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terça-feira

CAFÉ SOCIETY

CAFÉ SOCIETY (Café Society, 2016, Gravier Productions/Perdido Productions/FilmNation Entertainment, 96min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Suzy Benzinger. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Regina Graves, Nancy Haigh. Produção executiva: Ronald L. Chez, Adam B. Stern, Marc I. Stern. Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Edward Walson. Elenco: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Steve Carrell, Corey Stoll, Blake Lively, Parker Posey, Sheryl Lee, Jeannie Berlin, Ken Stott. Estreia: 11/5/16 (Festival de Cannes)

Em sua longa carreira como cineasta, Woody Allen pode ter seus filmes divididos em três grupos: as obras-primas (onde se inserem "Noivo neurótico, noiva nervosa", "Manhattan", "Crimes e pecados", "A rosa púrpura do Cairo", "Hannah e suas irmãs", "Match point" e "Meia-noite em Paris"), os pouco inspirados (onde cabem "O escorpião de jade", "Para Roma, com amor" e "Magia ao luar") e os simpáticos mas pouco memoráveis (caso de "Misterioso assassinato em Manhattan", "Igual a tudo na vida" e "Scoop: o grande furo"). "Café Society", que abriu o Festival de Cannes 2016 faz parte do último grupo: é uma comédia dramática sofisticada e inteligente como se poderia esperar do diretor, mas lhe falta aquele lance de genialidade que destaca suas melhores obras de tudo que é produzido em Hollywood. Filme mais caro de sua carreira (o orçamento inicial de 18 milhões de dólares inchou até inacreditáveis - para seus padrões - 30 milhões ao final da produção), ele também marca o primeiro trabalho de Allen depois da morte de seu coprodutor executivo Jack Rollins - seu parceiro artístico há 40 anos - e sua primeira colaboração com o festejado diretor de fotografia Vittorio Storaro. Além disso, retoma um dos temas mais caros ao veterano realizador (os bastidores da indústria cinematográfica, ainda que apenas como pano de fundo) e é um de seus filmes mas simples em termos de narrativa, além de ser um de seus raros filmes com protagonistas mais jovens.

Ao contrário da maioria de seus trabalhos anteriores, em que os personagens principais são normalmente intelectuais de meia-idade atravessando crises existenciais enquanto exorcizam seus dilemas nas melhores paisagens de Nova York (ou, no caso de seus filmes mais recentes, pelas cidades mais belas da Europa), em "Café Society" grande parte da trama se passa na Los Angeles dos anos 1930 e acompanha um jovem de vinte e poucos anos em sua tentativa de assumir uma vida adulta diante do glamour oferecido por seu tio milionário e do caminho da contravenção que vislumbra ao lado do irmão mais velho. Retornando o recurso da narração em off que tanto funcionou em "A era do rádio" (87), Allen apresenta o público ao desajeitado e ingênuo Bobby Dorfman (Jesse Eisenberg em seu segundo filme com o cineasta), que deixa o Brooklyn de seus pais e chega à capital do cinema para encontrar seu tio, Phil Stern (Steve Carell), um agente de astros de Hollywood a quem mal conhece. Stern lhe emprega como seu assistente e logo Bobby se vê frequentando festas à beira da piscina e coquetéis frequentados por grandes produtores. Deslocado, ele se apaixona pela secretária do tio, Vonnie (Kristen Stewart), que não esconde dele o fato de ter um relacionamento com um homem casado. Algum tempo depois, já de volta à sua cidade natal, ele se torna sócio do irmão mais velho, Ben (Corey Stoll) - que tem sérios problemas com os gângsters do submundo - em uma boate, e se casa com a bela Veronica (Blake Lively). Seu amor por Vonnie, porém, não o deixa ser completamente realizado e feliz.


O maior problema de "Café Society" nem é sua trama tênue - muitos grandes filmes de Allen se sustentam em enredos aparentemente banais -, mas sim a forma como o cineasta parece não saber exatamente como conectar os dois atos de seu roteiro. A impressão que se tem é de que são duas ideias distintas unidas por uma linha frágil demais para justificar um longa-metragem, especialmente quando personagens cruciais da primeira metade praticamente desaparecem de cena: é o caso de Steve Carell, cujo Phil Stern parece nunca atingir todo o seu potencial mesmo quando se revela muito mais importante do que parecia em um primeiro olhar. O mesmo pode ser dito do ótimo Corey Stoll, que brilhou como Hemingway em "Meia-noite em Paris" (2011) e aqui se vê tentando dar destaque a um personagem que é mais citado do que mostrado, apesar de ser uma das bússolas morais (ou amorais) do protagonista. Não bastasse isso, Jesse Eisenberg parece mais deslocado que seu Bobby Dorfman - como muitas vezes acontece na filmografia de Woody Allen, o ator transmite a sensação de estar tentanto emular o estilo do diretor, com seu gestual desajeitado e modo de falar titubeante. Para surpresa de todos, quem se sai melhor é Kristen Stewart, que consegue romper o estigma "Crepúsculo" e entrega uma atuação sensível e convincente.

