A FALECIDA (A falecida, 1965, Herbert Richers Produções Cinematográficas, 90min) Direção: Leon Hirszman. Roteiro: Leon Hirszsman, Eduardo Coutinho, peça teatral de Nelson Rodrigues. Fotografia: José Medeiros. Montagem: Nello Melli. Música: Radamés Gnatalli. Direção de arte: Régis Monteiro. Produção executiva: J.P. de Carvalho. Produção: Aloísio Leite-Garcia, Joffre Rodrigues. Elenco: Fernanda Montenegro, Ivan Cândido, Paulo Gracindo, Nelson Xavier, Joel Barcellos, Hugo Carvana, Vanda Lacerda. Estreia: 1965
Quando "A falecida" estreou no palco do Teatro Municipal do Rio de
Janeiro, em junho de 1953, já fazia dez anos desde que seu autor, Nelson
Rodrigues, havia revolucionado o teatro brasileiro com a peça "Vestido
de noiva". Nesse meio-tempo, seus textos se tornaram material preferido
dos críticos e dos censores, normalmente escandalizados com seu teor
altamente controverso - leia-se neuroses, incesto, adultério,
homossexualidade e todas as nuances possíveis da sexualidade e da psique
humanas, temas que ele também esparramava nas páginas dos jornais (com
menos polêmica mas muita repercussão) com sua coluna "A vida como ela
é...". Em 1965, quando Leon Hirszman traduziu para as imagens do cinema a
tragicômica história de Zulmira e sua obsessão por um enterro de
rainha, o dramaturgo já havia somado outros sete espetáculos (a grande
maioria deles com problemas com a censura), a ditadura militar já havia
se instaurado no país e o Cinema Novo surgia como uma lufada de ar
fresco diante do terror. Por incrível que pareça, no entanto, o filme de
Hirszman passou incólume à repressão (ainda tímida) e mostrou-se uma
adaptação fiel e poética da obra teatral - amparada por (mais) uma
atuação monstruosa de Fernanda Montenegro.
Ao
chocar a plateia bem pensante do Teatro Municipal do Rio ao colocar no
palco personagens suburbanos que falavam em futebol, iam ao banheiro e
disparavam gírias sem remorso, Nelson Rodrigues fez de "A falecida" um
pequeno marco - à sua maneira, ele estava fundindo um Brasil moderno e
informal à elite cultural acostumada a óperas e balés clássicos. Seu
texto, cru e direto, pode ter causado estranheza ao público, mas serviu
como uma luva para a adaptação fidelíssima de Hirszman, um cineasta de
nítidas preocupações sociais estreando como diretor de longas-metragem:
os diálogos cortantes, a naturalidade quase grotesca e os protagonistas
sem glamour encontraram em Hirszman o diretor ideal. Sem artifícios
narrativos, ele conduz a trama com segurança e placidez, arrancando de
cada cena e cada intérprete o tom exato de sublime e patético - uma
linha tênue comum à obra de Nelson, um analista impenitente da natureza
humana e seus desvãos. Sublinhando seu roteiro com o fino humor do
dramaturgo (em um roteiro coescrito com o futuro documentarista Eduardo
Coutinho), Hirszman não apenas transporta o universo do escritor dos
palcos para a tela: ele comanda o casamento perfeito entre teatro e
cinema, com um texto forte e imagens de grande lirismo - cortesia da
bela fotografia em preto-e-branco de José Medeiros.
Fernanda
Montenegro, que em 1961 já havia se encontrado com o peculiar ponto de
vista de Nelson Rodrigues com sua atuação em "O beijo no asfalto", é a
personificação ideal de Zulmira, a protagonista quase surreal de "A
falecida". Dona-de-casa moradora da Aldeia Campista, ela começa o filme
buscando ajuda nas previsões de uma cartomante suburbana e pouco
confiável chamada Madame Crisálida (Vanda Lacerda): é ela quem irá
alertar Zulmira a respeito de uma loura misteriosa que está à sua volta,
ameaçando seu casamento. Seu marido, Tuninho (Ivan Cândido), é torcedor
fanático do Fluminense e não dá confiança às visões de Madame
Crisálida, mas se vê obrigado a prestar atenção à obsessão da esposa em
relação ao que ela considera um futuro muito próximo: Zulmira tem
certeza de que irá morrer muito em breve - e tem planos mirabolantes
para seu funeral, que ela sonha ser inesquecível aos vizinhos. Para
tanto, ela conta com a certeza da ajuda do milionário Pimentel (Paulo
Gracindo): uma ajuda que, Tuninho irá descobrir logo, não tem nada de
puramente altruísta ou caridosa.
