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segunda-feira

WALL STREET: PODER E COBIÇA

 


WALL STREET: PODER E COBIÇA (Wall Street, 1987, 20th Century Fox, 126min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Stanley Weiser. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Claire Simpson. Música: Stewart Copeland. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Stephen Hendrickson/Leslie Bloom, Susan Bode. Produção: Edward R. Pressman. Elenco: Michael Douglas, Charlie Sheen, Daryl Hannah, Martin Sheen, Hal Holbrook, Sean Young. Estreia: 11/12/87

Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Michael Douglas)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Michael Douglas)

Logo depois de ter feito a festa na cerimônia do Oscar 1987 com seu "Platoon", que recebeu as estatuetas de melhor filme e diretor - além de outros prêmios técnicos -, Oliver Stone resolveu voltar suas lentes para um outro tipo de batalha, menos sangrento mas igualmente nocivo. Das selvas do Vietnã ao centro nervoso do mercado financeiro dos EUA, o polêmico cineasta fez uma longa viagem, mas não abandonou seu olhar aguçado e crítico. "Wall Street: poder e cobiça" pode não ter causado o mesmo impacto popular do filme anterior de Stone, mas mostrou a seus detratores que nem só de controvérsias era feita sua carreira, deu a Michael Douglas o Oscar de melhor ator e rendeu um personagem icônico (que voltou às telas em 2010, em uma sequência inesperada), dono de uma das frases mais memoráveis do cinema (a famigerada "greed is good"). Dedicado ao pai de Stone, corretor na bolsa de valores durante a Depressão, e inspirado em escândalos com títulos de alto risco e informações privilegiadas dos anos 1980, "Wall Street" estreou no auge do conservador governo Reagan, e com sua feroz crítica ao capitalismo e à ganância desenfreada, tornou-se um dos retratos mais fiéis de um período centrado no hedonismo e nos excessos de todos os tipos. Filmado às pressas para escapar de uma então iminente greve de diretores e - segundo o cineasta - lançado com pouco caso por seu estúdio (a 20th Century Fox), que preferiu apostar suas fichas em "Nos bastidores da notícia", "Wall Street" acabou rindo por último: enquanto a comédia dramática de James L. Brooks não conseguiu converter nenhuma de suas sete indicações ao Oscar, o filme de Oliver Stone saiu da cerimônia com a única estatueta a que havia sido indicada.

"Wall Street" se passa na primeira metade da década de 1980 e acompanha o caminho do jovem Bud Fox (Charlie Sheen), que trabalha como corretor na bolsa de valores de Nova York e tem como principal objetivo na vida chegar ao topo da pirâmide financeira e social. Disposto a qualquer artimanha para alcançar suas metas pessoais, ele trabalha incansavelmente para conquistar a atenção de um dos maiores especuladores do país, o ganancioso Gordon Gekko (Michael Douglas). Conhecido no mercado por seus métodos pouco ortodoxos (quando não criminosos), Gekko acaba por colocar Fox sob suas asas e, com o tempo, a explorar suas informações privilegiadas para obter vantagens. Mergulhado em um mundo sofisticado que contrasta com sua vida até então de poucos recursos, Fox passa a conviver com gente como a decoradora Darien (Daryl Hannah) - com quem se envolve romanticamente - e uma série de outros tubarões pouco afeitos à ética. Conforme vai subindo na vida, porém, o jovem vai se distanciando do universo classe média de seu pai, Carl (Martin Sheen), funcionário de uma empresa de aviação comercial que, devido às maquinações de Gekko, entra no caminho da falência.

Apesar de hoje em dia Michael Douglas ser considerado o intérprete ideal de Gordon Gekko - com uma atuação antológico que marcou definitivamente sua carreira -, seu nome não foi o primeiro a ser pensado para o papel (inclusive havia o temor, que mostrou-se infundado, de que ele poderia, devido a sua experiência como produtor premiado, tentar interferir nos bastidores). Antes que Douglas assumisse o desafio, astros consagrados como Al Pacino, Jack Nicholson, Robert DeNiro e Warren Beatty estiveram na mira de Stone (que pensou até mesmo em Richard Gere, conhecido mais como galã do que por seus dotes de ator sério). A escolha de Douglas, no entanto, foi o tiro mais certo da produção: até então mais respeitado como produtor (vencedor do Oscar por "Um estranho no ninho", de 1975), astro de produções comerciais como "Tudo por uma esmeralda" (1984) e "A joia do Nilo" (1985) e filho de Kirk Douglas, Michael aproveita cada momento em cena para demonstrar uma persona radicalmente oposta àquela que, no mesmo ano, havia oferecido às plateias como o adúltero atormentado pela ex-amante no sucesso "Atração fatal" - filmado concomitantemente e indicado a seis Oscar: cínico, amoral e por vezes cruel, Gordon Gekko encontrou nele sua mais perfeita tradução, a ponto de eclipsar o verdadeiro protagonista do filme, o jovem Bud Fox, cujo pacto mefistofélico é a base da narrativa e a fonte da moral da história - interpretado por um jovem Charlie Sheen, que ficou com um papel ambicionado por um então ascendente Tom Cruise.

