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quinta-feira

ENTRE FACAS E SEGREDOS

 


ENTRE FACAS E SEGREDOS (Knives out, 2019, Lionsgate, 130min) Direção e roteiro: Rian Johnson. Fotografia: Steve Yedlin. Montagem: Bob Ducsay. Música: Nathan Johnson. Figurino: Jenny Eagan. Direção de arte/cenários: David Crank/David Schlesinger. Produção executiva: Tom Karnowski. Produção: Ram Bergman, Rian Johnson. Elenco: Daniel Craig, Ana de Armas, Jamie Lee Curtis, Christopher Plummer, Toni Collette, Chris Evans, Don Johnson, LaKeith Stanfield, Katherine Langford, Riki Lindhome, Jaden Martell, Eddi Patterson, K Callan, Frank Oz, Noah Segan. Estreia: 07/9/2019 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

É impossível ser apresentando a Benoit Blanc sem que o personagem mais famoso de Agatha Christie venha à mente. Claramente calcado no belga Hercule Poirot - presença em 33 romances e 54 contos da escritora inglesa -, o detetive criado pelo diretor e roteirista Rian Johnson para seu "Entre facas e segredos" não envergonha sua maior fonte de inspiração: excêntrico, inteligente e sofisticado, Blanc também encontrou em Daniel Craig seu intérprete ideal e teve a suprema sorte de fazer sua primeira aparição nas telas em uma produção que consegue ser uma empolgante história de detetive, uma deliciosa comédia e um belo (ainda que descompromissado) estudo de personagens. Indicado a um merecido Oscar de roteiro original (que perdeu para o impecável "Parasita") e o pontapé inicial do que promete ser uma bem-sucedida série de filmes, "Entre facas e segredos" se beneficia ainda de um elenco impecável, que reúne nomes consagrados (Christopher Plummer, Jamie Lee Curtis), novatos promissores (Ana de Armas, Katherine Langford) e astros populares (Chris Evans, Toni Collette). Lançado no Festival de Toronto, em setembro de 2019, tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria do ano - com mais de 300 milhões de dólares arrecadados internacionalmente - e confirmou Johnson (de "Star Wars: os últimos Jedi") como um dos novos (e originais) talentos de Hollywood.

A trama criada por Johnson começa quando Harlan Thrombey (Christopher Plummer), famoso escritor de romances policiais, é encontrado morto no dia seguinte à festa em comemoração a seus 85 anos de idade. Apesar de todas as evidências levarem a crer que o escritor cometeu suicídio, o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) é misteriosamente contratado para fazer uma investigação mais aprofundada, para surpresa da disfuncional família da vítima - todos com sólidos motivos para ficarem satisfeitos com o desaparecimento do patriarca. Richard (Don Johnson), seu genro, acabara de ter um romance extraconjugal descoberto pelo sogro, que o obrigava a contar a verdade à esposa, Linda (Jamie Lee Curtis); Walt (Michael Shannon), seu filho caçula, fora demitido do cargo de responsável pela editora da família, que ocupava mesmo com conflitos de interesse com o pai; sua nora, Joni (Toni Collette), tivera desmascarado seu esquema de embolsar duas vezes o pagamento da universidade da filha adolescente; e seu neto, Ramson (Chris Evans) fora deserdado depois de um sério desentendimento. Enquanto conversa com os suspeitos e se aproxima da família, Blanc conta com a ajuda da amiga e cuidadora de Harlan, a brasileira Marta Cabrera (Ana de Armas) - que parece saber muito mais do que aparenta, mas teme por sua família de imigrantes.

 


Ao utilizar-se de vários elementos que fizeram a glória das histórias policiais clássicas - uma mansão que é parte integrante da narrativa, uma vítima de índole duvidosa, uma série de suspeitos pouco afeitos à verdade, pistas falsas, reviravoltas constantes e um detetive fascinante - "Entre facas e segredos" conquista a plateia sem muito esforço. Basta poucos minutos para que o público já esteja envolvido na trama e com sua própria versão da verdade definida - o que, logicamente, muda conforme a ação vai se desenvolvendo. A edição inteligente, que usa e abusa de flashbacks intrigantes e reveladores, é um destaque extra, ao enfatizar as várias camadas do belo roteiro. E se Daniel Craig tem a chance de um novo personagem a ser explorado em uma série de filmes - "Glass Onion" estreou em 2022 e outros capítulos devem vir com o tempo -, o elenco de coadjuvantes de peso não fica atrás. Antes de sua indicação ao Oscar pelo polêmico "Blonde" (2022), a cubana Ana de Armas apresenta um misto de carisma e inocência que justifica a atenção de Hollywood a seu nome; Jamie Lee Curtis mostra que a maturidade lhe fez muito bem; Toni Collette mais uma vez rouba a cena sempre que aparece; e Chris Evans surpreende ao explorar com sagacidade sua imagem de galã irônico e mordaz. Mérito da direção firme de Rian Johnson - com um belo timing cômico a serviço de uma boa história -, a química impecável do elenco mostra-se providencial para prender a atenção do espectador, e a direção de arte reflete visualmente as características exuberantes da trama e dos personagens, repletos de idiossincrasias e segredos.

Divertido e sagaz como os melhores livros de Agatha Christie, "Entre facas e segredos" é um presente aos fãs do gênero. Anos-luz à frente das modernas adaptações da obra da escritora dirigidos por Kenneth Branagh - que matam suas maiores qualidades em busca de um público mais afeito a redes sociais do que a telas de cinema -, o filme de Rian Johnson é a prova de que enredos espertos, diretores competentes e atores talentosos são muito mais importantes do que pretensas rupturas narrativas e visuais. Tradicional e clássico na estrutura e no desenvolvimento - mas com a agilidade do bom cinema  norte-americano comercial -, é capaz de conquistar, sem contraindicações, qualquer tipo de público que goste de ser seduzido por uma boa trama de mistério e bom-humor.

sexta-feira

AO ENTARDECER

 


AO ENTARDECER (Evening, 2007, Hart Sharp Entertainment/Twins Financing/MBF Erste Filmproduktiongesellschaft, 117min) Direção: Lajos Koltai. Roteiro: Michael Cunningham, Susan Minot, romance de Susan Minot. Fotografia: Gyula Pados. Montagem: Allyson C. Johnson. Música: Jan A. P. Kaczmarek. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Caroline Hanania/Catherine Davis. Produção executiva: Michael Cunningham, Jill Footlick, Michael Hogan, Robert Kessel, Susan Minot. Produção: Jeffrey Sharp. Elenco: Claire Danes, Patrick Wilson, Hugh Dancy, Vanessa Redgrave, Toni Collette, Natasha Richardson, Meryl Streep, Mamie Gummer, Eileen Atkins, Glenn Close, Barry Bostwick. Estreia: 09/6/2007 (Newport International Film Festival)

