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terça-feira

IMPRÓPRIO PARA MENORES


IMPRÓPRIO PARA MENORES (Noises off, 1992, Touchstone Pictures, 101min) Direção: Peter Bogdanovich. Roteiro: Marty Kaplan, peça teatral de Michael Frayn. Fotografia: Tim Suhrstetd. Montagem: Lisa Day. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Norman Newberry/Jim Duffy. Produção executiva: Peter Bogdanovich, Kathleen Kennedy. Produção: Frank Marshall. Elenco: Michael Caine, Christopher Reeve, Denholm Elliot, Carol Burnett, John Ritter, Julie Hagerty, Marilu Henner, Nicolette Sheridan, Mark Linn-Baker. Estreia: 20/3/92

Crítico, historiador de cinema e diretor de alguns filmes indispensáveis do começo dos anos 1970, como "A última sessão de cinema" (1971) - que lhe rendeu duas indicações ao Oscar -, "Essa pequena é uma parada" (1972) e "Lua de papel" (1973), Peter Bogdanovich nunca recuperou, nas décadas seguintes, o mesmo prestígio e o mesmo sucesso de bilheteria. Com exceção de "Marcas do destino" (1985) - que deu a Cher o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes -, seus trabalhos pareciam ter perdido a conexão com as plateias, e nem mesmo "Texasville" (1990), que revisitava os aclamados personagens de "A última sessão", conseguiu reverter esse quadro. Foi nesse período de declínio profissional que ele tentou voltar às comédias, com a adaptação da peça teatral "Noises off", indicada ao Tony de melhor espetáculo de 1984. Não reencontrou seu público, mas demonstrou que sua segurança em lidar com os mecanismos do humor anárquico/caótico ainda se mantinha intocável. Contado com um elenco heterogêneo e um texto preciso e inteligente que homenageia o teatro (e por consequência tudo que o cerca), "Impróprio para menores" é um filme que lembra o melhor de Woody Allen - que evocaria o mesmo universo em seu "Tiros na Broadway" dois anos depois.

"Impróprio para menores" é contado, como uma peça de teatro, em três atos bem definidos, unidos por uma narração em off do diretor Lloyd Fellowes (Michael Caine), que sofre com a possibilidade de sua montagem da comédia "Nothing on" ser um fracasso monumental. A trama da peça - um vaudeville ligeiro e popular - gira em torno de um chalé no campo visitado por dois casais que não deveriam estar lá, uma empregada pouco confiável, um ladrão de residências e um sheik árabe interessado na compra do imóvel. Mas se no palco a confusão é generalizada, nos bastidores as coisas são ainda mais complicadas: o ator Gary Lejeune (John Ritter) tem um caso com a colega Dotty Ottley (Carol Burnett), significantemente mais velha; o galã Frederick Dallas (Christopher Reeve) é abandonado pela esposa poucas horas antes da estreia; o veterano Selsdon Mowbray (Denholm Elliott) está entregue ao vício da bebida e está a cada dia mais surdo; e o próprio diretor está envolvido em um triângulo amoroso com a bela Brooke Ashton (Nicolette Sheridan) e a assistente de palco Poppy Taylor (Julie Hagerty). No período que antecede a estreia do espetáculo na Broadway - quando o grupo viaja por várias cidades do interior como forma de fortalecer sua união e a qualidade das apresentações -, as situações vão ficando mais e mais absurdas, o que ameaça a continuidade da temporada.

 

Contado como uma peça de teatro em três atos - o primeiro antes da estreia em um teatro de Iowa, o segundo em uma caótica apresentação em Miami, e o terceiro na Broadway em si -, "Impróprio para menores" explora os mais variados tipos de humor. Da comédia de erros de seu primeiro capítulo ele se transforma em um espetáculo de quase cinema mudo (com uma precisão de movimentos que ecoa a própria peça que se desenrola como pano de fundo), e Bogdanovich mostra que ainda domina o tempo cômico que apresentou em "Essa pequena é uma parada". Para isso, ele tem a sorte de contar com atores que entendem totalmente o espírito do projeto e alguns (como Christopher Reeve) surpreendem com um inesperado talento para a comédia. Carol Burnett - especialista no gênero - nem precisa se esforçar muito para imprimir sua marca, e Michael Caine de certa forma surge como o mais equilibrado da trupe, oferecendo a seu Lloyd Fellowes um misto de tranquilidade externa e turbilhão interior a que apenas a plateia tem acesso. E Caine, com sua generosidade, foi o responsável por um dos grandes acertos do filme: a escalação do ator Denholm Elliott.

Amigo de Michael Caine desde que contracenaram em "Como conquistar as mulheres" (1966), o britânico Elliott havia descoberto pouco tempo antes que era portador do vírus da AIDS - uma doença ainda cercada de extremo preconceito no começo dos anos 1990. Sabendo da situação do amigo, e de sua potencial dificuldade em encontrar trabalho a partir dali, Caine - que já o havia derrotado na disputa pelo Oscar de coadjuvante de 1986 - condicionou sua participação em "Impróprio para menores" à contratação do colega para o papel que John Gielgud havia recusado. Condição aceita, Elliott entregou uma performance inspirada que seria a sua última: ele morreu meses depois da estreia do filme e Caine, por sua vez, entraria em um período prolífico da carreira a partir de seu segundo prêmio da Academia, por "Regras da vida" (1999). Peter Bogdanovich, por sua vez, jamais recuperaria seu status de grande diretor, acumulando uma sucessão de fracassos até sua morte, em janeiro de 2022.

MEU PAI


MEU PAI (The father, 2020, Sony Pictures/Les Films du Cru/Film4/Orange Studio, 97min) Direção: Florian Zeller. Roteiro: Christopher Hampton, Florian Zeller, peça teatral de Florian Zeller. Fotografia: Ben Smithard. Montagem: Yorgos Lamprinos. Música: Ludovico Eunadi. Figurino: Anna Mary Scott Robins. Direção de arte/cenários: P
eeter Francis/Cathy Featherstone. Produção executiva: Daniel Battsek, Lauren Dark, Paul Grindey, Hugo Grumbar, Tim Haslam, Ollie Madden. Produção: Philippe Carcassone, Simon Friend, Jean-Louis Livi, David Parfitt, Christophe Spadone. Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Olivia Williams, Rufus Sewell, Imogene Poots, Mark Gatiss, Ayesha Dharker. Estreia: 27/01/2020 (Sundance Film Festival)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Anthony Hopkins), Atriz Coadjuvante (Olivia Colman), Roteiro Adaptado, Montagem, Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 2 Oscar: Ator (Anthony Hopkins), Roteiro Adaptado

A cerimônia do Oscar 2021 - dirigida por Steven Soderbergh e realizada em plena pandemia de Covid-19 - estava programada e organizada para acabar com a vitória de Chadwick Boseman na categoria de melhor ator, por "A voz suprema do blues". Até mesmo a regra já consagrada de deixar o anúncio de melhor filme para o final do evento havia sido alterada para que Boseman - morto precocemente poucos meses antes, aos 43 anos - fosse homenageado com um prêmio póstumo. Para surpresa geral, no entanto - de Soderbergh, dos convidados e dos telespectadores ao redor do mundo -, os membros da Academia preferiram oferecer sua cobiçada estatueta a um antigo vencedor. Por seu desempenho avassalador em "Meu pai", o galês Anthony Hopkins saiu da temporada seu segundo e inesperado Oscar - que foi fazer companhia ao prêmio dos críticos de Boston e ao BAFTA. E até mesmo os fãs do protagonista de "Pantera Negra" foram obrigados a reconhecer que, apesar de seu bom trabalho, sua derrota para Hopkins foi absolutamente justa. Assim como já havia acontecido em 1992, com "O silêncio dos inocentes", basta alguns momentos para que se perceba que premiar outro intérprete seria algo inconcebível.

Um dos mais devastadores retratos do mal de Alzheimer registrados no cinema, "Meu pai" é o filme de estreia do francês Florian Zeller, também autor da peça teatral que lhe deu origem e corroteirista da adaptação - pela qual levou um Oscar, que dividiu com Christopher Hampton. Seu trabalho é minucioso e sensível: sem abandonar a origem de seu texto, Zeller se utiliza de todos os recursos cênicos do cinema como forma de potencializar a sensação de desorientação do protagonista. Não à toa seus principais destaques além do elenco - a edição e o desenho de produção - foram igualmente lembrados pela Academia, rendida à inteligência do autor em contar sua história de forma a mergulhar o espectador na mente confusa de seu personagem central: ao invés de simplesmente mostrar a fragmentação de suas memórias e pensamentos, o filme perturba a zona de conforto do público ao fazê-lo questionar, desde suas primeiras cenas, o que é realidade e o que é parte do transtorno mental de Anthony, um inglês octogenário que se vê sucumbindo rapidamente à demência que borra radicalmente as linhas divisórias entre os fatos e as armadilhas de sua mente.

 

Assistir a "Meu pai" é adentrar em um universo que impede qualquer tipo de certezas factuais. Logo na primeira cena, Anthony (em uma atuação nunca aquém de magistral de Hopkins) se vê encostado na parede por sua filha, Anne (Olivia Colman, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), que tenta convencê-lo a aceitar os cuidados de uma enfermeira: ciente de que o pai está a cada dia mais confuso e perdendo a noção do que é real, ela também lhe informa que está em vias de sair de Londres e se mudar para Paris com o novo namorado. A partir daí, no entanto, o estado mental do octogenário entra em colapso absoluto, confundido nomes, datas, cenários, conversas e cronologias. O filme de Zeller, então, trabalha com a inconstância psicológica de seu protagonista através de uma edição primorosa, que embaralha as cenas e as situações decorrentes da premissa inicial. Em seus delírios (devidamente testemunhados por um atarantado espectador), Anthony confunde rostos e nomes, datas e situações, aposentos domésticos e até mesmo mantém como viva a memória de uma filha morta precocemente. Sua angústia atinge principalmente Anne, cuja vida não consegue progredir enquanto não resolver o problema de conviver com o mal de seu pai - uma questão que prejudica seu relacionamento com Paul (Rufus Sewell), pouco paciente com a falta de perspectivas em relação ao futuro.

