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sábado

PASTORAL AMERICANA

PASTORAL AMERICANA (American pastoral, 2015, Lakeshore Entertainment, 108min) Direção: Ewan McGregor. Roteiro: John Romano, romance de Philip Roth. Fotografia: Martin Ruhe. Montagem: Melissa Kent. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Lindsay Ann McKay. Direção de arte/cenários: Daniel B. Clancy/Jason Shumaker, Julie Smith. Produção executiva: Qiuyun Long, Terry A. McKay, Eric Reid. Produção: Andre Lamal, Gary Lucchesi, Tom Rosenberg. Elenco: Ewan McGregor, Jennifer Connelly, Dakota Fanning, Peter Riegert, Rupert Evans, Uzo Aduba, Molly Parker, Samantha Mathis, David Strathairn. Estreia: 09/9/16 (Festival de Toronto)

Não deixa de ser estranho que o filme de estreia de Ewan McGregor na direção de longa-metragens seja algo tão denso quanto "Pastoral americana": revelado por Danny Boyle em produções celebradas principalmente por seu senso de humor inconoclasta, como "Cova rasa" e "Trainspotting: sem limites", McGregor jamais abandonou suas raízes independentes, mesmo quando se jogava sem medo em superproduções hollywoodianas, como a saga "Star Wars" ou o musical "Moulin Rouge: o amor em vermelho" (2001), seus maiores sucessos comerciais. Mas sua escolha em contar uma história tão profundamente arraigada aos conflitos do american way of life, adaptada de um romance do consagrado Philip Roth, vencedor do Pulitzer em 1998, demonstra uma sensibilidade em relação ao âmago do núcleo tradicional da família americana que nem todo cineasta ianque consegue ter. Com uma narrativa clássica e discreta, McGregor tem a inteligência de não querer uma direção que se sobressaia à trama - e acaba entregando um potente drama, escorado em seus atores e em um roteiro que não trai o legado de Roth em sua investigação sobre a personalidade humana.

Na verdade, McGregor não era a primeira escolha para o filme - nem como diretor e nem como ator. Quando o projeto original foi cancelado, em 2004, o diretor escolhido era Philip Noyce, em um momento feliz de sua carreira, depois do sucesso de seu "O americano tranquilo" (2002), baseado no livro de Graham Greene, e que havia rendido uma indicação ao Oscar de melhor ator para Michael Caine. Nessa versão, o casal central da história seria um casal também da vida real, Paul Bettany e Jennifer Connelly, com Evan Rachel Wood no papel da filha rebelde (uma especialidade da atriz, revelada no excelente "Aos treze", de 2003). Anos haviam se passado no desenvolvimento da ideia de realizar o filme quando o cancelamento acabou, e somente uma década depois, ele voltaria a ser considerado - dessa vez já com McGregor como diretor e no papel principal masculino. Jennifer Connelly continuou no elenco mesmo sem o marido como colega de cena, e a talentosa Dakota Fanning foi chamada para viver sua problemática filha, Merry. Com um trio talentoso como esse - mais a música de Alexandre Desplat e a participação especial de David Straithairn - não tinha mesmo como dar errado. E, apesar do pouco caso com que foi recebido nas bilheterias e até mesmo por parte da crítica, não deu mesmo. "Pastoral americana" é um drama forte, visceral e relevante, que aponta para McGregor uma nova e surpreendente carreira.


De forma contundente e melancólica, "Pastoral americana" destrói a ilusão de uma família perfeita - quase como Sam Mendes fez em "Foi apenas um sonho" (2008), também baseado em um livro, escrito por Sam Yates. McGregor interpreta Seymour Levov, mais conhecido como Swede, um americano judeu que é o retrato do sucesso: atleta cobiçado na universidade, casou-se com a bela Dawn (Jennifer Connelly), uma rainha de beleza igualmente desejada, e, com a chegada da vida adulta, assumiu o comando da bem-sucedida fábrica de luvas criada pelo pai. Dono de uma bela casa em Nova Jersey, profissionalmente satisfeito, com uma esposa exemplar e uma bela e loura filha (cujo único problema é a gagueira), Swede parece só ter motivos para agradecer - até que sua adorável filha passa a tornar-se irreconhecível a seus olhos: politicamente afetada pelos problemas sociais ao seu redor, Merry simplesmente desaparece depois de ser acusada de plantar uma bomba em uma propriedade privada. Desnorteados, seus pais iniciam uma busca não apenas por seu paradeiro, mas também por uma forma de reencaixá-la em sua vida pacífica e, até então, quase banal. Dawn embarca em um processo de negação que a leva às raias da loucura, enquanto Swede tenta manter o equilíbrio emocional para não permitir o desmoronamento absoluto de seu universo perfeito.

