MELHORES AMIGOS (Little men, 2016, Charlie Guidance Productions, 85min) Direção: Ira Sachs. Roteiro: Ira Sachs, Mauricio Zacharias. Fotografia: Óscar Durán. Montagem: Mollie Goldstein, Affonso Gonçalves. Música: Dickon Hinchliffe. Figurino: Eden Miller. Direção de arte/cenários: Alexandra Schaller/Emily Deason. Produção executiva: Tom Dolby, Dom Genest, Matthew Helderman, Daniella Kahane, Lars Knudsen, David Kyle, Sophie Mas, Melissa Pinsly, Blythe Robertson, Lourenço Sant'Anna, Hugh Schulze, Luke Dylan Taylor, Rodrigo Teixeira, Jay Van Hoy, Franklin S. Zitter. Produção: Lucas Joaquin, Christos V. Konstantakopoulos, Jim Lande, Ira Sachs, L.A. Teodosio. Elenco: Greg Kinnear, Paulina García, Jennifer Ehle, Alfred Molina, Theo Taplitz, Michael Barbieri, Talia Balsam. Estreia: 25/01/16 (Festival de Sundance)
Em 2014, o cineasta Ira Sachs conquistou a crítica com "O amor é estranho", uma agridoce história de amor homossexual na terceira idade, estrelada por John Lithgow e Alfred Molina. Três anos depois, ele volta a falar de pessoas comuns em momentos extraordinários da vida em "Melhores amigos", indicado ao Independent Spirit Award de melhor roteiro e atriz coadjuvante. Ao contrário de seu filme anterior, porém, ele foca seu olhar em outra direção etária, ao examinar, com delicadeza e sensibilidade, o despertar da amizade entre dois pré-adolescentes que se descobrem no meio do fogo cruzado entre suas famílias, surgido por dificuldades financeiras e profissionais. Sem maiores lances dramáticos e com um tom discreto e minimalista, Sachs consegue contar uma história simples e humana centrando-se basicamente em personagens críveis e uma narrativa honesta, que jamais ambiciona ir além do que promete. Com dois promissores atores jovens nos papéis centrais e um elenco coadjuvante generoso, "Melhores amigos" é o tipo de filme capaz de encantar aos espectadores que procuram produções simples e emocionantes.
Tudo começa quando o pai de Brian Jardine (Greg Kinnear) morre e lhe deixa de herança um pequeno prédio no Brooklyn nova-iorquino. Não exatamente bem-sucedido na profissão de ator e vivendo de pequenas produções teatrais que não pagam o sustento da família - o que acaba sendo função da esposa, Kathy (Jennifer Ehle), uma psicoterapeuta tanto compreensiva quanto dedicada - o rapaz se muda para o novo bairro com a mulher e o filho pré-adolescente, Jake (Theo Taplitz), e não demora para se adaptar à nova vida, facilitada também com o apoio de Leonor Calvelli (Paulina García), inquilina do andar de baixo do prédio de seu pai e amiga do falecido. Dona de uma loja de roupas costuradas à mão e de origem latina, Leonor também tem um filho, Tony (Michael Barbieri), que imediatamente se torna amigo de Jake. Os dois jovens tem sonhos em comum - Jake quer ser artista plástico, Tony ambiciona ser ator - e passam a conviver como irmãos. Acontece que a vida adulta nem sempre reflete a inocência da juventude e problemas de dinheiro acabam por intrometer-se na relação entre as duas famílias. Pagando um aluguel irrisório graças à sua amizade com o proprietário, Leonor se vê repentinamente cobrada a pagar um preço muito maior por sua loja - afinal, Brian não apenas precisa de dinheiro como também se vê cobrado por sua irmã, que também tem direito ao valor do aluguel. Vendo tudo do lado de fora, os dois meninos tentam impedir que o conflito os atinja e à sua amizade.
