NINFOMANÍACA: VOLUME 2 (Nymphomaniac: Vol. II, 2013, Zentropa
Entertainment, 123min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia:
Manuel Alberto Claro. Montagem: Molly Marlene Stensgaard. Direção de
arte: Alexander Scherer. Produção executiva: Peter Garde, Peter Aalbaek
Jensen. Produção: Marie Cecilie Gade, Peter Aalbaek Jensen, Louise
Vesth. Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgard, Stacy Martin,
Shia LaBeouf, Christian Slater, Jamie Bell, Willem Dafoe,
Jean-Marc Barr, Udo Kier. Estreia: 25/12/13
Enquanto o primeiro capítulo do mais polêmico filme de Lars Von Trier tratava de apresentar Joe e sua infância e adolescência - origens de sua autodiagnosticada doença - "Ninfomaníaca, volume 2" se aprofunda ainda mais em sua busca inglória pelo Santo Graal do prazer a todo custo e nas consequências dramáticas de suas escolhas - nem sempre tomadas de forma totalmente racional. Sem mais dividir o papel de protagonista com Stacy Martin, a atriz Charlotte Gainsbourg mostra mais uma vez porque é uma das preferidas do cineasta, com uma performance intensa e corajosa. Finalizando com coerência e ainda mais controvérsia uma obra explosiva e que despertou discussões incansáveis ao redor do planeta, o segundo volume da história de Joe acrescenta ao já variado menu sexual da protagonista sadomasoquismo, lesbianismo, sexo grupal e, para seu desespero, até uma dose de anorgasmia (incapacidade de ter orgasmos). O resultado é uma narrativa que equilibra com sensibilidade uma série de sequências bastante quentes - interpretadas por dublês de corpo - e alguns momentos de partir o coração.
Começando exatamente de onde acabou a primeira parte - quando, casada e apaixonada, Joe se descobre incapaz de ter prazer com o marido, Jerôme (Shia LaBeouf), também pai de seu filho - o filme mostra o desespero da protagonista diante de uma encruzilhada que a obriga a tomar decisões cruéis e revoltantes como forma de sustentar seu estilo particular de vida, regado a sexo compulsivo e por vezes (ao menos na visão tradicional) degradante. Se dando até mesmo ao luxo da auto-citação - com uma sequência que lembra um dos momentos mais fortes de seu "Anticristo" - Lars Von Trier conduz Joe e a plateia por um caminho sombrio e desprovido de glamour, onde o sexo surge não como uma forma de prazer absoluto, mas como uma espécie de inferno particular. Ao não conseguir fugir de sua "doença", Joe se afunda cada vez mais em situações de perigo - sexo a três com desconhecidos, encontros secretos com um jovem cujo fetiche é espancar mulheres e até mesmo um emprego como "cobradora informal" ao lado de criminosos violentos - como forma de expiar seus pecados (nem mesmo a ajuda de um grupo de apoio é capaz de livrá-la do que considera parte de seu ser). Mas, ao contrário do primeiro volume, dessa vez o cineasta deixa a trama perder o foco em algum lugar da estrada.
Mesmo sendo visualmente mais ousado do que o primeiro filme em termos de cenas de sexo e até mesmo em teorias polêmicas (em determinado ponto Joe defende os pedófilos que nunca ultrapassaram a linha do desejo e os classifica como heróis), "Ninfomaníaca, volume 2" perde parte de seu ritmo quando cria uma subtrama desnecessária e quase deslocada, que envolve Joe e um empresário (Willem Dafoe) que a contrata para cobrar dívidas de mau-pagadores. Ok, existe um motivo dramaticamente explicável para tal desvio quase surpreendente da narrativa (e que inclui mais uma história de amor frustrada da protagonista e que acaba por ser a responsável pela situação em que ela se encontra no começo do capítulo inicial), mas é inegável que, depois da avalanche de situações empolgantes/temerárias/controversas discutidas pelo filme, esse desvio de percurso compromete o ritmo do filme e quase o transforma em uma obra de narrativa convencional - impressão que seu final anti-climático (ainda que com uma certa dose de ironia) apenas ajuda a reforçar. A questão que fica, porém, é uma só: "Ninfomaníaca" (os dois volumes juntos) é, afinal um filme misógino ou feminista?
Nem uma coisa nem outra. Lars Von Trier é um cineasta conhecido por colocar suas personagens femininas em situações extremas de humilhação e sofrimento, mas daí a considerá-lo misógino por causa disso é exagero - afinal, ótimas atrizes, como Emily Watson Nicole Kidman, Kirsten Dunst e a própria Charlotte Gainsbourg não iriam sujeitar-se a um diretor com tendências exclusivamente sádicas e sem (boas) histórias para contar. Além do mais, basta examinar com mais cuidado seus filmes anteriores para perceber que, apesar das via-crucis pelas quais passam suas protagonistas, elas não deixam de ser mulheres fortes e determinadas. Joe, por exemplo, pode ser vista tanto como uma vítima das circunstâncias quanto uma senhora de seu destino, por fazer escolhas (muitas delas erradas, mas coerentes com sua personalidade) e pagar o preço por elas estoicamente. Uma mulher ser capaz de entregar-se a uma vida sexual rica e submeter-se aos caprichos masculinos por vontade própria pode soar como uma afronta às feministas, mas não deixa de ser também revolucionário e corajoso. Talvez isso tenha incomodado algumas mulheres e provocado a discussão a respeito das intenções de Von Trier, mas até mesmo essa dubiedade é fascinante e transforma o que poderia ser apenas mais um filme disposto a chamar a atenção pelo comércio do sexo puro e simples em uma obra passível de permanecer por bons anos na berlinda. Afinal de contas, não é isso que se espera de um bom cineasta?
Quanto às virtudes artísticas, é preciso mais uma vez louvar o desempenho de Charlotte Gainsbourg - não à toa integrante da Trilogia da Depressão do cineasta ("Anticristo", "Melancolia" e estes volumes de "Ninfomaníaca" - no papel central. Entregue de corpo e alma a um papel difícil e desafiador, a filha da cantora Jane Birkin e do músico Serge Gainsbourg se mostra uma das mais ousadas atrizes de sua geração e uma parceira à altura dos devaneios de Von Trier. Merecem destaque também as participações de Jamie Bell - o menino revelado em "Billy Elliot", aqui crescido e bem desenvolvido - e Stellan Skarsgard, em uma atuação contida que só vai explodir ao final, quando finalmente revela quem é seu personagem. Resumindo, "Ninfomaníaca, volume 2" é o desfecho impactante de um filme por si só capaz de despertar todos os tipos de sentimento no espectador que procura mais no cinema do que simples diversão. Altamente recomendável - nem que seja para falar mal com argumentos.
