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terça-feira

A ESTRANHA PASSAGEIRA

A ESTRANHA PASSAGEIRA (Now, voyager, 1942, Warner Bros, 117min) Direção: Irving Rapper. Roteiro: Casey Robinson, romance de Olive Higgins Prouty. Fotografia: Sol Polito. Montagem: Warren Low. Música: Max Steiner. Figurino: Orry-Kelly. Direção de arte/cenários: Robert Haas/Fred M. MacLean. Produção: Hal B. Wallis. Elenco: Bette Davis, Paul Henreid, Claude Rains, Gladys Cooper, Bonita Granville, John Loder. Estreia: 22/10/42

3 indicações ao Oscar: Atriz (Bette Davis), Atriz Coadjuvante (Gladys Cooper), Trilha Sonora Original (Drama)

Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original

Por incrível que pareça, o maior sucesso de bilheteria da carreira de Bette Davis, "A estranha passageira", não teve a mesma sorte junto aos críticos. Recebido com ressalvas pela imprensa que tanto havia alardeado as qualidades de seus trabalhos anteriores - que renderam quatro indicações consecutivas ao Oscar e uma estatueta dourada, por "Jezebel" (1938) -, o filme de Irving Rapper não precisou dos aplausos dos jornalistas para levar multidões às salas de exibição e emocionar milhares de espectadores com sua trama romântica e melodramática. Baseado no terceiro livro de uma saga em cinco partes que conta a história de uma família rica de Boston - entre 1936 e 1942 -, o filme de Rapper voltou a colocar Davis na briga por um prêmio da Academia (que perdeu para Greer Garson, por "Rosa da esperança") e deu a Max Steiner o segundo de seus três troféus.

Apesar da implicância de Davis com a música de Steiner - segundo ela a trilha do compositor era intrusiva demais e atrapalhava o resultado final de sua atuação -, a partitura de "A estranha passageira" é uma das mais celebradas do autor, e uma das mais expressivas de sua brilhante trajetória. Romântica sem cair no sentimentalismo e forte mesmo evitando o exagero dramático, sua composição ilustra com eficiência a história criada pela escritora Olive Higgins Prouty e adaptada com extrema fidelidade por Casey Robinson - que também colaborou, sem crédito, no roteiro oscarizado de "Casablanca" (1942). Mas enquanto a travessia das páginas do livro para sua adaptação cinematográfica foi relativamente simples, a produção do filme, como era de se esperar quando se trata de Bette Davis, teve sua cota de atribulações. Primeiro foi a saída do diretor original, Edmund Goulding, que foi desligado do projeto por problemas de saúde - e levou com ele a ideia de ter Irene Dunne no papel principal. Seu substituto, Michael Curtiz, queria Norma Shearer ou Ginger Rogers como protagonista (e Ginger era uma entusiasta da possibilidade) - mas foi barrado quando Davis, decidida a ser a estrela do filme, convenceu o produtor Hal B. Wallis a contratá-la e demitir Curtiz. O resultado não poderia ter sido melhor: não apenas a atriz teve o sucesso comercial que ela e a Warner Bros desejavam como Curtiz foi alocado para dirigir "Casablanca" - que lhe rendeu um Oscar e a glória de ter comandado um dos maiores clássicos da história do cinema.

 

"A estranha passageira" é um melodrama romântico típico da Hollywood dos anos 1940. A protagonista, Charlotte Vale, é uma solteirona temporã, dominada por sua tirânica mãe (Gladys Cooper, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e presa em constantes pensamentos negativos a respeito de sua aparência e personalidade. Tida como o patinho feio de uma família de posses, Charlotte é constantemente humilhada e tratada quase como uma empregada, uma enfermeira destinada a abdicar da própria vida. Em vias de um colapso nervoso, ela é enviada, pelo Dr. Jaquith (Claude Rains), a um centro de reabilitação psicológica, de onde sai, meses depois, com a autoestima elevada e a saúde mental equilibrada. Em viagem de navio - onde começa a testar sua nova personalidade, mais centrada e sociável -, ela conhece o galante Jerry Durance (Paul Henreid), por quem acaba se apaixonado mesmo ciente do fato de que ele é casado, embora infeliz e incapaz de uma separação por causa das filhas. O romance impossível é encerrado com o final da viagem, e, para surpresa de todos, Charlotte retorna ao lar disposta a assumir as rédeas do próprio destino - o que inclui um noivado sem amor com o gentil Elliot Livingston (John Loder). 

"A estranha passageira" é longe de ser o melhor filme de Bette Davis, uma das mais fantásticas atrizes da era de ouro de Hollywood. Porém, é um dos mais representativos de sua fase como estrela dos melodramas da Warner, que a ajudaram a estabelecer-se como um mito. Com a ajuda do figurinista Orry-Kelly, do diretor de fotografia Sol Polito e da direção de Rapper - que possibilitou que sua personalidade artística se sobrepusesse a qualquer inovação narrativa -, Davis fez de sua Charlotte Vale um ícone romântico dos mais duradouros. Repleto de momentos dramáticos, frases de efeito ("Oh, Jerry, não peçamos a lua, nós já temos as estrelas!") e até sequências de um humor duvidoso (o chofer brasileiro que atende os protagonistas durante um passeio pelo Rio de Janeiro é provavelmente uma das representações mais estereotipadas da história), o filme mantém intocada sua aura mesmo depois de setenta anos - e é inegável que boa parte de tal perenidade se deve ao carisma e ao fascínio de sua atriz central. É por ela, mais do que por sua trama pouco surpreendente, que "A estranha passageira" vale cada minuto.

