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terça-feira

NESTE MUNDO E NO OUTRO

NESTE MUNDO E NO OUTRO (A matter of life and death, 1946, The Archers, 104min) Direção: Michael Powell, Emeric Pressburger. Roteiro: Michael Powell, Emeric Pressburger. Fotografia: Jack Cardiff. Montagem: Reginald Mills. Música: Allan Gray. Figurino: Hein Heckroth. Direção de arte: Alfred Junge. Produção: Michael Powell, Emeric Pressburger. Elenco: David Niven, Kim Hunter, Robert Coote, Roger Livesey, Raymond Massey, Abraham Sofaer. Estreia: 14/3/46

Com o final da II Guerra Mundial, parecia que os ânimos haviam se acalmado, ao menos em termos bélicos. Porém, os soldados britânicos ainda não haviam digerido o fato de que os EUA entraram no conflito muito depois que a Inglaterra - e não davam sinais de que se importavam com esse detalhe, criando para si mesmos uma imagem heroica que o cinema hollywoodiano insistia em sublinhar. Como uma forma de amenizar esse pequeno desconforto - ainda que extraoficialmente -, os diretores/produtores/roteiristas Michael Powell e Emeric Pressburger resolveram, então, servir como apaziguadores. Um filme que seria uma maneira de melhorar as relações entre os dois países, o drama romântico "Neste mundo e no outro" acabou, no entanto, extrapolando seus objetivos diplomáticos e conquistou crítica e público com uma parábola emocionante sobre o amor e a tolerância. Um dos filmes preferidos do ator Michael Sheen e da escritora J. K. Rowling é, também, um excepcional trabalho de imaginação e criatividade, com um roteiro brilhante e um visual empolgante - em uma época em que os efeitos visuais não contavam com computadores ou orçamentos milionários, tudo que se vê na tela é resultado direto do trabalho manual de uma equipe cujo talento é nunca menos que assombroso.

Filmado em preto-e-branco e Technicolor, o filme de Powell e Pressburger se utiliza de uma trama com toques sobrenaturais para construir um mundo à parte, onde nações hostis são capazes de deixar de lado suas diferenças em nome do amor e da fraternidade. Pode parecer ingênuo e piegas, mas o roteiro, repleto de bons momentos de humor e uma delicadeza ímpar ao tratar de assuntos incomuns, oferece ao espectador uma inteligência verbal e plástica que o torna absolutamente irresistível. Além de tudo, o filme acerta em cheio ao escalar como protagonista o ótimo David Niven, que transmite com elegância todas as nuances de seu personagem, um homem preso entre duas dimensões de realidade - e lutando por um amor descoberto em seus últimos momentos de vida. Ao lado de Kim Hunter (que levaria um Oscar de coadjuvante por "Uma rua chamada Pecado", de 1951), Niven mostra seu lado romântico sem nunca escorregar no sentimentalismo óbvio - e ainda arruma espaço para uma bem-vinda dose de ironia.


O filme começa como qualquer outra das produções sobre a guerra que invadiram as telas de cinema nos anos 1940: o Capitão Peter David Carter (David Niven), inglês, está retornado a seu país, depois de uma missão de bombardeio quando descobre que, para sua desgraça, que seu avião foi atingido e ele está vivendo seus últimos momentos de vida. Nesse meio-tempo, ele faz contato, via rádio, com a jovem June (Kim Hunter), que trabalha junto ao exército norte-americano: os dois conversam brevemente e notam uma grande sintonia entre eles, mas é tudo muito tarde, e, depois de pedir a June que avise sua mãe a respeito de sua morte, David se joga do avião em chamas mesmo sabendo que seu paraquedas está inutilizado. Para sua surpresa, porém, ele não morre, e acorda, atônito e com uma simples dor de cabeça, em uma praia britânica. Nesse mesmo lugar, ele conhece June e os dois se apaixonam instantaneamente. Seu idílio romântico, no entanto, dura pouco: sua sobrevivência foi um erro, uma falha do anjo responsável por direcioná-lo ao Paraíso. Indignado com a situação, Peter exige que seu caso seja julgado pelas mais altas cortes divinas, para que ele possa desfrutar da paixão que começou a sentir por June quando já deveria estar morto. O julgamento, então, é marcado e teses a favor e contra sua reivindicação são expostos diante de testemunhas e do júri.