"Meu pai" é uma obra-prima em todos os aspectos. Anthony Hopkins oferece ao público o maior desempenho de sua carreira - o que, se tratando do homem que legou ao cinema o apavorante Hannibal Lecter de "O silêncio dos inocentes" (1991) - e a direção segura de Florian Zeller nem de longe dá pistas de que este é seu trabalho de estreia. Sofisticado e inteligente ao mesmo tempo em que não foge da emoção mais primordial - uma das cenas finais arrancou lágrimas até mesmo da equipe, no momento da filmagem -, fica na memória do público graças à feliz confluência de elementos essenciais para um resultado dos mais sólidos do cinema recente. Uma pena que o filme seguinte do diretor, "Um filho" (2022) - que acompanha a relação entre um pai e seu filho com problemas com drogas - ficou muito abaixo das expectativas apesar da presença do esforçado Hugh Jackman.

 

sexta-feira

O DOCE SABOR DE UM SORRISO

 


O DOCE SABOR DE UM SORRISO (Only when I laugh, 1981, Columbia Pictures, 120min) Direção: Glenn Jordan. Roteiro: Neil Simon, peça teatral "The gingerbread lady", de sua autoria. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: John Wright. Música: David Shire. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. Produção: Roger M. Rothstein, Neil Simon. Elenco: Marsha Mason, James Coco, Joan Hackett, Kristy McNichol, David Dukes, Peter Coffield. Estreia: 13/9/81 (Festival de Toronto)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Marsha Mason), Ator Coadjuvante (James Coco), Atriz Coadjuvante Joan Hackett)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Joan Hackett) 

Um dos mais populares dramaturgos norte-americanos dos anos 1960 e 1970, Neil Simon não apenas consagrou-se nos palcos da Broadway mas também teve uma bem-sucedida carreira em Hollywood, assinando grandes sucessos, que chegaram a lhe render indicações ao Oscar - pelos filmes "Um estranho casal" (1968), "Uma dupla desajustada" (1975), "A garota do adeus" (1977) e "California Suite" (1978). Vencedor de 3 Tony Awards e referência do teatro nos EUA, Simon enfrentou, em 1970, um revés artístico e comercial: sua peça "The gingerbread lady" teve uma decepcionante trajetória e parecia fadada a entrar para a história como um de seus poucos equívocos. Porém, na arte nem sempre um fracasso é definitivo, e onze anos depois, rebatizado de "Only when I laugh", seu texto ressurgiu em forma de roteiro e, posteriormente como um filme. Dirigido por Glenn Jordan e produzido pelo próprio Neil Simon, "O doce sabor de um sorriso" arrebatou três indicações ao Oscar (incluindo na categoria de melhor atriz, para Marsha Mason, então casada com o escritor) e reafirmou sua posição como um roteirista dos mais confiáveis e admiráveis de sua geração. Mesmo com sua história construída dentro de um universo todo particular - o mundo do teatro nova-iorquino, com suas idiossincrasias e dramas -, o filme estrelado por Mason acerta ao dotar sua protagonista de sentimentos universais e facilmente reconhecíveis dentro de qualquer família disfuncional.

A personagem central do filme é Georgia Hines (Marsha Mason), uma atriz de teatro que, depois de uma temporada de de três meses em uma clínica de reabilitação, volta ao convívio de seus amigos e de sua filha adolescente, Polly (Kristy McNichol). Polly, tentando reconectar-se com a mãe com quem tem uma relação delicada, resolve morar com ela em seu pequeno apartamento - e passa a testemunhar sua luta para evitar a recaída no álcool. Tentando retomar a carreira, Georgia aceita o desafio de protagonizar uma peça inédita de seu ex-namorado, David (David Dukes) - um texto que recria no palco sua problemática relação. Em seu dia-a-dia ela conta com o apoio de Toby Landau (Joan Hackett), cujo casamento está por um fio a despeito de seus cuidados com a aparência, e Jimmy Perrino (James Coco), um ator gay em busca de um lugar ao sol.

 


Típico produto de sua época - para o bem e para o mal -, "O doce sabor de um sorriso" não esconde suas origens teatrais, com um roteiro calcado basicamente em diálogos e cenas cuja construção vai crescendo gradualmente. É aí que se destaca a familiaridade de Mason em declamar o texto bem azeitado de Simon - em especial a ótima sequência em que, reunida com seus dois melhores amigos, ambos frustrados com suas vidas, sua Georgia cai na tentação de voltar a beber. Em momentos assim o filme cresce e disfarça a direção sem brilho de Glenn Jordan em seu primeiro filme. Substituindo Herbert Ross - que havia comandado com sucesso o ótimo "A garota do adeus" -, Jordan extrai de seus atores atuações inspiradas, mas falha em dotar o filme de um ritmo ágil que lhe faria muito bem. Uma edição mais enxuta, por exemplo, evitaria a duração excessiva (a trama frágil mal consegue sustentar as duas horas) e deixaria a história menos cansativa. Para sua sorte, porém, a química entre o elenco é das melhores possível. James Coco, inclusive, tem no currículo a dúbia glória de ter sido indicado ao Oscar e ao Framboesa de Ouro pelo mesmo desempenho: na pele do leal Jimmy Perrino, ele é dono de algumas das melhores falas do roteiro - mas perdeu o prêmio da Academia para John Gielgud (de "Arthur, o milionário sedutor") e o Framboesa para Steve Forrest (por "Mamãezinha querida"). E Joan Hackett, que brilha na pele da quase fútil Toby Landau, morreu aos 49 anos, em 1983, vítima de câncer no ovário, encerrando uma carreira promissora ainda incipiente. 

Leve e inteligente, mas pouco lembrado até mesmo pelos fãs de Neil Simon, que o coloca em segundo plano diante de uma série de sucessos, "O doce sabor de um sorriso" é uma produção simpática, dotada de alguns bons e específicos momentos. O resultado final é um tanto morno e carece da força dos melhores trabalhos do autor, além de deixar no ar uma sensação de frustração em relação ao destino de seus personagens. Porém, o carisma de Marsha Mason em um de seus melhores trabalhos e a leveza com que trata de temas pesados como o alcoolismo fazem dele uma bela opção para quem gosta do gênero e da Hollywood do começo da década de 1980 - um meio-termo entre a ousadia dos 70 e o conservadorismo que se avizinhava e tomaria conta dos anos seguintes.

CYRANO


CYRANO (Cyrano, 2021, MGM Pictures/Working Title Films/BRON Studios, 123min) Direção: Joe Wright. Roteiro: Erica Schmidt, musical de sua autoria, peça teatral original de Edmond Rostand. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Valerio Bonelli. Música: Aaron Dessner, Bryce Dessner. Figurino: Massino Cantini Parrini, Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Matt Berninger, Carin Besser, Jason Cloth, Aaron Dessner, Bryce Dessner, Aaron L. Gilbert, Erica Schmidt, Sheeraz Shah, Kevin Ulrich, Lucas Webb, Sarah-Jane Robinson. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Guy Helley. Elenco: Peter Dinklage, Haley Bennett, Kelvin Harrison Jr., Ben Mendelsohn, Monica Dolan, Glen Hansard. Estreia: 02/9/2021 (Festival de Telluride)

Indicado ao Oscar de Figurino

Escrita por Edmond Rostand em 1897, "Cyrano de Bergerac" tornou-se, com o passar do tempo, uma das peças teatrais mais montadas da história - e um ícone cultural dos mais duradouros, atravessando gerações sempre com o mesmo sucesso. Parte da responsabilidade de tal perenidade deve-se ao cinema, que em várias ocasiões aproveitou-se para adaptar o texto do dramaturgo francês para as telas - caso da versão estrelada por José Ferrer em 1950 (que deu ao ator o Oscar da categoria) e da transposição estrelada por Gérard Depardieu em 1990 (que também foi indicada à estatueta de melhor ator). A mais nova tradução de Rostand para o público cinéfilo, lançada em 2021, prova que, apesar de tudo, a força de sua história ainda se presta a novos olhares e inovações estilísticas. Dirigido por Joe Wright, "Cyrano" não apenas ousa em transformar a tragédia em musical como altera o principal elemento do texto, fazendo de seu protagonista não um homem que sofre com um nariz descomunal, mas um talentoso soldado torturado por sua condição de anão. Beneficiado com o talento inegável de Peter Dinklage - aproveitando o sucesso de seu trabalho na série "Game of thrones" -, o Cyrano de Wright em nada deixa a desejar em relação a seus antecessores, apesar de ter sido praticamente ignorado pela Academia e outras cerimônias de premiação.

Na verdade, a versão de Wright é uma adaptação indireta do clássico de Rostand. Sua origem é a reinvenção do texto original, criada pela dramaturga Erica Schmidt e montada em 2018 em Connecticut - e no ano seguinte em teatros off-Broadway, em Nova York. Sem a necessidade de uma fidelidade absoluta ao clássico, o cineasta - autor de adaptações de obras como "Orgulho e preconceito" (2005) e "Anna Karenina" (2012), além do excepcional "Desejo e reparação" (2007) - explora todas as possibilidades visuais da trama com uma liberdade encantadora e uma sensibilidade irresistível. Até mesmo seus artifícios para modernizar a forma de contar a história - e evitar o tédio que um texto em versos poderia causar a um público menos paciente - soam orgânicos e inteligentes, valorizados por uma reconstituição de época cuidadosa e uma fotografia (de Seamus McGarvey) cujo maior mérito é não tentar se sobrepor à trama e aos personagens. As canções - em especial a bela "Close my eyes", com a participação de Glen Hansard, do filme "Apenas uma vez" (2007) - conseguem integrar-se à narrativa com elegância ímpar, e se a escalação de Dinklage para o papel-título soa genial, o mesmo pode ser dito da escolha de Kelvin Harrison Jr. para viver o galã Christian - pela primeira vez um ator negro assume (ao menos nas telas) o papel do antagonista romântico (e involuntário) da história de amor entre Cyrano e a bela Roxanne.


