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sexta-feira

O VIOLINISTA QUE VEIO DO MAR

 


O VIOLINISTA QUE VEIO DO MAR ( Ladies in Lavender, 2004, UK Film Council/Baker Street/Future Films, 104min) Direção: Charles Dance. Roteiro: Charles Dance, conto de William J. Locke. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Michael Parker. Música: Nigel Hess. Figurino: Barbara Kidd. Direção de arte/cenários: Caroline Amies/David Hindle. Produção executiva: Bill Allan, Charles Dance, Emma Hayter, Robert Jones. Produção: Elizabeth Karlsen, Nik Powell. Elenco: Judi Dench, Maggie Smith, Daniel Bruhl, Natascha McElhone, Freddie Jones, Toby Jones, Miriam Margoyles. Estreia: 14/6/2004 (Festival de Taormina)

Conhecido por seu trabalho como intérprete em produções de prestígio como "Assassinato em Gosford Park" (2001) e "O jogo da imitação" (2014) e séries premiadas como "Game of thrones" e "The crown", o ator britânico Charles Dance tem, em seu currículo, uma interessantíssima incursão como diretor. Lançado discretamente em 2004, "O violinista que veio do mar" já seria imperdível por ter seu elenco liderado pelas espetaculares Judi Dench e Maggie Smith, mas, além disso - e de ser o primeiro trabalho em língua inglesa do alemão Daniel Bruhl -, a adaptação do conto de William J. Locke é um filme acima da média, com um ritmo delicado que ecoa as belas paisagens da costa inglesa e brinda o espectador com personagens fascinantes e uma trama que surpreende pelos desdobramentos inusitados (mas nunca inverossímeis ou tirados da manga). Valorizado pelos desempenhos exemplares de Dench e Smith - o que não chega a ser uma surpresa -, o filme de Dance é um deleite para os fãs de histórias contadas com sutileza e sobriedade.

A trama gira em torno de Ursula (Judi Dench) e Janet (Maggie Smith), duas irmãs viúvas que moram juntas em um chalé na costa da Cornualha, poucos anos antes da II Guerra Mundial. Sua rotina pacata e sem grandes acontecimentos é abalada depois de uma violenta tormenta, quando um jovem desacordado é encontrado na praia. A princípio temerosas de colocar um desconhecido dentro de casa, logo elas resolvem cuidar do rapaz, que não fala sua língua e cuja origem é uma incógnita. Aos poucos sua comunicação vai ficando menos complicada: ao aprender noções rudimentares de inglês, o novo hóspede se identifica como Andrea, um polonês que, a caminho dos EUA para tentar a sorte como violonista, sobreviveu a um naufrágio. Enquanto se recupera dos ferimentos, Andrea, sem perceber, despertar sentimentos há muito enterrados nas duas solitárias idosas - que passam a temer sua partida especialmente quando ele inicia uma amizade com a extrovertida Olga (Natasha McElhone), uma bela russa que mora nas proximidades do chalé.

 

Fazendo pequenas alterações na história original - como a transferência para os anos pré-I Guerra Mundial e o desfecho da relação entre os protagonistas -, o roteiro do também diretor se apoia em pequenos momentos, emoções discretas e diálogos curtos (mas repletos de subtextos). Acostumadas a atuações minimalistas e sutis, Judi Dench e Maggie Smith voltam a encantar com desempenhos comoventes, pontuadas pelo bom trabalho do alemão Daniel Bruhl em seu primeiro filme falado em inglês: a interação entre os três personagens principais são o que há de melhor na obra, em uma dinâmica pontuada de mistério, sedução e até um pouco de suspense. Deixando sempre no ar uma série de possibilidades que impedem que o espectador adivinhe os próximos acontecimentos, o filme de Dance imprime uma sensação deliciosa de uma história contada em frente à lareira, com personagens humanos e bem escritos diante de situações que caminham entre o romântico e trágico. Só não é ainda melhor por sua falha em explorar a contento a relação entre o misterioso violinista e Olga - um relacionamento que nunca deixa exatamente claro a que veio (a não ser precipitar o ato final da trama).

Em seu primeiro (e até agora único) trabalho como diretor, Charles Dance mostra-se atento às sutilezas, tanto de sua trama quanto de suas estupendas atrizes. Talvez pelo fato de ser também um intérprete, Dance valoriza a construção paulatina de climas e relações entre seus personagens, enfatizando-as mais do que à própria trama, que serve, na verdade, como uma forma de retrato da solidão e suas vicissitudes. Narrado em um ritmo delicado que não deixa espaço para cortes bruscos e catarses exageradas, "O violinista que veio do mar" é um oásis de paz e sensibilidade - e mais um exemplo do talento dos colaboradores envolvidos.

sábado

CHOCOLATE


CHOCOLATE (Chocolate, 2000, Miramax, 121min) Direção: Lasse Halstrom. Roteiro: Robert Nelson Jacobs, romance de Joanne Harris. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Andrew Mondshein. Música: Rachel Portman. Figurino: Renée Ehrlich Kalfus. Direção de arte/cenários: David Gropman/Stephenie McMillan. Produção executiva: Alan C. Blomquist, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: David Brown, Kit Golden, Leslie Holleran. Elenco: Juliette Binoche, Judi Dench, Johnny Depp, Lena Olin, Alfred Molina, Carrie-Anne Moss, Peter Stormare, Leslie Caron, Victoire Thivisol. Estreia: 15/12/2000

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Juliette Binoche), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original

 Dentre os indicados ao Oscar de melhor filme do ano de 2000 - com produções aplaudidas pela crítica ("Traffic" e "O tigre e o dragão") e sucessos de bilheteria ("Erin Brockovich: uma mulher de talento" e o grande vencedor, "Gladiador") -, a presença do apenas correto "Chocolate", dirigido pelo sueco Lasse Halstrom, pegou muita gente de surpresa. Porém, não era preciso pensar muito para descobrir os motivos de sua lembrança pelos membros da Academia: com uma campanha agressiva que caracterizava sua produtora, a Miramax (responsável pelo sucesso de "Shakespeare apaixonado" contra o superior "O resgate do soldado Ryan", da temporada 1998), os então todo-poderosos Bob e Harvey Weinstein fizeram de um drama convencional e simpático o candidato da temporada preferido dos mais românticos - e de quebra arrancou ainda indicações importantes, como atriz (Juliette Binoche), atriz coadjuvante (Judi Dench) e roteiro adaptado. Porém, a verdade é que, se não fosse o belo empurrão dos irmãos Weinstein, o filme adaptado do romance de Joanne Harris até poderia encantar o público, mas dificilmente chegaria ao páreo final. Isso não significa, no entanto, que o filme de Halstrom seja medíocre - ele é apenas pouco memorável, apesar da união de enormes talentos.

