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quinta-feira

O ANJO MALVADO

 


O ANJO MALVADO (The good son, 1993, 20th Century Fox, 87min) Direção: Joseph Ruben. Roteiro: Ian McEwan. Fotografia: John Lindley. Montagem: George Bowers. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Cynthia Flynt. Direção de arte/cenários: Bill Groom/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Daniel Rogosin, Ezra Swerdlow. Elenco: Macaulay Culkin, Elijah Wood, David Morse, Wendy Crewson, Daniel Hugh Kelly, Jacqueline Brookes. Estreia: 15/9/93

Poucos astros de cinema eram tão poderosos, no começo dos anos 1990, do que Macaulay Culkin. Diminuto em tamanho mas gigante em termos comerciais desde que "Esqueceram de mim" rendeu inacreditáveis 476 milhões de dólares pelo mundo todo, o ator-mirim era um dos nomes mais quentes do mercado, capaz de tornar uma produção despretensiosa como "Meu primeiro amor" em um sucesso de bilheteria apenas por estar em seu elenco. Como nem tudo eram flores, no entanto, para contar com o garoto em seus filmes, os estúdios precisavam lidar com uma questão delicada (para dizer o mínimo) chamada Kit Culkin: pai do prodígio que encheu os cofres da 20th Century Fox (e do próprio clã) de dinheiro, Kit transformou-se, em poucos anos, em persona non grata dentro da indústria, devido a exigências descabidas, ganância e ataques de estrelismo. Para deixar que seu filho assinasse o contrato para uma sequência de "Esqueceram de mim", por exemplo, o pouco simpático pai de família exigiu que o estúdio desse a ele o papel principal de "O anjo malvado", suspense que seria dirigido por Michael Lehmann - de "Atração mortal" (1988) e "Feito cães e gatos" (1996). Ciosos de suas finanças, os executivos aceitaram a imposição, viram Lehmann abandonar o projeto por conflitos com Kit - e ser substituído por Joseph Ruben - e acabaram por não se queixar quando o filme fez uma razoável carreira nas salas de exibição graças à presença da criança mais popular da época. Na verdade, com sua estreia quase um ano depois de "Esqueceram de mim: perdido em Nova York", "O anjo malvado" tornou-se o último sucesso de Macaulay, que logo em seguida entrou em diversos projetos ambiciosos e fracassados - por obra e mérito de seu genitor, que viu sua galinha de ovos de ouro perder o brilho a cada nova polêmica. 

"O anjo malvado" é uma produção corriqueira e banal, que, não fosse a presença de Culkin no auge de sua popularidade, passaria em branco e se tornaria - como mais tarde aconteceu - um sucesso nas videolocadoras e nas sessões da madrugada nas emissoras de televisão. Apesar do final instigante, é um filme que não ousa nem em sua narrativa (simples e previsível) e tampouco vai fundo no que se propõe: talvez por medo de chocar o público cativo de Macaulay Culkin, a obra de Ruben jamais ultrapassa os limites mais básicos dos filmes do gênero, entregando apenas o que agrada ao espectador médio, que rejeita a violência extrema e se contenta com um susto ou outro sustentado pela trilha sonora - algo que o próprio Ruben já havia oferecido em outro êxito comercial eficiente mas esquecível, "Dormindo com o inimigo", estrelado por uma Julia Roberts em franca ascensão, em 1991. Ao fazer de seu vilão uma criança, o roteiro até tenta mudar um pouquinho as regras do jogo, mas esbarra justamente nas limitações éticas de tal escolha (não se pode esquecer de certa caretice do cinema de Hollywood, que jamais permitiria o aprofundamento do tema em uma produção claramente comercial) e, pasmem, é prejudicado por aquele que, em tese, seria seu maior trunfo: carismático e encantador em "Esqueceram de mim", Macaulay Culkin revela, em "O anjo malvado", que nem todo o carisma do mundo é capaz de disfarçar uma atuação apática. Perto de seu colega de cena, Elijah Wood, o arrimo da família Culkin demonstra, sem espaço para dúvidas, de que nem tudo que reluz é ouro.


O filme de Ruben começa com a precoce morte da mãe do pequeno Mark (Elijah Wood), que, logo em seguida, se vê sem a presença do pai, que viaja a negócios para o Japão. Hospedado na casa dos tios e ainda abalado com a inesperada perda, o garoto não demora a fazer amizade com o primo, Henry (Macaulay Culkin), com quem regula em idade. Aos poucos, porém, Henry começa a demonstrar um comportamento violento e dissimulado, capaz de atos que vão da maldade mais banal até a extrema periculosidade. Desconfiado de que o menino pode ter sido responsável até mesmo pela morte do irmão pequeno, afogado durante o banho, Mark tenta alertar todos à sua volta, mas seus avisos passam a ser considerados parte do trauma familiar - e, se utilizando de seu poder de manipulação infantil, Henry leva os pais a acreditarem que o primo tem um lado sombrio e perigoso. As coisas ficam ainda mais complicadas quando Mark chega à conclusão de que o ciúme doentio de Henry em relação à mãe podem levar a um desenlace trágico e irreversível.

Dirigido burocraticamente por Joseph Ruben - um cineasta sem nada de espetacular no currículo mas razoavelmente capaz de manter o interesse do público menos exigente -, "O anjo malvado" carece principalmente de profundidade. Por mais que o roteiro tente acrescentar camadas psicanalíticas à personalidade do psicopata mirim vivido por Macaulay Culkin, tudo soa pasteurizado e preso às limitações daquilo que é, na verdade, um produto com ambições mais comerciais do que artísticas. O elenco adulto - cujo nome mais reconhecível é o de David Morse - pouco tem a fazer com os diálogos recheados de clichês e personagens sem nenhum desenvolvimento além do básico. É chocante, diante disso, descobrir que por trás deles está Ian McEwan, brilhante escritor britânico que faria sucesso anos depois com o sublime "Reparação": uma prova inconteste de que, em muitos casos, Hollywood sufoca grandes talentos para que melhor caibam em seus objetivos medíocres.

quarta-feira

BENNY & JOON: CORAÇÕES EM CONFLITO

 


BENNY & JOON: CORAÇÕES EM CONFLITO (Benny & Joon, 1993, Metro Goldwyn Mayer, 98min) Direção: Jeremiah S. Chechik. Roteiro: Barry Berman, estória de Barry Berman, Leslie McNeil. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Carol Littleton. Música: Rachel Portman. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Barbara Munch. Produção executiva: Bill Badalato. Produção: Susan Arnold, Donna Roth. Elenco: Johnny Depp, Mary Stuart Masterson, Aidan Quinn, Julianne Moore, Oliver Platt, William H. Macy, CCH Pounder, Dan Hedaya, Joe Grifasi. Estreia: 16/4/93

No começo dos anos 1990 o nome de Johnny Depp já era sinônimo de excentricidade em Hollywood - em boa parte devido ao sucesso de sua performance em "Edward Mãos de Tesoura", dirigido por seu amigo Tim Burton. Por isso, não foi surpresa para ninguém quando ele foi escalado para interpretar um dos papéis centrais do drama romântico "Benny & Joon: corações em conflito": na pele do esquisitão Sam, fã de Chaplin e Buster Keaton, calado, semianalfabeto e dono de uma grande capacidade de amar, Depp confirmou sua persona dentro da indústria (que exploraria seu estilo em outras produções de relativo êxito) e foi, provavelmente, o maior responsável pelas críticas positivas do segundo filme do diretor Jeremiah Chechik. Sensível, honesta e despretensiosa, a história de amor entre duas pessoas à margem da sociedade - e a forma com que tal romance afeta as pessoas a sua volta - não chegou a fazer grande barulho nas bilheterias, mas tornou-se cult justamente pela presença do ator, particularmente inspirado em seu desempenho. Discreto em sua forma de suscitar emoções - e evitando a todo custo o melodrama barato -, "Benny & Joon" é um pequeno grande filme, que encontrou em Depp (e no resto do elenco) sua tradução perfeita.  

Ao contrário do que o subtítulo em português dá a entender, Benny e Joon não formam a dupla romântica central do filme. Benjamin e Juniper Pearl são, na verdade, irmãos, que vivem uma vida quase medíocre em uma pequena cidade de Washington. Ele (vivido por Aidan Quinn) é um mecânico solitário que abdicou de qualquer tipo de relacionamento amoroso para cuidar dela (interpretada por Mary Stuart Masterson) desde a morte de seus pais, em um acidente de carro. Juniper (ou Joon, como é conhecida pelos amigos e vizinhos) é uma jovem com deficiência intelectual - e dom para as artes - e exige do irmão, mesmo involuntariamente, dedicação quase absoluta. Depois do abandono de várias cuidadoras - incapazes de lidar com a inconstância de seu comportamento -, ela corre o sério risco de ser posta em um lar especializado quando um acontecimento inesperado muda os rumos de sua existência. Depois de perder em um jogo de cartas, Joon é obrigada por um amigo a abrigar em sua casa o estranho Sam (Johnny Depp) e, para sua surpresa - e de um atônito Benny - os dois acabam se apaixonando.

 

Projeto relativamente antigo da MGM, "Benny & Joon" quase teve, liderando seu elenco, a dupla de astros Tom Hanks e Julia Roberts (ainda que hoje seja difícil imaginá-los nos papéis). Depois de tentar também o então casal Tim Robbins e Susan Sarandon (outro par inusitado), as coisas pareciam finalmente ter entrado nos eixos com a escalação de Depp e sua namorada, Winona Ryder (começando uma trajetória ascendente em Hollywood). O fim do namoro acarretou na saída de Winona, que foi substituída por Laura Dern (recém saída de uma indicação ao Oscar por "As noites de Rose") ao mesmo tempo em que Woody Harrelson assumia o papel de Benny. Porém, tudo mudaria mais uma vez graças a dois acontecimentos fortuitos: Dern não gostou de saber que seu nome estaria em terceiro lugar nos créditos, e Harrelson foi convidado pela Paramount para ser o marido de Demi Moore em "Proposta indecente" (1993). Com Depp ainda firme no projeto, surgiram os nomes de Mary Stuart Masterson e Aidan Quinn, ambos promissores e, como mostra o resultado final, extremamente adequados aos personagens. Com a direção pouco invasiva de Chechik (em seu segundo longa-metragem) e um roteiro delicado e repleto de uma honestidade cativante, o filme acabou por agradar em cheio aos fãs de Depp - e, por consequência, a todos que procuravam escapar dos clichês do gênero.