Visualmente atraente, com a fotografia deslumbrante de Vittorio Storaro enchendo os olhos do espectador e uma direção de arte caprichadíssima, "Café Society" se ressente de um roteiro mais coeso e de personagens mais empáticos do que aqueles que apresenta. Bobby Dorfman, com sua falta de traquejo social e uma interpretação quase preguiçosa de Jesse Eisenberg (repetindo tiques de seu Mark Zuckerberg, de "A rede social", filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar), não cativa a plateia e acaba abrindo espaço para personagens coadjuvantes muito mais interessantes, como sua irmã - cuja rixa com um vizinho acelera o destino da família - e a socialite vivida por Parker Posey, que infelizmente é quase totalmente posta de lado em detrimento da história principal. São pequenos defeitos estruturais, mas que comprometem o resultado final e fazem do filme um produto apenas regular, muito longe do brilhantismo dos melhores momentos da carreira de Woody Allen - mas também acima de seus maiores tropeços. Um entretenimento de classe, mas apenas isso.

quinta-feira

PERSONAL SHOPPER

PERSONAL SHOPPER (Personal shopper, 2016, CG Cinéma/Vortex Sutra/Sirena Film, 105min) Direção e roteiro: Olivier Assayas. Fotografia: Yoric Le Saux. Montagem: Marion Monnier. Figurino: Jurgen Doering. Direção de arte/cenários: François-Renaud Labarthe/Martin Kurel. Produção executiva: Genevieve Lemal. Produção: Charles Gillibert. Elenco: Kristen Stewart, Lars Eidinger, Sigrid Bouaziz, Anders Danielsen Lie, Ty Olwin, Nora von Waldstatten. Estreia: 17/5/16 (Festival de Cannes)

Vencedor da Palma de Melhor Direção no Festival de Cannes

Idolatrada por milhares de adolescentes graças à sua participação na série de filmes "Crepúsculo" e massacrada por detratores exatamente pelo mesmo motivo, a atriz Kristen Stewart foi encontrar apoio artístico, por incrível que pareça, nos braços de cineastas cultuados, em projetos que a distanciassem o máximo possível de sua atuação como a boba adolescente dividida entre o amor de um vampiro que brilhava no sol e um lobisomem que não hesitava em mostrar os músculos para delírio da plateia feminina. Foi assim que ela atuou sob a batuta de Woody Allen em "Café Society" (2016) e do francês Olivier Assayas em "Acima das nuvens" (2014) - filme que, surpreendentemente, lhe tornou a primeira atriz norte-americana a ganhar um César (na categoria coadjuvante). A experiência com Assayas - diretor respeitado em seu país de origem e que ganhou as plateias internacionais quando passou a ser figurinha carimbada no Festival de Cannes desde 2000, com o filme "Les destinées sentimentales" - rendeu mais do que elogios e um prêmio importante para Stewart: foi sua parceria artística que fez com que o cineasta e roteirista criasse o argumento de seu filme seguinte, o perturbador "Personal shopper" - que novamente deu à jovem atriz a chance de mostrar que pode ir além das caras e bocas que marcaram sua personagem mais famosa.

Não que os trejeitos de Stewart tenham sumido completamente: em "Personal shopper" eles continuam claramente perceptíveis, mas de algum modo servem como elementos indispensáveis à sua atuação. De forma inteligente, Assayas explora o desconforto da personagem central através justamente de sua expressão corporal tensa, que transmite com exatidão o tom de estranheza que o filme em si causa no espectador, ao misturar gêneros, deixar perguntas sem respostas e conduzir a ação por caminhos tão díspares que é impossível não se deixar envolver completamente. Com uma atmosfera densa que remete aos melhores trabalhos de David Lynch e uma sofisticação narrativa muito além de seu linear (e superestimado) "Depois de maio", o cineasta convida a plateia a mergulhar em um universo onde ectoplasmas convivem com o luxo das lojas mais caras do planeta, a futilidade do mundo das celebridades divide espaço com dramas existenciais profundos e a calmaria precede uma tempestade inesperada de violência. Não é um filme de fácil classificação, mas é, com certeza, um trabalho fascinante, que marca pela ousadia de não seguir caminhos já trilhados e impor um estilo próprio - ainda que incorra no risco de afastar um público pouco afeito ao que aciona os mecanismos do cérebro.