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NINFOMANÍACA, VOLUME 1
NINFOMANÍACA, VOLUME 1 (Nymphomaniac: Vol. I, 2013, Zentropa
Entertainments, 117min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia:
Manuel Alberto Claro. Montagem: Morten Hojberg, Moly Marlene Stensgaard.
Figurino: Manon Rasmussen. Direção de arte/cenários: Simon Grau
Roney/Thorsten Sabel. Produção executiva: Peter Garde, Peter Aalbaek
Jensen. Produção: Louise Vesth. Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan
Skarsgard, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Uma Thurman,
Sophie Kennedy Clark, Connie Nielsen, Mia Goth. Estreia: 25/12/13
Lars Von Trier é um cineasta que não tem medo de polêmicas - e, a julgar por sua filmografia recheada de obras provocantes como "Anticristo", "Dogville" e "Ondas do destino" até as procura constantemente. Depois de ter sido banido do Festival de Cannes 2011 por declarações consideradas antissemitas - ele afirmou entender Hitler - o dinamarquês voltou às manchetes no final de 2013 graças a mais um projeto cinematográfico ousado e controverso: dividido em dois volumes lançados simultaneamente, "Ninfomaníaca" já despertava furiosas discussões ao redor do mundo antes mesmo de sua estreia. O motivo? Mais do que nunca, Trier dava munição de sobra a todos que sempre o acusavam de misoginia ao contar a dramática história de Joe, uma mulher cuja impossibilidade de resistir a seus desejos a leva a uma vida repleta de dor e sofrimento. Porém, mesmo que dê continuidade à linhagem de mártires femininas criadas pelo diretor, Joe é, ao mesmo tempo, vítima e heroína, dona de uma complexidade dramática de que só mesmo o talento da atriz Charlotte Gainsbourgh - parceira constante do diretor - conseguiria dar conta. O resultado é uma obra perturbadora como todos os trabalhos anteriores de Trier, mas bem menos "pornográfico" do que o marketing e a curiosidade do público previam.
Misturando matemática, música clássica e filosofia a uma receita explosiva por natureza, Lars Von Trier narra a saga de Joe através de flashbacks, quando ela conta sua história ao solidário Seligman (Stellan Skarsgard), que a encontra caída e extremamente ferida perto de sua casa. Sentindo que pode confiar no homem que a ajudou, Joe revela a ele sua trajetória sexual, que teve início já na infância em brincadeiras com uma amiga. Aos poucos, ela passa para situações mais intensas, como a traumática perda da virgindade com Jerôme (Shia LaBeouf), que a atormentará pela vida inteira. Enquanto discute teorias matemáticas com Seligman e ouve suas histórias sobre pescaria - hobby que ele compara ao vício dela - Joe também revela a importância de seu relacionamento com o pai amoroso (Christian Slater), a amizade competitiva com B (Sophie Kennedy Clark) - que a incentivava a praticar atos ousados como transar com todos os passageiros possíveis de um trem - e a forma como gerenciava uma vida preenchida por inúmeros casos sexuais concomitantes e que resultou em uma experiência pouco agradável com a esposa de um dos amantes (Uma Thurman). Dotada de extrema autocrítica, Joe prepara o espírito de Seligman para chegar até o clímax de sua história - e que a fez acabar espancada na porta de sua casa.
"Ninfomaníaca, volume 1" não é um filme erótico, apesar do que pode parecer ao público menos informado: tudo bem que Lars Von Trier não se furta a mostrar cenas bem mais ousadas do que acontece no cinema comercial, mas não existe gratuidade nas sequências que mostram as desventuras sexuais de sua protagonista. Mesmo em momentos mais explícitos, não é intenção do filme excitar o espectador, e sim retratar com o máximo de realismo a rotina de uma mulher presa a suas próprias armadilhas. Joe sabe desde cedo onde colocar o desejo que lhe acomete - e, a princípio, o faz sem culpa e com um prazer que não teria como passar em branco por um mundo machista e propenso a todo tipo de julgamentos morais. E o castigo por sua liberdade, como se poderia esperar de um filme assinado por Von Trier, vem sem piedade justamente quando ela sente-se disposta a entregar-se ao amor - em uma cena angustiante que prepara o público para a segunda parte, que levará a protagonista ao fundo do poço físico e moral.
Mesmo que seja o rosto de Charlotte Gainsbourgh que enfeite os cartazes de "Ninfomaníaca", é inegável que boa parte do impacto do filme se deve à performance corajosa e intensa de Stacy Martin, que se entrega sem medo ao desafio de interpretar a juventude de Joe mesmo em cenas pra lá de quentes. Com um rosto angelical que contrasta com a voracidade do desejo sexual de sua personagem, Martin cativa a plateia com um misto de conformismo e sensualidade, enquanto contracena com atores do porte de Uma Thurman, Christian Slater e Shia LaBeouf em dias inspiradíssimos. Fotografado com capricho e criativo na edição - que mantém a atenção da plateia do primeiro ao último minuto de projeção - o filme de Von Trier é um primeiro capítulo instigante, repleto das maiores qualidades do cinema do diretor (e também um prato cheio para seus detratores). Como filme é fascinante, e como discussão é ainda melhor, ainda que só faça sentido completo após o término do segundo volume.
Lars Von Trier é um cineasta que não tem medo de polêmicas - e, a julgar por sua filmografia recheada de obras provocantes como "Anticristo", "Dogville" e "Ondas do destino" até as procura constantemente. Depois de ter sido banido do Festival de Cannes 2011 por declarações consideradas antissemitas - ele afirmou entender Hitler - o dinamarquês voltou às manchetes no final de 2013 graças a mais um projeto cinematográfico ousado e controverso: dividido em dois volumes lançados simultaneamente, "Ninfomaníaca" já despertava furiosas discussões ao redor do mundo antes mesmo de sua estreia. O motivo? Mais do que nunca, Trier dava munição de sobra a todos que sempre o acusavam de misoginia ao contar a dramática história de Joe, uma mulher cuja impossibilidade de resistir a seus desejos a leva a uma vida repleta de dor e sofrimento. Porém, mesmo que dê continuidade à linhagem de mártires femininas criadas pelo diretor, Joe é, ao mesmo tempo, vítima e heroína, dona de uma complexidade dramática de que só mesmo o talento da atriz Charlotte Gainsbourgh - parceira constante do diretor - conseguiria dar conta. O resultado é uma obra perturbadora como todos os trabalhos anteriores de Trier, mas bem menos "pornográfico" do que o marketing e a curiosidade do público previam.