Autor dos livros que deram origem ao premiado "As horas" (2002) - vencedor do Oscar de melhor atriz e indicado a outras sete estatuetas - e ao pouco conhecido "Uma casa no fim do mundo" (2004), estrelado por Colin Farrell e Robin Wright -, o norte-americano Michael Cunningham tem predileção por personagens torturados por lembranças do passado e escolhas erradas. Por isso não é surpresa ver seu nome como um dos roteiristas de "Ao entardecer", baseado no romance de Susan Minot: o drama dirigido pelo húngaro Lajos Koltai tem muito da personalidade do escritor e de sua sensibilidade quase feminina, e sua história de amor, renúncia e arrependimentos é o material ideal para emocionar ao público fiel do gênero. Nem sempre a mistura funciona, no entanto, e por mais que sua lista de créditos seja invejável, o filme, lançado sem muito alarde no verão norte-americano de 2007, não chega a ser um marco na carreira de seus envolvidos.

Narrado em dois tempos cronológicos que se intercalam e completam, "Ao entardecer" tem como protagonista Ann Grant, uma mulher que, à beira da morte (e na pele da excelente Vanessa Redgrave), se deixa mergulhar em lembranças de um passado tão romântico quanto dolorido. Suas reminiscências remetem direto a um fim-de-semana em particular, quando (vivida por Claire Danes), compareceu ao casamento da melhor amiga, Lila Wittenborn (Mamie Gummer) em sua mansão litorânea de Newport. Acompanhada do melhor amigo Buddy (Hugh Dancy) - irmão da noiva -, a aspirante a cantora não resiste à beleza natural do local e à atmosfera romântica do evento e acaba por se apaixonar por Harris Arden (Patrick Wilson), um amigo não aristocrático da família. O problema é que não apenas Lila ainda tem fortes sentimentos pelo rapaz - com quem teve um rápido envolvimento no passado -, mas também o inconstante e quase irresponsável Buddy parece nutrir algo mais do que simples amizade por ele. Quando uma tragédia mancha irremediavelmente a festa, cabe a Ann decidir os rumos de sua vida adiante - uma decisão que irá atormentá-la pelo resto de seus dias.

 

Apesar de não apresentar a profundidade que se poderia esperar de uma trama tão repleta de melancolia e culpa, "Ao entardecer" se beneficia - e muito - de um poderoso elenco feminino que se dá ao luxo de ter, em curtas participações especiais, as espetaculares Meryl Streep e Glenn Close. A primeira dá vida à madura Lila, quando, em visita à sua melhor amiga, rememora a dor dos dias trágicos que praticamente as afastaram. Close, por sua vez, surge em cena como a excêntrica mãe de Lila e Buddy - com direito a pelo menos uma cena digna de seus melhores trabalhos. Dividindo o papel de Ann em diferentes fases da vida, Claire Danes e Vanessa Redgrave compartilham, também, a força da sutileza, optando sempre pelo mínimo para transmitir a variada gama de sentimentos de sua personagem. Na pele das filhas adultas de Ann - duas mulheres com visões distintas da vida e que se vêem diante da iminência da morte -, as ótimas Toni Collette e Natasha Richardson (filha de Vanessa Redgrave também na vida real) encontram o tom exato entre a angústia da perda  e a surpresa em descobrir uma história escondida na vida da mãe aparentemente feliz. Ao elenco masculino resta pontuar com correção o brilho das mulheres: Patrick Wilson é o galã ideal, másculo e romântico, e Hugh Dancy (que se apaixonou por Claire Danes durante as filmagens, e foi correspondido) se destaca como o vibrante e pouco ortodoxo Buddy. Premiado diretor de fotografia indicado ao Oscar por "Malena" (2000), Lajos Koltai sai-se relativamente bem no comando de seus atores e brilha na composição visual das cenas - algumas delas dotadas de uma poesia tocante  -, mas nem sempre consegue manter o ritmo de sua narrativa, o que acaba por comprometer o resultado final e amenizar seu impacto emocional. A carreira musical de Ann, por exemplo, é apenas citada em alguns diálogos - apenas no casamento de Lila ela solta a voz, mas sua paixão por Harris muitas vezes soa maior do que pela música, e até mesmo sua história de amor não alcança profundidade o suficiente para que o espectador se importe com ela. Claire Danes é uma atriz fantástica, mas sua química com Patrick Wilson é apenas morna, o que enfraquece o ponto principal de todo o filme.

Pouco lembrado dentro da filmografia de seus atores - todos eles com um vasto e relevante currículo -, "Ao entardecer" é um belo filme, tanto em termos visuais quanto dramáticos, mas carece da força que os grandes possuem. A história pouco memorável é valorizada pelo ótimo elenco, mas por vezes soa como um dèja-vu, misturando elementos de várias outros romances sem grandes critérios. O roteiro - coescrito por Michael Cunningham e pela autora do livro que lhe deu origem, Susan Minot - não apresenta maiores novidades e é quase previsível, com um final tão sutil que priva o espectador da catarse que se espera de uma produção do gênero. Apesar dos pesares, no entanto, tem tudo para comover aos mais sensíveis - e nunca é perda de tempo assistir gente como Claire, Vanessa, Meryl, Toni e Glenn Close.

segunda-feira

O PRIMEIRO AMOR DE UM HOMEM

 


O PRIMEIRO AMOR DE UM HOMEM (The pallbearer, 1996, Miramax, 98min) Direção: Matt Reeves. Roteiro: Matt Reeves, Jason Katims. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Stan Salfas. Música: Stewart Copeland. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Robin Standefer/Kate Yatsko. Produção executiva: Meryl Poster, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Jeffrey Abrams, Paul Webster. Elenco: David Schwimmer, Gwyneth Paltrow, Barbara Hershey, Toni Collette, Michael Rapaport, Carol Kane, Michael Vartan. Estreia: 03/5/96

O título nacional "O primeiro amor de um homem" não força à toa uma similaridade com "A primeira noite de um homem", que deu o Oscar de melhor diretor a Mike Nichols: assim como no clássico de 1967, o protagonista é um jovem adulto perdido em suas ambições profissionais e sentimentais, e que fica dividido entre o amor de duas mulheres de gerações diferentes. Porém, apesar da semelhança temática, há uma grande desvantagem em relação ao drama romântico lançado em 1996: o cineasta Matt Reeves não é Nichols, e tampouco David Schwimmer - seu protagonista - tem o carisma de Dustin Hoffman. Dito isso, até dá para arriscar uma sessão descompromissada, já que o resultado final é bastante simpático, ainda que pouco memorável. E de quebra, pode-se ter contato com o começo das carreiras de dois atores que, logo em seguida, se tornariam internacionalmente famosos e celebrados.