Confiando
plenamente na história e nos atores, Leon Hirszman não faz de "A
falecida" um filme com propostas estilísticas ou temáticas, tão ao gosto
das plateias apaixonadas pelos experimentalismos do Cinema Novo. Seu
primeiro trabalho como cineasta de longas é um filme primoroso, mas que
se sustenta basicamente no talento de todos os envolvidos e na
sensibilidade de traduzir para o cinema a linguagem própria de um autor
consagrado nos palcos. Ao respeitar a personalidade de Nelson Rodrigues
e, ao mesmo tempo, imprimir ao filme sua assinatura pessoal, Hirszman
fez um brilhante trabalho de adaptação, que encanta pela inteligência e
pelo desejo simples de contar uma história - o que, na verdade, é o que
todo cineasta deveria ter em mente. "A falecida" tem uma trama simples,
mas com personagens complexos e uma estrutura ágil, que conquista o
espectador desde sua primeira cena. Nunca a simplicidade foi tão bem
explorada no cinema nacional!
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domingo
segunda-feira
O COLECIONADOR
O COLECIONADOR (The collector, 1965, Columbia Pictures Corporation, 119min) Direção: William Wyler. Roteiro: John Kohn, Stanley Mann, Terry Southern, romance de John Fowles. Fotografia: Robert Krasker, Robert Surtees. Montagem: David Hawkins, Robert Swink. Música: Maurice Jarre. Direção de arte/cenários: John Stoll/Frank Tuttle. Produção: Jud Kinberg, John Kohn. Elenco: Terence Stamp, Samantha Eggar, Mona Washbourne, Maurice Dallimore. Estreia: 05/65 (Festival de Cannes)
3 indicações ao Oscar: Diretor (William Wyler), Atriz (Samantha Eggar), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe: Melhor Atriz/Drama (Samantha Eggar)
Vencedor de 2 Palmas de Ouro/Festival de Cannes: Ator (Terence Stamp), Atriz (Samantha Eggar)
Quem conheceu o ator inglês Terence Stamp apenas em 1994, com a deliciosa comédia australiana "Priscilla, a rainha do deserto" pode demorar a acreditar, mas aquele senhor vestido de mulher e interpretando com propriedade um transexual de meia-idade amargo e mau-humorado já foi considerado um dos homens mais bonitos do mundo. Quem duvida pode confirmar o fato em "O colecionador", um dos filmes de suspense mais elogiados da década de 60, que lhe rendeu a Palma de Ouro de Melhor Ator no Festival de Cannes de 1965: sim, além de símbolo sexual, Stamp também já demonstrava desde então seu talento dramático, em um filme que, apesar de pertencer a um gênero considerado "menor" pela crítica e pela indústria, tornou-se um clássico absoluto e referência para várias gerações de cineastas. Baseado em um romance de John Fowles, "O colecionador" é um claustrofóbico e tenso exercício narrativo, comandado pelo veterano William Wyler - oscarizado por "Ben-hur" (59) - com uma sutileza quase inacreditável. Sem violência gratuita (exceto, lógico, pelo crime que é o centro da trama), é também uma prova de que um bom diretor consegue sair-se bem em qualquer gênero - e até romper uma certa aura de preconceito em relação a alguns deles. Além do prêmio de melhor ator para Terence Stamp, os jurados do Festival de Cannes também acharam justo dar a Palma de melhor atriz à sua parceira de cena, Samantha Eggar, que além disso foi aclamada com um Golden Globe e uma indicação ao Oscar. Nada mal para um tipo de filme normalmente relegado a segundo plano nas cerimônias de premiação.
Referência direta de obras como "Misery", de Stephen King - que foi adaptado para o cinema como "Louca obsessão" e deu uma merecidíssima estatueta dourada para Kathy Bates em 1991 - e aplaudido pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar como um filme "perfeito sob o ponto de vista de direção", "O colecionador" resiste ao tempo mesmo diante de um visual tipicamente sessentista, enfatizado pela fotografia de cores discretas e pelo ritmo que evita a pressa e conquista o público de forma gradual e envolvente. Centrado basicamente na relação entre seus dois protagonistas, o roteiro praticamente inexiste fora das quatro paredes que os cercam, e essa claustrofobia se torna um dos maiores trunfos de Wyler, que arranca de seus atores atuações inesquecíveis e complexas - mérito também da inteligência em optar por um caminho de suspense psicológico em detrimento de sustos ou violência explícita. Quem espera de "O colecionador" mais um exemplar de suspense fácil e barato certamente irá se desapontar. No entanto, quem busca um estudo mais sério sobre as nuances de uma obsessão não terá do que reclamar.
