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quinta-feira

BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA


BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA (Boy erased, 2018, Focus Features/Anonymous Content/Perfect World Pictures, 115min) Direção: Joel Edgerton. Roteiro: Joel Edgerton, livro de Garrard Conley. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Jay Rabinowitz. Música: Danny Bensi, Saunder Jurriaans. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Chad Keith/Mallorie Coleman, Adam Willis. Produção executiva: Nash Edgerton, Kim Hodgert, Tony Lipp, Ann Ruark, Rebecca Yeldham. Produção: Joel Edgerton, Steve Golin, Kerry Kohansky-Roberts. Elenco: Lucas Hedges, Nicole Kidman, Russell Crowe, Joel Edgerton, Xavier Dolan, Madelyn Cline, Victor McKay, Flea, Cherry Jones. Estreia: 01/9/2018 (Festival de Telluride)

Em 2016, quando o livro "Boy erased" foi lançado, boa parte dos EUA ainda considerava legais as terapias de conversão sexual - conhecidas vulgarmente como "cura gay". Sem qualquer fundamento psicológico ou médico, setores ligados principalmente à religião praticamente torturavam jovens com pensamentos homossexuais (muitas vezes nem era necessário que tivessem passado à prática) com sessões de humilhação, rígidas regras de comportamento e tormento psicológico. Em seu livro de memórias, Garrard Conley narrava, mesmo que de forma quase poética, os tormentos pelos quais passou em seu período em um desses tratamentos. De seus escritos (pessoais e emotivos) nasceu um filme sensível e sóbrio, assinado por um ator/roteirista/diretor que promete grandes voos futuros e estrelado por um elenco nunca aquém de excepcional: apesar do fracasso comercial e de não ter chamado tanta atenção quanto se poderia esperar nas cerimônias de premiação, "Boy erased: uma verdade anulada" é uma pérola, um filme que já nasceu destinado a suscitar discussões e se tornar cult - além de ser um instrumento essencial na luta contra os abusos do conservadorismo criminoso que vem se alastrando perigosamente pelo Ocidente.

Dirigido pelo ator Joel Edgerton, que também escreveu o roteiro - depois que o próprio Conley declinou da oportunidade - e assumiu um dos papéis mais importantes da trama, "Boy erased" é um filme de emoções contidas, que raramente apela para o melodrama fácil. Graças à atuação discreta e introspectiva de Lucas Hedges (que vem se mostrando um dos melhores atores de sua geração) e ao tom suave imposto pela edição que não abusa dos flashbacks (mas os usa de forma eficiente), a produção escapa de ser apenas mais um filme-denúncia e se destaca como uma história de amor, respeito e tolerância - mesmo que, para que isso seja alcançado, tenha-se que se passar por pesadelos inimagináveis. Mesmo que não poupe o espectador de um constante desconforto (em especial quando mostra as sessões da malfadada busca pela "cura"), Edgerton evita pesar a mão em excesso: a fotografia de Eduard Grau (que cuidou do belo visual de "Direito de amar", de 2009) é luminosa em boa parte da narrativa (em contraste com o tema sombrio) e a trilha sonora (jamais invasiva) sublinha a ação de forma delicada, quase como um oásis diante da aridez do tema. E se por vezes o roteiro pode soar um tanto superficial (especialmente no desenho de alguns personagens), a falha é compensada pelo empenho de cada um dos atores selecionados pelo diretor (ele próprio incluído).