Assim como já havia feito em "O amor é estranho", Ira Sachs utiliza como principal matéria-prima de seu filme o dia-a-dia de pessoas normais, lutando para manter uma vida digna e harmoniosa, mesmo que para isso seja preciso que se faça alguns sacrifícios ou que conflitos se façam inevitáveis. Sem marcar nenhum de seus personagens com definições fáceis ou maniqueístas, o roteiro flui com a delicadeza de uma crônica, valorizado pelos desempenhos ricos em nuances de Greg Kinnear e Paulina García. O primeiro mostra-se um ator cada vez mais engajado no universo do cinema independente - dentro do qual saiu um de seus maiores sucessos de bilheteria e crítica, o merecidamente incensado "Pequena Miss Sunshine" (2006) - e García, aplaudida mundialmente por seu trabalho em "Gloria" (2013), mais uma vez surpreende, com uma atuação rica em pequenos gestos e subtextos. Mesmo que boa parte do foco esteja nos meninos que tentam isentar-se da batalha travada pelos pais, são os adultos que refletem a dura realidade que os cerca e dão o peso necessário à narrativa e à trama, e os atores veteranos conquistam justamente por equilibrar com tanta destreza todos os desvãos da história sem apelar para o sentimentalismo ou a crueza pura e simples.
E, logicamente, é preciso louvar a escalação dos dois jovens atores que interpretam os melhores amigos do título nacional - ou os pequenos homens do batismo original. Se Theo Taplitz encontra o meio-tom ideal para seu Jake (um menino tímido e quase deslocado que encontra na arte e na amizade do novo vizinho um canal para desenvolver-se como adulto), é Michael Barbieri quem se destaca mais, na pele do corajoso e questionador Tony. Sem medo de contracenar com atores mais experientes e encarando de frente o desafio de liderar o elenco de um filme tão centrado em diálogos e cenas de emoções complexas, os dois iniciantes demonstram também uma química que se mostra imprescindível para o desenvolvimento da trama - e que conduz ao final melancólico e realista. Ainda não são grandes intérpretes, mas dão uma boa pista de que, bem dirigidos, podem se tornar nomes respeitados em um futuro breve. Seu primeiro filme, ao menos, aponta para esse caminho. "Melhores amigos" pode não surpreender ou ser inesquecível, mas é honesto e bem-intencionado.
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sábado
PEQUENA MISS SUNSHINE
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Alan Arkin), Atriz Coadjuvante (Abigail Breslin), Roteiro Original
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Alan Arkin), Roteiro Original
Não é preciso ser nenhum gênio para saber que os americanos tem uma obsessão quase doentia pelo sucesso. Não fazer parte da elite da sociedade - seja em termos financeiros, estéticos ou culturais - é, por si só, dentro da mentalidade ianque, um sinal insofismável de derrota. E é essa busca desesperada pelo sucesso a mola mestra de "Pequena Miss Sunshine", uma deliciosa comédia dramática que equilibra com perfeição diálogos e cenas impagáveis com momentos de um delicado drama familiar. Inesperado - mas muito merecido - sucesso de bilheteria e crítica, o filme do casal Valerie Farris e Jonathan Dayton foi lançado discretamente no Festival de Cannes de 2006 e meses depois peitava firmemente "Os infiltrados" e "Cartas de Iwo Jima", dos veteranos Martin Scorsese e Clint Eastwood na disputa pelo Oscar de melhor filme.
Realizado a um custo estimado de apenas oito milhões de dólares, "Pequena Miss Sunshine" conquista o público graças principalmente a um elemento muitas vezes subestimado pelos produtores dos blockbusters hollywoodianos: o roteiro. Esperto, ágil e se mantendo magistralmente realista mesmo em seus momentos mais absurdos, o script de Michael Arndt (que venceu o Oscar da categoria) é um estudo de personagens, humano e delicado, capaz de fazer e rir e chorar de emoção na mesma medida, principalmente porque encontrou em seu elenco suas encarnações perfeitas. Preferindo dedicar-se mais à direção de seus atores (todos impecáveis) do que a invenções estilísticas e visuais, Dayton e Ferris construiram um conto a respeito de amor familiar e respeito às diferenças que certamente vai ficar carinhosamente na memória de seu público como um dos maiores pequenos filmes de seu tempo.