Freddie Clegg (Terence Stamp) é um colecionador obsessivo de borboletas que tem a vida mudada quando ganha um prêmio da loteria. Abandonando seu prêmio como bancário, ele compra uma propriedade isolada do centro de Londres e resolve por em prática um plano ousado: sequestrar a bela estudante de Artes Plásticas Miranda Grey (Samantha Eggar), por quem ele nutre uma paixão silenciosa e antiga. Sem intenções de abusar sexualmente dela ou ao menos pedir dinheiro em troca de sua liberdade, Clegg surpreende sua refém com um comportamento quase gentil, e garante que seu cativeiro tem um prazo limite. Assim que percebe que seu raptor não segue o padrão comum, Miranda inicia com ele um jogo de poder, tentando estabelecer uma dinâmica que os faça conviver pacificamente. O que ela não nota é que sua presença no casarão é apenas uma experiência: Clegg quer ter sobre ela o mesmo controle que tem sobre suas borboletas, e dificilmente se deixará enganar pelas jogadas maquiavélicas da jovem, que se utiliza da beleza e da sedução como armas de convencimento.
Planejado para ser realizado em preto-e-branco (o que certamente aumentaria a sensação de desconforto da protagonista), "O colecionador" chegou às telas com algumas diferenças essenciais em relação ao que William Wyler desejava. A escolha de Samantha Eggar, por exemplo, apesar de providencial e unanimemente aplaudida pela crítica, só foi possível depois que Natalie Wood, Julie
Christie e Sarah Miles recusaram o papel - e Eggar não pode dizer que teve um período muito agradável durante as filmagens, já que era tratada com extrema frieza por seu colega de cena. Stamp, seguindo recomendações do diretor, mal dirigia a palavra à atriz, não interagia com ela fora das filmagens e a tratava sem muitas gentilezas. A tática, apesar de um tanto cruel, funcionou: existe uma tensão palpável entre os dois personagens principais, sempre no tênue limite entre o medo e a fascinação. A sutil trilha sonora é do aclamado Maurice Jarre, que substituiu a escolha inicial (Bernard Herrmann) porque Wyler não queria que o músico, colaborador habitual de Alfred Hitchcock, trouxesse influências do cineasta inglês ao projeto. E o próprio Wyler não ficou nem um pouco feliz com a ideia de diminuir as três horas de duração da metragem inicial para 119 minutos - um corte que arrancou do filme uma trama paralela inteira que envolveria um namorado de Miranda, interpretado por Kenneth More.
O fato de que "O colecionador" tornou-se um ícone do suspense com o passar das décadas é uma prova da capacidade de Wyler em contar sua história de forma envolvente e atemporal. Porém, como nem tudo são flores e o cinema é constantemente acusado de incentivar a violência, um serial killer norte-americano chamado Bob Berdella, que matou pelo menos seis jovens no período de 1984-1987, depois de estuprá-los e torturá-los, assumiu que uma de suas inspirações foi a história de Freddie Clegg. Mesmo com as grandes diferenças entre a obra de ficção e a realidade - sendo a realidade muito mais cruel e chocante - não deixa de ser, a seu modo um tanto torto, uma prova a mais da perenidade do filme. Um clássico ainda muito interessante e perturbador (em especial por seu desfecho inesperado), "O colecionador" permanece como um dos grandes filmes de William Wyler - e um dos exemplares mais coesos de um gênero pouco afeito à posteridade.
