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quinta-feira

VEJA COMO ELES CORREM


VEJA COMO ELES CORREM (See how they run, 2022, Searchlight Pictures, 98min) Direção: Tom George. Roteiro: Mark Chappell. Fotografia: Jamie D. Ramsay. Montagem: Gary Dollner, Peter Lambert. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Amanda McArhur/Celia De La Hey. Produção: Gina Carter, Damian Jones. Elenco: Sam Rockwell, Saoirse Ronan, Adrien Brody, David Oyelowo, Harris Dickinson, Gregory Cox, Maggie McCarthy, Charlie Cooper, Ruth Wilson, Reece Shearsmith, Sian Clifford, Jacob Fortune-Lloyd, Shirley Henderson. Estreia: 08/9/2022

Em 25 de novembro de 1952, em Londres, estreava a peça "A ratoeira", da escritora policial Agatha Christie - depois de uma pequena turnê por outras cidades inglesas. Desde então, com exceção de um período de 14 meses de paralisação por conta da Covid-19, nunca mais saiu de cartaz, tendo seu elenco substituído todo ano e se mantendo como uma das obras mais duradouras do teatro mundial. Nunca adaptado por Hollywood - uma cláusula de seu contrato estipula que nenhuma versão para as telas pode ser realizada antes de transcorridos seis meses desde o encerramento das apresentações -, mas com um versão indiana e outra russa, devidamente disfarçadas, o texto de Christie é considerado um exemplo perfeito de seu estilo e um clássico do gênero whodunit? (quem matou?). "Veja como eles correm", estrelado por Sam Rockwell e Saoirse Ronan, é uma divertida e criativa homenagem, tanto à peça em si quanto à obra da escritora. Repleto de referências sutis (ou nem tanto) e dotado de um humor britânico em toda a sua mordacidade, o filme de Tom George oferece ao espectador uma hora e meia de inteligência, valorizada por um visual caprichado e um elenco em dias de graça.

A trama de "Veja como eles correm" - título que copia o segundo verso da canção infantil "Três ratos cegos", que também deu nome à peça radiofônica e ao conto que mais tarde se transformaram em "A ratoeira" - se passa em 1953, quando a peça de Agatha Christie está comemorando sua 100ª apresentação em Londres. O sucesso estrondoso da produção acaba de chamar a atenção de produtores de cinema, que tencionam levá-la às telas o quanto antes, sob a direção do excêntrico Leo Kopernick (Adrien Brody), que chega dos EUA com a missão de comandar a adaptação - que, como se sabe, só será possível seis meses depois do encerramento da temporada teatral. Quando o pouco simpático Kopernick é assassinado e tem seu corpo deixado no cenário do teatro, é chamado o inspetor de polícia Stoppard (Sam Rockwell), que, com seu jeito desleixado, inspira pouca confiança. Com a ajuda da jovem policial Constable Stalker (Saoirse Ronan) - deslumbrada com a possibilidade de investigar um crime acontecido no meio artístico, pelo qual é fascinada -, Stoppard passa a conviver com produtores, atores, roteiristas e demais membros da companhia teatral, em busca do nome do assassino, que não demora em fazer novas vítimas.


 

Com um roteiro recheado de brincadeiras que frequentemente escapam ao público médio - o inspetor tem o nome em homenagem ao dramaturgo Tom Stoppard, que escreveu uma paródia de "A ratoeira", e o mordomo de Agatha Christie tem o mesmo sobrenome de Julian Fellowes, premiado com o Oscar de roteiro original por "Assassinato em Gosford Park" (2001), que bebe na fonte da autora inglesa - e um visual criativo que mescla ângulos de câmera inusitados com uma edição que usa e abusa de pontos de vista alternativos, "Veja como eles correm" funciona como comédia satírica e como filme policial, com direito a reviravoltas e um desfecho típico da criadora de Hercule Poirot e Miss Marple - e que inclusive tem participação efetiva no clímax da história, sendo interpretada por Shirley Henderson. Com uma fotografia de cores fortes e uma direção de arte cuidadosamente elaborada, o filme de Tom George - estreando no cinema, em um gênero do qual não é exatamente fã, segundo suas próprias palavras - faz lembrar, em alguns momentos, o brilhante "Assassinato por morte" (1976), de Robert Moore, que unia, no mesmo ambiente, os mais famosos detetives policiais da literatura para investigar um crime: enquanto o espectador tenta adivinhar a identidade do culpado (a), acompanhando as aventuras de Stoppard e Constable, se diverte com diálogos espirituosos e a união certeira entre personagens fictícios e personalidades reais, como o ator e diretor Richard Attenborough (vivido aqui por Harris Dickinson).

E por falar em Stoppard e Constable, a química entre Sam Rockwell e Saoirse Ronan é preciosa: ele vive um policial pouco exemplar (e inspirado em Peter Sellers e seu Inspetor Clouseau) e ela, uma das atrizes mais elogiadas de sua geração, demonstra um timing cômico dos mais agradáveis, na pele de uma ambiciosa e ansiosa aspirante a maiores voos profissionais. Além deles, brilha Adrien Brody como Leo Kopernick, o detestável cineasta que encontra a morte logo nos minutos iniciais - mas que permanece em cena, em flashbacks que conduzem a investigação dos protagonistas: sem medo de mostrar uma persona pouco simpática, Brody parece se divertir em cada cena, em cada diálogo. E é exatamente esse tom irônico e bem-humorado o maior trunfo de "Veja como eles correm", um passatempo dos mais interessantes e sagazes da temporada.

 

domingo

HOMEM DE FERRO 2


HOMEM DE FERRO 2 (Iron Man 2, 2010, Paramount Pictures/Marvel Studios, 124min) Direção: Jon Favreau. Roteiro: Justin Theroux, personagens criados por Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber, Jack Kirby. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Dan Lebental. Música: John Debney. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Lauri Gaffin. Produção executiva: Louis D'Esposito, Susan Downey, Jon Favreau, Alan Fine, Stan Lee, David Maisel, Denis L. Stewart. Produção: Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Mickey Rourke, Scarlett Johansson, Samuel L. Jackson, Jon Favreau, Don Cheadle, Sam Rockwell, John Slattery, Clark Gregg, Paul Bettany, Kate Mara. Estreia: 26/4/2010