 

Apesar das alterações oriundas da adaptação feita por Schmidt - que é casada com o ator Peter Dinklage -, a trama do filme permanece, em sua essência, a mesma: o protagonista é o romântico e sensível Cyrano, apaixonado pela doce Roxanne (Haley Bennett), e que esconde de todos o seu amor, ciente de que sua aparência física jamais permitirá uma aproximação maior entre eles. Corajoso e dotado de grande inteligência, o enamorado soldado francês vê sua situação ficar ainda mais complicada quando um colega, Christian (Kelvin Harrison Jr.), também cai de amores pela bela e voluntariosa jovem. Bonito mas sem muito conteúdo intelectual, Christian recorre a Cyrano para que este escreva versos sentimentais que possam conquistá-la: a farsa dá certo, e Roxanne se deixa seduzir, sem desconfiar que, na verdade, está encantada pela alma de seu velho amigo. Tudo poderia seguir indefinidamente se não fosse um outro problema no caminho do inusitado triângulo amoroso: o poder de um outro apaixonado por Roxanne, que, rejeitado, resolve mandar Christian (e Cyrano) para o campo de batalha.

Sem contar com um orçamento milionário que poderia lhe colocar como um grande épico - em especial nas cenas de batalha, cuja economia é muito bem disfarçada pelo talento do cineasta em criar soluções visuais criativas -, "Cyrano" acabou por passar quase despercebido pelo grande público, perdido entre as produções com maior visibilidade e marketing. Joe Wright - um diretor que entende como poucos as engrenagens do cinemão clássico - extrai o máximo do que lhe é oferecido, brindando o espectador com um espetáculo de extremo bom gosto, ainda que sem a opulência que se poderia esperar de uma produção de época. Com um começo um tanto confuso - um problema que se resolve muito a contento logo em seguida - e a sensação de estranhamento em relação à inclusão de canções em um material tão conhecido, o filme acaba por envolver principalmente pelo talento inquestionável de seu elenco, pela inteligência em contornar o que poderiam ser problemas e pela sensibilidade de uma história atemporal e emocionante. E é impossível não se deixar conquistar pelo carisma de Peter Dinklage, um Cyrano de Bergerac com todos os atributos para ingressar no rol de seus mais clássicos intérpretes.

 

BESAME MUCHO


BESAME MUCHO (Besame mucho, 1987, Francisco Ramalho Júnior Filmes/HB Filmes, 108min) Direção: Francisco Ramalho Jr.. Roteiro: Francisco Ramalho Jr.,Mário Prata, peça teatral de Mário Prata. Fotografia: José Tadeu Ribeiro. Montagem: Mauro Alice. Música: Wagner Tiso. Figurino: Domingos Fuschini. Direção de arte/cenários: Marcos Weinstock. Produção: Hector Babenco, Francisco Ramalho Jr.. Elenco: Antônio Fagundes, José Wilker, Christiane Torloni, Glória Pires, Giulia Gam, Paulo Betti, Isabel Ribeiro. Estreia: 13/8/87

Montada pela primeira vez em 1982 nos palcos de São Paulo - e no ano seguinte no Rio de Janeiro -, a peça teatral "Besame mucho", de Mário Prata, não demorou a chegar às telas de cinema. Adaptada pelo cineasta Francisco Ramalho Jr e pelo próprio Prata, a história com traços autobiográficos estreou em agosto de 1987, embalada pelos prêmios (roteiro e figurino) do Festival de Gramado e pela popularidade de seu elenco principal, formado por astros globais. Com um texto nostálgico e uma produção caprichada, acabou por se tornar um dos filmes nacionais mais queridos de sua temporada - apesar de raramente ser lembrado pela crítica ou até mesmo pelo público em listas de principais produções do cinema brasileiro, deixa a sensação, após os créditos finais, de um passatempo inofensivo dos mais agradáveis.

A trama criada por Prata não é das mais originais: ao acompanhar a trajetória de dois casais de amigos durante vinte anos, o dramaturgo não chega a aprofundar psicologicamente seus personagens nem tampouco apelar para reviravoltas dramáticas que possam provocar grandes catarses. Porém, é na sua estrutura que a peça (e o filme, acertadamente fiel) surpreende: ao começar a ação no final dos anos 1980 e regredindo até o fatídico 1964, o roteiro substitui a pergunta clássica "o que vai acontecer?" pela menos óbvia "como eles chegaram até esse ponto?". Dessa forma, Prata desnuda idiossincrasias, hipocrisias e inseguranças de seus protagonistas com um acento cômico que permite ao público envolver-se com o enredo sem questionar suas possíveis falhas. Além disso, aproveita para apontar, com inteligência, a mudança dos comportamentos sociais e políticos do país durante um de seus períodos mais críticos através de personagens que, de uma maneira ou outra, são afetados por tais transformações. 

 

Quando o filme começa, Xico (José Wilker) e Olga (Glória Pires) estão se divorciando, depois de uma crise longa e desgastante. Ele é um premiado autor de teatro, mas sem que ninguém saiba, sua principal peça, "Besame mucho", foi escrita, na verdade, por sua mulher - que, na juventude, passou da alienação política a um auto-exílio durante a ditadura militar. Em sentido oposto, o quase idealista Tuca (Antônio Fagundes) tornou-se um empresário de sucesso, crescendo financeiramente em sua cidadezinha natal ao lado da mulher, Dina (Christiane Torloni), que abandonou a rigidez moral da adolescência para embarcar em uma série de fantasias eróticas com o marido, como forma de enterrar um passado de frustrações sexuais. A partir desse primeiro momento, o filme começa a regredir cronologicamente e apresentar os dois casais na construção de seus relacionamentos, suas carreiras e vidas sentimentais - até chegar ao tenebroso 31 de março de 1964, data em que suas próprias relações interpessoais também chegam a um impasse - o primeiro de muitos que ainda lhes atormentariam a existência.

Se o texto de Mário Prata parece mais apropriado ao palco do que às telas de cinema - uma linguagem mais direta e simples que nem sempre se conecta perfeitamente à sua adaptação -, a direção de Francisco Ramalho Jr. explora com precisão seu maior trunfo: o elenco. Aproveitando-se do tom mais leve de seus personagens, Antônio Fagundes e Christiane Torloni brilham com uma química previamente testada na televisão (e que voltariam a repetir em trabalhos futuros). José Wilker e Glória Pires, vivendo um casal com mais nuances dramáticas, brincam sem medo com todas as incoerências de Xico e Olga, provavelmente os mais alterados pela dinâmica da sociedade e da vida de uma cidade grande. Entre os coadjuvantes, Paulo Betti e Giulia Gam quase roubam a cena com momentos de humor equilibrado entre o ingênuo e o picante. Soma-se a isso a percepção triste de que o Brasil de 1964 não está tão distante assim do Brasil de 2022 - com a sombra folclórica de uma ameaça comunista que só existia (e existe) na paranoia da direita. É essa pitada de ironia (involuntária, uma vez que a peça estreou quando havia a ilusão de que o passado já estava enterrado de vez) que faz com que "Besame mucho" deixe de ser apenas uma comédia dramática sobre a imaturidade masculina e a evolução (ou não) da sociedade e se torne quase um lembrete de quão cíclicas são as mudanças no mundo.

MEDIDA PROVISÓRIA


MEDIDA PROVISÓRIA (Medida provisória, 2020, Lereby, 103min) Direção: Lázaro Ramos. Roteiro: Lázaro Ramos, Lusa Silvestre, Aldri Anunciação, Elísio Lopes Jr., peça teatral "Namíbia, não", de Aldri Anunciação. Fotografia: Adrian Teijido. Montagem: Diana Vasconcellos. Música: Kiko de Souza, Plínio Profeta, Rincon Sapiência. Figurino: Alex Brollo. Direção de arte/cenários: Tiago Marques Teixeira. Produção executiva: Mariza Figueiredo. Produção: Daniel Filho, Tânia Rocha. Elenco: Alfred Enoch, Taís Araújo, Seu Jorge, Adriana Esteves, Renata Sorrah, Emicida, Mariana Xavier, Flávio Bauraqui. Estreia: 03/10/2020 (Festival de Moscou)

É bem provável que, no panorama cultural brasileiro do momento, não pudesse haver alguém mais apropriado do que Lázaro Ramos para assinar a direção do filme "Medida provisória": ativista dos mais incansáveis da luta contra o racismo e pela preservação da cultura negra, Ramos se aproveita inteligentemente de sua visibilidade como artista global para pautar temas que, em mãos menos sensíveis, poderiam facilmente descambar para a militância oca e/ou oportunista. Se na peça teatral “No topo da montanha”, de Katori Hall – que estreou em 2015 e lotou teatros pelo país todo desde então – ele vivia Martin Luther King em seus últimos momentos de vida, em seu primeiro trabalho como cineasta ele reafirma seu compromisso com a causa da negritude com ainda mais contundência – a ponto de ter incomodado o governo e seus pretensos representantes culturais e ter atrasado seu lançamento comercial. A boa notícia é que, além de ter dado voz a uma história de interesse humano raro, o ator/diretor não deixou de lado seu talento como narrador, construindo uma obra cinematográfica consistente e aterradora.

A peça teatral em que "Medida provisória" se baseia, "Namíbia, Não", de Aldri Anunciação, foi montada pela primeira vez em 2011 – e é chocante como, nos dez anos que separam sua encarnação dos palcos de sua versão para as telas, as coisas não apenas não evoluíram como sofreram um revés brutal. O que há alguns anos poderia soar como uma distopia um tanto distante, hoje em dia surpreende por retratar, sem muitos retoques, uma realidade violenta e atroz que persegue, acua e mata com o aval de parte da população autodescrita como “cidadãos de bem” – muito bem representada, no filme, por uma (mais uma vez) brilhante Renata Sorrah. Discriminação disfarçada de boas intenções é o que move a trama de Medida Provisória – que encontra na direção segura de Lázaro Ramos terreno fértil para discussões relevantes e questionamentos urgentes.

