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quinta-feira

MÁFIA NO DIVÃ


MÁFIA NO DIVÃ (Analyze this, 1999, Warner Bros, 103min) Direção: Harold Ramis. Roteiro: Harold Ramis, Kenneth Lonergan, Peter Tolan, estória de Kenneth Lonergan, Peter Tolan. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Craig P. Herring, Christopher Tellefsen. Música: Howard Shore. Figurino: Aude-Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Bruce Berman, Chris Brigham, Billy Crystal. Produção: Jane Rosenthal, Paula Weinstein. Elenco: Robert DeNiro, Billy Crystal, Lisa Kudrow, Chazz Palminteri, Joe Viterelli. Estreia: 05/3/99

Acostumadas a ver Robert DeNiro em papéis dramáticos, violentos e/ou a um passo do abismo, as plateias do final dos anos 1990 foram surpreendidas com uma nova faceta de seu talento - poucas vezes revelada em sua longa e incensada carreira. Aproveitando sua imagem de durão (consagrada por inúmeras colaborações com Martin Scorsese), DeNiro chegou às telas em "Máfia no divã", uma comédia descrita por seu diretor Harold Ramis como um encontro entre "O poderoso chefão" e "Nosso querido Bob" e que rendeu mais de 100 milhões de dólares somente no mercado doméstico (EUA e Canadá). Escapando com maestria da maldição dos filmes de uma piada só, a história da relação tóxico-afetiva entre um chefe mafioso e um psicanalista judeu se beneficia não apenas do carisma à toda prova de seu astro maior, mas também de sua inusitada química com Billy Cristal - uma interação das mais felizes na carreira de ambos.

Ben Sobel (Billy Cristal) é um psicanalista entediado com sua profissão e que vive em constante conflito com o filho adolescente e comas cobranças que faz a si mesmo, originadas de um complexo de inferioridade em relação ao pai. Às vésperas de seu casamento com a repórter Laura MacNamara (Lisa Kudrow), ele é procurado por Paul Vitti (Robert DeNiro), um conhecido mafioso de Nova Iorque que está sofrendo de ataques de pânico, crises de choro e problemas sexuais com a amante. Impressionado com a primeira conversa que tem com o médico, Vitti resolve que ele irá se tornar seu analista pessoal - o que significa que, a partir de então, Sobel passará a ter o mafioso e seus comparsas sempre em seu caminho, não importa o quão desconfortável isso possa ser. Precisando resolver sua condição frágil a tempo de um encontro com vários chefões da máfia que irá acontecer em poucas semanas, Paul Vitti se torna obcecado pelo tratamento - desde que não ultrapasse alguns limites ("se eu virar bicha, você morre!").

 

O melhor de "Máfia no divã" é sua capacidade de fazer rir e manter viva uma única piada por cem minutos sem cair na redundância. Graças a um roteiro repleto de diálogos inteligentes e a direção segura de Harold Ramis - que tem no currículo o genial "Feitiço do tempo" (1993) -, o filme mantém o ritmo até seus minutos finais, em um clímax que acena aos clássicos de Scorsese, não por acaso o primeiro nome sondado para a direção. Além disso, apresenta uma química brilhante entre DeNiro e Billy Cristal, capaz de arrancar gargalhadas sem muito esforço - não atrapalha, também, contar com a presença da ótima Lisa Kudrow, apesar de seu pouco tempo em cena. O elenco coadjuvante - escolhido a dedo pelo diretor e por seu ator principal em visitas a um bairro italiano de Nova Iorque - é outro ponto alto da produção, oferecendo uma autenticidade visual que contrasta com o tom surreal da premissa, desenvolvida por Ramis, Peter Tolan (roteirista de diversos episódios de séries televisivas) e Kenneth Lonergan - que ganharia um Oscar em 2017 pelo dramático "Manchester à beira-mar". Engraçado sem apelar para qualquer tipo de humor ofensivo, o roteiro brinca com os clichês sobre o crime organizado e sobre os exageros da psicanálise - e faz rir principalmente pela inversão de papéis que ocorre a cada encontro entre analista e analisado.