Antes de consagrar-se com o papel principal de "Nascido em 4 de julho" (1989), também dirigido por Oliver Stone, Cruise demonstrou interesse em interpretar Bud Fox, mas acabou preterido por Charlie Sheen, cuja rigidez juvenil serviu como uma luva para as intenções do roteiro em retratar o personagem como alguém preso entre a ambição de tornar-se um milionário do mundo das finanças e os valores ensinados por seu pai sindicalista e de rígida moral (vivido pelo pai de Charlie, o veterano Martin Sheen). Mas se Charlie foi capaz de utilizar-se de sua quase inexperiência para atingir o objetivo de Stone o mesmo não pode ser dito de parte do elenco escolhido pelo cineasta (e que deu origem a dores de cabeça nos bastidores): tanto Daryl Hannah quanto Sean Young foram alvos de severas (e justas) críticas por parte da imprensa, que percebeu em ambas uma sensação de insegurança e deslocamento a ponto de terem suas cenas diminuídas na montagem final. Young - conhecida por ser de difícil convivência e pouco respeitada como atriz - queria o papel de Hannah e nunca fez questão de esconder seu desejo, tornando as filmagens um campo de batalha silencioso e tenso: sua relação difícil com Charlie Sheen não deixou as coisas melhores e seu comportamento pouco profissional acabou por eliminar uma trama paralela que ampliaria a importância de sua personagem. Não é de admirar, portanto, o quão pouco desenvolvidos são os papéis femininos na trama.

Um dos filmes mais representativos da sociedade dos EUA da era Reagan, "Wall Street: poder e cobiça" não foi exatamente um sucesso popular, mas revelou em Oliver Stone um cineasta atento à sua época e inteligente na forma de explorar as ferramentas narrativas a seu dispor - é brilhante, por exemplo, o modo como utiliza a fotografia para estabelecer a diferença de ritmo e intenções quando retrata a quase violência da bolsa de valores (na pele de Fox e seus colegas) e a serenidade do caráter incorruptível de Carl. Parte de um período prolífico e elogiado na carreira do diretor, o filme rendeu a única continuação em seu currículo - e apesar do tema difícil e pouco atraente, é um ponto alto em sua filmografia.

quarta-feira

BRINCANDO NOS CAMPOS DO SENHOR

 


BRINCANDO NOS CAMPOS DO SENHOR (At play in the fields of the Lord, 1991, The Saul Zaentz Company, 189min) Direção: Hector Babenco. Roteiro: Jean-Claude Carrière, Hector Babenco, Vincent Patrick, romance de Peter Mathiessen. Fotografia: Lauro Escorel. Montagem: William M. Anderson, Armen Minasian. Música: Zbiniew Preisner. Figurino: Aggie Guerard-Rodgers, Rita Murtinho. Direção de arte/cenários: Clovis Bueno/Dagoberto Assis. Produção executiva: David Nichols, Francisco Ramalho Jr.. Produção: Saul Zaentz. Elenco: Tom Berenger, John Lithgow, Daryl Hannah, Aidan Quinn, Tom Waits, Kathy Bates, Stênio Garcia, Nelson Xavier, José Dumont. Estreia: 06/12/91

Desde que foi publicado, em 1965, o romance "Brincando nos campos do Senhor" esteve na mira do cinema. Fascinado com o belo livro de Peter Mathiessen, que discutia temas relevantes e que estariam em voga no final do milênio, como ecologia, tolerância religiosa e racismo, o produtor Saul Zaentz imediatamente pensou em transportá-lo para as telas - mas chegou tarde demais em sua tentativa de adquirir os direitos de adaptação, comprados pela MGM. Persistente, ele viu o projeto nascer e morrer em diversas ocasiões - sob o comando de nomes fortes, como John Huston e Milos Forman e com estrelas do porte de Marlon Brando, Paul Newman e Richard Gere no elenco - sem nunca desistir de seus planos. Foi somente em 1989, porém, que o sonho se tornou realidade: mediante o pagamento de 1,4 milhão de dólares, Zaentz tinha, em mãos, a possibilidade de apresentar ao público de cinema uma história poderosa, intensa e emocionante como só os maiores épicos conseguem ser. Mal poderia imaginar, no entanto, que apesar das imensas qualidades que seu filme viria a ter, ele não conquistaria a audiência da maneira imaginada: com um custo estimado de 36 milhões de dólares e uma renda mundial de pouco mais de 1 milhão, a versão cinematográfica de "Brincando nos campos do Senhor" foi um dos mais retumbantes fracassos da década de 1990 e colocou a carreira do diretor Hector Babenco - vindo do prestígio de "O beijo da mulher-aranha" (1985) e "Ironweed" (1987) - em um hiato do qual só saiu sete anos mais tarde com "Coração iluminado" (1998).

Filmado inteiramente na Amazônia, entre junho e dezembro de 1990, o filme tomou quase dois anos da vida de Babenco antes mesmo do começo das filmagens. Ocupado em escolher locações e escrever o roteiro ao lado do experiente Jean-Claude Carrière - colaborador habitual de Buñuel -, o cineasta argentino/brasileiro ainda teria maus momentos pela frente. Da desistência de Laura Dern - que recusou-se a mergulhar em um rio com águas não exatamente limpas - às reclamações de parte da equipe, trabalhando em situação quase insalubre, a produção enfrentou problemas constantes que em nada ajudavam a amenizar o clima de constante insatisfação. Babenco, tenso e ciente da responsabilidade de comandar um projeto tão ambicioso e arriscado, orquestrava uma sinfonia das mais complicadas, com astros hollywoodianos misturados a atores brasileiros, extras locais e condições climáticas que impediam qualquer planejamento a longo prazo. Diante de tantos percalços, portanto, não apenas é notável que o filme tenha sido lançado, como que tenha resultado em um produto tão bom. A despeito de seu fiasco comercial - talvez explicável pelo teor controverso da trama -, "Brincando nos campos do Senhor" é o melhor filme da carreira do cineasta, e uma das produções mais subestimadas da década de 1990.