McGregor acerta na direção de atores, o que não é pouca coisa quando se trata de um estreante. Ao mesmo tempo em que consegue manter-se discreto no papel de Swede - que é, ao mesmo tempo um observador do redemoinho à sua volta e um ativo participante da tragédia que o envolve -, o ator extrai de suas colegas de cena performances carregadas de sentimento e dor. Jennifer Connelly, linda como nunca, sai-se muito bem tanto na juventude quanto na maturidade, entregando alguns momentos de melancolia explícita de cortar o coração; e Dakota Fanning - revelada ainda criança em "Uma lição de amor" (2001), onde fazia a filha de Sean Penn - comprova que seu talento não era questão de sorte de principiante: no difícil papel da rebelde e problemática Merry, a jovem se encarrega de dar luz a ideias e princípios que batem de frente com o pensamento político médio dos EUA, e oferece um contraponto radical à lucidez cega de sua família. Os três estão sensacionais - e inundam o filme de sentimento, dor e amor incondicional. Um belíssimo trabalho de estreia de Ewan McGregor - e que seja o primeiro de muitos.

quinta-feira

ELE NÃO ESTÁ TÃO A FIM DE VOCÊ

ELE NÃO ESTÁ TÃO A FIM DE VOCÊ (He's just not that into you, 2009, New Line Cinema, 129min) Direção: Ken Kwapis. Roteiro: Abby Kohn, Marc Silverstein, livro de Greg Behrendt, Liz Tuccillo. Fotografia: John Bailey. Montagem: Cara Silverman. Música: Cliff Eidelman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Fae S. Buckley/K.C. Fox. Produção executiva: Drew Barrymore, Michael Beugg, Toby Emmerich, Michelle Weiss. Produção: Nancy Juvonen. Elenco: Jennifer Aniston, Drew Barrymore, Jennifer Connelly, Ben Affleck, Bradley Cooper, Scarlet Johansson, Ginifer Goodwin, Justin Long, Kevin Connolly. Estreia: 06/02/09

Sofrendo eternamente de um deserto de ideias originais, Hollywood sempre buscou na literatura a forma de sustentar sua produção. Até aí, nada de mais, uma vez que muitos clássicos do cinema saíram direto das mentes de gente como John Steinbeck ("As vinhas da ira", "Vidas amargas"), Truman Capote ("À sangue frio", Bonequinha de luxo") e Tolstói (as várias versões de "Anna Karenina"). O problema é que, não felizes em transportar para as telas romances de vários níveis de qualidade, os executivos começaram a apelar para o mais imprevisível segmento literário: a autoajuda. Um exemplo inconteste dessa afirmação é "Ele não está tão a fim de você", escrito pela dupla Greg Behrendt e Liz Tuccillo. Uma espécie de manual para que as mulheres identifiquem as razões pelas quais os homens não as procuram mais depois de um primeiro encontro, o livro virou uma comédia romântica que em nada difere das outras do gênero, exceto pelo elenco estelar.

Inspirado em uma frase clássica de um episódio da telessérie "Sex and the city", o filme dirigido por Ken Kwapis mostra diferentes tipos de relação amorosa através de oito amigos/conhecidos/colegas de trabalho na casa dos trinta e poucos anos que se debatem em problemas explorados pelo livro. De uma certa forma, quem conduz a trama é Gigi (Ginifer Goodwin, justamente a menos conhecida do elenco): confusa por nunca conseguir dar seguimento a seus primeiros encontros, ela encontra em Alex (Justin Long), o dono de um bar, uma espécie de guru masculino, que passa a ajudar-lhe a entender o lado oposto das relações. Alex é o melhor amigo de um desses homens que ignoraram Gigi, o corretor imobiliário Conor (Kevin Connolly), que tem suas razões para não querer mais nenhuma relação, uma vez que ainda é apaixonado pela ex-namorada, Anna (Scarlett Johnasson, abusando de suas caras e bocas de "I'm sexy and I know it"), que sonha começar uma carreira como cantora. Nessa busca, ela encontra com Ben (Bradley Cooper), que promete ajudar-lhe, mas sentindo-se atraído por ela, balança em seu casamento com a controladora Janine (Jennifer Connelly), colega de trabalho de Gigi e de Beth (Jennifer Aniston), que depois de sete anos de relacionamento resolve por o namorado Neil (Ben Affleck) contra a parede e exigir uma decisão relacionada a um casamento ou não. Enquanto isso, outra amiga delas, Mary (Drew Barrymore, uma das produtoras executivas através de sua produtora Flower Films), sente dificuldades em lidar com todas as formas de tecnologia envolvidas no início de uma relação.


A opção dos roteiristas de "Ele não está tão a fim de você" em contar várias histórias paralelas sem aprofundar-se muito em nenhuma delas é o trunfo e o ponto fraco do filme. Sem apostar exageradamente em nenhum núcleo, a obra dá ao espectador a chance de ignorar as histórias menos interessantes e prestar mais atenção naquelas que mais lhe são simpáticas, mas ao mesmo tempo, cria personagens superficiais o bastante para que nenhum deles consiga destacar-se em meio ao emaranhado de situações apresentadas - que, justiça seja feita, fazem sentido para qualquer pessoa que já passou ou está passando por uma relação amorosa. Nesse ponto, talvez a personagem de Jennifer Connelly - mesmo sendo a mais chata em uma primeira visão - seja a mais real da trama, por jamais cair na armadilha fácil das piadinhas previsíveis (ou talvez seja a bela Connelly que é melhor atriz do que todo mundo do elenco que passe essa impressão).