Mas, apesar de ser impossível imaginar outro ator na pele do atormentado mafioso Paul Vitti, a presença de Robert DeNiro foi confirmada somente depois que vários outros nomes foram sondados para o papel. Antes que Harold Ramis assumisse a direção - substituindo o britânico Richard Loncraine (de "Ricardo III", de 1995) - possibilidades bastante diversas foram aventadas, dos veteranos Harrison Ford e Burt Reynolds aos especialistas em comédias Robin Williams e John Goodman, passando pelos previsíveis Joe Pesci e Bob Hoskins e os surpreendentes Tom Selleck e Ted Danson. Para sorte do público, no entanto, nada impediu o perfeito casamento entre personagem e ator - um casamento tão feliz que rendeu ainda uma continuação, lançada em 2002, sem o mesmo brilho do original (em parte por não ter o mesmo frescor.)

 

terça-feira

OS QUERIDINHOS DA AMÉRICA


OS QUERIDINHOS DA AMÉRICA (America's sweethearts, 2001, Columbia Pictures/Revolution Studios, 102min) Direção: Joe Roth. Roteiro: Billy Crystal, Peter Tolan. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Stephen A. Rotter. Música: James Newton Howard. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Garreth Stover/Larry Dias. Produção executiva: Charles Newirth, Peter Tolan. Produção: Susan Arnold, Billy Crystal, Donna Arkoff Roth. Elenco: Julia Roberts, John Cusack, Billy Crystal, Catherine Zeta-Jones, Stanley Tucci, Christopher Walken, Alan Arkin, Hank Azaria, Seth Green, Rainn Wilson. Estreia: 17/7/2001

Quando Billy Crystal escreveu o roteiro de "Os queridinhos da América" seus planos incluíam dirigir o filme e ficar com o principal papel masculino - além de desejar repetir a vitoriosa dupla com Meg Ryan depois do sucesso de "Harry & Sally: feitos um para o outro" (1989). As coisas nem sempre saem como imaginado, porém, principalmente em Hollywood: quando a produção finalmente começou Ryan passava por um período difícil (que envolvia o fim de seu casamento de anos com Dennis Quaid e o relacionamento escandaloso e breve com Russell Crowe) e Crystal percebeu que estava velho demais para viver o galã de uma comédia romântica. A ideia de manter o projeto, no entanto, era boa demais para ser deixada de lado e, com o veterano ator deixando a direção a cargo de Joe Roth e assumindo o segundo (e talvez mais interessante) papel masculino da história, o filme recebeu o reforço de Catherine Zeta-Jones e Julia Roberts (ainda fresquinha do Oscar de melhor atriz) e estreou em pleno verão norte-americano. Pode não ter sido um sucesso estrondoso de bilheteria - menos de 150 milhões de dólares arrecadados internacionalmente -, mas foi um respiro adulto em uma temporada cujos maiores êxitos comerciais foram direcionados ao público infantojuvenil, como "Harry Potter e a pedra filosofal", "Monstros S/A" e "Shrek". Simpático e inofensivo - mesmo com as alfinetadas na indústria de cinema norte-americano -, o filme segura bem uma sessão da tarde, mas está a anos-luz de distância dos melhores exemplares do gênero.

A trama gira em torno de Eddie Thomas (John Cusack) e Gwen Harrison (Catherine Zeta-Jones), dois astros de cinema que, como deixa claro o título, são os queridinhos das plateias, que lotam as salas de cinema para vê-los juntos. Casados também na vida real, eles acabam se separando quando Gwen trai Eddie com o galã latino Hector (Hank Azaria), fato que leva o ator a uma crise de nervos que o afasta da mídia. Acusada de ser a culpada pela separação, Gwen vê a chance de recuperar a simpatia do público quando Lee Phillips (Billy Crystal), responsável pelo setor de  relações públicas do estúdio, a procura com a proposta de embarcar em um concorrido esquema de promoção para seu novo filme - o último que ela estrelou com o ex-marido. Gwen demora a aceitar a ideia, mas é convencida pela irmã e assessora Kiki (Julia Roberts), que é apaixonada em segredo por Eddie - que, mesmo ainda revoltado com a ex-mulher, sai da clinica para tentar salvar a imagem da dupla. O que nenhum dois dois atores sabe, na verdade, é que os esforços de Lee tem outro motivo: disfarçar o fato de que o diretor do filme, o excêntrico Hal Weidmann (Christopher Walken), está com o material escondido e pretende mostrar a montagem final somente na hora da pré-estreia. Enquanto Lee precisa lidar com a fogueira das vaidades de atores, diretores e executivos do estúdio (temerosos de um fracasso monumental devido ao escândalo de seus astros), um romance inesperado surge entre o traumatizado Eddie e Kiki, antes um patinho feio que vivia à sombra da irmã, e agora uma bela e bem resolvida mulher.

