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quarta-feira

O SEGREDO


O SEGREDO (The chamber, 1996, Universal Pictures, 111min) Direção: James Foley. Roteiro: William Goldman, Phil Alden Robinson (Chris Reese), romance de John Grisham. Fotografia: Ian Baker. Montagem: Mark Warner. Música: Carter Burwell. Figurino: Tracy Tynan. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Lisa Fischer. Produção executiva: David Friendly, Karen Kehela., Ric Kidney. Produção: John Davis, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Chris O'Donnell, Gene Hackman, Faye Dunaway, Robert Prosky, Raymond J. Barry, Lela Rochon, Bo Jackson, David Marshall Grant. Estreia: 11/10/96

Entre 1993 e 1996, um dos nomes mais quentes em Hollywood não era um astro milionário, um cineasta prestigiado ou um produtor poderoso. Ao transformar em livros seu conhecimento como advogado e sua experiência em tribunais, John Grisham, passou, em poucos anos, de um escritor principiante a um dos autores mais requisitados pelos estúdios, sempre em busca de material para suprir a demanda de um público ávido por boas histórias. Com o apoio nada desprezível de atores como Tom Cruise, Julia Roberts, Denzel Washington e Susan Sarandon - e diretores respeitados como Sydney Pollack, Alan J. Pakula e, vá lá, Joel Schumacher - as adaptações das obras de Grisham se mostravam uma mina de ouro, se não inesgotável ao menos generosa. Assim, "A firma" (1993), "O Dossiê Pelicano" (1993), "O cliente" (1994) e "Tempo de matar" (1996) ultrapassaram a marca de 100 milhões de dólares de arrecadação e firmaram seu nome como um atestado de qualidade. Porém, como não poderia deixar de acontecer, nem todo sucesso dura para sempre - e qualquer falha no processo pode resultar em um inesperado fracasso. Foi o que aconteceu com "O segredo": com uma renda mundial que não chegou a cobrir metade de seu orçamento, estimado em 50 milhões, o filme dirigido por James Foley mostrou que nada - nem ninguém - é infalível.

Lançado poucos meses depois de "Tempo de matar", dirigido por Joel Schumacher e com um elenco que incluía Samuel L. Jackson, Kevin Spacey, Sandra Bullock e um Matthew McConaughey a caminho do estrelato, "O segredo" já estreou em desvantagem: apesar de ser um ator em franca ascensão à época -  no mínimo desde sua parceria com Al Pacino em "Perfume de mulher" (1992) -, Chris O'Donnell ainda não parecia capaz de segurar sozinho (ou quase) uma bilheteria sólida, em especial em comparação com a primeira escolha para o papel principal do filme, Brad Pitt. Mais jovem, com menos experiência e sem nenhum grande sucesso solo no currículo, O'Donnell acabou por se tornar o principal alvo das críticas - mesmo que não seja o responsável pelos problemas de bastidores que, logicamente, respingaram no resultado final, que não agradou nem mesmo ao próprio John Grisham. Desde a saída de Pitt - consequência da opção de Ron Howard em comandar "O preço de um resgate" (1996) -, o projeto de "O segredo" parecia fadado pelo menos a uma produção problemática. O roteirista William Goldman, por exemplo, viu parte de seu trabalho rejeitado por Howard (ainda produtor do filme) e pelo novo diretor, James Foley - e depois testemunhou seu substituto, Phil Alden Robinson, preferir assiná-lo com um pseudônimo por não concordar com a versão final. Além disso, a ideia de oferecer a direção a Foley - que lançou o suspense "Medo" no mesmo ano para a mesma Universal Pictures - não foi das mais felizes: se a trama já não é tão eletrizante quanto a de outros livros de Grisham, o trabalho de Foley pouco faz para acentuar suas qualidades ou amenizar seus defeitos. Quase no piloto automático, o cineasta falha em sua principal missão: conectar o espectador com seu protagonista.

 

Jovem e idealista como quase todos os personagens centrais de Grisham (talvez seus alter-egos), Adam Hall (Chris O'Donnell, esforçado mas nada mais do que isso), acaba de sair da faculdade de Direito e para seu primeiro caso importante escolhe um desafio dos maiores: evitar que um condenado à câmara de gás seja executado. Culpado pelo assassinato de duas crianças judias trinta anos antes, Sam Cayhall (Gene Hackman) assume a autoria do crime, não demonstra nenhum arrependimento e parece se orgulhar de suas ideias racistas - transmitidas a eles através de gerações. Mas Adam tem seus motivos para lutar pela suspensão da pena do irascível presidiário: Sam é seu avô, e apesar das consequências trágicas do crime, como o suicídio de seu pai, o jovem advogado quer, mais do que tudo, investigar as raízes de tanto ódio e tentar extirpá-las do próprio futuro. Para isso, conta com a ajuda hesitante de uma tia, Lee (Faye Dunaway), viciada em álcool e envergonhada do passado da família, ela esconde suas origens, mas vê na chegada do sobrinho uma oportunidade de curar feridas antigas e ainda doloridas.

Visto à luz do tempo, "O segredo" não é o horror que muitos fizeram pensar quando de sua estreia. Mesmo que não tenha o mesmo brilho de outros filmes baseados em obras de Grisham - em especial "O cliente", que deu a Susan Sarandon uma indicação ao Oscar, e "O homem que fazia chover", um dos poucos Francis Ford Coppola da década de 1990 -, o resultado final tem qualidades que foram ignoradas em seu lançamento. A atuação monstruosa de Gene Hackman é um exemplo: mesmo com um personagem quase maniqueísta, o veterano ator oferece ao público um trabalho precioso, repleto de uma energia que falta ao protagonista de Chris O'Donnell. E se Faye Dunaway - em papel oferecido a Sigourney Weaver - foi indicada ao Framboesa de Ouro, isso diz mais sobre a implicância de parte da crítica sobre seu desempenho do que exatamente por justiça: por mais que exagere em alguns momentos, a atriz, vencedora do Oscar por "Rede de intrigas" (1976), constrói uma personagem que reflete com perfeição as consequências do ódio e da intolerância. São os veteranos astros que dão a "O segredo", apesar de suas falhas, motivos para que lhe seja feita justiça: mesmo estando longe de ser um filme marcante, tampouco é a aberração que seu fracasso comercial poderia dar a entender.