Lucas Hedges - já indicado ao Oscar de coadjuvante por "Manchester à beira-mar", de 2006 - encontra o tom ideal para seu Jared Eamons, um adolescente de 18 anos, filho de um pastor batista, aluno dedicado e responsável, que se vê obrigado pelos pais a participar do tal programa de "reabilitação", comandado pelo prepotente Victor Sykes (Joel Edgerton em pessoa, em uma caracterização precisa, que se equilibra com exatidão no limite do desprezível). Enquanto testemunha atrocidades no período em que fica isolado de qualquer contato com seu mundo anterior (como celulares, diários e afins), Jared é obrigado a revisitar seu passado e confrontar sua conflituosa sexualidade (oprimida pelos preceitos familiares, pela religião e pela culpa). A única pessoa que lhe dá apoio durante o processo - e mesmo assim sem saber exatamente como agir, dividida entre o amor pelo filho, a fé em Deus e o respeito pelas crenças do marido - é sua mãe, Nancy (Nicole Kidman, brilhante), que tenta servir como porto seguro às turbulências do rapaz. Kidman é dona de alguns dos melhores momentos do filme - como o clímax, inexistente no livro mas eficaz como cinema - e divide com Russell Crowe a difícil missão de oferecer consistência a personagens que poderiam ter sido melhor desenvolvidos pelo roteiro: Marshall e Nancy Eamons surgem apenas como os pais repressores (ainda que amorosos), sem maiores nuances dramáticas ou camadas extras. O mesmo acontece com Sykes, o teatral líder da clínica Love in Action, cujo desfecho - revelado apenas nos letreiros finais - é a irônica pá de cal nas ideias absurdas que servem de base à todo o conceito de reorientação sexual.

Prestes a ser lançado no Brasil no final de janeiro de 2019, "Boy erased" acabou tendo sua estreia cancelada - a distribuidora alegou como motivos para tal decisão o fraco desempenho do filme nas bilheterias internacionais e a falta das esperadas indicações ao Oscar, mas ficou no ar o cheiro de censura que chegava com o novo governo (para dizer o mínimo) conservador. Tal situação não deixa de ser uma demonstração clara da importância do filme, com suas discussões e seu tema se tornando cada vez mais urgentes e fundamentais. Pode não ser uma obra-prima, mas serve como base para longos e sérios debates - e, como cinema, confirma Joel Edgerton (cuja estreia como diretor, o suspense "O presente", de 2015, já tinha indiscutíveis qualidades) como um cineasta promissor e relevante, capaz de surpreender em um futuro próximo.

terça-feira

SAÍDA À FRANCESA

 


SAÍDA À FRANCESA (French exit, 2020, Blinder Films/Elevation Pictures/Rocket Sciense/Sony Pictures, 113min) Direção: Azazel Jacobs. Roteiro: Patrick DeWitt, romance homônico de sua autoria. Fotografia: Tobias Datum. Montagem: Hilda Rasula. Música: Nicholas DeWitt. Figurino: Jane Petrie. Direção de arte/cenários: Jean-Andre Carriere/Manon Lemay, Joelle Péloquin. Produção executiva: Matt Aselton, Ian Cooper, Patrick DeWitt, Azazel Jacobs, Adrian Love, Stuart Manashil, Vincent Maraval, Marc Marrie, Laurie May, Darrin Navarro, Thorsten Schumacher, Lars Sylvest. Produção: Trish Dolman, Olivier Glaas, Christine Haebler, Katie Holly, Christina Piovesan, Noah Segal. Elenco: Michelle Pfeiffer, Lucas Hedges, Tracy Letts, Valerie Mahaffey, Susan Coine, Imogene Poots, Danielle Macdonald. Estreia: 10/10/2020 (New York Festival)

Frances Price é viúva há mais de dez anos – mais de uma década em que convive com a desconfiança das pessoas em relação ao fato de ter demorado muito mais que o conveniente para tomar qualquer atitude diante do marido morto. Mais de uma década vivendo de uma herança que, como quase tudo, tem prazo para acabar. Sabendo que sua imagem de socialite está com os dias contados – sua vida perdulária e irresponsável finalmente cobra o preço depois de excentricidades irresponsáveis -, Frances resolve esconder sua nova situação e, passando a mão em seus últimos bens e no único filho, Malcolm, viaja para morar em Paris, no apartamento da única amiga que ainda lhe resta. Lá, ela pretende fugir do olhar crítico da alta sociedade a que um dia pertenceu – e viver discretamente seus derradeiros anos de vida.