O grande lance dramático de "Neste mundo e no outro" vem, no entanto, na forma com que o roteiro trata o julgamento de Peter. Ao mesmo tempo em que as testemunhas são ouvidas no plano astral, no plano da realidade o protagonista está passando por uma cirurgia no cérebro: assustada com o que considera alucinações do namorado, June o leva até um médico, que descobre, através de exames, um tumor que pode ser o responsável por seu comportamento excêntrico. O filme lança, então, a dúvida que faz dele tão especial: o julgamento pelo qual Peter está passando realmente está acontecendo ou tudo não passa de imaginação de um homem doente? E o veredicto será dado por um Ser Superior ou por um cirurgião, capaz ou não de lhe devolver a vida normal? Esta questão acaba por ser o maior trunfo do filme - mais até do que seu visual criativo - e até mesmo os letreiros iniciais dão uma dica a seu respeito: "Esta é a história de dois mundos: um que conhecemos e outro que existe apenas na mente de um jovem piloto cujas vida e imaginação foram violentamente moldadas pela guerra. Qualquer semelhança com qualquer outro mundo, conhecido ou desconhecido, é meramente coincidência."

 Visto com o olhar quase cínico de hoje, "Neste mundo e no outro" - cujo título original, "A matter of life and death" foi substituído por "Stairway to heaven" no idiossincrático mercado norte-americano, que talvez rejeitasse a palavra "morte" e ignorasse o filme - pode parecer ingênuo. Mas é inegável que o casamento entre a ideia geral e sua realização é um dos pontos altos do cinema inglês do pós-guerra, com uma mensagem de paz e tolerância que permanece de vital relevância. Com toques de um humor tipicamente britânico em seus diálogos e o desbragado romantismo hollywoodiano em alguns de seus mais tocantes momentos, a obra de Powell e Pressburger - que em poucos anos voltariam a encantar as plateias com seu musical "Os sapatinhos vermelhos" (48) - é deliciosamente kitsch, mas de uma sinceridade encantadora. Imperdível!

segunda-feira

DUELO AO SOL

DUELO AO SOL (Duel in the sun, 1946, Selznick International Pictures, 129min) Direção: King Vidor. Roteiro: David O. Selznick, inspirado no romance de Niven Busch, adaptado por Oliver H. P. Garrett. Fotografia: Lee Garmes, Ray Rennahan, Hal Rosson. Música: Dimitri Tiomkin. Figurino: Walter Plunkett. Direção de arte/cenários: J. McMillan Johnson/James Basevi. Produção: David O. Selznick. Elenco: Jennifer Jones, Gregory Peck, Joseph Cotten, John Huston, Lillian Gish, Lionel Barrymore, Herbert Marshall. Estreia: 29/12/46

2 indicações ao Oscar: Atriz (Jennifer Jones), Atriz Coadjuvante (Lillian Gish)

Dinheiro não era problema: os constantes atrasos nas filmagens, a contratação (e demissão de sete diferentes diretores), as interferências diretas do produtor e o marketing agressivo ao custo então assombroso de dois milhões de dólares deixavam isso bem claro. A qualidade dramática também não parecia incomodar: cenas eram escritas e reescritas constantemente, e até mesmo refilmadas, mesmo que isso distanciasse a trama do romance original, escrito por Niven Busch. E as ambições eram bem exageradas: repetir o sucesso internacional (de crítica e público) de "... E o vento levou", lançado sete anos antes e imediatamente alçado à condição de clássico. Porém, nem sempre as coisas saem como o previsto, especialmente em Hollywood, e "Duelo ao sol" acabou se tornando mais lembrado por seus excessos (inúmeros) do que por suas qualidades (poucas, e nem sempre redentoras). Produzido por David O. Selznick no ápice de seu vício em anfetaminas e sofrendo de um sério problema dramático (a falta de carisma dos personagens centrais), o filme marcou época - foi um relevante êxito comercial, principalmente como resultado de sua farta campanha promocional e influenciou cineastas como Martin Scorsese e Pedro Almodóvar -, mas, visto sob uma ótica contemporânea, tem contornos escandalosamente machistas e racistas que nem mesmo a espetacular fotografia em Technicolor consegue amenizar.