A protagonista do filme é a tal personal shopper do título, Maureen, uma jovem de 27 anos de idade que trabalha comprando roupas e acessórios caríssimos para sua ocupada patroa, a celebrada modelo Kyra (Nora von Waldstatten), enquanto esta viaja pelo mundo exibindo um senso fashion impecável e luxuoso. Seu emprego, que a mantém vivendo em Paris e saindo do país sempre que necessário para manter atualizado o guarda-roupa de Kyra, não é, no entanto, o foco maior de sua vida. Ainda traumatizada com a recente morte de seu irmão gêmeo, Lewis - que morreu de uma doença congênita no coração da qual ela também sofre - Maureen se recusa a abandonar Paris enquanto não conseguir manter contato com ele. Médium, ela aguarda ansiosamente que ele lhe envie sinais de uma vida após a morte (conforme haviam combinado) e adia o reencontro com o namorado que mora do outro lado do planeta. Frequentando a casa em que o irmão vivia com a namorada na tentativa de contatá-lo, ela mal consegue ter uma vida para si mesma, o que acaba por chamar a atenção de um misterioso stalker, que passa a mandar-lhe mensagens enigmáticas via celular. Duvidando da própria sanidade mental, Maureen se vê diante de uma tragédia inesperada - que finalmente irá empurrá-la em direção à paz de espírito (ou não).

Na verdade, tudo que acontece em "Personal shopper" pode (e deve!) ser visto com olhos desconfiados. De forma brilhante, o roteiro e a direção de Assayas jogam constantemente com a dubiedade, confundindo com maestria o real e o imaginário, o mundano e o espiritual, o drama fútil e o suspense incômodo. O primeiro encontro de Maureen com o espírito que pode ou não ser de seu irmão mescla, com categoria invejável, a sutileza de filmes de fantasma com o horror explícito das produções mais populares de Hollywood - mas acontece sem a pretensão de assustar gratuitamente, o que lhe deixa ainda mais instigante e surpreendente. A tensão constante obtida pelo diretor consegue até mesmo disfarçar o ritmo irregular do conjunto final, que desafia o público ainda mais com um final em aberto que definitivamente irá frustrar alguns - e fascinar muitos outros. Elegante e sóbrio, "Personal shopper" não é para qualquer tipo de audiência, mas confirma Olivier Assayas como um cineasta sem medo de experimentar ou fugir do lugar-comum. E só o fato de ter arrancado de Kristen Stewart uma atuação acima da média - com direito inclusive a momentos bastante satisfatórios - já justifica o prêmio de melhor direção arrebatado em Cannes (onde, logicamente, dividiu a crítica e suscitou tantos aplausos entusiásticos quanto vaias ruidosas). Um filme que provoca discussões - o que não pode ser dito de muitos outros, hoje em dia.

quarta-feira

A LONGA CAMINHADA DE BILLY LYNN

A LONGA CAMINHADA DE BILLY LYNN (Billy Lynn's long halftime walk, 2016, Bona Film Group/Film4/Ink Factory, 113min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Jean-Christophe Castelli, romance de Ben Fountain. Fotografia: John Toll. Montagem: Tim Squyres. Música: Jeff Dana, Mychael Danna. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Elizabeth Keenan. Produção executiva: Brian Bell, Guo Guangchang, Jeff Robinov, Ben Waisbren. Produção: Stephen Cornwell, Ang Lee, Marc Platt, Rhodri Thomas. Elenco: Joe Alwyn, Garrett Hedlund, Arturo Castro, Mason Lee, Astro, Vin Diesel, Steve Martin, Kirsten Stewart, Chris Tucker, Tim Blake Nelson. Estreia: 14/10/16 (Festival de Nova York)