 

Apesar de o romance entre Kiki e Eddie ter sido vendido como o principal ponto de interesse de "Os queridinhos da América", o que mais funciona no filme de Joe Roth - cineasta pouco inspirado e sem maiores sucessos no currículo - são as referências e piadas sobre Hollywood e sua indústria. Na pele do experiente Lee Phillips, o ator e roteirista Billy Crystal solta farpas sobre tudo e todos - desde a figura do recluso Hal Weidmann, claramente inspirado no veterano Hal Ashby, até as infames e repetitivas entrevistas a que atores são submetidos durante o período de lançamento de seus filmes. Crystal, com seu conhecido cinismo e sagacidade, é quem melhor se sai, bem mais à vontade em cena do que seus colegas de elenco. Subaproveitada, Julia Roberts tem pouco a fazer com uma personagem que não explora todo o seu carisma, e John Cusack (substituindo Robert Downey Jr., à época ainda um nome pouco confiável junto aos estúdios, por seus problemas com drogas) parece desconfortável em explorar um lado romântico pouco comum em sua carreira repleta de tipos pouco convencionais. E do quarteto central, a bela Catherine Zeta-Jones sobressai-se com seu dom para a fina ironia, que seria recompensado pouco depois com um Oscar de coadjuvante por "Chicago" (2002).

É inegável que "Os queridinhos da América" sofre de falta de um foco narrativo claro. Afinal, qual é a história principal que quer contar? Os bastidores da indústria de cinema hollywoodiano? A relação complicada entre dois astros populares que tem suas vidas devassadas pelo público e pela mídia? O romance inesperado entre dois cunhados? A constante necessidade de aprovação que surge junto com a fama? Essa indecisão, apesar de alguns diálogos preciosos e do talento de todos os envolvidos (Stanley Tucci como um executivo, Alan Arkin como um médico pouco confiável, Rainn Wilson como um repórter bisbilhoteiro, Seth Green como um estagiário que confunde Audrey e Katherine Hepburn), prejudica o resultado final e torna o filme uma produção esquecível, ainda que agradável. Não chega de ser um desperdício de tempo, mas quase uma decepção que tanta gente boa possa ter feito algo tão insosso.

segunda-feira

JOGA A MAMÃE DO TREM

JOGA A MAMÃE DO TREM (Throw momma from the train, 1987, Orion Pictures, 88min) Direção: Danny De Vito. Roteiro: Stu Silver. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Michael Jablow. Música: David Newman. Figurino: Marilyn Vance-Straker. Direção de arte/cenários: Ida Random/Anne D. McCulley. Produção executiva: Arne L. Schmidt. Produção: Larry Brezner. Elenco: Billy Cristal, Danny De Vito, Anne Ramsey, Rob Reiner, Kim Greist, Kate Mulgrew. Estreia: 11/12/87

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Anne Ramsey)

Em 1951, Alfred Hitchcock lançou um de seus mais emblemáticos filmes, "Pacto sinistro", baseado em um romance de Patricia Highsmith - e cujo tema central, a transferência de culpa, era um de seus preferidos. Quase quarenta anos mais tarde, comprovando a perenidade e importância de sua obra como referência cultural, uma comédia de humor negro chegava às telas inspirada em sua premissa e, apesar da inteligência acima da média do roteiro - e da falta de efeitos visuais de última geração e de grandes astros em seu elenco -, faturou alto nos EUA, com uma bilheteria de quase 60 milhões de dólares. Estreia do ator Danny De Vito como diretor, "Joga a mamãe do trem" também conseguiu um fato raro: driblou a resistência da Academia de Hollywood em levar comédias ao Oscar e deu à veterana Anne Ramsey uma indicação à estatueta de atriz coadjuvante.


Conhecida do grande público por seu trabalho como Mamma Fratelli, a matriarca do crime na comédia juvenil "Os goonies" (87), Ramsey foi a escolha mais do que perfeita de De Vito para encarnar a irascível e cruel mãe do aspirante a escritor Owen (o próprio diretor em momento inspirado) - e fonte de todos os seus males e inseguranças. Mesmo sofrendo de constantes dores durante as filmagens, devido a uma cirurgia feita para tratar um câncer na garganta, a atriz simplesmente rouba todas as cenas em que aparece, oferecendo ao filme um tom de história em quadrinhos que equilibra com precisão os momentos menos histriônicos do roteiro de Stu Silver. Sempre que Owen e sua mamãezinha querida estão em cena, o filme abandona a narrativa mais convencional - repleta de diálogos espertos e citações culturais - para mergulhar no absurdo: é a chance que o diretor tem em mostrar criatividade e versatilidade, ensaiando um humor negro que chegaria ainda mais longe em seu trabalho seguinte, "A guerra dos Roses" (89), estrelado por Michael Douglas e Kathleen Turner. Chegando quase ao pastelão, De Vito diverte a plateia, mas é quando ele flerta com o suspense e com a comédia de situações é que demonstra o quão acertada foi sua primeira experiência na cadeira de diretor.