 

A trama do filme se passa em um futuro pouco distante, onde o governo, sob a falácia de reparação histórica – mas com objetivos claríssimos de limpeza étnica – inicia a deportação de todos os cidadãos negros do país para a África. A ideia, logicamente, por sua natureza autoritária e discriminatória, não é aceita passivamente por todos – enquanto alguns brasileiros embarcam de boa vontade e com esperanças de uma nova vida, outros, cientes de suas raízes nacionais e de seu direito à cidadania, batem de frente com o poder estabelecido. Dentre eles, está o jovem advogado Antonio (Alfred Enoch, conhecido pela série "How To Get Away With Murder") e sua esposa, a médica Capitu (Taís Araújo): separados pelas circunstâncias, cada um deles resiste como pode à novidade; ele se recusa a abandonar o apartamento onde mora e se transforma em símbolo de luta; ela, grávida de poucas semanas, se junta a um grupo de opositores à nova medida (uma espécie de quilombo, rebatizado de afrobunker) para organizar uma forma de defesa mais radical. Nesse meio-tempo, batalhas sangrentas ocupam as ruas e o racismo velado da sociedade vem à tona, forçando a uma ruptura de graves consequências.

Seria muito mais confortável ao espectador médio assistir a "Medida provisória" como um filme de ficção científica, como uma espécie de pesadelo cruel e impossível. No entanto, não deixa de ser extremamente incômodo perceber que o que está sendo transmitido na tela diante de nossos olhos é uma metáfora pouco disfarçada de uma situação cada vez menos distante. Felizmente Lázaro Ramos não apela para o sentimentalismo ou a violência gratuita, optando pelo tom de fábula (ainda que realista) e acreditando na potência da trama e de seus personagens – a ponto de ousar fazer um paralelo entre os diferentes tipos de intolerância racial e social. Amparado por um elenco de ouro – Adriana Esteves deita e rola como uma Damares tão cínica e cruel quanto a verdadeira e Seu Jorge quase rouba a cena como o primo do protagonista, dono de uma das cenas mais fortes da produção – e por uma edição ágil e sucinta, "Medida provisória" não funciona apenas como mensagem. É, também, cinema de primeira linha.

terça-feira

A CARTA


A CARTA (The letter, 1940, Warner Bros, 95min) Direção: William Wyler. Roteiro: Howard Koch, peça teatral de W. Somerset Vaughm. Fotografia: Tony Gaudio. Montagem: George Amy, Warren Low. Música: Max Steiner. Figurino: Orry-Kelly. Direção de arte/cenários: Carl Jules Weyl. Produção executiva: Hal B. Wallis. Produção: William Wyler. Elenco: Bette Davis, Herbert Marshall, James Stephenson, Frieda Inescort. Estreia: 14/11/40

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Wyler), Atriz (Bette Davis), Ator Coadjuvante (James Stephenson), Fotografia em preto-e-branco, Montagem, Trilha Sonora Original


Em 1940, a Academia de Hollywood ainda era relativamente jovem, mas já tinha o nome de Bette Davis marcado em sua história: em 12 anos, a estrela já tinha dois Oscar para chamar de seu e continuava relevante a ponto de ser uma das maiores estrelas do star system de Hollywood. Seu nome era um chamariz de bilheteria tão poderoso que nem mesmo sua personalidade – forte a ponto de angariar muitos desafetos dentro da indústria – a impedia de ser uma das atrizes mais disputadas pelos grandes diretores de seu tempo. Um desses diretores, William Wyler, não apenas lhe dava a chance de grandes papéis – foi o responsável por “Jezebel” (1938), que lhe rendeu o segundo Oscar de melhor atriz  - como também não se importava em bater de frente com ela durante as filmagens. Seus épicos embates nos bastidores não atrapalhavam em nada o resultado de seus trabalhos – como se pode comprovar com “A carta”, que rendeu, a ambos, indicações à estatueta dourada e um enorme êxito comercial.

Fã ardorosa do filme – a que considera um de seus melhores trabalhos justamente pela direção de Wyler -, Davis teve um período complicado durante as filmagens, que foi além de seus conflitos com o cineasta. Se Wyler também tinha altercações violentas com outro membro do elenco – James Stephenson, que muitas vezes chegou a abandonar o set por causa de suas divergências artísticas e acabou recompensado com uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante -, Davis passou por maus bocados ao descobrir-se grávida na primeira semana de trabalho e, sem ter certeza do nome do pai da criança que esperava, fazer um aborto sem o conhecimento dos colegas. Nem Wyler – com quem ela já havia tido um romance anteriormente – soube de tais percalços, e nada disso impediu que a atriz entregasse mais um desempenho brilhante, quase mutilado pelos executivos da Warner, preocupados com o tom dúbio do caráter da protagonista, Leslie Crosbie.

  

Criada por W. Somerset Maughan como personagem principal de uma peça de teatro lançada em 1927, Crosbie realmente não cabe no panteão das mocinhas sofredoras e estoicas adoradas pelo público que lotava os cinemas no final da década de 1930 – ainda que a própria Davis fizesse questão de interpretar personagens que destoavam do senso comum da época. Logo na primeira sequência – pouco mais de dois minutos que demoraram um dia inteiro para ficar ao gosto do perfeccionista Wyler – Crosbie atira várias vezes, sem dó, em um homem que cai morto na frente de sua propriedade, uma fazenda de borracha em Cingapura. Esposa de Robert Crosbie (Herbert Marshall), um fazendeiro, ela alega que cometeu o crime como forma de proteger-se do assédio que sofreu durante a ausência do marido. Logo o advogado Howard Joyce (James Stephenson) é contratado para cuidar de seu caso – que tem tudo para ser tratado realmente como legítima defesa. No entanto, uma carta escrita por Leslie à vítima – com um teor romântico que desmente a alegação anterior – pode revelar a verdade sobre o homicídio.

Remake de um filme lançado com Jeanne Eagels em 1929 – que foi indicado ao Oscar de melhor atriz e tinha Herbert Marshall (o Robert da nova versão) no papel da vítima -, “A carta” é um misto de romance e filme pré-noir, com um clima de suspense que não chega a afastá-lo das características de um melodrama típico. Com um final alterado em virtude do famigerado Código Hays – que não permitia que personagens de caráter duvidoso tivesse qualquer possibilidade de final feliz – e uma protagonista que tirou o sono dos executivos da Warner Bros (que imploravam ao diretor que a tornasse mais simpática aos olhos do espectador), o filme de Wyler se escora basicamente em seu elenco impecável. Além de Davis – expressiva como nunca -, “A carta” revelou ao público um ator até então desconhecido e que infelizmente não teve a sorte de colher os louros de seu desempenho. Indicado por Jack Warner em pessoa, James Stephenson agradou em cheio o exigente William Wyler e ganhou o papel do advogado Howard Joyce – apenas para depois ver o próprio Warner recusar a escolha com medo de oferecer um papel tão importante a um ator sem poder de marquise. Coube a Wyler contornar a situação inusitada e convencer o presidente do estúdio de que Stephenson era a melhor opção. O resultado foi uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante, um prestígio do qual não pode usufruir por muito tempo – Stephenson morreu inesperadamente, aos 53 anos, de ataque cardíaco, poucos meses depois da entrega das estatuetas. “A carta” acabou sendo seu legado artístico – e sendo ao lado de uma estrela da grandeza de Bette Davis não deixa de ser um senhor legado.

UM CLARÃO NAS TREVAS


UM CLARÃO NAS TREVAS (Wait until dark, 1967, Warner Bros, 108min) Direção: Terence Young. Roteiro: Robert Carrington, Jane Howard-Hammerstein, peça teatral de Frederick Knott. Fotografia: Charles Lang. Montagem: Gene Milford. Música: Henry Mancini. Direção de arte//cenários: George Jenkins/George James Hopkins. Produção: Mel Ferrer. Elenco: Audrey Hepburn, Alan Arkin, Richard Crenna, Efrem Zimbalist Jr., Jack Weston, Samantha Jones, Julie Herrod. Estreia: 26/10/67

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Audrey Hepburn)

Durante a II Guerra Mundial, a então adolescente Audrey Hepburn, de 16 anos de idade, servia como enfermeira voluntária em um hospital holandês. Quando vários soldados aliados chegaram em busca de cuidados depois da batalha de Arnhem, a futura bonequinha de luxo cuidou de um jovem paraquedista inglês chamado Terence Young - sem jamais poder imaginar que, mais de vinte anos depois, ele seria o diretor de seu primeiro e único filme de suspense, "Um clarão nas trevas". Último filme de Hepburn antes de um hiato autoimposto de quase uma década - ela só voltaria às telas em "Robin e Marian", de 1976 -, a adaptação da peça teatral de Frederick Knott foi um dos grandes êxitos de bilheteria de 1967, em parte graças à engenhosa campanha de marketing que remetia aos ensinamentos de Hitchock, e em parte devido à curiosidade do público em acompanhar uma de suas atrizes mais queridas rumo à escuridão de um gênero que, a despeito de seu sucesso comercial, nunca foi considerado dos mais nobres pela indústria de Hollywood. O fato de Hepburn ter arrebatado uma indicação ao Oscar por seu desempenho - ao lado de Anne Bancroft ("A primeira noite de um homem"), Faye Dunaway ("Bonnie& Clyde: uma rajada de balas") e Katharine Hepburn (a vencedora, por "Adivinhe quem vem para jantar") - diz mais sobre o prestígio da estrela do que pela boa vontade da Academia em homenagear uma produção cujo maior objetivo é assustar a plateia - ainda que ela faça isso com extrema destreza.

Young, cujos créditos incluem três filmes de James Bond dos anos 1960 - "O satânico Dr. No" (1962), "Moscou contra 007" (1963) e "007 contra a chantagem atômica" (1965) - se demonstra um artesão competente ao explorar todas as possibilidades visuais de roteiro que nem sempre consegue escapar de suas origens teatrais - no palco a peça de Knott contava com as presenças de Lee Remick e Robert Duvall. O excesso de diálogos (nem todos indispensáveis) é o maior problema, uma vez que outra característica típica de produções adaptadas do teatro (o cenário único) serve para ampliar o tom claustrofóbico da trama e encaminhar o filme para seu clímax - minutos onde a tensão atinge seu nível máximo especialmente quando assistidos no escuro (daí a campanha de marketing que insistia que todas as salas e exibição ficassem completamente às escuras para melhor resultado). Este último ato, que apresenta o confronto entre mocinha e vilão com inteligência e impecável senso narrativo, compensa o ritmo irregular da produção até então e oferece ao público o que de melhor o cinema de suspense pode oferecer.