A CARTA


A CARTA (The letter, 1940, Warner Bros, 95min) Direção: William Wyler. Roteiro: Howard Koch, peça teatral de W. Somerset Vaughm. Fotografia: Tony Gaudio. Montagem: George Amy, Warren Low. Música: Max Steiner. Figurino: Orry-Kelly. Direção de arte/cenários: Carl Jules Weyl. Produção executiva: Hal B. Wallis. Produção: William Wyler. Elenco: Bette Davis, Herbert Marshall, James Stephenson, Frieda Inescort. Estreia: 14/11/40

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Wyler), Atriz (Bette Davis), Ator Coadjuvante (James Stephenson), Fotografia em preto-e-branco, Montagem, Trilha Sonora Original


Em 1940, a Academia de Hollywood ainda era relativamente jovem, mas já tinha o nome de Bette Davis marcado em sua história: em 12 anos, a estrela já tinha dois Oscar para chamar de seu e continuava relevante a ponto de ser uma das maiores estrelas do star system de Hollywood. Seu nome era um chamariz de bilheteria tão poderoso que nem mesmo sua personalidade – forte a ponto de angariar muitos desafetos dentro da indústria – a impedia de ser uma das atrizes mais disputadas pelos grandes diretores de seu tempo. Um desses diretores, William Wyler, não apenas lhe dava a chance de grandes papéis – foi o responsável por “Jezebel” (1938), que lhe rendeu o segundo Oscar de melhor atriz  - como também não se importava em bater de frente com ela durante as filmagens. Seus épicos embates nos bastidores não atrapalhavam em nada o resultado de seus trabalhos – como se pode comprovar com “A carta”, que rendeu, a ambos, indicações à estatueta dourada e um enorme êxito comercial.

Fã ardorosa do filme – a que considera um de seus melhores trabalhos justamente pela direção de Wyler -, Davis teve um período complicado durante as filmagens, que foi além de seus conflitos com o cineasta. Se Wyler também tinha altercações violentas com outro membro do elenco – James Stephenson, que muitas vezes chegou a abandonar o set por causa de suas divergências artísticas e acabou recompensado com uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante -, Davis passou por maus bocados ao descobrir-se grávida na primeira semana de trabalho e, sem ter certeza do nome do pai da criança que esperava, fazer um aborto sem o conhecimento dos colegas. Nem Wyler – com quem ela já havia tido um romance anteriormente – soube de tais percalços, e nada disso impediu que a atriz entregasse mais um desempenho brilhante, quase mutilado pelos executivos da Warner, preocupados com o tom dúbio do caráter da protagonista, Leslie Crosbie.

  

Criada por W. Somerset Maughan como personagem principal de uma peça de teatro lançada em 1927, Crosbie realmente não cabe no panteão das mocinhas sofredoras e estoicas adoradas pelo público que lotava os cinemas no final da década de 1930 – ainda que a própria Davis fizesse questão de interpretar personagens que destoavam do senso comum da época. Logo na primeira sequência – pouco mais de dois minutos que demoraram um dia inteiro para ficar ao gosto do perfeccionista Wyler – Crosbie atira várias vezes, sem dó, em um homem que cai morto na frente de sua propriedade, uma fazenda de borracha em Cingapura. Esposa de Robert Crosbie (Herbert Marshall), um fazendeiro, ela alega que cometeu o crime como forma de proteger-se do assédio que sofreu durante a ausência do marido. Logo o advogado Howard Joyce (James Stephenson) é contratado para cuidar de seu caso – que tem tudo para ser tratado realmente como legítima defesa. No entanto, uma carta escrita por Leslie à vítima – com um teor romântico que desmente a alegação anterior – pode revelar a verdade sobre o homicídio.

Remake de um filme lançado com Jeanne Eagels em 1929 – que foi indicado ao Oscar de melhor atriz e tinha Herbert Marshall (o Robert da nova versão) no papel da vítima -, “A carta” é um misto de romance e filme pré-noir, com um clima de suspense que não chega a afastá-lo das características de um melodrama típico. Com um final alterado em virtude do famigerado Código Hays – que não permitia que personagens de caráter duvidoso tivesse qualquer possibilidade de final feliz – e uma protagonista que tirou o sono dos executivos da Warner Bros (que imploravam ao diretor que a tornasse mais simpática aos olhos do espectador), o filme de Wyler se escora basicamente em seu elenco impecável. Além de Davis – expressiva como nunca -, “A carta” revelou ao público um ator até então desconhecido e que infelizmente não teve a sorte de colher os louros de seu desempenho. Indicado por Jack Warner em pessoa, James Stephenson agradou em cheio o exigente William Wyler e ganhou o papel do advogado Howard Joyce – apenas para depois ver o próprio Warner recusar a escolha com medo de oferecer um papel tão importante a um ator sem poder de marquise. Coube a Wyler contornar a situação inusitada e convencer o presidente do estúdio de que Stephenson era a melhor opção. O resultado foi uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante, um prestígio do qual não pode usufruir por muito tempo – Stephenson morreu inesperadamente, aos 53 anos, de ataque cardíaco, poucos meses depois da entrega das estatuetas. “A carta” acabou sendo seu legado artístico – e sendo ao lado de uma estrela da grandeza de Bette Davis não deixa de ser um senhor legado.

