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sábado

MEU PÉ ESQUERDO

MEU PÉ ESQUERDO (My left foot, 1989, Ferndale Films, 103min) Direção: Jim Sheridan. Roteiro: Jim Sheridan, Shanne Connaughton, livro de Christy Brown. Fotografia: Jack Conroy. Montagem: J. Patrick Duffner. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Joan Bergin. Direção de arte/cenários: Austen Spriggs/Shirley Lynch. Produção executiva: Paul Heller, Steve Morrison. Produção: Noel Pearson. Elenco: Daniel Day Lewis, Brenda Fricker, Fiona Shaw, Ray McAnally. Estreia: 24/02/89

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jim Sheridan), Ator (Daniel Day Lewis), Atriz Coadjuvante (Brenda Fricker), Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Daniel Day Lewis), Atriz Coadjuvante (Brenda Fricker)

Os fã-clubes de Tom Cruise estavam em polvorosa na noite de 26 de março de 1990: finalmente seu ídolo estava em vias de pôr as mãos no Oscar de melhor ator, por seu corajoso e elogiado desempenho como um jovem veterano da Guerra do Vietnã que se torna ativista contra o conflito em "Nascido em 4 de julho", dirigido por Oliver Stone. O que eles não ousavam supor nem mesmo em seus piores pesadelos, porém, acabou acontecendo, e tudo devido a um ator irlandês pouco conhecido no circuito dos filmes comerciais hollywoodianos: a estatueta foi parar no colo de Daniel Day Lewis, que, mesmo premiado pelas associações de críticos de Nova York e Los Angeles - além de sua Associação Nacional - ainda não era considerado uma ameaça séria por aqueles que tinham Cruise como ídolo. Premiado por seu irrepreensível trabalho em "Meu pé esquerdo", do também irlandês Jim Sheridan, Day Lewis imediatamente tornou-se um dos atores mais respeitados de sua geração, embarcando em uma sucessão de filmes importantes e extraordinários, como "Em nome do pai" (93), novamente com Sheridan, "A época da inocência" (93), de Martin Scorsese e a adaptação para as telas da peça teatral de Arthur Miller "As bruxas de Salem" (96), dirigida por Nicholas Hytner - isso apenas nos anos 90.

Contado em flashback a partir do livro escrito pelo protagonista, Christy Brown (interpretado na infância e adolescência pelo também ótimo Hugh O'Conor), o filme de Sheridan narra sua trajetória desde o nascimento no seio de uma numerosa e pobre família irlandesa dos anos 40 até a publicação de seu livro de memórias, em que conta de que forma conseguiu superar uma paralisia cerebral congênita que lhe permitia mexer apenas seu pé esquerdo. Controlando apenas esse único membro, Brown tornou-se artista plástico e superou todas as dificuldades impostas por sua situação e pela pobreza extrema de sua família - que, mesmo diante de sua doença nunca o tratou ou deixou que o tratassem como deficiente. É esse berço familiar, liderado pela forte e terna Mrs. Brown (Brenda Fricker em atuação também oscarizada) que surge como a luz de sua difícil caminhada, permeada também por desilusões amorosas devastadoras (na adolescência e na vida adulta, quando se apaixona pela médica vivida por Fiona Shaw). Day Lewis se entrega de corpo e alma à sua interpretação, de forma a ofuscar tudo à sua volta, mas mesmo assim deixa espaço para que a direção de Sheridan ilustre com perfeição o estilo de vida irlandês da época em que o filme se passa - sem, contudo, pesar a mão no sentimentalismo e no piegas.


E, se existe alguma diferença no modo com que "Meu pé esquerdo" se destaca das dezenas de produções que também tratam de histórias de superação - além da performance magnífica de Daniel Day Lewis - é a direção madura de Jim Sheridan. Mesmo tendo em mãos uma armadilha gigantesca, o cineasta consegue se desvencilhar dela com maestria, imprimindo até mesmo um inesperado senso de humor ao roteiro, que, mesmo assim, não abre mão de emocionar a plateia com momentos de pura delicadeza e sensibilidade, como a primeira vez em que Christy consegue se comunicar com a família, escrevendo a giz no chão da casa, para espanto de todos, ou quando tenta o suicídio depois de ser rejeitado pela mulher que ama. São cenas fortes, mas dirigidas com discrição, sem o apelo sensacionalista que um diretor mais propenso aos exageros de Hollywood fatalmente levaria consigo. Não foi à toa que Sheridan também conseguiu seu lugar entre os indicados ao Oscar, perdendo o prêmio para Oliver Stone, uma escolha bem mais de acordo com o histórico da Academia - ainda que não tenha sido exatamente uma injustiça, uma vez que "Nascido em 4 de julho" também é um filme de inúmeros méritos.