Misturando matemática, música clássica e filosofia a uma receita explosiva por natureza, Lars Von Trier narra a saga de Joe através de flashbacks, quando ela conta sua história ao solidário Seligman (Stellan Skarsgard), que a encontra caída e extremamente ferida perto de sua casa. Sentindo que pode confiar no homem que a ajudou, Joe revela a ele sua trajetória sexual, que teve início já na infância em brincadeiras com uma amiga. Aos poucos, ela passa para situações mais intensas, como a traumática perda da virgindade com Jerôme (Shia LaBeouf), que a atormentará pela vida inteira. Enquanto discute teorias matemáticas com Seligman e ouve suas histórias sobre pescaria - hobby que ele compara ao vício dela - Joe também revela a importância de seu relacionamento com o pai amoroso (Christian Slater), a amizade competitiva com B (Sophie Kennedy Clark) - que a incentivava a praticar atos ousados como transar com todos os passageiros possíveis de um trem - e a forma como gerenciava uma vida preenchida por inúmeros casos sexuais concomitantes e que resultou em uma experiência pouco agradável com a esposa de um dos amantes (Uma Thurman). Dotada de extrema autocrítica, Joe prepara o espírito de Seligman para chegar até o clímax de sua história - e que a fez acabar espancada na porta de sua casa.
"Ninfomaníaca, volume 1" não é um filme erótico, apesar do que pode parecer ao público menos informado: tudo bem que Lars Von Trier não se furta a mostrar cenas bem mais ousadas do que acontece no cinema comercial, mas não existe gratuidade nas sequências que mostram as desventuras sexuais de sua protagonista. Mesmo em momentos mais explícitos, não é intenção do filme excitar o espectador, e sim retratar com o máximo de realismo a rotina de uma mulher presa a suas próprias armadilhas. Joe sabe desde cedo onde colocar o desejo que lhe acomete - e, a princípio, o faz sem culpa e com um prazer que não teria como passar em branco por um mundo machista e propenso a todo tipo de julgamentos morais. E o castigo por sua liberdade, como se poderia esperar de um filme assinado por Von Trier, vem sem piedade justamente quando ela sente-se disposta a entregar-se ao amor - em uma cena angustiante que prepara o público para a segunda parte, que levará a protagonista ao fundo do poço físico e moral.
Mesmo que seja o rosto de Charlotte Gainsbourgh que enfeite os cartazes de "Ninfomaníaca", é inegável que boa parte do impacto do filme se deve à performance corajosa e intensa de Stacy Martin, que se entrega sem medo ao desafio de interpretar a juventude de Joe mesmo em cenas pra lá de quentes. Com um rosto angelical que contrasta com a voracidade do desejo sexual de sua personagem, Martin cativa a plateia com um misto de conformismo e sensualidade, enquanto contracena com atores do porte de Uma Thurman, Christian Slater e Shia LaBeouf em dias inspiradíssimos. Fotografado com capricho e criativo na edição - que mantém a atenção da plateia do primeiro ao último minuto de projeção - o filme de Von Trier é um primeiro capítulo instigante, repleto das maiores qualidades do cinema do diretor (e também um prato cheio para seus detratores). Como filme é fascinante, e como discussão é ainda melhor, ainda que só faça sentido completo após o término do segundo volume.
terça-feira
MELANCOLIA
MELANCOLIA (Melancholia, 2011, Zentropa Entertainments/Memfis Films, 130min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Manuel Alberto Claro. Montagem: Molly M. Stensgaard. Figurino: Manon Rasmussen. Direção de arte/cenários: Jette Lehman/Simone Grau Roney. Produção executiva: Peter Garde, Peter Albaek Jensen. Produção: Meta Louise Foldager, Louise Vesth. Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgard, Stellan Skarsgard, Brady Corbet, John Hurt, Charlotte Rampling, Udo Kier. Estreia: 18/5/11 (Festival de Cannes)
Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes: Melhor Atriz (Kirsten Dunst)
Foi durante a entrevista coletiva de lançamento de "Melancolia", em maio de 2011, que o cineasta Lars Von Trier deu a infame declaração em que afirmava compreender Adolf Hitler. A controvérsia acabou fazendo com que o normalmente polêmico diretor fosse banido do festival, mas não impediu que seu belo filme saísse premiado com a Palma de Ouro de Melhor Atriz para Kirsten Dunst. Substituindo a primeira opção para o papel - Penélope Cruz, que pulou fora para navegar com Johnny Depp no tenebroso terceiro capítulo da cinessérie "Piratas do Caribe"- Dunst mereceu a premiação: basta poucos minutos em cena para que seu desempenho, intenso e febril, apague da mente do espectador que ele está diante da faceira Mary Jane da trilogia do Homem-aranha dirigida por Sam Raimi. Tornando-se a terceira atriz dirigida por Von Trier a sair laureada do festival francês - antes dela foram laureadas a cantora Bjork, por "Dançando no escuro", em 2000, e Charlotte Gainsbourg, por "Anticristo", de 2009 - Dunst mostrou que os elogios que recebeu ao interpretar a pequena morta-viva Claudia de "Entrevista com o vampiro" não foram levianos e que, adulta, ela é uma atriz repleta de nuances e recursos.
Segunda parte da entitulada "Trilogia da Depressão", de Von Trier - que começou com "Anticristo" e terminou com os dois volumes de "Ninfomaníaca", todos com Charlotte Gainsbourg no elenco - "Melancolia" é, sem dúvida, a obra que tem o visual mais deslumbrante dos três - cortesia da fotografia de Manuel Alberto Claro - e a trama menos polêmica e mais acessível, apesar do tema difícil. Dividido em dois capítulos com os nomes das protagonistas (depois de um belíssimo prólogo, como já passou a ser uma marca registrada do diretor), o filme conta, a grosso modo, a história de duas irmãs (e sua família) que aguardam a colisão de um planeta chamado Melancolia com a Terra, fato que, logicamente, significaria o fim do mundo. No entanto, nas mãos do cineasta, o que poderia ser mais um longa de ficção científica corriqueiro e recheado de clichês, se transforma em um estudo poderoso e angustiante sobre amor, família e depressão - esta última retratada de forma exemplar através de Justine, a personagem de Dunst.
