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terça-feira

NINA


NINA (Nina, 2004, Branca Filmes/Fábrica Brasileira de Imagens/Gullane, 90min) Direção: Heitor Dhalia. Roteiro: Marçal Aquino, Heitor Dhalia. Fotografia: José Roberto Elieser. Montagem: Estevan Santos. Música: Antonio Pinto. Figurino: Verônica Julian, Juliana Prysthon. Direção de arte: Guta Carvalho, Akira Goto. Produção executiva: Caio Gullane, Fabiano Gullane. Produção: Akira Goto, Fabiano Gullane. Elenco: Guta Stresser, Myrian Muniz, Wagner Moura, Guilherme Weber, Selton Mello, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele, Aílton Graça, Renata Sorrah, Juliana Galdino, Sabrina Greve, Milhem Cortaz, Abrahão Farc. Estreia: 05/11/2004

É preciso coragem para mexer em "Crime e castigo", clássico absoluto da literatura russa e uma das mais emblemáticas obras do escritor Fiódor Dostoiévski. Mas é justamente isso que o paulista Heitor Dhalia faz em "Nina", seu primeiro longa-metragem: inspirado (nem tão livremente assim) no livro publicado em 1866, o filme estrelado por Guta Stresser (então no auge da popularidade graças à série "A grande família") mistura elementos do romance, linguagem de quadrinhos e um visual de estética gótica para contar uma história de solidão, desespero e culpa. Nem sempre atinge todos os seus objetivos - e nem sempre é fiel à sua fonte -, mas merece aplausos por sua ousadia narrativa e pela busca em romper com os padrões narrativos do cinema nacional. Contando com participações luxuosas - e em algumas vezes quase imperceptíveis de nomes consagrados como Renata Sorrah, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele e Selton Mello -, "Nina" surgiu como um estranho no ninho dentro da filmografia brasileira de 2004, que apostou em cinebiografias ("Cazuza: o tempo não para" e "Olga"), comédias com elencos globais ("Sexo, amor e traição", "Como fazer um filme de amor"; "A dona da história") e documentários ("Pelé eterno"; "Entreatos").  Pode não ter se tornado um sucesso de bilheteria, mas foi o pontapé inicial na carreira de Dhalia, que em poucos anos chegaria a Hollywood com seu "12 horas" (2012).

Em uma atuação cujos excessos servem com perfeição ao visual estilizado proposto pelo conceito original, Guta Stresser vive a personagem-título, uma jovem atormentada por pesadelos e traumas de infância que alivia seu sofrimento mental através de seu talento como desenhista. Sobrevivendo aos trancos e barrancos em empregos nos quais se sente explorada, Nina passa as noites em festas regadas à álcool, drogas e sexo fácil, como forma de aguentar um dia-a-dia sufocante e opressivo. Ela aluga um quarto no amplo apartamento de Eulália (Myrian Muniz) e sofre com a falta de dinheiro que a faz ser constante humilhada. Mesquinha e cruel, Eulália não pensa duas vezes em trancar a geladeira, violar sua correspondência e até obrigá-la a fazer a pesada limpeza da casa como pagamento. Com a mente cada vez mais desestabilizada, Nina começa a ter pensamentos violentos - e uma tragédia a joga inexoravelmente no caminho da loucura.

 
 
Se utilizando de desenhos de Lourenço Mutarelli para ilustrar a mente em turbilhão de sua protagonista e de uma fotografia que retrata com precisão a atmosfera claustrofóbica da narrativa, "Nina" mergulha o espectador em um pesadelo sensorial, explicitada por ângulos de câmera inusitados, uma trilha sonora distorcida, personagens que flertam com o bizarro e uma edição intrincada, sempre a um passo do caos. O roteiro, por vezes superficial (até mesmo por sua estrutura episódica) retrata também o cotidiano de sua torturada personagem central, perdida em um comportamento errático e de relacionamentos superficiais - como o cego interpretado por Wagner Moura, em uma sequência de soluções visuais interessantes e criativas -, mas falha em conectá-la com o espectador. Mesmo que exista a empatia em relação às maldades de Eulália, é incômodo perceber seu viés maniqueísta, que reforça a impressão de uma produção audiovisual com alma de história em quadrinhos. Se encanta em termos estéticos e artísticos, é frágil quanto dramaturgia - apesar do desempenho memorável da veterana Myrian Muniz em seu primeiro trabalho no cinema, e do esforço de Guta Stresser em ser maior do que os clichês da caracterização de sua Nina.