A trama se passa em uma pequena cidade francesa, em 1959. É lá que chega a misteriosa e sedutora Vianne Rocher (Juliette Binoche), acompanhada de sua pequena filha, Anouk (Victoire Thivisol). As duas chegam às vésperas da Semana Santa com o objetivo de abrir uma chocolateria - e o fato de desafiarem - ainda que inconscientemente - os dogmas religiosos da cidade, esmagadoramente católica e liderada com mão de ferro pelo prefeito, Conde de Reynaud (Alfred Molina), um homem de preceitos morais rígidos e que é assombrado pelo desaparecimento da esposa, anos antes. Espontânea e independente, Vianne divide opiniões na pequena cidade: enquanto boa parte da população segue a opinião equivocada de Reynaud, outros habitantes se deixam seduzir por seus belos e deliciosos chocolates e por seus conselhos - que abalam o até então pacato local. É Vianne, por exemplo, que aproxima sua locatária, Amande Voizin (Judi Dench), de seu neto, mantido afastado por obra de sua filha, Caroline (Carrie-Anne Moss), e incentiva a submissa Josephine Muscat (Lena Olin) a dar um basta em casamento com o abusivo Serge (Peter Stormare). Como se não bastasse tantos problemas, a situação fica ainda pior com a chegada de um grupo de nômades, que reacendem os preconceitos dos moradores. Quando seu líder, Roux (Johnny Depp) se envolve romanticamente com Vianne não é apenas a magia de seus doces que passa a perturbar Reynaud e a parcela conservadora do local: tratados com rispidez e intolerância, resta a eles lutarem por seus direitos ou partir para outra cidade.


 

A atmosfera romântica e lúdica de "Chocolate" é seu maior trunfo: a fotografia suave de Roger Pratt e a trilha sonora de Rachel Portman conduzem o espectador a um universo quase de contos-de-fada, valorizado pela cuidadosa reconstituição de época. A presença de Juliette Binoche - em papel recusado por Gwyneth Paltrow (queridinha dos irmãos Weinstein) - é outro achado do filme: mesmo que não tenha necessitado utilizar-se de todo seu potencial, a atriz francesa oferece ao espectador o carisma necessário para envolver o público em uma trama que, se não apresenta maiores novidades, tampouco decepciona aos fãs do gênero. Explorando com delicadeza o clichê da forasteira misteriosa que altera a dinâmica de uma sociedade conservadora, a trama de Joanne Harris - adaptada por Robert Nelson Jacobs, indicado ao Oscar da categoria - brinda o público com personagens fascinantes (ainda que não devidamente aprofundados) interpretados por atores acima de qualquer crítica. Lena Olin (casada com o diretor Lasse Halstrom) brilha na pele de uma mulher descobrindo sua própria força, soterrada em um casamento tóxico. Alfred Molina exercita sua persona de vilão com um Conde Reynaud com sentimentos escondidos sob uma carcaça insensível. E Judi Dench, excelente como sempre, mereceu sua indicação ao Oscar de atriz coadjuvante como a aparentemente ríspida Amande - que se revela uma mulher ansiando pelo reencontro com a família que lhe foi tirada pela própria filha.

Acertando em colocar o romance entre Vienna e Roux como trama secundária - preferindo focar a relação da doceira com os preconceitos locais em primeiro plano -, "Chocolate" é um filme que, assim como o doce que lhe dá título, oferece conforto e satisfação, ao menos durante as duas horas de sua duração. Mas é inegável que, apesar de ser vendido como uma produção ao estilo europeu, não consegue disfarçar certa superficialidade em seu roteiro e até mesmo na direção quase mecânica de Halstrom - que pouco antes havia brindado os cinéfilos com o doce "Regras da vida" (1999). Esteticamente caprichado e com um elenco de sonhos, "Chocolate" é o filme ideal para quem procura um drama mais leve e com um pé na fantasia - elemento sublinhado pela narração em off, que lhe empresta um tom de fábula apropriado e delicado. Talvez não tenha merecido um lugar entre os melhores filmes de um ano que deu ao mundo "Billy Elliot", "Quase famosos" e "Réquiem para um sonho", mas é difícil não se deixar seduzir pelo menos enquanto dura a sessão.

terça-feira

ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE (2017)


ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE (Murder on the Orient Express, 2017, 20th Century Fox, 114min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Michael Green, romance de Agatha Christie. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Mick Audsley. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Rebecca Alleway, Caroline Smith. Produção executiva: Matthew Jenkins, Dillon Kilvo, James Prichard, Aditya Sood, Hilary Strong. Produção: Kenneth Branagh, Mark Gordon, Judy Hofflund, Simon Kinberg, Michael Schaefer, Ridley Scott. Elenco: Kenneth Branagh, Judi Dench, Michelle Pfeiffer, Penelope Cruz, Johnny Depp, Leslie Odom Jr., Derek Jacobi, Josh Gad, Olivia Colman, Willem Dafoe. Estreia: 03/11/2017

Publicado em 1934 e considerado por leitores e críticos como um dos maiores romances policiais de todos os tempos, "Assassinato no Expresso do Oriente" não apenas consagrou definitivamente a inglesa Agatha Christie como "a rainha do crime" como também se mantém no inconsciente coletivo há quase um século. Sua trama, repleta de pistas falsas, ritmo ágil e um desenvolvimento intrigante, mostra o detetive Hercule Poirot no auge de sua perspicácia e apresenta um desfecho antológico - dos mais surpreendentes da prolífica carreira da escritora. Clássico absoluto do gênero, o livro ganhou uma adaptação caprichada em 1974 - quarenta anos após seu lançamento -, sob a direção de Sidney Lumet e um elenco internacional recheado de astros - de Albert Finney como Poirot a uma verdadeira constelação que incluía Lauren Bacall, Sean Connery, Jacqueline Bissett, Anthony Perkins, Maggie Smith e Ingrid Bergman, premiada com um Oscar de atriz coadjuvante. Em 2010, chegou à televisão em um episódio da série britânica "Poirot" - com o famoso investigador interpretado por David Suchet e nomes como Jessica Chastain, Barbara Hershey e Toby Jones emprestando credibilidade ao resultado final. E é de se perguntar por que, mesmo diante de duas versões aplaudidas e fiéis à fonte original, o irlandês Kenneth Branagh considerou necessária uma nova releitura. Pior ainda: em que momento o outrora celebrado cineasta achou cabíveis as alterações criminosas que seu filme - lançado no final de 2017 - fez na história concebida pela mente genial de Christie?

Os (inúmeros) fãs da escritora ficaram revoltados com as liberdades que o roteiro de Michael Green tomou em relação à obra original - tanto em termos da história em si (com personagens amalgamados) quanto pela descaracterização radical do protagonista Hercule Poirot. Retratado nos romances como um senhor de idade avançada, de modos finos e radicalmente contra qualquer tipo de violência - além de privilegiar o cérebro em detrimento de embates físicos -, Poirot viu sua versão cinematográfica rejuvenescer, emagrecer, ter um amor do passado (mostrado apenas em fotografia) e, pior do que tudo, se envolver em lutas, tiroteios e perseguições. É de lamentar que Kenneth Branagh - um ator de talento e sensibilidade o suficientes para que fosse uma espécie de embaixador de Shakespeare na Hollywood dos anos 1990 - tenha se deixado levar pelo ego, a ponto de fazer de seu detetive um super-herói que muito pouco lembra o ídolo dos leitores do gênero. Enquanto no livro Poirot ia aos poucos desvendando todos os meandros que levaram a um misterioso homicídio ocorrido em um dos meios de transporte mais sofisticados do mundo, no filme as conclusões são jogadas, quase como se o personagem tivesse dons paranormais. E se Poirot era, antes de qualquer coisa, um cavalheiro, no filme de Branagh ele não hesita em levantar a voz quando necessário - mesmo que isso destoe radicalmente de sua real personalidade. Não é preciso dizer que, mesmo sendo um bom ator, o ex-marido de Emma Thompson erra violentamente em sua composição.