COM A MALDADE NA ALMA

COM A MALDADE NA ALMA (Hush... hush, sweet Charlotte, 1964, 20th Century Fox, 133min) Direção: Robert Aldrich. Roteiro: Henry Farrell, Lukas Heller, estória de Henry Farrell. Fotografia: Joseph Biroc. Montagem: Michael Luciano. Música: De Vol. Figurino: Norma Koch. Direção de arte/cenários: William Glasgow/Raphael Bretton. Produção: Robert Aldrich. Elenco: Bette Davis, Olivia de Havilland, Joseph Cotten, Agnes Moorehead, Mary Astor, Victor Buono. Estreia: 15/12/64

7 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Agnes Moorehead), Fotografia em P&B, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Hush... Hush, Sweet Charlotte), Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Agnes Moorehead) 

Depois do estrondoso sucesso de "O que terá acontecido a Baby Jane?" (62), todo mundo em Hollywood estava ansioso por um reencontro entre suas duas protagonistas, Bette Davis e Joan Crawford. Todo mundo exceto Robert Aldrich, o diretor do filme, que teve de lidar com a célebre e amplamente conhecida rivalidade entre elas durante as (e depois das) filmagens. Aldrich preferia qualquer coisa no mundo a ter de passar novamente pelo pesadelo de domar as duas megeras, mas como em Hollywood quem manda é o vil metal, em 1964 ele estava outra vez diante do desafio de dominar o furacão: com o objetivo puro e simples de capitalizar em cima da tendência inaugurada por "Baby Jane" - filmes de terror estrelados por grandes nomes da era de ouro do cinema, como "Almas mortas", que manteve Crawford em alta mesmo nos anos 60 - Aldrich aceitou o desafio de realizar "Com a maldade na alma", que seguiria à risca todos os mandamentos do gênero, com direito a cabeças rolando, suspense psicológico de almanaque e reviravoltas nem tão surpreendentes assim. A grande questão é que nem mesmo o cineasta - já devidamente escolado em bastidores problemáticos - poderia prever que a produção, criada como veículo para Bette e Joan, acabasse desfalcado de uma das estrelas e chegasse às telas com apenas metade do apelo comercial.

Chegando à locação prevista para o filme e já entrando em crise com Bette Davis - que fazia questão de ostentar uma situação mais confortável durante as filmagens - a pouco delicada Joan Crawford acabou não esquentando banco: depois de algumas semanas, nem precisou utilizar-se da cláusula que lhe desobrigava de participar das campanhas publicitárias do filme ao lado da colega de cena e foi demitida por Aldrich... e só ficou sabendo através dos jornais, devidamente avisados por Davis. É óbvio que tal situação não ajudou em nada a já complicada trajetória do filme - rebatizado como "Hush... Hush, Sweet Charlotte" depois que o original "O que terá acontecido à prima Charlotte" dava à produção um indisfarçável ar de caça-níqueis (o que na verdade ela era). Para substituir Crawford foi chamada Olivia de Havilland - que já havia ficado com um papel seu em "A dama enjaulada", do mesmo ano, e que tornou-se amiga inseparável de Bette Davis, a ponto de brindarem com Coca-cola toda manhã - vale lembrar que Joan fazia parte da diretoria da Pepsi à época. A entrada de Olivia no filme pode ter deixado os bastidores menos tensos (ou divertidos, dependendo do ponto de vista), mas certamente prejudicou o resultado final: "Com a maldade na alma" não tem a metade da inventividade, crueldade e do irresistível tom de decadência de "Baby Jane".


É lógico que um filme estrelado por Bette Davis já é, por si só, imperdível, uma vez que a grande atriz invariavelmente dá um show, mesmo quando tem em mãos um papel com possibilidades limitadas. Porém, "Com a maldade na alma" esbarra em um roteiro que se pretende cheio de reviravoltas quando, na verdade, apenas se estende desnecessariamente em uma trama muitas vezes enfadonha. O começo, é preciso que se diga, é sensacional: no final dos anos 20, um grandioso baile oferecido por um dos fazendeiros mais ricos de Baton Rouge, no sul dos EUA é abalado pelo cruel e violento assassinato de um homem, que tem a cabeça e uma das mãos decepadas com um cutelo. Imediatamente a culpa recai sobre a filha do dono da casa, Charlotte Hollis (Bette Davis), cujos planos de fugir com a vítima (casada) foram interrompidos pela covardia do rapaz. Décadas mais tarde, Charlotte vive sozinha na vasta propriedade da família, depois da morte do pai, e passa por dificuldades devido à desapropriação da fazenda para construção de uma ponte. Acreditando cegamente que quem está por trás da situação é a viúva de seu ex-amante, Jewel Mayhew (Mary Astor), ela fica aliviada com a chegada de uma prima há muito distante, Miriam Deering (Olivia de Havilland). Porém, Miriam, que antigamente era o interesse amoroso do médico de Charlotte, Drew Bayliss (Joseph Cotten), não chega para ajudar a prima a resolver a questão das terras e sim para ajudá-la na transição para uma nova vida, distante de onde ela foi criada. É o que basta para a sanidade mental de Charlotte começar a dar sérios sinais de declínio.