 

"Um clarão nas trevas" começa com a única sequência fora do cenário principal do filme, quando o espectador é apresentado a uma boneca recheada de heroína que chega à Nova York, vinda do Canadá, pelas mãos de uma atraente jovem (Samantha Jones), que, por motivos não revelados, a entrega a um desconhecido. Este desconhecido é (Efrem Zimbalist Jr.), um fotógrafo casado com Susy (Audrey Hepburn), uma mulher ainda tentando acostumar-se com sua nova rotina como deficiente visual, consequência de um acidente de carro. O que o casal não sabe é que tal boneca é o objeto do desejo de uma gangue perigosa e violenta, liderada pelo cruel Harry Roat (Alan Arkin), que não hesita em matar quem quer que atravesse seu caminho. Com a ajuda de seus dois companheiros, o sedutor Mike (Richard Crenna em papel para o qual foi Robert Redford foi considerado) e o quase atrapalhado Galindo (Jack Weston), ele se introduz no universo de Susy disposto a recuperar o artefato - e encontra uma resistência completamente inesperada.

Realizado como uma tentativa de salvar o casamento de Audrey Hepburn e do produtor Mel Ferrer, "Um clarão nas trevas" não obteve sucesso neste ponto específico - o relacionamento acabou no ano seguinte - mas tornou-se um campeão de bilheteria e reafirmou o poder comercial da atriz. É bem provável que nem mesmo Julie Andrews (também cotada para o papel central), no auge de sua popularidade na década de 1960, fosse capaz de atrair o público da mesma forma que Hepburn. Não deixa de ser sintomático que, anos mais tarde, o ator Alan Arkin tenha revelado que só ficou com o papel porque nenhum ator queria ficar marcado por um personagem capaz de machucar a atriz (mesmo na ficção). Arkin chegou a declarar, em tom de brincadeira, que um dos motivos pelos quais não foi indicado ao Oscar de coadjuvante por sua atuação (segundo Stephen King, uma das melhores encarnações do mal no cinema) tem a ver com o fato de que "ninguém é indicado ao Oscar por ser mau com Audrey Hepburn!" Brincando ou não, Arkin até tem um pouco de razão. Seu personagem até pode causar arrepios no espectador, mas é Hepburn quem domina o filme e justifica seu sucesso de bilheteria. Sua única incursão no suspense é, também, um dos vários pontos fortes de sua carreira.

sexta-feira

HAIR


HAIR (Hair, 1979, United Artists, 121min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Michael Weller, peça musical de Gerome Ragni, James Rado. Fotografia: Richard Kratina, Miroslav Ondricek, Jean Talvin. Música: Galt MacDermot. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/George DeTita. Produção: Michael Butler, Lester Perksy. Elenco: John Savage, Treat Williams, Beverly D'Angelo, Annie Golden, Dorsey Wrigth. Estreia: 14/5/79

De sua estreia nos palcos off-Broadway, em outubro de 1967, até o lançamento de sua adaptação para o cinema, em maio de 1979, o musical "Hair" passou, de celebração da contracultura e do movimento hippie, a um espetáculo nostálgico que servia mais como lembrança de um período histórico relativamente recente do que como uma obra transgressora sobre um estilo de vida alternativo. Montado em diversos países, incluindo o Brasil, "Hair" até esteve na mira de Hollywood em seus primeiros anos em cartaz - George Lucas chegou a ser convidado para dirigir uma versão, mas preferiu dedicar-se a "Loucuras de verão" (1973) -, mas demorou até que realmente encontrasse um caminho para as telas. E quando o fez, desagradou profundamente seus autores, Gerome Ragni e James Rado. Com uma trama diferente do original, canções apresentadas fora da ordem estabelecida pela peça e personagens com personalidades alteradas pelo roteiro de Michael Weller, "Hair" ficou quase irreconhecível como filme - e isso que o diretor Milos Forman já sonhava com sua adaptação para o cinema desde os primeiros meses de sua exibição nos teatros.

Primeiro filme de Forman desde a chuva de Oscar para seu "Um estranho no ninho" (1975), "Hair" não chegou a ser um sucesso de bilheteria, mas agradou à crítica, a chegou a ser indicado ao Golden Globe de melhor comédia/musical. Forman, fã do original - que estava tentando montar em sua terra natal , Prag,  quando a Rússia invadiu a Tchecoslováquia - assumiu as rédeas do projeto com que sonhava desde que assistiu à montagem antes da Broadway, e fez o severo crítico Roger Ebert compará-lo favoravelmente ao clássico "Amor, sublime amor" (1960). Segundo Ebert, a versão do espetáculo conseguia ressuscitar os musicais da mesma forma que o filme de Jerome Robbins e Robert Wise. Boa parte da responsabilidade do entusiasmo da imprensa deve ser creditada à trilha sonora de Galt MacDermot, que inclui a antológica "Age of Aquarius", que abre o filme e imediatamente mergulha o espectador em um universo em que hippies e pacifistas convivem - nem sempre tranquilamente - com uma sociedade que envia seus filhos à guerra do Vietnã enquanto organizam jantares sofisticados e cheios de normas de etiqueta: não à toa, um dos momentos-chave do filme acontece em uma dessas reuniões, quando um dos protagonistas, George (Treat Williams) lidera uma invasão que choca os "cidadãos de bem" e seduz a elegante Sheila (Beverly D'Angelo) para seu grupo de manifestantes contra o sistema.

A trama de "Hair" - ao menos em sua versão cinematográfica - apresenta dois protagonistas de personalidades opostas que acabam por ter seus destinos misturados durante o efervescente período em que os EUA estão em um momento crítico de luta pelos direitos civis e no auge da famigerada guerra no Vietnã. Vindo de Oklahoma e alistado no exército está Claude Bukowski (John Savage). Liderando um grupo de hippies que transitam por Nova York está George Berger (Treat Williams). Aparentemente incompatíveis, os dois rapazes se tornam amigos e o ingênuo Claude conta com a ajuda dos novos companheiros para encontrar um meio de conquistar a - à primeira vista - inalcançável Sheila Franklin (Beverly D'Angelo), por quem se apaixonou ao vê-la cavalgando no Central Park. Nesse meio-tempo, o inocente rapaz do interior passa a comungar com os ideais do grupo de George, jovem que pregam a liberdade e a paz a qualquer custo. Quando ele finalmente sai da cidade e junta-se a seus colegas soldados, a diferença entre os dois grupos fica ainda mais explícita - e o discurso anti-guerra de seus novos amigos torna-se ainda mais certeira.

 

Filme de abertura do Festival de Cannes 1979 - apresentado fora de competição -, "Hair" é um musical no sentido exato do termo. Seus números de música, com coreografias de Twyla Tharp, comentam a ação e empurram a trama adiante de forma orgânica, apesar da diferença da ordem em que eram apresentadas no original dos palcos. O roteiro de Michael Weller também enfatiza a divergência entre George e Claude ao transformar o segundo em um jovem do interior que entra na guerra como voluntário - e não o líder do grupo hippie que tenta evitar sua participação no conflito. A mudança na personalidade de Claude é, provavelmente, a mais inquietante do filme, e o que provocou a maior parte das críticas em relação à adaptação. É inegável, porém, que as artimanhas de Weller para conquistar a simpatia do público a seus personagens, funciona muito bem no filme. A transformação de Claude é crível, especialmente porque Milos Forman faz questão de retratar George e seus seguidores sob luzes bem mais simpáticas do que aquelas reservadas para os milionários que servem de vilões. Ok, é tudo um bocado maniqueísta, mas a ingenuidade da obra original também o era, e tal característica acaba por ser muito útil para a felicidade do produto final - mesmo que ele seja quase uma obra nova para quem assistiu à peça.

"Hair" é, ainda, o retrato de uma época cuja inocência caminhava lado a lado com a violência, e na qual a juventude ainda tinha ideais próprios para servir de munição para suas batalhas. A direção de Milos Forman - que, a julgar por "Um estranho no ninho", tinha sua dose de inconformismo - conduz a narrativa sem percalços e em determinados momentos chega a ser quase brilhante. O carisma dos dois atores centrais, Treat Williams e John Savage (que também estava no elenco de outro filme sobre o Vietnã, o premiado "O franco-atirador"), segura o interesse do espectador, e o final, dono de uma ironia comovente, fecha a história com chave de ouro. É de se imaginar, porém, como seria o filme se duas celebridades musicais tivessem sido aprovadas em seus testes: Madonna e Bruce Springsteen tentaram vagas no elenco e não há dúvidas de que suas presenças acrescentariam um motivo a mais para se conferir um dos musicais obrigatórios da história do cinema.

terça-feira

AMOR, SUBLIME AMOR

AMOR, SUBLIME AMOR (West Side Story, 1961, United Artists, 153min) Direção: Jerome Robbins, Robert Wise. Roteiro: Ernest Lehman, peça teatral de Jerome Robbins e música de Arthur Laurents, inspirada em "Romeu e Julieta", de William Shakespeare. Fotografia: Daniel L. Fapp. Montagem: Thomas Stanford. Música: Leonard Bernstein. Figurino: Irene Sharaff. Direção de arte/cenários: Boris Leven/Victor Gangelin. Produção: Robert Wise. Elenco: Richard Beymer, Natalie Wood, Russ Tamblyn, Rita Moreno, George Shakiris, Simon Oakland, Ned Glass. Estreia: 18/10/61

