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terça-feira

CONCORRÊNCIA DESLEAL

 


CONCORRÊNCIA DESLEAL (Concorrenza sleale, 2001, Medusa Films/Massfilm/Agidi, 110min) Direção: Ettore Scola. Roteiro: Ettore Scola, Furio Scarpelli, Silvia Scola, Giacomo Scarpelli, estória de Furio Scarpelli. Fotografia: Franco Di Giacomo. Montagem: Raimondo Crociani. Música: Armando Trovajoli. Figurino: Odette Nicoletti. Direção de arte/cenários: Luciano Ricceri/Ezio Di Monte. Produção: Franco Committeri. Elenco: Diego Abatantuono, Sergio Castellitto, Gérard Depardieu, Antonella Attili, Elio Germano, Sabrina Impacciatore. Estreia: 23/02/2001

Itália, 1938. Umberto Melchiori tem uma loja de roupas sob medida e, mais do que o orgulho que tem do negócio que acompanha sua família há gerações, considera uma roupa bem talhada uma forma de arte subestimada. Católico praticante e marido dedicado à família - incluindo o cunhado folgado -, ele teria a vida tranquila que pediu a Deus se não fosse Leone Della Rocca, seu vizinho e nêmesis. Judeu e dono de uma loja de roupas prontas, Leone incomoda seu concorrente principalmente por não ter a mesma preocupação estética, preferindo conquistar seus clientes com preços atrativos e a praticidade de uma confecção moderna. Vivendo às turras - a ponto de chegarem às vias de fato -, Umberto e Leone nem desconfiam do romance Romeu e Julieta de seus filhos jovens, e de certa forma só concordam (tacitamente) com a amizade de seus dois caçulas, cujos olhos atônitos e inocentes são as testemunhas de uma rotina banhada a rusgas e constantes momentos de tensão. A rivalidade entre os dois vizinhos, porém, sofrerá uma profunda transformação com a ascensão de Hitler e o recrudescimento do antissemitismo - que fará com que a relação entre suas famílias assuma nuances inesperadas e/ou corajosas.

O 35º longa-metragem do diretor italiano Ettore Scola, lançado em 2001, não foge de sua elogiada sensibilidade quanto a relações interpessoais durante períodos históricos turbulentos. Assim como "Um dia muito especial" (1977) centralizava seu olhar no idílio entre uma dona-de-casa frustrada e um funcionário público homossexual durante a visita de Hitler à Itália, "Concorrência desleal" centraliza seu foco nas consequências funestas da adesão do país à política de Mussolini - e posteriormente às práticas segregacionistas e criminosas da Alemanha nazista. Com um roteiro em tom de crônica que privilegia os momentos mais pessoais em detrimento do didatismo, Scola apresenta, diante do espectador, tipos agradáveis e de fácil identificação - as crianças pensando em travessuras e em formas de chamar a atenção das belas mulheres a seu redor, a dupla de jovens apaixonados, o cunhado pouco afeito ao trabalho, o professor politicamente antenado - como um artifício narrativo leve, para que, em seu terço final, possa estabelecer, com um viés mais sério e melancólico, sua real intenção de emocionar sem apelar para qualquer tipo de excesso sentimental.

 

Mesmo sem o impacto dos melhores trabalhos de Scolla, "Concorrência desleal" não deixa de lado as principais características de sua vasta e prestigiada filmografia. Dotada do delicioso senso de humor italiano e realizada com o inegável talento de seu realizador em buscar a grandeza de seus personagens (sejam eles protagonistas ou coadjuvantes), a produção estrelada por Sergio Castellitto e Diego Abatantuono - ambos com desempenhos memoráveis - é extremamente feliz em sua tentativa de criar uma atmosfera lúdica que vai, gradativamente, se tornando mais pesada e sufocante. Sem forçar situações, o roteiro conduz a trama em um ritmo que permite ao espectador intercalar momentos calorosos com sequências da mais pura poesia, em que a natureza humana, com todas as suas idiossincrasias, se sobrepõe ao pesadelo fascista. Emocionante ao retratar pessoas que deixam de lado rusgas pessoais em nome de algo maior, o filme de Scolla reitera uma fé na humanidade de que somente cineastas com sua sensibilidade são capazes. A bela trilha sonora, de Armando Trovaioli, sublinha tal sentimento, sempre discreta e eficaz, assim como a competente reconstituição de época, que convida o público a uma viagem no tempo, e o elenco, impecável do primeiro ao último nome (e que pode se dar ao luxo de contar com Gérard Depardieu em um pequeno - mas representativo - papel).

O elenco, aliás, é crucial para o sucesso de "Concorrência desleal" em atingir seu objetivo de conquistar o coração do espectador. A química precisa entre Diego Abantuono (como Umberto) e Sergio Castellitto (na pele de Leone) é o ponto alto do filme: os dois atores constroem seus personagens sutilmente, apostando nos detalhes que os afastam e nos tons que os aproximam. Juntos em cena, os dois formam a base para todo o resto da produção, a pedra fundamental de uma história aparentemente frágil (e estabelecida em formato de crônica) que vai se desdobrando aos poucos diante do olhar do público. Sem ser exatamente um clássico instantâneo como "Nós que nos amávamos tanto" (1974) e "Feios, sujos e malvados" (1976) mas indiscutivelmente mais uma pequena obra-prima de seu diretor, "Concorrência desleal" é uma pérola que merece ser louvada como tal.