Sem o duelo de interpretações proporcionado por Davis e Crawford em "Baby Jane", "Com a maldade na alma" se sustenta basicamente no admirável talento da primeira em tirar leite de pedra. O roteiro parece não se decidir entre o trash e o suspense psicológico, mesclando cenas puramente camp com momentos em que busca soar como Alfred Hitchcock - inspiração óbvia desde o sucesso comercial de "Psicose" (60). Nem sempre funciona, mais por culpa de uma história bastante previsível do que pela direção de Aldrich (sempre tentando encontrar a maneira menos fácil de enxergar uma cena) ou pela atuação de seus atores, ainda que Olivia de Havilland nunca tenha parecido tão canastrona. A reviravolta da trama tampouco entusiasma ou surpreende aos espectadores mais escolados e somente Agnes Moorehead (de "A feiticeira") consegue sobressair-se, com um trabalho premiado com o Golden Globe e indicado ao Oscar - por incrível que pareça, o filme obteve uma recepção bem mais calorosa da Academia do que "Baby Jane", sendo indicado a sete estatuetas no ano em que "My fair lady" sagrou-se o grande campeão. Na pele da leal e corajosa empregada da solitária solteirona, Moorehead é a única que chega a ameaçar roubar a cena de Bette Davis, que, como sempre, entrega-se de corpo e alma a um filme, mesmo que ele não esteja entre seus melhores. É Davis, sempre ela, que faz "Com a maldade na alma" valer a pena. Nem que seja para assistir-se a mais um de seus shows particulares.

JEZEBEL

JEZEBEL (Jezebel, 1938, Warner Bros, 104min) Direção: William Wyler. Roteiro: Clements Ripley, Abem Finkel, John Huston, peça teatral de Owen Davis. Fotografia: Ernest Haller. Montagem: Warren Low. Música: Max Steiner. Figurino: Orry-Kelly. Direção de arte: Robert Haas. Produção executiva: Hal B. Wallis. Produção: William Wyler. Elenco: Bette Davis, Henry Fonda, Fay Binter, George Brent, Margaret Lindsay, Donald Crisp. Estreia: 10/3/38

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Bette Davis), Atriz Coadjuvante (Fay Binter), Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Bette Davis), Atriz Coadjuvante (Fay Binter) 


Hollywood, como todos sabem, vive de lendas. E uma das mais firmemente presas ao inconsciente coletivo é aquela que diz que, arrasada por ter perdido o papel de Scarlett O’Hara na adaptação para as telas do épico “... E o vento levou”, de Margaret Mitchell, Bette Davis deu o troco à Warner da melhor maneira possível: criando uma personagem similar em uma história passada no mesmo período histórico e, como tiro de misericórdia, ganhando um Oscar de melhor atriz por ele. Seria uma bela história. Se não fosse apenas mais uma lenda. Tudo bem que Scarlett (que deu à Vivien Leigh o Oscar no ano seguinte) e Julie Morrison – personagem de Davis em “Jezebel” – tem personalidades semelhantes, são fortes e determinadas (além de sulistas durante a Guerra de Secessão), mas o filme de William Wyler NÃO foi uma resposta de Davis a ninguém. Não apenas o nome da atriz principal de “... E o vento levou” ainda não havia sido escolhido quando “Jezebel” começou a ser filmado, como o próprio Selznick recusou-se a testar Davis para o papel justamente por ter ficado irado com o que julgava uma espécie de sabotagem contra seu tão acalentado projeto. Esse conflito de datas pode até jogar um balde de água fria naqueles que gostam de uma boa fofoca de bastidores, mas é apenas mais uma prova de que não é de hoje que Hollywood adora desenvolver filmes com temática semelhante ao mesmo tempo.


Escrita por Owen Davis e fracasso de bilheteria na Broadway na temporada 1934/35, “Jezebel” teve seus direitos comprados pela Warner a preço de banana. Tal sorte financeira, porém, não se repetiu durante as filmagens, que se arrastaram por quase um mês a mais do que o previsto: com um custo adicional de 400 mil dólares ao orçamento inicial, “Jezebel” confirmou a forma particular de direção do cineasta William Wyler, que costumava repetir um take até sentir-se particularmente satisfeito com ele. Tal método de trabalho – que fez com que Humphrey Bogart tivesse tentado dissuadir seu amigo Henry Fonda de fazer o filme – foi em boa parte responsável pelos constantes atrasos no cronograma e até mesmo pelos problemas de relacionamento entre ele e sua estrela Bette Davis (ao menos até que dois motivos a fizeram baixar a guarda: a constatação de que Wyler sabia o que estava fazendo ao exigir dela a mesma cena diversas vezes e o início de um conturbado romance com o diretor). Vendo seu casamento com Ham Nelson naufragando a cada dia, Davis apaixonou-se por Wyler mesmo já estando envolvida com seu colega de elenco, Henry Fonda – que por sua vez não só era casado como estava em vias de tornar-se pai de sua segunda filha, Jane. Em mais uma das lendas que correm a respeito do filme, Davis fingiu-se de doente para não aparecer nos últimos dias das filmagens por saber que o último take seria também sua despedida do cineasta que, dizem, era o pai do bebê que ela esperava - uma reviravolta inesperada para uma relação que havia começado com o pé esquerdo seis anos antes, quando Wyler, durante os testes para o filme "A house divided", comentou com um membro da equipe que detestava atrizes que julgavam que mostrar o corpo as ajudariam a ganhar um papel (a indireta era para Davis, que estava vestida com um figurino alguns números menores por erro alheio).