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jerome Robbins, Robert Wise), Roteiro Adaptado, Ator Coadjuvante (George Chakiris), Atriz Coadjuvante (Rita Moreno), Fotografia em cores, Montagem, Figurino em cores, Direção de Arte/Cenários em cores, Som, Trilha Sonora/Musical
Vencedor de 10 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jerome Robbins, Robert Wise), Ator Coadjuvante (George Chakiris), Atriz Coadjuvante (Rita Moreno), Fotografia em cores, Montagem, Figurino em cores, Direção de Arte/Cenários em cores, Som, Trilha Sonora/Musical
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Musical, Ator Coadjuvante (George Chakiris), Atriz Coadjuvante (Rita Moreno) 

Trinta e seis anos antes que o australiano Baz Luhrmann subvertesse o tom solene da obra mais famosa do dramaturgo William Shakespeare e transferisse "Romeu e Julieta" para uma ensolarada cidade litorânea e substituísse espadas por armas automáticas e o silêncio romântico por tiroteios e música pop, uma outra versão heterodoxa da peça teatral já havia conquistado o mundo. Primeiro na Broadway e depois nas telas de cinema, "Amor, sublime amor" - ou simplesmente "West Side Story" - mostrou a força e contemporaneidade da mais icônica história de amor jamais criada. Ainda que com algumas alterações em relação ao musical original, montado na Broadway, o filme (codirigido por Jerome Robbins e Robert Wise) ganhou o público, a crítica e a Academia de Hollywood, arrebatando impressionantes dez estatueta do Oscar, incluindo melhor filme e diretor (dividido pela primeira vez na história, em um acontecimento que só seria igualado, até hoje, na cerimônia de 2008, quando os irmãos Joel e Ethan Coen foram premiados por "Onde os fracos não tem vez"). O maior sucesso de bilheteria do ano de 1961 e referência absoluta para os filmes musicais que viriam depois dele, "Amor, sublime amor" pode até chatear algumas plateias menos pacientes (são duas horas e meia de cantoria e coreografias), mas, no final das contas, para os fãs do gênero é um clássico indiscutível.

A trajetória de "Amor, sublime amor" rumo às telas de cinema começou em 1957, quando o musical escrito por Arthur Laurents, musicado por Elmer Bernstein e Stephen Sondheim e coreografado por Jerome Robbins, estreou na Broadway. Em sua concepção, a trama giraria em torno de da história de amor de dois jovens cuja relação era ameaçada por diferenças religiosas: com o título de "East Side Story", o roteiro se desenvolvia no turbilhão de um romance entre um rapaz católico e uma jovem judia. Percebendo o aumento da imigração porto-riquenha em Nova York, porém, os criadores da peça resolveram mudar o conflito e torná-lo mais próximo da realidade do momento: surgia assim o impossível romance entre uma porto-riquenha e um descendente de poloneses. Com o título modificado para o eternizado "West Side Story", o espetáculo estreou e foi um sucesso instantâneo, ficando em cartaz por quase dois anos. Como não poderia deixar de ser, seu êxito logo chamou a atenção de Hollywood - mais precisamente do produtor Walter Mirisch, que viu nele o potencial de uma bela carreira também no cinema. Logo de cara, porém, esbarrou em um problema quase intransponível: Jerome Robbins, o autor de todas as energéticas coreografias que encantaram o público no teatro, se recusou a trabalhar no filme, a menos que o dirigisse. Ciente de que Robbins nunca havia dirigido um filme, Mirisch conseguiu chegar a um meio-termo com seu novo contratado, e entregou a ele a direção das sequências de dança, enquanto Robert Wise ficava encarregado das demais cenas. O acordo não durou muito.

Antes mesmo que Robbins fosse afastado do projeto devido ao atraso das filmagens e o estouro do orçamento que seu perfeccionismo havia causado - ele insistia em filmar cada cena de inúmeros ângulos, o que, logicamente, desagradou os produtores -, outra questão tomou conta dos bastidores. Considerados velhos demais para interpretarem jovens rebeldes, praticamente todos os atores da peça original foram descartados para a transição à tela grande, pouco importando se o novo elenco sabia ou não cantar (em Hollywood, onde era quase tradição o uso de dublagem em filmes do gênero, esse era apenas um detalhe quase insignificante, por incrível que pareça). A partir daí, atores e atrizes de todos os tipos foram cogitados e/ou testados para o projeto: no lado feminino, os nomes mais famosos cotados foram os de Suzanne Pleshette e Audrey Hepburn - que pulou fora por conta de uma gravidez. Entre os homens, a lista incluía futuros astros como Anthony Perkins, Richard Chamberlain, Burt Reynolds e Warren Beatty. Beatty era, segundo boatos, o preferido da atriz Natalie Wood, escolhida para o principal papel feminino - uma teoria que não se sustenta, já que os dois jovens atores não tinham exatamente se dado muito bem nas recentes filmagens de "Clamor do sexo" (1961) e só viriam a assumir um romance depois da separação da atriz. Com Beatty e os demais candidatos fora do páreo, a protagonização masculina ficou com Richard Beymer, até então mais conhecido por séries de televisão do que por sua carreira cinematográfica. Nem mesmo Beymer, que trinta anos mais tarde passaria a ser reconhecido como Benjamin Horne, o ambicioso empresário da série cult "Twin Peaks" (em que voltou a contracenar com Russ Tamblyn), tinha certeza se era a melhor escolha da produção - talvez porque a primeira opção do diretor havia sido ninguém menos que Elvis Presley.


Presley, um dos maiores ídolos musicais de todos os tempos, brincava de ator desde "Ama-me com ternura", lançado em 1956, mas seus filmes nunca exigiam dele mais do que cantar e explorar seu carisma. Em "Amor, sublime amor", ele teria a chance de fugir da previsibilidade das produções que serviam apenas de veículo para vender discos e fazer parte de algo que prometia ser um enorme sucesso. Porém, por conta de seu então empresário, o temido "Coronel", que não gostava da ideia de ter sua galinha de ovos de ouro participando de um projeto cujo controle ele não teria, Presley abandonou o barco - e a possibilidade de ter seu nome associado a um clássico dos mais adorados pelo público. A recusa do "Coronel" não tinha nada de escolha artística: a participação de Elvis no filme não lhe daria direitos sobre as canções da trilha sonora - e além disso, das doze canções do roteiro, apenas metade seriam interpretadas por ele. Na visão mercenária de seu empresário, era um mau negócio em termos financeiros, e conforme o tempo provou, quem mais saiu perdendo foi o cantor: o disco com a trilha sonora do filme tornou-se a mais vendida da história e, com o impressionante número de 249 semanas em cartaz em Paris, "Amor, sublime amor" também mantém o recorde de tempo de um único filme nos cinemas franceses. Mas, apesar do sucesso de público e de Oscars, o filme de Robbins e Wise não conquistou completamente a crítica norte-americana.

Se Roger Ebert, um dos mais respeitados críticos de cinema dos EUA, louvou "Amor, sublime amor" e o colocou na lista de seus filmes preferidos, o mesmo não pode ser dito a respeito da temida Pauline Kael, que massacrou o filme em suas colunas: dos diálogos que considerou antiquados às sequências de dança com as quais não se empolgou - passando pelo desempenho de Natalie Wood -, Kael não se deixou seduzir pelo filme como a maioria de seus colegas. Isso não o impediu, no entanto, de tornar-se parte do inconsciente coletivo internacional. Com algumas das canções mais famosas do cancioneiro norte-americano - "Maria", "I feel pretty" e "America" são conhecidas mesmo por quem nunca assistiu ao filme -, "Amor, sublime amor" conta, através de números de dança e música, a trágica história de amor entre Maria (Natalie Wood), uma jovem porto-riquenha cujo irmão é o líder de uma gangue em Nova York, e Tony (Richard Beymer), descendente de poloneses indiretamente ligado à gangue rival. Substituindo lutas por coreografias, diálogos por canções icônicas e alterando em parte o final da peça de Shakespeare, o filme até pode soar um pouco datado - em especial quando se lembra que os musicais mais bem-sucedidos das últimas décadas -, mas é, sem dúvida, um dos mais importantes produtos cinematográficos realizados em Hollywood. Com dez Oscar e três importantes Golden Globes no currículo, também ficou na história como um dos filmes mais premiados pela Academia - e em 2020 será revisitado por Steven Spielberg, em um remake talvez desnecessário., consequência de ser um dos filmes mais adorados pelos fãs do gênero.

sábado

UM GOSTO DE MEL

UM GOSTO DE MEL (A taste of honey, 1961, Woodfall Film Productions, 101min) Direção: Tony Richardson. Roteiro: Shelagh Delaney, Tony Richardson, peça teatral de Shelagh Delaney. Fotografia: Walter Lassally. Montagem: Antony Gibbs. Música: John Addison. Direção de arte: Ralph Brinton. Produção: Tony Richardson. Elenco: Rita Tushingham, Dora Bryan, Murray Melvin, Robert Stephens, Paul Danquah. Estreia: 14/9/61

Vencedor do Golden Globe de Revelação Feminina (Rita Tushingham)
Vencedor de 2 Palmas de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Ator (Murray Melvin), Melhor Atriz (Rita Tushingham)

 A crítica especializada aprovou com louvor. Cerimônias de premiação tradicionais, como o Golden Globe, o BAFTA e o National Board of Review o endossaram sem pestanejar, lhe concedendo estatuetas importantes. E até mesmo o júri do prestigiado Festival de Cannes se deixou seduzir, lhe concedendo os prêmios de melhor ator e melhor atriz. Baseado em uma peça de teatro escrita por uma adolescente de 18 anos de idade, o filme britânico "Um gosto de mel" só foi ignorado mesmo pela Academia de Hollywood, que simplesmente fez vista grossa diante de seu enorme sucesso e polêmica. Ao retratar sem pudores relações que poderiam ser vistas como chocantes pelo público mais conservador, o filme de Tony Richardson marcou época, conquistou fãs através do tempo e inspirou no mínimo duas canções de Morrissey, líder da banda The Smiths, e o título de uma das músicas dos Beatles. Como se vê, nem sempre um Oscar faz falta no currículo de uma produção.

