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terça-feira

COM A MALDADE NA ALMA

COM A MALDADE NA ALMA (Hush... hush, sweet Charlotte, 1964, 20th Century Fox, 133min) Direção: Robert Aldrich. Roteiro: Henry Farrell, Lukas Heller, estória de Henry Farrell. Fotografia: Joseph Biroc. Montagem: Michael Luciano. Música: De Vol. Figurino: Norma Koch. Direção de arte/cenários: William Glasgow/Raphael Bretton. Produção: Robert Aldrich. Elenco: Bette Davis, Olivia de Havilland, Joseph Cotten, Agnes Moorehead, Mary Astor, Victor Buono. Estreia: 15/12/64

7 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Agnes Moorehead), Fotografia em P&B, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Hush... Hush, Sweet Charlotte), Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Agnes Moorehead) 

Depois do estrondoso sucesso de "O que terá acontecido a Baby Jane?" (62), todo mundo em Hollywood estava ansioso por um reencontro entre suas duas protagonistas, Bette Davis e Joan Crawford. Todo mundo exceto Robert Aldrich, o diretor do filme, que teve de lidar com a célebre e amplamente conhecida rivalidade entre elas durante as (e depois das) filmagens. Aldrich preferia qualquer coisa no mundo a ter de passar novamente pelo pesadelo de domar as duas megeras, mas como em Hollywood quem manda é o vil metal, em 1964 ele estava outra vez diante do desafio de dominar o furacão: com o objetivo puro e simples de capitalizar em cima da tendência inaugurada por "Baby Jane" - filmes de terror estrelados por grandes nomes da era de ouro do cinema, como "Almas mortas", que manteve Crawford em alta mesmo nos anos 60 - Aldrich aceitou o desafio de realizar "Com a maldade na alma", que seguiria à risca todos os mandamentos do gênero, com direito a cabeças rolando, suspense psicológico de almanaque e reviravoltas nem tão surpreendentes assim. A grande questão é que nem mesmo o cineasta - já devidamente escolado em bastidores problemáticos - poderia prever que a produção, criada como veículo para Bette e Joan, acabasse desfalcado de uma das estrelas e chegasse às telas com apenas metade do apelo comercial.

Chegando à locação prevista para o filme e já entrando em crise com Bette Davis - que fazia questão de ostentar uma situação mais confortável durante as filmagens - a pouco delicada Joan Crawford acabou não esquentando banco: depois de algumas semanas, nem precisou utilizar-se da cláusula que lhe desobrigava de participar das campanhas publicitárias do filme ao lado da colega de cena e foi demitida por Aldrich... e só ficou sabendo através dos jornais, devidamente avisados por Davis. É óbvio que tal situação não ajudou em nada a já complicada trajetória do filme - rebatizado como "Hush... Hush, Sweet Charlotte" depois que o original "O que terá acontecido à prima Charlotte" dava à produção um indisfarçável ar de caça-níqueis (o que na verdade ela era). Para substituir Crawford foi chamada Olivia de Havilland - que já havia ficado com um papel seu em "A dama enjaulada", do mesmo ano, e que tornou-se amiga inseparável de Bette Davis, a ponto de brindarem com Coca-cola toda manhã - vale lembrar que Joan fazia parte da diretoria da Pepsi à época. A entrada de Olivia no filme pode ter deixado os bastidores menos tensos (ou divertidos, dependendo do ponto de vista), mas certamente prejudicou o resultado final: "Com a maldade na alma" não tem a metade da inventividade, crueldade e do irresistível tom de decadência de "Baby Jane".