O fato é que, independentemente de seus problemas e confusões nos bastidores, "Jezebel" é uma obra que se sustenta, e muito bem, sem nada disso. Calcado fortemente na direção inspiradíssima de William Wyler e na atuação monstruosa de Bette Davis, o filme é uma adaptação inteligente e rica em crítica social que destoa radicalmente daquele que tornou-se, mesmo sem querer, seu maior rival no ideário dos cinéfilos, "... E o vento levou": ao contrário do que acontece na obra estrelada por Vivien Leigh e Clark Gable, onde a história de amor entre os protagonistas é orquestrada como um épico onde a Guerra de Secessão surge como um pano de fundo filmado em luxuoso technicolor, em "Jezebel" o espectro do conflito assume ares mais sérios e melancólicos - cortesia da bela fotografia em preto-e-branco de Ernest Haller, que, por coincidência, também assinou o filme de Selznick.

Passeando por uma New Orleans triste e castigada por um conflito que opôs cidadãos e famílias até então amigas, a câmera de Haller não tenta fazer da história um espetáculo e acaba por transformar os dramas de sua protagonista, Julie Morrison, no principal ponto de interesse do filme.

Uma jovem à frente do seu tempo, voluntariosa e pouco afeita a regras que fogem à sua compreensão, Julie não hesita em escandalizar a sociedade sulista da metade do século XIX, assumindo posições transgressoras aparentemente simples mas radicalmente chocantes a seus contemporâneos, como usar um vestido vermelho em um baile para toda a alta sociedade - quando se espera que moças virgens usem apenas branco. É justamente essa sua ousadia que acaba por afastá-la do homem que ama, Preston Dillard (Henry Fonda), que não consegue conceber a ideia de casar-se com uma mulher tão caprichosa. Dando o noivado por acabado, ele abandona a cidade e viaja para a Filadélfia, onde passa três anos. Sua volta é que que deflagra o processo de autodestruição e vingança em Julie - cuja ligação com Jezebel (a personagem bíblica cujos pecados acarretaram destruição e peste) surge através da veterana Belle Massey (Fay Binter, vencedora do Oscar de coadjuvante no mesmo ano em que também concorreu na categoria principal por "Novos horizontes"). O reencontro de Julie e Preston se dá de forma trágica e redentora, que, graças ao bom roteiro e à direção sensível de Wyler, jamais soam pedantes ou como um sermão.

"Jezebel" é, enfim, um grande filme, que merece, depois de todas essas décadas, finalmente sair da sombra de "... E o vento levou". Apesar de suas semelhanças (nem tão absurdas assim, afinal de contas), são duas grandes obras cinematográficas que devem ser vistas da maneira correta: dois filmes excelentes, com ambições diversas e resultados impecáveis. E Bette Davis é sempre uma atriz superlativa, capaz de fazer com que um mero dar de ombros tenha um efeito dramático devastador na plateia e nos colegas de cena. Se isso não for um motivo mais do que imenso, o que seria?

MORTE SOBRE O NILO

MORTE SOBRE O NILO (Death on the Nile, 1978, EMI Films/Mersham Productions Ltd, 140min) Direção: John Guillermin. Roteiro: Anthony Shaffer, romance de Agatha Christie. Fotografia: Jack Cardiff. Montagem: Malcolm Cooke. Música: Nino Rota. Figurino: Anthony Powell. Direção de arte: Peter Murton. Produção: John Brabourne, Richard Goodwin. Elenco: Peter Ustinov, David Niven, Mia Farrow, Bette Davis, Maggie Smith, Simon MacCorckindale, Lois Chiles, Angela Lansbury, Olivia Hussey, Jane Birkin, Jon Finch, George Kennedy, Jack Warden. Estreia: 29/9/78

Vencedor do Oscar de Figurino

Poucas vezes os fãs da literatura policial de Agatha Christie puderam ver uma adaptação decente de seus romances para a tela de cinema. Aliás, não é preciso utilizar nem mesmo os cinco dedos de uma mão para contar quantos filmes baseados em sua obra valeram a pena. Primeiro, foi em 1956, com a obra-prima "Testemunha da acusação", dirigida por Billy Wilder e estrelada por Charles Laughton e Marlene Dietrich. Depois, em 1974, quando "Assassinato no Orient Express" chegou a dar um Oscar de coadjuvante para Ingrid Bergman. E por fim, em 1978, quando John Guillermin - co-diretor de "Inferno na torre" - assumiu o comando de "Morte sobre o Nilo" que marcou a primeira vez em que o grande ator Peter Ustinov vestiu a pele do detetive belga Hercule Poirot - outras cinco ocasiões vieram, sem o mesmo êxito em termos de crítica e público. Com uma produção bem cuidada, que resultou em um Oscar para o figurino de Anthony Powell, um roteiro bastante fiel à sua origem e um elenco de grandes atores, "Morte sobre o Nilo" é um filme policial à moda antiga que certamente não decepciona os leitores da Rainha do Crime.