A trama, imaginada pela muito jovem Shelagh Delaney em sua vitoriosa peça de teatro, tem como protagonista a jovem Jo (Rita Tushingham), um adolescente de 17 anos que vive com sua heterodoxa mãe, Helen (Dora Bryan, vencedora do BAFTA de melhor atriz). Quando Helen - pouco afeita à solidão e bastante fã de bebidas alcóolicas - se casa novamente, com um quase desconhecido, Jo se vê sem lugar para morar. Em suas tentativas de encontrar um lugar ao sol, ela se envolve romanticamente com Jimmy (Paul Danquah), um marinheiro negro que logo vai embora da cidade e a deixa (sem que nenhum deles saiba) grávida. Novamente sem companhia, ela conhece o tímido Geoffrey (Murray Melvin), de quem se torna grande amiga e colega de apartamento. Quando a gravidez vem à tona, os dois resolvem criar a criança como se fosse deles - apesar de Geoffrey ser homossexual. A nova família, recém formada, sofre um golpe, porém, quando Helen reaparece e exige seu lugar como avó da criança prestes a nascer.


Ao tratar com naturalidade tanto a relação de Jo (uma adolescente branca, de classe operária, e portanto, respeitável) com Jimmy (um rapaz negro) quanto com Geoffrey (um gay assumido), o enredo de "Um gosto de mel" já mexia em vespeiros que poucos gostariam de ver tocados em uma década de 1960 que apenas começava a nascer - e que daria origem, pouco depois, ao movimento hippie, ao feminismo, à luta pelos direitos civis e, nos EUA, a luta contra a Guerra do Vietnã. Como se isso não fosse o bastante, no entanto, o roteiro da jovem dramaturga e do experiente cineasta ainda toca em questões mais complexas ainda. Se ser mãe solteira não era um status dos mais invejados da época, será que seria menos pior do que fazer parte de um novo tipo de núcleo familiar - que envolvia um homem gay e uma avó pouco convencional? E, mais complicado ainda, com uma criança fruto de um romance interracial? Ainda que não responda tais questões, preferindo contar a história sem buscar soluções, o filme já merece aplausos por tocar sem medo em tais controvérsias. Para isso, conta com a atuação refrescante de Rita Tushingham, estreante que ganhou o papel central em uma disputa com cerca de 2000 candidatas e provou-se uma aposta certeira e levou pra casa a Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes 1961: longe de ser uma beldade com agressivo sex appeal, a jovem Tushingham continuou no cinema, mas nunca mais atingiu o mesmo patamar de sucesso de sua estreia - que lhe rendeu, também, um Golden Globe de revelação feminina.

Com diálogos inteligentes e personagens verossímeis, "Um gosto de mel" conquistou não apenas a crítica e o público mais aberto a novos ares. O cantor Morrissey citou o filme em duas das músicas de sua banda, The Smiths: "This night has opened my eyes" e "Reel around the fountain" contém frases do roteiro - o cantor, nascido na cidade de Manchester, onde o filme foi rodado, tornou-se fã incondicional da produção. Outra celebridade musical que também inspirou-se no filme de Richardson foi Paul McCartney: segundo o livro "Revolution in the head", de Ian MacDonald, o beatle nomeou "Your mother should know" a partir de um dos diálogos do roteiro. Mas, apesar de tantos elogios, prêmios e homenagens, "Um gosto de mel" é um bom filme ou apenas corajoso e à frente de seu tempo? É inegável que a qualidade dos diálogos e sua franqueza são admiráveis, e que a direção de Tony Richardson extrai de seus atores interpretações naturais, mas também não se pode deixar de perceber um certo tom mais adequado à sua época do que à atualidade. Se os temas discutidos ainda encontram eco no preconceituoso mundo do século XXI, algumas cenas podem parecer até ingênuas. É um charme, obviamente, e funcionou muito bem no começo dos anos 1960. Hoje vale mais como documento histórico - ainda que ainda possa conquistar jovens idealistas e apaixonados.

sexta-feira

TARA MALDITA

TARA MALDITA (The bad seed, 1956, Warner Bros, 129min) Direção: Mervyn LeRoy. Roteiro: John Lee Mahin, livro de William March, peça teatral de Maxwell Anderson. Fotografia: Hal Rosson. Montagem: Warren Low. Música: Alex North. Figurino: Moss Mabry. Direção de arte/cenários: John Beckman/Ralph Hurst. Produção: Mervyn LeRoy. Elenco: Nancy Kelly, Patty McCormack, Henry Jones, Eileen Heckart, Evelyn Varden, William Hopper, Paul Fix, Gage Clark, Frank Cady. Estreia: 12/9/56

4 indicações ao Oscar: Atriz (Nancy Kelly), Atriz Coadjuvante (Patty McCormack/Eilleen Heckart), Fotografia em preto-e-branco
Vencedor do Golden Globe de Atriz  Coadjuvante (Eileen Heckart)

Transferir uma peça de teatro para um filme hollywoodiano pode ser uma tarefa inglória. Muitas vezes os roteiristas e cineastas não conseguem escapar do formato de teatro filmado - o que compromete o ritmo e testa a paciência do espectador mais afeito à ação do que a diálogos. Quando o filme de suspense, então, o desafio é ainda maior: como conquistar os fãs do gênero em um roteiro em que a palavra assume tanta importância quanto a imagem? Alfred Hitchcock sabia como equilibrar as duas vertentes - e não à toa, foi cogitado para dirigir "Tara maldita", adaptação de uma bem-sucedida peça de teatro (por sua vez adaptada de um romance). O mestre do suspense acabou por recusar a missão, que caiu nas mãos do versátil Mervyn LeRoy, que acertou em cheio ao levar boa parte do elenco original do palco para as telas: mesmo que o roteiro de John Lee Mahin não consiga disfarçar sua origem (e talvez realmente não o queira), a direção competente de LeRoy e a segurança de seus atores (já acostumados com seus papéis) fazem da adaptação um sucesso inquestionável, a ponto de três de suas atrizes terem recebido indicações ao Oscar.


Antes que Nancy Kelly voltasse ao cinema depois de dez anos dedicados ao teatro - para onde retornou depois das filmagens, dividindo seu tempo com produções televisivas -, a excepcional Bette Davis quase ficou com seu papel. Quando o projeto estava nas mãos do ator e diretor Paul Henreid (O marido de Ingrid Bergman em "Casablanca", de 1941), a personagem principal seria interpretada por Davis, o que só não aconteceu porque Henreid não conseguiu comprar os direitos de adaptação. Antes que o estúdio decidisse manter Kelly no elenco, até mesmo Rosalind Russell foi cogitada - mas parece que o papel de Christine Penmark já estava destinado à sua intérprete no teatro. Foi uma escolha acertada - apesar de não ser um nome capaz de lotar as salas e manter no cinema seus cacoetes teatrais. Isso não impediu, no entanto, de ser indicada ao Oscar de melhor atriz - perdeu a estatueta para Ingrid Bergman em seu retorno à Hollywood, em "Anastasia: a princesa esquecida".



A trama de "Tara maldita" - um nome em português que talvez passe uma ideia errada a seu respeito - começa quando a dedicada dona-de-casa Christine Penmark (Nancy Kelly) se despede do amoroso marido, o Coronel Kenneth Penmark, transferido para Washington. Com a ausência do marido, Christine se vê com a responsabilidade de cuidar sozinha da filha do casal, Rhoda (Patty McCormack), uma adorável menina de oito anos de idade que aparenta ser perfeita em tudo. Só quem não acredita totalmente na inocência de Rhoda é o jardineiro Leroy, que frequentemente bate de frente com a garota. Christine tem grande orgulho da filha, mas repentinamente se vê diante de um dilema: em um piquenique escolar, um dos colegas de Rhoda morre afogado - e seria coincidência que Rhoda não apenas tenha brigado com o garoto por ele ter ganho um prêmio que ela achava merecer, mas também por ter sido a última pessoa a vê-lo vivo? A diretora da escola, Claudia Fern parece ter dúvidas a respeito da inocência da angelical aluna - e quando a mãe do garoto morto, Hortense (Eileen Eckhart), começa a pressionar mãe e filha para saber o que realmente aconteceu no momento da tragédia, Christine não tem outra alternativa senão tentar juntar as peças e inocentar (ou não) sua única filha.


Apostando no clima de mistério e no poder de seu elenco, Mervyn LeRoy constrói uma trama absorvente, que prende o espectador até o minuto final. A pequena Patty McCormack - que tinha dez anos de idade à época das filmagens - é particularmente competente, a ponto de ter indicada ao Oscar de coadjuvante por sua personagem repleta de dubiedade. Da mesma forma, Eileen Eckhart se destaca, com apenas duas pequenas cenas na pele da mãe do menino morto - não só também concorreu ao Oscar como levou um Golden Globe. Em alguns momentos a origem teatral de "Tara maldita" fica bem clara, mas não a ponto de truncar a narrativa ou aborrecer ao público. O final - um dos três escritos e mantidos em segredo até as filmagens - pode soar um pouco abrupto, mas felizmente não suaviza a trama para buscar um final feliz. Quem gosta de um bom filme de suspense, que privilegia a inteligência e não a violência gratuita precisa assistir a "Tara maldita". É, com certeza, um dos clássicos escondidos.

quarta-feira

CHÁ E SIMPATIA

CHÁ E SIMPATIA (Tea and sympathy, 1956, MGM Pictures, 122min) Direção: Vincente Minnelli. Roteiro: Robert Anderson, peça teatral de sua autoria. Fotografia: John Alton. Montagem: Ferris Webster. Música: Adolph Deutsch. Direção de arte/cenários: Edward Carfagno, William A. Horning/Keogh Gleason, Edwin B. Willis. Produção: Pandro S. Berman. Elenco: Deborah Kerr, John Kerr, Leif Erickson, Edward Andrews, Darryl Hickman, Norma Crane. Estreia: 27/9/56

Vencedor do Golden Globe de Revelação Masculina (John Kerr)

Desafiar o Código Hays - conjunto de "normas morais" que regulou a produção cinematográfica nos EUA entre os anos 1930 e 1968 - não era tarefa das mais fáceis: ciosos de que qualquer desvio na conduta de suas produções poderia resultar em boicote ou simplesmente censura, os estúdios de Hollywood permaneceram por décadas amarradas a um puritanismo quase medieval. Desde coisas como cenas de nudez, prostituição e tráfico de drogas até miscigenação, insinuação de perversões sexuais e escravidão - de brancos, é preciso salientar -, o Código Hays atrasou por um bom tempo a maturidade do cinema norte-americano. Porém, muito de vez em quando, algum filme tentava quebrar as regras, com o objetivo de contar histórias mais adultas e realistas. Foi o caso de "Chá e simpatia", lançado pela MGM em 1956, ou seja, no auge da vigência do Código. Adaptação de uma peça teatral de sucesso na Broadway, o filme de Vincente Minnelli manteve seus dois atores principais na transposição dos palcos para as telas, mas mesmo com a presença de Deborah Kerr - que no mesmo estava no elenco do vitorioso "O rei e eu" -, o filme repetiu o destino de outros que tiveram a mesma ousadia: o fracasso nas bilheterias.