O filme começa quando o jovem Tom Thompson (David Schwimmer) recebe o telefonema de uma mulher chamada Ruth Abernathy (Barbara Hershey), que, em luto, lhe comunica a morte do filho que, segundo ela, foi seu melhor e mais querido amigo na escola. O problema é que Tom não consegue lembrar quem é o rapaz e se deixa levar pela situação, com medo de magoar uma mãe desesperada. O encontro dos dois acaba evoluindo para uma relação um tanto incômoda, mas, passivo, Tom não vê modos de encerrá-la. A situação muda de figura, no entanto, com a chegada de Julie DeMarco (Gwyneth Paltrow), que retorna à cidade depois do fim de um relacionamento conturbado. Apaixonado por Julie desde sempre, Tom se surpreende quando as coisas começam a andar entre eles - mas para ficar de vez com aquela a quem considera o amor de sua vida, precisa resolver a questão pendente com Ruth, cada vez mais carente. Nesse meio-tempo, os dois melhores amigos de Tom passam por outros momentos cruciais de suas vidas: Scott (Michael Vartan) está em crise no casamento com Cynthia (Toni Collette), e Brad (Michael Rapaport) finaliza os preparativos para a união com a dominadora Lauren (B Bitty Schram).

David Schwimmer - ainda nas primeiras temporadas do fenômeno "Friends" - já demonstra, em alguns momentos, os trejeitos que tanto funcionava em seu Ross Geller: o olhar triste e o talento para o humor físico. Por sua vez, Gwyneth Paltrow - que ganharia um dos Oscar mais discutíveis da história três anos mais tarde - pouco tem a fazer a não ser desfilar sua figura elegante pela cela e tentar transmitir os sentimentos de uma personagem insossa e inexplicavelmente alvo de uma paixão avassaladora. São os dois, bastante jovens, que sustentam uma trama que dá voltas e mais voltas até chegar a um final anticlimático, que apenas valoriza o talento da sempre ótima Barbara Hershey. O elenco coadjuvante - que conta com uma subaproveitada Toni Collette e a divertida Carol Kane - muitas vezes se sobressai diante da apatia dos dois protagonistas e da aparente falta de energia da direção de Reeves, que anos depois encontraria um caminho mais bem-sucedido ao comandar filmes de ação, como "Planeta dos Macacos: Origem" (2014) e "The Batman" (2022). O roteiro, coescrito pelo cineasta, até tenta levantar questões sobre a juventude americana do final do século XX (e sua falta de norte em relação ao futuro), mas assim como acontece com o romance central, não há liga, e tudo parece meio fora de lugar. Ao buscar o equilíbrio entre drama, humor e romance, Reeves tropeça na própria ambição e entrega menos do que suas pretensões.

Mas não se pode dizer, afinal de contas, que "O primeiro amor de um homem" é um filme ruim. É irregular, não atinge todas as notas a que se propõe e está longe de ser memorável, mas de certa forma apresenta uma honestidade e uma delicadeza ao lidar com seus personagens e seus dilemas que deixa seus pecados mais facilmente perdoáveis. David Schwimmer nitidamente tenta dar o melhor de si - e seu esforço acaba recompensado em algumas cenas bastante tocantes (em especial quando divide o momento com Hershey). Se não chega aos pés do inesquecível drama de Mike Nichols também não chega a ser vexaminoso ou dispensável. Pode-se até ser classificado como um agradável (se não profundo) estudo sobre as relações humanas da tão falada Geração X. Vale uma sessão da tarde, desde que sem maiores expectativas.

À PROCURA DO AMOR

 


À PROCURA DO AMOR (Enough said, 2013, Fox Searchlights Pictures, 93min) Direção e roteiro: Nicole Holofcener. Fotografia: Xavier Grobet. Montagem: Robert Frazen. Música: Marcelo Zavros. Figurino: Leah Katznelson. Direção de arte/cenários: Keith Cunningham/Douglas Mowat. Produção executiva: Chrisann Verges. Produção: Stefanie Azpiazu, Anthony Bregman. Elenco: Julia Louis-Dreyfus, James Gandolfini, Catherine Keener, Toni Collette, Ben Falcone, Tracey Fairaway, Tavi Gevinson. Estreia: 07/9/2013 (Festival de Toronto)

No dia 17 de junho de 2013, os fãs de cinema em geral - e da série "Família Soprano" em particular - foram surpreendidos com a notícia da morte precoce, aos 51 anos, do ator James Gandolfini, vítima de um infarto fulminante durante uma viagem à Roma. Sua partida inesperada, além de deixar o público órfão de um ator de grande carisma, o impediu de colher os louros por seus dois últimos trabalhos. "A entrega" - cujas filmagens acabaram um mês antes de sua morte - só estreou em setembro de 2014 no Festival de Toronto, mas um ano antes, no mesmo festival, as plateias tiveram a oportunidade de conhecer um lado menos sombrio e violento do célebre intérprete de Tony Soprano: lançado pela Fox Searchlight Pictures, "À procura do amor" apresentava um Gandolfini doce e capaz de fazer suspirar as mulheres mais românticas. Sim, a produção escrita e dirigida por Nicole Holofcener era uma comédia romântica. Adulta, um tanto mais realista e com personagens mais verossímeis, mas ainda assim uma comédia romântica, com todos os elementos clássicos do gênero. E, para alegria de todos, uma produção deliciosa, daquelas de deixar qualquer um com um sorriso no rosto.

Eva (Julia Louis-Dreyfus) trabalha como massagista a domicílio e está em crise com a iminente viagem de sua filha adolescente, Ellen (Tracey Fairaway), para a faculdade. Separada e pouco otimista em relação a possíveis relacionamentos, ela se vê surpreendida com a inesperada atração que passa a sentir por Albert (James Gandolfini), um homem que, a princípio, não tem nada a ver com o que ela procura em homens. De meia-idade, acima do peso, igualmente separado e prestes a ver a filha sair de casa, Albert acaba a conquistando pelo humor, pela gentileza e pela química que surge entre eles. O romance nascente e promissor, no entanto, sofre um baque quando Eva descobre que seu novo príncipe encantado é o ex-marido de Marianne (Catherine Keener), uma nova cliente, que divide com ela fatos poucos lisonjeiros a seu respeito (sem imaginar do incipiente namoro entre os dois). Influenciada pelas conversas com Marianne - uma poetisa a quem tem em alta conta -, Eva começa a questionar seus sentimentos e as percepções sobre Albert, que nem de longe sonha que a relação está ameaçada por uma visão unilateral (e um tanto injusta de sua pessoa).