Bonitinho, simpático, agradável, ligeiro. Todos esses adjetivos podem ser utilizados quando se fala de "Ele não está tão a fim de você" e todos eles estão corretos. O problema é que eles também definem a grande maioria das comédias românticas americanas, o que imediatamente o relega a ser apenas mais uma produção rotineira, ainda que não ofenda ninguém. Vale pelo elenco e por uma ou outra cena mais engraçada.

sexta-feira

DIAMANTE DE SANGUE

DIAMANTE DE SANGUE (Blood diamond, 2006, Warner Bros, 143min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Charles Leavitt, história de Charles Leavitt, C. Gaby Mitchell. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Newton Howard. Figurino: Ngila Dickson. Direção de arte/cenários: Dan Weil/Olivia Bloche-Laine. Produção executiva: Len Amato, Kevin de la Noy, Benjamin Waisbren. Produção: Gillian Gorfil, Marshall Jerskovitz, Graham King, Paula Weinstein, Edward Zwick. Elenco: Leonardo DiCaprio, Djimon Houson, Jennifer Connelly, Michael Sheen, Kagiso Kuypers. Estreia: 08/12/06

5 indicações ao Oscar: Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Djimon Houson), Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som

Conhecido por filmes de visual estonteante e conteúdo um tanto raso - como "Lendas da paixão", "Coragem sob fogo" e "O último samurai" - o cineasta Edward Zwick surpreendeu a crítica quando lançou "Diamante de sangue", onde substituiu a fotografia esplendorosa de seus trabalhos anteriores por uma trama forte e violenta, que utiliza um triste fato real - os conflitos em Serra Leoa entre soldados do governo e forças rebeldes que lutam contra a opressão - para contar uma história dotada de ritmo e dramaticidade na medida certa. Ainda que se estenda demais em seu terço final, o filme estrelado por Leonardo DiCaprio e Djimon Houson facilmente se insere entre as melhores obras do cineasta.

Passado em 1999, durante a crise civil que dividia Serra Leoa, "Diamante de sangue" começa quando os soldados do governo invadem uma pequena ilha e fazem de refém, dentre dezenas de outros homens, o pescador Solomon Vandy (Djimon Houson, indicado ao Oscar de coadjuvante). Afastado da família para procurar diamantes, ele acaba encontrando uma enorme pedra preciosa, que esconde com o objetivo de, com sua venda, encontrar seus entes queridos. Em seu caminho, porém, ele cruza com Danny Archer (Leonardo DiCaprio), um ex-mercenário inglês que vê no diamante encontrado por Vandy seu passaporte para fora da África. Unidos, os dois tentarão escondê-lo das violentas trupes governamentais para atingir suas metas. Para isso, eles contam com a ajuda da jornalista Maddy Bowen (Jennifer Connelly), disposta a revelar em uma reportagem todos os horrores que circundam o tráfico de diamantes da África.


Sem medo de apelar para a violência - suas sequências iniciais são de uma brutalidade ímpar - Edward Zwick consegue, em "Diamante de sangue" equilibrar com grande eficácia cenas de ação realistas com momentos de genuíno e emocionante drama, em especial quando direciona seu foco para a relação entre Solomon Vandy e seu filho pequeno, recrutado para tornar-se um pequeno soldado. A atuação de Djimon Houson é esplêndida, transmitindo toda a dor de um pai que se vê afastado da família só para encontrá-la em uma situação aterradora. Seu trabalho visceral encontra eco em Leonardo DiCaprio - indicado ao Oscar no mesmo ano em que também esteve no elenco do multipremiado "Os infiltrados". Mesmo que seja basicamente uma escada para o talento de Hounson - apesar de ser o primeiro nome dos créditos - o jovem ator consegue injetar humanidade a uma personagem não exatamente heroica, mas nem mesmo sua presença fez com que o filme encontrasse seu público nos cinemas americanos, onde rendeu pouco mais da metade de seu orçamento (bastante alto) de 100 milhões de dólares.

Intenso e sofrido, "Diamante de sangue" peca apenas por demorar demais a chegar a seu final, enrolando por bons quinze minutos com algumas cenas desnecessárias. Ainda assim, é suficientemente empolgante para manter a atenção do início ao fim e emocionar aos mais sensíveis. Belo programa!

quarta-feira

PECADOS ÍNTIMOS

PECADOS ÍNTIMOS (Little children, 2006, New Line Cinema, 137min) Direção: Todd Field. Roteiro: Todd Field, Tom Perrotta, romance de Tom Perrotta. Fotografia: Antonio Calvache. Montagem: Leo Trombetta. Música: Thomas Newman. Figurino: Melissa Economy. Direção de arte/cenários: David Gropman/Susan Bode-Tyson. Produção executiva: Kent Alterman, Toby Emmerich, Patrick Palmer. Produção: Albert Berger, Todd Field, Ron Yerxa. Elenco: Kate Winslet, Patrick Wilson, Jennifer Connelly, Jackie Earle Haley, Noah Emmerich, Gregg Edelman, Trini Alvarado. Estreia: 01/9/06 (Festival de Telluride)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Kate Winslet), Ator Coadjuvante (Jackie Earle Haley), Roteiro Adaptado

Em 1999, o livro "Eleição" virou um delicioso filme repleto de humor negro nas mãos de Alexander Payne e nas interpretações geniais de Matthew Broderick e Reese Witherspoon. Ao contar uma história sobre a obsessão de uma jovem estudante pelo sucesso e pelo desprezo de um professor por sua personalidade arrivista, seu autor, Tom Perrotta demonstrou um senso de ironia que contrastava com o ranço politicamente correto que já assolava os EUA. Em "Criancinhas", porém, ele trocava a ironia por uma visão quase amarga e melancólica sobre as famílias suburbanas e suas interrelações. Não demorou para que logo surgisse uma adaptação para o cinema - que recebeu o título brasileiro de "Pecados íntimos", o que lhe tira a sutileza e um maior alcance metafórico. Adaptada pelo próprio Perrota e pelo diretor Todd Field, sua trama, que joga na mesma vizinhança um romance extraconjugal e a possível ameaça de um pedófilo tentando recomeçar a vida, ganha ressonâncias dramáticas apenas rascunhadas nas páginas impressas.