"Meu pé esquerdo", que concorreu ao Oscar de melhor filme do ano - e, assim como "Nascido em 4 de julho" e "Sociedade dos poetas mortos" perdeu para o inferior "Conduzindo Miss Daisy" - era, de certa forma, um estranho no ninho dentre os candidatos. Produzido fora dos auspícios hollywoodianos, sem um astro milionário em seu elenco e fugindo com categoria das desgastadas fórmulas dos dramalhões lacrimosos, é uma obra que conquista por sua simplicidade e pela verdade que transmite em cada centímetro de celulóide. Talvez tenha sido justamente essa despretensão à emoção fácil que tenha encantado os acadêmicos, tão acostumados a uma dieta pasteurizada de filmes parecidos entre si. O fato é que, se não fosse tão bom, ainda assim teria servido para apresentar devidamente Day Lewis ao grande público - depois de trabalhos bons mas pouco vistos, como "Minha adorável lavanderia" e "A insustentável leveza do ser". Em alguns anos, ele ainda seria oscarizado mais duas vezes, por trabalhos impressionantes em "Sangue negro" (07) e "Lincoln" (12). Quanto a seu rival na noite de ... de março, Tom Cruise? Entrou em um circuito de escolhas equivocadas e, de maior astro dos anos 90, transformou-se em piada e hoje tenta reconquistar seu público com policiais meia-boca e ficções científicas sem graça. O tempo mostrou que talento ainda é a melhor arma.

quarta-feira

ENTRE IRMÃOS

ENTRE IRMÃOS (Brothers, 2009, Lionsgate, 105min) Direção: Jim Sheridan. Roteiro: David Beniofff, roteiro original de Susanne Bier, Anders Thomas Jensen. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Jay Cassidy. Música: Thomas Newman. Figurino: Durinda Wood. Direção de arte/cenários: Tony Fanning/Wendy Barnes. Produção executiva: Jon Feltheimer, Scott Fischer, Zach Schiff-Abrams, Tucker Tooley. Produção: Michael De Luca, Ryan Kavanaugh, Sigurjon Sighvatsson. Elenco: Tobey Maguire, Jake Gyllenhaal, Natalie Portman, Sam Shepard, Mare Winningham, Bailee Madison, Carey Mulligan, Clifton Collins Jr. Estreia: 03/12/09 (Israel)

O diretor escolhido, o irlandês Jim Sheridan, já tinha no currículo duas indicações ao Oscar – pelos filmes “Meu pé esquerdo” (89) e “Em nome do pai” (93). Os dois protagonistas masculinos, Tobey Maguire e Jake Gyllenhaal, eram promissores astros – o primeiro, afinal, era o mais bem-sucedido Homem-aranha das telas, e o segundo já contava com uma lembrança da Academia de Hollywood como coadjuvante do belo e polêmico “O segredo de Brokeback Mountain” (05). A atriz central, Natalie Portman, havia chamado a atenção da crítica já em sua estreia, aos 13 anos, em “O profissional” (04), e, além de elogios unânimes a várias atuações, já tinha o amor dos cinéfilos por seu trabalho na segunda trilogia “Star Wars”, onde viveu a princesa Amidala. Com um time assim, nem foi tão traumático o anúncio de que o dinamarquês “Irmãos”, grande sucesso de 2004, ganharia um remake americano. O medo de que os estúdios hollywoodianos pudesse estragar a bela história comandada pela cineasta Susanne Bier parecia fora de cogitação com a união de um time tão cheio de craques. Mas, se “Entre irmãos” é bem melhor do que costumam ser as refilmagens cometidas pelo cinema comercial ianque, tampouco chega a ser empolgante como poderia. É acima da média e realizado com extrema competência, mas falha em não se conectar emocionalmente com seu público da maneira como poderia.