Autora de filmes cujo foco são personagens críveis e humanos, como "Amigas com dinheiro" (2006) e "Sentimento de culpa" (2010), Nicole Holofcener faz um gol de placa com "À procura do amor": sem buscar catarses exageradas e fugindo da artificialidade comum a comédias românticas, faz de seu filme uma pérola dirigida a uma fatia do público frequentemente alijada dos maiores sucessos do gênero. Sua escolha por dois atores atípicos como protagonistas - ao lado de sua constante colaboradora, Catherine Keener - é, paradoxalmente, seu maior acerto. Julia Louis-Dreyfus é uma força da natureza, uma atriz que consegue ir do humor ao drama sem maior esforço, dotando sua Eva de nuances e idiossincrasias que a aproximam do espectador até mesmo quando comete erros bobos e desnecessários. Gandolfini, por sua vez, deixa antever uma faceta solar e agradável, raramente percebida em suas atuações anteriores (com a possível exceção do pouco lembrado "A mexicana") e acabou por merecer aplausos unânimes por sua sutileza em dar vida a um personagem a anos-luz de sua mais famosa criação. A química entre os dois é precisa e conduz a trama com um ritmo próprio, que é costurado sem pressa e à base de diálogos inteligentes e perspicazes - além de um elenco coadjuvante onde brilha também a sempre ótima Toni Collette.

Ao driblar os clichês que deixam quase todas as comédias românticas com o mesmo tom de artificialidade, Holofcener imprime a "À procura do amor" uma organicidade rara - mérito de seu roteiro que flui com extrema felicidade tanto em momentos mais leves quanto naqueles que exigem do elenco uma carga maior de dramaticidade (ainda que jamais em exagero). Uma cineasta que encoraja o improviso em seus trabalhos, Nicole extrai de Gandolfini e Louis-Dreyfus desempenhos que soam absolutamente reais - e, por consequência, bem distantes de suas personas até então mais conhecidas. Calorosos, humanos e falíveis, Eva e Albert são o mais próximo que personagens de cinema podem chegar de seu público - e isso se deve primordialmente graças a seus intérpretes, em estado de graça da primeira à última cena. "À procura do amor" é ouro.

quinta-feira

JÁ ESTOU COM SAUDADES


 JÁ ESTOU COM SAUDADES (Miss you already, 2015, 5 Films/New Sparta Films/The Salt Company International, 112min) Direção: Catherine Hardwicke. Roteiro: Morwenna Banks. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Phillip J. Bartell. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Claire Finlay. Direção de arte/cenários: Amanda McArthur/Celia de La Hey. Produção executiva: Morwenna Banks, Jerome Booth, Sheryl Crown, Catherine Hardwicke, Nicki Hattingh, Jamie Holt, Samantha Horley, Lisa Lambert, Cyril Megret, James Norne, Celina Rattray, Anne Sheehan, Barnaby Southcombe, Trudie Styler, Paul Andrew Williams. Produção: Christopher Simon. Elenco: Toni Collette, Drew Barrymore, Dominic Cooper, Paddy Considine, Jacqueline Bisset. Estreia: 12/9/15 (Festival de Toronto)
 

Filmes a respeito da amizade entre mulheres já constituem, de certa maneira, quase um novo gênero cinematográfico - principalmente quando a relação descamba para a tragédia como forma de incrementar o roteiro. É dessa safra que saíram "Amigas para sempre" (1988) - estrelado por Bette Midler e Barbara Hershey -, o sensível "Tomates verdes fritos" (1991) - que contava não apenas uma, mas duas histórias de cumplicidade entre mulheres -, o já clássico "Thelma & Louise" (1991), que rendeu indicações ao Oscar para Susan Sarandon e Geena Davis - e o moderno "Somente elas" (1995), que estendeu sua sororidade à trilha sonora composta apenas por intérpretes femininas e colocou na estrada uma cantora lésbica (Whoopi Goldberg), uma silenciosa soropositiva (Mary-Louise Parker) e uma maluquete grávida do namorado violento (Drew Barrymore). Barrymore, aliás, é uma das duas estrelas de mais uma produção semelhante: pouco visto e pouco comentado, "Já estou com saudades" pouco acrescenta à lista de filmes afins, mas é simpático o bastante para sustentar uma sessão descompromissada - e muito disso se deve às presenças de suas atrizes centrais, Toni Collette e a mesma Drew Barrymore de "Somente elas". Talentosas e carismáticas, elas carregam o filme nas costas e conseguem até mesmo deixar suportáveis toda a previsibilidade do roteiro.

Barrymore, aliás, só acabou no elenco do filme depois de duas desistências. Primeiro foi Jennifer Aniston quem pulou fora, devido ao adiamento das filmagens; depois, foi a vez de Rachel Weisz abandonar o projeto e abrir vaga para a ex-atriz mirim. Talvez tenha sido para o bem: com sua personalidade vibrante, Barrymore é o contraponto perfeito para o talento à flor da pele de Collette, e o encontro de duas energias tão díspares é que faz com que a trama funcione, deixando pouco espaço para os coadjuvantes - um time que inclui até mesmo a veterana (e ainda belíssima) Jacqueline Bisset. Com ares de adaptação de romances água-com-açúcar, "Já estou com saudades" é, surpreendentemente, um roteiro original (ou quase isso: é a adaptação de uma peça radiofônica escrita pela mesma Morwenna Banks, autora de roteiros para séries de televisão britânicas), e acompanha a trajetória de duas amigas de infância que tem suas vidas transformadas por situações que fogem de seu controle - e põe a relação em xeque. Como era de se esperar, o roteiro não se aprofunda em questões psicológicas e tampouco vai além do já visto em outras produções afins. Mas há como resistir a suas protagonistas e a uma trilha sonora que dá destaque à atemporal "Losing my religion", do R.E.M.? 