A maior qualidade de "Benny & Joon" - além do elenco escalado com precisão - é o modo discreto com que Jeremiah Chechik conduz sua trama, sem pressa e com uma delicadeza surpreendente vinda de quem começou sua carreira no cinema com o pouco sutil "Férias frustradas de Natal" (1989) e que chegou a ser indicado a um Framboesa de Ouro pelo medonho "Os vingadores" (1999). Com um ritmo que leva o espectador a acompanhar vidas simples e personagens com sentimentos reais, o cineasta abraça o prosaico como forma de encantar.e emocionar (porém sem apelar para o sentimentalismo barato). E, se não bastasse tal cuidado, ainda há uma das primeiras aparições de Julianne Moore no cinema, como a garçonete e ex-atriz que se envolve com Benny a despeito de seus problemas familiares. Um motivo a mais para conhecer uma produção das mais simpáticas de seu tempo.

segunda-feira

O PIANO


O PIANO (The piano, 1993, CiBy 2000/Jan Chapman Productions/The Australian Film Comnission, 121min) Direção e roteiro: Jane Campion. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Veronika Jenet. Música: Michael Nyman. Figurino: Janet Patterson. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Meryl Cronin. Produção: Jan Chapman. Elenco: Holly Hunter, Harvey Keitel, Sam Neill, Anna Paquin, Kerry Walker. Estreia: 15/5/93 (Festival de Cannes)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Jane Campion), Atriz (Holly Hunter), Atriz Coadjuvante (Anna Paquin), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino

Vencedor de  3 Oscar: Atriz (Holly Hunter), Atriz Coadjuvante (Anna Paquin), Roteiro Original

Vencedor de 2 Palmas de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Filme, Atriz (Holly Hunter)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Holly Hunter)

Quando estava procurando uma atriz para viver Ada McGrath, a protagonista de seu próximo filme, a neozelandesa Jane Campion entrou em contato com o agente Steve Dontanville oferecendo o papel a uma de suas clientes, Sigourney Weaver. Sabendo que Weaver estava disposta a um período de descanso na carreira, para cuidar da filha pequena, Dontanville nem chegou a ela, sugerindo à Campion outra de suas agenciadas, Holly Hunter. - isso depois de uma série de possibilidades, que incluía Anjelica Huston, Jennifer Jason Leigh, Isabelle Huppert, Juliette Binoche e Madeleine Stowe. Meses mais tarde, quando "O piano" já havia se transformado em fenômeno - com duas vitórias no Festival de Cannes, três Oscar e dezenas de outros prêmios - a cineasta declarou, em uma entrevista, que Weaver era o tipo ideal para interpretar Ada, e surpreendeu a heroína da série "Alien", abismada com a ideia de não ter sido sequer consultada por seu agente. O fato é, que, a despeito do grande talento de Weaver, é praticamente impossível imaginar outra atriz no lugar de Hunter: avassaladora em seus silêncios expressivos e em seu trabalho físico, a então queridinha dos cineastas independentes americanos entrou com louvor no rol das maiores atrizes de seu tempo. E em um filme que, com uma visão feminina sobre o amor e o sexo, deixou desconfortável a parcela mais puritana das plateias internacionais.

Tratando a nudez, o sexo e a violência como partes indissociáveis das relações interpessoais, "O piano" se passa nos confins da Nova Zelândia do século XIX. É lá, em um cenário tão fascinante quanto inóspito, que chega a sensível Ada (Holly Hunter, avassaladora) para casar-se com Alistar Srewart (Sam Neill), a quem jamais conheceu pessoalmente e foi prometida por sua família. Junto com Ada estão sua filha pequena, Flora (Anna Paquin) e seu inestimável piano, que lhe serve como meio de comunicação e refúgio. Muda, Ada leva um choque de realidade quando se vê diante de um lugar que contrasta violentamente com seu espírito culto e delicado. Para piorar as coisas, seu marido, bruto e pouco afeito a sutilezas, vende seu piano para um vizinho, o exótico e misterioso George Baines (Harvey Keitel), que adotou o modo de viver dos nativos locais. Sentindo-se irremediavelmente atraído por Ada, ele propõe a Stewart que sua mulher lhe dê aulas de música em troca de terras desejadas pelo empresário. As lições de piano, no entanto, servem para que o surpreendentemente romântico Baines se aproxime do objeto de seu desejo, a quem ele deseja conquistar aos poucos, demonstrando um lado vulnerável e inesperado. Porém, o nascente romance entre os dois acende uma faísca que pode levar a uma tragédia.


 

Primeiro filme dirigido por uma mulher a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes - que dividiu com o chinês "Adeus, minha concubina", de Chen Kaige - e vencedor do Oscar de roteiro original, "O piano" foi também um inesperado sucesso popular, conquistando principalmente o público feminino, que viu na história de Ada um reflexo sofisticado da sexualidade através do olhar de uma mulher (Campion foi, à época, recém a segunda diretora a ser indicada na categoria, pela Academia). Ao apresentar cenas de nudez frontal de Holly Hunter e Harvey Keitel - nenhum deles dentro do padrão de beleza hollywoodiana - e sequências de sexo pouco discretas, o filme desafia a mesmice do cinema comercial, exibindo a sexualidade de forma madura e sem filtros. Pontuados pela belíssima trilha sonora de Michael Nyman, os momentos de intimidade entre os protagonistas soam como um sopro de verdade diante dos malabarismos eróticos da maioria da produção americana dos anos 1990. O despertar do amor entre Ada e Baines, visto pelas lentes do diretor de fotografia Stuart Dryburgh, surge como um oásis no meio da vastidão neozelandesa, quase hostil à sensibilidade, e consegue inclusive disfarçar o incômodo de ser fruto de um começo - e aqui há espaço para a polêmica - abusivo. Antes de entregar-se ao amor de Baines, a silenciosa pianista se vê obrigada a abrir mão do próprio corpo para recuperar seu instrumento musical, e nem mesmo a paixão quase cega de seu futuro amante justifica seus atos, por mais que se tente romantizar a situação. É uma questão desconfortável que o roteiro de Campion prefere ignorar.

Porém, se o desenvolvimento do romance entre os protagonistas é passível de discussão, não o são as maiores qualidades do filme. Holly Hunter está simplesmente devastadora como Ada, e seu Oscar é, provavelmente, um dos mais justos da história (no mesmo ano ela concorreu à estatueta de coadjuvante por seu trabalho em "A firma"), e Harvey Keitel surpreende em um papel a anos-luz de distância daqueles durões a que estão todos acostumados. A pequena Anna Paquin, que bateu nada menos que cinco mil candidatas ao papel da imprevisível Flora e levou um surpreendente Oscar, está igualmente fascinante, não se deixando intimidar pela presença gigantesca de Hunter. Dono de cenas de grande potência dramática - enfatizadas pela melancólica música e pelo desolador e cruel cenário, "O piano" é, sem dúvida, um dos filmes fundamentais de sua época, mesmo que hoje em dia soe um tanto questionável em termos morais. Apesar do viés distorcido do amor - ou talvez por causa disso, vai saber -, é uma história forte, contada com paixão e sensibilidade.

quinta-feira

ENCAIXOTANDO HELENA

 


ENCAIXOTANDO HELENA (Boxing Helena, 1993, Mainline Pictures/MGM Pictures, 107min) Direção: Jennifer Chambers Lynch. Roteiro: Jennifer Chambers Lynch, estória de Philippe Caland. Fotografia: Bojan Bazelli, Frank Byers. Montagem: David Finfer. Música: Graeme Revell. Direção de arte/cenários: Paul Huggins/Sharon Braunstein. Produção executiva: James R. Schaeffer, Larry Sugar. Produção: Philippe Caland, Carl Mazzocone. Elenco: Julian Sands, Sherilyn Fenn, Bill Pullman, Art Garfunkel, Betsy Clark, Kurtwood Smith. Estreia: Janeiro/93 (Festival de Sundance)

Antes mesmo de chegar às telas - o que aconteceu no Festival de Sundance de 1993 -, o filme de estreia da diretora Jennifer Lynch já estava nas páginas das publicações sobre cinema. Nem tanto pela curiosidade a respeito do primeiro trabalho da filha do prestigiado David Lynch mas sobretudo a respeito dos problemas de bastidores, que incluíam um clamoroso processo contra a atriz Kim Basinger  e a escolha por um elenco sem grandes astros depois da possibilidade de contar com Ed Harris ou John Malkovich no principal papel masculino. Fracasso de bilheteria que dividiu a crítica e comprometeu a nascente carreira da cineasta - que assinou alguns longa-metragens de pouca repercussão antes de dedicar-se à televisão -, "Encaixotando Helena" esbarrou principalmente na indecisão entre ser uma perturbadora história de amor ou um filme de suspense erótico: não agradou a nenhum público-alvo e entrou para a história mais como curiosidade do que exatamente por suas qualidades artísticas.

Segundo a própria Jennifer, seu roteiro foi escrito em dois meses quando ela tinha apenas dezenove anos. Não é de duvidar, a julgar pela superficialidade da trama e pela construção de seus personagens repleta de clichês. O protagonista, Nicholas Cavanaugh (Julian Sands) pode até carregar traumas de infância causados pelo excesso de sensualidade de sua mãe - algo que atrapalha sua relação com a colega de profissão, Anne Garret (Betsy Clark), disposta a um compromisso mais sério -, mas tais sentimentos jamais ultrapassam o óbvio. A bela Helena (Sherylin Fenn), apesar de demonstrar uma personalidade forte e uma certa prepotência em seu relacionamento com Ray O'Malley (Bill Pullman), não repete tais atitudes quando confrontada com um destino pouco feliz nas mãos de Nicholas. E toda a tensão sexual fetichista advinda da situação central não consegue escapar de um tom de fantasia machista, prejudicado pela estética pouco sofisticada e pela trilha sonora invasiva de Graeme Revell. O fato de Lynch ter recebido o aval do produtor Carl Mazzocone para assumir a direção do filme para que ele tivesse um olhar feminino não altera a percepção de que, apesar das intenções, "Encaixotando Helena" não passa de uma tentativa mal-sucedida de mesclar horror gótico, romance e sexo.


 

A trama engendrada por Jennifer Lynch gira em torno de Nick Cavanaugh, um médico bem-sucedido profissionalmente, atormentado por lembranças de uma infância dominada pela sensualidade avassaladora da mãe. Com a morte da matriarca, ele se transfere para a isolada mansão da família e se entrega a uma obsessão por Helena, por quem se apaixonou perdidamente depois de um breve encontro. Nem mesmo seu namoro hesitante com uma colega de trabalho, Anne, o afasta dos pensamentos constantes de reconquistar a bela e sedutora jovem, que simplesmente ignora suas tentativas de aproximação e o trata com um desprezo quase debochado. A relação entre eles sofre uma reviravolta, no entanto, quando um acidente de carro joga Helena nos braços de Nick - depois de amputar as duas pernas de sua musa, ele a esconde em sua propriedade e começa um intensivo jogo de sedução, com o objetivo de convencê-la de seu amor e dedicação. A princípio chocada com sua nova situação, Helena aos poucos vai percebendo que não há maneira de fugir de sua triste sina.