É incrível, mas mesmo um cineasta de imenso talento, como é o caso de Ang Lee (vencedor de dois Oscar de direção e um de filme estrangeiro) pode cometer grandes equívocos. O primeiro deles foi "Cavalgada com o diabo" (99), sobre a Guerra de Secessão e estrelado por Tobey Maguire. Depois, veio "Hulk" (2003), que apesar das qualidades é mais lembrado como um fracasso do que como um êxito comercial. E então, depois do enorme sucesso e dos prêmios por "As aventuras de Pi" (2012), surge "A longa caminhada de Billy Lynn", que não apenas naufragou nas bilheterias americanas (mal ultrapassou a marca de 1 milhão de dólares de arrecadação, contra seu orçamento de 40) como também colecionou críticas nada amigáveis da imprensa, normalmente bastante gentil com os filmes do cineasta. Enfatizando seu ritmo lento em excesso, sua falha em transmitir as mensagens que deseja e a fragilidade do roteiro - baseado em romance de Ben Fountain - as resenhas negativas infelizmente tem razão: o filme de Lee é indubitavelmente chato, e na maior parte do tempo falha sensivelmente em transmitir sua principal mensagem contra a guerra no Iraque.

Ao contrário do que fez o inglês Sam Mendes, que também criticava a intervenção americana no Oriente Médio em seu "Soldado anônimo" (2005) - também fracasso de bilheteria, mas elogiado e prestigiado pela crítica - o trabalho de Ang Lee não consegue, em momento algum, conquistar a empatia da plateia para seu protagonista, interpretado pelo britânico Joe Alwyn em sua estreia no cinema. Apesar de demonstrar talento, Alwyn é inexperiente para desviar das constantes armadilhas de um roteiro confuso, sem emoção e que dá a impressão de não caminhar para lugar algum. Diretor sensível e inteligente, Lee consegue extrair bons desempenhos de seus atores mesmo quando a tarefa parece árdua, mas esbarra em uma surpreendente incapacidade de fazer com que sua história seja atraente para o público, o que não deixa de ser decepcionante quando se trata de um homem que transformou um filme de kung-fu em arte pura com "O tigre e o dragão" (2000) e emocionou o mundo com um romance entre cowboys homossexuais em "O segredo de Brokeback Mountain" (2005). Talvez focado em experimentar um formato novo - com um número de frames muito superior ao convencional - o cineasta tenha deixado escapar o que de melhor ele sempre apresentou em sua filmografia: o sentimento acima de qualquer outro elemento narrativo.


Mesmo em filmes como "As aventuras de Pi", filmado em 3D e recheado de efeitos visuais fascinantes, Ang Lee nunca abriu mão de dar extrema atenção à verdadeira alma de seus trabalhos: os personagens. Em "A longa caminhada de Billy Lynn", porém, parece que ele esqueceu de seu mandamento primordial: não apenas o protagonista como todos os coadjuvantes carecem de força e de empatia, impedindo a plateia de conectar-se a suas reações e emoções. Essa falta absoluta de identificação do público com o personagem central é imperdoável, uma vez que o centro da narrativa é justamente a trajetória emocional de Billy, iluminada através de flashbacks que nem sempre funcionam como deveriam e por vezes chegam a atrapalhar a condução da história, mais confundindo do que esclarecendo. O roteiro, por sua vez, insinua o tempo todo que algo grandioso está sendo preparado para seu clímax e quando tem a oportunidade de converter esse restinho de expectativa em algo que justifique as quase duas horas de duração do filme, entrega um desfecho tão decepcionante quanto o resto da produção - se é que alguém da audiência ainda tinha esperanças de um final menos morno.

O pior é que a sinopse do filme de Lee é até instigante: Billy Lynn, o protagonista, é um jovem de 19 anos de idade tornado uma espécie de herói de guerra depois de um ato de coragem cometido durante um confronto no Iraque. Com sua ação filmada e televisionada, ele e seu pelotão (intitulado Brave Squad) conquistam a admiração incondicional do povo norte-americano a ponto de haver interesse até mesmo de Hollywood em transformar sua trajetória em filme. Para capitalizar em cima da popularidade do grupo, o exército dos EUA programa uma espécie de turnê dos soldados, culminando com sua apresentação no show de intervalo de um jogo de futebol transmitido no Dia de Ação de Graças. Nesse meio-tempo, Lynn conhece as diferenças entre o que se fala a respeito do conflito no Oriente Médio e o que realmente acontece nos campos de batalha - enquanto relembra também sua relação com a família. Essa trama, porém, não engrena, deixando o espectador sempre esperando que a ação vá começar a qualquer momento, o que não acontece jamais. "A longa caminhada de Billy Lynn" é um grande passo em falso na carreira de Ang Lee e um dos filmes mais decepcionantes da temporada 2016.