Talvez a sinopse de “Saída à francesa” não seja exatamente entusiasmante. Porém, por mais paradoxal que isso pareça quando se trata de uma produção cinematográfica made in Hollywood, a intenção do diretor Azazel Jacobs seja justamente esta: demonstrar que nem sempre são necessárias ideias mirabolantes para se criar um filme interessante. E “Saída à francesa”, a despeito da simplicidade de sua trama, É um filme interessante. Por trás da história banal de uma mulher incapaz de abandonar seu status social mesmo quando já não há onde se amparar, há um roteiro repleto de ironias, peculiaridades e personagens complexos, capazes de surpreender ao espectador que se permitir embarcar em sua estranha narrativa.

 

Não que Jacobs aposte em uma atmosfera bizarra ou escorada em um realismo fantástico para contar sua história. O roteiro, porém, escrito pelo mesmo Patrick DeWitt autor do livro que lhe deu origem, brinca com o público ao intercalar, com uma séria crítica à decadência da burguesia norte-americana, um tom quase surreal que mistura espíritos que falam através de gatos (ou tudo não passa de fraude?), pessoas cuja solidão desesperada gritam por ajuda e as belíssimas paisagens parisienses. Paris, aliás, não é apenas um cenário gratuito: com seu ar sofisticado, é o destino ideal para que Frances desfile sua classe e suas idiossincrasias, e, de forma discreta, saia de cena sem chamar atenção demais – nem mesmo de seu dileto e passivo rebento, um rapaz cuja falta de atitude contrasta com os rompantes da mãe. Sem forças nem mesmo para desafiar os desejos maternos e assumir o noivado com a namorada, Malcolm soa, na vida de Frances, mais como um percalço do que um filho – uma relação cuja placidez da superfície guarda cicatrizes bem mais profundas e que remetem a um passado bem menos atribulado.

E se o roteiro de “Saída à francesa” trabalha bem em deixar escondidos os sentimentos de seus personagens, é um acerto gigantesco que seu elenco seja tão bem escalado. Se Lucas Hedges mais uma vez aposta em uma atuação quase invisível e os atores de apoio entregam exatamente o que se espera deles – com destaque para a ótima Valerie Mahaffey, como uma insuspeita amizade que surge no período francês da protagonista e que é dona de algumas das cenas mais engraçadas -, é inegável que o show aqui é de Michelle Pfeiffer. Indicada ao Golden Globe por seu trabalho (e seriamente cotada para concorrer ao Oscar, em previsões da crítica), Pfeiffer está em um dos melhores momentos da carreira, com um desempenho sutil, que deixa antever um subtexto rico e complexo. Mesmo quando se vê diante de situações em que uma atriz menos experiente poderia escorregar, a eterna Mulher-gato surpreende ao optar sempre pelo menos óbvio. Sua interpretação é o apoio mais que perfeito para uma obra que, evitando os clichês e a crítica fácil, faz uma caricatura sensível e carinhosa de uma geração cuja decadência nem sempre aconteceu com elegância.

sexta-feira

LADY BIRD: A HORA DE VOAR


LADY BIRD: A HORA DE VOAR (Ladybird, 2017, A24, 94min) Direção e roteiro: Greta Gerwig. Fotografia: Sam Levy. Montagem: Nick Houy. Música: Jon Brion. Figurino: April Napier. Direção de arte/cenários: Chris Jones/Traci Spadorcia. Produção executiva: Lila Yacoub. Produção: Eli Bush, Evelyn O'Neil, Scott Rudin. Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Lois Smith, Beanie Feldstein, Odeya Rush. Estreia: 01/9/2017 (Festival de Telluride)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Greta Gerwig), Atriz (Saoirse Ronan), Atriz Coadjuvante (Laurie Metcalf), Roteiro Original

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Saoirse Ronan) 

Filmes que retratam o fim da adolescência e entrada na vida adulta são comuns, e frequentemente deslizam no sentimentalismo ou no humor grosseiro. Raramente surge uma produção que consegue unir sensibilidade, bom humor e inteligência. Talvez por isso "Lady Bird: a hora de voar" tenha se tornado um dos maiores sucessos de sua temporada. Realizado com um orçamento minúsculo (aproximadamente 10 milhões de dólares, o que não paga nem o cachê de nomes como Julia Roberts e Angelina Jolie), o filme de estreia da atriz Greta Gerwig como cineasta rendeu quase cinco vezes isso no mercado doméstico e chegou perto de 80 milhões em arrecadação internacional. Tal êxito - refletido também no aplauso unânime da crítica e das cerimônias de premiação, incluindo presença no Oscar e no Golden Globe - tem inúmeras explicações, mas talvez a maior delas seja justamente sua falta de pretensão: sem lances rocambolescos ou truques dramáticos lacrimosos, "Lady Bird" se desenrola diante do espectador como uma deliciosa crônica de amadurecimento pessoal, com uma protagonista adorável mas falível interpretada pela cada vez melhor Saiorse Ronan.