Em um breve resumo - que apenas dá as coordenadas para uma trama com desdobramentos complexos e surpreendentes -, o filme de Babenco conta a história de dois casais de missionários evangélicos que chegam à Amazônia com o objetivo de converter os índios locais, depois do violento fracasso de seus predecessores católicos. O líder do grupo é o ambicioso Leslie Huben (John Lithgow), que se preocupa mais em disputar os nativos com os rivais católicos do que exatamente salvar suas almas, e é ele quem recebe a família Quarrier, formada pelo idealista Martin (Aidan Quinn), pela fanática Hazel (Kathy Bates) e pelo pequeno Billy (Niilo Kivirinta) - que não demora a encantar-se com a liberdade dos indígenas, para desespero de sua mãe. O embate entre missionários e nativos deixa claro o choque entre culturas quase irreconciliáveis, especialmente quando fica claro que interesses financeiros estão por trás da chegada dos religiosos, que sem o saber, estão colaborando com empresários dispostos a dizimar tribos inteiras para ter acesso a minerais valiosos. Complicando ainda mais a situação, o piloto americano Lewis Moon (Tom Berenger) resolve se deixar seduzir por suas origens indígenas e se junta a seus ancestrais - o que não o impede de ser irremediavelmente atraído pela bela Andy (Daryl Hannah), esposa de Leslie.

A princípio a longa duração do filme - mais de três horas - pode assustar ao espectador menos paciente. Porém, tão logo as belas imagens de Lauro Escorel surjam na tela, fica claro que uma metragem menor prejudicaria consideravelmente a coerência interna e a solidez da história. Não há nenhuma cena desnecessária no filme de Babenco, e cada sequência empurra a trama em direção ao clímax - triste, chocante, infelizmente realista. Cuidadosamente produzido - seja em termos de composição visual, sonora e de construção de personagens -, o filme envolve justamente por não se deixar seduzir pelos caminhos narrativos mais fáceis. O roteiro, fluido, dá o tempo necessário a cada um de seus vários personagens, deixando claro ao espectador cada motivação e sentimento - o que, em muitos casos no cinemão hollywoodiano, é algo raro. E se em "O beijo da mulher-aranha" a mescla de atores brasileiros e estrangeiros deixava tudo um tanto caótico, o mesmo não se repete aqui: todos os atores estão em excelente momento, especialmente Kathy Bates (dona de alguns dos momentos mais catárticos) e Tom Berenger (cuja atuação é, sem favor, uma das melhores de sua carreira, apesar da opinião contrária do próprio Babenco). As caracterizações - outro ponto sensível em produções do gênero - são fascinantes e verossímeis (responsabilidade de especialistas no assunto), e a opção de colocar a Amazônia como um personagem a mais e não apenas um cenário passivo é um golpe de mestre - talvez pressionado pela própria natureza do local, mas mesmo assim brilhante.

Por fim, não é difícil entender os motivos que levaram "Brincando nos campos do Senhor" ao fracasso comercial. Não apenas o filme de Babenco foi lançado em um período complicado - final do ano, quando os estúdios mostram suas maiores armas para a temporada de premiações - como apresenta um tema bastante indigesto para o público médio frequentador de salas de exibição. É difícil imaginar famílias indo ao cinema assistir a uma produção que bate tão violentamente contra a colonização anglo-saxã e que discute com seriedade assuntos que só viriam a se tornar prementes algum tempo mais tarde. "Brincando" é um filme sério demais, feito com respeito demais para plateias acostumadas a blockbusters - ironia das ironias, o filme de Babenco é uma das maiores inspirações de James Cameron na sua concepção de "Avatar" (2010), o suprassumo do cinemão comercial feito em Hollywood. Que um dia a obra-prima do cineasta seja descoberta e avaliada como merece!

quinta-feira

SPLASH: UMA SEREIA EM MINHA VIDA

SPLASH: UMA SEREIA EM MINHA VIDA (Splash, 1984, Touchstone Pictures, 111min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Lowell Ganz, Babaloo Mandel, Bruce Jay Friedman, estória de Brian Grazer. Fotografia: Don Peterman. Montagem: Daniel P. Hanley, Michael Hill. Música: Lee Holdridge. Figurino: May Routh. Direção de arte/cenários: Jack T. Collins. Produção executiva: John Thomas Lenox. Produção: Brian Grazer. Elenco: Tom Hanks, Daryl Hannah, John Candy, Eugene Levy. Estreia: 09/3/84

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Praticamente uma década antes de consagrar-se como um ator sério - e de quebra levar dois Oscar consecutivos, nos anos 94/95 -, Tom Hanks já era um astro devidamente reconhecido pelo grande público. Um exemplo claro disso foi a surpreendente bilheteria de "Splash: uma sereia em minha vida", estrelado por ele em 1984: primeiro filme lançado pela subsidiária da Disney (a Touchstone Pictures), a obra de Ron Howard custou meros oito milhões de dólares e rendeu, somente no mercado doméstico, mais de 60 milhões, arrancando elogios da crítica, capas de revista e uma inesperada indicação ao Oscar de roteiro original. Apesar do tom leve e romântico do filme e da beleza ímpar de Daryl Hannah, porém, é claro que o carisma de Hanks foi o maior responsável por fazer do filme um êxito incontestável - e isso que o próprio ator costuma brincar e dizer que ele foi apenas o 11º intérprete a ser considerado para o papel principal.