 

terça-feira

OS OLHOS DE LAURA MARS


OS OLHOS DE LAURA MARS (Eyes of Laura Mars, 1978, Columbia Pictures, 104min) Direção: Irvin Kershner. Roteiro: John Carpenter, David Zelag Goodman, estória de John Carpenter. Fotografia: Victor J. Kemper. Montagem: Michael Kahn. Música: Artie Kane. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Gene Callahan/John Godfrey. Produção executiva: Jack H. Harris. Produção: Jon Peters. Elenco: Faye Dunaway, Tommy Lee Jones, Brad Dourif, Rene Auberjournois, Raul Julia. Estreia: 02/8/78

No final dos anos 1970,  John Carpenter, então um cineasta à procura do primeiro grande sucesso, vendeu à Columbia Pictures um roteiro com o título de "Eyes", que contava a história de uma fotógrafa que tinha o poder paranormal de ver através dos olhos de um assassino. Quando tal roteiro finalmente chegou às telas, em agosto de 1978, sob a direção de Irvin Kershner, pouco restava de suas ideias originais: além das alterações propostas pelo estúdio e pelo diretor, o desfecho era diferente do imaginado por Carpenter, que, apesar de tantas modificações, manteve o crédito como autor da trama e se viu, dois meses depois, alçado à condição de ícone do cinema de terror com seu "Halloween", lançado em outubro do mesmo ano. E se o primeiro capítulo das matanças promovidas por Michael Meyers é, ainda hoje, um clássico do gênero, seu roteiro renomeado como "Os olhos de Laura Mars" tampouco pode ser subestimado. Estrelado por Faye Dunaway pouco depois de seu Oscar por "Rede de intrigas" (1976), o filme se mantém como um suspense eficiente, a despeito de seu visual um tanto datado e de sua narrativa por vezes lenta em excesso.

O filme conta a história de Laura Mars, uma fotógrafa influente, celebrada e que vive o auge da carreira com suas imagens que vinculam arte, sexo e violência. Sem ter consciência do fato, Laura criou sua obra a partir de visões que frequentemente surgiam em sua mente. Tal dom, no entanto, torna-se um fardo quando ela começa a perceber que tem o poder de ver através dos olhos de um criminoso. Quando várias pessoas a seu redor começam a morrer violentamente assassinadas diante de seus olhos - sem que ela possa impedir -, ela resolve buscar a ajuda da polícia, que, por motivos compreensíveis, faz pouco caso de suas informações. O único a acreditar em sua narrativa é John Neville (Tommy Lee Jones), um tenente que se apaixona por ela durante as investigações. Apavorada com a possibilidade de ser a próxima vítima do assassino, Laura inicia um processo de paranoia que envolve a todos que conhece - incluindo seu violento ex-marido, Michael Reisler (Raul Julia), e seu motorista, Tommy Ludlow (Brad Dourif), cujo passado criminoso pode ter voltado à tona.


 

"Os olhos de Laura Mars" caiu nas mãos de Irvin Kershner depois da saída de Michael Miller, que abandonou o projeto devido às tradicionais "diferenças criativas" entre ele e o estúdio. Nem mesmo a estrela inicialmente pensada para o papel central, Barbra Streisand, se manteve - apesar de Barbra emprestar sua bela voz na canção-tema, "Prisoner", que toca nos criativos créditos iniciais. Antes que Faye Dunaway assumisse o protagonismo, nomes tão díspares quanto Jane Fonda, Diane Keaton, Goldie Hawn e Catherine Deneuve chegaram a ser cogitadas. A entrada de Dunaway, no auge do sucesso, acabou oferecendo à produção uma seriedade até então rara em filmes do gênero e ajudou muito no êxito comercial do filme - com um orçamento estimado em sete milhões de dólares, rendeu quase três vezes no mercado internacional. A seu lado, um então jovem Tommy Lee Jones - que dois anos depois estaria no elenco do oscarizado "O destino mudou sua vida", com Sissy Spacek -, Brad Dourif (indicado à estatueta de ator coadjuvante por "Um estranho no ninho", de 1975) e Raul Julia, antes de tornar-se um dos atores latino-americanos mais celebrados de Hollywood.  

Com um visual típico dos anos 1970 - com sua fotografia granulada, figurinos exóticos e uma narrativa sóbria mesmo quando apela para a sanguinolência -, "Os olhos de Laura Mars" conquista justamente por levar-se a sério, evitando o tom de deboche que viria a infestar o gênero na década seguinte. Ao localizar sua trama no ambiente sofisticado das fotografias de moda, Irvin Kershner usa e abusa de ângulos criativos para mergulhar o espectador no universo de pesadelo vivido por sua protagonista. Interpretada com garra por Dunaway - que três anos mais tarde escorregaria na caricatura ao interpretar Joan Crawford no polêmico "Mamãezinha querida" (1981) -, Laura Mars é uma heroína típica de sua época, quando as mulheres assumiam as rédeas do próprio destino: apesar de contar com a ajuda do policial vivido por Lee Jones, a fotógrafa jamais se deixa acomodar na posição de vítima, lutando pela sobrevivência ao mesmo tempo em que corre atrás da identidade do assassino que a persegue - uma revelação que não escapa do clichê mas não compromete o resultado final. Talvez a única questão que incomoda no roteiro é o romance entre os dois personagens principais, que soa um tanto deslocado e forçado (mas faz certo sentido nos momentos finais).