Revelada no elogiado "Desejo e reparação", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante ainda na adolescência, Ronan conquistou a confiança da diretora logo de cara, ao fazer uma leitura do roteiro durante o Festival de Toronto de 2015. Ao deixar de lado o sotaque irlandês e assumir o visual de uma adolescente (mesmo que já tivesse passado dos vinte anos durante as filmagens), a jovem atriz dá continuidade a uma carreira que, apesar de ainda curta, já é uma das mais consistentes de Hollywood. Graças à direção segura de Gerwig, Ronan veste a personagem com naturalidade admirável e não teme soar desagradável de vez em quando - especialmente em sua relação com a mãe, Marion (Laurie Metcalf), e em suas tentativas de tornar-se popular mesmo sacrificando sua amizade com Julie (a ótima Beanie Feldstein, do igualmente ótimo "Fora de série"). Enquanto aguarda as respostas das universidades a que almeja, Lady Bird (cujo nome verdadeiro é Christine) ainda lida com os problemas inerentes à sua idade, como, por exemplo, sua busca por amor. Nessa busca, ela esbarra em Danny (Lucas Hedges), seu colega do grupo de teatro, e no personalíssimo Kyle (Timothée Chalamet).

 

A primeira versão do roteiro de Gerwig tinha, segundo a própria diretora, mais de 350 páginas - ou, se transformado em filme, algo em torno de seis horas de duração. Logicamente seu texto foi retrabalhado até chegar a aceitáveis 94 minutos. Nesse meio tempo, outro cineasta esteve envolvido nos bastidores da produção: namorado da atriz, a quem dirigiu em seu aplaudido "Frances Ha" (2012), Noah Baumbach chegou a se oferecer para comandar o filme - uma sugestão delicadamente rejeitada... e bem sucedida. Muito provavelmente Baumbach, a despeito de seu grande talento, não teria o mesmo carinho com que Gerwig trata suas criações. Mesmo quando mostra um lado pouco louvável dos personagens, o roteiro o faz com tanta verdade, tanto frescor, que é difícil não se deixar cativar. Lady Bird é uma adolescente cheia de falhas, mas também é repleta de qualidades - e é nessa dualidade, nessa complexidade que reside a genialidade do desempenho de Saoirse Ronan. Ela não cria uma personagem imaculada para conquistar a plateia, e sim um ser humano o mais perto possível do real, que envolve o público tanto por seus erros quanto por seus acertos.

"Lady Bird" estreou no Festival de Telluride, em setembro de 2017 e, a partir daí, tornou-se figurinha fácil em festivais de cinema e integrante fixo das listas de melhores filmes do ano. Levou pra casa os Golden Globes de melhor filme e melhor atriz (ambos na subcategoria musical ou comédia) e chegou à cerimônia do Oscar com cinco indicações importantíssimas, inclusive melhor filme e direção. Pode não ter sido feliz em converter as indicações em estatuetas, mas foi realizado o desejo de Gerwig em realizar um filme sobre a entrada na vida adulta de uma personagem feminina como contraponto aos bem-sucedidos "Boyhood: da infância à juventude" (2014) e "Moonlight: sob a luz do luar" (2016). Do primeiro traz o sabor de crônica do dia-a-dia, e do segundo, um tom de poesia e certa melancolia. De ambos, apresenta um produto final que mostra a força do cinema independente - e a coragem de nadar contra a maré e evitar o drama fácil. "Lady Bird: a hora de voar" é uma pérola. Um clássico instantâneo e atemporal.