Essa ressonância já começa pela acertada escalação da sempre excepcional Kate Winslet em um dos papéis centrais da história. Ela vive - com a competência de sempre, que lhe valeu uma indicação ao Oscar - Sarah Pierce, uma dona-de-casa que vive com o marido mais velho e a filha pequena em um subúrbio cercado de outras famílias parecidas. Sua vida pacata e tediosa dá um salto quando ela - sempre relagada a segundo plano pelas próprias vizinhas por não se encaixar no ideal de esposa de classe média - conhece o jovem, bonitão e charmoso Brad Adamson (Patrick Wilson, sugerido por Winslet e perfeito no papel), advogado que luta para passar no exame da ordem e, enquanto isso, cuida do filho também pequeno e é sustentado pela esposa, Kathy (Jennifer Connelly), uma documentarista séria e com quem mantém uma relação quase fria. Sentindo-se atraídos um pelo outro - e identificando-se com o vazio de suas vidas matrimoniais - eles se envolvem em um apaixonado romance, mesmo que não saibam direito o que fazer com ele. Concomitantemente, seu bairro inicia uma campanha contra Ronnie McGorvey (Jackie Earle Haley), homem que saiu da cadeia depois de uma condenação por pedofilia e que volta a morar na casa de sua mãe.



O título original do romance de Perrotta, "Criancinhas" é de uma fina ironia, perdida na sua "tradução" nacional: quando se lê o livro (e quando se vê o filme, mas de forma menos óbvia) percebe-se claramente que as criancinhas do título não são os filhos de Sarah e Brad nem tampouco as possíveis vítimas de Ronnie e sim os próprios pais. Sarah e Brad não tem maturidade para evoluir em seu caso extraconjugal, deixando sempre que o medo e o comodismo ditem suas atitudes - o marido de Sarah procura sexo na Internet e ela se sente incapaz de deixá-lo e Brad sonha em voltar ao skate, como forma de manter-se eternamente jovem e adolescente. Pairando sobre eles, a dor de Ronnie em seu desajuste e suas tentativas desesperadas de ser "normal" consegue comover, em especial quando entra em cena sua mãe - em sensacional atuação de Phyllis Somerville - e quando ele tem um encontro forçado com uma pretendente - participação pequena de Jane Adams (que atuou em "Felicidade", de Todd Solondz, que também desvendava os segredos dos subúrbios americanos).

Inteligente, sexy e um tanto melancólico, "Pecados íntimos" é um filme pequeno, recheado de pequenos acontecimentos, tornado enormes pela dimensão dentro da vida de suas personagens. É um filme como a vida, e como tal, surpreende, encanta e não deixa ninguém incólume.

segunda-feira

ÁGUA NEGRA

ÁGUA NEGRA (Dark water, 2005, Touchstone Pictures, 105min) Direção: Walter Salles. Roteiro: Rafael Yglesias, roteiro original de Hideo Nakata, Takashige Ichise, romance de Kôji Suzuki. Fotografia: Affonso Beato. Montagem: Daniel Rezende. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Thèrése DePrez/Nick Evans, Clive Thomasson. Produção executiva: Ashley Kramer. Produção: Doug Davison, Roy Lee, Bill Mechanic. Elenco: Jennifer Connelly, John C. Reilly, Tim Roth, Pete Postletwhaite, Dougray Scott, Camryn Manheim, Ariel Gade. Estreia: 27/6/05

Ainda parte de uma onda que adaptava filmes de terror orientais para o paladar do público (em especial o americano), este "Água negra" é o primeiro filme hollywoodiano do brasileiro Walter Salles depois da boa receptividade de "Diários de motocicleta" (que chegou a levar um Oscar de melhor canção). No entanto, a boa vontade da crítica ianque e do público em geral não se repetiu dessa vez. Refilmagem livre de uma obra japonesa, o filme naufragou nas bilheterias e ainda amargou uma rejeição inexplicável da imprensa de modo quase geral.


Quase inexplicável, na verdade. Levando-se em consideração o quanto obtusa a crítica americana pode ser em algumas ocasiões, o dito fracasso de "Água negra" era até esperado. Afinal de contas, um filme de terror quase sem sustos, com um clima opressivo e claustrofóbico mas sem nada, absolutamente nada de sangue e com uma protagonista torturada por um passado traumático que não envolve psicopatas mascarados só podia mesmo dar com os burros n'água. O diretor Walter Salles e o roteirista Alfredo Yglesias nadaram contra a corrente dos filmes de horror que insistiam em lotar as salas de exibição. E por isso mesmo criaram uma dos melhores e mais angustiantes obras do gênero a surgir em muito tempo.