Centrando sua trama exclusivamente na road trip da família Hoover - um bando de pessoas problemáticas, neuroticas e tentando desesperadamente fugir da mediocridade das próprias vidas - "Pequena Miss Sunshine" brinda a audiência com diálogos inteligentes e personagens brilhantes. Os pais da família são Richard (Greg Kinnear) - que tenta entusiasticamente vender um projeto de livro de autoajuda - e Sheryl (Toni Collette), que dá total apoio às ambições do marido enquanto batalha para ser uma mãe presente a seus dois filhos: o mais velho, Dwayne (Paul Dano) está em greve de silêncio como forma de declarar sua admiração por Nietzsche e sua vontade de tornar-se piloto de avião e a caçula, Olive (a adorável Abigail Breslin) tem o sonho de ser eleita a rainha de um concurso de beleza que os levará todos a encarar uma viagem dentro de uma kombi caindo aos pedaços. Junto com eles estarão Edwin (Alan Arkin) - pai de Richard e expulso do asilo por ser viciado em drogas - e Frank Ginsberg (Steve Carrell), irmão de Sheryl, homossexual que tentou o suicídio após ser trocado pelo namorado.
Utilizando a velha kombi como um microcosmo de um núcleo familiar abrangente, o roteiro de Arndt usa e abusa das possibilidades que o road movie - tradicional subgênero do cinema hollywoodiano - lhe oferece. É durante essa viagem que a família Hoover vai ser obrigada a confrontar-se com seus pequenos dramas domésticos e lidar com seus demônios, sempre de forma leve e carinhosa, não pesando a mão nem mesmo quando o destino chega sem avisar e lhes prega uma peça atrás da outra. Composto de silêncios contundentes e diálogos mordazes, o filme tem na figura de Olive - desajeitada, gordinha e dotada de uma inocência apaixonante - seu elemento de catarse. É ela, em sua esperança de tornar-se a Pequena Miss Sunshine do título que serve de porto seguro e elo de união entre seus parentes. É comovente a maneira com que os diretores constroem a relação da menina com aqueles à sua volta, em especial com seu avô - a cena em que ela chora desesperadamente por ter medo de perder o concurso e consequentemente o amor do pai resume com perfeição a ideia de vitória que os americanos cultuam com devoção.
"Pequena Miss Sunshine" é, sem medo de parecer exagero, uma obra-prima de grandes proporções, a despeito do tamanho de sua produção. Engraçado, emocionante, despretensioso e que fica melhor a cada revisão. Para assistir e guardar no coração.
quarta-feira
O DOM DA PREMONIÇÃO
O DOM DA PREMONIÇÃO (The gift, 2000, Paramount Classics, 112min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Billy Bob Thornton, Tom Epperson. Fotografia: Jamie Anderson. Montagem: Arthur Coburn, Bob Murawski. Música: Christopher Young. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Marthe Pineau. Produção executiva: Sean Daniel, Gregory Goodman, Ted Tannebaum, Rob Talpert. Produção: James Jacks, Gary Lucchesi, Tom Rosenberg. Elenco: Cate Blanchett, Greg Kinnear, Katie Holmes, Giovanni Ribisi, Keanu Reeves, Hilary Swank, J. K. Simmons, Rosemary Harris, Michael Jeter, Kim Dickens. Estreia: 22/12/00
Certas atrizes têm o dom de transformar o que poderia ser apenas um produto rotineiro de entretenimento em algo acima da média. Uma dessas atrizes é Cate Blanchett. Mesmo em papéis ingratos em filmes menores, a australiana consegue sobressair-se incólume e em alguns casos até mesmo salva produções que sem ela mal seriam lembradas pela maioria dos espectadores. É o caso de “O dom da premonição”, um suspense interessante e bem realizado, mas que, sem sua presença luminosa, seria apenas mais um exemplar de um gênero pouco dado a apresentar obras-primas
À frente de um elenco de astros de grandezas variadas – a oscarizada Hilary Swank em um papel inadequado, o péssimo Keanu Reeves surpreendendo positivamente, o desajeitado Giovanni Ribisi com um personagem carismático, a jovem Katie Holmes em papel ousado e diferente do que fez até então e o simpático canastrão Greg Kinnear tentando dar veracidade a um personagem ingrato – Blanchett sobressai-se sem precisar de muito esforço. No filme de Sam Raimi – às vésperas de encarar sua primeira grande super produção, o blockbuster “Homem-aranha” – ela vive Annie Wilson, uma dona-de-casa, viúva e mãe de três filhos que complementa a renda familiar dando consultas como vidente em uma pequena cidade pantanosa do interior dos EUA. Ajudando seus vizinhos e amigos, principalmente o traumatizado mecânico Buddy (Giovanni Ribisi), ela ainda sofre ameaças de Donnie Barksdeale, um violento marido de uma cliente, Valerie (vividos por Keanu Reeves e Hilary Swank). Sua vida sofre uma reviravolta quando uma jovem da alta classe da cidade, Jessica King (a sempre insossa Katie Holmes) desaparece misteriosamente. Procurada por Wayne Collins, o noivo da moça (papel de Greg Kinnear), que é o diretor da escola onde estudam seus filhos, Annie não consegue negar ajuda, mas acaba colocando sua própria vida em risco.