 E se existe uma prova da perenidade cultural de "Os olhos de Laura Mars" é o fato de, em 2002, quase vinte e cinco anos depois de seu lançamento, sua protagonista ter sido citada na canção "Gold dust", da cantora Tori Amos (parte de seu álbum "Scarlet's walker"). Não é toda personagem de filmes de suspense que merece tal reconhecimento!

quarta-feira

MAMÃEZINHA QUERIDA

MAMÃEZINHA QUERIDA (Mommie dearest, 1981, Paramount Pictures, 129min) Direção: Frank Perry. Roteiro: Frank Yablans, Frank Perry, Tracy Hotchner, Robert Getchell, livro de Christina Craword. Fotografia: Paul Lohmann. Montagem: Peter E. Berger. Música: Henry Mancini. Figurino: Irene Sharaff. Direção de arte/cenários: Bill Malley/Richard C. Goddard. Produção executiva: David Koontz, Terence O'Neill. Produção: Frank Yablans. Elenco: Faye Dunaway, Diana Scarwid, Steve Forrest, Howard da Silva, Mara Hobel. Estreia: 16/9/81

Em 1978, a publicação de "Mamãezinha querida" nos EUA causou comoção geral e polêmicas infindáveis. Escrito por Christina, filha adotiva da atriz Joan Crawford, o livro mostrava um lado cruel e violento de uma das maiores estrelas da era de ouro de Hollywood, falecida então há apenas quatro anos. Ao contar em detalhes os tormentos físicos e psicológicos pelos quais passou durante sua infância e sua adolescência com uma das mulheres mais conhecidas do mundo nas décadas de 40 e 50, Christina tornou-se autora de um enorme best-seller internacional, mas ao mesmo tempo, arriscou-se a - como realmente aconteceu - ser taxada de mentirosa e oportunista, especialmente por ter sido deixada de fora do testamento de sua mãe. A controvérsia, ao contrário de prejudicar o sucesso do livro, apenas jogou ainda mais lenha na fogueira - e não demorou para que os produtores de cinema vissem no explosivo material a chance de um grande êxito comercial (e possíveis estatuetas douradas). No final das contas, as bilheterias não foram exatamente milionárias - apesar de quintuplicar o orçamento, sua renda não chegou nem aos 20 milhões de dólares no mercado doméstico - e as únicas estatuetas que levou não foram nem um pouco lisonjeiras.

Sofrendo de críticas impiedosas desde sua estreia nos cinemas, "Mamãezinha querida" logo tornou-se uma dor de cabeça inesperada para a Paramount - até que o limão se transformou em limonada: percebendo que boa parte do público repetia a sessão do filme e frequentava as salas de exibição como uma espécie de happening, inclusive repetindo parte de seus diálogos, os executivos tomaram uma decisão arriscada. Para fúria do diretor estreante Frank Perry e de sua atriz principal, Faye Dunaway - o marketing da produção mudou radicalmente, enfatizando o tom exagerado do roteiro e das interpretações. Para quem esperava no mínimo uma indicação ao Oscar, não deve ter sido fácil para Dunaway - que divide com Crawford o gênio bastante forte - ser eleita a pior atriz do ano no famigerado Framboesa de Ouro. Aliás, é importante salientar que o filme simplesmente provocou um arrastão: além de Dunaway como pior atriz, "Mamãezinha querida" ainda saiu "vitorioso" nas categorias de pior filme, pior ator coadjuvante (Steve Forrest), pior atriz coadjuvante (Diana Scarwid) e pior roteiro - sem falar que foi eleito o pior filme da década, em 1990, e pior drama dos 25 anos do prêmio, em 2005. Mas será que, apesar de tantas críticas, o filme de Perry é realmente tão ruim quanto reza a lenda?





É impossível negar que existe, por todo o filme, uma atmosfera camp, artificial e pouco naturalista. O enfoque do primeiro roteiro - que seria dirigido por Franco Zefirelli e teria Anne Bancroft no papel principal mas acabou sendo substituído posteriormente - ainda conseguia fugir do maniqueísmo sensacionalista (e Crawford não seria retratada com tanta fúria), mas a produção estrelada por Dunaway usa e abusa de sua música dramática (composta por Henry Mancini), dos closes que transformam o rosto de atriz em assustadoras caretas e de uma gratuidade que chega a ser, em alguns momentos, quase risível. Não ajuda que o elenco secundário seja péssimo (em especial Diana Scarwid como Christina adolescente) e a direção de arte capriche em reconstruir os frequentemente cafonas cenários da época, que colaboram com o tom excessivo do texto e da direção. Sempre um tom acima do normal, Dunaway (uma excelente atriz, mas infelizmente dirigida sem a força necessária) mal consegue transmitir a ideia de que, por trás da monstruosa mãe, existe uma pessoa com sentimentos reais e (logicamente) sérios transtornos psicológicos. Esse erro crucial - a falha em obter qualquer simpatia da plateia, por mais complicado que isso fosse, levando-se em conta a trama - é o que desvia o filme de suas possibilidades mais sérias e o conduz a uma comédia involuntária.


Rejeitado para sempre por Dunaway - que se recusa terminantemente a falar sobre o filme que ela acreditava poder lhe render um segundo Oscar -, "Mamãezinha querida" é um festival de atrocidades. Na pele de Joan Crawford, a bela atriz de "Chinatown" (74) e "Rede de intrigas" (76) simplesmente transforma a vida de sua filha em um inferno na Terra (o roteiro ignora que além de Christina e Christopher, mostrados no filme, a estrela tinha ainda outros dois filhos): surras, gritos, ataques histéricos em meio à madrugada, castigos desproporcionais e até uma inesperada e patética rivalidade profissional estão na lista de crueldades que Christina descreveu em seu livro - em parte desmentido por pessoas que conviveram com a família durante os anos em que a história é contada. Nas mãos de um diretor mais experiente e menos afeito ao sucesso fácil, a adaptação poderia ter sido um filme sério, capaz de desnudar os bastidores do glamour de Hollywood. Como foi feito, acabou por tornar-se motivo de piada por parte da crítica e foi salvo pelo status de cult movie, que o mantém vivo até hoje como um exemplo de absoluto exagero dramático. Serve como curiosidade, mas artisticamente é bem sofrível...