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

Não foi surpresa para ninguém quando, mesmo com o primeiro "Homem de ferro" ainda em cartaz, um segundo capítulo foi confirmado pela Marvel. Com uma renda doméstica superior a 300 milhões de dólares (e uma bilheteria mundial de quase o dobro), a adaptação das aventuras de Tony Stark, o bilionário tornado super-herói, deu o pontapé inicial para a criação de um universo cinematográfico próprio, que daria origem a uma série de filmes extremamente bem-sucedidos em termos comerciais e de crítica. Confirmando a regra de quem em time que está ganhando não se mexe, o estúdio manteve Jon Favreau na direção, Robert Downey Jr. no papel-título (dessa vez com um salário compatível com sua importância no projeto) e Gwyneth Paltrow na pele de sua secretária/interesse amoroso Pepper Potts. A única baixa foi a substituição de Terrence Howard por Don Cheadle - uma intriga de bastidores que foi assunto por um bom tempo em publicações sobre o tema. Com um orçamento um pouco mais generoso que o primeiro filme e as expectativas nas alturas, "Homem de ferro 2" chegou às telas na primavera norte-americana de 2010 e, novamente para nenhuma surpresa, transformar-se em um dos campeões de bilheteria do ano. A boa notícia é que, apesar de seguir quase à risca o manual de roteiros de Hollywood, o filme de Favreau conseguiu manter o frescor do material original e revelou-se um entretenimento à altura, graças, em boa parte, ao enxuto e bem estruturado roteiro de Justin Theroux

Indicado por Downey Jr., com quem havia trabalhado no script da comédia "Trovão tropical" (2009), Theroux teve a vantagem de não precisar voltar às origens do personagem, tão bem contadas no primeiro capítulo. Dessa vez, a história se ampara em três frentes: na primeira, Stark precisa lidar com a pressão do governo norte-americano que insiste para que ele compartilhe de sua tecnologia para colaborar na defesa do país. Na segunda, ele se vê frente a frente com o desgaste de sua saúde, prejudicada por sua exposição ao material radoiativo que o mantém vivo. E, por fim, uma parte do passado de sua família vem à tona quando o físico russo Ivan Vanko - filho de um cientista que fora sócio de seu pai nas indústrias Stark - chega ao país para unir-se a Justin Hammer, seu principal rival nos negócios, e vingar-se do fato de ter sido deportado do país, acusado de traição. As três tramas caminham paralelamente durante o filme, para se encontrarem no ato final - que consegue ser mais empolgante que o original graças aos efeitos indicados ao Oscar e por sua integração natural ao enredo.


 E se a saída de Terrence Howard por questões salariais e artísticas - o estúdio sugeriu um corte de 80% do seu cachê, em relação ao primeiro filme, quando o ator teve um pagamento maior que o de Robert Downey Jr., e diminuição de seu personagem devido à insatisfação do diretor com seu desempenho - os acréscimos a essa segunda parte da saga do Homem de Ferro fizeram a festa para os espectadores.Na pele do principal vilão, Ivan Vanko, o primeiro acerto: em alta depois de sua indicação ao Oscar de melhor ator por "O lutador" (2008), Mickey Rourke entrou no elenco como um grande atrativo - mas depois da estreia reclamou a quem quisesse ouvir que suas melhores cenas haviam sido cortadas, e que tal situação havia tornado inútil toda a sua preparação anterior às filmagens (o que incluiu uma viagem à Rússia e treinamento físico específico). Para viver o rival de Stark, o empresário Justin Hammer, a escolha inicial de escalar Al Pacino foi substituída pela presença de Sam Rockwell, mais jovem e de maior diálogo com a plateia juvenil. E por fim, o melhor da festa: a presença de Scarlett Johansson como Natasha Romanov - que, como todo fã dos quadrinhos sabe, é o nome civil da Viúva Negra, personagem cuja importância vai se tornando cada vez maior no decorrer do lançamento dos outros filmes da Marvel. Anteriormente reservado para Emily Blunt, o papel ficou vago quando a atriz não conseguiu conciliar o trabalho com as filmagens de "As viagens de Gulliver", e não faltaram nomes cogitados para seu lugar: Angelina Jolie, Jessica Biel, Gemma Arterton e Jessica Alba estavam entre os boatos - assim como Natalie Portman (que depois estrelaria "Thor", de Kenneth Branagh) e Brie Larson (a Capitã Marvel em pessoa). Johansson tingiu os cabelos de ruivo, envolveu-se em treinamentos físicos antes e durante as filmagens, e surgiu como mais um elo do Homem de Ferro com a S.H.I.E.L.D. - que se tornará ponto crucial nos filmes seguintes da série.

Mais do que apenas um filme realizado para encher os cofres da Marvel - a esta altura já bem recheado -, "Homem de ferro 2" é, mais do que tudo, uma produção que estabelece ainda mais as fundações do universo cinematográfico da produtora, oferecendo ao público tudo que uma superprodução escapista e milionária pode oferecer. Tem bons momentos de humor (em boa parte graças ao carisma de Downey Jr., cada vez mais à vontade no papel principal), cenas de ação caprichadas e personagens coadjuvantes que não estão em cena como meros figurantes. Para quem gosta do gênero é um programa dos mais satisfatórios - em compensação, os detratores do cinemão comercial hollywoodiano continuarão torcendo o nariz para seus efeitos mirabolantes, piadas irônicas e mitologia própria. É uma questão de gosto - e os mais de 620 milhões de dólares arrecadados ao redor do mundo deixa bem claro que muita gente aprova as aventuras de Tony Stark.

segunda-feira

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME (Three billboards outside Ebbing, Missouri, 2017, Fox Searchligth Pictures/Film4, 155min) Direção e roteiro: Martin McDonagh. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Jon Gregory. Música: Carter Burwell. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Inbal Weinberg/Melissa Lombardo. Produção executiva: Daniel Battsek, Rose Garnett, David Kosse, Diarmuid McKeown, Bergen Swanson. Produção: Graham Broadbent, Pete Czernin, Martin McDonagh. Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Lucas Hedges, John Hawkes, Peter Dinklage, Abbie Cornish, Zeljko Ivanek, Caleb Landry Jones. Estreia: 04/9/17 (Festival de Veneza)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Frances McDormand), Ator Coadjuvante (Woody Harrelson/Sam Rockwell), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Frances McDormand), Ator Coadjuvante (Sam Rockwell)
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Atriz/Drama (Frances McDormand), Ator Coadjuvante (Sam Rockwell), Roteiro 

A presença da atriz Frances McDormand, a ambientação no interior dos EUA, os diálogos certeiros e uma visão crítica a respeito das instituições e do american way of life dão a impressão errada de que "Três anúncios para um crime" é um filme dos irmãos Joel e Ethan Coen, especialistas em encontrar particularidades na mais trivial das histórias. Porém, um dos filmes mais premiados e elogiados da temporada 2017 é apenas o terceiro longa-metragem de um cineasta inglês, nascido em 1970 e que logo em sua estreia, a comédia policial "Na mira do chefe" (2008), já havia conquistado uma indicação ao Oscar de roteiro original. Diretor também do subestimado "Sete psicopatas e um shih tzu", um suspense cômico com tons de metalinguagem, lançado em 2012, Martin McDonagh se tornava, de uma hora para outra, em um queridinho da crítica e uma surpreendente revelação para o público, que deixou, pelo mundo afora, mais de 150 milhões de dólares nas caixas registradoras - um sucesso impressionante, especialmente quando se leva em consideração seu custo irrisório de estimados 15 milhões.