Co-escrito pelo ator Billy Bob Thornton, o roteiro do filme de Raimi não apresenta grandes novidades, principalmente aos aficcionados do gênero. Nem mesmo a surpresa final chega a ser impactante, apesar do final reservado à personagem de Giovanni Ribisi chegar a ser interessante e emocionante. No entanto, graças à direção criativa de Raimi, que tenta fugir sempre que possível do previsível – apesar de nem sempre conseguir -, ao trabalho superlativo de Blanchett e à trilha sonora de Christopher Young, mantém a atenção até o minuto final, o que não pode ser dito de todos seus congêneres.
Certas atrizes têm o dom de transformar o que poderia ser apenas um produto rotineiro de entretenimento em algo acima da média. Uma dessas atrizes é Cate Blanchett. Mesmo em papéis ingratos em filmes menores, a australiana consegue sobressair-se incólume e em alguns casos até mesmo salva produções que sem ela mal seriam lembradas pela maioria dos espectadores. É o caso de “O dom da premonição”, um suspense interessante e bem realizado, mas que, sem sua presença luminosa, seria apenas mais um exemplar de um gênero pouco dado a apresentar obras-primas
À frente de um elenco de astros de grandezas variadas – a oscarizada Hilary Swank em um papel inadequado, o péssimo Keanu Reeves surpreendendo positivamente, o desajeitado Giovanni Ribisi com um personagem carismático, a jovem Katie Holmes em papel ousado e diferente do que fez até então e o simpático canastrão Greg Kinnear tentando dar veracidade a um personagem ingrato – Blanchett sobressai-se sem precisar de muito esforço. No filme de Sam Raimi – às vésperas de encarar sua primeira grande super produção, o blockbuster “Homem-aranha” – ela vive Annie Wilson, uma dona-de-casa, viúva e mãe de três filhos que complementa a renda familiar dando consultas como vidente em uma pequena cidade pantanosa do interior dos EUA. Ajudando seus vizinhos e amigos, principalmente o traumatizado mecânico Buddy (Giovanni Ribisi), ela ainda sofre ameaças de Donnie Barksdeale, um violento marido de uma cliente, Valerie (vividos por Keanu Reeves e Hilary Swank). Sua vida sofre uma reviravolta quando uma jovem da alta classe da cidade, Jessica King (a sempre insossa Katie Holmes) desaparece misteriosamente. Procurada por Wayne Collins, o noivo da moça (papel de Greg Kinnear), que é o diretor da escola onde estudam seus filhos, Annie não consegue negar ajuda, mas acaba colocando sua própria vida em risco.

Co-escrito pelo ator Billy Bob Thornton, o roteiro do filme de Raimi não apresenta grandes novidades, principalmente aos aficcionados do gênero. Nem mesmo a surpresa final chega a ser impactante, apesar do final reservado à personagem de Giovanni Ribisi chegar a ser interessante e emocionante. No entanto, graças à direção criativa de Raimi, que tenta fugir sempre que possível do previsível – apesar de nem sempre conseguir -, ao trabalho superlativo de Blanchett e à trilha sonora de Christopher Young, mantém a atenção até o minuto final, o que não pode ser dito de todos seus congêneres.
A ENFERMEIRA BETTY
Vencedor do Festival de Cannes - Melhor Roteiro
Vencedor do Golden Globe - Melhor Atriz Comédia/Musical (Renée Zellweger)
Depois da fria recepção - tanto crítica quanto popular - a "Seus amigos, seus vizinhos", o diretor Neil Labute compreendeu que precisava urgentemente se reinventar. Sua tendência à polêmica - que atingiu o ápice em sua estreia, o misógino "Na companhia de homens" - foi deixada de lado, então, em seu terceiro longa. Disfarçado com um elenco de nomes conhecidos e confiáveis - Morgan Freeman e Renée Zelwegger à frente - "A enfermeira Betty" é uma deliciosa comédia de humor negro recheada de referências pop, uma violência um tanto cruel e diálogos saborosos. Não é o tipo de filme que arranca gargalhadas, mas tem um roteiro brilhante que faz uma crítica mordaz à fuga da realidade provocada pela televisão. Pode-se dizer que "A enfermeira Betty" é um "A rosa púrpura do Cairo" que tomou anfetaminas.