Vencedor de quatro estatuetas do Prêmio Guarani - distribuídos aos destaques do cinema nacional - e homenageado com o prêmio da crítica no Festival de Moscou, "Nina" é um filme atípico dentro da filmografia brasileira, tanto por sua temática quanto por seu conceito. Feito para um público disposto a experimentar novos formatos e realizado quase como uma ação entre amigos - o que fica claro com as participações muito especiais que se espalham pelos noventa minutos de duração -, é uma das produções mais interessantes do começo dos anos 2000, mesmo com todos os pecadilhos que o impedem de ser completamente satisfatório.

 

sexta-feira

MEDIDA PROVISÓRIA


MEDIDA PROVISÓRIA (Medida provisória, 2020, Lereby, 103min) Direção: Lázaro Ramos. Roteiro: Lázaro Ramos, Lusa Silvestre, Aldri Anunciação, Elísio Lopes Jr., peça teatral "Namíbia, não", de Aldri Anunciação. Fotografia: Adrian Teijido. Montagem: Diana Vasconcellos. Música: Kiko de Souza, Plínio Profeta, Rincon Sapiência. Figurino: Alex Brollo. Direção de arte/cenários: Tiago Marques Teixeira. Produção executiva: Mariza Figueiredo. Produção: Daniel Filho, Tânia Rocha. Elenco: Alfred Enoch, Taís Araújo, Seu Jorge, Adriana Esteves, Renata Sorrah, Emicida, Mariana Xavier, Flávio Bauraqui. Estreia: 03/10/2020 (Festival de Moscou)

É bem provável que, no panorama cultural brasileiro do momento, não pudesse haver alguém mais apropriado do que Lázaro Ramos para assinar a direção do filme "Medida provisória": ativista dos mais incansáveis da luta contra o racismo e pela preservação da cultura negra, Ramos se aproveita inteligentemente de sua visibilidade como artista global para pautar temas que, em mãos menos sensíveis, poderiam facilmente descambar para a militância oca e/ou oportunista. Se na peça teatral “No topo da montanha”, de Katori Hall – que estreou em 2015 e lotou teatros pelo país todo desde então – ele vivia Martin Luther King em seus últimos momentos de vida, em seu primeiro trabalho como cineasta ele reafirma seu compromisso com a causa da negritude com ainda mais contundência – a ponto de ter incomodado o governo e seus pretensos representantes culturais e ter atrasado seu lançamento comercial. A boa notícia é que, além de ter dado voz a uma história de interesse humano raro, o ator/diretor não deixou de lado seu talento como narrador, construindo uma obra cinematográfica consistente e aterradora.

A peça teatral em que "Medida provisória" se baseia, "Namíbia, Não", de Aldri Anunciação, foi montada pela primeira vez em 2011 – e é chocante como, nos dez anos que separam sua encarnação dos palcos de sua versão para as telas, as coisas não apenas não evoluíram como sofreram um revés brutal. O que há alguns anos poderia soar como uma distopia um tanto distante, hoje em dia surpreende por retratar, sem muitos retoques, uma realidade violenta e atroz que persegue, acua e mata com o aval de parte da população autodescrita como “cidadãos de bem” – muito bem representada, no filme, por uma (mais uma vez) brilhante Renata Sorrah. Discriminação disfarçada de boas intenções é o que move a trama de Medida Provisória – que encontra na direção segura de Lázaro Ramos terreno fértil para discussões relevantes e questionamentos urgentes.

 

A trama do filme se passa em um futuro pouco distante, onde o governo, sob a falácia de reparação histórica – mas com objetivos claríssimos de limpeza étnica – inicia a deportação de todos os cidadãos negros do país para a África. A ideia, logicamente, por sua natureza autoritária e discriminatória, não é aceita passivamente por todos – enquanto alguns brasileiros embarcam de boa vontade e com esperanças de uma nova vida, outros, cientes de suas raízes nacionais e de seu direito à cidadania, batem de frente com o poder estabelecido. Dentre eles, está o jovem advogado Antonio (Alfred Enoch, conhecido pela série "How To Get Away With Murder") e sua esposa, a médica Capitu (Taís Araújo): separados pelas circunstâncias, cada um deles resiste como pode à novidade; ele se recusa a abandonar o apartamento onde mora e se transforma em símbolo de luta; ela, grávida de poucas semanas, se junta a um grupo de opositores à nova medida (uma espécie de quilombo, rebatizado de afrobunker) para organizar uma forma de defesa mais radical. Nesse meio-tempo, batalhas sangrentas ocupam as ruas e o racismo velado da sociedade vem à tona, forçando a uma ruptura de graves consequências.