Pode até ser um pouco de exagero de Tom Hanks, mas o fato é que, realmente, antes de seu nome ser confirmado como o astro do filme, vários outros atores foram cotados para viver o protagonista - desde astros já reconhecidos (como John Travolta, Richard Gere, Burt Reynolds e Jeff Bridges) até grandes comediantes (Chevy Chase, Bill Murray, Robin Williams e Dudley Moore). A presença de Hanks, no entanto, é um dos maiores trunfos de "Splash": simpático e capaz de despertar empatia em qualquer um na plateia, ele nem precisa de muito esforço para convencer, mesmo diante de uma premissa quase absurda e fantasiosa a ponto de parecer conto de fadas. A atmosfera lúdica - acentuada pela trilha sonora delicada de Lee Holdridge - ganha contornos cômicos com a direção segura de Howard, que abriu mão de dirigir "Footlose: ritmo louco" (84) para dar vida à estória imaginada pelo produtor Brian Grazer em 1977, durante uma viagem. Com um roteiro esperto e divertido, "Splash" é um passatempo tão inofensivo que não é de admirar que tenha resistido tão bem ao tempo - e que seja tão delicioso assisti-lo hoje quanto o era há mais de trinta anos.


As cenas iniciais já deixam claro que trata-se de um filme em cuja fantasia a plateia precisa embarcar sem reservas: um menino é salvo de afogar-se no mar por uma sereia da sua idade. Ele mantém segredo a respeito do assunto (mesmo porque não tem certeza se tudo não passava de imaginação) e segue sua vida normalmente. Vinte anos mais tarde, o menino, agora um homem, chamado Allen Bauer (Tom Hanks) gerencia o negócio de distribuição de verduras de sua família, ao lado do irmão mais velho, Freddie (John Candy) - irresponsável e mulherengo. Recém abandonado pela esposa, Allen sofre um novo acidente no mar e acorda em uma ilha, ao lado de uma estonteante loura - que desaparece logo em seguida. De posse da carteira do rapaz, porém, a sereia apaixonada descobre seu paradeiro em Nova York e decide procurá-lo. Sem saber falar inglês e desconhecendo completamente a cultura dos humanos, ela deixa com que Allen pense que ela é uma estrangeira e os dois começam um relacionamento amoroso e dedicado. Batizada como Madison, a sereia logo começa a aprender a conviver com seu amado - mas precisa evitar ser desmascarada pelo cientista Cornbluth (Eugene Levy), cujo maior objetivo na vida é comprovar a existência de sereias.

Equilibrando sua narrativa entre o idílio romântico de Allen e Madison e subtramas cômicas - as tentativas de Cornbluth em provar sua hipótese científica, as escapadas de Freddie, a distação da velha secretária de Allen -, Ron Howard cria uma pequena pérola do gênero. A excelente química entre Tom Hanks e Daryl Hannah é tão incrível que é difícil imaginar que a bela sereia poderia ter sido interpretada por outra atriz - e isso que várias foram cotadas o papel: Jodie Foster, Brooke Shields, Debra Winger, Ally Sheedy, Rosanna Arquette, Michelle Pfeiffer, Tatum O'Neal, Diane Lane, Melanie Griffith e Kathleen Turner poderiam ter sido a estrela de um filme que deu à Hannah seu primeiro papel principal e um daqueles que a farão ser eternamente lembrada pelos fãs. Linda e carismática, ela foi a escolha perfeita - que o digam as centenas de meninas batizadas de Madison justamente por causa de seu sucesso. "Splash" pode não ser um dos filmes mais importantes da história, mas é, sem dúvida, um passatempo dos mais encantadores.

sábado

ROXANNE

ROXANNE (Roxanne, 1987, Columbia Pictures, 107min) Direção: Fred Schepisi. Roteiro: Steve Martin, peça teatral "Cyrano de Bergerac", de Edmond Rostand. Fotografia: Ian Baker. Montagem: John Scott. Música: Bruce Smeaton. Direção de arte/cenários: Jack DeGovia/Kimberly Richardson. Produção executiva: Steve Martin. Produção: Daniel Melnick, Michael Rachmil. Elenco: Steve Martin, Daryl Hannah, Rick Rossovich, Shelley Duvall, John Kapelos, Damon Wayans. Estreia: 19/6/87

A peça "Cyrano de Bergerac", escrita pelo dramaturgo francês Edmond Rostand foi encenada pela primeira vez em 1897, e desde que o cinema a descobriu, em 1946, em uma produção francesa estrelada por Claude Dauphin, a história de amor entre o poético texto teatral e as inúmeras possibilidades das telas nunca mais se separaram: em 1950, José Ferrer levou o Oscar e o Golden Globe por sua interpretação e em 1990, Gérard Depardieu foi indicado à estatueta dourada, entre outras versões que incluem até mesmo uma produção japonesa com Toshiro Mifune. Em 1987, a trama repleta de mal-entendidos, amores frustrados e derramado romantismo chegou à Hollywood modificada pelo humor particular de Steve Martin. "Roxanne", escrito e estrelado pelo ator, é uma adaptação modernizada e simpática que respeita sua versão original - apesar de acertadamente limar a narrativa em formato de versos - sem nunca tornar-se teatro filmado. Contando com o timing perfeito de Martin e uma Daryl Hannah no auge da beleza, o filme ressente-se apenas de uma direção pesada demais para o gênero: o australiano Fred Schepisi sai-se muito bem em filmes dramáticos, como "Plenty, o mundo de uma mulher" (85) e o posterior "Um grito no escuro" (89) - ambos estrelados por Meryl Streep - mas carrega demais a mão no que poderia ser um de seus maiores cartões de visita comerciais.