Na verdade, a realização de "Joga a mamãe do trem" começou com um pequeno impasse, relativo a um detalhe imprescindível para a trama: os direitos de imagem de "Pacto sinistro", de posse da Warner Bros, que não parecia inclinada a cedê-los para uma produção de outro estúdio (no caso, a Orion Pictures). A solução apareceu na forma de uma troca comercial aparentemente vantajosa para ambos os lados: para poder utilizar trechos da obra de Hitchcock, a Orion cedia à Warner os direitos de sua bem-sucedida comédia "Arthur, o milionário sedutor" (81), para que o estúdio fizesse a continuação que estava em seus planos. A vantagem dupla foi apenas aparente, no entanto, já que, enquanto "Joga a mamãe do trem" se tornava um dos quinze filmes mais vistos de 1987, "Arthur 2" naufragava violentamente nas bilheterias. O sucesso do filme de De Vito, mais do que afirmar que nem sempre o público é previsível, mostrava também que, por trás de sua diminuta figura, havia um talento inversamente proporcional também como cineasta.

Em seu primeiro filme, De Vito interpreta Owen Lift, um solteirão tímido e inseguro que sonha em tornar-se escritor - a despeito de não demonstrar muito talento na função e viver humilhado por sua quase sádica mãe (Anne Ramsey). Ele frequenta as aulas de redação ministradas por Larry Donner (Billy Cristal), um autor frustrado e amargurado pelo fato de ter seu livro roubado pela ex-mulher - agora famosa e milionária. Preso em um bloqueio criativo devido ao trauma, Donner é procurado pelo insistente Owen em busca de conselhos, mas interpreta mal uma dica do escritor e, depois de assistir ao filme de Hitchcock, acredita que a solução para os problemas de ambos é um assassinato cruzado: ele viaja, então, para matar a ex-mulher de Donner, e o persegue para fazê-lo cumprir sua parte no trato e dar fim à sua beligerante genitora. Obviamente, as coisas não saem como previstas, e é aí que o roteiro e a direção, somados ao elenco impagável, transformam "Joga a mamãe do trem" em um passatempo divertido e inteligente e em uma das comédias mais relevantes dos anos 80.

sábado

HAMLET

HAMLET (Hamlet, 1996, Castle Rock Entertainment, 238min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Kenneth Branagh, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Alex Thomson. Montagem: Neil Farrell. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Tim Harvey. Produção: David Barron. Elenco: Kenneth Branagh, Derek Jacobi, Julie Christie, Kate Winslet, Brian Blessed, Richard Briers, Rufus Sewell, Michael Maloney, Richard Attenborough, Billy Crystal, Judi Dench, Gérard Depardieu, John Gielgud, Rosemary Harris, Charlton Heston, Jack Lemmon, Timothy Spall, Robin Williams. Estreia: 25/12/96

4 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Uma das mais clássicas manifestações artísticas da loucura - ou do arremedo de uma - acabou tornando-se uma das mais ousadas produções cinematográficas da década de 90 e quiçá da história da sétima arte. Conhecido por suas adaptações da obra do dramaturgo William Shakespeare para o cinema, o irlandês Kenneth Branagh - que já havia dirigido "Henry V" (89) e "Muito barulho por nada" (93) e atuado como Iago em "Othello" (96) - arriscou sua reputação e seu prestígio ao transpor o mais clássico dos clássicos do bardo, palavra por palavra, para as telas. Brilhantemente produzido, interpretado por um elenco estrelado que se dá ao luxo de ter Charlton Heston, Gérard Depardieu e Jack Lemmon em pontas e longo a ponto de testar os limites de paciência do público - poucos minutos menos de quatro horas de duração - o "Hamlet" de Branagh (e pode-se dizer sem medo, o "Hamlet" definitivo do cinema) pode assustar até ao mais fervoroso purista com sua fidelidade canina ao texto original, mas, graças à direção segura e inteligente, a uma edição cirurgicamente precisa e a um elenco impecável, sobressai-se às demais adaptações pelo ritmo pulsante e pela modernidade visual impressa em cada fotograma. Realizado com meros 18 milhões de dólares - um trocado perto dos orçamentos milionários que assustavam os executivos dos estúdios à época - o filme de Kenneth Branagh é assombrosamente deslumbrante e um presente para os fãs de bom cinema e bom teatro.