Justine - que dá nome ao primeiro capítulo - tem tudo para ser uma mulher feliz e realizada. Bonita, inteligente e rica, ela trabalha em uma agência de publicidade, é reconhecida profissionalmente e está se casando com o homem que aparentemente ama, o carinhoso Michael (Alexander Skarsgard, da série "True blood"). Acontece que as coisas não são tão simples assim para ela: sofrendo de uma severa depressão, ela atravessa a sofisticada e caríssima festa de casamento organizada pela irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg) e pelo cunhado John (Kiefer Sutherland) - um cientista que não acredita na colisão iminente entre os dois planetas - como quem atravessa um calvário. Nada lhe excita, nada lhe impressiona, nada lhe deixa alegre e tal situação acaba ficando óbvia até para o pouco atento noivo - o que acarreta em um final pouco feliz para a cerimônia. O segundo capítulo - batizado com o nome de Claire - se passa nos dias seguintes à festa, quando Justine, ao lado da irmã, do cunhado e do sobrinho, tenta superar o agravamento de sua crise depressiva enquanto aguarda o momento em que a natureza irá decidir o destino da Terra e de seus habitantes. Dessa vez, porém, é Claire quem não tem certeza se conseguirá suportar tanta tensão e angústia.
Para que "Melancolia" seja melhor compreendido pelo seu público, é essencial que se saiba o que esperar da proposta de Lars Von Trier - que confessou ter escrito o roteiro sob forte influência de drogas e álcool, o que já dá pistas a respeito do tom pouco festivo da trama. Pouco afeito a conceitos como otimismo e felicidade, o cineasta faz desfilar pela tela personagens que não retratam exatamente as melhores qualidades do ser humano - até mesmo a mãe interpretada por Charlotte Rampling parece desprovida de qualquer traço de simpatia ou solidariedade - e não poupa o espectador de mergulhar sem reservas na doença de Justine, filmada sem filtros de glamour ou romantismo. Menos simbólico do que "Anticristo" mas ainda assim um prato cheio para quem busca no cinema uma forma de analisar o mundo contemporâneo - física ou psicologicamente - o filme de Von Trier faz uso de metáforas visuais e temáticas para atingir seus objetivos artísticos e os faz com maestria. Não é, mais uma vez em sua carreira, um filme para todos os tipos de público. Mas é um belo espetáculo narrativo e um ponto alto de sua filmografia.
Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes: Melhor Atriz (Kirsten Dunst)
Foi durante a entrevista coletiva de lançamento de "Melancolia", em maio de 2011, que o cineasta Lars Von Trier deu a infame declaração em que afirmava compreender Adolf Hitler. A controvérsia acabou fazendo com que o normalmente polêmico diretor fosse banido do festival, mas não impediu que seu belo filme saísse premiado com a Palma de Ouro de Melhor Atriz para Kirsten Dunst. Substituindo a primeira opção para o papel - Penélope Cruz, que pulou fora para navegar com Johnny Depp no tenebroso terceiro capítulo da cinessérie "Piratas do Caribe"- Dunst mereceu a premiação: basta poucos minutos em cena para que seu desempenho, intenso e febril, apague da mente do espectador que ele está diante da faceira Mary Jane da trilogia do Homem-aranha dirigida por Sam Raimi. Tornando-se a terceira atriz dirigida por Von Trier a sair laureada do festival francês - antes dela foram laureadas a cantora Bjork, por "Dançando no escuro", em 2000, e Charlotte Gainsbourg, por "Anticristo", de 2009 - Dunst mostrou que os elogios que recebeu ao interpretar a pequena morta-viva Claudia de "Entrevista com o vampiro" não foram levianos e que, adulta, ela é uma atriz repleta de nuances e recursos.
Segunda parte da entitulada "Trilogia da Depressão", de Von Trier - que começou com "Anticristo" e terminou com os dois volumes de "Ninfomaníaca", todos com Charlotte Gainsbourg no elenco - "Melancolia" é, sem dúvida, a obra que tem o visual mais deslumbrante dos três - cortesia da fotografia de Manuel Alberto Claro - e a trama menos polêmica e mais acessível, apesar do tema difícil. Dividido em dois capítulos com os nomes das protagonistas (depois de um belíssimo prólogo, como já passou a ser uma marca registrada do diretor), o filme conta, a grosso modo, a história de duas irmãs (e sua família) que aguardam a colisão de um planeta chamado Melancolia com a Terra, fato que, logicamente, significaria o fim do mundo. No entanto, nas mãos do cineasta, o que poderia ser mais um longa de ficção científica corriqueiro e recheado de clichês, se transforma em um estudo poderoso e angustiante sobre amor, família e depressão - esta última retratada de forma exemplar através de Justine, a personagem de Dunst.
Justine - que dá nome ao primeiro capítulo - tem tudo para ser uma mulher feliz e realizada. Bonita, inteligente e rica, ela trabalha em uma agência de publicidade, é reconhecida profissionalmente e está se casando com o homem que aparentemente ama, o carinhoso Michael (Alexander Skarsgard, da série "True blood"). Acontece que as coisas não são tão simples assim para ela: sofrendo de uma severa depressão, ela atravessa a sofisticada e caríssima festa de casamento organizada pela irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg) e pelo cunhado John (Kiefer Sutherland) - um cientista que não acredita na colisão iminente entre os dois planetas - como quem atravessa um calvário. Nada lhe excita, nada lhe impressiona, nada lhe deixa alegre e tal situação acaba ficando óbvia até para o pouco atento noivo - o que acarreta em um final pouco feliz para a cerimônia. O segundo capítulo - batizado com o nome de Claire - se passa nos dias seguintes à festa, quando Justine, ao lado da irmã, do cunhado e do sobrinho, tenta superar o agravamento de sua crise depressiva enquanto aguarda o momento em que a natureza irá decidir o destino da Terra e de seus habitantes. Dessa vez, porém, é Claire quem não tem certeza se conseguirá suportar tanta tensão e angústia.