Não que "Roxanne" tenha sido um fracasso, muito pelo contrário. Com uma renda de cerca de 40 milhões de dólares somente nos EUA, o filme foi responsável por, pela primeira vez em sua carreira, dar a Steve Martin o status de ator, substituindo sua definição anterior de comediante. Nada mais merecido, uma vez que é ele, do alto de sua versatilidade, que imprime a cada cena uma personalidade que dá a energia que move o filme, compensando a quase apatia de Rick Rossovich no papel do galã Chris. Martin brilha especialmente quando precisa utilizar-se de seu carisma em cenas como aquela em que, dentro de um bar lotado, faz piadas com seu próprio defeito físico. Esse senso de humor, aliado a um romantismo quase ingênuo, é que faz com que a plateia se deixe seduzir alegremente por uma história já tão conhecida - ainda que seu final tenha sido radicalmente modificado para deixar todo mundo feliz.


A versão light da obra de Rostand se passa em uma pequena cidade do interior de Washington, um lugar calmo e tranquilo que só dá trabalho ao corpo de bombeiros quando algum gato sobe em uma árvore e coisas do tipo. Isso não impede que o chefe do grupo, o simpático C. D. Bales (Steve Martin) seja admirado por toda a cidade, graças à sua inteligência e seu carisma. Seu único problema é o nariz gigantesco, que serve de alvo de constantes piadas e o impede de passar despercebido por qualquer lugar. Um dia, Bales cai de amores por Roxanne (Daryl Hannah), jovem astrônoma que chega ao local para passar o verão e estudar um astro recém descoberto. Bales, porém, sai da jogada assim que percebe que a bela forasteira está interessada em Chris (Rick Rossovich), novo integrante do grupo de bombeiros que, apesar de bonitão, não tem nenhum traquejo social e é burro como uma porta. Sua situação fica complicada quando Chris pede ajuda a ele para conquistar Roxanne e, através de cartas - onde declara toda sua paixão por ela - ele acaba unindo o casal. Como a mentira tem perna curta, porém, as coisas vão acabar indo por um caminho bem menos tranquilo.

"Roxanne" é um passatempo agradável e simpático como seu protagonista. Equilibra cenas bastante engraçadas - em especial as que envolvem os atrapalhados bombeiros liderados por Bales - com sequências de um romantismo delicado e repleto de senso de humor. Steve Martin foi indicado ao Golden Globe de melhor ator em comédia/musical, além de ter empatado com Jack Nicholson como o melhor ator do ano pela Associação de Críticos de Nova York e ter sido eleito o vencedor pela Sociedade Nacional de Críticos de Cinema. Apesar de ter sido esnobado pelo Oscar - como normalmente acontece com atores cômicos - ele apresentou um dos mais consistentes trabalhos de atuação de 1987, e se o filme merece ser visto é, em boa parte, devido a seu enorme talento em transformar comédia em arte. Mesmo que seja por pouco mais de hora e meia de projeção.

segunda-feira

KILL BILL, V. 2


KILL BILL, V.2 (Kill Bill, v.2, 2004, Miramax Films, 136min) Direção: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino, personagens criadas por Quentin Tarantino, Uma Thurman. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Sally Menke. Música: Robert Rodriguez. Figurino: Kumiko Ogawa, Catherine Marie Thomas. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Erica Steinberg, E. Benneth Walsh, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Uma Thurman, David Carradine, Daryl Hannah, Michael Madsen, Chia Hui Liu. Estreia: 16/4/04

Foram seis meses de uma espera exasperante por parte dos fãs e da crítica, e o segundo volume da saga da Noiva (Uma Thurman) em busca de vingança por sua quase morte estreou nos EUA cercado pela expectativa de sempre quando se trata de um filme dirigido por Quentin Tarantino. E mais uma vez o cineasta mais influente de seu tempo não decepcionou. Quem esperava mais da pancadaria generalizada do primeiro filme teve ao menos uma luta inesquecível. Quem procurava homenagens aos filmes japoneses citados em todas as entrevistas do diretor testemunhou cenas destinadas a clássicas. E quem tinha esperança de que os diálogos do roteirista fanático pelo universo pop - sua marca registrada desde sua estreia com "Cães de aluguel" - retornassem em grande estilo teve motivos de sobra para comemorar. Em suma, "Kill Bill, v.2" não é melhor nem pior do que seu primeiro capítulo: é o complemento ideal de um dos mais criativos produtos cinematográficos dos últimos anos.

Ao contrário do primeiro filme, em que a Noiva - que finalmente tem seu misterioso nome revelado nessa continuação - usava de toda a sua experiência como guerreira "ninja" para acabar com seus inimigos, sem muito espaço para conversa, dessa vez a coisa é bem diferente. Deixando um pouco de lado a ação desenfreada, a segunda parte da história da vingadora vivida com evidente satisfação por Uma Thurman mostra as origens de sua revolta, detalhando o ataque de seu ex-mentor e amante Bill (David Carradine finalmente dá as caras pra valer), seu treinamento com o mestre Pai Mei (Gordon Liu, ótimo), seu acerto de contas com os membros restantes do grupo de extermínio do qual participava (em atuações antológicas de Michael Madsen e Daryl Hannah) e o que talvez seja o clímax mais esperado do cinema em muito tempo: o tão aguardado encontro com seu algoz.