Lembrando constantemente o clássico "O bebê de Rosemary", de Roman Polanski - principalmente devido a seu clima e sua preferência em focar o psicológico em detrimento do físico - o filme começa quando a jovem Dahlia Williams (Jennifer Connelly, bela e melhor atriz como nunca), recém divorciada, se muda com a filha pequena Ceci (a ótima atriz miriam Ariel Gade) para um prédio soturno, distante alguns minutos de Manhattan. O apartamento onde elas vão morar tem um vazamento no teto e, enquanto Dahlia briga na justiça pela guarda da menina, ele começa a aumentar cada vez mais, na mesma medida em que ela volta a ter pesadelos com sua mãe relapsa. Quando sua filha passa a falar de uma amiga imaginária chamada Natasha, Dahlia entra em colapso.

A ambientação lúgubre do filme de Salles funcina quase como uma personagem em si. O prédio, cada vez mais úmido a medida em que Dahlia entra em suas crises psicológicas, a fotografia escura e sombria do brasileiro Affonso Beatto e a trilha sonora de Angelo Badalamenti (colaborador frequente de David Lynch) colaboram de forma impecável com todo o clima de angústia e solidão proposto pelo roteiro. Ao invés de assustar a audiência a cada cinco minutos, "Água negra" prefere apresentar um estudo sobre traumas do passado, sobre a depressão e sobre o terror que cada um carrega dentro de si. Não é à toa que fracassou. Mas é um filme excelente, digno de ser redescoberto e aplaudido pelos fãs de bom cinema.

sexta-feira

CASA DE AREIA E NÉVOA


CASA DE AREIA E NÉVOA (House of sand and fog, 2003, Dreamworks SKG, 126min) Direção: Vadim Perelman. Roteiro: Vadim Perelman, Shawn Lawrence Otto, romance de Andre Dubus III. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: James Horner. Figurino: Hala Bahmet. Direção de arte/cenários: Maia Javan/Gene Serdena. Produção executiva: Nina R. Sadowsky, Stewart Till. Produção: Michael London, Vadim Perelman. Elenco: Ben Kingsley, Jennifer Connelly, Shohreh Aghdashloo, Ron Eldard, Frances Fisher, Jonathan Ahdout. Estreia: 26/12/03

3 indicações ao Oscar: Ator (Ben Kingsley), Atriz Coadjuvante (Shohreh Aghdashloo), Trilha Sonora Original

Nada mais saudável queuma indústria que lega ao mundo escapismos milionários como a trilogia "O Senhor dos Anéis" também possa oferecer a pessoas que procuram mais substância nas salas de cinema, filmes como este "Casa de areia e névoa". Dirigido pelo ucraniano Vadim Perelman, a adaptação do romance de Andre Dubus III - que recebeu mais de cem ofertas pelos direitos cinematográficos - é um soco no estômago, mas realizado com uma competência assustadora que ninguém deixa ninguém incólume com sua força.

Jennifer Connelly, aqui acabando com qualquer dúvida que porventura tivessem de seu talento, vive Kathy Nicolo, uma faxineira (??) com problemas de alcoolismo que não tem uma relação das melhores com a família e foi abandonada pelo marido.Como desgraça pouca é bobagem e não interessa à Hollywood, ela acaba perdendo a casa que herdou do pai, por problemas de impostos cobrados erroneamente pela prefeitura. Antes mesmo de conseguir resolver sua situação, no entanto, ela descobre que a casa já foi vendida, em um leilão, a um imigrante iraniano, o militar Behrani (em uma atuação excepcional de Ben Kingsley, merecidamente indicado ao Oscar por seu desempenho), que tem a intenção de revender a propriedade por um preço bem maior que o pago, para proporcionar uma vida melhor à esposa Nadi (Shoreh Ahgdashloo, indicada ao Oscar de coadjuvante) e ao filho Esmail (Jonathan Ahdout). Contando com a ajuda de Lester (Ron Eldard), um policial com o casamento em crise, Kathy passa a tentar de todas as maneiras expulsar o novo proprietário de sua casa, usando até mesmo de subterfúgios que podem afastar-lhe ainda mais de seu objetivo.

        

Fugindo do óbvio e do clichê a cada cena, "Casa de areia e névoa" é um filme adulto, sério, que não tenta, em momento algum, comover o espectador com cenas lacrimosas ou chocá-lo com uma violência além da psicológica que trespassa todo o ótimo roteiro co-escrito pelo diretor. As surpresas que ele reserva ao público são genuínas e verossímeis, e suas personagens são de uma complexidade e integridade únicas no cinemão americano. Não há vilões ou heróis na história de Dubus, cada um tem seus motivos para disputar a casa - Kathy se agarrando a ela como único elo de sanidade de sua vida, Behrani a vendo como o passaporte para uma vida menos sacrificada e que poderá lembrar de tempos melhores em seu país de origem - e cabe à plateia, grata por tamanha qualidade dramática, escolher um lado e testemunhar o duelo de forças entre as personagens e seus atores, todos em dias iluminados.