Milly (Toni Collette) tem uma vida de sonhos, com um emprego que a satisfaz e uma rotina doméstica das mais felizes, que inclui o marido, Kit (Dominic Cooper), e dois filhos adoráveis. Jess (Drew Barrymore) já é menos completa - apesar do carinho do namorado, Jago (Paddy Considine), seu trabalho não é dos melhores, vive em um trailer desconfortável e sofre com as tentativas sem sucesso de engravidar. As duas são amigas íntimas desde que eram crianças, e apesar de suas diferenças (ou talvez por causa delas) se completam e não conseguem ficar separadas por muito tempo. A relativa paz da relação é abalada quando ambas se descobrem diante de situações catalisadoras: Jess finalmente fica grávida, e Milly é diagnosticada com câncer - o que altera substancialmente sua personalidade e a põe em rota de colisão com a amiga e o próprio marido. Para ajudar Milly em sua recuperação, Jess deixa sua vida de lado - mas será que a ligação entre as duas sobreviverá a uma prova tão dura?

A diretora Catherine Hardwick tem em seu currículo o excelente "Aos treze" (2003), que marcou a estreia de Evan Rachel Wood no cinema, mas é mais lembrada pelo tenebroso "Crepúsculo" (2008), o primeiro capítulo de uma das sagas mais constrangedoras do cinema americano das últimas décadas. Para sorte dos espectadores, "Já estou com saudades", apesar de não ser exatamente criativo e seguir à risca uma série de clichês, está menos para o romance vampiresco adolescente e mais para o drama familiar que deu à Holly Hunter uma indicação ao Oscar de coadjuvante. A cineasta acerta em deixar que suas atrizes comandem o show, mas peca ao não evitar o melodrama sentimental que domina a segunda metade do filme. Ainda bem que, apesar de suas personagens não sejam complexas como deveriam, Toni Collette e Drew Barrymore sustentam a produção sem muito esforço - e podem levar o público mais sensível às lágrimas. Não é um filme inesquecível, nem um ponto alto da carreira de ninguém envolvido, mas consegue cativar pelas quase duas horas de sessão. Tem tudo para virar um frequentador habitual das sessões da tarde na televisão aberta - e isso é bem mais do que muitos congêneres conseguem.

sábado

GLASSLAND

GLASSLAND (Glassland, 2014, Blank Page Productions/Element Pictures/Irish Film Board, 93min) Direção e roteiro: Gerard Barrett. Fotografia: Piers McGrail. Montagem: Nathan Nugent. Figurino: Leonie Pendergast. Direção de arte/cenários: Stephanie Clerkin/Patricia Douglas. Produção executiva: Gerard Barrett, Andrew Lowe. Produção: Juliette Bonass, Ed Guiney. Elenco: Toni Collette, Jack Reynor, Will Poulter. Estreia: 23/01/15 (Festival de Sundance)

Desde que chamou a atenção da crítica e do público pela primeira vez, protagonizando a comédia dramática australiana "O casamento de Muriel" (95), a atriz Toni Collette passou a dividir a carreira entre sucessos comerciais indiscutíveis ("O sexto sentido"), filmes de prestígio ("As horas") e produções independentes muitas vezes restritas a ratos de cinemateca e/ou frequentadores de festivais alternativos. "Glassland" faz parte desse último grupo: escrito e dirigido pelo jovem (30 anos) Gerard Barrett, o filme que estreou no Festival de Sundance de 2015 saiu da mostra com o prêmio de melhor ator para Jack Reynor e arrancou elogios por sua sensibilidade ao tratar de assuntos pesados, como alcoolismo, tráfico humano e depressão. Mesmo sem um lançamento em escala o suficiente para chamar a atenção de plateias maiores, a história de amor e união entre mãe e filho é capaz de emocionar àqueles que buscam uma produção menos ambiciosa e mais intimista.

Assim como normalmente acontece com produções que fogem do padrão comercial hollywoodiano, "Glassland" não se obriga a entregar tudo facilmente a seu público: é somente aos poucos que o espectador vai desvendando o dia-a-dia de John (Jack Reynor), um jovem motorista de táxi que complemente a renda servindo também como chofer de um cafetão de luxo. Sua rotina é massacrante: além de trabalhar incansavelmente, ele precisa lidar com as crises de alcoolismo e depressão de sua mãe, Jean (Toni Collette), e fazer visitas frequentes a seu irmão, portador de Síndrome de Down e rejeitado por Jean. Sua única diversão é jogar conversa fora com seu melhor amigo, Shane (Will Poulter) - um rapaz que sofre com a separação do filho que teve com uma ex-namorada. Sozinho e desamparado, John tenta não descontar todas as suas frustrações quando precisa voltar para casa, mas quando descobre que sua mãe está seriamente doente e é imprescindível que abandone o vício para sobreviver, ele não tem alternativa senão lutar contra ela mesma - e encontrar uma maneira de arrumar dinheiro para um tratamento caro.


Com um ritmo bastante lento, que usa e abusa de elipses e silêncios desesperados, "Glassland" não é um filme para qualquer público - e isso é um elogio. O roteiro de Barrett vai envolvendo o espectador gradualmente, com uma trilha sonora delicada e momentos de partir o coração - principalmente graças à atuação surpreendente de Jack Reynor. Conhecido das plateias mais por conta de seu trabalho em "Transformers: a era da extinção" (2014) do que por atuar ao lado de Michael Fassbender e Marion Cottilard em "Macbeth: ambição e guerra" (2015), o jovem ator se entrega com extrema dedicação a um personagem difícil, de poucas palavras e muita emoção, que explode nos momentos certos e se retrai em tantos outros. Sua química com Toni Collette é a alma do filme - uma certeza que fica ainda mais óbvia na tocante cena em que dançam tristemente na clínica onde ela está internada - e as sequências que divide com Will Poulter mostram um lado diferente de seu personagem, alguém que esconde, sob a superfície plácida, um turbilhão de sentimentos dolorosos. É um papel complexo, do qual Reynor se desincumbe com notável segurança - é provável que um futuro auspicioso lhe venha pela frente.