       

Em "Kill Bill, v.2", os diálogos deliciosos de Tarantino estão de volta (em especial em um longo monólogo de Bill acerca do Superman), sempre recitados com gosto e prazer por atores impecavelmente dirigidos e à vontade. Daryl Hannah, em especial, na pela da temível Ellie Driver, dá um show com sua atuação confortável e divertidíssima, ainda que suas cenas com Uma Thurman sejam as mais violentas do filme - se bem que a violência da sequência lembre muito mais desenhos animados do que programas de luta-livre. E, assim como em "Jackie Brown", o diretor/roteirista não tem pressa de contar sua história, dando tempo e espaço para suas personagens e seus atores extraírem sempre o melhor de cada cena, de cada enquadramento, de cada linha de diálogo.
      
Tudo bem que o desfecho do filme - entre Thurman e Carradine - talvez soe meio anti-climático, mas combina perfeitamente com a maneira com que ele vinha se encaminhando no roteiro. É um final um tanto melancólico, o que não deixa de ser surpreendente vindo de um cineasta irônico, irreverente e de sangue assumidamente pop. Mas é mais uma obra-prima a figurar no currículo de Quentin Tarantino, já um diretor essencial na história do cinema.

KILL BILL, V.1


KILL BILL, V.1 (Kill Bill, v.1, 2003, Miramax Films, 111min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino, personagem criado por Quentin Tarantino e Uma Thurman. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Sally Menke. Música: The RZA. Figurino: Kumiko Ogawa, Catherine Thomas. Direção de arte/cenários: Yohei Taneda, David Wasco/Yoshihito Akatsuka, Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Erica Steinberg, E. Bennett Walsh, Bon Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Uma Thurman, Lucy Liu, Vivica A. Fox, Daryl Hannah, David Carradine, Michael Madsen, Julie Dreyfus, Chiaki Kuriyama, Sonny Chiba. Estreia: 10/10/03

Cinco anos depois do lançamento de seu filme anterior, "Jackie Brown" - que dividiu a crítica e seus fãs - o cultuado Quentin Tarantino surpreendeu meio mundo com "Kill Bill", uma sangrenta e violenta odisséia de vingança dividida em dois capítulos devido às exigências da Miramax Pictures. Quem esperava um produto típico do diretor levou um susto. Apesar de muitas características suas estarem presentes - diálogos rápidos, referências pop aos borbotões e a edição picotada - o quarto filme de Tarantino é de longe o mais ousado, divertido e radical trabalho de sua mente enlouquecida.

Desde a primeira cena, em preto-e-branco - em que a protagonista inicia seu calvário ao som da belíssima "Bang bang" na voz de Nancy Sinatra - até o final que desperta uma curiosidade atroz de ver logo sua continuação, "Kill Bill, v.1" é um presente aos fãs do cineasta em particular e de cinema como entretenimento em geral. Totalmente desdenhoso de verossimilhança, o universo criado por Tarantino em seu novo filme só faz sentido quando o bom-senso, a crítica e o mau-humor forem deixados de lado. Afinal de contas, suas personagens são capazes de matar quase 100 homens armados em poucos minutos, cabeças decepadas esguicham litros e mais litros de sangue e uma mulher que ficou anos em coma consegue viajar dos EUA ao Japão sem ter ao menos um emprego. Estando ciente dessa necessidade premente de ligar a "suspensão de realidade", basta entrar no clima e cair na diversão - isso se a concepção de diversão do espectador for a mesma do fiel público de Quentin Tarantino.

Tudo começa quando uma jovem grávida e vestida de noiva é violentamente atacada por um bando de matadores e entra em coma. Quatro anos depois, a tal jovem (vivida de forma inesquecível por Uma Thurman) acorda com sede de vingança. Fazendo uma lista com os nomes de todas as pessoas responsáveis por sua tragedia pessoal - todas elas parte de um grupo de extermínio do qual ela mesma fazia parte - ela sai em busca de cada um, disposta a matá-los pessoalmente até chegar ao chefe de todos: o temido Bill, pai da criança que ela esperava no momento do atentado.

        

A história de vingança seria comum e banal, se Quentin Tarantino não estivesse por trás do roteiro. A protagonista, criada pelo diretor e pela atriz Uma Thurman é, sem dúvida, uma das figuras icônicas de seu tempo. O uniforme amarelo usado por Thurman na mais famosa das sequências - quando ela simplesmente dizima um exército de seguranças utilizando apenas uma espada - foi claramente inspirado nos filmes de Bruce Lee, fonte obrigatória na qual Tarantino bebeu descaradamente. Aliás, homenagens não faltam no decorrer da projeção, principalmente a filmes orientais. Até mesmo a criativa e empolgante sequência em anime - para contar as origens de uma das personagens mais interessantes, O-Ren Shii (vivida por Lucy Liu) - faz parte das várias lembranças culturais do diretor.
Mas o que diferencia "Kill Bill, v.1" dos outros filmes do cineasta é a profusão de cenas de ação. Nem mesmo seu filme mais violento até então, "Cães de aluguel", tem tantas cenas de luta e sangue. Milimetricamente coreografadas, as lutas entre Uma Thurman e Vivica A. Fox - que literalmente joga o espectador na trama sem muitos rodeios - e Thurman e Lucy Liu - sem falar em várias outras de tirar o fôlego - não deixam espaço para questionamentos logísticos e/ou filosóficos. São momentos da mais pura adrenalina, com membros sendo decepados sem dó nem piedade, sangue jorrando generosamente e uma trilha sonora que somente os filmes do diretor conseguem tornar homogêneas - que tal "Please, don't let me be misunderstood" ilustrando uma cena belissimamente fotografada em um jardim japonês coberto de neve?