Helena, a heroína trágica criada por Jennifer Lynch, parecia, no começo dos anos 1990, por pouco não caiu nas mãos de Madonna, então em sua cruzada sensual que incluía o álbum "Erotica" e o livro de fotografias "Sex". A saída da estrela pop do projeto abriu espaço para outro símbolo sexual inquestionável do momento, Kim Basinger, parte do inconsciente popular masculino desde suas aventuras ao lado de Mickey Rourke no cult movie "9 1/2 semanas de amor" (1986). Basinger chegou a se comprometer com a produção até que, inesperadamente, abandonou o barco, para fúria dos produtores, que foram à justiça e a condenaram ao pagamento de uma multa de nove milhões de dólares. A saída, tanto de Madonna quanto de Basinger, alterou o tom de "Encaixotando Helena", que tornou-se mais explícito com a chegada de Sherilyn Fenn, cujo rosto angelical já havia sido explorado pelo pai de Jennifer, David, em sua série de televisão "Twin Peaks". Deslumbrante, mas sem alcance dramático o bastante para driblar as falhas do roteiro e a insegurança da direção, Fenn faz pouco mais do que enfeitar a tela, deixando o esforço maior para Julian Sands, que tenta ao máximo extrair verossimilhança em uma trama que, apesar da ousadia de sua premissa, se acovarda em um final decepcionante. Prometendo muito mais do que entrega (em termos de trama e resultado final), "Encaixotando Helena" pode até lembrar, em sua atmosfera onírica, a obra de David Lynch. Mas a estreia de Jennifer ficou muito aquém do que o DNA poderia sugerir.

sexta-feira

SEM MEDO DE VIVER


SEM MEDO DE VIVER (Fearless, 1993, Warner Bros, 122min) Direção: Peter Weir. Roteiro: Rafael Yglesias, romance de sua autoria. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: William Anderson, Armen Minasian, Lee Smith. Música: Maurice Jarre. Figurino: Marilyn Matthews. Direção de arte/cenários: John Stoddart/John Anderson. Produção: Mark Rosenberg, Paula Weinstein. Elenco: Jeff Bridges, Isabella Rossellini, John Turturro, Rosie Perez, Benicio Del Toro, Tom Hulce. Estreia: 15/10/93

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Rosie Perez)

De vez em quando uma receita com todos os ingredientes certos pode não ter o resultado esperado, por  razões as mais variadas. Cinema, então, apesar de frequentemente usar e abusar de fórmulas já testadas previamente, é uma incógnita: para cada produção que confirma a validade de elementos já devidamente consagrados, outras várias avisam de que nem sempre a confluência de fatores bem-sucedidos é garantia de sucesso. É o caso de "Sem medo de viver", lançado pela Warner no final de 1993 com evidentes intenções de chegar ao Oscar - com um diretor de prestígio, um ator principal dos mais bem quistos na indústria e um tema capaz de suscitar discussões e quiça lágrimas, o filme viu frustrados seus planos quando foi praticamente ignorado pela Academia (concorreu a apenas uma estatueta) e naufragou nas bilheterias, arrecadando pouco menos de sete milhões de dólares pelo mundo. Com o passar dos anos, porém, e com o apoio da crítica, acabou por adquirir o status de cult, encontrando seu público e passando a ser considerado uma pérola escondida na filmografia dos envolvidos. 

Baseado no romance "Fearless", de Rafael Yglesias, publicado no mesmo ano de lançamento do filme, "Sem medo de viver" é um filme estranho: já começa com o protagonista, Max Klein (Jeff Bridges), conduzindo um grupo de atônitos sobreviventes de um desastre aéreo para longe do acidente. Não demora muito para que seu ato de heroísmo faça dele uma espécie de celebridade - uma consequência com a qual não se sente exatamente à vontade. O que o surpreende, na verdade, é sua repentina inabilidade de conexão com a esposa, Laura (Isabella Rossellini), e o filho pequeno, Jonah, e a sensação de invulnerabilidade e imortalidade. Crente de que sobreviver ao acidente foi como nascer de novo, Max quer recomeçar a vida, redescobrir sentimentos e - como parte de sua mente um tanto desequilibrada pelo trauma - testar seus novos poderes de resistir à morte. Através de Bill Perlman (John Turturro), psicólogo da companhia aérea, designado para acompanhar os passageiros que saíram vivos da tragédia, Max conhece Carla Rodrigo (Rosie Perez), uma jovem que perdeu o filho de poucos meses diante de seus olhos. Surge entre ele, com sua síndrome de super-herói, e ela, com seu exarcebado sentimento de culpa, uma relação inesperada.

 

Dois grandes trunfos fazem com que "Sem medo de viver" escape das armadilhas lacrimosas em que poderia cair. Um deles é a direção do australiano Peter Weir, um dos cineastas mais consistentes a aportar em Hollywood na década de 1980 - depois de sucessivos êxitos de crítica em sua terra natal, como "Picnic na montanha misteriosa" (1975) e "Gallipoli" (1981), em 1993 ele já tinha concorrido ao Oscar de direção por "A testemunha" (1985) e "Sociedade dos poetas mortos" (1989). O segundo deles é a atuação inspirada de Jeff Bridges, que ficou com o papel inicialmente pensado para Mel Gibson (parceiro do diretor em "Gallipolli" e "O ano em que vivemos em perigo" (1984)) e lhe deu uma profundidade comovente. Bridges, que chegou a declarar o filme como um de seus trabalhos preferidos, imprime a Max Klein uma verdade que impede que o roteiro - escrito pelo mesmo Rafael Yglesias autor do romance que lhe deu origem - descambe para a inverossimilhança. Por mais improváveis que sejam algumas atitudes do protagonista, a presença de Bridges equilibra a balança e conduz a história de redenção, desespero e culpa de forma sensível e sem apelar excessivamente ao dramalhão. Apesar da história em si ser bastante pesada - especialmente a trama que envolve Rosie Perez -, a mão elegante de Weir é sentida especialmente em sequências mais lúdicas, como o clímax final e a cena de abertura. Sem cair na tentação de dar tudo mastigadinho à plateia, o diretor a convida à reflexão - e talvez este tenha sido o problema de "Sem medo de viver" junto à pouco ousada Academia.

Ao homenagear apenas Rosie Perez com uma indicação - ela perdeu a estatueta para a pequena Anna Paquin, por "O piano" (1993) -, a Academia perdeu a oportunidade de aplaudir a soberba interpretação de Jeff Bridges, a direção econômica e poética de Weir e a trilha sonora eficiente de Maurice Jarre. Mesmo que não esteja no mesmo nível dos melhores trabalhos do diretor - "A testemunha", "Sociedade dos poetas mortos" e o posterior "O show de Truman: o show da vida" (1998) -, "Sem medo de viver" é um belo filme, envolvente e intrigante na medida certa. Não é uma obra-prima, mas é capaz de tocar alguns corações mais sensíveis e confirmar seu realizador como uma das mais interessantes aquisições internacionais de Hollywood.

quinta-feira

A METADE NEGRA


A METADE NEGRA (The dark half, 1993, Orion Pictures, 122min) Direção: George A. Romero. Roteiro: George A. Romero, romance de Stephen King. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Pasquale Buba. Música: Christopher Young. Figurino: Barbara Anderson. Direção de arte/cenários: Cletus Anderson/Jane Catherine Hyland, Brian J. Stonestreet. Produção executiva: George A. Romero. Produção: Declan Baldwin. Elenco: Timothy Hutton, Amy Madigan, Michael Rooker, Robert Joy, Rutanya Alda, Tom Mardirosian. Estreia: 23/3/93

Publicado em 1989, o livro "A metade negra", de Stephen King tem, em seu cerne, várias ligações pessoais com seu autor. Última obra sua antes de abandonar de vez o álcool, a trama reflete, segundo ele mesmo, a batalha de duas personalidades pelo domínio da mente de um escritor. Além disso, sua premissa espelha os fatos que levaram à revelação de que era ele, na verdade, o homem que vinha publicando, com sucesso, vários livros com o pseudônimo de Richard Bachman. À parte esses detalhes particulares, centrar seu foco em um protagonista escritor não era novidade a King - basta lembrar, entre as obras adaptadas para o cinema, de "O iluminado" (1980) e "Louca obsessão" (1990) - e o encontro do mestre do terror literário norte-americano com George A. Romero, um dos maiores expoentes do gênero na sétima arte, parecia um projeto dos sonhos para os fãs. Para frustração de todos, no entanto, as coisas não correram como o esperado: finalizado em 1991, o filme de Romero demorou quase dois anos para chegar às telas, vítima dos problemas financeiros da Orion Pictures, e fracassou nas bilheterias, não arrecadando, no mercado doméstico (EUA e Canadá), nem mesmo o suficiente para cobrir seu orçamento de aproximadamente 15 milhões de dólares. Dividindo a crítica mas agradando ao público-alvo - graças a uma adaptação bastante fiel -, "A metade negra" ficou no meio do caminho: não é um fiasco como algumas versões de obras de King mas tampouco chega a ser um filme inesquecível.

Quando assumiu as rédeas de "A metade negra", Romero não assinava um longa-metragem inteiro desde "Instinto fatal" (1988) - em "Dois olhos satânicos" (1990) ele havia dirigido apenas um episódio, deixando o outro a cargo de Dario Argento - e seu retorno, principalmente em uma trama criada por Stephen King, deixou todo mundo empolgado. Os problemas, no entanto, já começaram nas filmagens, com constantes atritos entre diretor e ator principal. Premiado com o Oscar de coadjuvante por sua estreia no cinema, em "Gente como a gente" (1980), Timothy Hutton não emplacava um sucesso há muito tempo, e sua relação com o veterano cineasta não era exatamente das mais tranquilas - uma das brigas chegou a resultar em um quase abandono do projeto, retomado depois de alguns dias. Com o filme pronto, outro baque: em sérias dificuldades comerciais, o estúdio por trás da produção, a Orion, foi obrigado a adiar indefinidamente a estreia. Parecia que os ventos realmente não estavam favoráveis, e o lançamento, quase dois anos depois do prazo inicialmente previsto, também não foi dos mais auspiciosos: com desempenho medíocre de bilheteria e críticas mornas, o filme de Romero perdeu a oportunidade de ficar marcado como uma das obras mais importantes do cinema de terror dos anos 1990.

 

O protagonista de "A metade negra" é Thad Beaumont (Timothy Hutton), escritor e professor universitário que esconde, de seus alunos e do público em geral, ser o verdadeiro autor de uma bem-sucedida série de livros assinada por um tal de George Stark. Tendo mantido em segredo por anos seu pseudônimo, Beaumont se vê chantageado por um desconhecido que ameaça desmascará-lo e por em xeque seu atual prestígio. Para evitar tal situação, ele mesmo revela o caso, e dá uma entrevista onde figurativamente mata Stark - com direito a foto em um túmulo. Quando o fotógrafo da matéria é assassinado, Thad é procurado pelo xerife Alan Pangborn (Michael Rooker) e descobre ser o principal suspeito do crime. O que parecia absurdo fica ainda mais inacreditável quando outras pessoas ligadas ao escritor passam a ser violentamente mortas - tudo indica que o responsável pelos crimes é George Stark, a personalidade sombria de Thad, que se recusa a ser abandonada e deseja assumir o domínio sobre ele. Cabe então ao atormentado autor evitar mais mortes, provar sua inocência (??) e manter a salvo sua mulher, Liz (Amy Madigan) e seus dois filhos gêmeos - uma estrutura familiar que lembraria a da sua infância, caso ele não tivesse absorvido, em seu organismo, um irmão que não se desenvolveu de forma normal.