E não é apenas isso. Como forma de agradar à patrulha do politicamente correto de Hollywood, o roteiro consegue a proeza (negativa) de transformar o coronel Arbuthnot em um médico negro (em uma fusão com outro personagem do livro, Constantine): por mais que se saiba a necessidade atual de inserir representatividade na mídia, é no mínimo equivocada a ideia de que um homem negro pudesse ser o passageiro do Expresso do Oriente em 1934. A inclusão de Leslie Odom Jr. no elenco pode ter tido boas intenções, mas o tiro acabou saindo pela culatra: a novidade soa deslocada, inverossímil e, pior ainda, constrangedora em sua tentativa de soar atual. Também não deu certo substituir as nacionalidades de outros personagens cruciais: a sueca Greta Ohlsson (vivida por Ingrid Bergman em 1974) virou Pilar Estravados na nova adaptação (e ficou com o rosto de Penélope Cruz, subaproveitada como todo o elenco), e o italiano Hardman transmutou-se no espanhol Biniamino Marquez (para ser interpretado por Manuel Garcia-Rulfo). São diferenças que em nada acrescentam ao material original e apenas enfatizam a vontade quase imatura de forçar uma identidade - um desejo que se estende também ao visual estilizado, que compreende a fotografia cinza-azulada de Haris Zambarloukos (que funciona apenas em parte) e os ângulos inusitados de câmera (que evitam o convencional a todo custo e cansam em diversos momentos). A direção de arte e o figurinos são deslumbrantes, mas é pouco diante de tantos erros - que enfraquecem as boas ideias de Branagh, como utilizar-se de espelhos para ilustrar a dubiedade dos personagens/suspeitos.

A trama em si é conhecida por quase todo mundo (ao menos os fãs do gênero a conhecem de longa data): durante uma viagem no tradicional Expresso do Oriente, o misterioso e pouco simpático Edward Ratchett (Johnny Depp forçado como sempre) é violentamente assassinado a facadas. O crime é ainda mais intrigante quando se descobre que as facadas são de tamanhos e intensidades diferentes, e outras pistas incoerentes deixam o trabalho do famoso detetive particular Hercule Poirot (um passageiro de última hora) ainda mais complicado. Os suspeitos - um grupo variado de passageiros em determinado vagão - parecem não ter nada em comum e aparentemente todos tem álibis indestrutíveis. A ideia inicial - de que o homicídio foi resultado de uma vingança relacionada à máfia - é deixada de lado, no entanto, quando Poirot descobre que Ratchett é, na verdade, o responsável pelo sequestro e assassinato de um bebê, alguns anos antes: resta, então, descobrir quem, dentre os passageiros, também está mentindo quanto à sua identidade.

Desperdiçando um elenco excepcional - que inclui os veteranos Judi Dench e Derek Jacobi, os consagrados Willem Dafoe, Penélope Cruz e Michelle Pfeiffer - e apostando na modernização de uma trama que já nasceu clássica, Kenneth Branagh simplesmente destruiu a obra original, destroçando inclusive a revelação sobre o nome do assassino em uma sequência morna e com um desfecho sofrível. Em pensar que ele continuará sua missão em estragar outras obras de Christie - "Morte sobre o Nilo" é o próximo da lista e sua menção nos últimos minutos do primeiro filme já aponta para mais distorções imperdoáveis - chega a dar calafrios. Matar uma obra dessa forma deveria ser crime!

segunda-feira

PHILOMENA

PHILOMENA (Philomena, 2013, The Weinstein Cmpany, 98min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Steve Coogan, Jeff Pope, livro "The lost child of Philomena Lee", de Martin Sixsmith. Fotografia: Robbie Ryan. Montagem: Valerio Bnnelli. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Consolata Boyle. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Barbara Herman Skelding. Produção executiva: Carolyn Marks Balckwood, François Ivernel, Christine Langan, Cameron McCracken, Henry Normal. Produção: Steve Coogan, Tracey Seaward, Gabrielle Tana. Elenco: Judi Dench, Steve Coogan, Sophie Kennedy Clark, Mare Winningham, Barbara Jefford, Peter Herman, Sean Mahon. Estreia: 31/8/1 (Festival de Veneza)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Judi Dench), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original

Uma jovem irlandesa católica tem seu filho pequeno entregue à adoção pelas freiras do convento onde vive, como forma de punição por seus pecados da carne. Quase cinco décadas mais tarde, torturada pelas lembranças do menino e decidida a fazer o possível para reencontrá-lo, a enfermeira aposentada une-se a um jornalista acostumado com os bastidores da política - e preso em um impasse profissional - para juntar as pistas sobre seu paradeiro. O jornalista, a princípio pouco interessado na história acaba, porém, descobrindo que reportagens de "interesse humano" podem ser tão gratificantes quanto escândalos do poder quando passa a conviver com a complexa Philomena Lee, uma mulher surpreendente e fascinante.

Parece trama de telenovela, mas o roteiro de "Philomena" - indicado ao Oscar de melhor filme na cerimônia de 2013, mas eclipsado pela mídia em torno de produções milionárias entediantes como "Gravidade" - é real, é revoltante e, mais importante ainda, conquista por escapar com maestria das armadilhas que uma história assim oferece a cada momento. Philomena, a protagonista vivida com sutileza emocional pela sempre competente Judi Dench (também indicada ao prêmio da Academia), é uma mulher triste, incompleta e remoída pela culpa cristã que a acompanhou a vida inteira, mas isso não a impede de brindar o público com um senso de humor inesperado, uma esperança inquebrantável e uma grandeza de espírito inacreditável. Fugindo das possibilidades melodramáticas da história contada pelo jornalista Martin Sixmith em seu livro "The lost child of Philomena Lee", o roteiro de Jeff Pope e do ator Steve Coogan (que também é produtor do filme e interpreta Sixmith) é redondo e ágil, nunca se deixando levar pelas lágrimas fáceis. É triste, sim, e emociona quando necessário, mas jamais se permite mergulhar no dramalhão barato. Soma-se a ele a direção precisa de Stephen Frears - um cineasta de extremo bom-gosto e sensibilidade - e a atuação brilhante de Dench e tem-se um dos filmes mais merecedores de figurar entre os melhores da temporada. E, não bastasse isso tudo, ainda consegue encontrar espaço para discutir religião, culpa, rancor e homossexualidade. Sim, caro leitor, "Philomena" é um tapa na cara dos fundamentalistas - de qualquer religião que força dogmas absurdos em detrimento da felicidade e do prazer.