A enfermeira Betty do título não é, na verdade, uma enfermeira. Betty Sizemore (Renée Zelwegger em uma de suas melhores atuações) é uma jovem garçonete do Kansas que leva uma vida medíocre ao lado do marido infiel, o mulherengo Del (Aaron Eckhart, o alter ego do diretor se divertindo a valer em sua rápida participação). A monotonia de seu dia-a-dia só é quebrada com os capítulos de "Uma razão para amar", uma telenovela que lhe afasta da apatia de seu casamento. Fascinada principalmente pelo protagonista do programa, o charmoso médico cirurgião David Ravell (Greg Kinnear), Betty tem sua vida totalmente transformada justamente no dia de seu aniversário, quando testemunha, às escondidas, o violento assassinato de seu marido por uma dupla de criminosos. Em estado de absoluto choque, ela cria uma nova vida em sua mente, pega o LeSabre do casal e parte para a California, onde pretende encontrar seu ex-noivo (na verdade, o personagem da novela). O que ela não sabe é que, além de precisar encontrar alguém que não existe na vida real ela está sendo perseguida pelos assassinos do marido - sendo que o mais velho, Charlie (Morgan Freeman), apaixonou-se por ela através de uma fotografia.
O que há de mais inteligente no roteiro de "A enfermeira Betty" é o fato de LaBute e seus colaboradores jamais utilizarem a situação trágica de sua protagonista como forma de deboche. Apesar de estarem todos em uma comédia, os personagens nunca se comportam como tal e o cineasta respeita a condição especial da encantadora Betty, apenas aproveitando-a em prol de um desenrolar jamais previsível. Para isso, conta com uma interpretação excelente de Renée Zelwegger, que consegue escapar vitoriosamente de todas as armadilhas que o papel oferece. Ela constrói uma carismática e sensível Betty de tal maneira a envolver o espectador incondicionalmente - assim como faz com todos à sua volta, desde a bartender de um bar de beira de estrada até à latina Rosa (Tia Texada), com quem vai morar e que lhe ajuda a chegar até seu grande amor - e o que vem depois disso é que faz do filme tão especial.
Em uma comédia romântica convencional, o romance entre Betty e George assumiria a protagonização da trama assim que eles se encontrassem. No filme de LaBute isso jamais acontece. O romance entre os dois é bizarro, estranho, irreal e até mesmo desconfortável (principalmente porque a audiência sabe do que realmente está acontecendo). E o desfecho da trama - que apela para a violência, ainda que nunca exagere - também não pode ser chamado de convencional, mesmo que sua sequência final seja de uma ironia quase clichê. O roteiro de "A enfermeira Betty" brinca com a vaidade da fama e com os perigos da fantasia excessiva, mas nunca pede para ser levado a sério, e talvez aí resida seu charme maior.
"A enfermeira Betty" é uma das comédias mais inventivas e cruéis do início do século, que prova o talento de Neil LaBute em buscar assuntos diferentes de seus primeiros trabalhos e tratá-los com o devido respeito. E é também um marco definitivo na trajetória de Renée Zelwegger como atriz respeitada e admirada. Depois desse filme ela seria Bridget Jones e o resto é história....
sexta-feira
MENSAGEM PARA VOCÊ
Levando-se em consideração o enorme sucesso de "Sintonia de amor", em que Tom Hanks e Meg Ryan foram dirigidos por Nora Ephron - e que rendeu mais de 220 milhões de dólares pelo mundo - até que demorou para que os três nomes voltassem a enfeitar o mesmo cartaz. Cinco anos separam "Sintonia" de "Mensagem para você", mais uma deliciosa comédia romântica comandada pela roteirista do já clássico "Harry & Sally, feitos um para o outro". Nesse meio-tempo, Hanks passou de comediante simpático a ator sério e respeitado - e dono de dois Oscar consecutivos - e Ryan tentou fugir da armadilha de tornar-se atriz de um papel único, chegando a ponto de encarar um filme de guerra - "Coragem sob fogo" - e um papel de alcóolatra - em "Quando um homem ama uma mulher". O que fica claro em "Mensagem para você" é que a química entre os dois não se alterou um mílimetro sequer: são eles, aliados ao texto sempre irônico e ágil de Ephron, que fazem do filme um programa sem contra-indicações.