O problema de "A metade negra" não é a adaptação - que segue o material original com fidelidade quase canina - nem a direção de Romero - que explora com gosto todas as possibilidades visuais de um romance bastante violento. Tampouco o responsável é Timothy Hutton, um ator de grandes recursos e que consegue viver as duas faces do protagonista de forma convincente e orgânica. O que prejudica o resultado final é a edição pouco ágil - o corte de uns bons quinze minutos faria maravilhas - e a falha do roteiro em oferecer verossimilhança aos personagens. A forma com que Thad lida com o fato de ser acusado de uma série de brutais assassinatos e a maneira com que tenta convencer o xerife de que o responsável é alguém criado em sua imaginação, por exemplo, não soam naturais nem mesmo dentro do universo ficcional em que estão inseridas. E se as cenas dos assassinatos são, em sua maioria, empolgantes, o clímax não deixa de ser um tanto cansativo - justamente por se estender demais. Enquanto estabelece seu clima, oferece a violência gráfica esperada de um produto George A. Romero e brinda o espectador com a lealdade ao texto de Stephen King, "A metade negra" brilha e envolve. Uma pena que, em seu terço final, perca a potência, ao abraçar o trash - que mesmo sendo característica do diretor, destoa do tom até então apresentado. Mesmo assim, é uma produção acima da média no gênero e sobrevive bem ao teste do tempo, principalmente pelo esforço do elenco.

terça-feira

MORRENDO E APRENDENDO


MORRENDO E APRENDENDO (Heart and souls, 1993, Universal Pictures, 104min) Direção: Ron Underwood. Roteiro: Brent Maddock, S.S. Wilson, Gregory Hansen, Erik Hansen, estória de Gregory Hansen, Erik Hansen, Brent Maddock, S.S. Wilson, curta-metragem de Gregory Hansen. Fotografia: Michael Watkins. Montagem: O. Nicholas Brown. Música: Marc Shaiman. Figurino: Jean-Pierre Dorleac. Direção de arte/cenários: John Muto/Anne Ahrens. Produção executiva: Cari-Esta Albert, James Jacks. Produção: Sean Daniel, Nancy Roberts. Elenco: Robert Downey Jr., Kyra Sedgwick, Tom Sizemore, Charles Grodin, Alfre Woodard, Elisabeth Shue, David Paymer. Estreia: 13/8/93
 

O sucesso avassalador de "Ghost: do outro lado da vida", que em 1990 pegou até mesm a Paramount de surpresa, ao tornar-se um enorme êxito comercial e concorrer ao Oscar de melhor filme (além de ter arrebatado duas estatuetas), fez com que os estúdios de Hollywood começassem a prestar mais atenção em roteiros que explorassem, de uma forma ou outra, a espiritualidade. Nenhum deles resultou em um filme memorável - até mesmo o esperado "A mulher do açougueiro", estrelado pela mesma Demi Moore, fracassou retumbantemente -, mas algumas produções acabaram injustamente renegadas, tidas como subprodutos oportunistas enquanto, na verdade, tinham qualidades o bastante para, no mínimo, fazer uma bela carreira como cult. É o caso de "Morrendo e aprendendo", emocionante e divertida comédia dramática dirigida por Ron Underwood que passou praticamente em branco nos cinemas - e, no caso de países como Inglaterra e Hungria, foi lançado diretamente em vídeo: com um roteiro bem amarrado, atuações precisas e um tom acertadamente nostálgico, o filme cativa logo nos primeiros minutos e, se não chega a ser uma obra-prima ou um marco na carreira dos envolvidos, ao menos não faz feio em sua tentativa de emocionar aos mais sensíveis.

Originado de um curta-metragem de nove minutos dirigido pelo corroteirista Gregory Hansen, "Morrendo e aprendendo" chegou aos cinemas quando seu astro, Robert Downey Jr., já estava devidamente reconhecido como um dos mais promissores astros de sua geração - prestígio alcançado pelos prêmios conquistados por seu desempenho em "Chaplin" (1992). Isso não impediu, no entanto, que naufragasse solenemente nas bilheterias e se tornasse, com o tempo, um dos trabalhos menos lembrados do ator - que, apesar dos pesares, o considera um de seus filmes preferidos. Não é para menos: anos antes de atingir o status de grande astro com "Homem de ferro" (2008), ele teve a oportunidade de exercitar seu timing cômico, seu carisma e seus dotes dramáticos, com um protagonista que, em outros tempos, poderia muito bem ter sido interpretado por Cary Grant. E isso que ele só aparece depois de meia hora de projeção.

 

"Morrendo e aprendendo" começa em 1959, quando duas situações completamente opostas confluem em uma terceira. Em um delas, um trágico acidente com um ônibus causa a morte do motorista e dos quatro passageiros. Em outra, um casal comemora o nascimento do primeiro filho, Thomas, ocorrido quase ao mesmo tempo. Presos à Terra mesmo depois da morte, as vítimas acabam se tornando anjos da guarda do menino, que pelos próximos sete anos, conviverá com eles com naturalidade e segurança - pelo menos até que eles percebam que sua presença está atrapalhando o desenvolvimento natural da criança. Sempre presentes em sua vida, mesmo que invisíveis, os quatro espíritos acabam por voltar à ciência de Thomas anos mais tarde, quando Thomas já é um adulto bem sucedido profissionalmente - ainda que com sérios problemas em assumir um compromisso com a bela namorada, Anne (Elisabeth Shue): procurados pelo motorista do ônibus, Hal (David Paymer), eles descobrem que deveriam ter aproveitado seu tempo ao lado do rapaz para resolver as pendências deixadas no momento de suas mortes. Com os dias contados antes de partirem definitivamente, eles precisam, então, contar com a ajuda do incrédulo jovem para limpar as arestas de suas vidas - o que não é exatamente tarefa das mais fáceis.

Milo Peck (Tom Sizemore), um ladrão de galinhas, embarcou no ônibus depois de arrumar encrenca com um de seus contratantes - que lhe pagou para roubar, de uma criança, uma revista em quadrinhos rara e valiosa. Harrison Winslow (Charles Grodin) sofria com uma timidez atroz, que o impedia de fazer carreira como cantor lírico. Julia (Kyra Sedgwick) estava em crise no relacionamento com o namorado, a quem amava apesar de não ter a coragem de dar um passo definitivo. E Penny Washington (Alfre Woodard), uma mãe solteira, tinha dúvidas a respeito de sua competência materna em cuidar sozinha de três crianças. Com a possibilidade de usar o corpo de Thomas para encerrarem seus ciclos terrenos, os quatro partem em busca de redenção, em uma jornada que envolve risos, lágrimas e música. Para sorte do espectador, cada etapa dessa trajetória é apresentada de forma lúdica e orgânica: até mesmo as coincidências que surgem no caminho dos personagens soam plausíveis - responsabilidade de um roteiro sem medo de mergulhar na emoção e de protagonistas adoráveis, capazes de conquistar o público sem fazer muito esforço. Dirigido com sensibilidade por um Ron Underwood que acabara de assinar "Amigos, sempre amigos" (1991) - que deu o Oscar de coadjuvante a Jack Palance - e passaria à televisão já no começo dos anos 2000, "Morrendo e aprendendo" é uma delícia de sessão da tarde, um filme despretensioso e leve que mostrava, já em 1993, o imenso talento de Downey Jr..

O DOSSIÊ PELICANO

O DOSSIÊ PELICANO (The Pelican Brief, 1993, Warner Bros, 141min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Alan J. Pakula, romance de John Grisham. Fotografia: Stephen Golblatt. Montagem: Tom Rolf, Trudy Ship. Música: James Horner. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Lisa Fischer, Rick Simpson. Produção: Pieter Jan Brugge, Alan J. Pakula. Elenco: Julia Roberts, Denzel Washington, Sam Shepard, John Heard, Tony Goldwin, James B. Sikking, Stanley Tucci, Hume Cronyn, John Lithgow, Anthony Heald, Cynthia Nixon. Estreia: 17/12/93

Depois de tornar-se a maior estrela surgida em Hollywood no início da década de 90 - e ter sido indicada duas vezes consecutivas ao Oscar - Julia Roberts achou que era hora de dar uma parada: presente mais nas páginas de tabloides sensacionalistas (graças a seu casamento com Kiefer Sutherland desmarcado em cima da hora, seu romance com o ator Jason Patric e posteriormente seu casamento-surpresa com o cantor country Lyle Lovett) do que nos sets de filmagens, a linda mulher que havia encantado os homens e inspirado as mulheres de plateias do mundo inteiro tentava colocar ordem na vida pessoal. Questão resolvida, era hora, então, de voltar ao batente, e para isso nada melhor do que um papel escrito especialmente para ela por um autor em vias de tornar-se o nome mais quente da terra do cinema: John Grisham. Autor do best-seller que deu origem ao filme "A firma" (93), estrelado por Tom Cruise, Grisham criou a protagonista de seu livro seguinte, "O dossiê Pelicano" com Roberts como modelo - não foi preciso muito para que a atriz, lisonjeada, topasse o desafio de encarná-la em seu retorno às telas sem nem mesmo ler a adaptação do romance.

Especializado em uma literatura digestiva, fluente e de pegada fácil, Grisham conquistou milhares de leitores com seus protagonistas, invariavelmente advogados ou estudantes de Direito que se veem forçados a lidar com a ganância e a corrupção do meio em que se instruem. No caso de "O dossiê Pelicano" a bola da vez é Darby Shaw (Julia Roberts, linda e carismática como sempre), uma jovem estudante que, apesar de manter um romance secreto com Thomas Callahan (Sam Shepard) - seu professor e mentor - é dedicada e inteligente o bastante para, sozinha, encontrar o fio da meada de uma conspiração gigantesca (e que envolve membros da Casa Branca) na morte de dois juízes da Suprema Corte. O dossiê que ela escreve apontando os possíveis responsáveis - e que leva o nome de pelicano por causa da ave ameaçada de extinção graças à exploração criminosa de petróleo feita pelos culpados - acaba chegando ao FBI e, consequentemente, ela se vê perseguida e ameaçada de morte. Cercada de violência - que vitima seu amante e qualquer pessoa de quem ela se aproxima - ela recorre a Gray Grantham (Denzel Washington), repórter político em quem ela passa a confiar cegamente.