segunda-feira

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME (Three billboards outside Ebbing, Missouri, 2017, Fox Searchligth Pictures/Film4, 155min) Direção e roteiro: Martin McDonagh. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Jon Gregory. Música: Carter Burwell. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Inbal Weinberg/Melissa Lombardo. Produção executiva: Daniel Battsek, Rose Garnett, David Kosse, Diarmuid McKeown, Bergen Swanson. Produção: Graham Broadbent, Pete Czernin, Martin McDonagh. Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Lucas Hedges, John Hawkes, Peter Dinklage, Abbie Cornish, Zeljko Ivanek, Caleb Landry Jones. Estreia: 04/9/17 (Festival de Veneza)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Frances McDormand), Ator Coadjuvante (Woody Harrelson/Sam Rockwell), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Frances McDormand), Ator Coadjuvante (Sam Rockwell)
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Atriz/Drama (Frances McDormand), Ator Coadjuvante (Sam Rockwell), Roteiro 

A presença da atriz Frances McDormand, a ambientação no interior dos EUA, os diálogos certeiros e uma visão crítica a respeito das instituições e do american way of life dão a impressão errada de que "Três anúncios para um crime" é um filme dos irmãos Joel e Ethan Coen, especialistas em encontrar particularidades na mais trivial das histórias. Porém, um dos filmes mais premiados e elogiados da temporada 2017 é apenas o terceiro longa-metragem de um cineasta inglês, nascido em 1970 e que logo em sua estreia, a comédia policial "Na mira do chefe" (2008), já havia conquistado uma indicação ao Oscar de roteiro original. Diretor também do subestimado "Sete psicopatas e um shih tzu", um suspense cômico com tons de metalinguagem, lançado em 2012, Martin McDonagh se tornava, de uma hora para outra, em um queridinho da crítica e uma surpreendente revelação para o público, que deixou, pelo mundo afora, mais de 150 milhões de dólares nas caixas registradoras - um sucesso impressionante, especialmente quando se leva em consideração seu custo irrisório de estimados 15 milhões.

Desde sua estreia, no Festival de Veneza (de onde saiu com o prêmio de melhor roteiro), "Três anúncios para um crime" tornou-se um nome forte para a temporada de premiações, principalmente graças ao trabalho primoroso de Frances McDormand e a força dos coadjuvantes interpretados por Woody Harrelson e Sam Rockwell. Antes que chegasse ao Golden Globe e levasse três estatuetas melhor filme e atriz na categoria drama, e roteiro) e ao Oscar, com sete indicações e dois prêmios (atriz e ator coadjuvante para Rockwell), o filme de McDonagh já havia sido laureado por críticos de Boston, Chicago, Detroit, Las Vegas, Londres e Toronto - além das vitórias do Independent Spirit e no Sindicato de Atores (o SAG). Com uma lista notável de prêmios e elogios do mundo todo, não foi nenhuma surpresa quando ficou entre os finalistas para o Oscar - a surpresa foi McDonagh ter sido esnobado na categoria de melhor diretor, uma injustiça imperdoável. Orquestrando com inteligência e sensibilidade um espetáculo centrado em atores e diálogos, o jovem cineasta não apenas criou uma trama instigante e personagens complexos - com segurança ímpar, deu espaço ao brilho de seu elenco sem jamais deixar de lado o que mais se espera de um diretor de cinema: contar uma boa história.


Fugindo dos clichês e das obviedades, "Três anúncios para um crime" já conquista o espectador nas primeiras cenas: inconformada com a falta de empenho da polícia em resolver o estupro e assassinato de sua filha adolescente, Mildred Hayes (Frances McDormand, em um desempenho de cair o queixo), funcionária de uma loja de presentes da pequena cidade de Ebbing, no Missouri, resolve cutucar as autoridades com vara curta. Por um ano, ela aluga três outdoors vagos na entrada da cidade, questionando o andamento das investigações e afrontando principalmente o chefe de polícia do local, William Willoughby (Woody Harrelson). A jogada chama a atenção da imprensa e movimenta a cidade, que passa a dividir-se em quem apoia a desesperada mãe e aqueles que não aprovam seu ato. Entre estes últimos está outro policial, Dixon (Sam Rockwell), racista, preconceituoso e violento, que praticamente toma para si o desaforo e passa a atormentar a vida de Mildred. Enquanto isso, ela lida com o filho vivo, Robbie (Lucas Hedges), o ex-marido abusador, Charlie (John Hawkes), e sua relação de compaixão com Willoughby, que lhe revela estar morrendo de câncer. A esta salada de personagens (bem construídos e vívidos), juntam-se a mãe dominadora de Dixon, um anão interessado em Mildred (participação especial de Peter Dinklage, da série "Game of Thrones") e outros moradores de Ebbing, cada qual com suas próprias idiossincrasias.