Na verdade, o filme, oficialmente dirigido por King Vidor, sofre de uma séria tendência ao melodrama, com um enredo que poderia facilmente ser confundido com o de uma telenovela mexicana (não fosse tão eivado de preconceito racial): logo nas primeiras cenas, a protagonista, Pearl Chavez (Jennifer Jones em uma caracterização equivocada e excessivamente "étnica") praticamente testemunha o assassinato de sua mãe, morta por seu próprio pai quando flagrada com um amante. Depois da execução de seu pai, Pearl é mandada aos cuidados de uma prima distante, Laura Belle (a veterana Lillian Gish em seu único desempenho indicado ao Oscar). Laura vive em uma fazenda com o marido, o senador Jackson McCanles (Lionel Barrymore), e os dois filhos, de personalidades totalmente opostas: o caçula, Jesse (Joseph Cotten), acaba de terminar a faculdade de Direito, é educado, gentil e cavalheiresco; por sua vez, o mais velho, Lewton (Gregory Peck), é violento, bruto e pouco afeito a regras sociais. Ambos se sentem atraídos pela beleza selvagem de Pearl, mas, apesar de prezar a amizade de Jesse, ela acaba não resistindo a Lewton, com quem inicia uma relação baseada em sexo e quase obsessão - um relacionamento que não apenas irá contrapor os dois irmãos, mas também abalar todo o alicerce familiar.


Na pele de Pearl Chavez, a esposa de Selznick, Jennifer Jones, tem uma atuação que beira o exagero, apesar de ter sido indicada ao Oscar de melhor atriz. Assumindo o papel que seria de Teresa Wright - que saiu do projeto por estar grávida -, Jones acabou virando um dos focos do produtor, que via no filme a chance de oferecer a ela o mais emblemático trabalho de sua carreira (a despeito de Jones já ter uma estatueta em casa, por "A canção de Bernadette", de 1943). Para torná-la ainda mais atraente, Selznick chegou ao extremo de contratar o veterano diretor Joseph von Sternberg apenas para cuidar do visual da produção (leia-se da própria Jennifer). Não ajudou muito. Apesar de algumas sequências fotografadas com um Technicolor de ferir os olhos - especialmente crepúsculos e vastas paisagens -, "Duelo ao sol" não consegue deixar de ser extremamente cafona a maior parte do tempo, desde a concepção dos personagens até a plasticidade perceptivelmente kitsch dos cenários e figurinos. Gregory Peck, no auge da juventude, faz o que pode com um personagem francamente detestável, e só mesmo a ótima Butterfly McQueen (a Prissy de "... E o vento levou") para conseguir arrancar um pouco de humor do roteiro - ainda que faça praticamente o mesmo papel que fez no clássico de 1939.

Mas o pior de tudo é perceber como o roteiro trata de temas polêmicos sem a menor preocupação com o politicamente correto - termo longe de ser conhecido nos anos 1940. Não é que "Duelo ao sol" ignore todas as convenções: ele simplesmente faz questão de apresentá-las sob uma ótica de normalidade (o que, à época, poderia até não chocar ninguém, mas hoje em dia é absolutamente desprezível). No roteiro não faltam menções preconceituosas a respeito de indígenas (a protagonista é frequentemente tratada como "mestiça", em tom pejorativo) e imigrantes; a forma como Lewt trata Pearl é agressiva - a primeira noite de sexo entre eles é claramente um estupro - e, o que é pior, a trama é conduzida de modo a fazer o público torcer pelo romance abusivo (a ponto de Pearl apaixonar-se por ele justamente pelo jeito que ele a trata). Os atos de Lewt não são os atos de um homem apaixonado defendendo a mulher que ama, e sim o de um proprietário cuidando do que possui, uma mercadoria que precisa estar sempre a sua disposição. Sem disfarçar tais elementos francamente absurdos, o roteiro ainda peca por ser superficial e desnecessariamente longo, em mais uma tentativa de criar uma embalagem de épico para um filme que, apesar de ter seus fãs, é um dos mais discutíveis clássicos da velha Hollywood.