Sem maiores arroubos de criatividade, "Glassland" soa como um pesadelo familiar: quase monocórdio, angustiante e triste, mas ao mesmo tempo dono de um calor humano contagiante. Toni Collette (que rodou suas cenas em apenas SEIS dias!) está mais uma vez perfeita, encontrando o tom ideal de uma personagem que poderia facilmente cair em clichês ou tornar-se desagradável, e a maneira com que o irlandês Barrett encerra seu filme (com um final em aberto disposto a várias possibilidades de final feliz) faz dele um nome a ser observado de perto - seu filme seguinte, "Brain on fire", produzido por Charlize Theron e estrelado por Chloe Grace Moretz, estreou em 2016 na Netflix e mostrou uma versatilidade muito bem-vinda a Hollywood, sempre carente de talento e sensibilidade.

sexta-feira

FORA DE CONTROLE

FORA DE CONTROLE (Changing lanes, 2002, Paramount Pictures, 98min) Direção: Roger Michell. Roteiro: Chap Taylor, Michael Tolkin, estória de Chap Taylor. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: David Arnold. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Debra Schutt. Produção executiva: Ron Bozman, Adam Schroeder. Produção: Scott Rudin. Elenco: Samuel L. Jackson, Ben Affleck, Toni Collette, Sydney Pollack, Richard Jenkins, William Hurt, Amanda Peet, Dylan Baker. Estreia: 07/4/02

Doyle Gipson precisa chegar ao tribunal para provar ao juiz que acaba de dar entrada em uma casa onde seus filhos pequenos poderão morar com a mãe - o que evitaria que fossem de mudança com ela para longe de Nova York. Gavin Banek é um jovem e bem-sucedido advogado que também tem um compromisso importante, que fará com que sua firma (cujo principal sócio é seu sogro) assuma a administração de um fundo milionário de um cliente já morto. No meio do caminho, os dois carros batem um no outro e, na pressa, Banek deixa Gipson para trás, sem dar-lhe tempo de resolver seu grande problema - e, consequentemente, salvar-se da separação dos filhos. Porém, o destino não brinca em serviço: assim que chega no tribunal, Banek descobre que um importantíssimo documento (crucial para sua vitória) ficou nas mãos de Gipson - que, por sua vez, não tem a menor intenção de devolvê-lo antes que seu prejuízo seja sanado. Essa guerra de nervos, que retrata o tênue limite entre a civilidade e a barbárie, é o tema de "Fora de controle", dirigido por Roger Michell como seu projeto seguinte ao grande sucesso da comédia romântica "Um lugar chamado Notting Hill" (1999). Ao contrário do solar e delicado filme estrelado por Julia Roberts e Hugh Grant, porém, "Fora de controle" mostra um lado amargo, pessimista e cínico da humanidade - daí, talvez, o motivo de seu fracasso comercial nos EUA mesmo com o elenco liderado por Ben Affleck e Samuel L. Jackson. Mesmo conseguindo cobrir seu custo estimado de 45 milhões de dólares, o filme nem chegou à marca dos 70 milhões no mercado doméstico - o que também pode ser creditado ao marketing equivocado, que vendia um thriller dramático como um suspense de ação.

O trailer de "Fora de controle" realmente prometia à plateia uma trama eletrizante, com cenas repletas de tensão - e a presença de Ben Affleck, então um ator em ascensão e vindo direto de "Pearl Harbor" apenas aumentava essa impressão. O que Michell apresenta, no entanto, é um filme de ritmo bem mais lento do que o esperado, com uma pegada bem menos dinâmica e violenta do que se poderia supor. Não é um defeito - a narrativa é fluida e evita com inteligência o óbvio - mas de forma alguma se conecta com aqueles que procuram uma produção calcada em perseguições de carro, tiroteios ou a velha e boa troca de socos. A intenção do diretor (apoiado em um roteiro repleto de diálogos a respeito de ética, civilidade e tentativas de manter a esperança em um mundo com armadilhas à espreita em cada esquina) é fazer pensar, mais do que injetar adrenalina no espectador. Poderia ter dado mais certo se um dos protagonistas não fosse interpretado por Ben Affleck, notadamente um dos atores mais inexpressivos de sua geração - o que fica ainda mais evidente diante do show de seu parceiro de cena, o sempre espetacular Samuel L. Jackson.


Descoberto pelo público com sua atuação hipnotizante em "Pulp fiction: tempo de violência" (94), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante, Jackson teve, a partir de então, um novo recomeço de carreira - iniciada no começo dos anos 70 e finalmente reconhecida na década de 90, graças ao cineasta Spike Lee, que lhe deu o papel de um viciado em drogas no filme "Febre da selva" (91), responsável por um prêmio de coadjuvante no Festival de Cannes (uma categoria, aliás, criada exclusivamente naquela edição do Festival e nunca mais repetida). Parceiro constante também de Quentin Tarantino - seu trabalho em "Jackie Brown" (98) resultou em um prêmio no Festival de Berlim - e dono de um típico físico marcante, o ator empresta ao desiludido mas ainda esperançoso Doyle Gipson nuances que vão se avolumando com o desenrolar da narrativa: é um homem comum que se vê sem alternativa quando vê, diante de si, a possibilidade de perder tudo que lhe é mais caro. Jackson passeia com maestria entre diferentes estados de espírito - a esperança, a raiva, o desespero, a ternura, a angústia - e leva o público junto com ele por todo o caminho. O mesmo não acontece com Affleck - que ainda tem o azar de ter ficado com um personagem bem menos gostável.

Quando fez "Fora de controle", Affleck já era um nome conhecido dos cinéfilos, graças a filmes como "Gênio indomável" (que lhe deu o Oscar de roteiro original, dividido com o amigo Matt Damon), "Armageddon" (98), "Forças do destino" (99) e "Pearl Harbor" (2001), superprodução de Michael Bay que, ao invés de tornar-se um novo "Titanic", decepcionou crítica e público. Frequentado capas de revistas mais por seus casos amorosos - com as atrizes Gwyneth Paltrow e Jennifer Lopez - do que exatamente por seus dotes artísticos, Affleck é um ator que funciona razoavelmente quando bem dirigido, mas que, sob um comando menos rígido, demonstra toda a fragilidade de seu talento como ator. Roger Michell enquadra-se na segunda categoria, o que acaba por minar a potência de sua trama: quando os dois protagonistas estão juntos em cena, a fúria e o desespero de Jackson é palpável, mas tudo que vem de Affleck soa artificial e forçado. Não ajuda nem mesmo colocar como coadjuvantes atores excelentes como William Hurt, Richard Jenkins e Toni Collette (subaproveitada como uma colega de trabalho e ex-amante de Gavin): servindo apenas como peões em uma trama centrada basicamente no duelo entre os dois personagens centrais, eles não conseguem disfarçar o fato óbvio de que, com um ator com mais recursos para fazer frente à Samuel L. Jackson, nem mesmo o equívoco na hora de vender "Fora de controle" ao público seria um pecado tão mortal. Do jeito que está, o filme de Michell é um bom entretenimento, com qualidade dramática e uma história que faz pensar nos rumos de uma sociedade cada vez mais intolerante e sem empatia - mas é pouco diante do grande filme que poderia ter sido.

