheça a história fica claro desde o princípio que algo pouco positivo irá resultar da aproximação dos personagens, principalmente porque, reconheçamos, a trilha sonora e a edição soturna dão dicas a esse respeito. Tudo começa quando o jovem Mark Schultz (Channing Tatum), lutador olímpico que vive de treinos e palestras motivacionais a estudantes enfadados, é convidado a visitar a mansão do milionário John Du Pont (Steve Carrell sem o menor tique cômico), que vive isolado em uma gigantesca propriedade e tem como sonho criar uma vitoriosa equipe norte-americana de lutadores. Ele mesmo um treinador e lutador diletante, Du Pont convence o jovem a juntar-se a outros atletas, dando-lhe um lugar para morar, comida, boas condições de treino e um pagamento generoso. A única pedra em seu caminho é Dave (Mark Ruffalo), irmão mais velho e antigo técnico de Mark, com quem mantém uma forte relação de carinho familiar. A união entre os dois passa a despertar um misto de inveja e admiração no multi-milionário - que não tem o melhor dos relacionamentos com a mãe (Vanessa Redgrave) e leva uma vida solitária - que resolve, então, chamar Dave para juntar-se a eles em seu projeto.

Contando sua história sem pressa e muitas vezes abusando da paciência do público, Bennett Miller tem como maior trunfo sua trinca de atores centrais. Enquanto Mark Ruffalo já é reconhecido por seu talento dramático graças a uma série de bons filmes - que incluem a comédia dramática "Minhas mães e meu pai", que lhe deram sua primeira indicação ao Oscar, em 2011 - a plateia é pega de surpresa principalmente pelo trabalho de Steve Carrell e Channing Tatum. Tatum, mais conhecido por exibir o físico privilegiado em dramas românticos como "Querido John" e comédias bobas como "Anjos da lei", ainda não é um grande ator, mas seu esforço em crescer artisticamente é visível na construção corporal de seu personagem, que foge do estereótipo do galã sedutor com seu andar pesado, seu olhar perdido e sua forma quase anestesiada de falar. E Steve Carrell mereceu, com todo o louvor, sua indicação à estatueta de melhor ator, apresentando um desenvolvimento exemplar de personagem: mesmo que pouco se explique a respeito de sua natureza no roteiro, ele consegue, através do olhar vazio e das expressões faciais destituídas de qualquer emoção, arrepiar e emocionar na medida certa. Em nenhum momento somos lembrados que, por trás da competente maquiagem e da voz monocórdia, existe o genial ator cômico do seriado "The Office" e da refilmagem de "Agente 86". Ponto para ele.

No fim das contas, "Foxcatcher" é um trabalho apenas ok de um diretor que caiu inexplicavelmente nas graças da Academia - e dos jurados do Festival de Cannes, que lhe deram a Palma de Ouro da categoria. A intenção do cineasta em retratar o mundo da luta como uma espécie de culto - um mundo à parte, isolado e cheio de regras - cai no vazio diante de um roteiro que deixa mais à imaginação do público do que deveria e o final anti-climático perde a oportunidade de chocar ou surpreender para parecer apenas mais um acontecimento banal como um treino ou uma corrida matinal. Nem mesmo as possibilidades homoeróticas da história são levantadas, tornando tudo apenas um exercício sonolento e quase arrogante. Ainda bem que tem seus atores.

UM DIVÃ PARA DOIS

UM DIVÃ PARA DOIS (Hope Springs, 2012, Columbia Pictures/Mandate Pictures, 100min) Direção: David Frankel. Roteiro: Vanessa Taylor. Fotografia: Florian Ballhaus. Montagem: Steven Weisberg. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Jason Blumenthal, Nathan Kahane, Jessie Nelson, Steve Tisch. Produção: Todd Black, Guymon Casady. Elenco: Meryl Streep, Tommy Lee Jones, Steve Carrell, Jean Smart, Elisabeth Shue, Mimi Rogers. Estreia: 08/8/12