domingo

O AMANHÃ É ETERNO

O AMANHÃ É ETERNO (Tomorrow is forever, 1946, International Pictures, 104min) Direção: Irving Pichel. Roteiro: Lenore Coffe, estória de Gwen Bristow. Fotografia: Joe Valentine. Montagem: Ernest Nims. Música: Max Steiner. Figurino: Jean Louis. Direção de arte: Wiard B. Ihnen. Produção: David Lewis. Elenco: Orson Welles, Claudette Colbert, George Brent, Lucile Watson, Richard Long, Natalie Wood. Estreia: 18/01/46

Em 1946, Orson Welles já não era mais considerado apenas o gênio precoce por trás do revolucionário "Cidadão Kane" (1941): seu filme seguinte, "Soberba" (1942), havia sido mutilado pela RKO, com medo de um novo fracasso de bilheteria, e o ambicioso documentário "It's all true" (com cenas filmadas no Brasil) nem chegou a ser completado. Foi, então, sem maiores expectativas, que ele estrelou "O amanhã é eterno", um melodrama com enredo de telenovela e produção caprichada que tem em sua presença um dos principais atrativos. Na pele de um herói romântico e desprendido, ele mostra que, além de cineasta de imenso talento, também era um intérprete poderoso, capaz de agigantar um filme sem grandes pretensões artísticas. Ao lado da sempre ótima Claudette Colbert e uma estreante Natalie Wood (ainda criança), Welles faz do filme de Irving Pichel uma história de amor tocante e ainda com ecos da recém terminada II Guerra Mundial.

A trama, roteirizada por Lenore Coffe (indicada ao Oscar por "Quatro filhas", de 1938), começa com o final da I Guerra Mundial, comemorado principalmente pela jovem Elizabeth (Claudette Colbert), que finalmente irá reencontrar o marido, John Andrew McDonald (Orson Welles). Sua felicidade, porém, acaba quando ela recebe a notícia de sua morte em combate. Ao desespero de saber-se viúva do grande amor de sua vida junta-se a descoberta de uma gravidez. As coisas só não ficam piores porque seu chefe, Lawrence Hamilton (George Brent), resolve ajudá-la a se recuperar, com a ajuda de sua tia, Jessica (Lucile Watson): apaixonado por Elizabeth, o rapaz lhe propõe casamento e insiste em adotar seu bebê - batizado com o nome do verdadeiro pai. Sem muitas opções, a jovem aceita ambos os pedidos, e juntos, o casal tem mais um filho, algum tempo depois. Vinte anos se passam. Os EUA estão em vias de entrar em outra guerra, para angústia de Elizabeth - que vê seu filho mais velho, Drew (Richard Long), interessado em alistar-se nas tropas do país. É então que o novo químico contratado pela empresa de Lawrence é apresentado à família, junto com sua pequena filha adotiva, Margaret (Natalie Wood). O dr. Erik Kessler, na verdade, é John Andrew, que não morreu, mas, desfigurado por uma explosão, decidiu ficar longe da mulher que amava - e, depois de uma cirurgia plástica inovadora, se reinventou com nova identidade.


Logo que chega à casa de seu novo chefe, Andrew/Kessler reconhece Elizabeth, mas ela não é capaz do mesmo. Se aproximando aos poucos da família, ele constata que Drew é seu filho - e que ainda é apaixonado pela mulher da qual se afastou. Mas a iminência do aniversário de 21 anos do rapaz (data que lhe permitirá tomar suas decisões sem precisar da autorização dos pais) acelera as decisões que o antigo soldado precisa tomar. Afinal, ele precisa revelar sua real identidade? Ou é melhor manter tudo como está, sob pena de desestruturar a vida de uma família? Essas questões, típicas de melodrama, são conduzidas com sutileza pelo diretor, que faz uso da bela fotografia em preto-e-branco e da música de Max Steiner para enfatizar o clima dramático do roteiro. Claudette Colbert, do alto de sua elegância, faz o contraponto exato à aura de abnegação do personagem de Welles - um homem misterioso e atormentado por um passado que precisa esconder a qualquer preço. Por fim, há a pequena Natalie Wood, então com apenas oito anos de idade e dotada de um carisma e um talento que, alguns anos mais tarde, a colocariam em destaque no cenário hollywoodiano.