Seria muito mais confortável ao espectador médio assistir a "Medida provisória" como um filme de ficção científica, como uma espécie de pesadelo cruel e impossível. No entanto, não deixa de ser extremamente incômodo perceber que o que está sendo transmitido na tela diante de nossos olhos é uma metáfora pouco disfarçada de uma situação cada vez menos distante. Felizmente Lázaro Ramos não apela para o sentimentalismo ou a violência gratuita, optando pelo tom de fábula (ainda que realista) e acreditando na potência da trama e de seus personagens – a ponto de ousar fazer um paralelo entre os diferentes tipos de intolerância racial e social. Amparado por um elenco de ouro – Adriana Esteves deita e rola como uma Damares tão cínica e cruel quanto a verdadeira e Seu Jorge quase rouba a cena como o primo do protagonista, dono de uma das cenas mais fortes da produção – e por uma edição ágil e sucinta, "Medida provisória" não funciona apenas como mensagem. É, também, cinema de primeira linha.

terça-feira

O HOMEM DO ANO


O HOMEM DO ANO (O homem do ano, 2003, Conspiração Filmes/Warner Bros, 105min) Direção: José Henrique Fonseca. Roteiro: Rubem Fonseca, livro "O matador", de Patrícia Melo. Fotografia: Breno Silveira. Montagem: Sérgio Mekler. Música: Dado Villa-lobos. Figurino: Cláudia Kopke. Direção de arte/cenários: Kiti Duarte/Toni Vanzolini. Produção executiva: Beto Bruno. Produção: José Henrique Fonseca, Leonardo Monteiro de Barros, Flávio R. Tambelini. Elenco: Murilo Benício, Cláudia Abreu, Natália Lage, Paulo César Pereio, José Wilker, Agildo Ribeiro, Jorge Dória, Lázaro Ramos, Wagner Moura, Amir Haddad, Mariana Ximenes, André Gonçalves, Perfeito Fortuna, Moska, Marilu Bueno. Estreia: 11/4/2003 (Festival de Cognac)

Não fosse o talento indiscutível dos envolvidos,"O homem do ano" poderia facilmente ser confundido com uma reunião de família: o roteiro é do celebrado escritor Rubem Fonseca, que é pai do diretor, José Henrique Fonseca, que por sua vez, é casado com Cláudia Abreu, dona de um dos principais papéis femininos. Basta assistir-se ao filme, porém, para constatar que este feliz encontro artístico apenas valoriza o resultado final, uma trama policial recheada de ironia que envolve o espectador em uma teia de situações quase surreais pelas quais passa o protagonista, um homem comum alçado à condição de herói do dia para a noite. Interpretado por Murilo Benício - perfeito em sua composição quase calada e por vezes atônita -, o lacônico Maiquel é criação da escritora Patrícia Melo em seu livro "O matador", e em sua encarnação cinematográfica é, sem favor, um dos personagens mais interessantes do cinema brasileiro do começo dos anos 2000.

"O homem do ano" se passa no Rio de Janeiro longe dos cartões-postais e apresenta, ao invés de corpos dourados de sol e um clima bossa-nova, um universo claustrofóbico, no qual a violência é tão comum quanto um jogo de sinuca e quaisquer mal-entendidos pode resultar em tragédia. É mais ou menos o que acontece com Maiquel, um jovem introspectivo que tem sua vida virada de cabeça para baixo por um motivo mais que banal: depois de perder uma aposta e ser obrigado a pintar o cabelo de loiro, ele entra em conflito com Suel (Wagner Moura em um papel pequeno mas marcante), um dos clientes do bar que frequenta e, antes que possa mudar de ideia, acaba matando o rapaz diante da namorada dele, Érica (Natália Lage, ótima em um papel bastante complexo). Ao contrário do que imaginava, no entanto, ele não é preso, e sim transformado em um benfeitor pela comunidade, que sofria nas mãos da vítima, um bandido pé-de-chinelo que amedrontava a vizinhança. Se não bastasse as homenagens que começa a receber dos vizinhos, Maiquel é procurado por um grupo de homens endinheirados que lhe propõem um alto pagamento em troca de seu trabalho em eliminar toda e qualquer ameaça à segurança de seus bens. 