Não que a ideia de transformar a peça em um filme tenha sido um mar de rosas: levou anos até que a MGM finalmente aceitasse um roteiro - escrito pelo mesmo autor da versão teatral, Robert Anderson - que passasse pelo aval do famigerado Código. O desafio de disfarçar homossexualidade, adultério e prostituição (temas que faziam parte do texto original) era tanto que Anderson ganhou três vezes mais do estúdio pelo roteiro do que pelos direitos da peça. De certa forma foi bem-sucedido: apesar de o roteiro não escapar de certos tiques de teatro filmado (como a opção por diálogos em detrimento de ação visual), o filme consegue manter o público até o final, com discussões cada vez mais válidas: até que ponto uma minoria deve submeter-se às regras da maioria? Existe certo e errado na forma com que as pessoas conduzem suas vidas? E até onde as regras da sociedade podem intervir na vida particular de cada um? Tais questões podem ter ficado mais evidente no palco - no filme a palavra "homossexualidade" jamais é citada, apesar de ser o ponto principal da trama -, mas é impossível que o público não associe o drama do protagonista a um dos pecados mortais do Código Hays.


O personagem principal de "Chá e simpatia" é o jovem adolescente Tom Lee (John Kerr, que apesar do sobrenome não tem qualquer relação familiar com a estrela Deborah). Aos dezessete anos, John não consegue se enturmar com seus colegas masculinos, preferindo atividades intelectuais ao invés de outras, consideradas mais masculinas. John sabe cozinhar e costurar, sonha em ser um cantor de folk, entende de jardinagem e suas aventuras pelo teatro interpretando personagens femininas; tais fatos, aliados à falta de jeito de John em lidar com meninas, fazem com que ele seja o alvo preferido dos rapazes da escola, que não demoram em lhe arrumar um apelido pouco elogioso. Sofrendo com tal situação - e ainda o desprezo do próprio pai, viúvo e pouco compreensivo -, Tom encontra alívio em sua relação de amizade com Laura Reynolds (Deborah Kerr), a esposa do diretor da escola, Bill Reynolds: percebendo a angústia do jovem, Laura começa a servir como a voz da razão, defendendo-o e entrando em rota de colisão com aqueles que o atacam, incluindo seu marido.

Dirigido com delicadeza por Vincente Minnelli - ele próprio vítima de suspeitas quanto à sua orientação sexual nos bastidores de Hollywood -, "Chá e simpatia" é um filme corajoso, mesmo que tente disfarçar (mas não muito) seu polêmico tema. Os diálogos - ricos e viscerais - servem como uma contundente crítica do preconceito: porque um homem não se sente confortável em atividades masculinas ele pode ser classificado como homossexual? Até que ponto suas preferências a atividades menos másculas determinam a orientação sexual de um homem? E por fim: é justo que jovens como Tom tentem encaixar-se nos moldes da sociedade para que sejam aceitos, mesmo que tal atitude castre sua personalidade? O roteiro de Robert Anderson joga tais perguntas ao ar, enquanto os personagens de sua obra buscam, de uma maneira ou outra, a felicidade (ou ao menos a tolerância). O final - diferente da versão teatral - pode até diminuir o impacto do filme como um todo (foi quase uma imposição da MGM), mas não consegue destruir as qualidades de uma produção sutil, respeitosa e necessária.

domingo

QUANDO O CORAÇÃO FLORESCE

QUANDO O CORAÇÃO FLORESCE (Summertime, 1955, United Artists, 99min) Direção: David Lean. Roteiro: David Lean, H.E. Bates, peça teatral "The time of the cuckoo", de Arthur Laurents. Fotografia: Jack Hildyard. Montagem: Peter Taylor. Música: Alessandro Cicognini. Direção de arte/cenários: Vincent Korda. Produção: Ilya Lopert. Elenco: Katharine Hepburn, Rossano Brazzi, Isa Miranda, Darren McGavin, Mari Aldon, Gaetano Autiero. Estreia: 29/5/55 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Diretor (David Lean), Atriz (Katharine Hepburn)

Quando aceitou o papel de Jane Hudson, uma secretária solteirona que descobre o amor em uma viagem à Itália, a atriz Katharine Hepburn já estava longe dos sets de filmagem desde "A mulher absoluta", de George Cukor - uma de suas várias colaborações com o ator Spencer Tracy. Seu retorno ao cinema, depois de três anos afastada, lhe rendeu a sexta indicação ao Oscar de melhor atriz. Baseado em uma peça de teatro estrelada por Shirley Booth e estreada em 1952, "Quando o coração floresce" é um filme perfeito para os românticos e um deleite para os olhos. Filmado quase totalmente na própria Veneza, o filme ofereceu à Hepburn o raro desafio de interpretar uma mulher apaixonada e vulnerável, e ao diretor David Lean a chance de assinar um último filme de pequena escala antes de dedicar-se a produções épicas e monumentalmente caras - seu filme seguinte seria "A ponte do Rio Kwai", lançado em 1957. Simples e sem afetações, "Quando o coração floresce" é, ao mesmo tempo, a história de um amor maduro e um cartão postal de seu cenário natural. E também o preferido de Lean dentre toda a sua filmografia - o que, haja visto seu currículo, é um elogio e tanto.

O primeiro cineasta interessado em dirigir a adaptação a peça de Arthur Laurents, chamada originalmente de "The time of the cuckoo", foi Roberto Rosselini. Um dos criadores do neorrealismo italiano planejava entregar à sua amada Ingrid Bergman o papel principal, mas o projeto não foi adiante em suas mãos. Olivia de Havilland também chegou a considerar a ideia de protagonizá-lo, e até mesmo Vittorio De Sica esteve entre os possíveis nomes do elenco - e não como diretor, mas no papel do galante Renato de Rossi, o galã que balança o coração da solitária Jane. Quando David Lean assumiu as rédeas da produção é que as coisas encontraram seu rumo, ou ao menos, era a impressão. Quando decidiu filmar tudo em locações, o premiado cineasta não tinha ideia dos problemas que teria de enfrentar: a equipe chegou em Veneza em plena alta temporada, e as filmagens, logicamente, demandavam de controle, o que significava que muitos dos turistas não contavam com tais transtornos. Lean teve de pagar pelos prejuízos dos comerciantes, dos condutores de gôndolas e até pela restauração de uma igreja da cidade. Afora esse pequeno empecilho, porém, tudo transcorreu tranquilamente - até mesmo a filmagem da cena em que Katharine Hepburn teve que cair em um dos canais de Veneza (e que lhe rendeu uma infecção no olho que nunca mais a abandonou). Foi tudo tão pacífico que Lean confirmou sua paixão pela cidade e fez dela seu segundo lar.


Já os moradores de Veneza, depois da confusão proporcionada pelas filmagens, foram surpreendidos com um efeito positivo para sua economia: após o lançamento de ""Quando o coração floresce" (justamente no festival de cinema realizado na cidade), o turismo no local simplesmente dobrou. Os espectadores conquistados pela história de amor contada por Lean queriam visitar os cenários do filme - e desde então Veneza é considerada uma das cidades mais românticas do mundo. Tudo por conta de uma história de amor madura, que rejeita o sentimentalismo e abraça um tom de romance outonal que trata o espectador com respeito - e que apresenta mais uma interpretação impecável de Hepburn. Ela vive Jane Hudson, que depois de anos de trabalho finalmente consegue realizar a viagem dos sonhos. Sozinha - acompanhada apenas por sua câmera filmadora -, ela passeia por Veneza absorvendo a atmosfera lírica da cidade. Ao entrar em um antiquário para comprar um objeto pelo qual se apaixonou, ela conhece Renato de Rossi (Rossano Brazzi), que acaba por se tornar seu amigo. Aos poucos, no entanto, Jane percebe que quer mais do que a amizade do sedutor Renato - mas nem tudo é o que parece, e em breve ela terá de lutar contra seus próprios valores para se entregar ao amor.

Assim como em "Desencanto" (1945), um de seus mais memoráveis filmes, David Lean retrata uma relação amorosa condenada pelas regras sociais. Mais uma vez seus personagens são jogados em um turbilhão sentimental e precisam encontrar forças para lutar por sua felicidade, que está justamente em um local aparentemente inalcançável. Katharine Hepburn é uma força da natureza: qualquer cena, por mais insignificante que pareça, é transformada em um espetáculo à parte - principalmente no terço final, quando ela precisa decidir entre a felicidade (ainda que fugaz) ou a ética social. A Rossano Brazzi resta pontuar com discrição o desempenho de Hepburn e entregar uma performance correta, mas jamais brilhante. A química entre os dois não chega a ser faiscante - o amor talvez surja de forma um tanto rápida -, mas é inegável que juntos eles conseguem cumprir o que o filme promete: um romance entre pessoas adultas e com sentimentos palpáveis, que pode fazer com que os mais sensíveis espectadores derramem uma ou outra lagrimazinha. Não é nem de longe o melhor filme de David Lean, mas oferece ao público uma trama séria e emocionante.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...