"O amanhã é eterno" é um filme pouco lembrado quando se fala da carreira de Orson Welles - e da própria história do cinema norte-americano. Não ganhou Oscar, não faz parte de nenhuma lista dos melhores filmes de todos os tempos e tampouco é muito conhecido até mesmo pelos maiores fãs da era de ouro de Hollywood. Mas é uma produção sincera, comovente e honesta em suas emoções e objetivos. É uma bela e triste história de amor e abnegação, com a guerra como pano de fundo e um elenco acima de qualquer suspeita. Para ser descoberto

terça-feira

INTERLÚDIO

INTERLÚDIO (Notorius, 1946, RKO Radio Pictures, 101min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Ben Hecht, estória "The song of the dragon", de John Taintor Foote. Fotografia: Ted Tetzlaff. Montagem: Theron Warth. Música: Roy Webb. Direção de arte/cenários: Carroll Clark, Albert S. D'Agostino/Claude Carpenter, Darrell Silvera. Produção: Alfred Hitchcock. Elenco: Ingrid Bergman, Cary Grant, Claude Rains, Louis Calhern, Leopoldine Konstantin. Estreia: 15/8/46

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Claude Rains), Roteiro Original



Alfred Hitchcock sempre fez questão de deixar bem claro que, quando resolvia transformar um livro ou peça de teatro em filme, utilizava-se apenas da parte do material que lhe interessava, abandonando o restante e preenchendo as lacunas da forma que melhor lhe fosse útil. Um exemplo mais do que claro de que ele falava a verdade é “Interlúdio”, que ele lançou em 1946 e se tornou sua segunda colaboração consecutiva com a bela Ingrid Bergman: a partir de um conto publicado no jornal Saturday Evening Post, chamado “A canção das chamas”, o cineasta criou uma trama de espionagem das mais brilhantes, que se aproveitava da situação política do mundo – o recente fim da II Guerra Mundial – para prender o espectador através de uma singela história de amor. E, ironia das ironias, justamente por causa de suas pesquisas para o roteiro, Hitch esteve na mira do FBI por alguns meses.

Com o país envolto em uma aura de paranoia nuclear, o FBI não gostou nem um pouco de saber que Hitchcock havia visitado um dos maiores cientistas do país com perguntas “suspeitas” a respeito da fabricação de uma bomba atômica – e nem adiantou saber que tal cientista havia afirmado categoricamente que era impossível que tal fato acontecesse. O que interessava ao diretor, no entanto, eram apenas detalhes que pudessem servir de elemento dramático para a história que estava então começando a conceber em sua mente – uma história que tinha como linha de ação a ideia simples “uma moça tem que dormir com um espião para conseguir informações para ajudar o país, mesmo apaixonada por um colega.” A inclusão de elementos químicos e a construção de uma bomba atômica, por incrível que pareça, apavorou o produtor David O. Selznick a tal ponto que ele fez o que ninguém esperava: vendeu todo o pacote – diretor, Ingrid Bergman, Cary Grant e o roteiro “improvável” – para a RKO. Endividado com o orçamento estourado do faroeste “Duelo ao sol”, com Jennifer Jones, Selznick se livrou do que ele considerava dois problemas ao mesmo tempo. Deixou passar um dos melhores filmes de Hitchcock – e olha que estamos falando de um homem que tem tantas obras-primas no currículo que fica difícil contar em uma única mão seus melhores trabalhos.