Fotografado com competência assustadora por Roger Deakins, "Casa de areia e névoa" ainda apresenta um final de uma tal angústia e desespero que o coloca entre um dos melhores dramas que Hollywood apresentou a seu público no início do século XXI.

segunda-feira

UMA MENTE BRILHANTE

UMA MENTE BRILHANTE (A beautiful mind, 2001, Universal Pictures/Dreamworks SKG, Imagine Entertainment, 135min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Akiva Goldsman, livro de Sylvia Nasar. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: James Horner. Figurno: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Leslie Rollins. Produção executiva: Todd Hallowell, Karen Kehela. Produção: Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Ed Harris, Christopher Plummer, Paul Bettany, Josh Lucas, Adam Goldberg, Judd Hirsch. Estreia: 13/12/01

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Ator (Russell Crowe), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Maquiagem
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Russell Crowe), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro

Grande vencedor do Oscar 2001 em quatro categorias - Filme, Diretor, Roteiro Adaptado e Atriz Coadjuvante - "Uma mente brilhante" conta a história do matemático John Nash causou polêmica em seu lançamento, o que em nada atrapalhou seu sucesso também nas bilheterias, com uma arrecadação de mais de 170 milhões de dólares somente no mercado americano (o que, se for levado em conta que não é um típico produto para consumo imediato é um estrondoso sucesso). O celeuma foi causado pela revelação de que o protagonista do filme tinha ideias antissemitas, o que foi convenientemente deixado de lado pelo premiado roteiro de Akiva Goldsman, assim como suas tendências homossexuais. O que os polemistas talvez não tenham percebido é que tais características da personagem não fazem muita diferença para o centro da história contada no filme. O que importa na obra de Ron Howard - um diretor até então de filmes comerciais sem maiores ambições artísticas - é a luta de Nash contra a esquizofrenia, travada durante décadas, e sua história de amor com a esposa Alicia - história essa bastante enfeitada na transposição para celulóide da extensa biografia escrita por Sylvia Nasar.

Vivido com um misto de garra e delicadeza surpreendente por um Russell Crowe provando seu imenso talento, John Nash é mostrado pela primeira vez em 1947, ainda na faculdade e buscando uma maneira de destacar-se de seus colegas, todos matemáticos brilhantes e um tanto arrogantes. Já professor, Nash conhece e se apaixona por uma aluna, a bela Alicia (Jennifer Connelly, linda e excelente no papel), com quem se casa, apesar de suas dificuldadades em relacionamentos sociais. Às vésperas de seu reconhecimento profissional, no entanto, ele é diagnosticado como esquizofrênico e, com a ajuda de Alicia e do psiquiatra Dr. Rosen (Christopher Plummer), ele tenta superar a doença e voltar a ser o gênio que prometia.



Russell Crowe foi injustiçado quando perdeu o Oscar de Melhor Ator para Denzel Washington. Seu trabalho como John Nash é infinitamente superior não somente ao de Denzel mas principalmente à sua própria atuação vencedora do prêmio da Academia pelo épico "Gladiador". Repleta de nuances e sutilezas que só os grandes atores conseguem, sua atuação comove, intriga e angustia na medida certa, impedindo a compaixão fácil e fazendo com que cada cena seja especial pelo simples fato de ele estar presente nela. Sua química exemplar com Jeniffer Connelly, seja em cenas românticas (criadas para agradar às plateias mais convencionais) ou nas mais dramáticas eleva o filme a um patamar de excelência que provavelmente foi o que conquistou o público sedento por um drama adulto de qualidade. É de questionar apenas os motivos que levaram Connelly a vencer na categoria de coadjuvante, uma vez que sua personagem é quase tão protagonista quanto a de Crowe. Somado a sua trama de superação - que além de tudo é verdadeira, apesar da supressão de fatos importantes e da simplificação de outros - o romance entre Nash e Alicia também seduziou os eleitores do Oscar que lhe deram quatro importantes estatuetas (e deveriam ter dado no mínimo mais uma, a Crowe, que acabou prejudicado pela mania do Oscar de corrigir injustiças fazendo outras....).

Além dos trabalhos exemplares de Crowe e Connelly, porém, seria injusto deixar de citar a maior qualidade de "Uma mente brilhante": o roteiro irretocável de Akiva Goldsman. Apesar das licenças poéticas (que incorreram na fúria dos puristas), seu script é capaz de conquistar pela delicadeza dos diálogos e pela reviravolta espetacular que proporciona depois de sua primeira hora de projeção e além de tudo, funciona como drama médico, como romance e como thriller de espionagem, sem nunca atropelar o ritmo e as personagens, sejam elas protagonistas ou coadjuvantes - e nessa categoria encontra-se atores de primeira linha, como Christopher Plummer, Paul Bettany e um arrepiante Ed Harris, perfeito em sua tétrica caracterização como um misterioso agente da CIA.