Mesmo que Albert Finney tenha recebido calorosos elogios e uma indicação ao Oscar por sua composição como Poirot, Ustinov consegue sair-se ainda melhor na pele do famoso e egocêntrico detetive, equilibrando um senso de humor sutil com a seriedade que o papel pede em seus momentos mais sérios. E seriedade é o que não falta na trama criada por Agatha Christie, que se utiliza de uma paisagem exótica - os pontos turísticos do Egito e uma viagem de barco pelo caudaloso rio Nilo - para criar uma trama que aproveita todos os ingredientes de sua vasta literatura para prender a atenção do público desde suas primeiras cenas até a climática revelação do nome do criminoso, com todos os suspeitos reunidos na mesma sala para ouvir as conclusões do detetive mais famoso do universo do romance policial.


A vítima da vez é a bela, milionária e fria Linnet Ridgeway (Lois Chiles em papel recusado por Cybill Sheperd), recentemente casada com o sedutor Simon Doyle (Simon MacCorkindale, da extinta telessérie "Manimal"), que ela roubou de sua amiga pobre Jacqueline De Bellefort (Mia Farrow). Em plena lua-de-mel e perseguida por sua antiga companheira, ela embarca com o marido em uma viagem pelo Egito e se vê cercada de potenciais inimigos, que incluem uma escritora de livros baratos que foi processada por ela (Angela Lansbury), o advogado que cuida de suas finanças (George Kennedy), uma dama-de-companhia que a acusa de ser filha do homem que roubou o dinheiro de sua família (Maggie Smith), um médico que a culpa por um processo por imperícia (Jack Warden) e até uma ambiciosa e impulsiva ladra de joias (Bette Davis). Junto a outros suspeitos que desejam a morte de Linnet, porém, está no barco o detetive belga Hercule Poirot (Ustinov), que se unirá a um coronel inglês (David Niven) para desvendar o crime - que logo se multiplicará em três conforme a viagem vai prosseguindo.

A maior qualidade de "Morte sobre o Nilo", além de sua trama bem urdida e intrigante, é a elegância com que John Guillermin conduz a história, a despeito da violência inerente à narrativa policial. A impecável reconstituição de época e o elenco à prova de qualquer crítica servem à perfeição para o desfile de tipos excêntricos criados por Agatha Christie e retratados com respeito e seriedade pelo cineasta, que contrabalança todo o sangue da história (mostrado com parcimônia, nas horas exatas) com o senso crítico de humor que caracteriza a obra da escritora inglesa - e para o qual contribui a atuação perspicaz de Peter Ustinov e a classe de sempre de Bette Davis e Maggie Smith, roubando as cenas como patroa e dama-de-companhia. Mesmo que o filme chegue a quase duas horas e meia de duração em nenhum momento o ritmo fica cansativo, mostrando o talento de Guillermin em dosar com inteligência o suspense policial com o estudo irônico de seus personagens. Uma enorme bola dentro quando se fala em adaptações de Christie para o cinema.

segunda-feira

O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE?


O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? (What ever happened to Baby Jane?, 1962, United Artists, 134min). Direção: Robert Aldrich. Roteiro: Lukas Heller, baseado no romance de Henry Farrell. Fotografia: Ernest Haller. Montagem: Michael Luciano. Música: DeVol. Casting: Jack Murton. Produção executiva: Kenneth Hyman. Produção: Robert Aldrich. Elenco: Bette Davis, Joan Crawford, Victor Buono. Estreia: 31/10/62

5 indicações ao Oscar: Atriz (Bette Davis), Ator Coadjuvante (Victor Buono), Fotografia P&B, Figurino P&B, Som
Vencedor do Oscar de Melhor Som


Dizem que, durante uma entrevista, a nada diplomática Bette Davis teria declarado que o melhor momento que passara com a atriz Joan Crawford fora quando a empurrara escada abaixo em uma cena de "O que terá acontecido a Baby Jane?", de 1962. Por mais saborosa que seja a possibilidade da grandiosa Davis ter dito isso, é preciso encarar a verdade de frente: ela nunca empurrou Crawford escada abaixo em "Baby Jane". E, levando-se em conta tudo que ela aprontou com a colega de cena no filme de Robert Aldrich, pode-se dizer que empurrá-la escada abaixo foi a ÚNICA coisa que ela não fez.

Assim como "Crepúsculo dos deuses", "O que terá acontecido a Baby Jane?" é uma espécie de réquiem às grandes estrelas do show business, um retrato cruel e assustador dos efeitos que a rejeição e a passagem do tempo podem causar em pessoas que tem na juventude sua qualidade principal. No entanto, enquanto a obra-prima de Billy Wilder utilizava elementos trágicos para ilustrar o caminho da outrora estrela Norma Desmond em direção à loucura, o diretor de "Baby Jane", Robert Aldrich, flerta com o humor negro e o suspense, proporcionando a Bette Davis e Joan Crawford os últimos papéis realmente marcantes de suas gloriosas carreiras.