 A princípio hesitante em aceitar essa nova incumbência, Maiquel acaba por tornar-se o homem de confiança dos empresários, com todo o respeito que a função possibilita. E se não fosse o bastante, Érica reaparece em sua vida, exigindo que ele a proteja depois da morte de seu amante - um problema que atrapalha os planos de Maiquel de ter uma vida relativamente normal com Cledir (Cláudia Abreu), com quem se casa e começa uma família. Dividido entre as duas mulheres, Maiquel se torna a pedra no caminho de bandidos profissionais, que iniciam uma série de represálias para impedi-lo de continuar sua carreira de matador. Eleito homem do ano pelo grupo que lhe paga - e bem-visto pela comunidade onde mora -, o outrora pacífico rapaz se vê cada vez mais afundado em uma vida regida pela violência e pela paranoia, em que nem mesmo seu suíno de estimação parece estar a salvo. De modo inacreditável, Maiquel, mesmo que pareça dono do seu destino, se sente impotente em acabar com sua nova rotina, preso entre duas mulheres e um trabalho que lhe dá prestígio e dinheiro - mas não a paz de espírito que ele almeja.

A ironia que permeia "O homem do ano" é, sem dúvida, um dos pontos altos do roteiro do veterano Rubem Fonseca, que mantém o estilo direto e seco de Patrícia Melo sem abrir mão de suas particularidades como autor. Seu texto é abrilhantado pelo elenco - Murilo Benício e Natália Lage à frente. e veteranos como Jorge Dória, José Wilker e Agildo Ribeiro como coadjuvantes de luxo - e pela direção inteligente de José Henrique, que conduz a trama com perfeito equilíbrio entre a tensão e o humor quase sombrio. Comparado por alguns críticos ao excepcional "Cidade de Deus" (2002), "O homem do ano" tem como similar apenas a ambientação e o tom realista - ainda que em seu filme Fonseca não se aprofunde em questões sociais ou na violência gráfica. A sutileza do cineasta em evitar, sempre que possível, a sanguinolência explícita, empurra o filme para características dramáticas das mais interessantes - e embora nem sempre tente analisá-las sob um viés psicológico, se aproveita delas para criar uma obra com características únicas, que se sustenta sozinha mesmo dentro um gênero com suas próprias regras. Pelo conjunto de qualidades que apresenta, "O homem do ano" é uma produção que não teve a atenção merecida quando chegou às telas. Nunca é tarde, porém, para reparar uma injustiça!

sábado

MUNDO CÃO

MUNDO CÃO (Mundo cão, 2016, Zencrane Filmes/Globo Filmes, 101min) Direção: Marcos Jorge. Roteiro: Marcos Jorge, Lusa Silvestre. Fotografia: Toca Seabra. Montagem: André Finotti. Figurino: Cássio Brasil. Direção de arte/cenários: Valdy Lopes. Produção executiva: Cláudia da Natividade, Rune Tavares, Rodrigo Sarti Werthein. Produção: Iafa Britz. Elenco: Lázaro Ramos, Babu Santana, Adriana Esteves, Milhem Cortaz, Thainá Duarte, Vini Carvalho, Paulinho Serra. Estreia: 17/3/16

Dividido entre o sucesso comercial de comédias populares - normalmente de qualidade abaixo da média - e filmes com temática policial, o cinema nacional volta e meia tenta dar alguns passos em direção a outros gêneros e enfoques, nem sempre com muito êxito. Um dos exemplos positivos dessa constante busca por novos ares é "Mundo cão", um suspense urbano que tira proveito dos altos índices de intolerância e violência das cidades grandes para mergulhar o público em um pesadelo realista e perturbador. Seguindo a mesma linha do sensacional "O lobo atrás da porta", de Fernando Coimbra, o cineasta Marcos Jorge - que tem no currículo o elogiado "Estômago" (2007) - constrói sua trama dentro de uma realidade plausível e facilmente reconhecível pela plateia, transformando a segurança do lar e da família em um ambiente de medo e angústia. Pode não atingir o mesmo nível de desconforto, mas surpreende pela brutalidade psicológica e pela coragem de eleger como protagonista um cidadão comum e desprovido de qualquer tipo de heroísmo. É a vida real transposta para a tela, ainda que envernizada pela força da ficção e da linguagem cinematográfica.