Acostumado a assinar filmes que tratam de conspirações - são dele "Todos os homens do presidente" (76) e "A trama" - o diretor Alan J. Pakula foi a escolha certa para conduzir "O dossiê Pelicano". Cineasta sóbrio e inteligente, ele consegue extrair sempre o melhor de seu elenco e escolher ângulos improváveis para suas cenas, sejam elas longos diálogos explanativos ou empolgantes correrias dentro de um estacionamento coberto. Mesmo que seu filme seja um tanto longo demais para os padrões comerciais hollywoodianos - quase duas horas e meia de pouca ação e muito papo - ele consegue manter o interesse da plateia graças à tensão construída pela trilha sonora adequada de James Horner, pela fotografia claustrofóbica de Stephen Goldblatt e principalmente pela química entre Julia e Denzel - que foi convencido pela atriz a tomar parte no projeto. É uma bênção, também, que não exista um interesse romântico entre os protagonistas - o que diminuiria o impacto da trama central - e que o final não apele para o clichê da luta corporal entre mocinhos e bandidos. Além disso, Pakula cria alguns momentos brilhantes - como a morte de um dos vilões em pleno parque de diversões e a tentativa de matar Gray e Darby em um carro armado com uma bomba - que amenizam o tom quase morno da narrativa.

Quem está acostumado aos thrillers americanos leva um choque ao assistir a "O dossiê Pelicano": o ritmo é mais lento, o desenvolvimento é menos atropelado e as reações dos personagens são mais críveis do que na maioria dos filmes do mainstream. Ao mesmo tempo que isso qualifica o filme de Pakula como um produto mais inteligente que a média, afasta a plateia que busca adrenalina e a catarse que normalmente acompanha o gênero. Pakula era um diretor elegante, que fugia da violência gratuita, e isso está claro em cada fotograma de seu filme. A história pode não empolgar, mas a qualidade da narrativa é impecável.

segunda-feira

SEIS GRAUS DE SEPARAÇÃO

SEIS GRAUS DE SEPARAÇÃO (Six degrees of separation, 1993, MGM Productions, 112min) Direção: Fred Schepisi. Roteiro: John Guare, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Ian Baker. Montagem: Peter Honess. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Juddiana Makovsky. Direção de arte/cenários: Dennis Bradford/Gretchen Rau. Produção executiva: Ric Kidney. Produção: Arnon Milchan, Fred Schepisi. Elenco: Donald Sutherland, Stockard Channing, Will Smith, Ian McKellen, Mary Beth Hurt, Bruce Davison, Richard Masur, Heather Graham, Anthony Michael Hall. Estreia: 08/12/93

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Stockard Channing)

Em 1983, um jovem negro de 19 anos de idade chamado David Hampton penetrou na alta sociedade de Manhattan e, se fazendo passar por filho do ator Sidney Poitier, conseguiu ludibriar personalidades como Melanie Griffith, Gary Sinise e Calvin Klein e gente da alta sociedade nova-iorquina, como o reitor de uma faculdade de jornalismo e um famoso urologista. Alegando ser amigo de seus filhos que estavam na universidade, ter sido assaltado ou ter perdido a bagagem em voo de avião, ele se hospedava nos apartamentos de suas vítimas e, uma vez tendo-as conquistado, até conseguia que lhes emprestassem dinheiro. Farsa descoberta, o rapaz foi preso e banido de Nova York - até morrer, vítima de complicações relacionadas ao vírus da AIDS, em 2013. Sua história - quase absurda demais para ser verdade - chegou aos ouvidos do dramaturgo John Guare, que não resistiu à tentação de levá-la para os palcos. A peça "Seis graus de separação" estreou em novembro de 1990, foi indicada ao Tony de melhor espetáculo do ano e, pouco menos de três anos depois, chegava também às telas de cinema, adaptada pelo próprio Guare, dirigida por Fred Schepisi e estrelada pela mesma atriz que lhe deu vida na Broadway, Stockard Channing, que acabou indicada ao Golden Globe e ao Oscar por sua interpretação.

Mais conhecida como a encrenqueira Rizzo de "Grease, nos tempos da brilhantina" (78), Channing está brilhante no papel de Ouisa Kittredge, uma sofisticada e quase fútil socialite nova-iorquina que trabalha, ao lado do marido, Flan (Donald Sutherland) negociando valiosas obras de arte para colecionadores que dispensam o intermédio de galerias. Com os três filhos na universidade, eles vivem em um mundo de luxo e conforto - ainda que também se utilizem dos privilégios da aparência social - cuja rotina de jantares e festas é quebrado uma noite com a chegada em sua casa de Paul (Will Smith em seu primeiro papel de destaque em Hollywood), um jovem que, alegando ter sido assaltado em frente a seu prédio, apresenta-se como amigo de seus filhos. Enquanto é auxiliado pelo casal - e por um convidado sul-africano que está de passagem pela cidade, o milionário Geoffrey Miller (Ian McKellen) - Paul conta a eles sua história de vida, terminando por afirmar-lhes ser filho do primeiro casamento de Poitier. Fascinados com a situação - e com a possibilidade de fazerem parte de uma possível filmagem do musical "Cats" que está presumivelmente sendo produzida pelo ator - os Kittredge se deixam envolver com a lábia e a simpatia do rapaz, a ponto de convidá-lo a passar a noite em sua casa. Depois que a noite acaba mal, porém, eles chegam à conclusão de que Paul não é exatamente quem eles pensavam.


Em um encontro com um casal de amigos, os também ricaços Kitty (Mary Beth Hurt) e Larkin (Bruce Davison), os Kittredge ficam abismados quando descobrem que o mesmo golpe foi aplicado em seus amigos e resolvem ir à polícia. Para sua surpresa, o caso não é novo, e um médico da cidade, Dr. Fine (Richard Masur) surge para comprovar a afirmação. Com um misto de curiosidade/preocupação/senso de aventura, o grupo de "vítimas" resolve investigar a fundo e tentar descobrir a origem de Paul, seus objetivos em penetrar na alta sociedade e seu paradeiro. Para isso, contam com a ajuda - a princípio contrafeita - dos filhos e de Trent (Anthony Michael Hall), um antigo amigo dos jovens, que parece ter sido o ponto de partida da farsa, que chega a um patamar ainda maior quando ele ressurge espalhando por Manhattan que é um filho rejeitado de Flan Kittredge.

Escrito com um sarcástico senso de humor mergulhado em uma tocante melancolia e uma feroz crítica à futilidade da refinada sociedade de Manhattan - e do mundo todo, de uma maneira ou outra - "Seis graus de separação" consegue manter um equilíbrio perfeito entre o humor sutil e o drama delicado, sem jamais pesar a mão para nenhum lado. Ao narrar sua história como uma anedota inconsequente do jet-set nova-iorquino (o que dá vazão a uma memorável explosão final de Ouisa em um jantar chique), Guare enfatiza toda a diferença cultural que afasta os bem-nascidos como os Kittredge dos renegados como Paul, que anseiam desesperadamente por um mundo de luxo, arte, conforto e atenção. Para isso é fundamental, portanto, a atuação madura de Will Smith, brindando a plateia com um personagem que, à parte o carisma de sempre, em nada lembra seus papéis posteriores. Com um misto de desamparo, ginga e obsessão, ele constroi um Paul sempre surpreendente, que vai revelando camada por camada conforme a trama se desenvolve - também é notável o trabalho de edição de Peter Honess, que mantém a atenção do público sempre constante.

"Seis graus de separação" é um filme que cativa aos poucos, se revelando, em seu final, uma produção muito mais inteligente e instigante do que parecia em seus primeiros minutos. Uma pérola pouco conhecida capaz de conquistar o mais exigente espectador.

domingo

UM MUNDO PERFEITO

UM MUNDO PERFEITO (A perfect world, 1993, Warner Bros, 138min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: John Lee Hancock. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Joel Cox, Ron Spang. Música: Lennie Niehaus. Figurino: Erica Edell Phillips. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/Alan Hicks. Produção: Clint Eastwood, Mark Johnson, David Valdes. Elenco: Clint Eastwood, Kevin Costner, Laura Dern, T.J. Lowther, Keith Szarabajka, Leo Burmester, Bradley Whitford, Jennifer Griffin. Estreia: 24/11/93

Em 1990, Kevin Costner fez sua estreia na direção com "Dança com lobos", um western revisionista e plácido que conquistou multidões e a Academia de Hollywood, que o premiou com sete Oscar (boa parte deles de merecimento duvidoso, frente a concorrentes como "Os bons companheiros", de Martin Scorsese e "O poderoso chefão, parte 3", de Francis Ford Coppola). Dois anos depois, o veterano Clint Eastwood repetiu o feito com "Os imperdoáveis", um faroeste melancólico que levou 4 Oscar (dessa vez com pleno merecimento). Uma reunião dos dois vencedores só poderia, então, resultar em um sucesso arrasador, especialmente se rompesse com a imagem de bom moço cultivada com tanto cuidado por Costner em sua carreira. O fato de "Um mundo perfeito" ter arrecadado pouco mais de 30 milhões de dólares no território americano, no entanto, mostrou que, das duas uma: ou o público não estava preparado para essa mudança na persona artística do ator ou o filme - no qual Eastwood acumulava as funções de ator, diretor e produtor - não era exatamente grande coisa. Na verdade, é um pouco das duas coisas: nem Kevin Costner é um ator de grande alcance dramático e nem a escolha de Clint de dirigir um filme moralmente dúbio foi acertada.

"Um mundo perfeito" está longe de ser um filme ruim e o fato de fugir do maniqueísmo reinante das produções made in Hollywood já seria motivo o bastante para ter todos os seus pecados perdoados. Seu problema é justamente oferecer a Kevin Costner, um ator limitado e que construiu sua trajetória com base em personagens de moral ilibada e de identificação imediata com o americano médio - ou seja, nada desafiadores - um papel complexo, repleto de aparentes incoerências e que não faz concessões ao romantismo do público feminino. Seu Butch Haynes até deixa vislumbrar uma certa hombridade em algumas atitudes, mas no final das contas, mesmo que mostre um lado mais ameno em determinados momentos, ele é um fora-da-lei, alguém que, sob o ponto de vista puramente moral, é o cara mau da história - como deixa bem claro o rastro de cadáveres que vai deixando para trás. Esse lado sombrio do ator não parece ter agradado à audiência, como mostrou a bilheteria escassa do filme, mas fica a dúvida sobre qual teria sido o resultado (ao menos em termos de crítica) se o ator central fosse alguém mais competente.


A direção de Eastwood para "Um mundo perfeito" segue seu padrão sóbrio, direto e simples. Sem firulas ou brincadeiras com a câmera, o eterno Dirty Harry conduz a trama sem sobressaltos, com sua tranquilidade habitual. Essa calma - uma característica quase imutável de seu trabalho como cineasta - de certa forma atrapalha o desenvolvimento da história, que pede um calor e uma tensão quase inexistentes em sua forma quase acadêmica. O estilo cool de Eastwood talvez não tenha sido o mais apropriado para mostrar o relacionamento entre um perigoso fugitivo e seu refém, um menino de oito anos de idade sem uma imagem paterna na qual se mirar. A emoção e o calor necessários para envolver o público inexistem e a frieza com que a corrida do chefe de polícia atrás dos dois é explorada são, certamente, a maior causa da indiferença com que o filme foi recebido, apesar de suas qualidades.