3 indicações ao Oscar: Diretor (William Wyler), Atriz (Samantha Eggar), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe: Melhor Atriz/Drama (Samantha Eggar)
Vencedor de 2 Palmas de Ouro/Festival de Cannes: Ator (Terence Stamp), Atriz (Samantha Eggar)
Quem conheceu o ator inglês Terence Stamp apenas em 1994, com a deliciosa comédia australiana "Priscilla, a rainha do deserto" pode demorar a acreditar, mas aquele senhor vestido de mulher e interpretando com propriedade um transexual de meia-idade amargo e mau-humorado já foi considerado um dos homens mais bonitos do mundo. Quem duvida pode confirmar o fato em "O colecionador", um dos filmes de suspense mais elogiados da década de 60, que lhe rendeu a Palma de Ouro de Melhor Ator no Festival de Cannes de 1965: sim, além de símbolo sexual, Stamp também já demonstrava desde então seu talento dramático, em um filme que, apesar de pertencer a um gênero considerado "menor" pela crítica e pela indústria, tornou-se um clássico absoluto e referência para várias gerações de cineastas. Baseado em um romance de John Fowles, "O colecionador" é um claustrofóbico e tenso exercício narrativo, comandado pelo veterano William Wyler - oscarizado por "Ben-hur" (59) - com uma sutileza quase inacreditável. Sem violência gratuita (exceto, lógico, pelo crime que é o centro da trama), é também uma prova de que um bom diretor consegue sair-se bem em qualquer gênero - e até romper uma certa aura de preconceito em relação a alguns deles. Além do prêmio de melhor ator para Terence Stamp, os jurados do Festival de Cannes também acharam justo dar a Palma de melhor atriz à sua parceira de cena, Samantha Eggar, que além disso foi aclamada com um Golden Globe e uma indicação ao Oscar. Nada mal para um tipo de filme normalmente relegado a segundo plano nas cerimônias de premiação.
Referência direta de obras como "Misery", de Stephen King - que foi adaptado para o cinema como "Louca obsessão" e deu uma merecidíssima estatueta dourada para Kathy Bates em 1991 - e aplaudido pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar como um filme "perfeito sob o ponto de vista de direção", "O colecionador" resiste ao tempo mesmo diante de um visual tipicamente sessentista, enfatizado pela fotografia de cores discretas e pelo ritmo que evita a pressa e conquista o público de forma gradual e envolvente. Centrado basicamente na relação entre seus dois protagonistas, o roteiro praticamente inexiste fora das quatro paredes que os cercam, e essa claustrofobia se torna um dos maiores trunfos de Wyler, que arranca de seus atores atuações inesquecíveis e complexas - mérito também da inteligência em optar por um caminho de suspense psicológico em detrimento de sustos ou violência explícita. Quem espera de "O colecionador" mais um exemplar de suspense fácil e barato certamente irá se desapontar. No entanto, quem busca um estudo mais sério sobre as nuances de uma obsessão não terá do que reclamar.
Freddie Clegg (Terence Stamp) é um colecionador obsessivo de borboletas que tem a vida mudada quando ganha um prêmio da loteria. Abandonando seu prêmio como bancário, ele compra uma propriedade isolada do centro de Londres e resolve por em prática um plano ousado: sequestrar a bela estudante de Artes Plásticas Miranda Grey (Samantha Eggar), por quem ele nutre uma paixão silenciosa e antiga. Sem intenções de abusar sexualmente dela ou ao menos pedir dinheiro em troca de sua liberdade, Clegg surpreende sua refém com um comportamento quase gentil, e garante que seu cativeiro tem um prazo limite. Assim que percebe que seu raptor não segue o padrão comum, Miranda inicia com ele um jogo de poder, tentando estabelecer uma dinâmica que os faça conviver pacificamente. O que ela não nota é que sua presença no casarão é apenas uma experiência: Clegg quer ter sobre ela o mesmo controle que tem sobre suas borboletas, e dificilmente se deixará enganar pelas jogadas maquiavélicas da jovem, que se utiliza da beleza e da sedução como armas de convencimento.
Planejado para ser realizado em preto-e-branco (o que certamente aumentaria a sensação de desconforto da protagonista), "O colecionador" chegou às telas com algumas diferenças essenciais em relação ao que William Wyler desejava. A escolha de Samantha Eggar, por exemplo, apesar de providencial e unanimemente aplaudida pela crítica, só foi possível depois que Natalie Wood, Julie
Christie e Sarah Miles recusaram o papel - e Eggar não pode dizer que teve um período muito agradável durante as filmagens, já que era tratada com extrema frieza por seu colega de cena. Stamp, seguindo recomendações do diretor, mal dirigia a palavra à atriz, não interagia com ela fora das filmagens e a tratava sem muitas gentilezas. A tática, apesar de um tanto cruel, funcionou: existe uma tensão palpável entre os dois personagens principais, sempre no tênue limite entre o medo e a fascinação. A sutil trilha sonora é do aclamado Maurice Jarre, que substituiu a escolha inicial (Bernard Herrmann) porque Wyler não queria que o músico, colaborador habitual de Alfred Hitchcock, trouxesse influências do cineasta inglês ao projeto. E o próprio Wyler não ficou nem um pouco feliz com a ideia de diminuir as três horas de duração da metragem inicial para 119 minutos - um corte que arrancou do filme uma trama paralela inteira que envolveria um namorado de Miranda, interpretado por Kenneth More.