Enquanto segue as pistas que ligam o nascimento do pequeno Anthony em um convento da Irlanda até uma família norte-americana que o adotou juntamente com a filha de outra interna, Martin Sixsmith embarca também em uma jornada pessoal: demitido do emprego por motivos políticos e tentando encontrar um novo sentido para a vida, ele acaba por ver em sua nova amiga - leitora compulsiva de romances baratos e capaz de fazer amizade com qualquer pessoa que lhe cruze o caminho - um exemplo de como levar a vida com mais leveza, apesar do drama devastador que a consome. Os diálogos entre Sixsmith e Philomena são deliciosos, graças a um roteiro esperto e à química entre seus dois atores, que conduzem o filme com fluidez e interesse até os momentos finais. É impressionante como a emoção que emana das cenas é contida pela direção discreta de Frears mas mesmo assim consegue se impor sem maior exagero. E é brilhante o modo como todas as peças da história se encaixam com suavidade, sem pressa mas também sem enrolação - em pouco mais de uma hora e meia tudo já está resolvido, mas sem contar com o peso de uma superficialidade que poderia lhe condenar à mediocridade.

Apesar do espaço aberto para reflexões a respeito dos erros que as crenças religiosas podem cometer e da melancolia de seu tema, "Philomena" é, acima de tudo, um filme sobre a esperança, sobre o perdão e sobre a tolerância. Com sua alma generosa e sua tenacidade admirável, Philomena acaba sendo um exemplo de ser humano, capaz de um perdão que muitos espectadores jamais dariam. E essa grandeza - da personagem e da atriz - transformam o filme de Frears em uma pequena obra-prima de delicadeza. Se o Oscar não tivesse ido parar (com justiça) nas mãos de Cate Blanchett - por sua deslumbrante "Blue Jasmine" - somente Dench teria sido uma escolha mais acertada.

007 - OPERAÇÃO SKYFALL

007 - OPERAÇÃO SKYFALL (Skyfall, 2012, 143min ) Direção: Sam Mendes. Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade, John Logan, personagens criados por Ian Fleming. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Stuart Baird, Kate Baird. Música: Thomas Newman. Figurino: Jany Temime. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Anna Pinnock. Produção executiva: Callum McDougall. Produção: Barbara Broccoli, Michael G. Wilson. Elenco: Daniel Craig, Judi Dench, Javier Bardem, Ralph Fiennes, Naomie Harris, Albert Finney, Ben Wishaw, Rory Kinnear. Estreia: 23/10/12 (Londres)

5 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original, Canção Original ("Skyfall"), Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Canção ("Skyfall"), Edição de Som (empatado com "A hora mais escura")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("Skyfall")

 Quando a sessão acaba uma certeza fica na mente do espectador: para se assistir ao festival de adrenalina que é "007 - Operação Skyfall" não é preciso ser fã de James Bond nem ao menos ter conhecimento além do estritamente básico sobre a saga do agente secreto mais famoso do cinema e da literatura - sim, afinal de contas ele nasceu da imaginação de Ian Fleming muito antes de assumir as feições de Sean Connery. O filme de Sam Mendes - surpreendentemente o mesmo homem que assinou "Beleza americana", "Estrada para Perdição" e "Foi apenas um sonho", obras extraordinárias mas bastante diferentes do que ele mostra aqui - é uma aventura que equilibra com precisão cenas extremamente bem dirigidas de ação, uma história interessante e algumas cenas que traem seu talento em buscar a emoção de suas personagens. Em suma, é um programa imperdível para os fãs de 007 e para quem gosta de um bom entretenimento.

Independente das outras aventuras do espião, "Skyfall" tem uma história empolgante e repleta de momentos inspiradores, que comprovam o acerto dos produtores em escalar Mendes para a direção. Oriundo do meio teatral inglês, o cineasta tem uma visão elegante e esteticamente apurada, o que dá à nova aventura de 007 um visual arrebatador, desde a fotografia espetacular do veterano Roger Deakins até à edição ágil mas nunca cansativa de Stuart Baird. O roteiro mescla com segurança tanto sequências de tirar o fôlego com uma trama inteligente e que dá espaço suficiente para o desenvolvimento de suas personagens - em especial a chefe de Bond, M, vivida pela sempre ótima Judi Dench e que aqui tem a chance de mostrar porque é uma das maiores atrizes britânicas de sua geração, acompanhada por um Ralph Fiennes em vias de tornar-se ator fixo da série e por um Daniel Craig cada vez mais à vontade no papel central.


Mesmo que a premissa do roteiro não seja exatamente um primor de originalidade - em tempos de "Missão impossível" e os filmes da série Bourne inventar entrechos geniais é um exercício inglório para qualquer escriba - a forma como a trama é desenvolvida jamais deixa a peteca cair. O que começa como uma busca desesperada por um arquivo que promete desmascarar todos os agentes secretos do MI6 (e consequentemente causar suas mortes) chega a um final apoteótico que remete às origens de James Bond - não sem antes passar pelos planos megalomaníacos de sempre do vilão da vez, aqui representado - e muito bem, diga-se de passagem - pelo assustador Javier Bardem, deitando e rolando com uma personagem das mais interessantes dos últimos anos - e que quase foi parar nas mãos de Kevin Spacey. Os duelos entre Bond e Silva (o vilão) são de prender a respiração, tanto nas disputas físicas quanto nos diálogos, bem escritos na medida certa para um filme-evento.

É difícil não sair satisfeito de uma sessão de "007 - Operação Skyfall". Tudo funciona à perfeição, desde o elenco e a direção até à trilha sonora - com destaque para o oscarizada canção-tema de Adele que abre o filme depois de uma sequência de tirar o fôlego - o ritmo e a parte técnica. É uma diversão de primeira linha, que mostra ao espectador em cada cena onde foi parar seu gigantesco orçamento. Agrada aos fãs e conquista aos neófitos sem maiores dificuldades. Ah, se todos os blockbusters fossem assim....

quarta-feira

JANE EYRE

JANE EYRE (Jane Eyre, 2011, Focus Features/BBC Films, 120min) Direção: Cary Joji Fukunaga. Roteiro: Moira Buffini, romance de Charlotte Bronte. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Melanie Ann Oliver. Música: Dario Marianelli. Figurino: Michael O'Connor. Direção de arte/cenários: Will Hughes-Jones/Tina Jones, Greer Whitewick. Produção executiva: Peter Hampden, Christine Langan. Produção: Alison Owen, Paul Trijbits. Elenco: Mia Wasikowska, Michael Fassbender, Judi Dench, Jamie Bell, Sally Hawkings. Estreia: 09/3/11

Indicado ao Oscar de Figurino

Desde que assumiu o papel-título da versão milionária de Tim Burton para "Alice no país das maravilhas", a australiana Mia Wasikowska tornou-se uma das atrizes mais requisitadas de sua geração, estrelando desde histórias de amor contemporâneas ("Inquietos", de Gus Van Sant) até produções de prestígio ("Albert Nobbs", ao lado de Glenn Close e "Um ato de liberdade", com Daniel Craig). O entusiasmo com que crítica e indústria a receberam, porém, não deixa de ser um tanto exagerado: apesar de seu rosto servir a diferentes épocas e gêneros, não é difícil perceber que seu alcance dramático não é dos maiores, o que fica patente sempre que lhe é exigido um pouco mais de intensidade. Tal característica - disfarçada pela tendência ao exagero de Burton e aos papéis secundários nos filmes de Rodrigo Garcia e Edward Zwick citados acima - fica óbvia quando Wasikowska é confrontada com um papel de densidade maior, como a protagonista de "Jane Eyre", oitava adaptação do clássico romance de Charlotte Bronte para as telas (contando cinema e televisão): sem conseguir evitar as mesmas caras e bocas de sempre, ela é o elo fraco do filme de Cary Joji Fukunaga, especialmente quando contracena com atores de recursos muito maiores.