E qualidades não faltam: a bela fotografia de Jack N. Green é exemplar e o roteiro de John Lee Hancock - que surpreendentemente anos depois cometeria "Um sonho possível" (09), um amontoado dos mais constrangedores clichês dramáticos do cinema - é inteligente ao eleger como herói um homem repleto de falhas e crimes. Até mesmo o plot central (um foragido sequestra um menino, filho de uma testemunha de Jeová que até então o privava de todos os prazeres mundanos permitidos a qualquer criança, e forja com ele uma amizade inusitada enquanto é perseguido pela polícia, ansiosa em fazê-lo voltar para trás das grades) funciona, principalmente por causa da atuação espontânea e encantadora do novato T.J. Lowther. Mas é decepcionante que um filme com tantas possibilidades tenha se transformado em apenas mais um filme comum. De Eastwood sempre se espera mais.

sábado

UMA BABÁ QUASE PERFEITA

UMA BABÁ QUASE PERFEITA (Mrs. Doubtfire, 1993, 20th Century Fox, 125min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Randi Mayem Singer, Leslie Dixon, romance "Alias Madame Doubtfire", de Anne Fine. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Raja Gosnell. Música: Howard Shore. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Angelo Graham/Garrett Lewis. Produção executiva: Matthew Rushton. Produção: Mark Radcliffe, Robin Williams. Elenco: Robin Williams, Sally Field, Pierce Brosnan, Harvey Fierstein, Lisa Jakub, Matthew Lawrence, Mara Wilson, Robert Prosky. Estreia: 24/11/93

Vencedor do Oscar de Melhor Maquiagem
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Melhor Ator Comédia/Musical (Robin Williams) 

Em 1992, o ator Robin Williams foi do céu ao inferno em termos de bilheteria: enquanto a anti-belicista comédia "Toys, a revolta dos brinquedos", de Barry Levinson não despertou o interesse de ninguém da plateia e saiu de cartaz como se nunca tivesse existido, a animação "Aladim" se tornou um dos maiores sucessos comerciais do ano e lhe rendeu um Golden Globe especial pela dublagem do gênio da lâmpada, uma dos maiores (senão a maior) qualidade da produção. Esse seu talento para a improvisação e para o humor escrachado já havia sido o maior responsável por sua primeira indicação ao Oscar, em 1987, por "Bom dia, Vietnã", do mesmo Levinson, mas parecia ter sumido em seus trabalhos seguintes no cinema, onde explorou (muito bem) seu lado de ator dramático. Indicado outras duas vezes ao Oscar de melhor ator - pelo inesquecível "Sociedade dos poetas mortos" (90) e pelo lúdico "O pescador de ilusões" (91) - Williams devia a seu público uma comédia que lhe devolvesse o status de humorista que havia conquistado nos palcos americanos. Foi então que ele apareceu com "Uma babá quase perfeita", um filme pequeno (25 milhões de dólares de orçamento) que acabou sua carreira nos cinemas americanos com mais de 200 milhões arrecadados e dois Golden Globes na prateleira: melhor comédia e melhor ator em comédia/musical.

Dirigido por Chris Columbus - um especialista em filmes para a família que tinha entre seus êxitos o mastodôntico sucesso "Esqueceram de mim" (90) - "Uma babá quase perfeita" tem como objetivo puro e único o entretenimento, sem ambições outras que não fazer a plateia rir do começo ao fim. Com Williams em cena, isso não é nada difícil. Dotado de um histrionismo nato e um timing cômico impecável, ele deita e rola na pele de Daniel Hillard, um ator desempregado que passa pelo pior período de sua vida: não apenas ele está sem trabalhar no que ama (e é obrigado a um serviço pouco empolgante nos bastidores de uma emissora de TV local) como acaba de se divorciar da esposa, Miranda (Sally Field), uma bem-sucedida arquiteta que cansou-se sua pretensa irresponsabilidade. Inconformado com a determinação judicial que lhe permite ver seus três filhos apenas uma vez por semana, Daniel tem uma ideia maquiavélica: sabendo que Miranda está à procura de uma governanta que fique com as crianças no período pós-escola, ele cria, com a ajuda de seu irmão maquiador e seu talento para a atuação, a babá perfeita: Mrs. Doubtfire, uma inglesa sessentona, de modos rígidos e dona de um currículo invejável. Obviamente Miranda cai de amores pela nova empregada - e Daniel aproveita a situação para colocar areia no novo interesse romântico da ex-mulher, o antigo namorado Stuart (Pierce Brosnan).


Desvencilhando-se facilmente do estigma de ser um filme de uma piada só, "Uma babá quase perfeita" consegue, ao mesmo tempo, ser uma comédia pastelão da melhor estirpe - com Williams vendo seus seios de mentira pegando fogo, sua máscara voando pela janela e sua dentadura caindo dentro de um copo de vinho no meio de um jantar - e um sofisticado manancial de citações culturais contemporâneas vindas da metralhadora giratória que é o ator - são lembrados, visual ou verbalmente, Barbra Streisand, "Psicose", "Crepúsculo dos deuses" e "Dança com lobos", entre outros. Essa mescla de humor popular com a sutileza da comédia referencial talvez tenha sido, ao lado do talento de seu protagonista, o responsável pelo filme ter agradado tanto e à tanta gente. É difícil escapar das risadas em "Uma babá quase perfeita", seja das palhaçadas visuais criadas por Columbus e Williams ou pelo crescendo de situações embaraçosas que o roteiro vai criando crescentemente até o clímax - engraçadíssimo - em um restaurante sofisticado, onde Daniel (e Mrs. Doubtfire) estão presentes ao mesmo tempo. Só vendo para entender.

Contando ainda com a simpatia natural de Sally Field como Miranda Hillard e o futuro 007 Pierce Brosnan como o rival do protagonista - além de uma maquiagem extraordinária que levou o Oscar da categoria - "Uma babá quase perfeita" ainda arruma espaço para a emoção: dificilmente filhos de pais separados conseguem segurar as lágrimas em seus momentos finais, repletos de uma sinceridade ímpar que conquistaram milhares de espectadores pelo mundo. Uma feliz reunião de ingenuidade, bom humor e o talento único de Robin Williams em fazer rir e chorar, é um filme sem contra-indicações, capaz de agradar aos pais, aos filhos e aos mau-humorados de plantão. Um triunfo do humor.

sexta-feira

VESTÍGIOS DO DIA

VESTÍGIOS DO DIA (The remains of the day, 1993, Merchant Ivory Productions/Columbia Pictures Corporation, 134min) Direção: James Ivory. Roteiro: Ruth Prawer Jhabvala, romance de Kazuo Ishiguro. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Andrew Marcus. Música: Richard Robbins Figurino: Jenny Beavan, John Bright. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva: Paul Bradley. Produção: John Calley, Ismail Merchant, Mike Nichols. Elenco: Anthony Hopkins, Emma Thompson, Christopher Reeve, James Fox, Ben Chaplin, Hugh Grant. Estreia: 05/11/93

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James Ivory), Ator (Anthony Hopkins), Atriz (Emma Thompson), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Em 1992, o diretor James Ivory e os atores Anthony Hopkins e Emma Thompson trabalharam juntos em "Retorno a Howard's End", adaptação do romance de E.M. Forster que, a despeito dos elogios entusiasmados da crítica, dos inúmeros prêmios e do Oscar de melhor atriz, beirava a chatice extrema (uma verdade que os fãs do cineasta jamais irão reconhecer). Quando eles anunciaram que iriam se reencontrar nas telas em uma versão do livro "Vestígios do dia", de Kazuo Ishiguro, todo mundo ficou esperando mais do mesmo: um longo e entediante drama sobre a Inglaterra do passado feito para encantar a Academia mas capaz de causar irreparável sono na plateia. Ledo engano. Um avassalador estudo sobre paixões reprimidas, a dedicação obsessiva a um ofício, as transformações políticas de um mundo pré-guerra e um delicado romance platônico, o filme não só arrebatou oito merecidas indicações ao Oscar - saiu de mãos vazias da cerimônia porque bateu de frente com Steven Spielberg e seu "A lista de Schindler" - como derreteu o coração dos espectadores com sua maturidade e sutileza.

Tendo silêncios eloquentes, lágrimas contidas e suspiros abafados como coadjuvantes de uma história de amor reprimido, "Vestígios do dia" acompanha com delicadeza o nunca consumado amor entre dois leais e dedicados serviçais de um aristocrata britânico em um país em vias de embarcar na II Guerra Mundial. Mesclando com rara inteligência comentários políticos que indicam claramente as inclinações nazistas que levaram Lord Darlington (James Fox, ótimo) à decadência moral pós-conflito e o romance devastador entre os protagonistas, o roteiro de Ruth Prawer Jhabvala - colaboradora habitual do diretor - oferece material de sobra para o show de Hopkins e Thompson, em atuações cujo minimalismo é a principal qualidade. Não é preciso muito para que, juntos em cena, os dois atores transmitam uma imensidade de sentimentos apenas com o olhar. Ao público, resta se emocionar e aplaudir, se envolvendo sem reservas com dois personagens tão distantes e ao mesmo tempo tão próximos.


Narrado em flashback, "Vestígios do dia" começa na década de 50, décadas depois do auge da mansão Darlington Hall, de propriedade de um aristocrata inglês que viu nascer, em sua propriedade, a aliança europeia que apoiaria o social-nacionalismo alemão. Trabalhando para um milionário americano (Christopher Reeve), o copeiro Mr. Stevens (Anthony Hopkins) recebe uma carta escrita por uma antiga colega, Mrs. Kenton (Emma Thompson), que trabalhava como governanta e abandonou o emprego para casar-se. No caminho para reencontrar-se com ela, o dedicado empregado relembra sua trajetória profissional e sua dedicação cega a seu patrão - uma lealdade e uma seriedade auto-imposta que o impediu até mesmo de chorar devidamente a morte de seu pai, com quem compartilhava a seriedade. Extremamente rígido em relação a seus deveres, Stevens presencia as mudanças políticas de seu país com a mesma atenção que dispensa à limpeza da prataria e à disposição correta dos talheres à mesa. Tal comportamento o impede de declarar o amor que sente por Kenton, também apaixonada, mas presa às convenções sociais. O amor platônico entre os dois é responsável por cenas de apertar o coração, como a famosa sequência em que a governanta descobre, através de um livro de poesias, que existe um coração por trás da séria fachada do mordomo.