"O que terá acontecido a Baby Jane?" começa em 1917, quando Baby Jane encanta milhares de fãs como criança-prodígio. Idolatrada e mimada, ela utiliza sua proeminência para ter frequentes ataques de estrelismo. A ação pula alguns anos, e, em 1935, a estrela é a irmã de Jane, Blanche, uma bem-sucedida atriz de cinema que, comprovando seu bom caráter, ajuda a carreira decadente da irmã, famosa por seu alcoolismo e seus escândalos. Um mal-explicado acidente de carro acontece e, 28 anos depois, o sucesso é passado para as duas. Paralítica desde o acidente, Blanche é cuidada por Jane, que, entregue ao desleixo e à bebida, a trata com crueldade e desprezo. Ao saber que Blanche deseja vender a casa onde moram, Jane resolve fazer um retorno aos palcos, utilizando seu mesmo número musical da infância. Para isso, ela contrata o músico fracassado Edwin Flagg (Victor Buono), ao mesmo tempo em que começa a ficar cada vez mais violenta contra a irmã.



"O que terá acontecido a Baby Jane?" é uma delícia de exageros. Poucas vezes o cinema proporcionou a seu público a chance de assistir a um embate tão venenoso e divertido quanto o apresentado por Davis e Crawford, que realmente se odiavam nos bastidores. Davis, por exemplo, exigiu em seu contrato a manutenção de uma máquina de Coca-cola: não que fosse exatamente fã da bebida, mas como forma de provocar sua co-estrela, que fazia parte da diretoria da Pepsi. Crawford, por sua vez, encheu os bolsos de pedras para uma cena em que seria arrastada por Bette. E se é fascinante observar os dois monstros sagrados digladiando-se em cena, por trás das câmeras a coisa ainda era pior. Quando Davis foi indicada ao Oscar por seu desempenho (formidável, aliás), Crawford (a mesma que espancava a filha adotiva com cabides, segundo a biografia "Mamãezinha querida", escrita pela menina) fez uma campanha aberta contra ela, a ponto de receber a estatueta no lugar de Anne Bancroft, a vencedora - que estava fazendo teatro e não pode estar na cerimônia. Testemunhas juram que, ao ouvir o nome de Bancroft, Joan tocou no ombro de Bette e disse: "Com licença, eu tenho um Oscar para receber!"

Deixando de lado os bastidores do filme de Aldrich - ainda que eles sejam tão interessantes quanto o próprio - e concentrando-se em suas qualidades, "Baby Jane" é um filme absolutamente calcado em suas estrelas, ambas em franca decadência quando o filme foi lançado (não porque mereciam mas sim pelo tradicional descaso de Hollywood para com suas divas). A trama, baseada em um romance de Henry Farrell, não apresenta maiores novidades e nem tampouco sugere uma revolução no gênero. Mas é inegável que algumas sequências são soberbas do ponto de vista de direção: todas as vezes em que Blanche tenta sair de seu cativeiro, por exemplo, são minutos do mais perfeito suspense que o cinema é capaz de criar. Mas é Bette Davis, sem sombra de dúvida, a dona da festa.

Em um magistral trabalho de composição (figurino, cabelo e maquiagem casam com perfeição com a criação da voz e da expressão corporal da atriz), Davis, em cena, é um pastiche de si mesma e de dezenas de figuras ilustres do show business que não conseguiram superar a mágoa e o trauma de ser abandonadas. É trágico, é cômico e é extremamente triste assistir à fantasia de Baby Jane em voltar ao estrelato, assim como perceber como ela parou no tempo e não notou que as outras pessoas continuaram suas vidas (exatamente como Norma Desmond em "Crepúsculo dos deuses"). A sequência final, então, é de cortar o coração. Apesar de suas maldades, Baby Jane não desperta raiva no público. No máximo, pena. E sentir pena de Bette Davis é uma honra inenarrável!

sábado

A MALVADA


A MALVADA (All about Eve, 1950, 20th Century Fox, 138min) Direção e roteiro: Joseph L. Manckiewicz. Fotografia: Milton Krasner. Montagem: Barbara McLean. Música: Alfred Newman. Figurino: Edith Head, Charles LeMaire. Produção: Darryl F. Zanuck. Elenco: Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm, Gary Merrill, Thelma Ritter, Hugh Marlowe, Marilyn Monroe. Estreia: 13/10/50

14 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Joseph L. Manckiewicz), Atriz (Bette Davis e Anne Baxter), Ator Coadjuvante (George Sanders), Atriz Coadjuvante (Celeste Holm e Thelma Ritter), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte, Som
Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Joseph L. Manciewicz), Ator Coadjuvante (George Sanders), Roteiro Original, Figurino, Som

Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro

É fácil entender porque Kim Carnes compôs "Bette Davis eyes", canção de sucesso dos anos 80. Basta assistir a uma única cena de "A malvada" - mesmo porque não querer assistir as demais é tarefa inglória - para compreender o fascínio que o olhar da atriz Bette Davis desperta em sua audiência. Um arquear de sobrancelhas de Davis fala mais do que páginas e páginas de diálogos e já seria argumento suficiente para justificar a influência que o cinema hollywoodiano tem sobre todo o planeta.