quarta-feira

UMA LONGA QUEDA

UMA LONGA QUEDA (A long way down, 2014, Wildgaze Films/BBC Films, 96min) Direção: Pascal Chaumeil. Roteiro: Jack Thorne, romance de Nick Hornby. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Chril Gill, Barney Pilling. Música: Dario Marianelli. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Chris Oddy/Kate Guyan. Produção executiva: Christoph Daniel, Nick Hornby, Zygi Kamasa, Marc Schimdheiny, Thorsten Schumacher, Dario Suter. Produção: Finola Dwyer, Amanda Posey. Elenco: Pierce Brosnan, Toni Collette, Imogene Poots, Aaron Paul, Sam Neil, Rosamund Pike. Estreia: 10/02/14 (Festival de Berlim)

No começo dos anos 2000 não havia autor mais em voga dentro de Hollywood do que o inglês Nick Hornby. Com seu talento incomum para contar histórias simples protagonizadas por pessoas de carne e osso e recheadas de referências à cultura pop, ele viu dois de seus livros serem adaptados com enorme sucesso para as telas: "Alta fidelidade", estrelado por John Cusack chegou aos cinemas em 1999, e "Um grande garoto", com Hugh Grant em uma de suas melhores atuações, foi lançado em 2002 e chegou a concorrer ao Oscar de roteiro. Depois disso, ele viu seu "Febre de bola" ser transfigurado em uma adaptação pouco feliz em um filme quase ignorado pelo público e inverteu o caminho que costumava trilhar, passando de autor de romances transportados para a tela a roteirista de livros alheios - o que lhe rendeu indicações ao Oscar por "Educação" (2009) e "Brooklyn", que concorre à estatueta em 2016. Isso não significa, no entanto, que os produtores tenham esquecido sua obra. Um exemplo disso é "Uma longa queda", que mesmo sem ter a mesma qualidade quase impecável dos filmes estrelados por Cusack e Grant, ainda consegue ser um passatempo agradável e dono de um humor irônico e agradável - apesar de ter como tema central um assunto pouco palatável à grande audiência: o suicídio.

Tudo começa em uma noite de Ano-novo, quando Martin (Pierce Brosnan), um famoso apresentador de talk show chega ao topo de um prédio de Londres disposto a acabar com a própria vida, depois de um escândalo de sedução de uma menor que acabou com sua carreira. Antes mesmo de criar coragem para chegar às vias de fato, ele percebe a chegada de Maureen (Toni Colette), a mãe solteira de um rapaz doente, que também tem a intenção de acabar com seus problemas se atirando de cima do edifício. A eles juntam-se, logo em seguida, a rebelde Jess (Imogen Poots), filha de um influente político e que acaba de ser abandonada pelo namorado, e JJ (Aaron Paul, da série "Breaking bad"), um entregador de pizza que revela sofrer de câncer cerebral. Frustrados em seus planos, os quatro acabam por fazer um pacto que consiste em ajudar-se mutuamente e tentar resolver seus problemas. Antes do novo encontro, marcado para o Dia dos Namorados, porém, eles tornam-se muito mais próximos do que poderiam imaginar.


Mesmo sem o frescor romântico pop de "Alta fidelidade" e o sarcasmo niilista de "Um grande garoto", o resultado final de "Uma longa queda" é extremamente simpático e divertido, principalmente devido à química entre seus quatro atores centrais. Toni Collete, sempre ótima, volta a viver uma suicida saída da imaginação de Hornby (em "Um grande garoto" ela vivia a depressiva mãe do adolescente desajustado que dava título ao romance e ao filme) e conquista o espectador sem precisar fazer muito esforço. Pierce Brosnan sai-se muito bem na pele da constrangida celebridade em desgraça e Aaron Paul tem sua melhor chance no cinema como um jovem cheio de segredos que descobre o amor onde menos poderia esperar (e substitui à altura a escolha inicial, Emile Hirsch). E a jovem inglesa Imogen Poots - conhecida como a namorada de Anton Yelchin no remake de "A hora do espanto" - mostra-se talentosa o bastante para quase roubar a cena dos parceiros mais experientes. Nem mesmo a queda de ritmo no meio do filme prejudica a coesão atingida pelo cineasta francês Pascal Chaumeil - que dirigiu o simpático "Como arrasar um coração" e morreu aos 54 anos, em agosto de 2015 - e do roteiro delicado de Jack Thorne, oriundo de séries da televisão britânica. Sem buscar a lágrima ou o riso fáceis, o filme cativa principalmente pela sutileza, artigo raro em produções comerciais - não chega a ser surpresa que o filme tenha passado quase em branco pelas telas de cinema.

"Uma longa queda" não é um grande filme. Tem seus defeitinhos de ritmo e em algumas vezes parece quase superficial. Mas é agradável do início ao fim, não trata o espectador como bobo e tem um elenco que justifica plenamente uma sessão de hora e meia. Uma pedida excelente para uma tarde chuvosa ou momentos de tédio. Mais um filme digno da obra literária de Nick Hornby, um dos mais interessantes escritores de sua geração.

domingo

HITCHCOCK

HITCHCOCK (Hitchcock, 2012, 20th Century Fox, 98min) Direção: Sacha Gervasi. Roteiro: John J. McLaughlin, livro "Alfred Hitchcock and the making of 'Psycho'", de Stephen Rebello. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Pamela Martin. Música: Danny Elfman. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Robert Gould. Produção executiva: Ali Bell, Richard Middleton. Produção: Alan Barnette, Joe Medjuck, Tom Pollock, Ivan Reitman, Tom Thayer. Elenco: Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Toni Collette, Danny Huston, James D'Arcy, Jessica Biel, Kurtwood Smith, Michael Stuhlbarg, Ralph Macchio. Estreia: 01/11/12