Desde sua estreia, no Festival de Veneza (de onde saiu com o prêmio de melhor roteiro), "Três anúncios para um crime" tornou-se um nome forte para a temporada de premiações, principalmente graças ao trabalho primoroso de Frances McDormand e a força dos coadjuvantes interpretados por Woody Harrelson e Sam Rockwell. Antes que chegasse ao Golden Globe e levasse três estatuetas melhor filme e atriz na categoria drama, e roteiro) e ao Oscar, com sete indicações e dois prêmios (atriz e ator coadjuvante para Rockwell), o filme de McDonagh já havia sido laureado por críticos de Boston, Chicago, Detroit, Las Vegas, Londres e Toronto - além das vitórias do Independent Spirit e no Sindicato de Atores (o SAG). Com uma lista notável de prêmios e elogios do mundo todo, não foi nenhuma surpresa quando ficou entre os finalistas para o Oscar - a surpresa foi McDonagh ter sido esnobado na categoria de melhor diretor, uma injustiça imperdoável. Orquestrando com inteligência e sensibilidade um espetáculo centrado em atores e diálogos, o jovem cineasta não apenas criou uma trama instigante e personagens complexos - com segurança ímpar, deu espaço ao brilho de seu elenco sem jamais deixar de lado o que mais se espera de um diretor de cinema: contar uma boa história.


Fugindo dos clichês e das obviedades, "Três anúncios para um crime" já conquista o espectador nas primeiras cenas: inconformada com a falta de empenho da polícia em resolver o estupro e assassinato de sua filha adolescente, Mildred Hayes (Frances McDormand, em um desempenho de cair o queixo), funcionária de uma loja de presentes da pequena cidade de Ebbing, no Missouri, resolve cutucar as autoridades com vara curta. Por um ano, ela aluga três outdoors vagos na entrada da cidade, questionando o andamento das investigações e afrontando principalmente o chefe de polícia do local, William Willoughby (Woody Harrelson). A jogada chama a atenção da imprensa e movimenta a cidade, que passa a dividir-se em quem apoia a desesperada mãe e aqueles que não aprovam seu ato. Entre estes últimos está outro policial, Dixon (Sam Rockwell), racista, preconceituoso e violento, que praticamente toma para si o desaforo e passa a atormentar a vida de Mildred. Enquanto isso, ela lida com o filho vivo, Robbie (Lucas Hedges), o ex-marido abusador, Charlie (John Hawkes), e sua relação de compaixão com Willoughby, que lhe revela estar morrendo de câncer. A esta salada de personagens (bem construídos e vívidos), juntam-se a mãe dominadora de Dixon, um anão interessado em Mildred (participação especial de Peter Dinklage, da série "Game of Thrones") e outros moradores de Ebbing, cada qual com suas próprias idiossincrasias.

Fosse uma série de televisão, "Três anúncios para um crime" teria muito o que explorar, devido ao talento de Martin McDonagh em dotar cada um de seus personagens com características interessantes e imprevisíveis. Como é apenas um filme (e dos bons), ele se dedica a seus protagonistas, lhes dando espaço o bastante para o brilho individual e coletivo. Não à toa, tanto Sam Rockwell quanto Woody Harrelson foram indicados ao Oscar de coadjuvante, e se Rockwell saiu-se vencedor, boa parte do mérito deve-se ao arco dramático de seu personagem, talvez o mais surpreendente da trama. Frances McDormand - para quem o papel de Mildred Hayes foi especificamente escrito - dá um show na pele da sofrida e corajosa mãe, inserindo em sua interpretação uma fina ironia e uma intensidade de que só as melhores atrizes são capazes. Até mesmo o final do filme, inconclusivo para uns, é um sopro de originalidade e ousadia, o que imediatamente impõe em McDonagh grandes expectativas em relação a seu futuro como roteirista e diretor. "Três anúncios" perdeu o Oscar de melhor filme para o igualmente excelente "A forma da água", mas certamente escreveu seu nome na lista das grandes produções de sua época - e o tempo apenas irá reiterar seu status de cult.

SETE PSICOPATAS E UM SHIH TZU

SETE PSICOPATAS E UM SHIH TZU (Seven psychopaths, 2012, CBS Films/Film4, 110min) Direção e roteiro: Martin McDonagh. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Lisa Gunning. Música: Carter Burwell. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: David Wasco/Lisa Reynolds-Wasco. Produção executiva: Tessa Ross. Produção: Graham Broadbent, Peter Czernin, Martin McDonagh. Elenco: Colin Farrell, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Christopher Walken, Abbie Cornish, Michael Pitt, Harry Dean Stanton, Gabourey Sidibe, Zeljko Ivanek, Tom Waits, Brendan Sexton III, Olga Kurylenko. Estreia: 07/9/12 (Festival de Toronto)

A primeira cena remete aos filmes de Quentin Tarantino: uma dupla de matadores de aluguel joga conversa fora enquanto espera a chegada de sua próxima vítima - um bate-papo que vai do gângster Dillinger a "O poderoso chefão". Repentina e violentamente, a sequência termina com uma inesperada reviravolta, que pega tanto os personagens quanto o público de surpresa. Mas que o espectador não se deixe enganar: apesar de ser mais um cineasta/roteirista influenciado pela lufada de ar fresco que Tarantino deixou entrar no cinema policial americano na segunda metade dos anos 90, Martin McDonagh tem identidade própria, conforme mostrado em "Na mira do chefe" - uma comédia independente que encantou a crítica em 2008 e chegou a ser indicada ao Oscar de roteiro original. Repetindo sua parceria com o ator Colin Farrell, ele faz de seu "Sete psicopatas e um shih tzu" um filme ainda melhor que sua estreia, repleto de um humor negro que ameniza de forma inteligente sua extrema violência e um uso brilhante de meta-linguagem que o aproxima do genial "Adaptação", de Spike Jonze.