Segunda escolha para o papel - em substituição à Ellen Page - Wasikowska não consegue transmitir toda a intensidade que a história (repleta de segredos, tragédias e romances impossíveis) pede, mas não chega a comprometer o resultado final, graças à direção sensível de Fukunaga, que evita que o roteiro se transforme em um dramalhão inconsequente ou excessivamente sombrio. Sem o senso de humor das obras de Jane Austen - com quem dialoga em temática e ambientação - o romance de Bronte (irmã de Emily, autora de "O morro dos ventos uivantes") é um convite quase irresistível à uma adaptação pomposa e pesada, mas felizmente escapa de tal destino ao optar por uma narrativa clássica, sim, mas jamais enfadonha ou desprovida de intensidade. O roteiro, bastante fiel a seu material de origem, sabe brincar com o interesse da plateia ao revelar aos poucos seus trunfos - desde os dramáticos até os artísticos, que atendem pelos nomes de Judi Dench e Michael Fassbender.


A trama, para quem não conhece é simples e quase pueril em um primeiro olhar: tudo começa quando o jovem pastor St. John Rivers (Jamie Bell, o garotinho de "Billy Elliot") encontra, debaixo de chuva e em condições precárias de saúde, uma moça desconhecida que, depois de socorrida, se apresenta como Jane Eyre. Agradecida ao rapaz e suas duas prestativas irmãs, Eyre conta a eles sua sofrida história de privações e solidão, iniciadas no orfanato para onde foi mandada por sua tia, Mrs. Reed (Sally Hawkings). Empregada como professora dos filhos dos camponeses da comunidade do pastor, a jovem esconde dele, porém, os motivos que a levaram até a situação em que se encontra: o amor impossível que nutre por Mr. Rochester (Michael Fassbender), dono da mansão onde ela trabalhava como preceptora de uma menina francesa adotada por ele. Sua história, que envolve segredos e desilusão, acaba vindo à tona, porém, quando ela é pedida em casamento por seu honrado novo patrão.

A bela fotografia de Adriano Goldman, que deixa de lado as paisagens lúdicas e ensolaradas para retratar uma Inglaterra bucólica sombria e intimidante é fator primordial da qualidade de "Jane Eyre", que reflete em seu visual os tormentos pelos quais passam seus personagens. Michael Fassbender mais uma vez entrega uma performance acima da média, transmitindo em apenas um olhar todo o turbilhão emocional de seu complexo Mr. Rochester e, se em alguns momentos a trama soa como uma novela mexicana - em especial as revelações que impedem a consumação do romance entre o casal central - a sofisticação do diretor impede que o resultado final se torne apenas um dramalhão clássico a mais. Indicado ao Oscar de figurino - perdeu para "O artista" - o filme de Cary Joji Fukunaga é uma adaptação digna e admirável, que não é prejudicada nem mesmo pela apatia de sua atriz central.

sexta-feira

O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD

O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD (The Best Exotic Marigold Hotel, 2011, Blueprint Pictures, 124min) Direção: John Madden. Roteiro: Oli Parker, romance "These foolish things", de Deborah Moggach. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Chris Gill. Música: Thomas Newman. Figurino: Louise Stjernsward. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Tina Roberts. Produção executiva: Jonathan King, Jeff Skoll, Ricky Strauss. Produção: Graham Broadbent, Peter Czernin. Elenco: Judi Dench, Bill Nighy, Tom Wilkinson, Maggie Smith, Dev Patel, Penelope Wilton, Celia Imrie. Estreia: 30/11/11 (Festival de Torrento)

Certas coisas nem os experientes analistas de mercado de Hollywood conseguem explicar, mesmo com tabelas, cálculos e equações. Um exemplo? Como um filme feito fora de um grande estúdio, com um custo estimado em 10 milhões de dólares e estrelado por atores com uma média de idade de 60 anos pode alcançar mais de 130 milhões de arrecadação pelo mundo afora, a ponto de gerar uma continuação? Levando-se em consideração ainda que "O exótico Hotel Marigold" não é baseado em quadrinhos, não tem cenas de ação nem tampouco tem em seu elenco nomes como Sylvester Stallone ou Bruce Willis - que apesar da idade ainda insistem em produções anabolizadas, como a série "Os mercenários" - seu resultado nas bilheterias é ainda mais impressionante. Esse choque, porém, é dissipado assim que se assiste aos primeiros minutos do filme de John Madden, comandante do oscarizado "Shakespeare apaixonado": divertida, leve e nunca aquém de extremamente agradável, a adaptação do romance "These foolish things", de Deborah Moggach, é daquelas de deixar qualquer um com um sorriso no rosto. Cortesia, também, do dream team de atores ingleses escalado por Madden.

O tal Exótico Hotel Marigold do título é uma quase espelunca localizada na Índia onde vai parar meia-dúzia de ingleses da terceira idade, atraídos pela propaganda enganosa de seu site, que promete luxo e conforto para idosos de todo o mundo. Na verdade, o hotel é gerenciado pelo jovem, ambicioso e desajeitado Sonny Kapoor (Dev Patel, de "Quem quer ser um milionário?"), que tem esperanças de realmente transformar as ruínas do prédio de propriedade de sua família em um estabelecimento respeitável, como forma de conquistar a admiração de sua rígida mãe e a aceitação dos familiares da mulher que ama, a bela Sunaina (Tena Desae). O estado quase calamitoso do hotel, porém, não impede que seus novos hóspedes aproveitem todas as possibilidades da nova rotina, especialmente porque todos tem seus motivos particulares para estarem ali. Evelyn Greensdale (Judi Dench) acaba de ficar viúva e sem economias, e viaja com a intenção de respirar novos ares .sem precisar gastar muito. O juiz de Direito Graham Dashwood (Tom Wilkinson) precisa reencontrar um amor do passado, com quem perdeu contato há quarenta anos. O casal Douglas e Jean Ainslie (Bill Nighy e Penelope Wilton) está em crise, sentindo-se no fim da vida e recusando-se a recolher-se a um conjunto habitacional para pessoas de sua idade. A preconceituosa Muriel Donnelly (Maggie Smith), ex-governanta, precisa fazer uma cirurgia no quadril, bem mais acessível na Índia. E Norman Cousins (Ronald Pickup) e Madge Hardcastle (Celia Imrie) buscam novas experiências amorosas: ele puramente sexuais, ela atrás de um casamento milionário.