terça-feira

THOMAS CROWN - A ARTE DO CRIME

THOMAS CROWN, A ARTE DO CRIME (The Thomas Crown Affair, 1999, United Artists/MGM, 113min) Direção: John McTiernan. Roteiro: Leslie Dixon, Kurt Wimmer, estória de Alan R. Trustman. Fotografia: Tom Priestley. Montagem: John Wright. Música: Bill Conti. Figurino: Kate Harrington, Mark Zunino. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Michael Tadross. Produção: Pierce Brosnan, Beau St. Clair. Elenco: Pierce Brosnan, Rene Russo, Denis Leary, Ben Gazzarra, Frankie Faison, Fritz Weaver, Faye Dunaway. Estreia: 27/7/99

Em 1968, dois dos maiores astros da época, Steve McQueen e Faye Dunaway, protagonizaram "Crown, o magnífico", um policial romântico que se tornaria um clássico do estilo e referência para futuras produções que tentassem misturar dois gêneros aparentemente opostos. Mais de três décadas depois do lançamento do original, com sua eterna falta de criatividade, Hollywood resolveu revisitar a história da improvável história de amor entre um milionário entediado e a investigadora de uma companhia de seguros que está em seu encalço. Revestida com elegância e um erotismo, a nova versão - estrelada pelo então 007 Pierce Brosnan e pela bela Rene Russo - modificou detalhes da trama original e acabou agradando à crítica e ao público, ambos sedentos por filmes adultos que falassem mais ao cérebro do que aos músculos. Dirigido por John McTiernan - cujo currículo repleto de blockbusters explosivos incluia os primeiros "Duro de matar" e "Predador" - "Thomas Crown, a arte do crime" surpreende pela sutileza e pela inteligência em contar uma história policial sem recorrer a um único tiro.

Thomas Crown (Pierce Brosnan, também produtor do filme), é um milionário do setor de aquisições que, sentindo-se aborrecido com a pasmaceira de sua vida fácil, volta e meia envolve-se em complicados esquemas de falsificação das obras de arte que rouba (sem despertar a menor suspeita) até mesmo dos mais sofisticados e seguros museus do mundo. Sua tranquilidade é posta em xeque, porém, quando ele rouba um valiosíssimo Monet, em uma arriscada manobra realizada durante o horário de visitação às obras: disposta a recuperar o quadro e assim poupar milhões de dólares, a seguradora contratada pelo museu chama a competente e dedicada investigadora Catherine Banning (Rene Russo, linda e sexy) para descobrir seu paradeiro. Esperta e experiente, Banning logo passa a desconfiar do charmoso e prestativo Crown e, ignorando os conselhos do policial Michael McCann (Dennis Leary), se aproxima dele com o objetivo de desmascará-lo. Não é preciso muito tempo para que surja entre investigadora e investigado uma atração irresistível, que pode por tudo a perder.


Mantendo o tempo todo a dubiedade em relação aos verdadeiros sentimentos de seus protagonistas em relação um ao outro, o roteiro de "Thomas Crown, a arte do crime" prende a atenção do público em vários niveis: tanto funciona como um romance de alta voltagem erótica (as cenas de sexo, de extremo bom gosto, mostram o pela primeira vez nu o corpo escultural da bela Rene Russo) quanto como um policial bem engendrado, repleto de pistas espalhadas pelo caminho, à espera de serem unidas. O desfecho, um clímax bem armado e inteligente, não decepciona a ninguém, enfatizando a opção de McTiernan em contar uma história utilizando-se do cérebro como principal elemento. Depois de deslumbrar a audiência com tomadas de tirar o fôlego de paisagens deslumbrantes, mansões luxuosas e obras de arte fascinantes (além de momentos românticos pra ninguém botar defeito), ele encerra seu filme com uma sequência exemplarmente bem editada e empolgante, mostrando de uma vez por todas que a sutileza pode substituir sem perda a violência desnecessária. É impossível que o público termine a sessão sem que fique com a bela sensação de ter sido respeitado em sua inteligência, o que, convenhamos, é algo raríssimo em produções comerciais norte-americanas.

Contando ainda com a simpática participação especial de Faye Dunaway - que viveu a investigadora na primeira versão do filme - na pele da terapeuta do enfastiado milionário, "Thomas Crown, a arte do crime" é um entretenimento maduro, esperto, romântico e elegante, que nada contra a corrente do emburrecimento do cinema hollywoodiano. É, também, um dos poucos filmes de sua época a ter como protagonista um casal acima dos 30 anos de idade que não hesita em usar e abusar da sensualidade sem culpa. Palmas para ele!

quarta-feira

INFERNO NA TORRE

INFERNO NA TORRE (The towering inferno, 1974, 20th Century Fox/Warner Bros, 165min) Direção: John Guillermin, cenas de ação dirigidas por Irwin Allen . Roteiro: Stirling Siliphant, romances "The glass inferno", de Thomas N. Scortia, Frank M. Robinson e "The tower", de Richard Martin Stern. Fotografia: Fred Koenemkamp. Montagem: Carl Kress, Harold F. Kress. Música: John Williams. Figurino: Paul Zastupnevich. Direção de arte/cenários: William Creber/Raphael Bretton. Produção: Irwin Allen. Elenco: Paul Newman, Steve McQueen, William Holden, Faye Dunaway, Richard Chamberlain, Jennifer Jones, Fred Astaire, Susan Blakely, O.J. Simpson, Robert Vaughn, Robert Wagner. Estreia: 10/12/74

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Fred Astaire), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("We may never love like this again"), Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Fotografia, Montagem, Canção ("We may never love like this again")
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Fred Astaire)

Um fenômeno cinematográfico típico dos anos 70 - e que tentou uma sobrevida na década de 90 - o filme-catástrofe quase tornou-se uma espécie de gênero na indústria hollywoodiana, graças a sucessos como a série "Aeroporto" e "O destino do Poseidon". Em 1974, o filme que talvez tenha se tornado a quintessência do estilo levou multidões às salas de cinema, concorreu ao Oscar de melhor produção do ano, escalou um elenco de super-estrelas e, durante duas horas e meia, manteve o público em constante tensão - ancorado por efeitos especiais de última geração. "Inferno na torre" é o típico produto de entretenimento que o cinema americano sempre fez com maestria, ainda que peque no desenvolvimento pouco profundo de seus personagens - detalhe que fica em segundo plano, porém, uma vez que o roteiro, inspirado em dois romances de temática semelhante, consegue manter o suspense até seu final apoteótico.