O fato de que "O colecionador" tornou-se um ícone do suspense com o passar das décadas é uma prova da capacidade de Wyler em contar sua história de forma envolvente e atemporal. Porém, como nem tudo são flores e o cinema é constantemente acusado de incentivar a violência, um serial killer norte-americano chamado Bob Berdella, que matou pelo menos seis jovens no período de 1984-1987, depois de estuprá-los e torturá-los, assumiu que uma de suas inspirações foi a história de Freddie Clegg. Mesmo com as grandes diferenças entre a obra de ficção e a realidade - sendo a realidade muito mais cruel e chocante - não deixa de ser, a seu modo um tanto torto, uma prova a mais da perenidade do filme. Um clássico ainda muito interessante e perturbador (em especial por seu desfecho inesperado), "O colecionador" permanece como um dos grandes filmes de William Wyler - e um dos exemplares mais coesos de um gênero pouco afeito à posteridade.
sexta-feira
REPULSA AO SEXO
REPULSA AO SEXO (Repulsion, 1965, Compton Films, 105min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gerard Brach, adaptação de David Stone. Fotografia: Gilbert Taylor. Montagem: Alastair McIntyre. Música: Chico Hamilton. Direção de arte: Seamus Flannery. Produção: Gene Gutowski. Elenco: Catherine Deneuve, Ian Hendry, John Fraser, Yvonne Furneaux, Patrick Wymark. Estreia: 19/5/65 (Festival de Cannes)
A intenção do cineasta Roman Polanski e do roteirista Gerard Brach era simples e clara: eles queriam realizar um filme bem-sucedido comercialmente que lhes desse financiamento para aquele que consideravam um projeto mais pessoal e ambicioso, o suspense "Armadilha do destino". Para isso, aceitaram a encomenda de uma produtora de filmes pornô - a Compton Films - para que criassem um filme de terror que mudasse um pouco sua imagem diante do público. Com um orçamento ínfimo de 270 mil dólares, uma atriz francesa ainda iniciante chamada Catherine Deneuve liderando o elenco e uma trama que se utilizava da auto-repressão sexual como ponto de partida, "Repulsa ao sexo" saiu do Festival de Berlim de 1965 com o Prêmio Especial do Júri e representou o início de uma relação de admiração e prestígio da crítica em relação ao diretor. Em seu primeiro filme em língua inglesa, Polanski já deixava claro seu interesse quase obsessivo pelo lado escuro da vida, uma marca inconfundível de sua filmografia futura - e demonstrava que, como poucos cineastas de sua geração, sabia como manipular o suspense sem apelar para o susto fácil.
A trama de "Repulsa ao sexo" se passa em Londres, mas uma Londres em preto-e-branco bem distinta da capital inglesa da geração flower power ou do amor livre. É por ruas sem glamour ou alegria que passa todos os dias a caminho do seu trabalho em uma clínica de estética a tímida e discreta Carol Ledoux (vivida com graça e competência por uma Catherine Deneuve no auge da beleza). Avessa a qualquer tipo de aproximação masculina - inclusive do eterno pretendente, Colin (John Fraser) - e a todo tipo de menção a fatos relacionados a sexo e relacionamentos, Carol sente-se desconfortável com a constante presença do amante de sua irmã, Helen (Yvonne Furneaux), no apartamento alugado que dividem. Para ela, não é apenas o fato de Michael (Ian Hendry) ser casado que a incomoda, e sim sua proximidade e sua ostensiva felicidade sexual, que a afrontam e deixam aflorar, pouco a pouco, um desequilíbrio só perceptível em detalhes como a apatia e a tensão intermitente. Quando Helen e Michael viajam juntos e a deixam sozinha em casa, Carol começa a escorregar definitivamente para a loucura: sofrendo de alucinações de todo tipo (como braços que saem das paredes para agarrá-la) e o medo cada vez mais patológico de qualquer contato com homens (sejam eles amigáveis como Colin ou desprezíveis como o senhorio que vai cobrar o aluguel e a assedia sexualmente), a jovem perde de vez o vínculo com a sanidade mental.
Sem apostar em psicologismos baratos para explicar as razões de sua protagonista - as conclusões podem ser tiradas de acordo com a bagagem do espectador - Roman Polanski prefere conduzir sua narrativa de forma a mergulhar o espectador na aterrorizante jornada de Carol sem buscar subterfúgios que não os visuais. E para isso, ele conta com a brilhante fotografia de Gilbert Taylor - que investe em lentes grandes angulares para distorcer tanto o ponto de vista da personagem quanto a maneira com que o mundo à sua volta vai se tornando gradualmente mais expressionista e claustrofóbico - e a direção de arte inteligente, que cria um cenário aparentemente banal (um apartamento barato) para transformá-lo, no decorrer da história, no palco de uma tragédia quase anunciada, com direito a sangue, a carne de um coelho que vai apodrecendo lentamente e um clima de tensão absoluta, pontuado pela trilha sonora discreta de Chico Hamilton, que evita invadir desnecessariamente as cenas, explodindo apenas quando torna-se essencial.