Com todas essas qualidades, não é de estranhar que "Uma mente brilhante" tenha passado incólume pelas polêmicas a seu respeito. Afinal, verdadeiras ou não, as acusações feitas são contra a personalidade de seu protagonista e não interferem no produto cinematográfico, dirigido com precisão por Ron Howard, até então mais afeito a produções mais lineares e menos, com o perdão do trocadilho, brilhantes. É aqui, com a parceria de Russell Crowe e Akiva Goldsman que ele atinge seu ápice, em um filme forte e que, apesar de parecer esquemático, consegue surpreender e emocionar.

sexta-feira

RÉQUIEM PARA UM SONHO


RÉQUIEM PARA UM SONHO (Réquiem for a dream, 2000, Artisan Entertainment, 102min) Direção: Darren Aronofsky. Roteiro: Darren Aronofsky, Hubert Selby Jr., romance de Hubert Selby Jr. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Jay Rabinowitz. Música: Clint Mansell. Figurino: Laura Jean Shannon. Direção de arte/cenários: James Chinlund/Ondine Karady. Produção executiva: Beau Flynn, Stefan Simchowitz, Nick Wechsler. Produção: Eric Watson, Palmer West. Elenco: Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly, Marlon Wayans, Christopher McDonald, Dylan Baker. Estreia: 27/10/00

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Ellen Burstyn)

Filmes sobre viciados em drogas normalmente acabam resvalando nas situações clichês, cedendo à tentação de chocar, mesmo que para isso os roteiristas e diretores deixem de lado profundidades psicológicas em função do choque visual, normalmente escatológico. A cada gloriosa exceção como o criativo “Trainspotting, sem limites” existe dúzias de bombas como o longínquo mas com status de clássico “Christiane F.”, cujo maior mérito foi alertar a respeito do assunto e contar com a participação de David Bowie. Felizmente, gente com talento se interessa em acrescentar qualidade a temas tão batidos como as tragédias junkies. Um desses nomes de talento é Darren Aronofsky, que foi incensado pela crítica já em seu filme de estreia, o pouco visto “Pi” e colecionou mais elogios ainda com “Réquiem para um sonho”, um petardo cinematográfico poucas vezes registrado na história.

Baseado no romance de Hubert Selby Jr. (que colaborou com o roteiro, escrito em parceria com o diretor), “Réquiem para um sonho” é um dos filmes mais ousados do final do século, uma experiência sensorial e emocional respaldada por um elenco excepcional liderado por uma impressionante Ellen Burstyn, injustamente preterida ao Oscar de melhor atriz em favor de Julia Roberts, no correto e nunca genial “Erin Brockovich, uma mulher de talento”. Burstyn vive Sarah Goldfarb, uma viúva solitária e obesa cujas únicas alegrias na vida são as visitas raras do filho Harry (Jared Leto, macérrimo e bom ator como nunca) e os momentos passados em frente à TV. Sua vida dá uma virada quando ela é selecionada para participar de um de seus programas preferidos. Com o objetivo claro de emagrecer e servir no vestido vermelho que era o favorito de seu marido, ela se entrega a uma dieta delirante de comprimidos inibidores de apetite. Aos poucos as anfetaminas passam a fazer efeito e, além de emagrecer assustadoramente, Sarah começa a delirar, ranger dentes e perder o controle sobre seus sentidos. Enquanto isso, seu filho inicia uma sociedade no tráfico de entorpecentes com seu melhor amigo Tyrone(Marlon Wayans). Sua meta é investir o dinheiro ganho em uma confecção, junto com a namorada Marion (Jennifer Connelly, belíssima como sempre e uma atriz cada vez melhor). O problema é que os três são viciados em drogas e o capital investido logo é insuficiente para suprir suas necessidades, o que os leva a uma crescente história de desespero e privação.


“Réquiem para um sonho” não é um filme fácil, o que sua bilheteria minguada nos EUA apenas comprova. Ao investir pesado em uma trama sem concessões sentimentalóides (apesar de algumas cenas de cortar o coração), Aronofsky não deixa pedra sobre pedra, não poupando nenhuma de suas personagens que encontram apenas frustração e desespero em busca de seus sonhos. As impressionantes edições de imagens repetidas e sons distorcidos ajudam na captura da angústia pelas quais passam Sarah, Harry e Marion, pessoas comuns jogadas em meio a um furacão de dor. A trilha impactante de Clint Mansell, que martela mesmo depois dos créditos finais é forte candidata a inesquecível, mas é a qualidade do elenco que fascina mais do que tudo.

Enquanto Jennifer Connelly comprova seu crescimento como atriz e mulher bonita, são os jovens Jared Leto e Marlon Wayans que surpreendem. Leto, até então sem maiores chances de mostrar trabalho agarra com unhas e dentes a oportunidade de atuar ao lado de colegas mais experientes e consagradas. Wayans, saído diretamente de coisas como “Todo mundo em pânico” acena como uma possibilidade que nunca mais foi devidamente explorada. Mas é a indescritível Ellen Burstyn que é a imagem mais característica do filme. Ao viver uma mulher comum, dona-de-casa, viúva e sem maiores interesses na vida e que de repente afunda em um caminho de dor, Burstyn não apenas passa por uma transformação física apavorante mas também demonstra uma coragem e uma segurança que muitas estrelas de Hollywood nem sequer pensam em tentar. Confiando plenamente no talento de seu diretor (que dez anos depois entregaria ao mundo outra obra-prima, o tocante "Cisne negro"), a atriz premiada com o Oscar de 1974 por "Alice não mora mais aqui" apresenta a maior atuação feminina da década.