A trama de “Interlúdio” começa quando um espião nazista é condenado à morte por um tribunal americano. Apesar de não compactuar com as ideias do pai e levar uma vida de liberdade e independência, sua única filha, Alice (Ingrid Bergman) é procurada pelo envolvente T.R. Devlin (Cary Grant), agente do governo que lhe propõe uma missão como forma de amenizar a imagem de sua família junto aos EUA. Apaixonada por Devlin, Alice aceita participar da aventura e parte com ele para o Rio de Janeiro, onde deverá reencontrar e retomar contato com o nazista Alexander Sebastian (Claude Rains), amigo de seu pai e cuja mansão serve de esconderijo para os espiões alemães vivendo no Brasil. Para sua surpresa, Alexander não apenas se apaixona por ela como a pede em casamento – proposta que ela se vê impelida a aceitar para dar continuidade ao plano. Aos poucos ela e Devlin descobrem que Alexander realmente está usando sua casa para esconder urânio – quase ao mesmo tempo em que a jovem passa a correr sério risco de ser desmascarada pelo espião e por sua manipuladora mãe (Leopoldine Konstantin).

Repleto de sequências brilhantes, “Interlúdio” é o que de melhor Alfred Hitchcock tem a oferecer a seu público. Com uma trama simples que se desenrola de forma suave e envolvente, o filme funciona tanto como romance quanto como suspense de espionagem – com cenas geniais em ambos os gêneros. O longo beijo entre Bergman e Cary Grant, por exemplo, trapaceia o famigerado Código Hays ao mesclar o ato romântico a uma conversa aparentemente banal sobre comerem frango no jantar (para desespero de um Ben Hetch nada disposto a ver seu roteiro com uma cena do tipo) e não deixa de ser angustiante perceber o quanto Alice espera que Devlin interceda a seu favor e a impeça de casar-se com um espião nazista enquanto a ama. Como suspense, destacam-se a sequência em que os dois descem à adega de Sebastian para investigar sua coleção de vinhos (uma cena cuja consequência é vital para a trama) e os minutos finais, quando Alice passa de heroína à vítima e tem seus problemas confundidos por Devlin como uma recaída a seu problema com álcool. São em momentos assim que se percebe o porquê de Hitchcock ter-se apaixonado por Ingrid: além de linda e elegante, a sueca (em vias de envolver-se com Roberto Rosselini e um escândalo que a baniria de Hollywood por anos) brilha em uma interpretação das mais convincentes de sua carreira.

“Interlúdio” é, por fim, um Hitchcock da melhor safra – e um dos seus melhores em preto-e-branco. É elegante, sutil, inteligente e com uma dupla de atores em dias de grande inspiração. Tudo bem que a história contada por Hitch – a de que Bergman certa vez recusava-se a sair de seu quarto até que ele dormisse com ela – é absurda, mas o diretor sabia o que fazia. Mesmo que depois ele tivesse que conviver com o FBI na sua cola.

segunda-feira

GILDA

GILDA (Gilda, 1946, Columbia Pictures Corporation, 110min) Direção: Charles Vidor. Roteiro: Marion Parsonnet, estória de E.A. Ellington, adaptação de Jo Eisinger. Fotografia: Rudolph Maté. Montagem: Charles Nelson. Música: Hugo Friedhofer. Figurino: Jean Louis. Direção de arte/cenários: Stephen Goosson/Robert Priestley. Produção: Virginia Van Upp. Elenco: Glenn Ford, Rita Hayworth, George Macready, Joseph Calleia, Steven Geray. Estreia: 14/02/46


Em 1946, o exército norte-americano fez vários testes nucleares no Atol de Bikini. Uma das bombas, batizada de Gilda, era uma sincera homenagem à personagem-título de um dos filmes de maior sucesso do ano e à sua intérprete, a atriz Rita Hayworth. O que poderia ser considerado um elogio para a maioria das mulheres ciosas de sua beleza, porém, não agradou nem um pouco à estonteante então esposa de Orson Welles. Ofendida com o ato, Hayworth parecia prever que a imagem transmitida pelo filme de Charles Vidor – a de uma mulher cuja maior qualidade residia na sua capacidade de enlouquecer os homens através da aparência – a seguiria pelo resto da vida e da carreira. A mulher que declarou, não sem uma ponta de mágoa, que “os homens dormem com Gilda e acordam comigo!” deve à produção de Vidor – que ela recusou, a princípio – a perenidade de seu status de símbolo sexual. Talvez apenas Marilyn Monroe e sua saia levantada por acidente em “O pecado mora ao lado” seja uma imagem tão excitante na história do cinema quanto o strip-tease de Gilda. Que o diga o escritor Stephen King, que fez com que a personagem tivesse importância crucial – ainda que indireta – em seu conto “Rita Hayworth and the Shawshank redemption”, que deu origem ao genial filme “Um sonho de liberdade”, dirigido por Frank Darabont em 1994.