Uma das histórias mais conhecidas da literatura mundial, "Hamlet" só chegou às telas com tal opulência visual e ousadia narrativa - que não oprime uma linha sequer do texto original - graças à teimosia de seu diretor e ator principal, que rondou por mais de um ano de estúdio em estúdio de Hollywood tentando financiamento para um projeto que todos consideravam fadado ao fracasso. Não é difícil imaginar os motivos para tanta recusa: não apenas Branagh batia pé nas quatro horas de duração de seu filme como tinha ainda que lidar com a bilheteria decepcionante e as críticas negativas de seu filme anterior, "Frankenstein de Mary Shelley", que não havia tido o desempenho esperado pelos produtores. Além do mais, Shakespeare estava se tornando arroz de festa na terra do cinema, sendo adaptado de todas as formas possíveis e imagináveis - até mesmo o australiano Baz Luhrmann estava a caminho de lançar uma versão psicodélica de "Romeu e Julieta", estrelado por Leonardo DiCaprio e o próprio "Hamlet" já havia sido refilmado recentemente por Franco Zefirelli, com Mel Gibson no papel principal. Tudo conspirava contra o irlandês, até que a Castle Rock tomou coragem e, com poucas exigências finais (um elenco com atores conhecidos e uma versão editada para lançamento mundial) deixou que o cineasta fosse em frente. É impossível assistir-se ao resultado final sem um suspiro de agradecimento profundo à sua coragem.


Mesmo acima da idade para interpretar o papel principal, Kenneth Branagh é o corpo e a alma de "Hamlet", a energia que contagia a todos e o estopim de uma trama recheada de traições vis, paixões avassaladoras, ódios arraigados e uma coleção de mortes das mais conhecidas do teatro universal - que em suas mãos soa fresca e reluzente como se tivesse sido escrita há dois dias. Para quem não sabe, se é que alguém não sabe, tudo começa quando o jovem príncipe Hamlet volta à sua Dinamarca natal para os funerais de seu pai (Brian Blessed) e para as novas núpcias de sua mãe, Gertrude (Julie Christie), que, mal esperou quatro meses para casar-se com o cunhado, Claudius (Derek Jacobi), novo rei do país. Infeliz com a situação, o príncipe fica ainda mais movido ao ódio quando o fantasma de seu progenitor lhe aparece, acusando o irmão de tê-lo assassinado para roubar-lhe a esposa e o trono. Com o objetivo de vingar a morte do pai, Hamlet inicia um plano ambicioso - que envolve fingir uma loucura que ele pode mesmo portar, um grupo de atores mambembes que recebe no palácio com o objetivo de impulsionar uma confissão do tio e até a mulher que ama, a doce Ofélia (Kate Winslet).

Mais do que simplesmente contar com cada detalhe - por mais insignificante que ele possa parecer - a história criada por Shakespeare, Kenneth Branagh consegue, em seu filme, o que havia conseguido apenas parcialmente em suas adaptações anteriores: fazer com que o texto extremamente teatral da peça caiba com perfeição na tela de cinema - no caso, em formato 65mm, que lhe permitiu alcançar um visual mais clássico que buscava com o objetivo de aproximar o filme de um cinema mais visualmente atraente e que só voltou a ser utilizado em 2012, quando Paul Thomas Anderson filmou seu "O mestre". Seu objetivo é plenamente atingido quando a plateia testemunha momentos de pura poesia visual, enfatizada pela fotografia esplêndida de Alex Thomson e pela direção de arte irretocável que concorreu ao Oscar - assim como o figurino de Alexandra Byrne, a música de Patrick Doyle e o roteiro do próprio diretor. Pulsante, passional e por vezes exaustivamente emocionante, "Hamlet" é a mais perfeita combinação entre cinema e teatro já realizada. Uma obra-prima de grandes proporções.