É especialmente interessante a maneira com que Polanski espalha, pelo filme, referências fálicas que enfatizam ainda mais o estado de espírito doentio de sua protagonista. São escovas de dente dentro de copos, cigarros em cinzeiros e edifícios que atormentam Carol em seu dia-a-dia, preenchidos ainda com as reclamações de suas colegas de trabalho a respeito dos homens, trabalhadores de obras que não hesitam em passar-lhe cantadas e uma rotina profissional tediosa que não a impede de afundar sem proteção em seu desatino. É brilhante a metáfora das paredes rachadas no apartamento - que refletem com exatidão a fragmentação da personalidade de Carol e a inevitabilidade de seu desmoronamento. O roteiro de Polanski e Brach não poupa nem a personagem nem o público, sufocando-os com um manto de angústia e solidão que encontra amparo na atuação perfeita de Catherine Deneuve, que consegue o feito de conquistar a plateia com sua aflição e fazê-la inclusive perdoar seus atos de violência. Primeiro filme da "trilogia do apartamento" de Roman Polanski - que se completa com "O bebê de Rosemary" (68) e "O inquilino" (76), estrelado pelo próprio diretor - "Repulsa ao sexo" é um suspense psicológico exemplar, tanto do ponto de vista formal e estético quanto de narrativa. Para ver e rever.
A intenção do cineasta Roman Polanski e do roteirista Gerard Brach era simples e clara: eles queriam realizar um filme bem-sucedido comercialmente que lhes desse financiamento para aquele que consideravam um projeto mais pessoal e ambicioso, o suspense "Armadilha do destino". Para isso, aceitaram a encomenda de uma produtora de filmes pornô - a Compton Films - para que criassem um filme de terror que mudasse um pouco sua imagem diante do público. Com um orçamento ínfimo de 270 mil dólares, uma atriz francesa ainda iniciante chamada Catherine Deneuve liderando o elenco e uma trama que se utilizava da auto-repressão sexual como ponto de partida, "Repulsa ao sexo" saiu do Festival de Berlim de 1965 com o Prêmio Especial do Júri e representou o início de uma relação de admiração e prestígio da crítica em relação ao diretor. Em seu primeiro filme em língua inglesa, Polanski já deixava claro seu interesse quase obsessivo pelo lado escuro da vida, uma marca inconfundível de sua filmografia futura - e demonstrava que, como poucos cineastas de sua geração, sabia como manipular o suspense sem apelar para o susto fácil.
A trama de "Repulsa ao sexo" se passa em Londres, mas uma Londres em preto-e-branco bem distinta da capital inglesa da geração flower power ou do amor livre. É por ruas sem glamour ou alegria que passa todos os dias a caminho do seu trabalho em uma clínica de estética a tímida e discreta Carol Ledoux (vivida com graça e competência por uma Catherine Deneuve no auge da beleza). Avessa a qualquer tipo de aproximação masculina - inclusive do eterno pretendente, Colin (John Fraser) - e a todo tipo de menção a fatos relacionados a sexo e relacionamentos, Carol sente-se desconfortável com a constante presença do amante de sua irmã, Helen (Yvonne Furneaux), no apartamento alugado que dividem. Para ela, não é apenas o fato de Michael (Ian Hendry) ser casado que a incomoda, e sim sua proximidade e sua ostensiva felicidade sexual, que a afrontam e deixam aflorar, pouco a pouco, um desequilíbrio só perceptível em detalhes como a apatia e a tensão intermitente. Quando Helen e Michael viajam juntos e a deixam sozinha em casa, Carol começa a escorregar definitivamente para a loucura: sofrendo de alucinações de todo tipo (como braços que saem das paredes para agarrá-la) e o medo cada vez mais patológico de qualquer contato com homens (sejam eles amigáveis como Colin ou desprezíveis como o senhorio que vai cobrar o aluguel e a assedia sexualmente), a jovem perde de vez o vínculo com a sanidade mental.