Dividindo seu tempo de forma justa e imparcial com todos os fascinantes personagens criados por Moggach, o roteiro de Oli Parker consegue equilibrar com maestria momentos de puro humor inglês - em especial quando entra em cena a brilhante Maggie Smith e sua ranzinza Sra. Donnelly - e cenas de grande sensibilidade, como todas aquelas que envolvem a resolução da história de amor de Dashwood e o nascente romance entre Evelyn e Douglas - que vê nela o extremo oposto de sua egoísta e desagradável esposa. Mesmo quando o filme desvia seu foco dos novos moradores do hotel e se concentra na difícil relação de Sonny com sua mãe o ritmo não chega a ser comprometido. É uma surpresa perceber, aliás, como o roteiro consegue dar conta de tantos personagens - desenvolvendo de forma satisfatória suas complexidades e idiossincrasias - sem tornar-se superficial e sem estender-se desnecessariamente além das palatáveis duas horas de duração. Mérito também, é claro, da edição ágil mas jamais apressada e da direção fluida de Madden, que evita com sucesso ser maior do que seus atores ou de sua história. Sua discrição, ao contrário de demonstrar falta de personalidade, apenas o confirma como um cineasta afeito mais aos atores do que a pirotecnias ou estripulias visuais - vale lembrar que em seu currículo constam também os potentes mas pouco vistos "A prova" (06) e "No limite da mentira" (2010).

Tocando de leve em temas espinhosos como preconceito racial, abandono na terceira idade e homossexualidade - sempre com respeito, delicadeza e certa dose de bom humor - "O exótico Hotel Marigold" certamente conquistou seu enorme público por sua estrutura despretensiosa, sustentada por um bom roteiro, bom elenco e direção competente. Em tempos onde cada filme tenta ser maior e mais barulhento do que o outro, é um oásis de pureza e ar puro. Mereceu todo o sucesso que fez.

domingo

SETE DIAS COM MARILYN

SETE DIAS COM MARILYN (My week with Marilyn, 2011, The Weinstein Company, 99min) Direção: Simon Curtis. Roteiro: Adrian Hodges, livros "My week with Marilyn" e "The prince, the showgirl and me" de Colin Clark. Fotografia: Ben Smithard. Montagem: Adam Recht. Música: Conrad Pope. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Donal Woods/Judy Farr. Produção executiva: Kelly Carmichael, Simon Curtis, Christine Langan, Jamie Laurenson, Ivan Mactaggart, Bob Weinstein. Produção: David Parfitt, Harvey Weinstein. Elenco: Michelle Williams, Kenneth Branagh, Eddie Redmayne, Judi Dench, Julia Ormond, Dominic Cooper, Emma Watson, Dougray Scott, Toby Jones. Estreia: 09/10/11 (Festival de Nova York)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Michelle Williams), Ator Coadjuvante (Kenneth Branagh)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz em Comédia/Musical (Michelle Williams)

Via de regra, cinebiografias tropeçam nas próprias ambições e esbarram na maior das dificuldades do gênero: contar em cerca de duas horas a vida inteira de alguém cuja existência justifique um filme. Tal dificuldade resulta em produções frequentemente superficiais que preferem passar ao largo de momentos cruciais na trajetória de seus protagonistas como forma de resumir, em uma duração palatável ao gosto do público médio, um arco de existência que vai do nascimento à morte. Às vezes, nem mesmo uma minissérie de TV seria capaz de dar conta da quantidade de informações e acontecimentos – e filmes como “Gandhi” e “Chaplin”, ambos, não por coincidência, de Richard Attenborough, acabam por ficar aquém do que poderiam. Como forma de sanar um pouco esse problema de superficialidade, o cinema americano encontrou uma saída inteligente que acabou virando tendência: escolher determinado momento na vida/carreira dos biografados e concentrar seu foco em períodos de tempo muito mais compactos. Tal opção funcionou muito bem em “Capote”, de Bennett Miller – que deu o Oscar de melhor ator a Philip Seymour Hoffman e concorreu nas categorias de filme, diretor e roteiro adaptado – e “Steve Jobs” – que apesar de ter dividido a crítica, deu a Michael Fassbender e Kate Winslet chances de concorrer à estatueta e à Aaron Sorkin o Golden Globe de melhor roteiro. Não deu tão certo assim em “Hitchcock”, de Sacha Gervasi, que atolou-se em uma direção medíocre. E resultou apenas morna em “Sete dias com Marilyn”.
Baseado em um livro escrito por Colin Clark – diretor de documentários que registrou em diários sua relação fugaz com Marilyn Monroe, a maior estrela de Hollywood nos anos 50 – o filme de Simon Curtis acerta em não tentar contar em seus 90 minutos de duração toda a existência conflituosa e recheada de complexos dramas psicológicos da atriz, mas não consegue, infelizmente, ultrapassar a superfície de uma das mais fascinantes personagens que o cinema americano já forjou – e que existia de verdade, sem que houvesse a necessidade de acrescentar à sua vida nenhum tipo de dramas. Apenas passando por cima da razão das carências emocionais de Marilyn e tocando com uma rapidez quase tímida momentos de extrema importância à vida futura da estrela (o aborto espontâneo sofrido no período de tempo retratado pelo roteiro), o filme de Curtis funciona como entretenimento leve, mas falha em ser uma homenagem a um dos maiores ícones do cinema americano às vésperas do 50º aniversário de sua morte.
O filme se passa em 1956, quando Marilyn já era a atriz mais famosa e desejada de Hollywood e chega à Inglaterra para estrelar a comédia romântica “O príncipe encantado”, convidada especialmente pelo astro do filme, Laurence Olivier, disposto a conquistar uma nova geração de espectadores que não se deixavam impressionar por seu currículo shakespereano. O problema é que Marilyn não chega sozinha à pequena cidade onde o filme será rodado: com ela, junto com uma dúzia de problemas de autoestima e insegurança, está o marido Arthur Miller – autor de clássicos do teatro americano - e sua instrutora de interpretação, Paula Strassberg, esposa do infame Lee Strassberg, criador do Actor’s Studio. Dependente quase total da opinião de Paula e dos remédios para dormir, Monroe não demora a desafiar a paciência de toda a equipe, incluindo Olivier, que não parece estar disposto a tolerar os atrasos constantes e a falta de compromisso da estrela. Apenas a veterana Sybil (Judi Dench) e o terceiro assistente de direção do filme, Colin (Eddie Redmayne) dão apoio incondicional à bela atriz – e ela acaba se encantando com o rapaz, para surpresa e desespero de todos.