Para que "Melancolia" seja melhor compreendido pelo seu público, é essencial que se saiba o que esperar da proposta de Lars Von Trier - que confessou ter escrito o roteiro sob forte influência de drogas e álcool, o que já dá pistas a respeito do tom pouco festivo da trama. Pouco afeito a conceitos como otimismo e felicidade, o cineasta faz desfilar pela tela personagens que não retratam exatamente as melhores qualidades do ser humano - até mesmo a mãe interpretada por Charlotte Rampling parece desprovida de qualquer traço de simpatia ou solidariedade - e não poupa o espectador de mergulhar sem reservas na doença de Justine, filmada sem filtros de glamour ou romantismo. Menos simbólico do que "Anticristo" mas ainda assim um prato cheio para quem busca no cinema uma forma de analisar o mundo contemporâneo - física ou psicologicamente - o filme de Von Trier faz uso de metáforas visuais e temáticas para atingir seus objetivos artísticos e os faz com maestria. Não é, mais uma vez em sua carreira, um filme para todos os tipos de público. Mas é um belo espetáculo narrativo e um ponto alto de sua filmografia.
segunda-feira
ANTICRISTO
ANTICRISTO (Antichrist, 2009, Zentropa Entertainments, 108min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Anders Refn. Música: Kristian Eidnes Andersen. Figurino: Frauke Firl. Direção de arte/cenários: Karl 'Kalli' Juliusson/Tim Pannen. Produção executiva: Peter Garde, Peter Aalbaek Jensen. Produção: Meta Louise Foldager. Elenco: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg. Estreia: 18/5/09
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes: (Charlotte Gainsbourg)
Quando começou a filmar "Anticristo" - um polêmico exercício de estilo que dividiu opiniões no Festival de Cannes 2009 e deu à Charlotte Gainsbourg a Palma de Ouro de melhor atriz - o cineasta dinamarquês Lars Von Trier estava saindo de uma severa crise de depressão que o havia deixado internado em um hospital por dois meses. Porém, mesmo sem estar completamente curado (o que o impedia de operar a câmera pessoalmente, uma das maiores características de sua controversa filmografia), o homem que esteve por trás da criação do Dogma 95 - um dos mais importantes manifestos cinematográficos dos anos 90, ainda que efêmero e nem sempre eficiente em suas ambições - não decepcionou aos fãs de seu cinema repleto de simbolismos: mesmo que não seja exatamente o filme de terror que ele ambicionava realizar - assim como "Dançando no escuro" não era propriamente um musical nos moldes hollywoodianos que estava em sua mente - "Anticristo" chocou, despertou discussões acaloradas e sacudiu a mesmice do cinema "de arte". Nada mal para uma obra quase hermética, que levanta diversas questões e não fornece nenhuma resposta a elas.
Abrindo sua narrativa com uma belíssima sequência em preto-e-branco fotografada com extremo requinte por Anthony Dod Mantle, "Anticristo" já pega de surpresa o espectador acostumado às amenidades hollywoodianas, intercalando cenas de sexo explícito no chuveiro entre o casal vivido por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg com uma irresponsável travessura de seu filho bebê, que tragicamente morre ao cair da janela de sua casa. Depois desse prólogo - que estabelece o tom mórbido e cru da história - pouco resta aos dois protagonistas senão o luto, o desespero e a dor, especialmente para a mãe da criança, que acaba indo parar no hospital, incapaz de lidar com a perda. Confiante de que pode ajudar a esposa, o pai - terapeuta - resolve começar um tratamento radical, confrontando-a com seus medos, e a leva para sua cabana na floresta, a que chamam de "Eden". É lá, em um lugar afastado de tudo e todos, cercados de uma natureza filmada em ângulos mórbidos e opressivos e de lembranças que se mesclam entre positivas e melancólicas, que eles são obrigados a exorcizar seus demônios pessoais.
Quem se aventurar a uma sessão de "Anticristo" deve estar ciente de que não está adentrando em território afável: não é a intenção de Lars Von Trier ser acessível ou simpático à raça humana. Mais uma vez em sua filmografia não há espaço para esperanças ou sentimentos nobres, e até mesmo a natureza - algo tão singelo em outras filmografias - é retratada como algo ameaçador e sufocante, como mostra a inesquecível (e impressionante) cena em que os protagonistas fazem sexo ao ar livre, diante de uma árvore retorcida que, sob a visão cruel do cineasta, mostra-se cenário bem pouco apropriado ao ato. Até mesmo animais servem como prenúncios fatídicos na narrativa de Von Trier: um inocente veado simboliza o luto, uma raposa serve de ilustração da dor e um corvo representa o desespero, conforme deixam claro os desenhos que abrem cada um dos capítulos do filme - e, a cada um, mais e mais afundados na angústia ficam os personagens. E a plateia.
Sem medo de ofender ou escandalizar o espectador, Lars Von Trier não se furta a apelar para cenas de extremo impacto físico e emocional, o que inclui até mesmo uma comentada e cruel automutilação genital que testa os limites de qualquer cinéfilo. Para isso, o cineasta contou com a corajosa Charlotte Gainsbourg, que se entrega de corpo e alma na personificação de uma mulher em mais puro desespero. Merecidamente premiada no Festival de Cannes, Gainsbourg acabou se tornando também uma queridinha do diretor, fazendo parte de todos os filmes da "Trilogia da Depressão" gerada por ele, que inclui "Melancolia" e os dois volumes de "Ninfomaníaca". Seu estilo de interpretação, visceral e de uma intensidade quase palpável, é a base na qual se ergue "Anticristo", um filme que se preocupa muito menos com sua história do que com a forma como ela será contada. Tem quem adore. Mas também tem quem odeie. Escolha seu time.
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes: (Charlotte Gainsbourg)
Quando começou a filmar "Anticristo" - um polêmico exercício de estilo que dividiu opiniões no Festival de Cannes 2009 e deu à Charlotte Gainsbourg a Palma de Ouro de melhor atriz - o cineasta dinamarquês Lars Von Trier estava saindo de uma severa crise de depressão que o havia deixado internado em um hospital por dois meses. Porém, mesmo sem estar completamente curado (o que o impedia de operar a câmera pessoalmente, uma das maiores características de sua controversa filmografia), o homem que esteve por trás da criação do Dogma 95 - um dos mais importantes manifestos cinematográficos dos anos 90, ainda que efêmero e nem sempre eficiente em suas ambições - não decepcionou aos fãs de seu cinema repleto de simbolismos: mesmo que não seja exatamente o filme de terror que ele ambicionava realizar - assim como "Dançando no escuro" não era propriamente um musical nos moldes hollywoodianos que estava em sua mente - "Anticristo" chocou, despertou discussões acaloradas e sacudiu a mesmice do cinema "de arte". Nada mal para uma obra quase hermética, que levanta diversas questões e não fornece nenhuma resposta a elas.