Assim como no filme estrelado por Nicolas Cage em 2002, o personagem de Colin Farrell, Marty Faranan, é um estressado e angustiado roteirista que sofre a pressão de sentir-se incapaz de escrever uma linha sequer de seu próximo trabalho, do qual tem certeza apenas do título, "Sete psicopatas". Com a intenção um tanto esdrúxula de contar uma história sobre serial killers que evite a violência excessiva e ofereça à plateia uma sensação de paz e otimismo, ele se vê a cada dia mais entregue à bebida - "culpa de sua herança irlandesa!", dispara seu melhor amigo, o ator desempregado Billy Bickle (Sam Rockwell, excelente), que divide com o neurótico protagonista de "Taxi driver" bem mais do que o sobrenome. Sócio do excêntrico Hans Kieslowski (Christopher Walken) no rentável "negócio" de empréstimo de cães - eles roubam os animais e depois os devolvem nobremente aos donos, embolsando as recompensas - Bickle deseja ser colaborador de Marty em seu roteiro, e para isso não se intimida em colocar um anúncio em uma revista chamando psicopatas à sua casa para que contem suas histórias. Não bastasse tal insanidade, os dois amigos passam a ser perseguidos por Charlie Costello (Woody Harrelson), um mafioso impiedoso que descobre que seu amado cãozinho shih tzu, Bonny, está em suas mãos. Aflito e incapaz de pensar em uma forma de sair da confusão, Marty acaba por empreender uma fuga surreal - que pode, afinal, lhe dar as ideias necessárias para a conclusão de sua trama.


Brincando com a linguagem e desconstruindo sem cerimônia as regras pré-estabelecidas de como construir uma história com início, meio e fim bem definidos e claros, Martin McDonagh faz de seu "Sete psicopatas e um shih tzu" uma deliciosa mistura de comédia e policial, muitas vezes borrando propositalmente suas linhas divisórias. Apresentando seus personagens como seres falíveis e por vezes contraditórios - caso do mafioso durão apaixonado por seu "cachorro gay", como define Billy - ele foge dos clichês do gênero, apostando mais no bizarro de cada um do que em suas características mais realistas. Essa lente distorcida oferece à plateia a possibilidade de embarcar em uma jornada cujo final não é possível prever desde seus primeiros momentos, como acontece na maioria da produção em massa da indústria hollywoodiana. Se aceitar as regras propostas pelo cineasta - ou seja, esquecer todas aquelas a que está acostumado por uma exposição sistemática a filmes quase iguais - o espectador tem grandes chances de se surpreender rindo em um instante e roendo as unhas em outro, principalmente na primeira metade, quando os psicopatas são apresentados em sequências dignas de figurar em antologias. Quem duvida basta prestar atenção à história do psicopata religioso (interpretado por Harry Dean Stanton): é de grudar os olhos na tela.

E se não bastasse um roteiro tão criativo - que muda de tom em sua metade final apenas para enfatizar seu rompimento com qualquer regra arbitrária - "Sete psicopatas e um shih tzu" ainda se beneficia (e muito) de um elenco em dias inspiradíssimos. Colin Farrell mostra mais uma vez que é um dos melhores atores subestimados de sua geração, apresentando um timing cômico ainda poucas vezes explorado e que comprova sua versatilidade. Woody Harrelson, Sam Rockwell e Christopher Walken, como de costume, roubam para si seus personagens, imprimindo a eles suas personalidades fortes e as participações especiais (Michael Pitt, Harry Dean Stanton, Tom Waits, Gabourey Sidibe) transformam uma divertida brincadeira em um filme com aura de cult, a ser descoberto e valorizado com o passar do tempo. Poucos filmes merecem uma segunda chance tanto quanto ele!

sábado

A CONDENAÇÃO

A CONDENAÇÃO (Conviction, 2010, Omega Entertainment/Longfellow Pictures, 107min) Direção Tony Goldwin. Roteiro: Pamela Gray. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Jay Cassidy. Música: Paul Cantelon. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Rena DeAngelo. Produção executiva: Markus Barmettler, Anthony Callie, Alwyn Hight Kushner, Myles Nestel, James Smith, Hilary Swank. Produção: Tony Goldwin, Andrew S. Karsch, Andrew Sugerman. Elenco: Hilary Swank, Sam Rockwell, Melissa Leo, Peter Gallagher, Juliette Lewis, Loren Dean, Clea DuVall, Minnie Driver, Bailee Madison. Estreia: 11/9/10 (Festival de Toronto)

Baseado em uma história real, acontecida no Massachussets, o drama "A condenação" não apenas falhou em dar uma bem-vinda indicação ao Oscar para sua protagonista (e produtora executiva) Hilary Swank mas também causou a ela boas dores de cabeça. Indignados com o fato de não terem sido sequer consultados a respeito da transição para o cinema da história do crime que vitimou a garçonete Katheryn Brow, seus filhos criticaram publicamente a postura da atriz e dos envolvidos com o projeto. Nem mesmo o argumento - comprovado por quem assiste ao filme - de que o foco da narrativa não é o crime em si abrandou a situação e o resultado foi uma recepção apenas morna a um filme que merecia sorte melhor, apesar de estar longe do brilhantismo.

Dirigido por Tony Goldwin - o vilão de "Ghost, do outro lado da vida" se saindo surpreendentemente bem na nova carreira - "A condenação" começa em 1980, quando o simpático mas encrenqueiro Kenny Waters (Sam Rockwell) é preso, acusado do violento assassinato de uma conhecida. Condenado à prisão perpétua devido às provas circunstanciais e alguns testemunhos contundentes poucos anos depois, ele deixa sua irmã Betty Anne (Hilary Swank) desesperada. Decidida a tirar o irmão da cadeia, ela começa a faculdade de Direito, negligenciando até mesmo seus deveres de esposa e mãe. Dezoito anos depois do julgamento, ela se une ao advogado Barry Scheck (Peter Gallagher) - representante de uma ONG que tenta reparar erros judiciários - e tenta provar a inocência de Kenny através do DNA das amostras de sangue do assassino, recolhidas no local do homicídio.


Mesmo que o final da história seja conhecida - foi tema de um episódio famoso do programa "60 Minutes" - o roteiro de Pamela Gray consegue manter o interesse do público até seu final, um tanto anti-climático mas coerente com o estilo correto e quase burocrático da direção de Goldwin. Confiando na força da história que está contando, ele não se preocupa em fazer malabarismos com a câmera, frequentemente uma observadora passiva dos dramas de Betty Anne em seu caminho para fazer justiça. A maneira quase formal com que comanda seu filme combina com seu gênero, mas não há como negar que existe uma queda de ritmo na segunda metade. Enquanto a primeira parte do filme intercala a luta de Betty Anne com cenas de sua infância ao lado do irmão protetor - sequências bonitas e interessantes que jogam luz em sua decisão dramática de salvá-lo de um destino infeliz - a reta final concentra-se em uma corrida contra o tempo bastante clichê. Felizmente são nesses momentos que brilha seu elenco coadjuvante.