Sem apostar em psicologismos baratos para explicar as razões de sua protagonista - as conclusões podem ser tiradas de acordo com a bagagem do espectador - Roman Polanski prefere conduzir sua narrativa de forma a mergulhar o espectador na aterrorizante jornada de Carol sem buscar subterfúgios que não os visuais. E para isso, ele conta com a brilhante fotografia de Gilbert Taylor - que investe em lentes grandes angulares para distorcer tanto o ponto de vista da personagem quanto a maneira com que o mundo à sua volta vai se tornando gradualmente mais expressionista e claustrofóbico - e a direção de arte inteligente, que cria um cenário aparentemente banal (um apartamento barato) para transformá-lo, no decorrer da história, no palco de uma tragédia quase anunciada, com direito a sangue, a carne de um coelho que vai apodrecendo lentamente e um clima de tensão absoluta, pontuado pela trilha sonora discreta de Chico Hamilton, que evita invadir desnecessariamente as cenas, explodindo apenas quando torna-se essencial.
É especialmente interessante a maneira com que Polanski espalha, pelo filme, referências fálicas que enfatizam ainda mais o estado de espírito doentio de sua protagonista. São escovas de dente dentro de copos, cigarros em cinzeiros e edifícios que atormentam Carol em seu dia-a-dia, preenchidos ainda com as reclamações de suas colegas de trabalho a respeito dos homens, trabalhadores de obras que não hesitam em passar-lhe cantadas e uma rotina profissional tediosa que não a impede de afundar sem proteção em seu desatino. É brilhante a metáfora das paredes rachadas no apartamento - que refletem com exatidão a fragmentação da personalidade de Carol e a inevitabilidade de seu desmoronamento. O roteiro de Polanski e Brach não poupa nem a personagem nem o público, sufocando-os com um manto de angústia e solidão que encontra amparo na atuação perfeita de Catherine Deneuve, que consegue o feito de conquistar a plateia com sua aflição e fazê-la inclusive perdoar seus atos de violência. Primeiro filme da "trilogia do apartamento" de Roman Polanski - que se completa com "O bebê de Rosemary" (68) e "O inquilino" (76), estrelado pelo próprio diretor - "Repulsa ao sexo" é um suspense psicológico exemplar, tanto do ponto de vista formal e estético quanto de narrativa. Para ver e rever.
segunda-feira
DOUTOR JIVAGO
DOUTOR JIVAGO (Doctor Zhivago, 1965, MGM Pictures,197min) Direção: David Lean. Roteiro: Robert Bolt, baseado no romance de Boris Pasternak. Fotografia: Freddie Young. Montagem: Norman Savage. Música: Maurice Jarre. Figurino: Phyllis Dalton. Direção de arte/cenários: John Box / Dario Simoni. Produção: Carlo Ponti. Elenco: Omar Sharif, Julie Christie, Rod Steiger, Tom Courtenay, Geraldine Chaplin, Alec Guinness, Klaus Kinski, Ralph Richardson. Estreia: 22/12/65
10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David Lean), Ator Coadjuvante (Tom Courtenay), Roteiro Adaptado, Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino em Cores, Direção de arte/Cenários em Cores, Som
Vencedor de 5 Oscar: Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores
Vencedor de 5 Golden Globes: Filme/Drama, Diretor (David Lean), Ator/Drama (Omar Sharif), Roteiro, Trilha Sonora
Houve um tempo em Hollywood que a palavra "épico" sempre vinha acompanhada do nome do diretor David Lean, e não era para menos. Basta assistir a qualquer um de seus filmes mais famosos - "A ponte do Rio Kwai" e "Lawrence da Arábia", por exemplo, para ficar apenas nas obras que lhe deram o Oscar - para perceber que o cineasta inglês tinha uma fascinação mais do que corriqueira por histórias que exigissem vastas paisagens, personagens apaixonadas - por uma causa, por uma missão, por uma pessoa - e principalmente histórias que se prestassem a longas durações. Exagero? "Lawrence" tem 216 minutos, "Rio Kwai" tem 161. Tendo isso tudo em vista, não é nada surpreendente que ele tenha se interessado pela adaptação cinematográfica do romance "Doutor Jivago", escrito por Boris Pasternak. Afinal de contas, além de todos os ingredientes citados acima, o livro de Pasternak - publicado em 1958 apenas fora da União Soviética, que só o pode ler em 1989 - ainda tinha um viés social que aumentava consideravelmente seu poder de sedução junto a uma plateia que dava seus primeiros passos em direção à consciência política. Sintomaticamente, "Doutor Jivago" foi o filme mais popular de Lean, arrecadando sozinho mais do que todos os seus trabalhos anteriores somados.