Emoção é o que não falta na trama central, modificada apenas em detalhes ínfimos para sua transposição para os EUA. A história se concentra na família de Sam Cahill (Tobey Maguire), um jovem capitão que, apesar de ter uma bela e amorosa família, sente-se mais confortável e feliz nos campos de batalha do Afeganistão do que dentro das paredes de sua acolhedora casa. Quando o filme começa, seu irmão caçula, Tommy (Jake Gyllenhaal), está saindo da cadeia, onde ficou por um período graças à sua personalidade transgressora e rebelde – fato que o distancia do afeto de seu pai (Sam Shepard), um ex-soldado que nitidamente tem preferência por Sam. O retorno de Tommy à família acontece às vésperas da volta de Sam para o Oriente Médio, para tristeza de sua mulher, Grace (Natalie Portman), e de suas duas filhas pequenas. O drama fica ainda maior quando, algum tempo depois, Grace recebe a trágica notícia da morte do marido, assassinado por soldados afegãos. Na verdade, porém, Sam não morreu: feito refém, ele surpreende a todos quando ressurge, traumatizado e neurotizado por acontecimentos que esconde debaixo de um comportamento errático e agressivo. Seu novo modo de agir começa a afastá-lo das filhas e até da esposa, que oculta dele algo de suprema importância: durante sua ausência, ela e Tommy se apaixonaram, já que o rapaz resolveu assumir a família do irmão como se fosse sua.


Seguindo a trama em duas frentes distintas, Sheridan é feliz ao contrabalançar um potente drama de guerra – que reserva algumas cenas de grande tensão para o espectador – e uma delicada e surpreendente história de amor para que, no terço final da narrativa, elas se integrem em uma terceira e crucial vertente. Potencializado pela atuação visceral de Tobey Maguire – que ficou com o papel de Sam apesar de ter desejado primeiro interpretar Tommy – o desfecho da história pode até soar anticlimática (apesar da bela trilha sonora do veterano Thomas Newman), mas é coerente tanto com a filmografia do diretor quanto com o tom impresso por ele em todo o desenvolvimento dos personagens. Maguire constrói um personagem silencioso e reprimido que esconde, por trás de uma pretensa civilidade, as lembranças dolorosas do trauma que passou na guerra, e explode na melhor sequência do filme, em uma festa de aniversário que revela muitos dos segredos da família – e também é elogiável, então, a atuação impressionante da pequena Bailee Madison, que vive a filha mais velha do protagonista e quase rouba a cena do elenco de veteranos.

E se Maguire mostra que não é ator de um único personagem – e no caso o icônico Homem-aranha – seus colegas não ficam atrás. Jake Gyllenhaal convence tanto como um Tommy rebelde e agressivo quanto explora seu lado doce e romântico. Natalie Portman vive uma Grace torturada pela divisão entre a nova paixão, a culpa em relação ao marido (que julgava morto) e a tentativa de levar a vida adiante mesmo depois da suposta tragédia. São três jovens atores brilhantes e dotados de grande talento, que encontram em Sheridan um diretor competente e respeitado. Porém, falta ao resultado final o calor humano e a fúria que o cineasta emplacou em seus melhores filmes – e inclui-se nessa lista o poético “Terra dos sonhos”, que ele escreveu ao lado das filhas e transformou em um belo drama familiar em homenagem aos EUA. Parece que Sheridan fala melhor quando é pessoal, e em “Entre irmãos” tem-se a nítida impressão de que ele apenas assinou um trabalho de encomenda. Muito bom, mas ainda assim distante da paixão que ele marca em cada trabalho.

sexta-feira

TERRA DE SONHOS


TERRA DE SONHOS (In America, 2003, Fox Searchlight Pictures, 105min) Direção: Jim Sheridan. Roteiro: Jim Sheridan, Naomi Sheridan, Kirsten Sheridan. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Naomi Geraghty. Música: Gavin Friday, Maurice Seezer. Figurino: Eimer Ní Mhaoldomhnaigh. Direção de arte/cenários: Mark Geraghty/Johnny Byrne. Produção: Arthur Lappin, Jim Sheridan. Elenco: Samantha Morton, Paddy Considine, Djimon Houson, Sarah Bolger, Emma Bolger. Estreia: 26/11/03