Se o trabalho de Hilary Swank está no nível de suas atuações premiadas - por "Meninos não choram" e "Menina de ouro" - ela conta com um apoio de ouro. Não apenas Sam Rockwell brilha como Kenny Waters - seu estilo bagaceiro de ser cabendo como uma luva no personagem - mas também existe espaço para que se destaquem Melissa Leo e Juliette Lewis. Melissa - premiada com o Oscar de coadjuvante de 2010, por "O vencedor" - tem o papel pequeno mas crucial de Nancy Taylor, uma policial corrupta e mal-intencionada e Lewis, uma promessa não cumprida do início dos anos 90 aparece quase irreconhecível como Roseanna Perry, uma das testemunhas de acusação: suas rápidas aparições foram suficientes para que ela fosse laureada como Melhor Atriz Coadjuvante do ano pela Associação de Críticos de Boston.

Mesmo que não seja uma obra-prima, "A condenação" merece ser descoberto e apreciado pelo que ele é: um correto drama de tribunal com um belo elenco e boas intenções. A família de Katheryn Brow não deveria ter se preocupado.

quarta-feira

FROST/NIXON

FROST/NIXON (Frost/Nixon, 2008, Universal Pictures/Imagine Entertainment, 122min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Peter Morgan, peça teatral homônima do mesmo autor. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill, Robert Komatsu. Música: Hans Zimmer. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Benjamin. Produção executiva: David Bernardi, Matthew Byan Shaw, Liza Chasin, Todd Hallowell, Debra Hayward, Karen Kehela Sherwood, Peter Morgan. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Frank Langella, Michal Sheen, Kevin Bacon, Sam Rockwell, Matthew Macfadyen, Toby Jones, Andy Milder. Estreia: 15/10/08 (Festival de Londres)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Ator (Frank Langella), Roteiro Adaptado, Montagem

Talvez o mais polêmico dentre todos os presidentes norte-americanos, Richard Nixon acabou por tornar-se também um dos personagens mais fascinantes da política mundial, com sua personalidade ambígua e sua história repleta de lances melodramáticos e controversos - mesmo quando não aparece em cena, ele é o centro das atenções, como é o caso de "Todos os homens do presidente" (76), que Alan J. Pakula dirigiu baseado no livro dos jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, que investigaram o famigerado caso Watergate, que o empurrou à renúncia. Protagonista do ambicioso "Nixon" (95), de Oliver Stone - no qual foi interpretado por um brilhante Anthony Hopkins, indicado ao Oscar por seu desempenho - o homem que comandou os EUA em um dos períodos mais críticos de sua história serviu de inspiração também para o dramaturgo Peter Morgan, que em 2007 estreou na Broadway a elogiadíssima "Frost/Nixon", a recriação dramática de uma série de entrevistas concedidas pelo ex-presidente ao repórter britânico David Frost em 1977 - e que se tornaram momentos clássicos da televisão mundial. O sucesso do espetáculo teatral logo chamou a atenção da indústria cinematográfica e inúmeros diretores relevantes - Martin Scorsese, Sam Mendes, Mike Nichols, George Clooney - se dispuseram a comandar sua adaptação para as telas, até que Ron Howard ganhou a disputa, com a garantia de ter nos papéis centrais os dois atores que davam vida aos protagonistas nos palcos, Frank Langella e Michael Sheen. Se o resultado nas bilheterias não foi dos mais empolgantes - culpa talvez da natural aversão da plateia a temas políticos - o mesmo não pode ser dito da receptividade da crítica, unânime em apontar o filme como um dos melhores da temporada 2008, opinião compartilhada pelos membros da Academia de Hollywood, que o colocaram no páreo para cinco importantes Oscar, inclusive melhor filme, direção e ator (Langella).

Com a adaptação escrita pelo próprio Morgan, que também foi indicado à estatueta dourada, "Frost/Nixon" pode até ser de interesse um tanto limitado - é difícil imaginar o mesmo público que lota os cinemas para ver coisas como "Transformers" pagando ingresso para assistir a um duelo verbal sobre política - mas é absolutamente fascinante, tanto em termos narrativos quanto históricos. Dotado de um ritmo ágil e de diálogos saborosos que dão a seus atores a chance de explorar as diversas nuances de seus personagens - além de um inusitado senso de humor que o afasta do tom shakespereano do filme de Stone, por exemplo - o roteiro de Morgan acerta principalmente ao deixar claro ao espectador as motivações egoístas de cada um dos lados da questão antes de colocá-los frente a frente: dessa forma, nem Frost é um heroi da mídia disposto a apresentar a verdade ao povo americano (ele tem interesses financeiros no projeto, ainda que sofra com a angústia de não conseguir financiamento para ele) nem Nixon é um injustiçado pelos opositores políticos ou ingênuo (o que fica claro na última das sessões de entrevistas, em um momento genial de texto, direção e interpretação). Ao negar a seu texto qualquer traço maniqueísta, Morgan transforma o que poderia ser em um exercício aborrecido, verborrágico e parcial em um interessantíssimo estudo de personagens - mesmo que um deles tenha sido o homem mais poderoso do mundo por um determinado período de tempo.


Quando o filme começa, Richard Nixon já está fora da esfera do poder, em um silêncio ensurdecedor que priva os eleitores americanos da verdade a respeito do caso Watergate - quando políticos republicanos foram desmascarados ao espionar a sede do partido democrata no prédio que dá nome à situação. Sabendo que uma declaração sua pode lhe trazer o prestígio e o respeito que sua carreira como repórter de celebridades não lhe dá, o jornalista inglês David Frost (Michael Sheen, sensacional) tem a ideia de propor-lhe uma série de entrevistas exclusivas para serem transmitidas na televisão americana. A chance de reconquistar a admiração de seus eleitores - e um generoso pagamento de 600 mil dólares - convence o político a aceitar a proposta, mesmo que com uma série de exigências. Pondo em risco seu patrimônio pessoal correndo sério risco com o investimento, Frost insiste na ideia e marca os encontros para o início de 1977. O que ele pensava ser uma missão fácil se mostra, porém, um desafio jamais experimentado em sua carreira até então repleta de futilidade e superficialidade.