segunda-feira

ESQUEÇA PARIS

ESQUEÇA PARIS (Forget Paris, 1995, Castle Rock Entertainment, 101min) Direção: Billy Crystal. Roteiro: Billy Crystal, Lowell Ganz, Babaloo Mandel. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Kent Beyda. Música: Marc Shaiman. Figurino: Judy Ruskin. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/Michael Seirton. Produção executiva: Peter Schindler. Produção: Billy Crystal. Elenco: Billy Crystal, Debra Winger, Joe Mantegna, Cynthia Stevenson, Richard Masur, Julie Kavner, William Hickey, Cathy Moriarty. Estreia: 19/5/95

Levando-se em consideração que um dos maiores sucessos da carreira de Billy Crystal foi a comédia romântica "Harry & Sally, feitos um para o outro", que ele estrelou ao lado de Meg Ryan em 1989, não é de estranhar que ele tenha tentado repetir a façanha quinze anos depois. Em "Esqueça Paris" ele não apenas aparece como protagonista masculino de uma história de amor recheada de sarcasmo e ironia: ele também é o diretor, o produtor e um dos roteiristas, ao lado dos então festejados Lowell Ganz e Babaloo Mandel. Vindo do sucesso modesto de "Mr. Saturday Night, a arte de fazer rir" (92), o cineasta Crystal mostra-se dotado de ritmo, inteligência, sensibilidade e seu tradicional bom humor, mas nada disso ajudou na carreira nacional e internacional do filme. Azar de quem perdeu. Seu filme é uma deliciosa comédia que, assim como "Harry & Sally", analisa de forma carinhosa/ácida/romântica, as relações amorosas em geral ao concentrar-se em uma única tram: a história de idas e voltas do casal Mickey Gordon (vivido pelo próprio Crystal) e Ellen Andrews (Debra Winger, esbanjando um insuspeito timing cômico).

Mickey é um voluntarioso árbitro de basquete que vive em Nova York. Ellen é funcionária de uma empresa de aviação e vive em Paris. O destino os apresenta quando ele precisa viajar até a França para enterrar o corpo do pai - um veterano de guerra com quem ele não mantinha a melhor das relações - e a companhia onde ela trabalha envia o caixão, por engano, para outro país. Afastado de suas funções devido a uma confusão em uma partida, Mickey resolve passar uma semana na capital francesa e Ellen se oferece para servir de guia em seus passeios. Não demora muito e logo eles estão apaixonados como nas melhores produções do gênero, com direito à música romântica, citações cinematográficas e paisagens deslumbrantes - além de, como não poderia de ser em se tratando de um filme de Billy Crystal, diálogos brilhantes e engraçadíssimos. Acontece que ela tem um grave impedimento para a continuidade do romance - além da distância física que os separa na vida cotidiana - e eles irão viver uma história de amor das mais atribuladas pelos anos seguintes.


Quanto menos se souber a respeito dos desdobramentos de "Esqueça Paris" melhor - ainda que ele continue saboroso mesmo quando revisto. Todos os empecilhos à felicidade entre Mickey e Ellen que surgem no desenrolar da trama soam orgânicos e realistas, apesar do tom cômico imposto pelo roteiro, que muitas vezes se sobressai aos elementos dramáticos. Carreira, família e dificuldades diversas se interpõem entre eles e o final feliz dos seus sonhos, mas sempre de forma leve e divertida, permitindo ao público um equilíbrio perfeito entre risadas e reflexões - equilíbrio muito ajudado pela química excelente entre o casal protagonista. Se Crystal já tinha mostrado seu lado conquistador/cínico ao lado de Meg Ryan quase uma década e meia antes, é Debra Winger quem se destaca, revelando uma faceta nova a seus fãs: solar e encantadora, ela brinca de Katharine Hepburn - uma mulher independente, batalhadora, de língua afiada - com uma classe e um carisma raros em sua carreira recheada de personagens dramáticos e densos. Talvez seja ela a maior qualidade de um filme repleto delas.

E entre as várias qualidades de "Esqueça Paris" está, sem dúvida, a estrutura com que o roteiro é montado: a história de Mickey e Ellen é contada ao público ao mesmo tempo em que é narrada à Liz (Cynthia Stevenson), que está prestes a casar-se com um dos melhores amigos de Mickey, o vendedor de carros Andy (Joe Mantegna). No decorrer do filme, não apenas Andy mas outros casais amigos - e conhecedores da complicada relação - vão acrescentando detalhes à deliciosa narração, com pontos de vista díspares e observações argutas sobre a vida social, a instituição do casamento e até mesmo sobre suas próprias vidas. Como prova da capacidade incrível de Crystal em criar personagens interessantes, até mesmo o garçom que serve a mesa dos personagens - vivido pelo ótimo Robert Constanzo - tem seus momentos de brilho, diante de um elenco coadjuvante excepcional que inclui Cathy Moriarty, Julie Kavner e Joe Mantegna em dias inspirados.