O cenário é a São Paulo de 2007, antes da extinção da lei que permitia o sacrifício de animais abandonados. O protagonista é Santana (Babu Santana), que trabalha no Departamento de Combate às Zoonoses, recolhendo cães perigosos pelas ruas da cidade ao lado do colega, Ramiro (Paulinho Serra). Bom marido, pai dedicado e homem religioso, Santana nem imagina que toda a sua estrutura doméstica pode vir abaixo quando é chamado à uma escola por conta de um animal raivoso que está assustando as crianças. Trabalhando conforme a lei, os dois colegas levam o cachorro para o Centro, onde esperam o prazo de três dias antes que profissionais especializados o sacrifiquem. Quando o dono do animal aparece é que a coisa complica: Nenê (Lázaro Ramos) é um ex-presidiário, agressivo e explosivo, cuja renda vem parcialmente de rinhas entre cães - e, inconsolável com a perda de um de seus maiores campeões, resolve vingar sua morte. Quem acaba sendo escolhido como alvo para tal retaliação é justamente Santana, que parte em defesa própria no meio de uma discussão e deflagra uma guerra interna com resultados imprevisíveis.


A batalha que se segue - com a vingança de Nenê e a posterior revanche de Santana - é digna dos mais empolgantes filmes de suspense americanos. O roteiro não para de levar o espectador a caminhos os mais diversos, nunca deixando antever os próximos passos de seus personagens. Como um reflexo da irracionalidade animal, suas atitudes partem sempre em direção a consequências mais e mais violentas e incontroláveis, que atingem a todos que os cercam. É assim que Santana, pacífico pai de família, abandona a civilidade quando o que considerava sua maior fortaleza - seu lar em um subúrbio tranquilo - é maculado pela intensidade do ódio. Ao perceber que nem sua mulher, Dilza (Adriana Esteves, ótima), nem seus dois filhos - a adolescente Isaura (Thainá Duarte) e o menino João (Vini Carvalho) - estão a salvo da impetuosidade cruel de Nenê, ele deixa de lado todo e qualquer resquício de humanidade para tornar-se alguém capaz de defender o que lhe resta de dignidade e paz. Esse paradoxo é o grande trunfo do filme de Marcos Jorge: a violência como forma de recuperar a paz.

Com uma direção seca e pontual, que destaca as atuações viscerais de Babu Santana e Lázaro Ramos - o primeiro a quilômetros de distância do Tim Maia que lhe revelou ao grande público e o segundo com um registro de vilão construído em detalhes - "Mundo cão" é um artigo raro dentro da produção de cinema brasileiro. Apostando em um gênero ainda pouco explorado mas repleto de possibilidades, Marcos Jorge oferece ao público uma história forte, sustentada por atores competentes e uma tensão constante, que vai sendo ampliada conforme se percebe todos os seus desdobramentos. Ainda que em algum momento perto do desfecho o ritmo caia um pouco - até como forma de preparar o clímax, irônico e cruel - a edição se equilibra entre a agilidade necessária a um filme com ambições comerciais e a suavidade de uma obra que procura dialogar com discussões mais sérias do que simplesmente jogar nas telas uma sucessão de tragédias. Se sai bem na maior parte do tempo, envolvendo a plateia em sua rede desde as primeiras cenas, e só não é ainda melhor por estender-se demais no terceiro ato. Um pecado menor em um filme que está bem acima da média da produção comercial brasileira.

segunda-feira

MEU TIO MATOU UM CARA

MEU TIO MATOU UM CARA (Meu tio matou um cara, 2004, Casa de Cinema de Porto Alegre/Natasha Filmes, 87min) Direção: Jorge Furtado. Roteiro: Jorge Furtado, Guel Arraes, conto de Jorge Furtado. Fotografia: Alex Sernambi. Montagem: Giba Assis Brasil. Música: André Moraes, Caetano Veloso. Figurino: Rosângela Cortinhas. Direção de arte/cenários: Fiapo Barth. Produção executiva: Nora Goulart, Luciana Tomasi. Produção: Guel Arraes, Paula Lavigne. Elenco: Darlan Cunha, Sophia Reis, Lázaro Ramos, Dira Paes, Aílton Graça, Renan Gioelli, Júlio Andrade, Janaina Kremer Motta. Estreia: 31/12/04

Talvez a mais marcante característica da constante e simpática filmografia do diretor Jorge Furtado seja a despretensão que a permeia. Em filmes como "Houve uma vez dois verões" e "O homem que copiava", seus dois primeiros longas, o cineasta gaúcho nunca deixou de lado seu apego ao humor inteligente, um bairrismo encantador e orgulhoso e um naturalismo raro no cinema nacional, além do objetivo claro de contar histórias simples e banhadas em uma ingenuidade cativante. Em seu terceiro trabalho no formato, "Meu tio matou um cara", Furtado segue sem ambições a receita vitoriosa, ao adaptar um conto de sua própria autoria em uma trama policial sob o ponto de vista de um adolescente apaixonado pela melhor amiga. Leve e enxuto (tem pouco menos de uma hora e meia de duração, contando os créditos), seu filme serve como um alívio certeiro para a violência e a densidade temática que assolou o cinema brasileiro a partir de "Cidade de Deus".