 Anfetamínico, impressionante, chocante, deprimente. Todas os adjetivos usados para descrever “Réquiem para um sonho” como um dos mais pesados da história são cabíveis. Mas também o são palavras como genial, criativo, obrigatório. Uma obra-prima em forma de pesadelo.

quarta-feira

AMOR MAIOR QUE A VIDA


AMOR MAIOR QUE A VIDA (Waking the dead, 2000, Polygram Filmed Entertainment, 105min) Direção: Keith Gordon. Roteiro: Robert Dillon, romance de Scott Spencer. Fotografia: Tom Richmond. Montagem: Jeff Wishengrad. Música: Scott Shields, Tomadandy. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Zoe Sakellaropoulo/Simon La Haye, Joelle Turenne. Produção executiva: Jodie Foster. Produção: Keith Gordon, Stuart Kleinman, Linda Reisman. Elenco: Billy Crudup, Jennifer Connelly, Hal Holbrook, Ed Harris, Janet McTeer, Molly Parker, John Carroll Lynch, Paul Hipp, Sandra Oh. Estreia: 24/3/00

Histórias de amor no cinema seguem quase sempre a mesma métrica. Rapaz e moça se conhecem, se apaixonam, vivem um romance idílico, são forçados a enfrentar problemas de vários tipos e têm uma variante final: ou se acertam de vez e ficam felizes para sempre ou sofrem uma perda irreparável (leia-se uma morte dramática e piegas). Felizmente de vez em quando aparece alguém com algo mais a acrescentar do que simplesmente uma história vazia de amor irreal e plástico. E é isso que o ator e diretor Keith Gordon faz com “Amor maior que a vida”, um romance interessante e consistente que mostra que o amor tem razões que a própria razão desconhece.

“Amor maior que a vida” foge como o diabo da cruz dos clichês do gênero, mas agrada a quem procura um bom romance, assim como acrescenta inteligência na receita e faz a platéia pensar até mesmo depois dos créditos finais graças a um roteiro forte e que emociona sem apelar para lágrimas fáceis. A trama começa em 1972, quando o jovem Fielding Pierce (Billy Crudup), que trabalha na Guarda Costeira de Nova York e sonha ser Presidente da República conhece e se apaixona pela bela e idealista Sarah Williams (Jennifer Connelly), secretária de seu irmão editor. O romance dos dois engrena, e apesar de seu amor evidente, suas personalidades diferentes começam a afastá-los. Enquanto Fielding começa sua ascensão política no Partido Republicano, Sarah envolve-se com a Igreja e com refugiados de países sob ditadura. Em uma de suas viagens, a jovem morre tragicamente, deixando seu namorado inconsolável. Dez anos depois, às vésperas de sua eleição para senador, Fielding passa a ter visões da jovem e começa a desconfiar que sua amada está viva e forjou a própria morte para não atrapalhar sua carreira política. Por ironia, seu desequilíbrio começa a pôr em risco seu futuro.   



Nada é banal e corriqueiro no filme de Gordon. A edição, repleta de vai e voltas no tempo, mais que demonstrar um estilo vazio, ajuda na forma de contar a história, forte por si mesma ao levantar questões importantes e não julgar seus personagens, bem construídos e interpretados por um casal em dias de graça. Jennifer Connelly brilha com sua beleza etérea – em um papel disputado por nomes tão díspares quanto Drew Barrymore, Cameron Diaz, Brittany Murphy, Winona Ryder e até mesmo Britney Spears - mas é o jovem Billy Crudup que entrega uma atuação corajosa e enérgica, com uma personagem complexa e apaixonante. A cena em que Fielding perde a cabeça em um restaurante diante da família comprova que Crudup foi uma escolha acertada, ao invés das figurinhas marcadas que foram consideradas para o papel – pasmem, Tom Hanks, Tom Cruise e Kevin Spacey estiveram cotados... Felizmente o talento falou mais alto do que a ganância (talvez influência da produtora executiva Jodie Foster) e “Amor maior que a vida” é um filme fascinante justamente por suas opções certeiras.

Baseado em um livro de Scott Spencer - cujo título original traduzido literalmente seria algo como "Despertando os mortos", o que provavelmente sugeriria um filme de horror aos desavisados frequentadores de multiplexes - "Amor maior que a vida" faz bem em deixar o espectador tão aturdido e tão em dúvida quanto seu protagonista a respeito da morte (ou não) de Sarah. Nem mesmo quando o filme acaba pode-se dizer com certeza absoluta o que realmente aconteceu e o que não passa da imaginação de um homem loucamente apaixonado. A belíssima trilha sonora - que pega emprestado a linda "Mercy Street" - dá o clima perfeito à introspecção fantasmagórica da trama, que ainda encontra espaço para discussões sociais de suma importância sem nunca soar panfletária ou didática. Os diálogos entre Fielding e Sarah tem o equilíbrio certo entre o romântico e o idealista, entre a ilusão e a realidade, entre o que se sonha e o que realmente se consegue atingir. Nas mãos de atores fracos tudo seria risível. Com Billy Crudup e Jennifer Connelly tudo fica nunca aquém de fascinante.

Dono de diálogos revelantes, atuações viscerais e uma química rara entre seus dois belos protagonistas, "Amor maior que a vida" é um dos dramas românticos mais interessantes do final do século XX. Pode não ter feito bonito nas bilheterias - nem mesmo pagou seu orçamento ínfimo de 8 milhões e meio de dólares - mas é uma experiência enriquecedora. Quem dera mais fracassos assim fossem lançados, para o deleite da plateia mais sensível...

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...