3 indicações ao Oscar: Atriz (Samantha Morton), Ator Coadjuvante (Djimon Houson), Roteiro Original

A julgar pelos furiosos trabalhos anteriores do diretor Jim Sheridan a chegar ao grande público – em especial os premiados “Meu pé esquerdo” e “Em nome do pai” – a última coisa que se poderia esperar a seu respeito é que ele fosse realizar um filme como “Terra de sonhos”, uma ode a uma América justamente em um dos momentos mais cruciais de sua auto-estima. Inspirado em fatos reais – em tese ocorridos com a família do próprio diretor, que escreveu o roteiro juntamente com suas filhas Naomi e Kirsten – seu novo filme é uma declaração de amor à família, ao amor e aos EUA enquanto terra das oportunidades

O filme começa com a chegada de uma família irlandesa a Nova York, no início dos anos 80. O aspirante a ator Johnny (o ótimo Paddy Considine) logo arruma emprego como taxista noturno enquanto luta por um lugar ao sol. Sua mulher, Sarah (Samantha Morton, em uma atuação esplêndida, indicada ao Oscar) começa a trabalhar como garçonete e suas duas filhas, Christy e Ariel (as encantadoras irmãs na vida real Sarah e Emma Bolger) não demoram a acostumar-se com a vizinhança, repleta de travestis e traficantes de drogas, apesar de não se darem tão bem assim na escola. A vida cheia de dificuldades da família logo se transforma quando eles ficam amigos do artista plástico Matteo (uma interpretação poderosa de Djimon Hounson, também concorrente ao Oscar), um imigrante africano que sofre de AIDS. Justamente nesse momento, Sarah se descobre grávida novamente, o que pode ajudar seu marido a superar a trágica morte de seu filho pequeno, ocorrida pouco antes de sua chegada à América.



Quando ainda tinha o título de "East of Harlem", o filme de Sheridan tinha como prováveis protagonistas oa ótimos Ewan McGregor e Kate Winslet, mas não há como negar que a escalação de Considine (um ator pouco conhecido pelo grande público) e Morton (revelada por Woody Allen em "Poucas e boas" e que roubou a cena de Tom Cruise em "Minority report, a nova lei") provou-se mais do que acertada. Longe do visual glamouroso de Hollywood, os atores ganham a audiência justamente por serem normais e verossímeis, o que seria bem menos fácil com a inclusão dos conhecidos McGregor e Winslet. Na pele de Johnny e Sarah, Considine e Morton mostram-se entregues, sofridos e esperançosos na medida certa e essa qualidade intangível é que eleva "Terra de sonhos" a um patamar dramático absolutamente fascinante.
  
 Escrito com sensibilidade e exalando carinho e esperança em cada cena, “Terra de sonhos” é um filme para ser assistido com o coração aberto, uma vez que apresenta cenas de grande apelo emocional, sem que apele para cenas desnecessariamente chorosas. A encantadora química que une os atores centrais transforma o que poderia ser um filme comum em uma experiência rica e devastadora, que seduz pela simplicidade e pela poesia de um trabalho inesquecível de um homem contando uma experiência pessoal sem ranços panfletários ou discursivos. Um filme a ser descoberto!

sábado

EM NOME DO PAI

EM NOME DO PAI (In the name of the father, 1993, Universal Pictures, 133min) Direção: Jim Sheridan. Roteiro: Jim Sheridan, Terry George, livro "Proved innocent", de Gerry Conlon. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Gerry Hambling. Música: Trevor Jones. Figurino: Joan Bergin. Direção de arte/cenários: Caroline Amies/Rick Butler. Produção executiva: Gabriel Byrne. Produção: Jim Sheridan. Elenco: Daniel Day-Lewis, Pete Postletwhaite, Emma Thompson, Anthony Brophy, Corin Redgrave. Estreia: 29/12/93

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jim Sheridan), Ator (Daniel Day-Lewis), Ator Coadjuvante (Pete Postletwhaite), Atriz Coadjuvante (Emma Thompson), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim: Melhor Diretor (Jim Sheridan)