terça-feira

PARA SEMPRE ALICE

PARA SEMPRE ALICE (Still Alice, 2014, Killer Films/BSM Studio, 101min) Direção: Richard Glatzer, Wash Westmoreland. Roteiro: Richard Glatzer, Wash Westmoreland, romance de Lisa Genova. Fotografia: Denis Lenoir. Montagem: Nicolas Chaudeurge. Música: Ilan Eshkeri. Figurino: Stacey Battat. Direção de arte/cenários: Tommaso Ortino/Susan Perlman. Produção executiva: Emilie Georges, Celine Rattray, Marie Savare, Maria Shriver, Trudie Styler, Christine Vachon. Produção: James Brown, Pamela Koffler, Lex Lutzus. Elenco: Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewart, Kate Bosworth, Shane McRae, Hunter Parrish. Estreia: 08/9/14 (Festival de Toronto) 

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Julianne Moore)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Julianne Moore)
 
Por mais que tente, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood – aquela que distribui anualmente o Oscar – não consegue disfarçar sua predileção quase fetichista por personagens vitimados por alguma doença e/ou impelidos a lutar contra alguma injustiça social. Por isso, quando saíram as indicações à estatueta para a cerimônia de 2015, não houve nenhuma surpresa com a lembrança – e o favoritismo – de Julianne Moore por seu desempenho em “Para sempre Alice”. Não que Moore não merecesse a indicação (e a posterior vitória), mas havia quem defendesse que seu desempenho em “Mapas para as estrelas”, de David Cronenberg – que lhe deu a Palma de Ouro no Festival de Cannes – era ainda mais corajosa, por fugir dos clichês de dramas médicos e criticar a própria indústria do cinema. No fim das contas, porém, os conservadores e previsíveis acadêmicos acabaram por acolher o igualmente brilhante – mas menos surpreendente – trabalho de Moore no filme da dupla de diretores Richard Glatzer e Wash Westmoreland. Baseado em um livro de Lisa Genova, “Para sempre Alice” não acrescenta muito a um subgênero bastante popular do cinema americano - e também muito criticado pelos intelectuais – mas é salvo pela dignidade de seu roteiro sóbrio e pela atuação de um elenco admirável, que, além de Julianne, conta ainda com Alec Baldwin e uma Kirsten Stewart completamente diferente de sua apática Bella Swan da série “Crepúsculo”.
Excepcional como sempre, Julianne Moore – uma grande atriz que consegue equilibrar com raro sucesso produções independentes e blockbusters de qualidade duvidosa – é a base na qual se constrói toda a narrativa de “Para sempre Alice”, linear e de emoções discretas, que se avolumam gradativamente até o final que, para surpresa geral, abdica das lágrimas fáceis para optar pela delicadeza. A protagonista é Alice Howland, uma linguista festejada e admirada como uma das mais competentes profissionais de sua área. De uma hora para outra, ela começa a esquecer nomes, trocar palavras e perder-se em ambientes muito conhecidos. Procurando um médico, Alice se vê diante de uma terrível realidade: uma espécie rara de Alzheimer, hereditária e precoce. Aos 50 anos, alguém que sempre teve absoluto controle sobre sua cognição passa a depender, então, de lembretes espalhados pela casa e no celular e conviver com olhares paternalistas e compassivos da família. Apoiada pelo marido, John (Alec Baldwin), ela acaba por reaproximar-se da filha caçula, Lydia (Kirsten Stewart), que batalha por uma carreira como atriz.