Fosse uma série de televisão, "Três anúncios para um crime" teria muito o que explorar, devido ao talento de Martin McDonagh em dotar cada um de seus personagens com características interessantes e imprevisíveis. Como é apenas um filme (e dos bons), ele se dedica a seus protagonistas, lhes dando espaço o bastante para o brilho individual e coletivo. Não à toa, tanto Sam Rockwell quanto Woody Harrelson foram indicados ao Oscar de coadjuvante, e se Rockwell saiu-se vencedor, boa parte do mérito deve-se ao arco dramático de seu personagem, talvez o mais surpreendente da trama. Frances McDormand - para quem o papel de Mildred Hayes foi especificamente escrito - dá um show na pele da sofrida e corajosa mãe, inserindo em sua interpretação uma fina ironia e uma intensidade de que só as melhores atrizes são capazes. Até mesmo o final do filme, inconclusivo para uns, é um sopro de originalidade e ousadia, o que imediatamente impõe em McDonagh grandes expectativas em relação a seu futuro como roteirista e diretor. "Três anúncios" perdeu o Oscar de melhor filme para o igualmente excelente "A forma da água", mas certamente escreveu seu nome na lista das grandes produções de sua época - e o tempo apenas irá reiterar seu status de cult.

sábado

MANCHESTER À BEIRA-MAR

MANCHESTER À BEIRA-MAR (Manchester by the sea, 2016, Amazon Studios/K Period Media/Pearl Street Films, 137min) Direção e roteiro: Kenneth Lonergan. Fotografia: Jody Lee Lipes. Montagem: Jennifer Lame. Música: Lesley Barber. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Ruth De Jong/Florencia Martin. Produção executiva: Declan Baldwin, Josh Godfrey, John Krasinski, Bill Migliore. Produção: Lauren Beck, Matt Damon, Chris Moore, Kimberly Steward, Kevin J. Walsh. Elenco: Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle Chandler, Lucas Hedges, Gretchen Mol, Matthew Broderick. Estreia: 23/01/16 (Festival de Sundance)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Kenneth Lonergan), Ator (Casey Affleck), Ator Coadjuvante (Lucas Hedges), Atriz Coadjuvante (Michelle Williams), Roteiro Original
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Casey Affleck), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Casey Affleck) 

A cerimônia de entrega do Oscar 2017 ficou marcada pela maior gafe da história do prêmio, quando os apresentadores Warren Beatty e Faye Dunaway divulgaram o filme errado como vencedor da principal estatueta - uma situação constrangedora resolvida ainda no palco e diante dos olhos de milhões de pessoas ao redor do mundo. Porém, antes disso, outro momento desconfortável havia acontecido sem que houvesse tanto alarde: ao ser anunciado como o melhor ator do ano por seu desempenho em "Manchester à beira-mar", Casey Affleck recebeu o troféu das mãos da melhor atriz do ano anterior, Brie Larson (por "O quarto de Jack") - e ela simplesmente se recusou a cumprimentá-lo com mais efusão do que um simples aperto de mãos. Explica-se: acusado de assédio sexual por diversas mulheres envolvidas no falso documentário "I'm still here", com Joaquin Phoenix, Affleck batia de frente com o envolvimento de Larson em campanhas contra tais atitudes. O gesto da atriz - cujo Oscar aconteceu justamente por uma personagem vítima de cárcere privado e abuso - passou quase em branco, mas acabou por manchar a trajetória de um filme que, desde sua estreia, no Festival de Sundance mostrou-se uma das mais premiadas produções da temporada - com Affleck sendo eleito melhor ator não apenas pela Academia, mas também pelo Golden Globe, pelo BAFTA e algumas das mais importantes associações de críticos dos EUA.