Kay e Arnols Soames estão comemorando 31 anos de casamento. Dessa relação sólida e tranquila, nasceram dois filhos e um conforto que transformou-se em comodismo. Dormindo em quartos separados e sem assuntos em comum, o casal parece ter aposentado definitivamente sua vida sexual e afetiva. Mas Kay não quer entregar os pontos facilmente e, depois de ler o livro de um terapeuta de casais extremamente bem-sucedido, gasta quatro mil dólares de suas economias pagando um intensivo de sete dias em uma cidade costeira do Maine para recuperar seu casamento. A princípio decidido a não acompanhar a esposa no que considera uma loucura, Arnold acaba por ceder e eles começam, então, um período onde terão que trazer à tona assuntos que aprenderam a esconder com o passar dos anos. Com essa sinopse, “Um divã para dois” poderia servir para um drama-cabeça do sueco Ingmar Bergman, uma comédia intelectualizada de Woody Allen ou um filme erótico metido a profundo de Bernardo Bertolucci. Mas, com Meryl Streep e Tommy Lee Jones nos papéis principais e a direção de David Frankel (de “O diabo veste Prada”), é apenas uma comédia dramática com bons momentos, bom elenco e a dose de previsibilidade comum a uma produção comercial e despretensiosa. Não muda a vida de ninguém, mas é garantia de um passatempo bastante agradável.
É lógico que ter Meryl Streep ajuda e muito. Já que o roteiro não foge do banal e da superficialidade, o talento da atriz em tirar leite de pedra acaba por tornar-se a principal razão para assistir-se ao filme. Mestre do minimalismo, Streep consegue convencer tanto nos momentos de humor – sutil às vezes, quase de mau-gosto de vez em quando – quanto naqueles em que sua capacidade de falar com os olhos lembra a plateia dos motivos que a levam a ser considerada a melhor atriz americana de sua geração. Ciente das vontades e do objetivo de Kay em salvar seu casamento e recuperar os dias de paixão com o marido, o público torna-se seu cúmplice, entendendo sem fazer esforço o que se passa por sua cabeça diante das constrangedoras perguntas formuladas pelo dr. Bernard Feld (Steve Carrell, bastante contido). Em contraste com a quase insensibilidade do marido (Tommy Lee Jones mais uma vez em um papel seco e no limite do brutal), Streep é uma flor de delicadeza, capaz de ultrapassar seus limites morais para reencontrar a felicidade doméstica (inclusive tentando praticar o sexo oral que aprendeu a fazer lendo um livro escrito por gays para ajudarem mulheres como ela). Mas que as feministas não preparem suas reclamações: se Kay corre atrás do prejuízo, Arnold também percebe, um tempo depois, que precisa fazer a mesma força. O filme não tem viés feminista nem machista. É apenas inconsequente.



Kay não é uma dona-de-casa que viveu para os filhos – apesar de não ter uma “carreira”, trabalha fora e tem condições suficientes para uma vida independente, se assim o quisesse. Arnold não é um homem mau, é apenas uma cria de sua geração, em que ser o provedor basta para ser considerado um bom pai de família. Amor e sexo quase não entram na sua equação, e ele acha que nunca ter traído Kay com outra mulher faz dele um exemplo a ser seguido. Ambos tem suas razões, ambos tem suas culpas. Ao longo do caminho, deixaram de lado suas vontades e seus desejos, assim como a disposição de falar sobre eles. Tudo parecia feliz. Mas, como bem lembra o terapeuta, para curar um desvio de septo é preciso quebrar o nariz; e para quebrar o nariz é preciso que isso seja feito de forma rápida. Kay é a catalisadora desse desejo de mudança. Arnold demora a acompanhá-la. É uma visão um tanto simplista a respeito das características de gênero, mas é preciso entender que estamos falando de um filme hollywoodiano com pretensões puramente comerciais e dirigido por um cineasta apenas correto e sem ambições sociológicas. “Um divã para dois” não se propõe a ser um estudo sobre as relações homem/mulher. Ele quer ser apenas uma boa comédia, aspiração que ocasionalmente alcança.
O maior acerto do filme é, sem dúvida, direcionar seu foco nos atores. Mesmo relegando a ótima Elisabeth Shue a uma única cena e Mimi Rogers a uma participação que nem chega a ser considerável, Frankel explora sem medo o talento superlativo de Streep e Tommy Lee Jones – que chega até mesmo a sorrir e dançar em uma cena, fato raro em uma carreira repleta de personagens carrancudos e ranzinzas. Sem apelar para o humor que se poderia esperar de Steve Carrell – o que não deixa de ser uma pena, já que o ator é sensacional quando tem um bom material em mãos, que o digam “Pequena Miss Sunshine” e “Amor à toda prova” – o cineasta só erra feio quando prefere manter-se no trivial e perde a oportunidade de discutir com mais afinco as questões levantadas pela trama: desde o princípio dá para imaginar o desfecho da história, e o roteiro nada faz para mudar essa percepção. Essa falta de ousadia é o que, afinal, impede “Um divã para dois” de ser uma comédia memorável, mantendo-a no nível de um entretenimento divertido, mas nunca brilhante.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...