Abrindo sua narrativa com uma belíssima sequência em preto-e-branco fotografada com extremo requinte por Anthony Dod Mantle, "Anticristo" já pega de surpresa o espectador acostumado às amenidades hollywoodianas, intercalando cenas de sexo explícito no chuveiro entre o casal vivido por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg com uma irresponsável travessura de seu filho bebê, que tragicamente morre ao cair da janela de sua casa. Depois desse prólogo - que estabelece o tom mórbido e cru da história - pouco resta aos dois protagonistas senão o luto, o desespero e a dor, especialmente para a mãe da criança, que acaba indo parar no hospital, incapaz de lidar com a perda. Confiante de que pode ajudar a esposa, o pai - terapeuta - resolve começar um tratamento radical, confrontando-a com seus medos, e a leva para sua cabana na floresta, a que chamam de "Eden". É lá, em um lugar afastado de tudo e todos, cercados de uma natureza filmada em ângulos mórbidos e opressivos e de lembranças que se mesclam entre positivas e melancólicas, que eles são obrigados a exorcizar seus demônios pessoais.
Quem se aventurar a uma sessão de "Anticristo" deve estar ciente de que não está adentrando em território afável: não é a intenção de Lars Von Trier ser acessível ou simpático à raça humana. Mais uma vez em sua filmografia não há espaço para esperanças ou sentimentos nobres, e até mesmo a natureza - algo tão singelo em outras filmografias - é retratada como algo ameaçador e sufocante, como mostra a inesquecível (e impressionante) cena em que os protagonistas fazem sexo ao ar livre, diante de uma árvore retorcida que, sob a visão cruel do cineasta, mostra-se cenário bem pouco apropriado ao ato. Até mesmo animais servem como prenúncios fatídicos na narrativa de Von Trier: um inocente veado simboliza o luto, uma raposa serve de ilustração da dor e um corvo representa o desespero, conforme deixam claro os desenhos que abrem cada um dos capítulos do filme - e, a cada um, mais e mais afundados na angústia ficam os personagens. E a plateia.
Sem medo de ofender ou escandalizar o espectador, Lars Von Trier não se furta a apelar para cenas de extremo impacto físico e emocional, o que inclui até mesmo uma comentada e cruel automutilação genital que testa os limites de qualquer cinéfilo. Para isso, o cineasta contou com a corajosa Charlotte Gainsbourg, que se entrega de corpo e alma na personificação de uma mulher em mais puro desespero. Merecidamente premiada no Festival de Cannes, Gainsbourg acabou se tornando também uma queridinha do diretor, fazendo parte de todos os filmes da "Trilogia da Depressão" gerada por ele, que inclui "Melancolia" e os dois volumes de "Ninfomaníaca". Seu estilo de interpretação, visceral e de uma intensidade quase palpável, é a base na qual se ergue "Anticristo", um filme que se preocupa muito menos com sua história do que com a forma como ela será contada. Tem quem adore. Mas também tem quem odeie. Escolha seu time.
quarta-feira
ONDAS DO DESTINO
ONDAS DO DESTINO (Breaking the waves, 1996, Argus Film Produktie, 159min) Direção: Lars Von Trier. Roteiro: Lars Von Trier, Peter Asmussen. Fotografia: Robby Muller. Montagem: Anders Refn. Figurino: Manon Rasmussen. Produção executivo: Lars Jonsson. Produção: Peter Albaek Jensen, Vibeke Windelov. Elenco: Emily Watson, Stellan Sgarsgaard, Katrin Cartlidge, Jean-Marc Barr, Adrian Rawlins, Sandra Voe, Udo Kier. Estreia: 18/5/96 (Festival de Cannes)
Vencedor do Grande Prêmio do Júri - Festival de Cannes 96
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Emily Watson)
Um estudo sobre a repressão sexual, o amor, a hipocrisia, a religião, o desejo e o preconceito, "Ondas do destino" tornou-se conhecido mundialmente, anos depois de sua estreia no Festival de Cannes de 1996, de onde saiu vencedor do Grande Prêmio do Júri, como o primeiro de uma trilogia cujas heroínas mantinham uma inocência estoica mesmo diante das maiores provações - trilogia essa encerrada com "Os idiotas" (98) e "Dançando no escuro" (00). Mesmo que muitas de suas obras seguintes ainda explorem a figura feminina quase até o limite do sadismo - o que frequentemente lhe confere uma negativa aura de misoginia - foi a dramática história de Bess McNeill, com todas as suas ressonâncias religiosas e psicológicas, que lhe abriu as portas do mercado internacional, a ponto de dar à sua atriz principal, a espetacular Emily Watson, uma indicação ao Oscar - que ela perdeu para Frances McDormand, pelo ótimo mas bem mais palatável "Fargo".
A estória se passa em uma pequena comunidade do interior da Escócia, regida firmemente pelos dogmas ortodoxos de Igreja cujos pastores não hesitam em segregar as mulheres e julgar quem merece ou não ser enterrado como cristão e usufruir do paraíso. É nesse ambiente que vive Bess (Emily Watson em uma interpretação avassaladora), uma jovem com sérios problemas psicológicos que se apaixona e resolve se casar com um estrangeiro, Jan (Stellan Skarsgaard), que trabalha em uma das plataformas de exploração de petróleo distantes do vilarejo. Os dois vivem um princípio de casamento dos mais felizes e sexualmente satisfatórios, até que o rapaz volta ao mar e a deixa solitária e carente. Em suas conversas com Deus - nas quais ela mesma responde suas questões existenciais - ela pede encarecidamente que seu marido retorne ao lar, mas entra em desespero quando seu desejo é atendido tragicamente: Jan volta para casa, mas tetraplégico e impedido de viver uma vida normal. Para manter-se próxima do marido, a jovem acaba acatando um pedido inusitado seu: ele pede que ela faça sexo com outros homens e conte a ele, em detalhes, todas as relações.
Apaixonada e cada vez mais desequilibrada emocionalmente, Bess passa a envolver-se sexualmente com vários homens da aldeia, sem importar-se com as regras morais da localidade e com o desprezo que começa a experimentar na pele: humilhada e agredida nas ruas, ela acredita, masoquisticamente, que seus sacrifícios carnais são os responsáveis por manter Jan vivo, apesar das negativas dos médicos e de sua cunhada, única pessoa em quem ela pode confiar. Gradualmente se transformando em exemplo de má conduta - uma Geni sem o Zepelim - Bess continua dialogando com seu Deus, que ela afirma ter-lhe prometido a cura do marido através de seu sacrifício pessoal. É quando sua família, sem ter outra alternativa, resolve que é hora de mandá-la de volta ao sanatório que ela frequentou anteriormente.