"Frost/Nixon" é um filme de muitas qualidades. Além do roteiro conciso de Peter Morgan e da direção segura de Ron Howard, o elenco está em dias inspirados, tanto os atores centrais quanto os coadjuvantes - uma lista que inclui Kevin Bacon, Rebecca Hall, Sam Rockwell e Oliver Platt. Hipnotizante, inteligente e realizado com seriedade rara, é uma pequena pérola que, mesmo tendo quase sido esquecida com o passar dos anos, merece ser redescoberto.

domingo

O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD


O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD (The assassination of Jesse James by the coward Robert Ford, 2007, Warner Bros, 160min) Direção: Andrew Dominik. Roteiro: Andrew Dominik, romance de Ron Hansen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Curtiss Clayton, Dylan Tichenor. Música: Nick Cave, Warren Ellis. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Richard Hoover, Patricia Norris/Janice Blackie-Goodine. Produção executiva: Liza Ellzey, Brad Grey, Tony Scott, Benjamin Waisbren. Produção: Jules Daly, Dede Gardner, Brad Pitt, Ridley Scott, David Valdes. Elenco: Brad Pitt, Casey Affleck, Sam Rockwell, Mary-Louise Parker, Jeremy Renner, Sam Shepard, Garrett Dillahunt, Ted Levine, Zooey Deschannel. Estreia: 02/9/07 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Casey Affleck), Fotografia

Em algumas ocasiões o sucesso faz bem em Hollywood. É o caso de gente como George Clooney, que, enquanto ainda é um astro carismático e capaz de levar multidões às salas de exibição, pode ousar em algumas obras de interesse mais restrito e menos comercial sem prejuízo de seu nome. O mesmo acontece com Brad Pitt. Um dos nomes mais conhecidos e respeitados na terra do cinema - principalmente graças a boas escolhas na carreira - Pitt deixou de lado a figura de galã sexy para revelar-se um ator competente - e de quebra ainda render gordas bilheterias. Foi esse seu poder, por exemplo, que permitiu a ele que assumisse a produção de - e consequente controle sobre - um filme difícil, denso, lento e complexo quanto "O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford". A partir do título longo que ele mesmo proibiu que fosse diminuído para efeito de marketing, tudo no filme de Andrew Dominik (talvez com exceção do próprio astro) apontava para seu fracasso financeiro - que de fato aconteceu.

Contrariando os desejos da Warner - que via no filme um belo potencial como produto de ação - Pitt e seu diretor fizeram de "Jesse James" um faroeste contemplativo e poético, uma visão bastante diferente daquilo que a massa espera assistir quando vê o nome do ator no cartaz. A transformação da montagem de quatro horas apresentada no Festival de Veneza (de onde Pitt saiu eleito melhor ator) em uma duração mais palatável de duas horas e quarenta minutos em sua estreia oficial, porém, pouco ajudou: com um custo estimado em trinta milhões de dólares, a produção não arrecadou nem 10% disso no mercado americano. Azar de quem perdeu um dos mais fascinantes faroestes modernos realizados em Hollywood.


Quem espera ver em "Jesse James" tiroteios, sangue, cenas espetaculares de ação e todos os clichês que envolvem o faroeste certamente vai sentir-se ludibriado - eles até são apresentados por Dominik, mas envoltos em um verniz de poesia raramente visto no gênero. Porém, quem estiver disposto a deixar-se levar por uma nova experiência tem tudo para acabar a sessão deslumbrado e emocionado. Emulando o estilo Terence Malik de criação, o jovem cineasta fez de seu segundo longa uma obra para poucos: é sem pressa que o roteiro vai delineando a personalidade doentia de Robert Ford (interpretado pelo sempre chato Casey Affleck, indicado a um Oscar de coadjuvante) em sua obsessão/atração/inveja pelo famigerado fora-da-lei que, ao contrário do que se poderia esperar em uma grande produção americana, tem seus defeitos, é melancólico e nada heroico. Aliás, é bastante interessante a forma como o filme trata Ford, nunca deixando exatamente claras as suas razões para cometer a traição e o assassinato do título (além da recompensa, é claro). A dubiedade que circunda todas as personagens permite inúmeras leituras do filme, sempre acrescentando mais camadas a cada revisão.

Fotografado avassaladoramente por Roger Deakins - que também concorreu a uma estatueta e injustamente perdeu para "Sangue negro" - e musicado com uma pungência tocante por Nick Cave, "O assassinato de Jesse James" é o perfeito filme "ame ou odeie". Mas é, antes de mais nada, uma prova da coragem de Brad Pitt em constantemente sair de sua zona de conforto. Bravíssimo!

terça-feira

CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA

CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA (Confessions of a dangerous mind, 2002, Miramax, 113min) Direção: George Clooney. Roteiro: Charlie Kaufman, livro de Chuck Barris. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Alex Wurman. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: James D. Bissell/Louis Dandonneau, Anne Galléa, Robert Greenfield. Produção executiva: Stephen Evans, Jonathan Gordon, Rand Ravich, Steven Soderbergh, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Andrew Lazar. Elenco: Sam Rockwell, George Clooney, Julia Roberts, Drew Barrymore, Maggie Gyllenhaal, Rutger Hauer. Estreia: 31/12/02

Urso de Ouro Melhor Ator (Festival de Berlim): Sam Rockwell

Normalmente o que leva um ator a assumir a cadeira de diretor é a vaidade. Somada à megalomania, ela pode levar a obras como "Dança com lobos" - que encantou milhares de pessoas e os votantes do Oscar de 1991, que o escolheram em detrimento do extremamente superior "Os bons companheiros" - ou "Coração valente" - que supreendeu todo mundo mostrando que Mel Gibson tinha mais talento como cineasta do que como ator dramático. Em 2003 um outro ator uniu-se à galeria de novos diretores - que inclui também Robert Redford, Danny DeVito, Robert DeNiro, Sean Penn, Edward Norton, Orson Welles e inúmeros outros menos cotados - e, para alívio geral, saiu-se muito melhor do que a encomenda. Já famoso como ator e galã, George Clooney assumiu as rédeas de "Confissões de uma mente perigosa", alucinante (e alucinada) versão para o cinema das memórias de Chuck Barris, um produtor de TV americano que, nas horas vagas, trabalhava como agente secreto da CIA. Brilhantemente escrito pelo demente (no bom sentido) Charlie Kaufman e apresentando um trabalho excepcional de Sam Rockwell no papel central, o filme colecionou elogios e prêmios - melhor ator no Festival de Berlim, melhor roteiro pelo National Board of Review - e confirmou Clooney como um diretor extremamente talentoso.