Aliás, outro ganho importante no conjunto final de "Kill Bill, v.1" é o acréscimo do diretor de fotografia Robert Richardson - vencedor do Oscar por "JFK". Substituindo o tradicional Andrzej Sekula, colaborador habitual da equipe de Tarantino, Richardson refinou o visual da obra, criando cenas de acabamento impecável que apenas reiteram o crescimento do autor de "Pulp fiction" como realizador. Em cada cena, em cada quadro nota-se nitidamente a forma como Quentin Tarantino se supera a cada trabalho. No primeiro volume de "Kill Bill" ele deixa um pouco de lado sua tendência à verborragia - mas não nos priva de criar personagens seriamente candidatas à antológicas, como a Elle Driver de Daryl Hannah (que terá bem mais destaque na segunda parte) e a segurança pessoal Gogo Yubari (que, vestida de colegial, já é um fetiche ambulante) - para concentrar-se na ação.

O segundo filme continuaria a saga da protagonista (cujo nome nunca é citado aqui) por sua vingança sangrenta e prometia ainda mais cenas inesquecíveis, além de finalmente apresentar a contento o infame Bill. E alguém conseguiu esperar calmamente depois da última frase do filme??

domingo

FLORES DE AÇO

FLORES DE AÇO (Steel magnolias, 1989, Columbia Pictures, 117min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Robert Harling, peça teatral de sua autoria. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Paul Hirsch. Música: Georges Delerue. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Gene Callahan, Edward Pisoni/Garrett Lewis, Lee Poll. Casting: Hank McCann. Produção executiva: Victoria White. Produção: Ray Stark. Elenco: Sally Field, Dolly Parton, Julia Roberts, Daryl Hannah, Shirley MacLaine, Olympia Dukakis, Tom Skerrit, Dylan McDermot, Sam Shepard. Estreia: 15/11/89

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Julia Roberts)
Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Julia Roberts) 

Em 1977, o cineasta Herbert Ross esteve em seu auge, chegando a concorrer consigo mesmo ao Oscar de Melhor Filme - graças à comédia romântica "A garota do adeus" e ao drama de balé "Momento de decisão". Depois, teve uma carreira irregular, onde sucessos de bilheteria como "Footloose" e "O segredo do meu sucesso" dividiam espaço com obras bem menos consideradas, como o fraco "Dinheiro do céu". Em 1989 ele voltou a chamar a atenção da crítica e do público com um filme cujo grandioso elenco feminino seria praticamente impossível de ignorar: "Flores de aço", um dramalhão familiar disfarçado de comédia de costumes que hoje em dia só é realmente lembrado por ter sido a primeira real oportunidade da carreira de Julia Roberts, que foi indicada ao Oscar de coadjuvante.

Apesar de ser coadjuvante (e ter ficado com o papel oferecido a Winona Ryder e Meg Ryan), é a personagem de Roberts que serve como fio condutor e ponto em comum das personagens criadas pelo roteiro de Robert Harling (que escreveu a peça teatral que deu origem ao roteiro em homenagem à irmã, morta depois de uma cirurgia mal-sucedida). Pouco antes de ser alçada à condição de mega-estrela com sua participação em "Uma linda mulher" (que estrearia nos cinemas poucos meses depois), Roberts vive Shelby, uma jovem diabética que, nas primeiras cenas do filme, se casa com seu príncipe encantado, o charmoso Jackson (Dylan McDermott) e parte para uma vida distante da pequena cidade da Louisianna, onde vive sua família, liderada pela superprotetora M'Lynn (Sally Field). O filme conta a trágica história de Shelby - que tem diabetes e arrisca uma gravidez perigosa para formar uma família - através dos olhos de um grupo de mulheres que frequentam o salão de beleza da exuberante Truvy (Dolly Parton). As reuniões femininas que tem lugar na casa da esteticista acabam sendo o mais perto que todas elas tem de reuniões familiares - ainda que algumas delas realmente tenham uma família de verdade.



"Flores de aço" é um filme para mulheres e não é sexismo ou preconceito afirmar isso. As personagens masculinas pouco aparecem ou tem participação ativa na trama (ainda que o elenco conte com nomes importantes como Tom Skerrit e Sam Shepard), deixando que o "sexo frágil" mande no jogo o tempo todo. No entanto, o resultado final, apesar das promessas, não deixa de ser insatisfatório. Ao concentrar seu foco na relação entre M'Lynn e Shelby, Ross ganha em parte - porque Sally Field e Roberts dão conta do recado lindamente - mas perde por não dar oportunidade de brilho a outros membros do seu formidável elenco. Shirley MacLaine, por exemplo, tem o ingrato papel de uma matrona desagradável e mau-humorada e nem mesmo o inegável talento da atriz consegue tirar muito da superficialidade de sua personagem. E Daryl Hannah, enfeiada propositalmente para viver a cabeleireira, tem um dos trabalhos mais pálidos de sua carreira.