Um dos diretores de “Para sempre Alice”, Richard Glatzer, morreu antes que Moore conhecesse o gostinho de ter um Oscar nas mãos: vítima de uma doença degenerativa que o impedia de falar e lhe fez comandar as filmagens através de mensagens de texto (e da colaboração com seu co-diretor Westmoreland), Glatzer deve ter se identificado com o drama de sua protagonista, mas nem por isso carregou a mão na tragédia, salpicando-a aqui e ali com doses de poesia e delicadeza. Contando com a ajuda de trechos da peça teatral “Angels in America”, de Tony Kushner – que fala sobre os primeiros anos da AIDS na comunidade internacional e já foi adaptado para a televisão, via HBO, com um elenco all-star que incluía Meryl Streep e Al Pacino – o roteiro da dupla de diretores evita o dramalhão fácil, preferindo oferecer à plateia uma narrativa mais seca, recheada de elipses contundentes e que mostram os efeitos gradativos da doença sem buscar a piedade do espectador: valente e racional até mesmo quando tenta solucionar seus problemas (em uma sequência angustiante), Alice não se transforma, em momento algum, na doente coitadinha que tanto agrada os produtores hollywoodianos. Mesmo que algumas cenas comovam o público – por razões óbvias e impossíveis de driblar em produções com tal temática – o filme jamais manipula seus sentimentos, preferindo focar sua atenção na relação de carinho e respeito que Alice encontra em sua família, que no meio do furacão, é aumentada com a chegada de um casal de gêmeos, nascidos de sua filha mais velha, Anna (Kate Bosworth) – também dotada do gene que pode, futuramente, desenvolver a mesma doença da mãe.
“Para sempre Alice” não é uma obra-prima revolucionária ou capaz de mudar os rumos de seu gênero. Mas é uma obra que respeita seu tema e seu público, conduzindo com elegância e inteligência uma história que poderia facilmente descambar para o dramalhão. Mérito da direção, sim, mas principalmente da interpretação arrasadora de Julianne Moore, que conquista a simpatia da plateia desde as primeiras cenas e, aos poucos, vai mergulhando junto com ela em direção a mares bravios e pouco agradáveis. É seu imenso talento que torna suportável essa viagem triste e deprimente que consegue, paradoxalmente, terminar com uma ponta de otimismo e poesia que apenas reitera sua vocação para sobressair-se entre seus congêneres.

sábado

NA NATUREZA SELVAGEM


NA NATUREZA SELVAGEM (Into the wild, 2007, Paramount Vantage, 148min) Direção: Sean Penn. Roteiro: Sean Penn, livro de Jon Krakauer. Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Jay Cassidy. Música: Michael Brook, Kaki King, Eddie Vedder. Figurino: Mary Claire Hannan. Direção de arte/cenários: Derek Hill/Danielle Berman, Christopher Nelly. Produção executiva: David Blocker, Frank Hildebrand, John J. Kelly. Produção: Art Linson, Sean Penn, Bill Pohlad. Elenco: Emile Hirsch, William Hurt, Marcia Gay Harden, Jena Malone, Hal Holbrook, Vince Vaughn, Catherine Keener, Kristen Stewart. Estreia: 01/9/07 (Festival de Telluride)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Hal Holbrook), Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("Guaranteed")

Que Sean Penn é um ator superlativo qualquer fã de cinema sabe. Mas que por detrás da persona agressiva com que ficou conhecido nos anos 80 - quando era casado com Madonna e tinha por hobby espancar paparazzi - existe um cineasta sensível e talentoso pouca gente sabia até o lançamento de "Na natureza selvagem", adaptação do livro de Jon Krakauer. Tudo bem que ele já tinha três filmes no currículo, mas pouca gente notou "Unidos pelo sangue" (91), "Acerto final" (95) e "A promessa" (01), por mais qualidades que eles tivessem. Mas foi somente com a história triste/pungente/libertadora de Christopher McCandless, jovem que abandona uma vida abastada para buscar um contato com a liberdade que só mesmo a natureza poderia lhe oferecer é que Penn carimbou de vez seu passaporte rumo ao panteão dos grandes cineastas.

Depois de um flerte de mais de uma década com a história de McCandless, Penn finalmente conseguiu o apoio da família do rapaz para realizar um dos filmes mais emocionantes e pungentes a chegar às telas dos cinemas no século XXI. Versando sobre liberdade pessoal, o amor à natureza e a importância das relações interpessoais, "Na natureza selvagem" é um espetáculo de delicadeza, inteligência e sensibilidade, valorizado por um roteiro maduro, um elenco excepcional - que consegue arrancar atuações convincentes até mesmo de Kirsten Stewart e Vince Vaughn - e uma trilha sonora que, mais do que comentar a ação, é uma personagem importante e onipresente.


Vivido por um sensacional Emile Hirsch - que ficou com o papel felizmente recusado por Leonardo DiCaprio - o jovem Christopher McCandless salta das páginas do livro de Krakauer para ganhar uma dimensão de herói moderno, um homem capaz de correr atrás de uma vida que fuja de tudo que ele sempre desprezou em relação aos pais (William Hurt e Marcia Gay Harden) e à sociedade em geral. Livrando-se dos cartões de crédito, do nome verdadeiro (e assumindo o pseudônimo de Alexander Supertramp) e das amarras de qualquer tipo de relacionamento (inclusive com a irmã com quem se dá bem, interpretada por Jena Malone), ele parte em busca da realização pessoal junto à natureza. Logicamente, sem preparo algum para tal aventura, ele passa por situações nada convencionais e bastante arriscadas, somente para descobrir, surpreso, que são as pessoas - e o carinho que surge entre elas - que dá sentido à vida. "A felicidade só é real quando compartilhada" é o que ele aprende, talvez tarde demais.