Dono de um apurado senso de humor, Clooney encontrou no tom sarcástico do script de Kaufman o material perfeito para sua estreia. Mesmo contando uma história séria, com toques de violência e até mesmo lances de grande dramaticidade, ele transformou seu filme em uma comédia original, criativa e imprevisível, que em nenhum momento dá pistas de tratar-se da obra de um iniciante. O ex-galã (que arrumou ainda espaço para uma participação como ator, talvez como chamariz de bilheteria) se utiliza de soluções bastante inteligentes no desenvolvimento da trama, demonstrando uma segurança ímpar. Contando ainda com a edição do experiente Stephen Mirrione (colaborador de seu amigo Steven Soderbergh), ele faz de "Confissões de uma mente perigosa" um divertido filme de espionagem onde a espionagem é quase uma coadjuvante de luxo. Nada é exatamente o que parece em seu filme, e é justamente aí que está toda a graça.



Sam Rockweel deita e rola como Chuck, um produtor de programas de televisão (criador do famoso "Namoro na TV") que é recrutado pelo misterioso Jim Byrd (Clooney) para trabalhar na CIA. A princípio pensando tratar-se de uma brincadeira, logo ele começa a perceber que está realmente envolvido em violentos trabalhos em várias partes do mundo, sempre acompanhado da bela Patricia Watson (Julia Roberts, se divertindo perceptivelmente no papel) e do sinistro Keeler (Rutger Hauer). Ao tentar equilibrar suas duas personalidades - empresário do show business e matador a serviço do governo - ele acaba entrando em um surto psicótico que o afasta da mulher que ama, Penny (Drew Barrymore).

Contando a coisa parece muito séria, mas não é. Realizado com um senso de ritmo invejável - para o que o roteiro magistral de Kaufman (que não gostou da maneira com que o cineasta tratou seu trabalho no corte final) colabora lindamente - "Confissões" não deixa a peteca cair em momento algum, surpreendendo a plateia constantemente (seja nas reviravoltas da trama ou na participação afetiva de Matt Damon e Brad Pitt em uma sequência hilariante). Fotografado com discrição por Newton Thomas Sigel (que assina a fotografia dos filmes de Bryan Singer) em tons pastéis que contrastam com o colorido exagerado dos cenários televisivos dos programas de Barris, o filme só peca em um detalhe: não é histericamente engraçado nem tampouco é um policial tradicional, e essa indecisão (ou transgressão das regras, o que soa mais apropriado) acabou lhe custando caro. Ao custo de quase 30 milhões de dólares, sua renda doméstica mal chegou aos 16. Felizmente o fracasso comercial não abalou o George Clooney diretor, que depois presentearia a plateia com filmes mais sérios e ainda mais elogiados, como "Boa noite, e boa sorte" (2005) e "Tudo pelo poder" (2011).

No final das contas, "Confissões de uma mente perigosa" é um dos mais empolgantes filmes de estreia que se tem notícia, que cresce a cada revisão. Quem não conhece não pode perder tempo! E, além do mais... quem pode resistir ao carinho do ator tornado diretor com a família, ao escolher uma canção de sua tia Rosemary Clooney para encerrar a projeção?

quinta-feira

À ESPERA DE UM MILAGRE

À ESPERA DE UM MILAGRE (The green mile, 1999, Castle Rock Entertainment/Warner Bros., 189min) Direção: Frank Darabont. Roteiro: Frank Darabont, romance de Stephen King. Fotografia: David Tattersall. Montagem: Richard Francis-Bruce. Música: Thomas Newman. Figurino: Karyn Wagner. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/Michael Seirton. Produção: Frank Darabont, David Valdes. Elenco: Tom Hanks, Michael Clarke-Duncan, David Morse, Barry Pepper, Sam Rockwell, James Cromwell, Bonnie Hunt, Patricia Clarkson, Gary Sinise, Graham Greene, Harry Dean Stanton, Michael Jeter, Doug Hutchinson. Estreia: 10/12/99

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Michael Clarke-Duncan), Roteiro Adaptado, Som

Em 1994, Frank Darabont encantou público e crítica com seu belo “Um sonho de liberdade”, que conquistou indicações ao Oscar de melhor filme, ator e roteiro adaptado e tornou-se, com o tempo, obra de referência quando o assunto é filmes passados em presídios. Em sua segunda incursão atrás das câmeras, o cineasta voltou a buscar na obra do escritor Stephen King a inspiração para seu trabalho. Dessa vez baseado em um romance e não mais em um conto – o que lhe deu ainda mais liberdade para exercitar seu próprio ritmo de contar histórias – Darabont entregou ao público o emocionante “À espera de um milagre”, que, apesar de utilizar o ambiente claustrofóbico de um corredor da morte como cenário para sua trama jamais se deixa resvalar para o monótono. Além disso, utiliza elementos sobrenaturais inexistentes em “Um sonho de liberdade”.  Para sorte do público, porém, ele os usa com parcimônia e inteligência raras. Resultado: uma renda superior a 180 milhões de dólares somente no mercado americano e quatro indicações ao Oscar, inclusive a Melhor Filme (curiosamente, como já havia acontecido com seu filme anterior, o diretor foi preterido em sua categoria...)

O filme começa em um lar de idosos, quando o ancião Paul Edgecomb cai em sentidas lágrimas ao assistir ao filme “O picolino”, estrelado por Fred Astaire. Questionado a respeito, ele resolve contar então a uma colega a trágica e emocionante história que testemunhou em 1935, quando, ainda relativamente jovem (e vivido por Tom Hanks) era o responsável principal pelo Corredor da Morte de seu condado. Justamente na época em que passava por uma séria infecção renal, Edgecomb travou conhecimento com John Coffey (Michael Clarke Duncan), um gigantesco negro com voz de trovão e aparência assustadora que foi condenado à morte pelo assassinato de duas meninas brancas. Coffey chega à Milha Verde – como é conhecido o corredor devido à cor de seu piso – e passa a fazer companhia a outros condenados que aguardam a execução, como o francês Delacroix (Michael Jeter), o descendente indígena Arlen (Graham Greene) e o barra-pesada Billy The Kid (Sam Rockwell), que tem o caráter tão repugnante quanto sua aparência física.

Coffey seria apenas mais um apenado se não fosse uma intrigante particularidade: ele tem o dom de fazer milagres e jura inocência do crime pelo qual foi condenado. Aos poucos, tanto Edgecomb quanto seus colegas Brutal (David Morse) e Dean (Barry Pepper) começam realmente a questionar sua culpa. Depois de testemunharem a cura da infecção de Paul e da grave doença da esposa de seu chefe – além da ressurreição de Mr. Jingles, o ratinho de estimação de um dos prisioneiros – eles passam a perguntar-se se teriam coragem de matar um milagre de Deus. Como o próprio Edgecomb declara, “o que eu vou dizer a Deus quando Ele me perguntar porque eu matei um milagre dEle? Que era meu trabalho?”