Centrado basicamente nas emoções contidas de seus dois protagonistas - e tendo o período político anterior à II Guerra como um poderoso e apropriado pano de fundo - o melhor filme de James Ivory também se beneficia de uma produção caprichada, que emoldura com perfeição os dolorosos momentos por que passam os personagens. A reconstituição de época - tanto a direção de arte quanto o figurino também concorrem à estatueta dourada - e a trilha sonora adequada são elementos utilizados com extrema sobriedade pelo cineasta, ilustrando a passagem de tempo e as dores de um amor não consumado como poucas produções de sua época. "Retorno a Howard's End" continua sendo uma chatice. Mas "Vestígios do dia" compensa - e muito - todos os pecados anteriores de seu criador.

quinta-feira

AMOR À QUEIMA-ROUPA

AMOR À QUEIMA-ROUPA (True romance, 1993, Morgan Creek Productions, 120min) Direção: Tony Scott. Roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Jeffrey L. Kimball. Montagem: Michael Tronick, Christian Wagner. Música: Hans Zimmer. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Benjamín Fernández/Thomas L. Roysden. Produção executiva: James G. Robinson, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Gary Barber, Samuel Hadida, Steve Perry, Bill Unger. Elenco: Christian Slater, Patricia Arquette, Gary Oldman, Christopher Walken, Dennis Hopper, Brad Pitt, Saul Rubinek, Michael Rapaport, James Gandolfini, Samuel L. Jackson, Val Kilmer, Bronson Pinchot, Chris Penn, Tom Sizemore, Maria Pitillo. Estreia: 10/9/93

Antes de tornar-se febre e ser considerado o "novo Martin Scorsese" graças ao sucesso imediato de seu violento "Cães de aluguel" (92), Quentin Tarantino trabalhava como gerente de uma video-locadora, como qualquer fã de cinema bem informado sabe. O que talvez pouca gente saiba é que, durante esse período, ele e seu colega Roger Avary trabalharam em uma gigantesca história com mais de 500 páginas recheada de todas as características que posteriormente marcariam a obra do mais venerado cineasta da década de 90. Logicamente um roteiro de 500 páginas jamais seria produzido, nem mesmo pelo mais alucinado estúdio de Hollywood e a trama acabou sendo dividida em dois filmes que aparentemente nada tem em comum: o primeiro, "Assassinos por natureza", acabou se transformando em um gigantesco manifesto anti-violência dirigido por Oliver Stone e anabolizado com um excesso de efeitos de filmagem que descaracterizou o texto de Tarantino e provocou duras críticas de seu autor (apesar de ser um grande filme ainda não devidamente reconhecido por todo mundo). O segundo, com narrativa mais tradicional - mas ainda assim extremamente violento - é "Amor à queima-roupa", vendido por meros 50 mil dólares e dirigido pelo inglês Tony Scott, irmão de Ridley e mais conhecido como o autor de filmes bem-sucedidos comercialmente mas ocos em conteúdo, como "Top Gun, ases indomáveis" (86) e "Um tira da pesada II" (87). De posse do roteiro ágil e sem melindres de Tarantino - e com um grande elenco em dias pra lá de inspirados - Scott conseguiu assinar o melhor filme de sua carreira, tragicamente encerrada em agosto de 2012 com um suicídio que abalou Hollywood.

Apesar de parecer estranha a afirmação, "Amor à queima-roupa" é, como diz o título, uma história de amor, ainda que revestida de todas as obsessões e neuroses da década de 90 - bem com de suas referências à cultura contemporânea e às cenas de sexo bem fotografadas e quentes na medida certa. A fotogênica (ainda que um tanto canastrona) dupla central serve perfeitamente às intenções da trama, rocambolesca, exagerada e extremamente divertida. Clarence (Christian Slater no melhor papel de sua carreira) é um jovem atendente de uma loja de quadrinhos raros (referência autobiográfica de Tarantino) que sofre com sua falta de aptidões sociais. Na noite de seu aniversário, ele vai ao cinema assistir a uma sessão tripla de filmes de kung-fu e conhece a doce Alabama (Patricia Arquette), com quem sente uma identificação imediata. Os dois passam a noite juntos, se apaixonam e a verdade cai sobre eles como um balde de água fria: ela é prostituta e foi contratada pelo chefe do rapaz como presente de aniversário. Ao invés de ficar arrasado e sentir-se traído, Clarence sente na confissão da moça uma prova de sinceridade e a pede em casamento. Para que possam viver sua vida em paz, porém, eles precisam se livrar do cafetão de Alabama, o bizarro Drexl (Gary Oldman). E é aí que os problemas realmente começam.


Depois de um confronto com Drexl, em que tanto o cafetão quanto todos os seus comparsas são mortos, Clarence fica de posse de uma mala com 500 mil dólares em cocaína. Vendo nessa trágica circunstância a chance de ficar rico e poder viver ao lado da amada Alabama, eles viajam até Hollywood para vender a droga ao produtor de cinema (Saul Rubinek), mas não sabem que atrás deles está o verdadeiro dono da mercadoria - um mafioso pouco dado a sutilezas que não hesita em matar quem atrapalhe seu caminho - e a polícia de Los Angeles, disposta a tudo para desbaratar a quadrilha de traficantes. O resultado, como se poderia esperar, é um daqueles massacres que só Hollywood sabe orquestrar sem ofender a suscetibilidade da plateia. Exercitando a violência como poucas vezes em sua filmografia, Scott deita e rola em sequências feitas para o delírio dos fãs do gênero - em especial a luta entre Alabama e o capanga vivido pelo saudoso James Gandolfini, em que até mesmo um saca-rolhas serve de arma. É para nenhum fã de sangue botar defeito.

Mas, por trás da violência, das sacadas pop de Quentin Tarantino e do elenco cool, "Amor à queima-roupa" é um bom filme? Sem dúvida. Apesar de nunca ter conseguido realizar antes um filme que combinasse o visual apurado de suas produções com um conteúdo digno de tanto capricho, aqui ele tem a chance de explorar tanto a direção de atores - o que não é difícil quando se tem em cena dois monstros como Christopher Walken e Dennis Hopper, por exemplo - quanto o desenvolvimento de uma trama que, apesar dos clichês (utilizados com destreza ímpar), é inteligente e bem construída. O ritmo imposto a partir da morte de Drexl é alucinado, equilibrado com doses de humor negro e participações especiais que vão desde um Brad Pitt chapado em todas as cenas até a um Val Kilmer que não mostra o rosto como o fantasma de Elvis Presley que aconselha Clarence em suas aventuras. É uma história de amor ao gosto de Quentin Tarantino, com tudo que faz do seu cinema bom ou ruim, dependendo do ponto de vista. É pegar ou largar.

quarta-feira

DESAFIO NO BRONX

DESAFIO NO BRONX (A Bronx tale, 1993, Price Entertainment, 121min) Direção: Robert DeNiro. Roteiro: Chazz Palminteri, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Reynaldo Villalobos. Montagem: R.Q. Lovett, David Ray. Música: Butch Barbella. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Debra Schutt. Produção executiva: Peter Gatien. Produção: Robert DeNiro, Jon Kilik, Jane Rosenthal. Elenco: Robert DeNiro, Chazz Palminteri, Francis Capra, Lillo Brancatto, Taral Hicks, Kathrine Narducci, Joe Pesci. Estreia: 09/9/93 (Festival de Veneza)

Talvez fosse algo no ar, ou aquilo que costuma se chamar de inconsciente coletivo, mas não deixa de ser coincidência que três filmes que marcaram a estreia de atores na direção tenham falado sobre relações familiares e a perda da inocência com uma generosa dose de nostalgia. Foi assim com Jodie Foster e seu delicado "Mentes que brilham", de 1991, com Mel Gibson e seu surpreendentemente sensível "O homem sem face" (93) e com Robert DeNiro em seu quase autobiográfico "Desafio no Bronx". Todos eles tem como protagonista um menino enfrentando a difícil transição entre a infância e a maturidade, encontrando em seu caminho a solidão, a insegurança e as dúvidas em relação ao que é certo ou errado. Foster e Gibson podem ter assinados excelentes filmes, mas é impossível negar que foi DeNiro, com seu perfeito equilíbrio entre drama familiar, crítica social e a recriação de um clima muito específico de sua época e geografia, quem acabou se saindo melhor. Como um dedicado e atento aluno de seu amigo e parceiro Martin Scorsese, o veterano ator - vencedor de 2 Oscar - transmite, em seu filme, uma segurança e uma personalidade invejáveis.

A princípio pode até parecer um filme de Scorsese, com sua narrativa em off, seus personagens típicos, sua preferência por uma história pessoal e próxima de sua realidade. Porém, com o texto mais suave de Chazz Palminteri - autor também da peça de teatro que deu origem ao roteiro e um dos atores centrais do filme - e com a opção de sublinhar mais a dinâmica entre pai honesto/filho em vias de seguir o caminho do crime do que a violência decorrente de tal embate, "Desafio no Bronx" foge do estigma um tanto assustador de "filme de máfia" e se protege de comparações com a obra do cineasta que criou "Taxi driver" e "Os bons companheiros" - ambos sintomaticamente estrelados por DeNiro.  Quando a violência surge - explosiva, brutal, inesperada - ela tem causa e consequência, tem a face de uma escolha perigosa e de um futuro sangrento para o jovem protagonista. E essa escolha em retratá-la como um câncer social e não algo glamouroso é uma das maiores qualidades de um filme repleto delas.

Baseado em uma peça teatral escrita por Chazz Palminteri - que conta sua própria história e só vendeu os direitos para o cinema com a condição de participar do filme - "Desafio no Bronx" se passa em dois momentos diferentes. Começa em 1960, quando o pequeno Calogero (Francis Capra) passa a perceber a diferença social entre seu pai, o honesto motorista de ônibus Lorenzo (o próprio DeNiro em caracterização simpática e discreta) e Sonny (Palminteri, que em seguida concorreria ao Oscar de coadjuvante por "Tiros na Broadway", de Woody Allen), um gângster poderoso e temido no bairro onde vive. Fascinado pelo poder exercido por Sonny, o menino passa a ser seu protegido depois de testemunhar um assassino cometido por ele e manter-se em silêncio diante da polícia. Fazendo pequenos trabalhos para a máfia, Calogero entra em rota de colisão com seu pai, absolutamente contrário a qualquer tipo de contravenção. A segunda fase da história se passa em 1968, em meio aos graves conflitos sociais que os EUA enfrentavam em relação à luta pelos direitos civis. Já vivido por Lillo Brancato, Calogero é um adolescente - ainda sob a proteção de Sonny - que se vê no centro do furacão racial quando se encanta por Jane (Taral Hicks), uma jovem negra que mora em um bairro vizinho e que é vítima constante dos ataques de seus melhores amigos.