Pontuado por uma belíssima trilha sonora, composta por canções deslumbrantes de Eddie Vedder (da banda Pearl Jam) que ilustram com extraordinária perfeição as cenas captadas pelo editor de fotografia Eric Gautier e editadas com maestria por Jay Cassidy, "Na natureza selvagem" emociona por proporcionar ao espectador uma viagem para dentro de seus próprios desejos de fuga de uma realidade massacrante e muitas vezes estéril. Alexander Supertramp vive, na tela, tudo que o público sonha em realizar mas tem medo (ou acomodação em demasia). As lágrimas que brotam ao final da projeção - e elas surgem, com toda certeza - limpam a alma, espelham vontades e, mais do que tudo, são a catarse mais absoluta de que o bom cinema é capaz.

"Na natureza selvagem" é uma obra-prima. Lindo, delicado, emocionante, inesquecível. E que atire a primeira pedra quem não se arrepiar com a fantástica atuação do veterano Hal Holbrook como Ron Franz, o aposentado que se oferece para adotar o protagonista em uma cena devastadora. Para ver, rever, trever e chorar sempre.

quarta-feira

EU E AS MULHERES


EU E AS MULHERES (In the land of women, 2007, Castle Rock Entertainment, 97min) Direção e roteiro: Jonathan Kasdan. Fotografia: Paul Cameron. Montagem: Carol Littleton. Música: Stephen Trask. Figurino: Trish Keating. Direção de arte/cenários: Sandy Cochrane/Louise Roper. Produção executiva: Lawrence Kasdan. Produção: Steve Golin, David Kanter. Elenco: Adam Brody, Meg Ryan, Kristen Stewart, Olympia Dukakis, Elena Ayala, Jobeth Williams, Clark Gregg. Estreia: 16/04/07

Filho mais velho do cineasta Lawrence Kasdan - diretor de títulos essenciais da filmografia americana dos anos 80, como "O reencontro" e "Silverado", além de roteirista de "Caçadores da Arca Perdida" - o jovem Jonathan Kasdan preferiu fazer sua estreia atrás das câmeras sem muito alarde. Roteirista de episódios das séries "Dawson's Creek" e "Freaks & Geeks", ele aproveitou seu conhecimento da juventude americana de seu tempo e criou o delicado e sutilmente engraçado "Eu e as mulheres". Simpático e doce, o filme não chega a ser uma obra-prima, mas revela em Kasdan um olhar atento à sensibilidade humana.

Talvez haja um pouco - ou muito - de Kasdan em seu protagonista, Carter Webb, um roteirista de filmes eróticos vivido com graça e discrição pelo ótimo Adam Brody. Recém chutado pela bela namorada, a atriz Sofia Buñuel (Elena Ayala), ele resolve dar um tempo em sua atribulada vida em Los Angeles e vê na doença de sua avó (Olympia Dukakis, sensacional) a oportunidade de mudar-se por um tempo para Detroit. Enquanto ajuda a senhora idosa - cuja demência a deixa cada vez mais apática e distante - Carter resolve escrever sua obra-prima, longe das influências de sua cidade. Sua paz começa a sofrer interrupções, porém, quando ele conhece a família que mora diante de sua nova casa. Os Hardwicke - formado por um casal com duas filhas - logo torna-se parte de sua nova rotina, especialmente a filha mais velha, Lucy (Kristen Stewart) e a mãe, Sarah (Meg Ryan). Ao passo que Lucy tenta lidar com o despertar de sua sexualidade, Sarah descobre sofrer de câncer. É Carter quem irá servir de apoio às duas.


Não há maiores lances e reviravoltas em "Eu e as mulheres". O roteiro de Kasdan é sutil, fazendo piadas que não almejam gargalhadas e criando dramas que não exigem lágrimas. Seu olhar é quase contemplativo, deixando que as personagens vivam seus tormentos sem interferência exagerada da fotografia ou da edição. Nem mesmo a trilha sonora tenta sobrepor-se à história contada, sendo apenas um complemento às cenas, conduzidas com leveza e um senso de humor carinhoso com os protagonistas. Nem mesmo as piadas internas - que satirizam o meio cinematográfico - soam autocomplacentes, o que revela no jovem filho de Lawrence uma promessa bastante empolgante.