Mais uma vez Frank Darabont conta a história em seu próprio tempo e ritmo. Ele não tem pressa em apresentar suas personagens nem tem vergonha de gastar preciosos minutos mostrando sua relação com um ratinho (relação que se mostrará crucial à trama, diga-se de passagem). Novamente todos os diálogos do filme são importantíssimos, todos os detalhes são significativos e todas as personagens estão em cena por motivos bastante fortes. Existe maniqueísmo, sim, senão não seria uma obra de Stephen King (os vilões são poços de crueldade e os mocinhos são puros e inocentes, e o milagroso John Coffey, apesar do tamanho, tem até mesmo medo de escuro!!), mas essa clara divisão entre o bem e o mal é imprescindível ao roteiro. Os efeitos visuais e sonoros são discretos e não chamam mais a atenção do que o desenvolvimento das personagens e o andamento da história, o que sempre é um alívio. E os atores merecem um capítulo à parte.

Tom Hanks demonstra sua maturidade como ator, mantendo-se discreto e generoso em dar espaço a seus colegas de elenco, todos aliás, de se tirar o chapéu. Doug Hutchinson, que vive o cruel guarda Percy – e que trabalha no presídio graças à influência de sua família – é um dos vilões mais odiosos de todos os tempos: mesquinho, rancoroso e ambicioso, ele é capaz de qualquer coisa para satisfazer seus desejos (e acaba sendo o responsável pela execução mais angustiante da história do cinema). Hutchinson – saído de dois episódios da série “Arquivo X”, onde vivia um homem que se alimentava de fígado humano – sai-se muito bem em seu único trabalho realmente marcante nas telas. E tem ótima companhia. Sam Rockwell, na pele do insuportável Billy The Kid, também faz seu trabalho bem além da chamada obrigação profissional. Mas é, sem dúvida, Michael Clarke Duncan quem mais brilha. Ex-guarda-costas de gente como Bruce Willis, ele chegou a ser indicado ao Oscar de coadjuvante por sua emocionante atuação como a aparentemente perigoso mas surpreendentemente afável John Coffey, responsável pelos momentos mais comoventes do longa.

E sim, “À espera de um milagre” é um filme bastante longo. São mais de três horas de duração com raros momentos de alívio em uma trama densa, potente e por vezes cruel - e sua introdução e epílogo poderiam ter sido tranqüilamente editados na versão final. Mas ao mesmo tempo, é uma ode à bondade, ao ser humano e a Deus. Pode levar às lágrimas, mas dificilmente pode ser considerado deprimente. E é um espetáculo difícil de esquecer. Mais uma vez Frank Darabont merece aplausos.

quarta-feira

CELEBRIDADES

CELEBRIDADES (Celebrity, 1998, Sweetland Films/Magnolia Productions, 113min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Suzy Benziger. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Kaufman. Produção executiva: J.E. Beaucaire. Produção: Jean Doumanian. Elenco: Kenneth Branagh, Winona Ryder, Judy Davis, Charlize Theron, Leonardo DiCaprio, Famke Janssen, Dylan Baker, Gretchen Moll, Sam Rockwell, Michael Lerner, Dylan Baker, Debra Messing, Adrian Grenier, Hank Azaria. Estreia: 20/11/98

Alguém já disse que é possível analisar uma sociedade através das pessoas que ela escolhe como celebridades. Exagero ou não, foi seguindo exatamente essa afirmação que Woody Allen teve a ideia para "Celebridades", longa-metragem que é uma homenagem pouco disfarçada a "A doce vida", de Fellini. Assim como o protagonista do filme do cineasta italiano, o jornalista vivido aqui por Kenneth Branagh se vê envolvido em uma roda-viva de pessoas famosas, festas, coquetéis e acontecimentos sociais de todo tipo enquanto tenta manter o centro de sua própria vida. Assim como na mais famosa colaboração de Marcello Mastroiani com o pai de "Amarcord", a fotografia é em preto-e-branco (aqui cortesia de Sven Nykvist, habitual parceiro de Ingmar Bergman, outra influência de Allen). E, bem como no vencedor do Oscar de filme estrangeiro de 1960, são principalmente as mulheres que transformarão a vida da personagem central em um misto de inferno e paraíso.

Lee Simon (vivido com competência pelo irlandês Branagh, famoso por suas adaptações shakesperianas) é um jornalista que, em sua tentativa de vender um roteiro de cinema, se aproxima da atriz Nicole Oliver (Melanie Griffith) e do rebelde Brandon Narrow (Leonardo DiCaprio). Em sua luta para ser reconhecido como escritor, ele se envolve também com a editora Bonnie (Famke Janssen), apesar de estar atraído por Nola (Winona Ryder), uma aspirante a atriz. Sua ex-mulher, Robin (Judy Davis), inconsolável com o fim do casamento, acaba se tornando uma apresentadora de TV, apoiada pelo novo namorado, o produtor Tony Gardella (Joe Mantegna) e os caminhos dos dois acaba se cruzando em mais de uma ocasião.


"Celebridades" é um filme irregular, mas como é normal nas obras de Allen, tem momentos de pura inspiração, em especial em relação a alguns diálogos engraçadíssimos e de extrema ironia. Robin Simon, por exemplo (em grande atuação de Judy Davis) dispara em determinado momento: "estou me tornando uma daquelas pessoas que sempre desprezei. E estou adorando!" Charlize Theron, em rápida aparição, quase rouba a cena como uma modelo que atinge o orgasmo com qualquer toque e Winona Ryder tem o tom ideal de delicadeza e independência que o papel exige. Kenneth Branagh se sai como uma espécie de alterego do cineasta (ainda que o mesmo se recuse a admitir, os trejeitos do ator são inegavelmente woodyallenianos). Somente Leonardo DiCaprio em seu primeiro papel pós-"Titanic" é que não convence com sua interpretação desleixada do problemático astro de cinema inspirado em Johnny Depp e afins. Até mesmo Melanie Griffith se sai melhor, com um timing cômico bastante apropriado.

"Celebridades" não é dos melhores Woody Allen. É mais longo do que de costume em seu currículo, vez ou outra perde o foco e não atinge a maturidade de suas obras-primas. Mas quem gosta do seu estilo certamente vai adorar.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...