Sem ambicionar mais do que contar uma boa história com uma narrativa clássica, Robert DeNiro surpreende também pela forma econômica com que dirige seus atores, tirando deles uma atuação naturalista que casa perfeitamente com seu estilo direto, quase seco - mas disposto a concessões poéticas como a cena da violência contra os jovens negros sob o som de Moody Blues. Especialmente os dois jovens atores escolhidos para dividir o papel de Calogero - Francis Capra na infância e Lillo Brancato na adolescência - traduzem com perfeição o misto de inocência e veracidade do filme, que não deixa que o tema um tanto pesado descambe nem para o sentimentalismo nem para o grotesco. E tem ressonância especial saber que o filme é dedicado ao pai do diretor/ator. Uma bela homenagem, um belíssimo filme e uma estreia alvissareira.

terça-feira

SHORT CUTS, CENAS DA VIDA

SHORT CUTS, CENAS DA VIDA (Short cuts, 1993, Fine Line Features/Spelling Films International, 187min) Direção: Robert Altman. Roteiro: Robert Altman, Frank Barhydt, contos de Raymond Carver. Fotografia: Walt Lloyd. Montagem: Geraldine Peroni. Música: Mark Isham. Figurino: John Hay. Direção de arte/cenários: Stephen Altman/Susan J. Emshwiller. Produção executiva: Scott Bushnell. Produção: Cary Brokaw. Elenco: Andie MacDowell, Bruce Davison, Jack Lemmon, Julianne Moore, Matthew Modine, Anne Archer, Fred Ward, Jennifer Jason-Leigh, Chris Penn, Lily Taylor, Robert Downey Jr., Madeleine Stowe, Tim Robbins, Lily Tomlin, Tom Waits, Frances McDormand, Peter Gallagher, Annie Ross, Lori Singer, Lyle Lovett, Buck Henry, Huey Lewis. Estreia: 05/9/93 (Festival de Veneza)

 
Indicado ao Oscar de Diretor (Robert Altman)

Desde que recuperou o prestígio e as boas graças da indústria e do público com "O jogador" (92), que lhe deu a Palma de Ouro em Cannes e uma indicação ao Oscar de diretor, Robert Altman entrou em uma boa fase sem precedentes em sua carreira. Qualquer projeto que levasse sua assinatura no começo da década era garantia de entusiasmadas expectativas por parte da indústria e dos fãs - situação que acabou com "Pret-a-porter" (95), malfadada tentativa de desvendar os bastidores do mundo da moda que fracassou nas bilheterias e desagradou a gregos e troianos. Antes disso, porém, Altman encantou a crítica com um ambicioso projeto que reunia contos de Raymond Carver em um único filme, misturando seu próprio estilo de cinema (uma tênue linha narrativa abarcando inúmeros personagens independentes entre si) com a prosa minimalista e frequentemente poetica do escritor norte-americano. "Short cuts, cenas da vida" resultou em uma produção longa (três horas de duração que soam exatamente como três horas de duração), irregular e calcada basicamente em seu vasto elenco de ótimos atores, porque, apesar de todos os aplausos, é um filme cansativo e que vai do nada pra lugar nenhum.

É fácil de entender porque os atores gostam de trabalhar com Altman: é perceptível que o veterano cineasta lhes dá a liberdade de improvisar e criar em cima de personagens com uma carga humana muitas vezes inexistente no cinema comercial americano. É também fácil de compreender o entusiasmo com que a crítica muitas vezes recebe seus trabalhos: diretores autorais, com uma visão especial do mundo e da própria indústria são raros, especialmente depois que a era dos visionários deu lugar à era dos efeitos especiais e dos lucros milionários. Porém, para gostar de Robert Altman é preciso, mais do que tudo, gostar do seu estilo peculiar de cinema. Quem procura filmes com tramas bem amarradas ou narrativas estruturadas do modo convencional corre o sério risco de decepcionar-se com a obra do diretor, normalmente avessa a tais regras. Altman é o típico caso de amar ou odiar. E talvez "Short cuts" seja um de seus mais radicais exercícios.


Justamente por não ter uma espinha dorsal rígida - os detratores diriam que falta uma trama central - "Short cuts" depende muito da boa-vontade do espectador em seguir todas as histórias contadas pelo roteiro, que se cruzam sutil e aleatoriamente pelos subúrbios de uma Los Angeles ameaçada tanto por fenômenos naturais (terremotos, enxames de moscas) quanto pelos problemas de relacionamento entre famílias e amigos. Se existe um incidente que dá o empurrão inicial em tudo pode-se dizer que é o atropelamento do pequeno Casey (Zane Cassidy), filho da dona-de-casa Ann (Andie MacDowell) e do comentarista de telejornal Howard (Bruce Davison) - cujo pai, Paul (Jack Lemmon dando olé em cena), abandonou a família anos antes e retorna como se nada tivesse acontecido. Quem atropela o menino e o manda para o hospital sem que saiba das consequências do seu ato é a garçonete Doreen Piggot (Lily Tomlin), que, ironicamente, é casada com um chofer particular que luta contra o alcoolismo, Earl (Tom Waits). Sua filha, Honey (Lily Taylor) é casada com um aprendiz de maquiador de cinema, Bill (Robert Downey Jr.), que é o melhor amigo de Jerry Kaiser (Chris Penn), casado com Lois (Jennifer Jason Leigh), que trabalha como atendente em uma empresa de sexo por telefone.

E assim por diante. Duas dezenas de personagens desfilam pela tela, repletos de problemas cotidianos e dramas pessoais que se equilibram entre o banal e o surreal. Há casamentos em crises, ex-maridos truculentos, pescadores que continuam seu passatempo a despeito do cadáver de uma jovem a poucos metros, traições extraconjugais e até mesmo uma Julianne Moore em nu frontal em uma cena que espanta pela naturalidade: enquanto discute com o marido a respeito de um possível adultério passado, ela - totalmente nua da cintura pra baixo - Moore passa a ferro a roupa amarrotada por acidente. Assim é o cinema de Altman: banal, simples, direto. Enquanto uma jovem violoncelista sofre com a tristeza do mundo e um padeiro se revolta com o que considera um desrespeito a seu trabalho, a terra treme, a vida segue e raivas enrustidas explodem com violência. Nem sempre o trabalho do cineasta é palatável. Mas quem gosta de fugir do feijão-com-arroz do cinemão americano pode se interessar bastante.

segunda-feira

E A VIDA CONTINUA

E A VIDA CONTINUA (And the band played on, 1993, HBO Pictures/Spelling Entertainment, 141min) Direção: Roger Spottiswoode. Roteiro: Arnold Schulman, livro de Randy Shilts. Fotografia: Paul Elliott. Montagem: Lois Freeman-Fox. Música: Carter Burwell. Figurino: Patti Callicott. Direção de arte/cenários: Victoria Paul/Diana Allen Williams. Produção executiva: Aaron Spelling, E. Duke Vincent. Produção: Sarah Pillsbury, Midge Sanford. Elenco: Matthew Modine, Ian McKellen, Glenne Headly, Richard Gere, Anjelica Huston, Alan Alda, Charles Martin Smith, Phil Collins, Nathalie Baye, Richard Jenkins, Saul Rubinek, Donal Logue, Patrick Bauchau, Steve Martin, Swoozie Kurtz, Tchéky Karyo. Estreia: 11/9/93

Em 1989, o filme "Meu querido companheiro", de Norman René, já mostrava, através de um grupo de amigos de Nova York, o estrago que o vírus da AIDS fez junto à comunidade homossexual americana em seus primórdios, quando ainda era conhecido apenas como o "câncer gay". Com enfoque humanista e emocional, o filme deu a Bruce Davison uma indicação ao Oscar de coadjuvante e tornou-se o primeiro filme ianque a tratar abertamente do assunto - não por acaso, era uma produção independente, já que os grandes estúdios de Hollywood evitavam o tema como se fosse uma doença contagiosa (ops...).Foi somente com "Filadélfia", de Jonathan Demme, que os grandes orçamentos e astros bancáveis começaram a demonstrar um interesse que acabou, com o tempo, tornando-se o caminho fácil para o Oscar - que o diga Tom Hanks, Matthew McConaughey e Jared Leto. No mesmo ano em que o filme de Demme foi lançado, porém, outra produção fora dos limites do cinema comercial americano tocou no tema, de forma séria, pontual e quase didática. Baseado em um livro de Randy Shilts que narrava a odisseia dos médicos americanos e franceses em entender e combater uma doença cuja origem e desenvolvimento ainda eram grandes incógnitas, "E a vida continua" estreou no canal a cabo HBO em setembro de 1993 apresentando um elenco de rostos conhecidos e um capricho que, anos depois, se tornaria a marca registrada da emissora.

Com a longa duração de 141 minutos - sendo que os finais são dedicados a uma montagem com imagens de vítimas famosas (ou não) da doença sob a voz de Elton John cantando a bela "The last song" - "E a vida continua" evita o sentimentalismo ao tratar do assunto de forma quase jornalística, centrando seu foco em Don Francis (Matthew Modine, indicado ao Golden Globe por seu desempenho), um jovem médico infectologista que tenta, junto à equipe do Centro de Controle de Doenças de Atlanta, desvendar o que está causando a morte de dezenas de homossexuais masculinos, que perdem a imunidade repentinamente e morrem devido a doenças oportunistas. Sem o apoio do governo - que parece não se importar com o fato de que uma epidemia está em vias de acontecer - e nem mesmo dos próprios gays (que se recusam a mudar seu estilo de vida por considerarem tal ato um retrocesso a seus direitos civis), o grupo de médicos parte em busca da ajuda de profissionais franceses, como o competente Luc Montagnier (Patrick Buchau) - que entra em confronto direto com outro americano, Robert Gallo (Alan Alda), o primeiro médico a descobrir um retrovírus e que pretende ficar com o mérito de também ter descoberto o vírus da nova doença.


Mostrando passo a passo a evolução tanto da epidemia quanto das conquistas médicas, o filme de Roger Spottiswoode - diretor burocrático mas pouco ousado que já havia tentado arrancar graça de Sylvester Stallone em "Pare, senão mamãe atira!", em 1992 - segue no rumo oposto a "Meu querido companheiro", preferindo dedicar sua atenção na batalha incansável travada pela Medicina do que em suas vítimas e nos efeitos arrasadores da epidemia junto à população homossexual. Enquanto Francis luta por financiamento, por ajuda do governo e pelo apoio do próprio grupo de risco, o filme desenha sem maior ênfase o destino de alguns pacientes, como o comissário de voo promíscuo (Jeffret Nordling) que ajuda os médicos a encontrarem uma trilha de contaminação, o jovem símbolo da doença (Donal Logue) que luta para chamar a atenção da população e o coreógrafo famoso (Richard Gere) que se descobre doente e faz uma generosa doação para as pesquisas. A presença de Gere no elenco, aliás, é um dos pontos de destaque do filme. Um dos mais populares astros da década de 90 - vindo de sucessos como "Justiça cega" e "Uma linda mulher" - Gere entrou no projeto por acreditar em sua importância social e sua atitude resultou em uma corrida desenfreada de atores querendo fazer parte da empreitada, mesmo que em papéis pequenos.

Foi assim que Anjelica Huston, Steve Martin, Ian McKellen e Alan Alda embarcaram em "E a vida continua", um filme de importância política e social inegável e que lançou luz a um tema até então considerado impróprio e desagradável para o grande público - e para a presidência do país, uma vez que foi preciso mais de uma década desde a primeira morte para que Ronald Reagan fizesse sua primeira menção à epidemia. De lá pra cá o cinema e a televisão vem explorando o assunto em produções de qualidades variadas - inclusive a mesma HBO lançou, em 2014, o sensacional "The normal heart", que dramatiza o mesmo período histórico sob um ponto de vista mais dramático e menos técnico - mas isso não lhe tira o mérito do pioneirismo.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...