A trama começa quando Éder (Làzaro Ramos, em sua segunda parceria com Furtado) chega à casa de seu irmão, Laerte (Aílton Graça), apavorado com o fato de ter assassinado, em legítima defesa, o ex-marido de sua namorada. Azarado por natureza - todas as suas inclinações empresariais foram por água abaixo sem deixar maiores vestígios - Éder acaba se tornando o assunto principal das conversas de seu sobrinho adolescente, Duca (Darlan Cunha), com a colega de classe/melhor amiga/paixão recolhida Isa (Sophia Reis, filha do cantor Nando Reis). Empolgada com a situação - que lhe permite sair da rotina do dia-a-dia - Isa se torna a parceira de Duca em suas visitas ao tio na cadeia e acaba, sem querer, envolvendo na situação outro amigo em comum, Kid (Renan Gioelli), também apaixonado por ela. Porém, quando conhece a namorada de Éder, a estonteante Soraia (Deborah Secco), o esperto Duca passa a desconfiar que seu tio está apenas servindo de bode expiatório para uma história bem mais complexa do que aparenta.


Co-produzido pela Natasha Filmes - companhia de Paula Lavigne de grande penetração nacional - e co-escrito por Guel Arraes, "Meu tio matou um cara" é, apesar de sua despretensão e simplicidade narrativa (com menos artifícios de linguagem que o habitual na obra do diretor), um passo adiante na carreira de Furtado. Não tanto por sua qualidade - "O homem que copiava" consegue ser melhor em todos os quesitos - mas pelo alcance da produção, que conseguiu inclusive uma trilha sonora original composta por ninguém menos que Caetano Veloso. No mais, a edição se mantém ágil e cadenciada, o visual é caprichado (mas sem os exageros que normalmente transformam os cenários em composições mais vistosas que a trama e os atores) e a direção de atores, como sempre, é a cereja do bolo. Se Lázaro Ramos tem relativamente pouco a fazer como Éder e Deborah Secco faz uso de seu status de símbolo sexual aparecendo seminua em praticamente todas as suas cenas, o elenco jovem acaba por chamar a atenção. Darlan Cunha transmite com perfeição o ar sonhador e esperto de Duca, facilitando ao espectador uma cumplicidade imprescindível, e Sophia Reis, linda, justifica a paixão de seu melhor amigo, além de não se deixar intimidar pelos colegas mais experientes. O vértice final do triângulo, Renan Gioelli, também não compromete.

Assim como os demais filmes de Jorge Furtado, "Meu tio matou um cara" é uma produção esperta, ligeira e bem-humorada, capaz de envolver o público sem maior esforço. Mesmo que o roteiro não se aprofunde em muitas das questões levantadas - e ter um final um tanto abrupto - é simpático o suficiente para que seus pecadilhos sejam facilmente perdoáveis. Um belo passatempo.

O HOMEM QUE COPIAVA

O HOMEM QUE COPIAVA (O homem que copiava, 2003, Casa de Cinema de Porto Alegre/Sony Pictures, 124min) Direção e roteiro: Jorge Furtado. Fotografia: Alex Sernambi. Montagem: Giba Assis Brasil. Figurino: Rosângela Cortinhas. Direção de arte/cenários: Fiapo Barth/Silvia Guerra, Bolivar Lauda, Marnei Pereira. Produção executiva: Nora Goulart, Luciana Tomasi. Elenco: Lázaro Ramos, Leandra Leal, Luana Piovani, Pedro Cardoso, Júlio Andrade, Paulo José. Estreia: 13/6/03

Depois de testar seu talento como realizador de longas-metragens com o simpático e despretensioso "Houve uma vez dois verões", o cineasta gaúcho Jorge Furtado - conhecido pela coleção de prêmios acumulados pelo curta "Ilha das flores" - fez o que todo mundo esperava que ele fizesse: deu mais um passo à frente em sua brilhante carreira. Mais ambicioso - em termos artísticos e narrativos - e mais comercial - por ter em seu elenco nomes conhecidos nacionalmente, como Lázaro Ramos, Leandra Leal e Luana Piovani - "O homem que copiava" consegue ser ainda melhor do que o primeiro filme de Furtado, com uma trama inteligente e repleta de desdobramentos que torna impossível ao espectador adivinhar o que vem pela frente. Utilizando-se de diferentes linguagens para contar sua história de amor e contravenção, Furtado apresenta um misto de comédia, romance e filme policial que lhe assegura, sem favor nenhum, como um dos mais criativos cineastas brasileiros de sua geração - e isso sem deixar de lado seu estilo próprio e suas raízes.