Indicado ao Oscar de Maquiagem
Todo cinéfilo que se preze já se deixou seduzir ao menos uma vez pela surpreendente e assustadora história do bizarro Norman Bates no inesquecível “Psicose” – o original de 1960 dirigido por Alfred Hitchcock, claro, e não a aberração comandada por Gus Van Sant em 1998. O que talvez nem metade das pessoas que pularam da cadeira com os sustos provocados pelo mestre do suspense sabem, porém, é que, mesmo com todo seu prestígio dentro da indústria, o cineasta inglês teve que lutar com unhas e dentes – e dívidas em cima de dívidas – para conseguir levar o livro de Robert Bloch às telas. Os bastidores da filmagem de um dos maiores clássicos do cinema – tão repletos de dramas e imprevistos quanto o próprio filme em si – serviram de mote para o livro “Hitchcock and the making of ‘Psycho’”, escrito por Stephen Rebello, e que, por sua vez, é a base na qual se sustenta “Hitchcock”, dirigido por Sacha Gervasi. Lançado quase ao mesmo tempo em que o televisivo “The girl” – que acompanhava os bastidores de outro filme essencial na carreira do cineasta, “Os pássaros” – a obra de Gervasi tem a seu favor o interesse que a simples menção do nome de Hitchcock desperta e o elenco formado por nomes conhecidos do grande público (Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Jessica Biel). Porém, carece de foco e, paradoxalmente, tem mais cara de filme para a televisão do que seu rival temático (estrelado por Toby Jones).
Anthony Hopkins, mesmo sendo o grande ator que é, fica aquém do esperado em sua interpretação – talvez culpa da maquiagem que lhe tolhe os movimentos faciais (e mesmo assim foi indicada ao Oscar da categoria), talvez culpa do roteiro um tanto superficial, talvez culpa da direção frouxa de Gervasi. Mesmo que desapareça debaixo da pele do homem que legou ao mundo obras impecáveis como “Janela indiscreta” e “Um corpo que cai” – o ator galês não chega a dar alma a seu personagem, dando a impressão de limitar-se apenas a uma imitação, a uma mera mimese sem maior profundidade. Nem o artifício do roteiro de fazê-lo conversar com Ed Gein – o psicopata real que inspirou o livro de Robert Bloch – dá sustentação a seu trabalho. Na maior parte do tempo, Hitchcock parece apenas uma mimada criança grande, incapaz de lidar ao mesmo tempo com o trabalho, o casamento com sua parceira de todas as horas Alma Reville (Helen Mirren) e as paixões platônicas pelas estrelas de seus filmes (Grace Kelly acima de todas). Pode ser que Hitchcock fosse realmente assim e que o filme faça um retrato fiel de sua personalidade, mas é inegável que em boa parte do tempo essa opção não funciona.
A trama começa quando, procurando material para seu novo filme na Paramount depois do relativo fracasso de “Intriga internacional”, Hitchcock descobre o romance de Bloch, considerado pela crítica e por todo mundo que o rodeia uma subliteratura de mau-gosto. Acontece que, teimoso como ele só, o cineasta resolve ir contra a opinião de todos – inclusive de Alma, que tenta convencê-lo a dar uma chance ao romance de um amigo comum, Whitlock Miller (Danny Huston) – e levar o livro às telas. Começa aí sua via-crúcis: a Paramount se recusa a bancar um produto tão nitidamente fadado à execração pública e, corajosamente, Hitch resolve contrair dívidas pouco saudáveis para levar a ideia adiante – aceitando do estúdio a promessa de distribuir o filme desde que caiba a ele o controle total do resultado final (um trato extremamente arriscado). Dono de um senso de marketing genial, o cineasta faz com que se comprem todos os exemplares disponíveis do livro no país (como forma de manter em segredo as reviravoltas da trama), contrata o roteirista Joseph Estefano (Ralph Macchio, o Karatê Kid em pessoa) para adaptar o material e contrata atores não exatamente comerciais para os papéis centrais: a bela Janet Leigh (Scarlett Johansson), o promissor Anthony Perkins (James D’Arcy) e sua antiga obsessão Vera Miles (Jessica Biel) – a quem não consegue perdoar pelo fato de ter abandonado o projeto de “Um corpo que cai” para engravidar.

Pressionado pelo estúdio, desacreditado pelos executivos e afins do mundo do cinema, temeroso pelo resultado do filme nas bilheterias e sofrendo com as privações alimentares (não exatamente cumpridas) que sua saúde exige, Hitchcock ainda precisa lidar com um problema de nível pessoal: a desconfiança de que sua alma gêmea, a dedicadíssima Alma, possa estar tendo um romance extra-conjugal com o escritor Whittlock Miller. Esse desvio de rota – saindo do estritamente profissional dos sets de filmagens para entrar no âmbito pessoal e matrimonial do cineasta – acaba sendo o calcanhar de Aquiles do filme de Gervasi. Mesmo com a brilhante atuação de Helen Mirren, a trama paralela do possível envolvimento de Reville com outro homem prejudica consideravelmente o ritmo ágil (talvez em demasia, diga-se de passagem) daquele que deveria ser o principal ponto de interesse da história. Toda vez que a câmera deixa de lado as intrigas de bastidores de “Psicose” – as brigas com a censura, o relacionamento difícil entre o diretor e Vera Miles, a construção da genial trilha sonora de Bernard Herrman – para dedicar-se aos devaneios românticos/adúlteros de Alma, há uma perda de foco quase imperdoável.
E isso que nem mesmo depois de estar pronto “Psicose” deixou de dar trabalho a seu criador e sua equipe. Rejeitado pela Paramount para desespero do diretor, o filme voltou à sala de montagem e, com o apoio de Alma – além de alterações sutis mas bastante eficientes em aumentar o nível dos sustos – estreou com uma campanha de marketing das mais astuciosas, de causar inveja às intervenções milionárias das produções atuais. Seguranças contratados especialmente para impedir espectadores de entrarem nas salas de exibição depois do início das sessões, cortinas se fechando logo após o encerramento do filme (“para manter por mais tempo as sensações provocadas pela história”) e pedidos encarecidos do próprio Hitchcock para que o público não revelasse a ninguém o desfecho da trama foram algumas das medidas tomadas para que aquele que era considerado o “suicídio artístico” do mestre do suspense se tornasse o maior sucesso financeiro de sua carreira (além de lhe render uma indicação ao Oscar de melhor diretor). Os detalhes de sua concepção são deliciosos e é um prazer testemunhá-los, mas é inegável que fica no ar, ao fim dos créditos de encerramento, a nítida sensação de um filme que poderia ter sido bem melhor.
E realmente poderia. Tudo em “Hitchcock” é quase. O roteiro é simplista, sem profundidade dramática. A direção é esquemática e sem criatividade. O elenco faz o que pode com um material quase pobre (Helen Mirren é a única que consegue injetar consistência em sua interpretação). E até mesmo momentos que poderiam beirar o sublime (Hitch nos bastidores degustando a reação da plateia diante do assassinato no chuveiro mais famoso da história do cinema) chegam perto do risível. Não fosse “Psicose” a obra-prima que é – e que por consequência chama o interesse dos cinéfilos até mesmo indiretamente – o filme de Gervasi correria o sério risco de passar despercebido. Subaproveitando até mesmo a sempre ótima Toni Colette (aqui na pele da secretária do cineasta), “Hitchcock” é surpreendentemente inferior a seu rival televisivo. É leve, é simpático, mas superficial ao extremo. Hitch merecia algo melhor.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...