Refilmagem livre e modernizada do clássico "A loja da esquina", que Ernst Lubitsch dirigiu em 1940 e onde James Stewart e Margaret Sullavan trocavam calorosas cartas amorosas enquanto se odiavam como colegas de trabalho, "Mensagem para você" mais uma vez usa o charme natural de Nova York como cenário de um romance capaz de afastar todo e qualquer cinismo e conquistar o público sem fazer esforço. Seguindo a receita vitoriosa de "Sintonia de amor", o filme de Ephron também se aproveita de uma deliciosa trilha sonora e da simpatia dos coadjuvantes: além de uma dupla central imbatível, desfilam pela tela Greg Kinnear, Parker Posey e Steve Zahn em atuações extremamente simpáticas e eficientes.

Kathleen Kelly (Meg Ryan adorável mas repetindo os trejeitos de sempre) é a brava dona de uma pequena livraria infantil localizada em uma zona valorizada de Nova York. Com um público fiel que conhecem o estabelecimento desde que era de sua mãe, a livraria chamada "A loja da esquina" começa a sofrer a concorrência desleal da filial de uma enorme cadeia de megastores de propriedade de Joe Fox (Tom Hanks). Furiosa com a possibilidade de ir à falência, Kathleen conta com o apoio do namorado, o jornalista Frank Navasky (Greg Kinnear) e dos funcionários, mas é somente pela Internet que ela realmente se sente à vontade para ser ela mesma. Assumindo o apelido de Shopgirl, ela se apaixona virtualmente por NY152, sem nem de longe desconfiar que ele é, na verdade, seu maior rival.
O roteiro de "Mensagem para você" se desenvolve sem maiores surpresas ao espectador, mas o faz de maneira tão honesta que fica difícil não compactuar com seu humor romântico e quase ingênuo. Juntos em cena, Meg Ryan e Tom Hanks são o perfeito exemplo de atores carismáticos e devidamente aproveitados. É principalmente devido a eles que a audiência acredita piamente que dois estranhos completos podem se apaixonar perdidamente através da Internet sem ao menos ver o rosto um do outro. E é lógico que, caminhar nas ruas arborizadas e coloridas de Manhattan e ao som de Cranberries, Sinnead O'Connor, Roy Orbison e Louis Armstrong não atrapalha em nada nessa missão.
terça-feira
MELHOR É IMPOSSÍVEL
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Jack Nicholson), Atriz (Helen Hunt), Ator Coadjuvante (Greg Kinnear), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Jack Nicholson), Atriz (Helen Hunt)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Ator/Comédia ou Musical (Jack Nicholson), Atriz/Comédia ou Musical (Helen Hunt)
Em 1983, o cineasta James L. Brooks fez a festa na cerimônia do Oscar com "Laços de ternura", um misto de comédia de costumes com melodrama familiar que arrancou elogios da crítica e lágrimas do público. Em 1988, ele falhou em conseguir um bicampeonato com "Nos bastidores da notícia", uma comédia romântica ácida que criticava a falta de ética nos telejornais. Levou quase uma década - período em que criou a mega bem-sucedida série de TV "Os Simpsons" - até que Brooks voltasse a ver um filho seu na disputa pela estatueta mais cobiçada de Hollywood. E quando isso aconteceu, não poderia ter sido de melhor forma. "Melhor é impossível" é um filme adorável, que mais uma vez mostra o dom de seu diretor/roteirista/produtor em equilibrar drama e comédia em histórias humanas com personagens extremamente próximas da realidade. Indicado a 6 Oscar - incluindo Melhor Filme mas não Melhor Diretor - o ... longa de Brooks bateu de frente com "Titanic", mas ainda assim seus intérpretes não podem se queixar da recepção que tiveram junto aos membros da Academia. Tanto Jack Nicholson quanto Helen Hunt, seus protagonistas, foram (merecidamente) oscarizados.