O personagem central do filme é André (Lázaro Ramos), um jovem de classe média baixa que mora em Porto Alegre e trabalha como operador de fotocopiadora - ou simplesmente como "o cara do xerox". Ganhando um salário que não lhe permite quase nenhuma espécie de luxo, ele sonha ganhar a vida como desenhista, enquanto leva uma rotina pacata entre o trabalho e o lar, que divide com a mãe e a paixão por Sílvia (Leandra Leal), uma jovem que mora no prédio em frente ao seu e que espiona com seu binóculo comprado com a economia de um ano de salário. Tentando aproximar-se da garota - que trabalha em uma loja de roupas femininas - ele acaba caindo na tentação de falsificar uma nota de 50 reais com a nova máquina de cópias coloridas de seu patrão. O que poderia ser apenas uma escorregadela ética acaba, porém, se transformando em algo maior quando entra em cena o ambicioso e pouco inteligente Cardoso (Pedro Cardoso, sensacional), que, na tentativa de seduzir a bela Marinês (Luana Piovani) - colega de André - convence o rapaz a manter-se no ramo. Quando o tímido e desajeitado homem da copiadora troca a nota de 50 reais em um estabelecimento comercial, tem início uma série de eventos imprevisíveis e perigosos que ameaçam a integridade dos quatro.


Imprevisível e extremamente divertido - Furtado é um mestre em diálogos inteligentes e bem-humorados - "O homem que copiava" funciona em todos os níveis narrativos que apresenta, graças ao ritmo ágil imposto pela edição do competente Giba Assis Brasil (também cineasta) e ao roteiro recheado de reviravoltas, desvios e saltos cronológicos que, ao invés de confundir o público, apenas aumenta sua curiosidade em relação ao destino de seus protagonistas - todos eles fracassados em maior ou menor grau, e todos eles em busca da redenção financeira que seu ato desonesto pode lhes acarretar. Em um de seus maiores méritos, o roteiro abdica de qualquer tipo de julgamento moral, cobrindo André e companhia de um manto de isenção que praticamente ignora o fato de que todos estão cometendo graves infrações à lei (acredite, falsificar uma nota de 50 dólares é apenas o começo de tudo). Em especial dando à André uma aura de inocência quase infantil - característica que Lázaro Ramos aproveita com extrema sensibilidade - o filme foge das discussões sociopolíticas para manter seu foco no que realmente interessa: uma história boa o bastante para prender o espectador do início ao fim.

E se boa parte dos méritos de "O homem que copiava" é do Jorge Furtado roteirista, não é possível esquecer que também digno de elogios é o Jorge Furtado diretor de atores: até mesmo Luana Piovani está convincente em cena, na pele da exuberante Marinês, objeto de desejo do ambicioso Cardoso e que acaba entrando no esquema como parte importante do desenrolar da trama. Leandra Leal também se destaca, criando uma Sílvia aparentemente passiva que, em um momento crucial, se transforma em uma mocinha das mais interessantes do cinema nacional moderno - tudo sem perder a coerência dramática ou o nível da interpretação. E Pedro Cardoso, mesmo repetindo o estilo de interpretação que lhe deu fama, sai-se extraordinariamente bem, com uma química impecável com Lázaro Ramos em cenas memoráveis, de um humor sutil e perspicaz.

Empolgante, brilhante e divertido, "O homem que copiava" é um dos melhores filmes brasileiros desde a retomada, apesar de muitas vezes ser esquecido nas listas feitas por críticos e ditos especialistas. A anos-luz da estética marginal do cinema de Chico Assis ou das produções pasteurizadas da Globo Filmes, é um meio-termo altamente satisfatório entre os dois estilos. É popular sem ser medíocre, é inteligente sem ser pedante e é bem acabado sem deixar que isso se torne seu maior atrativo. É, enfim, um programaço.

quinta-feira

SANEAMENTO BÁSICO, O FILME


SANEAMENTO BÁSICO, O FILME (Saneamento básico, 2007, Globo Filmes/Casa de Cinema de Porto Alegre, 112min) Direção e roteiro: Jorge Furtado. Fotografia: Jacob Solitrenick. Montagem: Giba Assis Brasil. Música: Leo Henkin. Figurino: Rosângela Cortinhas. Direção de arte/cenários: Fiapo Barth. Produção executiva: Nora Goulart, Luciana Tomasi. Elenco: Fernanda Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga, Bruno Garcia, Lázaro Ramos, Paulo José, Tonico Pereira, Janaina Kremer. Estreia: 20/7/07