Primeira vez na história que um filme foi co-produzido por dois grandes estúdios de Hollywood, "Inferno na torre" teve uma produção atípica. A Warner Bros, excitada com o sucesso de seu filme sobre o naufrágio do Poseidon, comprou os direitos do livro "The tower", escrito por Richard Martin Stern. Poucas semanas depois, a Fox, também ciente das possibilidades de lucro de um filme-catástrofe, arrebatou os direitos de "The glass inferno", de Thomas N. Scortia e Frank M. Robinson. Ao contrário do que aconteceria anos mais tarde em inúmeras circunstâncias em Hollywood - empresas diferentes competindo pela bilheteria com filmes similares - os dois estúdios resolveram então juntar forças em um único filme, já que ambos os romances tratavam de um incêndio em um arranha-céu (e coincidentemente ambos foram inspirados na construção do World Trade Center). Rachando as despesas de produção, eles também dividiriam o lucro: a Fox ficaria com a receita doméstica (EUA e Canadá) e a Warner com o lucro internacional. Tudo combinado, eles escalaram o roteirista Stirlig Siliphant para juntar as duas tramas em uma só, juntaram um elenco milionário, contrataram John Guillermin para assinar a co-direção - o produtor Irwin Allen fez questão de comandar as várias cenas de ação - e estavam preparados para correr para o abraço. Mas os problemas estavam apenas começando.


Reunir astros de primeira grandeza em um único set de filmagens não é tarefa das mais fáceis, especialmente quando tais astros são, digamos, temperamentais e egocêntricos. Os produtores de "Inferno na torre" descobriram isso da pior maneira possível. Escalado para viver o arquiteto Doug Roberts, Steve McQueen aceitou interpretar o chefe dos bombeiros desde que "alguém do mesmo calibre dele aceitasse interpretar o arquiteto". Paul Newman foi contratado, o papel do bombeiro teve que ser consideravelmente aumentado para ter exatamente o mesmo número de falas do arquiteto e uma espécie de rivalidade surgiu imediatamente entre os dois atores - que por pouco já não haviam dividido a tela em "Butch Cassidy e Sundance Kid" (69). Não bastasse isso, McQueen e a atriz Faye Dunaway proibiram quaisquer visitantes ao set de lhe dirigirem a palavra, além de McQueen também recusar-se a dar entrevistas para divulgar o filme. Além disso, Dunaway começou a incomodar a equipe com seus constantes atrasos e faltas, irritando William Holden a ponto do ator fazer-lhe sérias ameaças - o que resultou em um comportamento exemplar da atriz, que voltaria a contracenar com ele (e ganharia um Oscar por isso) em "Rede de intrigas". Tais problemas de bastidores, no entanto, não se refletiram no resultado final: "Inferno na torre" é o típico filme de ação hollywoodiano dos anos 70, com tudo que isso tem de bom e de ruim.

Os clichês dos filmes-catástrofe estão todos disponíveis para os fãs do gênero, na história do maior prédio do mundo que vê sua glória ser destruída já na festa de inauguração, quando um problema elétrico põe em chamas os andares mais altos da construção: existe o bombeiro heróico (McQueen), o arquiteto que se torna herói por acaso (Newman), os construtores vilões (Holden e Richard Chamberlain), a senhora que protege um casal de crianças (Jennifer Jones), figurantes que morrem queimados, momentos de tensão, uma trama romântica desnecessária (entre Newman e Dunaway) e até um gatinho de estimação que corre o risco de virar churrasco no meio da confusão orquestrada por Guillermin e Allen. Até mesmo o veterano Fred Astaire tem sua chance de brilhar - não dançando, é claro - mas na pele de um escroque que se apaixona por uma possível vítima de seus golpes. Astaire ganhou o Golden Globe de ator coadjuvante e chegou a ser sentimentalmente indicado ao Oscar, mas de certa forma desaparece diante do grandioso espetáculo pirotécnico que tornou-se um clássico da destruição. Para quem gosta é um prato cheio.

terça-feira

CHINATOWN

CHINATOWN (Chinatown, 1974, Paramount Pictures, 130min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Robert Towne. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Sam O'Steen. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Anthea Sylbert. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Ruby Levitt. Produção: Robert Evans. Elenco: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, Diane Ladd. Estreia: 20/6/74

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Roman Polanski), Ator (Jack Nicholson), Atriz (Faye Dunaway), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Roman Polanski), Ator/Drama (Jack Nicholson), Roteiro

Um detetive incorruptível com seu próprio código de honra. Uma femme fatale glamourosa. Uma trama intrincada com ramificações muito além das aparências. Reviravoltas inesperadas e chocantes. Todos os elementos que fizeram a glória do cinema noir americano dos anos 40 estão presentes em "Chinatown", o charmoso e incensado último filme do cineasta Roman Polanski antes de sua fuga dos EUA, após ter mantido relações sexuais com uma menor de idade. Emulando os clássicos policiais da época em que se passa a história - 1937 - e tendo como influência os romances de Dashiel Hammet e Raymond Chandler, o roteirista Robert Towne construiu um dos mais elogiados scripts da história, vencedor do Oscar e exemplo em qualquer curso de roteiro - ainda que seu final, amargo e marcante, tenha sido escrito pelo diretor.