É lógico que um filme estrelado por Bette Davis já é, por si só, imperdível, uma vez que a grande atriz invariavelmente dá um show, mesmo quando tem em mãos um papel com possibilidades limitadas. Porém, "Com a maldade na alma" esbarra em um roteiro que se pretende cheio de reviravoltas quando, na verdade, apenas se estende desnecessariamente em uma trama muitas vezes enfadonha. O começo, é preciso que se diga, é sensacional: no final dos anos 20, um grandioso baile oferecido por um dos fazendeiros mais ricos de Baton Rouge, no sul dos EUA é abalado pelo cruel e violento assassinato de um homem, que tem a cabeça e uma das mãos decepadas com um cutelo. Imediatamente a culpa recai sobre a filha do dono da casa, Charlotte Hollis (Bette Davis), cujos planos de fugir com a vítima (casada) foram interrompidos pela covardia do rapaz. Décadas mais tarde, Charlotte vive sozinha na vasta propriedade da família, depois da morte do pai, e passa por dificuldades devido à desapropriação da fazenda para construção de uma ponte. Acreditando cegamente que quem está por trás da situação é a viúva de seu ex-amante, Jewel Mayhew (Mary Astor), ela fica aliviada com a chegada de uma prima há muito distante, Miriam Deering (Olivia de Havilland). Porém, Miriam, que antigamente era o interesse amoroso do médico de Charlotte, Drew Bayliss (Joseph Cotten), não chega para ajudar a prima a resolver a questão das terras e sim para ajudá-la na transição para uma nova vida, distante de onde ela foi criada. É o que basta para a sanidade mental de Charlotte começar a dar sérios sinais de declínio.

Sem o duelo de interpretações proporcionado por Davis e Crawford em "Baby Jane", "Com a maldade na alma" se sustenta basicamente no admirável talento da primeira em tirar leite de pedra. O roteiro parece não se decidir entre o trash e o suspense psicológico, mesclando cenas puramente camp com momentos em que busca soar como Alfred Hitchcock - inspiração óbvia desde o sucesso comercial de "Psicose" (60). Nem sempre funciona, mais por culpa de uma história bastante previsível do que pela direção de Aldrich (sempre tentando encontrar a maneira menos fácil de enxergar uma cena) ou pela atuação de seus atores, ainda que Olivia de Havilland nunca tenha parecido tão canastrona. A reviravolta da trama tampouco entusiasma ou surpreende aos espectadores mais escolados e somente Agnes Moorehead (de "A feiticeira") consegue sobressair-se, com um trabalho premiado com o Golden Globe e indicado ao Oscar - por incrível que pareça, o filme obteve uma recepção bem mais calorosa da Academia do que "Baby Jane", sendo indicado a sete estatuetas no ano em que "My fair lady" sagrou-se o grande campeão. Na pele da leal e corajosa empregada da solitária solteirona, Moorehead é a única que chega a ameaçar roubar a cena de Bette Davis, que, como sempre, entrega-se de corpo e alma a um filme, mesmo que ele não esteja entre seus melhores. É Davis, sempre ela, que faz "Com a maldade na alma" valer a pena. Nem que seja para assistir-se a mais um de seus shows particulares.

sábado

TARDE DEMAIS

TARDE DEMAIS (The heiress, 1949, Paramount Pictures, 115min) Direção: William Wyler. Roteiro: Ruth Goetz, Augustus Goetz, peça teatral de sua autoria, inspirada no romance "Washington Square", de Henry James. Fotografia: Leo Tover. Montagem: William Hornbeck. Música: Aaron Copland. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Harry Horner/Emile Kuri. Produçã: William Wyler. Elenco: Olivia de Havilland, Montgomery Clift, Ralph Richardson, Miriam Hopkins, Vanessa Brown. Estreia: 06/10/49

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Wyler), Atriz (Olivia de Havilland), Ator Coadjuvante (Ralph Richardson), Fotografia em P&B, Trilha Sonora Original, Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B
Vencedor de 4 Oscar: Atriz (Olivia de Havilland), Trilha Sonora Original, Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz (Olivia de Havilland) 


Dez anos antes de promover um arrastão na Academia com seu épico religioso “Ben-hur” – que arrebatou onze Oscar, inclusive de melhor filme e direção – o cineasta William Wyler já dava mostras de que era capaz de seduzir público e crítica, ainda que no comando de uma obra com escopo bem menos ambicioso. Baseado no romance “Washington Square”, de Henry James – ou melhor dizendo, na peça teatral escrita pelo casal Augustus e Ruth Goetz e inspirada no livro – o filme “Tarde demais” foi indicado a oito estatuetas e saiu da cerimônia de premiação com quatro láureas: figurino, direção de arte (na subcategoria preto-e-branco), trilha sonora original e atriz, entregue à Olivia de Havilland, a eterna Melanie Wilkes de “.... E o vento levou” (39). Nessa dramática história de amor e interesse contada por Wyler, a atriz – que já tinha um troféu em casa pelo melodrama “Só resta uma lágrima”, feito três anos antes – entrega uma de suas mais fortes composições, buscando na plateia a empatia para uma personagem nada heroica, cujo drama romântico é acentuado pela decepção e pela dor.