Michelle Williams concorreu ao Oscar por seu desempenho na pele de Marilyn. Mereceu. Apesar de não ser exatamente parecida com o mito, Williams injeta tanta personalidade e sensibilidade a seu trabalho que o espectador não demora a comprar a ideia de que está realmente diante da mulher que sacudiu o mundo em filmes como “O pecado mora ao lado” e “Quanto mais quente melhor” – realizado logo em seguida e considerado o melhor trabalho de sua carreira. Mesclando momentos de candura e timidez com outros em que transmite o vulcão de sensualidade que fez de Monroe o mais duradouro símbolo sexual da história, Williams explora com inteligência tudo que o roteiro lhe oferece, tratando sua personagem com respeito e coerência, jamais caindo na armadilha de fazer dela uma vítima ou retratá-la como a loira burra, imagem que a estereotipou até sua trágica morte, em agosto de 1962. Sua interpretação é de uma sutileza comovente – com apenas um olhar, Williams fala mais do que outras estrelinhas que Hollywood insiste em empurrar para a plateia em longos discursos.
Mas se Michelle Williams dá um espetáculo com seu desempenho, seu elenco coadjuvante não fica atrás. Em um toque de mestre, o diretor Simon Curtis escalou Kenneth Branagh – irlandês que tornou-se famoso no cinema como uma espécie de representante oficial de Shakespeare nos anos 90, com filmes como “Henry V”, “Muito barulho por nada” e “Hamlet” – para interpretar Laurence Olivier – britânico que, nas décadas de 40 e 50, fazia o mesmo, a ponto de ganhar um Oscar por “Hamlet”. Esse sutil toque metalinguístico – Olivier chega a citar o bardo em uma sequência perto do final do filme – é um rasgo de inteligência que quase torna perdoável escalar a insossa Julia Ormond para viver a espetacular Vivien Leigh: mesmo que fosse mais velha que Marilyn, Leigh ainda era linda e elegante em 1956, coisa que Ormond apenas sonha em ser. Se na vida real era questionável alguém apaixonar-se por Monroe tendo Leigh em casa, no filme tal opção torna-se muito mais compreensível – se era essa a intenção do diretor, palmas a ele. Caso contrário, foi um tiro no pé. Diante de Ormond nem é preciso muito para que Michelle Williams brilhe e justifique o carisma imortal de Marilyn.
Quanto ao roteiro, “Sete dias com Marilyn” fica apenas na média. Não aprofunda as relações entre a atriz e Colin (Eddie Redmayne antes de ficar famoso e ganhar o Oscar por “A teoria de tudo”) nem dá foco ao que poderia ser um delicioso retrato dos bastidores de uma filmagem. Toda vez que o filme se concentra na fúria de Olivier em ter que aturar os atrasos e inconstâncias de Marilyn, o filme de Curtis cresce e se torna interessante. Quando se desvia para o romance hesitante entre Monroe e Clark – um personagem mal escrito e interpretado com apatia por Redmayne – cai no lugar-comum que acaba por transformá-lo em um filme apenas razoável. Serve como curiosidade e para admirar o trabalho de Michelle Williams e Kenneth Branagh – ambos, aliás, merecidos candidatos à estatueta da Academia.

sábado

IRIS

IRIS (Iris, 2001, BBC Films/Intermedia Films, 91min) Direção: Richard Eyre. Roteiro: Richard Eyre, Charles Woods, livros "Iris: a memoir" e "Elegy for Iris", de John Bailey. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Martin Walsh. Música: James Horner. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Gemma Jackson/Trisha Edwards. Produção executiva: Guy East, Tom Hedley, Anthony Minghella, Sydney Pollack, David M. Thompson, Harvey Weinstein. Produção: Robert Fox, Scott Rudin. Elenco: Judi Dench, Jim Broadbent, Kate Winslet, Hugh Boneville. Estreia: 14/12/01

3 indicações ao Oscar: Atriz (Judi Dench), Ator Coadjuvante (Jim Broadbent), Atriz Coadjuvante (Kate Winslet)
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Jim Broadbent)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Jim Broadbent) 

Filósofa, romancista, poeta e dramaturga, Iris Murdoch foi uma das intelectuais mais respeitadas do século XX. Dona de um espírito livre e à frente do seu tempo, ela encantou a homens e mulheres na mesma medida, mas foi apenas uma história de amor que marcou sua brilhante trajetória. Essa história, vivida ao lado do marido, o também escritor John Bailey - que aceitou as idiossincrasias da mulher e ficou a seu lado até seus últimos momentos - foi contada em dois livros, que, juntos, chegaram adaptados às telas de cinema em 2001, sob a direção de Richard Eyre. Estrelado por Judi Dench e Kate Winslet dividindo o papel central em duas fases distintas da protagonista, "Iris" comoveu os membros da Academia, que indicou ambas ao Oscar - Dench na categoria principal, Winslet como coadjuvante - mas premiou apenas Jim Broadbent por seu desempenho como Bailey, seu leal e dedicado marido. Partilhando o papel com Hugh Boneville (de impressionante semelhança física e que o interpreta na juventude), Broadbent ficou com a estatueta no mesmo ano em que também marcou presença em dois sucessos de bilheteria: em "O diário de Bridget Jones" viveu o pai da protagonista interpretada por Renée Zelwegger, e em "Moulin Rouge", dava vida a Harold Zidler, o dono do cabaré que dava título ao filme de Baz Luhrmann.

Os inúmeros prêmios arrebatados por Broadbent - que incluem também o Golden Globe e a láurea dos críticos de Los Angeles e do National Board of Review - refletem, sem dúvida nenhuma, uma interpretação intensa e visceral, mas não conseguem eclipsar o trabalho espetacular da sempre ótima Judi Dench - também ela multipremiada por seu desempenho. Atriz repleta de nuances, Dench tira partido de sua vasta experiência para criar uma Iris Murdoch emocionante em sua maturidade, quando começa a demonstrar os traços do mal de Alzheimer que a acompanharia até seus momentos finais. Em um trabalho calcado basicamente no olhar triste e desesperado de uma mulher diante do fim de sua genialidade, ela consegue até mesmo a façanha de sobressair-se a um roteiro que, tentando ecoar a poesia do texto de Bailey, sofre de uma fragilidade dramática que dissolve suas possibilidades dramáticas. Mesmo tratando de um tema forte e contando uma história com altas chances de arrancar lágrimas dos espectadores, "Iris" não consegue disfarçar sua frieza narrativa.


Intercalando sua história entre o início da relação entre os protagonistas - então vividos por Kate Winslet e Hugh Boneville - e os anos finais da vida da escritora, quando sua doença torna-se o ponto central da trama, "Iris" tem a seu favor, além do elenco escalado à perfeição, uma direção sensível e uma trilha sonora delicada, que ilustra as cenas sem invadir desnecessariamente o enredo. Porém, assim como o roteiro por vezes se perde na fidelidade quase exagerada à fonte original, a edição de Martin Walsh ocasionalmente tropeça nas tentativas de fundir superfluamente os dois tempos narrativos, não permitindo à plateia que se envolva com a profundidade necessária no drama dos protagonistas. Resta então mergulhar nas atuações mais do que fascinantes do quarteto de atores, que entrega performances muito acima da média. Kate Winslet constrói uma Iris vivaz, quase impertinente, libertária e ousada, capaz de flertar intelectual e sexualmente com qualquer pessoa. Seu parceiro de cena, Hugh Boneville - que havia aparecido antes em "Um lugar chamado Notting Hill", como um dos amigos de Hugh Grant - é um contraponto interessante à seu vulcão de sensualidade e dinamismo e seu trabalho conjunto com Jim Broadbent é um dos pontos altos do filme. E Judi Dench, desnecessário lembrar, hipnotiza sempre que está em cena, com uma presença luminosa mesmo em seus piores e mais trágicos momentos.