Para o público acostumado à rapidez dos filmes policiais pós- anos 80 - quando a violência e a ação incessante substituíram o cérebro e a sutileza - talvez seja complicado entrar no jogo de "Chinatown". É preciso quase uma hora de projeção para que a trama de Towne realmente comece a empolgar - até então o que mais chama a atenção é a preciosa reconstituição de época e a excelência da atuação de Jack Nicholson, amigo do roteirista e para quem o protagonista foi especialmente criado. A trama, que seguindo os padrões do cinema noir é quase uma desculpa para um exercício de estilo e tensão, só começa a delinear-se quando as peças do quebra-cabeça finalmente parecem fazer sentido - e é aí que o público percebe, juntamente com o detetive vivido por Nicholson, que estava seguindo um caminho totalmente equivocado e o que parecia importante passa a segundo plano.


Tudo começa quando o detetive particular J.J. Gittes (Nicholson) é procurado por uma mulher, Evelyn Mulwray (Diane Ladd), que desconfia estar sendo traída por seu marido, Hollis Mulwray (Darrell Zerling) diretor-chefe do Departamento de Água de Los Angeles. Ele aceita o caso, mas logo em seguida descobre que foi enganado e que a verdadeira Evelyn (Faye Dunaway) está em vias de processá-lo. Quando Hollis é encontrado morto, Gittes se vê envolvido em uma trama que mistura corrupção, adultério e incesto - e se descobre apaixonado por Evelyn, que parece esconder muito mais do que revela.

A atmosfera de "Chinatown" e a forma inteligente de conduzir o roteiro preciso de Towne - em que cada detalhe tem suma importância para o desfecho - é responsabilidade de Roman Polanski, que, muito provavelmente devido à sua trágica história de vida, não é exatamente um entusiasta do ser humano. Sua direção é seca, sem espaço para floreios românticos e até mesmo as cenas de amor entre Gittes e Evelyn são cercadas de uma aura trágica. A química entre Nicholson e Dunaway (que ficou com o papel depois que Ali McGraw separou-se do produtor Robert Evans e Jane Fonda o recusou) é precisa, em boa parte graças ao talento da dupla. O uso econômico da trilha sonora e até mesmo a opção por uma paleta de cores neutras também dão ao filme a elegância que contrasta com a imundície que se esconde por trás das descobertas de Gittes.

"Chinatown" talvez seja superestimado em excesso. Mas é, inegavelmente, um filme de personalidade, inteligência e charme, qualidades essas cada vez mais raras no cinemão americano.

segunda-feira

GIA - FAMA E DESTRUIÇÃO

GIA, FAMA E DESTRUIÇÃO (Gia, 1998, HBO Pictures, 120min) Direção: Michael Cristofer. Roteiro: Jay McInerney, Michael Cristofer. Fotografia: Rodrigo Garcia. Montagem: Eric Sears. Música: Terence Blanchard. Figurino: Robert Turturice. Direção de arte/cenários: David J. Bomba/Kathy Lucas. Produção: James D. Brubaker. Elenco: Angelina Jolie, Elizabeth Mitchell, Faye Dunaway, Mercedes Ruhel, Eric Michael Cole.

Vencedor de 2 Golden Globes: Atriz/ Filme ou Minissérie para TV (Angelina Jolie) e Atriz Coadjuvante/Filme ou Minissérie para TV (Faye Dunaway)

Na metade dos anos 80, a bela Gia Marie Carangi chega à Nova York com o objetivo de tornar-se modelo. Dona de um estilo próprio e uma personalidade rebelde, logo ela passa a ser a mais requisitada modelo do mercado e da agência de Wilhelmina Cooper (Faye Dunaway), com quem tem uma relação materna bastante forte, uma vez que tem alguns conflitos com a mãe de verdade, Kathleen (Mercedes Ruhel)  desde o seu segundo casamento. Ao mesmo tempo em que se envolve em um relacionamento cheio de idas e vindas com Linda (Elizabeth Mitchell), Gia também começa a usar drogas cada vez mais pesadas, o que acaba prejudicando sua credibilidade profissional. Dependente dos tóxicos, ela se afasta da amante e, depois de um tempo, descobre ser portadora do vírus da AIDS, ainda praticamente desconhecida nos EUA no final da década.

Material perfeito para um drama hollywoodiano, a história real de Gia, a primeira supermodelo internacional, acabou sendo produzida pela HBO para exibição na televisão a cabo. Mesmo que a emissora apresente seu habitual capricho na produção, porém, fica evidente que o diretor e roteirista Michael Cristofer esbarrou na ousadia do tema, um tanto pesado para a família americana degustar no horário nobre. Narrado em tom semi-documental, seu filme tenta explorar todos os lados da personalidade selvagem da protagonista, ainda que se concentre quase que exclusivamente em sua história de amor com Linda (com cenas bastante ousadas) e em seu vício em drogas. Utilizando-se de uma edição fragmentada - talvez para combinar com o constante estado alterado da modelo - o cineasta conta ainda com uma trilha sonora repleta de hits dos anos 80, época em que se passa a história, e mostra, de maneira cruel em seus momentos finais, como a classe médica não estava nem perto de preparada para uma epidemia como a AIDS.


O roteiro de Cristofer tenta ainda explicar a dificuldade de Gia em seus relacionamentos. Com a mãe (muito bem interpretada por Mercedes Ruhel), problemas relacionados ao divórcio dos pais em sua infância. Com Wilhelmina Cooper (ótimo trabalho de Faye Dunaway, premiada com um Golden Globe de coadjuvante), uma relação de afeto verdadeiro e carinho. Com o jovem T.J. (Eric Michael Cole), uma amizade regada a uma paixão unilateral. E com Linda (Elizabeth Mitchell), amor, desejo e quase dependência. Segundo a narrativa, Gia era uma mulher intensa, avassaladora, extremamente desejada, mas muito carente e frágil ao mesmo tempo. E essa complexa personagem, capaz de ir do céu ao inferno em questão de horas, é vivida por uma arrebatadoramente linda e emocionante Angelina Jolie.