"Esqueça Paris" é um filme que merece ser descoberto e cultuado. Assim como "Harry & Sally", é inteligente, sensível, engraçado e dotado de um realismo sofisticado e banhado em delicadeza. Um dos melhores e mais subestimados filmes românticos dos anos 90.

quinta-feira

DESCONSTRUINDO HARRY

DESCONSTRUINDO HARRY (Deconstructing Harry, 1997, Sweetland Films, 96min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Suzy Benzinger. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Kaufman, Elaine O'Donnell. Produção executiva: J. E. Beaucaire. Produção: Jean Doumanian. Elenco: Woody Allen, Judy Davis, Kristie Alley, Elisabeth Shue, Demi Moore, Robin Williams, Billy Cristal, Tobey Maguire, Bob Balaban, Mariel Hemingway, Julia-Louis Dreyfus. Estreia: 26/8/97 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Woody Allen sabe que, por mais que ele negue inspirar-se em si mesmo, seu público insiste em procurá-lo em todo e qualquer protagonista de seus filmes. Essa obsessiva busca por semelhanças entre criador e obra teve mais um prodigioso capítulo com "Desconstruindo Harry", onde o veterano cineasta nova-iorquino narra as aventuras de um bem-sucedido escritor que afasta todas as pessoas que o amam justamente porque as utiliza como personagens de seus livros - normalmente enfatizando ou até mesmo inventando seus defeitos. Harry Block, o escritor criado por Allen - e que ele em vão tentou que fosse interpretado por outros atores que não ele, como Elliot Gould e Albert Brooks, exatamente para não aumentar ainda mais a confusão do público - é, provavelmente, o mais desagradável vivido por ele nas quase três décadas que o separam de seu primeiro filme ("O que que há, gatinha?", de 1968), mas é, também, um dos mais engraçados e interessantes de sua carreira como roteirista.

Partindo de uma ideia que emula Ingmar Bergman e seu "Morangos silvestres", Allen põe Block a caminho de uma homenagem que sua antiga faculdade lhe fará, mesmo tendo-o expulso em seu tempo de estudante. Acompanhado de um dos poucos amigos que lhe restam (Bob Balaban), uma prostituta que ele conheceu na noite anterior e seu filho pequeno - sequestrado porque sua ex-mulher não permitiu que ele se juntasse ao passeio - o escritor faz, no trajeto, um pequeno inventário de sua vida amorosa, equilibrando sua memória entre o que realmente aconteceu, a forma como as situações foram retratadas em sua obra e em pequenas histórias que interligam os fatos sem necessariamente fazerem parte de sua vida pessoal. É assim, por exemplo, que surgem na tela personagens geniais, como o ator (Robin Williams) que se descobre fora de foco e quer que todos se ajustem à nova situação e o jovem vendedor de sapatos (Tobey Maguire) que tem um inesperado encontro com a morte (ela mesma, de foice em punho e tudo a que tem direito no imaginário popular).


Brincando com a edição e com as possibilidades que a trama oferece, Woody Allen constrói um roteiro com a medida certa de ironia, que discute a quase misantropia de seu protagonista sem torná-lo um cafajeste no sentido mais literal do termo. Mesmo que Block não tenha escrúpulos em ter um caso com a cunhada ou iniciar um romance com uma jovem estudante paciente de sua mulher - e utilizar essas situações como matéria-prima de seus romances - é difícil não simpatizar com ele e quase perdoá-lo, principalmente porque Allen não pretende demonizar seu personagem, revestindo-o de um irresistível verniz de sarcasmo e auto-crítica que não poupa nem mesmo suas origens judaicas - na figura da irmã de Harry (interpretada por Caroline Aaron) que o culpa por não seguir as tradições, depois que se casa com um judeu ortodoxo.