A trama de “Gilda” não é exatamente um primor, chegando muitas vezes ao nível do superficial. Sorte de Vidor e da Columbia Pictures – e seu chefão Harry Cohn – que a química entre o casal central, formado por Hayworth e o canadense Glenn Ford, extrapolou os limites do roteiro e tornou-se a maior força do filme, estendendo-se para a vida real e acompanhando os dois para sempre. Quando estão juntos em cena, Hayworth e Ford suplantam o enredo pouco criativo e justificam a aura de sensualidade que fez desse trabalho específico de Vidor – que já havia dirigido a atriz em “Modelos” (41) e voltaria a comandá-la em “Carmen” (48) – sua obra mais marcante. Valorizado pela fotografia em preto-e-branco de Rudolph Mate, que usa e abusa das sombras para sublinhar a atmosfera sexy e esfumaçada de boates, cassinos e ambientes propensos a todo tipo de crime, “Gilda” é um filme noir que poderia tranquilamente ter Humphrey Bogart em seu elenco. E por pouco não teve.


Convidado para interpretar o perdido Johnny Farrel, principal papel masculino do filme, Bogart declinou da proposta afirmando – com toda a razão, como se veria mais tarde – que sua presença ou de qualquer outro ator ao lado de Rita Hayworth seria totalmente desnecessária, uma vez que a beleza radiante da atriz ofuscaria tudo à sua volta. Logicamente o ator não estava tendo uma premonição, mas basta que Hayworth apareça pela primeira vez em cena para que realmente todo o resto torne-se menos importante do que ela. Sua entrada no filme – em uma sequência clássica onde ela mostra o lindo rosto ao levantá-lo e jogando os cabelos para trás – só encontra rival em outro momento fundamental do erotismo no cinema americano: Gilda entoando “Put the blame on Mame” (dublada por outra cantora) enquanto ensaia um strip-tease que chega apenas a uma luva e uma gargantilha, mas deixa todos os homens da boate – e da plateia – suspirando de paixão.

E paixão é a mola-mestra do filme – assim como o ódio e a vingança, dois de seus efeitos colaterais mais conhecidos. Em Buenos Aires (uma mudança surpreendente de cenários, especialmente nos anos 40 obcecados por EUA, França e Alemanha), o jogador Johnny Farrell (Glenn Ford) passa a ser o protegido do misterioso Bernard Mundson (George MacReady), que o contrata como gerente de um de seus cassinos. Homem de confiança do patrão – que tem contatos no mínimo suspeitos com um grupo de empresários ligados a minas de tungstênio – Farrell vê sua lealdade ao novo amigo sofrer um duro golpe quando descobre que sua esposa, a americana Gilda (Hayworth no auge da beleza), é a mesma mulher por quem ele ainda sofre depois de uma decepção amorosa. Tanto um quanto o outro tem arestas para aparar em relação ao fim do romance, mas tal embate ameaça sucumbir à atração irresistível que ambos ainda sentem – até que Mundson é dado como morto em um acidente de avião durante uma fuga. O que poderia ser a grande chance para o reacender do antigo amor, porém, mostra-se, na prática, mais um exercício de vingança.

E é isso. A trama, simples e direta – mas que tenta parecer intrincada com todas as negociações de Mundson e seus sinistros sócios – é apenas moldura para o show de química entre Hayworth e Glenn Ford. O roteiro é recheado de diálogos de duplo sentido e não se furta a apelar até mesmo para um final ao estilo noir, com reviravoltas e um crime redentor. A direção de Charles Vidor é elegante e discreta. O figurino, como se poderia esperar, tornou-se ícone da moda. Mas é Rita e sua Gilda – uma mulher como nunca mais houve outra – a verdadeira razão de ser de um filme que, com outra intérprete, correria o risco de ser apenas mais um no longo universo dos clássicos do cinema americano.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...