Fotografado com uma técnica especial que lhe permite uma imagem granulada que enfatiza o desconforto e a angústia trêmula da trama criada por Von Trier, "Ondas do destino" se beneficia da atuação desconcertante de Emily Watson para incomodar a plateia, como ele faria com muito mais força em sua obra futura: utilizando sem nenhuma espécie de pudor o sexo como força motriz da via-crucis de sua protagonista, o diretor discute a hipocrisia de uma sociedade puritana através de metáforas religiosas - não seria Bess uma Maria Madalena moderna? - e faz de sua protagonista a portadora de um estoicismo quase pueril, que contrasta com o puritanismo quase cruel das pessoas que a rodeiam. Sua inocência - que faz do sexo quase um ato religioso - a faz muito mais humana que a rigidez dos seus algozes, em tese dignos do respeito e do amor de Deus. Esse paradoxo - polêmico, provocativo, instigante - eleva ainda mais as qualidades cinematográficas do filme, valorizado também por uma trilha sonora fascinante que incluiu Elton John e David Bowie comentando cada um dos capítulos da triste saga de Bess McNeill.
Uma obra-prima dos anos 90, "Ondas do destino" é o antídoto perfeito para a mesmice do cinema norte-americano, com suas heroínas de plástico e seus dramas pasteurizados. Sua linguagem pode não agradar a todo mundo, mas pode ser uma experiência única e inesquecível.
Vencedor do Grande Prêmio do Júri - Festival de Cannes 96
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Emily Watson)
Um estudo sobre a repressão sexual, o amor, a hipocrisia, a religião, o desejo e o preconceito, "Ondas do destino" tornou-se conhecido mundialmente, anos depois de sua estreia no Festival de Cannes de 1996, de onde saiu vencedor do Grande Prêmio do Júri, como o primeiro de uma trilogia cujas heroínas mantinham uma inocência estoica mesmo diante das maiores provações - trilogia essa encerrada com "Os idiotas" (98) e "Dançando no escuro" (00). Mesmo que muitas de suas obras seguintes ainda explorem a figura feminina quase até o limite do sadismo - o que frequentemente lhe confere uma negativa aura de misoginia - foi a dramática história de Bess McNeill, com todas as suas ressonâncias religiosas e psicológicas, que lhe abriu as portas do mercado internacional, a ponto de dar à sua atriz principal, a espetacular Emily Watson, uma indicação ao Oscar - que ela perdeu para Frances McDormand, pelo ótimo mas bem mais palatável "Fargo".
A estória se passa em uma pequena comunidade do interior da Escócia, regida firmemente pelos dogmas ortodoxos de Igreja cujos pastores não hesitam em segregar as mulheres e julgar quem merece ou não ser enterrado como cristão e usufruir do paraíso. É nesse ambiente que vive Bess (Emily Watson em uma interpretação avassaladora), uma jovem com sérios problemas psicológicos que se apaixona e resolve se casar com um estrangeiro, Jan (Stellan Skarsgaard), que trabalha em uma das plataformas de exploração de petróleo distantes do vilarejo. Os dois vivem um princípio de casamento dos mais felizes e sexualmente satisfatórios, até que o rapaz volta ao mar e a deixa solitária e carente. Em suas conversas com Deus - nas quais ela mesma responde suas questões existenciais - ela pede encarecidamente que seu marido retorne ao lar, mas entra em desespero quando seu desejo é atendido tragicamente: Jan volta para casa, mas tetraplégico e impedido de viver uma vida normal. Para manter-se próxima do marido, a jovem acaba acatando um pedido inusitado seu: ele pede que ela faça sexo com outros homens e conte a ele, em detalhes, todas as relações.
Apaixonada e cada vez mais desequilibrada emocionalmente, Bess passa a envolver-se sexualmente com vários homens da aldeia, sem importar-se com as regras morais da localidade e com o desprezo que começa a experimentar na pele: humilhada e agredida nas ruas, ela acredita, masoquisticamente, que seus sacrifícios carnais são os responsáveis por manter Jan vivo, apesar das negativas dos médicos e de sua cunhada, única pessoa em quem ela pode confiar. Gradualmente se transformando em exemplo de má conduta - uma Geni sem o Zepelim - Bess continua dialogando com seu Deus, que ela afirma ter-lhe prometido a cura do marido através de seu sacrifício pessoal. É quando sua família, sem ter outra alternativa, resolve que é hora de mandá-la de volta ao sanatório que ela frequentou anteriormente.
Fotografado com uma técnica especial que lhe permite uma imagem granulada que enfatiza o desconforto e a angústia trêmula da trama criada por Von Trier, "Ondas do destino" se beneficia da atuação desconcertante de Emily Watson para incomodar a plateia, como ele faria com muito mais força em sua obra futura: utilizando sem nenhuma espécie de pudor o sexo como força motriz da via-crucis de sua protagonista, o diretor discute a hipocrisia de uma sociedade puritana através de metáforas religiosas - não seria Bess uma Maria Madalena moderna? - e faz de sua protagonista a portadora de um estoicismo quase pueril, que contrasta com o puritanismo quase cruel das pessoas que a rodeiam. Sua inocência - que faz do sexo quase um ato religioso - a faz muito mais humana que a rigidez dos seus algozes, em tese dignos do respeito e do amor de Deus. Esse paradoxo - polêmico, provocativo, instigante - eleva ainda mais as qualidades cinematográficas do filme, valorizado também por uma trilha sonora fascinante que incluiu Elton John e David Bowie comentando cada um dos capítulos da triste saga de Bess McNeill.
Uma obra-prima dos anos 90, "Ondas do destino" é o antídoto perfeito para a mesmice do cinema norte-americano, com suas heroínas de plástico e seus dramas pasteurizados. Sua linguagem pode não agradar a todo mundo, mas pode ser uma experiência única e inesquecível.
sábado
DOGVILLE
DOGVILLE (Dogville, 2003, Zentropa Entertainment, 178min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Molly Marlene Stensgaard. Figurino: Manon Rasmussen. Direção de arte/cenários: Peter Grant/Simone Grau. Produção: Vibeke Windelov. Elenco: Nicole Kidman, Paul Bettany, Chloe Sevigny, Lauren Bacall, Patricia Clarkson, James Caan, Hariett Andersson, Jean-Marc Barr, Jeremy Davies, Ben Gazzarra, Philip Baker Hall, Zeljko Ivanek, John Hurt, Stellan Skarsgaard, Udo Kier. Estreia: 19/5/03 (Festival de Cannes)
Um diretor que assina filmes como “Ondas do Destino”, “Os Idiotas” e “Dançando no Escuro” não pode ser considerado alguém com muita fé na bondade inerente ao ser humano. Dito isto, é possível entender ainda mais as implicações sociais, psicológicas e religiosas de outra de suas obras consideradas de difícil digestão.“Dogville”, de Lars Von Trier, é possivelmente a mais radical e desconcertante experiência cinematográfica de 2003. E por mais de uma razão.