Para fins dramáticos, muitas vezes histórias reais são vítimas de alterações das mais variadas em sua transposição para o cinema. Provavelmente "Em nome do pai", filmaço do diretor irlandês Jim Sheridan poderia servir como um dos exemplos máximos disso que é carinhosamente chamado de "licença poética". As diferenças entre os fatos verídicos e os mostrados no filme são tão radicais que nem mesmo seu produtor executivo, o ator Gabriel Byrne, concordou com a visão de Sheridan e afastou-se do projeto. A despeito das discrepâncias entre o real e o filmado, porém, "Em nome do pai" é o melhor trabalho do cineasta e a atuação mais arrasadora de Day-Lewis.

O filme já começa mostrando a que veio quando um pub londrino vai pelos ares e a bela canção-tema (cantada por Bono, do U2) invade os créditos iniciais. Quando os créditos acabam o público fica sabendo  - através de uma fita gravada à advogada Gareth Pierce (Emma Thompson)  - a triste e quase inacreditável história de Gerry Conlon (Day-Lewis), um jovem irlandês condenado à prisão perpétua, acusado de ter planejado o atentado à bomba mostrado na cena inicial. Além de ser inocente - na noite da tragédia ele estava dormindo em um parque ao lado do melhor amigo - Gerry vê uma injustiça ainda maior ser cometida: não só ele e seus amigos são presos, mas também sua tia (acusada de fabricar bombas), seus primos pequenos e seu próprio pai, Giuseppe (Pete Postletwhaite), um homem religioso e correto com quem ele não tem uma relação das mais carinhosas. Forçados a dividir uma cela, pai e filho finalmente começam a criar sentimentos de admiração e amor. Quando Gareth entra em suas vidas - a pedido de um Giuseppe velho e doente - as irregularidades do julgamento começam a aparecer e eles passam a ter esperanças de ver sua sentença anulada.



A maior gritaria a respeito de "Em nome do pai" diz respeito à invenção do roteiro de Sheridan e Terry George - que seria o cineasta de "Hotel Ruanda", de 2004 - de fazer com que Gerry e Giuseppe dividam a mesma cela, fato que jamais ocorreu na história verdadeira. Realmente não é admirar a ira (desculpem o trocadilho infame) dos puristas, mas é impossível negar que, do ponto de vista dramatúrgico, a sacada do roteiro foi de mestre: além de contar uma história forte e revoltante de injustiça jurídica e social (e aí inclui-se preconceito contra hippies e irlandeses em geral), Sheridan também brinda o público com uma trama de alcance emocional de âmbito mais pessoal, que ressoa junto a qualquer espectador mais sensível. Para isso, o cineasta teve a sorte de contar com um elenco de sonhos.

Todos os três atores centrais do filme foram indicados ao Oscar e se premiados tivessem sido, não teria havido injustiça. Então praticamente desconhecido do grande público, Pete Postletwhaite teve aqui o papel mais marcante de sua carreira, criando um Giuseppe estóico e dono de uma fé inabalável. Emma Thompson, ainda que só entre de verdade no filme nos últimos trinta minutos, mostra porque é uma das atrizes britânicas mais competentes de sua geração (e que merece uma ressurreição artística urgente). Mas é Daniel Day-Lewis o corpo e a alma de "Em nome do pai".

Mesmo os detratores do ator são obrigados a tirar o chapéu para seu desempenho impecável. Day-Lewis vive (literalmente) Gerry Conlon, desde sua juventude irresponsável até seus dias de maturidade emocional e racional - passando por uma cena de interrogatório das mais tensas da história. Sem tentar apelar para a compaixão do público, uma vez que a história já é suficientemente revoltante, ele conquista pela inteligência de sua atuação, uma das mais consistentes da década de 90. Day-Lewis pega o público pela mão e o leva a testemunhar seu vasto leque de nuances: debochado, rebelde, revoltado, triste, corajoso. E o faz com a segurança de um grande ator.

Ficar indignado com a história contada em "Em nome do pai" é fácil - e a fotografia de Peter Biziou, a montagem de Gerry Hambling e a música de Trevor Jones apenas colaboram para isso. Difícil é esquecer a monstruosa interpretação de Day-Lewis e a força de sua história.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...