Filha do ator Jon Voigt, Jolie encarnou Gia com todo o furor de seu talento e sua juventude (quando o filme foi ao ar, ela tinha apenas 22 anos e já havia ganho um Golden Globe de atriz coadjuvante pela minissérie "George Wallace"). Em um impressionante desempenho, a bela atriz se entrega apaixonadamente a seu primeiro papel principal, ganhando o respeito da crítica e do público. Dona de uma beleza sensual e agressiva mas ainda assim clássica e atemporal, Jolie é praticamente uma força da natureza dentro do filme, sugando tudo à sua volta com a intensidade de seu trabalho. É ela quem transforma a história deprimente de uma mulher que tinha o mundo a seus pés e perdeu tudo para as drogas e uma doença incurável em um filme poderoso e marcante, que, mesmo tendo sido feito para a TV, consegue ter qualidade de cinema. Não foi à toa que Angelina levou pra casa um segundo Golden Globe (além de um Satelitte Award e um prêmio do Screen Actors Guild): sua atuação é esplêndida.

Logicamente "Gia, fama e destruição" não é uma obra-prima. As limitações do veículo para o qual foi planejado certamente fazem dele menos contundente, mas, dentro do que se propõe, é um eficiente drama feito com cuidado e dedicação. E além do mais, levou Angelina Jolie à Hollywood. Só isso já faz dele um programa obrigatório.

domingo

O CAMPEÃO


O CAMPEÃO (The champ, 1979, MGM Pictures, 121min) Direção: Franco Zeffirelli. Roteiro: Walter Newman, história de Frances Marion. Fotografia: Fred J. Koenekamp. Montagem: Michael J. Sheridan. Música: Dave Grusin. Figurino: Theoni V. Aldridge. Direção de arte/cenários: Herman A. Blumenthal/James W. Payne, Rick Simpson. Casting: Joyce Robinson, Sam Christensen. Produção: Dyson Lovell. Elenco: Jon Voight, Faye Dunaway, Rick Schroder, Jack Warden, Arthur Hill. Estreia: 04/4/79

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original
Vencedor do Golden Globe de Nova Estrela do Ano/Masculino - Rick Schroder


O pesadelo de toda criança. Talvez essa seja a melhor definição para "O campeão", arranca-lágrimas dirigido por Franco Zefirelli e lançado nos EUA no início de 1979. Realizado com o objetivo claro de levar a platéia às lágrimas, o dramalhão orquestrado pelo cineasta italiano não apenas o faz com maestria - especialmente em suas derradeiras cenas - mas também comprova a teoria de que um final emocionalmente poderoso é capaz de derrubar qualquer mínimo senso estético e/ou racional. Ficar incólume ao desfecho de "O campeão" é tarefa inglória!

Escrito sem temer nenhum clichê, o roteiro de Walter Newman não tem a menor preocupação em ser original ou fugir dos lugares-comuns que infestam o gênero drama familiar. No entanto, talvez seja justamente essa sua falta de ambição artística que o faça funcionar no nível emocional que pretende. Jon Voight (em vias de ganhar um Oscar por "Amargo regresso") vive Billy Flynn, um boxeador precocemente aposentado que ganha a vida cuidando de cavalos em um haras frequentado pela alta sociedade. Beberrão, irresponsável e auto-destrutivo, ele cria o filho pequeno TJ (Ricky Schroder) desde que foi abandonado pela mulher, Annie (Faye Dunaway), uma estilista de moda que depois da separação casou-se novamente e leva uma vida confortável e luxuosa. Apaixonado pelo pai, por quem nutre uma adoração incondicional, o menino tem sua vida transformada quando se reencontra com a mãe, a quem julgava morta. Temendo que a vida milionária oferecida por Annie a seu filho lhes afaste, Billy resolve voltar a lutar, mesmo sabendo dos perigos a que está exposto devido a sua idade, falta de treino e às sequelas de um ferimento antigo. Vencer a luta, para ele, é uma forma de ganhar dinheiro e o respeito definitivo de TJ, mesmo que o garoto não precise de nada disso para amá-lo devotamente.


Analisado pelo viés puramente racional, "O campeão" jamais poderia ser chamado de um grande filme. Lançado na mesma época em que Hollywood apresentava cineastas ousados como Francis Ford Copolla e Martin Scorsese e era bombardeado com obras fortes e autorais como "Taxi driver" e "Apocalypse now", o singelo e piegas conto familiar de Zefirelli soou como um retrocesso estilístico, que buscava, antes da excelência artística, o sucesso comercial e a emoção fácil. No entanto, é difícil convencer disso as milhares de pessoas que se comoveram com o filme através de suas constantes reprises na TV durante os anos 80, em especial as crianças, que viam, nas cores um tanto exageradas da fotografia de Fred Koenekamp, seus maiores temores tornarem-se realidade, ainda que na vida trágica do pequeno TJ. Vivido por um excelente Ricky Schroder, a subserviente e compreensiva personagem deixou em uma geração inteira de espectadores de cinema a marca de um dos finais mais tristes que o cinema pode oferecer, ainda que bem longe das sutilezas que seriam bem-vindas.