Mas é na direção de atores que Jonathan Kasdan consegue ser ainda mais bem-sucedido. Adam Brody encarna com perfeição o protagonista desajeitado e vulnerável que se vê obrigado a amadurecer para ajudar desconhecidos e Kirsten Stewart mostra que, antes de tornar-se a chatonilda mor da série "Crepúsculo" tinha expressões faciais variadas e sabia atuar. Mas é Meg Ryan o maior destaque. Fugindo do seu papel de sempre - a mocinha das comédias românticas - a atriz surpreende com uma interpretação contida e dramática, que jamais apela para o sentimentalóide. Só o fato de ter dado à eterna Sally Albright um papel à altura de seu talento já faria de seu jovem diretor um cara bom. Para sorte do público, ele tem ainda outras qualidades que deve provar em breve.

terça-feira

O QUARTO DO PÂNICO

O QUARTO DO PÂNICO (Panic room, 2002, Columbia Pictures, 112min) Direção: David Fincher. Roteiro: David Koepp. Fotografia: Conrad L. Hall, Darius Khondji. Montagem: James Haygood, Angus Wall. Música: Howard Shore. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Jon Danniells, Garrett Lewis. Produção: Cean Chaffin, Judy Hofflund, David Koepp, Gavin Polone. Elenco: Jodie Foster, Forest Whitaker, Kristen Stewart, Jared Leto, Dwight Yoakam. Estreia: 29/3/02

É impressionante a diferença que faz um bom diretor! Nas mãos de um operário-padrão qualquer de Hollywood, "O quarto do pânico" seria apenas mais um filme de suspense perfeitamente esquecível depois dos letreiros finais. Porém, sob o comando do sempre competente David Fincher - que tem no currículo as obras-primas "Seven" e "Clube da luta" e o subestimado "Vidas em jogo" - o jogo de gato-e-rato criado pelo roteirista David Koepp em apenas seis dias (o primeiro tratamento, logicamente) não só prende a atenção de seus espectadores como ainda por cima se eleva vários degraus acima de seus congêneres, equilibrando com maestria um clima hitchcockiano e inovações técnicas utilizadas com inteligência e parcimônia.

A trama tem início quando a recém-divorciada Meg Altman (Jodie Foster, grávida durante as filmagens), abandonada pelo marido milionário, compra uma gigantesca casa em Manhattan para morar com a filha pré-adolescente Sarah (Kirsten Stewart pré-"Crepúsculo"). A casa - uma impressionante criação do diretor de arte Arthur Max - tem até mesmo uma espécie de bunker, apelidado pelo antigo morador de "quarto do pânico": o tal quarto tem até mesmo um sistema exclusivo de câmeras de vigilância. O que seria apenas mais um cômodo, no entanto, vira a principal forma de defesa de mãe e filha quando três homens armados, liderados pelo descontrolado Junior (Jared Leto), invadem a casa na madrugada, atrás de milhões de dólares escondidos justamente no quarto onde elas se escondem. Para proteger a filha e a si mesma, Meg tem que usar toda a sua inteligência e força emocional, principalmente quando os criminosos - que incluem o racional Burnham (Forest Whitaker) e o violento Raoul (Dwight Yoakam) - resolvem apelar para a violência para obrigá-las a abandonar o famigerado aposento.


"O quarto do pânico" é um típico produto de sua época. Os criativos movimentos de câmera de Fincher, o desenho de som e as inovações técnicas que ele apresenta são tão ou mais importantes que a história que o diretor conta. Mesmo sem ser exatamente original e/ou empolgante em uma primeira visão, o roteiro de Koepp consegue facilmente envolver e causar tensão durante seu tempo de duração, o que já é bastante raro em um gênero mortalmente previsível quanto o suspense. Fugindo dos clichês das obras mais convencionais, a obra de Fincher cria momentos de tensão genuína, envolvendo o público na jornada de Meg, personificada com força e determinação por um Jodie Foster nunca aquém de excelente. Substituindo Nicole Kidman na última hora (que abandonou o projeto por ter se machucado nas filmagens de "Moulin Rouge"), Foster não deixa de ser uma bênção ao projeto: talvez a fragilidade física de Kidman não combinasse com a protagonista, uma personagem que cabe como uma luva no histórico de mulheres fortes interpretadas por Jodie.

"O quarto do pânico" está longe de ser o melhor trabalho de David Fincher. Ainda assim, é forte, inteligente e jamais previsível, além de tratar seu público com respeito e em nenhum momento apelar para soluções fáceis e triviais. É um excelente programa para quem gosta de suspense e para aqueles que esperam por bons filmes dirigidos com elegância e talento.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...