"Flores de aço" é considerada uma comédia dramática. Como drama funciona muito bem - apesar de exagerar na sacarina em seu final. Como comédia, no entanto, não desperta mais do que alguns sorrisos tímidos. Vale para ver Julia Roberts antes de virar a atriz mais bem paga de Hollywood.

sábado

BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDROIDES


BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDROIDES (Blade Runner, 1982, Warner Bros, 117min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Hampton Fancher, David Peoples, conto "Do androids dream of eletric sheep?", de Philip K. Dick. Fotografia: Jordan Cronenweth. Montagem: Gillian L. Hutsching. Música: Vangelis. Figurino: Michael Kaplan, Charles Knode. Direção de arte/cenários: Lawrence G. Paull/Linda DeScenna. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção executiva: Hampton Francher, Brian Kelly. Produção: Michael Deeley. Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, Daryl Hannah, M. Emmet Walsh, Joanna Cassidy. Estreia: 25/6/82

2 indicações ao Oscar: Direção de arte, Efeitos Visuais

Definitivamente, quando o assunto é cinema, o tempo é um santo remédio. Quando estreou nos EUA, em 1982, o filme "Blade Runner, o caçador de androides" foi um fiasco de bilheteria (mesmo estrelado pelo Indiana Jones em pessoa Harrison Ford) e praticamente expulso das salas de exibição devido a críticas negativas. Mesmo tornando-se cult por parte do público, entraria para a história como um dos maiores fracassos da história se, no final da década não fosse descoberta a cópia de uma outra versão do filme, sem as interferências do estúdio no trabalho de seu diretor, Ridley Scott. Essa nova versão tornou-se quase uma lenda urbana, e dez anos depois de sua estreia, voltou às telas de cinema e finalmente recebeu os aplausos que sempre mereceu. Hoje já é reconhecido como uma das obras-primas de seu gênero.

Gênero, aliás, é algo não extremamente rígido em se tratando de "Blade Runner". Apesar de ser nitidamente uma ficção científica - com tudo que isso lhe dá de direito - a visão de Scott (vindo direto do sucesso de "Alien, o oitavo passageiro") dialoga diretamente com os filmes noir que fizeram a glória do cinema americano dos anos 40. Tudo devido ao excelente roteiro inspirado livremente no conto "Do androis dream of eletric sheep?", de Philip K. Dick, que mistura elementos de uma trama policial a uma visão distópica da sociedade do futuro. Passado na Los Angeles de 2019 (ao contrário do conto original, que situava sua trama em 1992), "Blade Runner" mostra uma Terra ultrapovoada, úmida e claustrofóbica que há muito já coloniza outros planetas, através de escravos criados com as principais características humanas, mas com sua força e agilidade redobradas. Esses robôs são chamados "replicantes" e um motim deles deflagra uma caçada violenta e impiedosa, uma vez que suas mortes não são chamadas de assassinato e sim de "aposentadoria". Essa rebelião faz com que um grupo de replicantes volte à Terra e um antigo caçador de androides, Deckard (Harrison Ford) seja chamado para eliminá-los. Em seu caminho, ele conhece a bela Rachael (Sean Young), secretária da imponente Tyrrell Corporations - que fabrica os replicantes - e se apaixona por ela, mesmo sabendo que ela não é humana. Ao mesmo tempo que lida com isso, ele chega mais e mais perto do líder da rebelião dos robôs, o temido Roy Batty (Rutger Hauer) e passa a questionar sua missão.


O mais impressionante no resultado final de "Blade Runner" é que, qualquer que seja a versão a ser assistida ele continua sendo magicamente fascinante. A narração em off da versão lançada em 1982, mesmo sendo desprezada por Harrison Ford, acrescenta um toque a mais de noir à trama e só peca por seu final feliz exigido pela Warner. A versão do diretor é mais "artística", com o acréscimo de alguns detalhes que fomentam a discussão crucial do filme: afinal de contas Deckard era ou não um replicante, também? Nenhuma conclusão definitiva pode ser considerada, uma vez que nem mesmo os criadores do filme chegam a um consenso. É preciso ver, rever e examinar com cuidado cada cena criada por Scott e companhia para que se tente chegar a um veredicto. Mas será que isso realmente importa?

"Blade Runner", mais do que um filme sobre um homem caçando androides em um futuro nada auspicioso, é uma bela reflexão sobre os elementos que fazem o ser humano ser "humano", sobre a liberdade, sobre o amor e principalmente sobre a ambição dos homens em brincar de Deus. Ao inserir filosofia em uma trama que normalmente passaria como uma ficção científica com o objetivo de arrecadar fortunas, o inglês Ridley Scott brindou os fãs de cinema com um um filme de uma perenidade inegável. A bela trilha sonora de Vangelis, sua direção de arte high-tec mas nunca exagerada e a fotografia quase palpável de Jordan Cronenweth o elevam acima do corriqueiro. E não deixa de ser saudável perceber que, no mesmo ano em que "ET" - um filme puramente de entretenimento que utilizava elementos de ficção científica para emocionar sem exigir demais do cérebro - foi lançado, tenha chegado às telas um petardo como este, que não apenas faz pensar como ainda não busca a emoção fácil.

"Blade Runner" é, sim, uma obra-prima. Independente da leitura que se faça de suas intenções, é um filme que conseguiu sair do limbo dos fracassos comerciais para o paraíso do reconhecimento tardio. Afinal, nunca é tarde para reconhecer-se erros de julgamento...

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...