Pode-se falar bastante mal de "O campeão", e argumentos para tais críticas não faltariam. Mas, com os olhos inchados de chorar e o coração apertado fica difícil de pensar...

terça-feira

BONNIE & CLYDE, UMA RAJADA DE BALAS


BONNIE & CLYDE, UMA RAJADA DE BALAS (Bonnie & Clyde, 1967, Warner Bros, 112min) Direção: Arthur Penn. Roteiro: David Newman, Robert Benton. Fotografia: Burnett Guffey. Montagem: Dede Allen. Música: Charles Strouse. Figurino: Theadora Van Runkle. Direção de arte / Cenários: Dean Tavoularis / Raymond Paul. Produção: Warren Beatty. Elenco: Warren Beatty, Faye Dunaway, Gene Hackman, Michael J. Pollard, Estelle Parsons, Gene Wilder. Estreia: 04/8/67

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Arthur Penn), Ator (Warren Beatty), Atriz (Faye Dunaway), Ator Coadjuvante (Gene Hackman, Michael J. Pollard), Atriz Coadjuvante (Estelle Parsons), Roteiro Original, Fotografia, Figurino

Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Estelle Parsons), Fotografia


Segundo o sensacional livro "Como a geração sexo, drogas e rock'n'roll salvou Hollywood", de Peter Biskind (Editora Intrinseca), "Bonnie & Clyde, uma rajada de balas" foi o filme que marcou a ruptura entre a "velha" Hollywood, com seu sistema de estúdios, códigos de censura e classicismo exagerado e a "nova" Hollywood, onde os diretores virariam os astros - principalmente se tivessem o talento de "auteur" que a revista francesa "Cahièrs du Cinéma" já há algum tempo exaltava. Ainda segundo Biskin, foi graças à coragem do produtor Warren Beatty e do cineasta Arthur Penn que foram abertas as portas que deram entrada no mundo do cinema comercial, de nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Hal Ashby, Steven Spielberg e Robert Altman. Só por isso "Bonnie & Clyde" já merecia figurar com honra em qualquer antologia sobre cinema. Mas se não bastasse essa sua importância histórica, o filme de Penn é um estupendo trabalho de direção e um dos melhores filmes de gângsters já produzidos nos EUA.

"Bonnie & Clyde" começa em 1931, quando o jovem Clyde Barrow (Warren Beatty, que assumiu o papel quando o cantor Bob Dylan não o aceitou) acaba de sair da prisão por assalto à mão armada. Ao tentar roubar um carro, ele conhece a bela Bonnie Parker (Faye Dunaway no auge da beleza), que trabalha tediosamente como garçonete mas deseja ardorosamente uma vida mais agitada. Logo que ela realmente acredita que o rapaz diz ser o que é, ela resolve juntar-se a ele, e o casal passa a roubar bancos. No meio do caminho junta-se a eles o jovem frentista W.C. Moss (Michael J. Pollard) e mais adiante o irmão de Clyde, Buck (Gene Hackman) e sua mulher, Blanche (Estelle Parsons). Pouco depois, a gangue já é conhecida e procurada em boa parte do país, tornando-se famosa e de certa forma admirada pela população.

Como era de se esperar, o roteiro de David Newman e Robert Benton (que contou com a não-creditada ajuda de Robert Towne) não é totalmente fiel aos fatos reais da vida de seus protagonistas (W.C.Moss, por exemplo, é uma mistura de três pessoas), mas tenta seguir ao máximo a cronologia dos acontecimentos e a história verdadeira. O relacionamento entre o casal central é um dos pontos mais dissonantes da realidade: segundo historiadores, Clyde era bissexual - o primeiro roteiro claramente apresentava uma espécie de romance entre ele e Moss - enquanto no filme, sua incapacidade de consumar o ato sexual com Bonnie advém do fato de ele ser impotente. Não deixa de ser interessante, contudo, ver que a violência, os roubos e a adrenalina das perseguições de certa maneira substitui, para ela, os orgasmos que não tem com o homem que ama - o primeiro beijo deles acontece quando ela o assiste assaltar uma mercearia, o que não deixa de reiterar a afirmação.


Idealizado em preto-e-branco (ideia rejeitada ferozmente pela Warner), "Bonnie & Clyde" tem um estilo semi-documental que, apesar da violência um tanto excessiva pra época - mortes acontecem a todo instante e sem disfarces de edição - ainda arruma espaço para uma espécie de humor negro. A trilha sonora impecável de Charles Strouse casa perfeitamente tanto nas cenas mais densas quanto nas sequências mais leves, em um tom espirituoso que lembra o cinema mudo e impede o produto final de tornar-se indigesto a um público ainda não acostumado com o vigor apresentado pelo cineasta. Inclusive, Penn - que concorreu ao Oscar por seu magnífico trabalho - substituiu ninguém mais ninguém menos do que o francês François Truffaut, que esteve envolvido diretamente em mais de uma etapa da produção do filme, mas o abandonou na última hora para cuidar de seu projeto de estimação, "Fahrenheit 451".

E não foi só Truffaut quem poderia ter seu nome intimamente ligado à "Bonnie & Clyde": além de Bob Dylan ter sido considerado para viver o protagonista masculino, a personagem feminina central também teve nomes cotados antes que Dunaway agarrasse o trabalho com unhas e dentes: Jane Fonda não quis deixar a França onde morava na época, Cher despertou a ira do seu então marido Sonny Bono por tentar um papel em um filme tão controverso e Shirley MacLaine saiu de cena por razões óbvias quando Beatty assumiu como Clyde, uma vez que não seria apropriado ter dois irmãos vivendo um casal nas telas de cinema.

Apropriado, aliás, o filme não pareceu nem um pouco quando estreou. Lançado pelo estúdio como um filme B, sem maior divulgação e sem alarde, ele recebeu algumas críticas massacrantes - em especial a do principal resenhista da revista "Newsweek", Joseph Morgenstern - e não parecia ter um futuro promissor. Quando, no entanto, jovens começaram a lotar as sessões e outros críticos passaram a tecer loas entusiasmadas à obra, tudo mudou. Não só o estúdio relançou o filme em maior escala como até mesmo Morgenstern voltou atrás, declarando estar completamente errado em sua primeira impressão. As dez indicações ao Oscar apenas confirmaram o que qualquer espectador poderia perceber assim que as polaróides da abertura do filme apareciam na tela: ali estava um clássico atemporal.

Sexy, violento e amoral, "Bonnie & Clyde" é um dos filmes mais fascinantes sobre a América pós-1929 e um dos mais importantes exercícios de estilo do cinema americano de todos os tempos. Tão interessante agora quanto há 43 anos, é um exemplo de técnica, talento e coragem a ser seguido por qualquer cineasta que preze sua integridade artística.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...