Sorte do cinema nacional que ele pode contar com Jorge Furtado. Dono de uma inteligência, de um sarcasmo e de um talento raros, o cineasta gaúcho consegue, com seus filmes, fugir de todos os clichês que imperam na produção nacional, fazendo filmes que são um sopro de leveza e despretensão em comparação com obras que já nascem com o objetivo de ganhar o Oscar ou fazer bonito em festivais internacionais. A filmografia de Furtado - que inclusive fez um arrastão nos tais festivais com seu curta "Ilha das Flores" - é simples, é direta, é eficaz e, acima de tudo, é acessível. Filmes como "Houve uma vez dois verões" e "O homem que copiava" dialogam sem firulas com uma fatia de público que parece ter sido esquecida em tempos de pauladas como "Central do Brasil" e "Cidade de Deus". "Saneamento básico, o filme" segue essa vertente de maneira ainda mais explícita e talvez por isso mesmo, ainda mais engraçada e bem-sucedida.

Ao situar sua ação em uma pequena cidade da serra gaúcha, com uma população de descendentes de italianos, Furtado já de cara demonstra que não tenciona alçar maiores voos cosmopolitas: ele conhece suas personagens, sabe de onde vieram e para onde vão, e elas não vão muito mais longe do que Porto Alegre. Essa falta de pretensão é a primeira das inúmeras qualidades de seu filme - afinal, não dizia Tolstói que para ser universal deve-se começar pintando a própria aldeia? As demais qualidades - o texto divertido, o elenco impecável, a trama absurda - vão sendo apresentadas aos poucos, e é impossível não deliciar-se com todas elas. Irônico e mordaz, o roteiro de Furtado também é, acima de tudo, uma ode de amor ao cinema como arte - ainda que essa camada seja tão sutil que pode passar despercebida diante de tanto bom humor.


Quando o filme começa, um grupo de moradores da pequena cidade de Linha Cristal está reunido para tomar providências sobre a construção de uma fossa para o tratamento do esgoto que anda incomodando a população. Escolhida como representante do grupo para reivindicar a obra por parte da Prefeitura, Marina (Fernanda Torres) descobre que não existe mais dinheiro para tal. Porém, quando fica sabendo que existe uma verba de dez mil reais para a produção de um vídeo (desde que ele tenha a ecologia como tema), Marina chega à conclusão, junto com seu marido, Joaquim (Wagner Moura) de que eles precisam realizar o curta-metragem de ficção solicitado pelo governo. A partir daí, eles reunem a família para criar "O monstro da fossa", um vídeo de terror escrito, dirigido, produzido e estrelado por eles mesmos.

Impossível não assistir-se a "Saneamento básico" sem lembrar-se de "Ed Wood", a sensacional biografia do cineasta dirigido por Tim Burton em 1994. Os dois filmes retratam com perfeição como a criatividade e a paixão por uma causa podem deixar os orçamentos nababescos de lado. Enquanto Wood ainda contava com o então decadente Bela Lugosi para estrelar seus filmes, porém, a turma de Linha Cristal apela para toda e qualquer possibilidade para terminar seu filme, repleto de defeitos mas cheio de boa-vontade. É assim que Silene (Camila Pitanga), irmã de Marina, assume o papel de heroína do filme e seu noivo, Fabrício (Bruno Garcia) vira uma das vítimas do monstro. É pela falta de atores que seu pai, Otaviano (Paulo José) é escalado para o papel de cientista - e se apaixona pela arte de atuar. E é por esse amor ao cinema (de guerrilha, indigente, pobre em dinheiro mas rico em paixão) que "Saneamento básico" conquista de vez a plateia.

Recheado de diálogos fantásticos valorizados pelos incríveis Fernanda Torres e Wagner Moura,
que lideram um elenco nunca aquém de genial - que pinta e borda em cenas nunca menos do que hilariantes, em especial durante as filmagens do curta - e dono de uma história local mas facilmente identificável em qualquer parte do planeta, "Saneamento básico" ainda dá, de leve, uma cutucada na burocracia governamental, na arrogância dos jovens artistas e na falta de interesse pelos problemas reais enfrentados pelas pequenas - e grandes - cidades brasileiras. Está de ótimo tamanho para uma comédia tão despretensiosa!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...