"Doutor Jivago" começa pra valer em 1912, às vésperas da I Guerra Mundial, em Moscou. É lá que o poeta e estudante de Medicina Yuri Jivago (Omar Sharif) toma contato com as diferenças sociais que empurram aos poucos a Rússia a uma revolução. Noivo de sua irmã de criação, Tonya (Geraldine Chaplin), ele conhece a bela Lara (Julie Christie), uma jovem que desperta os desejos lascivos do poderoso Komarovsky (Rod Steiger) que, entre outras mulheres, também é amante de sua mãe. Lara é noiva de Pasha (Tom Courtenay), um dos mais engajados membros do partido que tenciona tomar o poder russo. Quando a Guerra realmente chega, Lara e Jivago se reencontram em circunstâncias bastante dramáticas - ele como médico e ela como enfermeira voluntária - e se apaixonam, apesar de seus compromissos sentimentais (embora ela nunca mais tenha visto seu marido, um dos líderes do movimento que em pouco tempo forçará a Revolução Russa). Ao retornar para Moscou, Jivago encontra seu país em estado crítico, tendo a própria mansão de sua família invadida por dezenas de famílias. Ao recolher-se ao interior da Rússia com a mulher, o sogro e o filho, ele volta a encontrar Lara, e dessa vez eles se entregam ao forte sentimento que nutrem um pelo outro. A felicidade, no entanto, é efêmera, uma vez que a guerra civil que divide o país eclode e ameaça seu relacionamento.
Épico no sentido mais amplo do termo, "Doutor Jivago" é um espetáculo para ser degustado com admiração incondicional. A impressionante fotografia de Freddie Young, premiada com o Oscar, é uma das mais extraordinárias da história do cinema, marcando com eficiência e sensibilidade a passagem do tempo e o estado de espírito das personagens - não foi à toa que as filmagens sofreram grande atraso devido ao perfeccionismo de Lean, que fez questão de filmar cada cena dentro de seu respectivo período de tempo. A neve, que é visão constante ao espectador nunca foi tão linda, assim como a areia do deserto nunca esteve tão fotogênica quanto em "Lawrence da Arábia" . E os inúmeros closes nos olhos azuis de Christie apenas reforçam sua beleza e sua fragilidade, que se transforma em uma força inesperada em momentos extremos. Mas apesar do talento tanto de Julie quanto de Sharif, o romance entre suas personagens talvez seja o elo mais fraco de toda a trama.
Por incrível que pareça quando se trata de um épico romântico, a história de amor entre Jivago e Lara não chega a conquistar o público tanto quanto o cenário político-social em que ela se desenrola. Mesmo que as cenas entre os dois sejam de uma beleza inegável - culpa também da extraordinária e consagrada trilha sonora de Maurice Jarre - o interesse da plateia acaba sendo muito maior na trama política do filme e em suas consequências. Algumas cenas bastante violentas - mas ainda assim de uma poesia dolorosa - são magistralmente dirigidas por Lean em contraponto à placidez silenciosa de outras sequências.O roteiro, que condensa um livro de mais de 600 páginas em pouco mais de três horas de duração, busca fazer milagres. Ao mesmo tempo que foge gloriosamente do didatismo - o que de certa forma deixa a plateia um pouco perdida em alguns momentos - tenta fazer acreditar no romance entre seus protagonistas. Não é tarefa das mais fáceis e nem sempre seu objetivo é atingido plenamente - nas páginas escritas por Pasternak a paixão entre Jivago e Lara soa mais crível e avassaladora do que na tela, onde Sharif e Julie - atraentes, sem dúvida, mas um tanto apáticos - não transmitem o amor intenso de suas personagens. Comparados com a fúria de Rod Steiger e Tom Courtenay (o último indicado ao Oscar de coadjuvante) eles empalidecem bastante, mas ainda assim conquistam a cumplicidade do espectador. Em todo caso, poderia ter sido pior, já que o produtor Carlo Ponti queria que sua esposa Sophia Loren interpretasse a protagonista (dá pra imaginar a voluptuosa Loren na pele da sentimental Lara?)
"Doutor Jivago" é um grande filme. Soa moderno ainda hoje, graças à direção de Lean, que mescla seu estilo clássico com a garra e o perfeccionismo costumeiros. Embala os corações mais sensíveis com sua história de amor e enche os olhos daqueles que apreciam um cinema-espetáculo com seu visual arrebatador. Boris Pasternak ganhou o Nobel de Literatura por seu trabalho. E David Lean o adaptou à altura. Um filme para ver e rever!
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