Com um desfile de estrelas na tela - que vão de Demi Moore e Elisabeth Shue até Billy Cristal e Mariel Hemingway - "Desconstruindo Harry" faz rir sem precisar fazer muita força, além de fazer uma crítica aos escritores que alcançam a genialidade na arte mas são medíocres na vida real. Há quem possa fazer paralelos entre Block e Woody Allen, e culpá-los quem há de?

segunda-feira

HARRY & SALLY, FEITOS UM PARA O OUTRO

HARRY & SALLY, FEITOS UM PARA O OUTRO (When Harry met Sally, 1989, Castle Rock Entertainment, 96min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Nora Ephron. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Robert Leighton. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Jane Musky/George R.Nelson, Sabrina Wright-Basile. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção: Rob Reiner, Andrew Schneiman. Elenco: Billy Cristal, Meg Ryan, Carrie Fisher, Bruno Kirby. Estreia: 21/7/89

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Não há dúvida de que "Harry e Sally, feitos um para o outro" deve muito a Woody Allen. Por mais que em sua essência o filme de Rob Reiner seja milhares de vezes mais romântico do que qualquer trabalho do veterano diretor nova-iorquino - com a possível exceção do doce "Manhattan" -, suas semelhanças são tão óbvias que só resta ao espectador - mesmo os detratores do cineasta - sorrir frente a essa carinhosa e bem-sucedida homenagem.

Escrito por Nora Ephron - que mais tarde seria a diretora de outras duas comédias românticas estreladas por Meg Ryan, "Sintonia de amor" e "Mensagem para você" - o roteiro de "Harry e Sally" é um perfeito equilíbrio entre uma engraçadíssima comédia de costumes (sociais, sentimentais) e uma doce (mas nunca piegas) história de amor. É um exemplo mais que perfeito de filme destinado a tornar-se clássico e atemporal, principalmente devido a seus diálogos luminosos, seus insights inspirados e à perfeita escalação da dupla central de atores. Em nenhum outro momento de suas carreiras, Meg Ryan e Billy Cristal foram tão felizes quanto aqui. Mais do que qualquer outra coisa, eles são, na memória do público, para sempre, Sally Albright e Harry Burns.

Sally Albright é uma jovem bonita, inteligente e com séria tendência a ser controladora - a ponto de fazer pedidos em restaurantes de forma extremamente detalhista. Harry Burns é um homem também inteligente, mas dado a crises de melancolia e pessimismo - a ponto de ler sempre a última página de um livro logo que o compra, para o caso de morrer antes de chegar ao seu final. Eles se conhecem em 1977, quando viajam no mesmo carro de Chicago a Nova York, para onde estão se mudando. Durante a viagem nenhum deles fica com a melhor das impressões do outro e se despedem sem maiores dramas. Cinco anos depois, já formada em jornalismo a namorada de um assessor político, Sally encontra Harry - de casamento marcado - em uma viagem de avião e novamente eles não se sentem particularmente tristes quando chegam a seu destino. É somente alguns anos depois que eles se reencontram e - contrariando a máxima de Harry que diz que homens e mulheres não podem ser amigos sem que haja sexo no meio - iniciam uma promissora amizade. Apoiando um ao outro em suas relações equivocadas, dividindo noites solitárias e sem querer promovendo casais, eles são os últimos a perceber que estão se apaixonando aos poucos.


Fotografada com uma beleza de tirar o fôlego em uma Nova York iluminada e cercada por uma trilha sonora repleta de standars do jazz cantadas por Harry Connick Jr., a história de amor entre Harry e Sally é contada com bom humor, leveza e as pitadas de sarcasmo e ironia de que a mente aguçada de Nora Ephron é capaz. Ao criar uma Sally bastante calcada em sua própria personalidade - reza a lenda que uma aeromoça perguntou-lhe se ela havia assistido ao filme quando ela começou a detalhar a maneira como queria seu prato durante um vôo - Ephron criou uma personagem cativante, simpaticamente irritante e dotada de uma voz própria, lindamente interpretada por Meg Ryan no auge de seu carisma e beleza. E Harry, do alto de sua auto-suficiência de macho, também é capaz de verter lágrimas pelo amor de uma mulher, o que o aproxima eficazmente do coração da plateia - seja ela masculina ou feminina. A química entre os quatro - personagens e atores - é de ouro, e são esses detalhes - roteiro esperto e um elenco impecável - que fazem com que "Harry e Sally" seja o modelo para todas as comédias românticas feitas desde então.

Dono de pelo menos uma cena antológica - a do falso orgasmo de Sally em um restaurante lotado - e repleto de diálogos que soam como música, "Harry e Sally" é provavelmente a melhor comédia romântica da história.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...