Triste e um tanto depressivo, "Iris" foge facilmente do estigma de ser apenas um filme veridíco sobre uma escritora talentosa e uma doença fatal que a aniquila. Dirigido com seriedade e extrema sensibilidade por Richard Eyre - que voltaria a dirigir Dench no superior "Notas sobre um escândalo" (06) - o filme é uma bela história de amor e lealdade, contado com poesia e discrição. Se os livros de Bailey já eram uma bela homenagem à Murdoch, sua adaptação para as telas é um belíssimo complemento.

HAMLET

HAMLET (Hamlet, 1996, Castle Rock Entertainment, 238min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Kenneth Branagh, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Alex Thomson. Montagem: Neil Farrell. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Tim Harvey. Produção: David Barron. Elenco: Kenneth Branagh, Derek Jacobi, Julie Christie, Kate Winslet, Brian Blessed, Richard Briers, Rufus Sewell, Michael Maloney, Richard Attenborough, Billy Crystal, Judi Dench, Gérard Depardieu, John Gielgud, Rosemary Harris, Charlton Heston, Jack Lemmon, Timothy Spall, Robin Williams. Estreia: 25/12/96

4 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Uma das mais clássicas manifestações artísticas da loucura - ou do arremedo de uma - acabou tornando-se uma das mais ousadas produções cinematográficas da década de 90 e quiçá da história da sétima arte. Conhecido por suas adaptações da obra do dramaturgo William Shakespeare para o cinema, o irlandês Kenneth Branagh - que já havia dirigido "Henry V" (89) e "Muito barulho por nada" (93) e atuado como Iago em "Othello" (96) - arriscou sua reputação e seu prestígio ao transpor o mais clássico dos clássicos do bardo, palavra por palavra, para as telas. Brilhantemente produzido, interpretado por um elenco estrelado que se dá ao luxo de ter Charlton Heston, Gérard Depardieu e Jack Lemmon em pontas e longo a ponto de testar os limites de paciência do público - poucos minutos menos de quatro horas de duração - o "Hamlet" de Branagh (e pode-se dizer sem medo, o "Hamlet" definitivo do cinema) pode assustar até ao mais fervoroso purista com sua fidelidade canina ao texto original, mas, graças à direção segura e inteligente, a uma edição cirurgicamente precisa e a um elenco impecável, sobressai-se às demais adaptações pelo ritmo pulsante e pela modernidade visual impressa em cada fotograma. Realizado com meros 18 milhões de dólares - um trocado perto dos orçamentos milionários que assustavam os executivos dos estúdios à época - o filme de Kenneth Branagh é assombrosamente deslumbrante e um presente para os fãs de bom cinema e bom teatro.

Uma das histórias mais conhecidas da literatura mundial, "Hamlet" só chegou às telas com tal opulência visual e ousadia narrativa - que não oprime uma linha sequer do texto original - graças à teimosia de seu diretor e ator principal, que rondou por mais de um ano de estúdio em estúdio de Hollywood tentando financiamento para um projeto que todos consideravam fadado ao fracasso. Não é difícil imaginar os motivos para tanta recusa: não apenas Branagh batia pé nas quatro horas de duração de seu filme como tinha ainda que lidar com a bilheteria decepcionante e as críticas negativas de seu filme anterior, "Frankenstein de Mary Shelley", que não havia tido o desempenho esperado pelos produtores. Além do mais, Shakespeare estava se tornando arroz de festa na terra do cinema, sendo adaptado de todas as formas possíveis e imagináveis - até mesmo o australiano Baz Luhrmann estava a caminho de lançar uma versão psicodélica de "Romeu e Julieta", estrelado por Leonardo DiCaprio e o próprio "Hamlet" já havia sido refilmado recentemente por Franco Zefirelli, com Mel Gibson no papel principal. Tudo conspirava contra o irlandês, até que a Castle Rock tomou coragem e, com poucas exigências finais (um elenco com atores conhecidos e uma versão editada para lançamento mundial) deixou que o cineasta fosse em frente. É impossível assistir-se ao resultado final sem um suspiro de agradecimento profundo à sua coragem.


Mesmo acima da idade para interpretar o papel principal, Kenneth Branagh é o corpo e a alma de "Hamlet", a energia que contagia a todos e o estopim de uma trama recheada de traições vis, paixões avassaladoras, ódios arraigados e uma coleção de mortes das mais conhecidas do teatro universal - que em suas mãos soa fresca e reluzente como se tivesse sido escrita há dois dias. Para quem não sabe, se é que alguém não sabe, tudo começa quando o jovem príncipe Hamlet volta à sua Dinamarca natal para os funerais de seu pai (Brian Blessed) e para as novas núpcias de sua mãe, Gertrude (Julie Christie), que, mal esperou quatro meses para casar-se com o cunhado, Claudius (Derek Jacobi), novo rei do país. Infeliz com a situação, o príncipe fica ainda mais movido ao ódio quando o fantasma de seu progenitor lhe aparece, acusando o irmão de tê-lo assassinado para roubar-lhe a esposa e o trono. Com o objetivo de vingar a morte do pai, Hamlet inicia um plano ambicioso - que envolve fingir uma loucura que ele pode mesmo portar, um grupo de atores mambembes que recebe no palácio com o objetivo de impulsionar uma confissão do tio e até a mulher que ama, a doce Ofélia (Kate Winslet).

Mais do que simplesmente contar com cada detalhe - por mais insignificante que ele possa parecer - a história criada por Shakespeare, Kenneth Branagh consegue, em seu filme, o que havia conseguido apenas parcialmente em suas adaptações anteriores: fazer com que o texto extremamente teatral da peça caiba com perfeição na tela de cinema - no caso, em formato 65mm, que lhe permitiu alcançar um visual mais clássico que buscava com o objetivo de aproximar o filme de um cinema mais visualmente atraente e que só voltou a ser utilizado em 2012, quando Paul Thomas Anderson filmou seu "O mestre". Seu objetivo é plenamente atingido quando a plateia testemunha momentos de pura poesia visual, enfatizada pela fotografia esplêndida de Alex Thomson e pela direção de arte irretocável que concorreu ao Oscar - assim como o figurino de Alexandra Byrne, a música de Patrick Doyle e o roteiro do próprio diretor. Pulsante, passional e por vezes exaustivamente emocionante, "Hamlet" é a mais perfeita combinação entre cinema e teatro já realizada. Uma obra-prima de grandes proporções.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...