Pode-se começar pela total e absoluta ruptura de linguagem cinematográfica, que se afasta abruptamente do normal, do mainstream, do comercial... O termo “suspensão da realidade” talvez seja a palavra de ordem aqui. Não há cenários elaborados, não há truques corriqueiros de cinema hollywoodiano, não há deuses ex-machina salvadores. Há Atores (assim mesmo, com A maiúsculo), há a total crença no texto e nas ideias revolucionárias (na falta de palavra melhor), há a história forte e de importante ressonância política, ainda que mal disfarçada por uma metáfora facilmente decodificável. Quem é Grace (Nicole Kidman, ainda em sua fase de boa atriz) senão a representação de povos menos favorecidos que são escravizados pelos colonizadores donos da bola? Quem são os moradores do lugarejo chamado Dogville senão os próprios donos da bola, os colonizadores que exploram aqueles que precisam incondicionalmente de sua ajuda? Nem Michael Moore faria melhor e seria mais incisivo.

A história é simples como convém: uma pequena cidade do Colorado, chamada Dogville, recebe, com suspeitas, a jovem Grace (Nicole Kidman), que se esconde de um grupo de gângsters por motivos que não quer revelar. Influenciados por Tom (Paul Bettany), o intelectual do lugar, os habitantes da cidade aceitam a presença da bela jovem, que, agradecida, passa a ajudar a todos os moradores com suas rotinas diárias. Apaixonado por Grace, Tom não percebe, porém, que a moça começa a ser cada vez mais explorada por todos conforme mais dúvidas vão surgindo a respeito de seu passado. Abusada fisicamente, sexualmente e psicologicamente, Grace se submete a tudo em um resignado silêncio, até que a verdade a seu respeito finalmente aparece e ameaça destruir toda a cidade.
“Dogville” pode ser considerado a colação de grau do Dogma 95, criado por Trier e seus contemporâneos para manter a pureza do cinema enquanto sétima arte. Ao reunir teatro e cinema em um mesmo pacote, o diretor incorreu na ira dos puristas, que não conseguem render-se ao novo, ao experimental. Não é um filme fácil, em nenhuma hipótese. O ritmo é lento, a ação é psicológica e não física (o que a falta de cenários só corrobora) e pode aborrecer os mais ansiosos por barulhos e correrias. Se o objetivo é diversão, é mais garantido recorrer aos blockbusters que abarrotam as videolocadoras. Ao menos, eles têm finais felizes e produções mais caras e elaboradas. E as imagens finais do grande filme de Lars Von Trier, ao som de “Young Americans”, uma das mais críticas canções de David Bowie são a prova inconteste de que finais felizes não podem ser mais anacrônicos do que em um mundo à mercê de grandes e auto-centradas potências.
Um diretor que assina filmes como “Ondas do Destino”, “Os Idiotas” e “Dançando no Escuro” não pode ser considerado alguém com muita fé na bondade inerente ao ser humano. Dito isto, é possível entender ainda mais as implicações sociais, psicológicas e religiosas de outra de suas obras consideradas de difícil digestão.“Dogville”, de Lars Von Trier, é possivelmente a mais radical e desconcertante experiência cinematográfica de 2003. E por mais de uma razão.
Pode-se começar pela total e absoluta ruptura de linguagem cinematográfica, que se afasta abruptamente do normal, do mainstream, do comercial... O termo “suspensão da realidade” talvez seja a palavra de ordem aqui. Não há cenários elaborados, não há truques corriqueiros de cinema hollywoodiano, não há deuses ex-machina salvadores. Há Atores (assim mesmo, com A maiúsculo), há a total crença no texto e nas ideias revolucionárias (na falta de palavra melhor), há a história forte e de importante ressonância política, ainda que mal disfarçada por uma metáfora facilmente decodificável. Quem é Grace (Nicole Kidman, ainda em sua fase de boa atriz) senão a representação de povos menos favorecidos que são escravizados pelos colonizadores donos da bola? Quem são os moradores do lugarejo chamado Dogville senão os próprios donos da bola, os colonizadores que exploram aqueles que precisam incondicionalmente de sua ajuda? Nem Michael Moore faria melhor e seria mais incisivo.
A história é simples como convém: uma pequena cidade do Colorado, chamada Dogville, recebe, com suspeitas, a jovem Grace (Nicole Kidman), que se esconde de um grupo de gângsters por motivos que não quer revelar. Influenciados por Tom (Paul Bettany), o intelectual do lugar, os habitantes da cidade aceitam a presença da bela jovem, que, agradecida, passa a ajudar a todos os moradores com suas rotinas diárias. Apaixonado por Grace, Tom não percebe, porém, que a moça começa a ser cada vez mais explorada por todos conforme mais dúvidas vão surgindo a respeito de seu passado. Abusada fisicamente, sexualmente e psicologicamente, Grace se submete a tudo em um resignado silêncio, até que a verdade a seu respeito finalmente aparece e ameaça destruir toda a cidade.
“Dogville” pode ser considerado a colação de grau do Dogma 95, criado por Trier e seus contemporâneos para manter a pureza do cinema enquanto sétima arte. Ao reunir teatro e cinema em um mesmo pacote, o diretor incorreu na ira dos puristas, que não conseguem render-se ao novo, ao experimental. Não é um filme fácil, em nenhuma hipótese. O ritmo é lento, a ação é psicológica e não física (o que a falta de cenários só corrobora) e pode aborrecer os mais ansiosos por barulhos e correrias. Se o objetivo é diversão, é mais garantido recorrer aos blockbusters que abarrotam as videolocadoras. Ao menos, eles têm finais felizes e produções mais caras e elaboradas. E as imagens finais do grande filme de Lars Von Trier, ao som de “Young Americans”, uma das mais críticas canções de David Bowie são a prova inconteste de que finais felizes não podem ser mais anacrônicos do que em um mundo à mercê de grandes e auto-centradas potências.
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