A ironia é que Affleck nem era a primeira escolha para o papel principal do filme, dirigido por Kenneth Lonergan, conhecido por suas produções independentes - e indicações ao Oscar de roteiro por "Conte comigo" (2000) e "Gangues de Nova York" (2003): quando a ideia da história surgiu, durante as filmagens de "Os agentes do destino" (2011), em um jantar entre Matt Damon (astro do filme) e John Krasinski (também ator, casado com a estrela da produção, Emily Blunt). Krasinski deu a ideia do roteiro a Damon, que gostou tanto da possibilidade de transformá-la em filme que se dispunha inclusive a dirigir e ficar com o papel principal. Lonergan, seu amigo de longa data, aceitou a proposta de escrever o roteiro, mas compromissos anteriores atrasaram tanto o projeto que, quando finalmente colocou seu ponto final na trama, Matt Damon é quem estava com a agenda cheia. Se mantendo no papel de produtor, ele sugeriu Casey Affleck para liderar o elenco. E a coisa tomou forma: com um custo de 8 milhões e meio de dólares e filmado em apenas 32 dias, "Manchester à beira-mar" foi a primeira produção distribuída pela Amazon Studios e arrecadou mais de 60 milhões de dólares mundo afora - graças principalmente ao fato de ter se tornado queridinho dos críticos desde sua estreia.



"Manchester à beira-mar" é um drama no melhor sentido da palavra: sem medo de apostar nos sentimentos mais primais do público, Kenneth Lonergan não poupa sofrimento a seus personagens, e carrega junto cada um na plateia a um mundo triste e solitário - mas felizmente temperado com um sutil senso de humor e uma espécie de otimismo que escapa até mesmo nos momentos mais difíceis, uma característica do diretor. Seu protagonista, Lee Chandler, é um Jó moderno, um homem de quem tudo foi tirado sem piedade e que leva sua vida no piloto automático - por motivos que vão sendo revelados aos poucos e justificam plenamente sua apatia diante da rotina e seu comportamento agressivo. Separado da mulher, Randi (Michelle Williams, brilhante e indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e trabalhando como um silencioso e ranzinza zelador de um prédio em Boston, longe de seus últimos vínculos familiares, com o irmão, Joe (Kyle Chandler), e o sobrinho adolescente, Patrick (Lucas Hedges, indicado ao Oscar de ator coadjuvante). Quando Joe morre em decorrência de uma doença cardíaca, Lee descobre que, por uma determinação em seu testamento, deve ficar com a guarda do rapaz. Logicamente Patrick não quer deixar a cidade de Manchester - onde tem amigos, uma banda e duas namoradas - e Lee não tem intenções de voltar ao cenário de sua tragédia particular: está estabelecido o impasse.

Unanimemente aplaudido por seu desempenho no papel central, Casey Affleck na verdade não faz muito mais do que desfilar pela tela de forma apática e desanimada - uma característica do personagem, é claro, mas basta uma conferida em outras de suas atuações, inclusive na que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante, em "O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford" (2007), para perceber que não há muita diferença. Sem carisma o bastante para conectar a audiência a seu sofrimento, Affleck acaba por transformar um roteiro poderoso (vencedor da estatueta em sua categoria) em um drama apenas interessante, valorizado muito mais pelo elenco secundário do que por seu protagonista. Apesar de aparecer pouquíssimo em cena, Michelle Williams simplesmente rouba o filme, em um momento em que finalmente todo o drama represado pela sutileza de Lonergan vem à tona - são lágrimas necessárias para transformar o árido caminho de Lee em algo menos duro para a plateia, e Michelle cumpre a missão com louvor mesmo diante de um quase invisível Casey Affleck, mais um (dentre vários) casos de alucinação coletiva junto aos membros da Academia. "Manchester à beira-mar" não é um filme bom por causa de Affleck: ele é bom apesar dele.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...