Bette Davis fez mais de 100 filmes em sua brilhante carreira, mas não há como negar que, se tivesse feito apenas "A malvada" já teria seu nome marcado de forma indelével no coração dos cinéfilos. Ela pode ter perdido o Oscar para Judy Holiday (o motivo é até hoje um mistério) mas sua Margo Channing é, sem sombra de dúvida, uma de suas mais fortes atuações.

Margo Channing (Bette Davis) é uma diva dos palcos da Broadway. Admirada pelo público e respeitada pela crítica, ela vive cercada por amigos fiéis, como Karen (Celeste Holm), esposa do dramaturgo Lloyd Richards (Hugh Marlowe), a camareira Birdie (Thelma Ritter) e seu noivo, o diretor Bill Simpson (Gary Merrill). Sua vida começa a mudar quando ela dá o emprego de assistente pessoal à jovem e dedicada Eve Harrington (Anne Baxter). Fã confessa da atriz, Eve começa a viver em função de Margo até que, aos poucos a estrela começa a perceber que suas intenções não são exatamente nobres – na verdade, Eve tem o objetivo de tomar o lugar de Margo nos palcos, no coração dos fãs e, pior ainda, na cama de Bill.

A primeira cena de "A malvada" é a entrega de um troféu de interpretação teatral para Eve. Seus fiéis "amigos" estão todos na cerimônia e o cínico crítico vivido por George Sanders (vencedor do Oscar de coadjuvante) começa a contar "tudo sobre Eve"... E esta primeira cena já deveria figurar em qualquer antologia. Em pouquíssimos minutos está estabelecida a história, as personagens e os conflitos. Em poucos momentos a atenção do público já está presa. E a partir daí é aproveitar cada cena, cada fala, cada gesto de Bette Davis e cada ironia e sarcasmo do roteiro.


Aliás, talvez a melhor qualidade de "A malvada" seja o seu frescor. Ao contrário de muitos filmes clássicos, em nenhum momento o roteiro de Joseph L. Manciewickz (considerado um déspota cruel por todos que trabalharam com ele) soa datado, ou empolado ou até mesmo anacrônico. É escrito com uma leveza, uma coloquialidade e uma inteligência ímpares, que o destaca entre seus congêneres. Aliás, não deixa de ser uma feliz coincidência o fato de que o melhor filme sobre os bastidores do cinema da história ("Crepúsculo dos deuses") tenha sido lançado no mesmo ano do melhor filme sobre os bastidores do teatro. No entanto, enquanto o filme de Billy Wilder conta de maneira melancólica a derrocada de um ícone do cinema mudo, a obra de Manciewickz narra a ascensão de um possível mito dos palcos. Enquanto Norma Desmond (a protagonista de "Crepúsculo...") perde a sanidade ao confrontar-se com sua decadência, Eve Harrington ganha fama e prestígio, mesmo sendo obrigada a abdicar de sua alma - algo que ela não parece se importar em perder. É um filme sobre teatro, mas poderia se passar em qualquer outro campo de trabalho que faria o mesmo sentido. Se alguém duvida desta afirmação basta lembrar a sinopse da novela "Celebridade", de Gilberto Braga, onde Cláudia Abreu fazia tudo a seu alcance para conquistar tudo que era da personagem de Malu Mader.

Apesar de Anne Baxter ser, de certa forma, a protagonista de "A malvada" - afinal é a partir dela que a história anda - , é a presença de Bette Davis que domina cada fotograma. Margo Channing não é exatamente uma flor de simpatia - tem momentos de arrogância explícita - mas não deixamos em nenhum momento de admirá-la e torcer para que consiga dar o troco na malévola Eve. Margo é uma mulher dona de si, ciente de seu talento e de seu carisma, mas que vê em Eve - depois de um certo tempo - a ameaça da juventude e da beleza. Margo é acima de tudo, uma mulher, que tem medo de perder tudo que conquistou - inclusive o amor de um homem e admiração dos fãs que até então ela considerava uma "raça inferior" - para alguém que tem a oferecer talvez menos do que ela - mas em uma edição mais fresca. De certa forma tem similaridades com a Norma Desmond criada por Gloria Swanson, mas tem, a seu favor, uma sanidade mental e uma capacidade de raciocínio invejáveis.

Assistir a "A malvada" é como assistir a um duelo de gigantes. Quem sai vitorioso, no entanto, é o público, que tem o privilégio de ver, rever e trever um dos maiores filmes sobre o mundo do teatro. E se existe mais uma razão para se assistir ela se chama Marilyn Monroe, em um papel pequeno que seria o início de sua carreira.

PS - "Tudo sobre minha mãe", a obra-prima do espanhol Pedro Almodovar, tem este título (Todo sobre mi madre) em homenagem a "A malvada". Em uma de suas primeiras cenas, mãe e filho estão assistindo ao filme de Manciewickz e no decorrer da trama a personagem de Cecilia Roth assume no palco o papel da atriz vivida por Marisa Paredes. Uma homenagem triunfante e merecida!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...