"Melhor é impossível" segue o estilo elegante e simples de Brooks, que faz rir de situações cotidianas sem forçar gargalhadas e cria personagens que falam ao público de maneira simples. Os diálogos inteligentes/engraçados/dramáticos nunca soam como diálogos de filme e sim como conversas de gente normal. As personagens parecem pessoas comuns (ainda que entre elas encontre-se um escritor famoso e um artista plástico gay). E as situações, mesmo que pareçam um tanto forçadas, funcionam perfeitamente a seus objetivos dramáticos.

Melvin Udall (Jack Nicholson em mais um papel antológico de sua carreira) é um escritor bem-sucedido profissionalmente mas com sérios problemas em relação à convivência com outros seres humanos. Sofrendo de transtorno obsessivo-compulsivo, ele vive recluso em seu apartamento luxuoso, vivendo em constante conflito com os vizinhos, em especial Simon (Greg Kinnear, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), artista plástico homossexual por quem ele nutre uma antipatia gratuita. Dono de rígidas regras de comportamento, Melvin lava as mãos com água fervendo, pula as rachaduras das ruas de Nova York e tranca a porta de casa dezenas de vezes antes de dar-se por satisfeito e leva sua vida confortavelmente. Sua rotina necessária é quebrada quando, ao frequentar o mesmo restaurante de sempre e sentar-se à mesma mesa de sempre, ele descobre que sua garçonete preferida, a doce Carol (Helen Hunt) faltou ao trabalho para cuidar do filho pequeno, portador de uma doença crônica. Para não perder seu hábito adquirido, Melvin resolve pagar o tratamento da criança e se descobre apaixonado por Carol, uma mulher batalhadora que esconde sua carência e seu romantismo por trás de uma máscara de força e estoicismo. Depois que Simon é violentamente espancado por um grupo de drogados, Carol convence Melvin a viajar com ele até a casa de sua família e um real relacionamento de amizade e carinho surge entre eles, aproximando-o da mulher que ama.
Ainda que a trama acene com a possibilidade de um forte melodrama ou situações forçadas por um roteiro necessitado de emoções, "Melhor é impossível" paira acima dos clichês por uma razão muito simples: tem um diálogo direto com o espectador, não tenta falar bonito nem busca complexidades psicológicas. A doença de Melvin - que tornou-se bem mais conhecida após o filme - é apenas um elemento a mais na trama, não ocupando mais espaço do que o necessário (assim como os problemas de saúde do filho de Carol e das relações familiares de Simon). O que interessa a Brooks é a interrelação entre as personagens, como suas vidas podem ser transformadas quando em contato com outras. E nisso o roteiro é pródigo, ainda que muitos considerem um tanto "simples demais". Na verdade, essa simplicidade é que faz dele tão especial. O público se identifica com as personagens e é aí que reside seu charme maior. E ter um elenco como o escalado pelo diretor ajuda bastante.
Em mais uma prova de que segundas opções podem ser extremamente benéficas em termos hollywoodianos, o elenco de "Melhor é impossível" que encantou público e crítica poderia não ter feito o filme. Melvin Udall, que acabou tornando-se um dos papéis mais representativos da carreira de Jack Nicholson (que levou um terceiro e justo Oscar), foi oferecido inicialmente a John Travolta. Carol, que elevou o status de Helen Hunt (em uma atuação delicada e sutil) de atriz de TV a estrela de cinema, poderia ter ido parar nas mãos de Holly Hunter ou (Deus nos proteja!) Courtney Love. E Simon, que fez de Greg Kinnear um ator respeitado depois de bombas com a refilmagem de "Sabrina", com Julia Ormond, quase esteve nas mãos de John Cusack, que saiu do projeto devido a seus compromissos com a comédia de humor negro "Matador em conflito". Juntos, os três apresentam uma química invejável, o que reitera a teoria de que certos filmes tem a hora certa de acontecer.
"Melhor é impossível" é um filme delicioso, sofisticado e que se pode assistir com prazer diversas vezes. Seu alto-astral e sua inteligência, aliados à inconfundível música de Hans Zimmer e a seu elenco impecável fazem dele um clássico dos anos 90. Poucas vezes um título soou tão adequado.
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