Na Nova York da metade do século XIX – época em que também se situa, não por acaso, o belo “A época da inocência”, de Edith Wharton, levado às telas por Martin Scorsese em 1993 – a sociedade é dividida em classes bem definidas e rígidas. Respeitado e dono de uma pequena fortuna, o dr. Austin Slope (Ralph Richardson) tenta encontrar um marido digno e apropriado para a única filha, Catherine (Olivia de Havilland), uma moça tímida e quase insossa, avessa aos encontros sociais e incapaz de acostumar-se às regras de seu círculo. Viúvo, o dr. Slope sabe que a jovem não tem atrativos o bastante para ser disputada pelos melhores partidos da cidade e, por esse motivo, não fica muito satisfeito quando ela passa a ser cortejada por Morris Towsend (Montgomery Clift), um rapaz bonito, de boa família e educado – mas que desperdiçou toda sua herança em viagens e gastos supérfluos. Considerando Townsend um aproveitador barato que está de olho no dinheiro a ser herdado por Catherine – que também tem direito aos bens da falecida mãe – o médico se opõe ferozmente ao relacionamento, o que acaba por coloca-lo contra a própria filha.



Depois de uma viagem de seis meses pela Europa – que ele acredita ser a solução para o afastamento dos dois enamorados – o dr. Slope retorna à Nova York apenas para perceber que a decisão de ambos em casar-se não foi alterada. Seu rompimento com a filha, sua doença e a afirmação em alto e bom som de sua opinião sobre sua personalidade – que ele acha medíocre e ingênua demais – obrigam Catherine a tomar uma decisão cruel: manter-se ao lado do pai ou assumir definitivamente o amor que sente por Townsend, que mantém-se fiel a seu romance e tem a torcida de uma tia de Catherine, também viúva (Miriam Hopkins). Será que o rapaz realmente a ama ou está interessado apenas em seu dinheiro? E realmente ela é tão desinteressante quando seu pai diz ou apenas esconde uma força interna prestes a mostrar seu tamanho? Essas questões, levantadas com inteligência pelo roteiro e sublinhadas pela direção elegante e discreta de Wyler – um cineasta sempre interessado em arrancar o melhor de seus atores – fazem de “Tarde demais” um drama romântico que se assiste como ao melhor suspense de Alfred Hitchcock.

Montgomery Clift – assumindo um papel oferecido a Cary Grant – não gostava do seu desempenho como Morris Towsend, chegando inclusive a faltar à estreia do filme em Hollywood como forma de demonstrar seu desagrado. O inglês Ralph Richardson, no entanto, fez de seu primeiro filme em Hollywood um trabalho de mestre, ganhando o prêmio de melhor ator pelo National Board of Review e uma indicação ao Oscar de coadjuvante por sua performance como o aflito doutor Austin Sloper, dividido entre o amor e a preocupação que sente pela filha e o temor de vê-la sofrer nas mãos de quem ele julga não merecê-la. A bela trilha sonora de Aaron Copeland, também premiada pela Academia, enfatiza tanto o lado dramático quanto o tom soturno de alguns momentos da trama, transitando entre o idílio da protagonista e seu inferno pessoal – uma tênue mudança de tom magistralmente dominada pela atuação de Olivia de Havilland, que se utiliza de sua falta de glamour para criar uma Catherine Slope inesquecível, capaz de convencer em todas as etapas de sua personagem – de mulher simples e romântica até alguém capaz de enfrentar o mundo que a rodeia e os sentimentos contraditórios que inundam seu coração e sua alma. Na melhor atuação de sua carreira, de Havilland brinda a plateia com um trabalho irretocável, valorizado pelo talento de Wyler e pela história forte e contundente. Um filme digno de ser chamado de clássico.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...