segunda-feira

AS AVENTURAS DE PI

AS AVENTURAS DE  PI (Life of Pi, 2012, Fox 2000 Pictures, 127min) Direção: Ang Lee. Roteiro: David Magee, romance de Yann Martel. Fotografia: Claudio Miranda. Montagem: Tim Squyres. Música: Mychael Danna. Figurino: Arjun Bhasin. Direção de arte/cenários: David Gropman/Anna Pinnock. Produção executiva: Dean Georgaris. Produção: Ang Lee, Gil Netter, David Womark. Elenco: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Rafe Spall, Andrea Di Stefano, Vibish Sivakumar, Ayaan Khan. Estreia: 28/9/12 (Festival de Nova York)

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ang Lee), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção Original ("Pi's lullaby"), Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 4 Oscar: Diretor (Ang Lee), Fotografia, Trilha Sonora Original, Efeitos Visuais
Vencedor do Golden Globe de Melhor Trilha Sonora Original

Quando a mania de filmes em 3D tornou-se uma realidade - em especial depois do impressionante êxito comercial de "Avatar", de James Cameron - o público foi praticamente soterrado de produções de resultados sofríveis, que utilizavam a ferramenta apenas para ganhar mais dinheiro, em detrimento de qualquer preocupação com outros fatores que também fazem de ir ao cinema uma experiência única, como roteiro, atuações e até mesmo bom-senso. Dezenas de blockbusters erraram a mão em suas tentativas de conquistar os espectadores exigentes, concentrando-se mais nas bilheterias do que na qualidade de seus produtos. Se por um lado isso deixou bem claro que orçamentos milionários não bastam para transformar lixo cinematográfico em bons filmes, também mostrou que, aliada ao talento de cineastas realmente criativos e inteligentes, a tecnologia pode muito bem agregar emoção e encanto ao resultado final de uma obra. Martin Scorsese fez isso com perfeição em "A invenção de Hugo Cabret" - que lhe deu a oportunidade de homenagear o cinema em seus primórdios. E em seguida, Ang Lee também brincou com as possibilidades do formato com o belíssimo "As aventuras de Pi" - que lhe rendeu um merecidíssimo segundo Oscar de direção, acompanhado de outras três justas estatuetas (fotografia, trilha sonora original e efeitos visuais)

Baseado em um romance de Yann Martel - por sua vez inspirado no nacional "Max e os felinos", escrito por Moacyr Scliar - "As aventuras de Pi" é narrado de forma poética e lírica por Lee, um cineasta capaz de emocionar sem apelar para o sentimentalismo barato (que o digam as pessoas que saíram aos prantos das salas de exibição depois de "O segredo de Brokeback Mountain" ou em silêncio comovido após "Tempestade de gelo"). Com pleno domínio da arte cinematográfica, o diretor oriundo de Taiwan seduz a plateia com um visual arrebatador - a fotografia é deslumbrante e fez por merecer a estatueta dourada - e uma técnica invejável, mas jamais perde o foco da história que quer contar. Por mais que o público fique extasiado com as cenas criadas por ele - com auxílio de CGI, naturalmente, mas de forma tão sutil que parece real - em momento algum a técnica sobrepõe-se à emoção. Assim como em "O tigre e o dragão" as coreografadas lutas nunca eclipsavam os relacionamentos interpessoais entre as personagens, em "As aventuras de Pi" tudo serve à história, sem nenhum tipo de gratuidade.


Apesar de ter sido vendido como "a hístória de um rapaz indiano que sobrevive a um naufrágio e fica perdido no mar dentro de um bote, contando apenas com um tigre-de-benagala como companhia", o filme de Ang Lee é bem mais do que isso. Basta dizer que o tal naufrágio que dá o empurrão inicial para tais aventuras só acontece depois de 40 minutos de projeção. Antes disso, o roteiro faz questão de não ter pressa em contar a infância e a adolescência de seu protagonista, Piscina ou simplesmente Pi (Suraj Sharma), um jovem que mora com a família, proprietária de um zoológico na Índia. Até que todos decidam abandonar seu país de origem e embarcar para o Canadá - todos em termos, já que o rapaz não tem a menor vontade de abandonar sua vida e seu grande amor - o cineasta conta sua história de forma tranquila e encantadora. Depois da reviravolta da trama - com o acidente com o navio e a morte de todos os seus tripulantes - a magia acontece. Primeiramente tendo que dividir seu bote com o tigre, um orangotango, uma zebra e uma hiena, Pi chega à conclusão que precisa aprender a conviver com os animais - e também lutar arduamente pela sobrevivência.

Mesmo que a sinopse pareça um tanto chata e sem muitos atrativos senão o visual espetacular, "As aventuras de Pi" surpreende principalmente por manter um ritmo admirável, que impede a plateia de abandonar a surpreendente trama, ilustrada ainda com imagens impecáveis de uma natureza poucas vezes retratadas pelo cinema comercial. Narrada por Pi em sua maturidade para um jovem escritor, a trajetória do menino tornado homem pela experiência única chega a seu final com vastas possibilidades de emocionar o espectador, especialmente por tratá-lo com inteligência e sensibilidade - além de suscitar discussões a respeito de fé e resiliência. Fascinante e belo, é um dos poucos filmes indicados ao Oscar 2013 que realmente mereceram estar na lista final.

sábado

HAMLET

HAMLET (Hamlet, 1996, Castle Rock Entertainment, 238min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Kenneth Branagh, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Alex Thomson. Montagem: Neil Farrell. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Tim Harvey. Produção: David Barron. Elenco: Kenneth Branagh, Derek Jacobi, Julie Christie, Kate Winslet, Brian Blessed, Richard Briers, Rufus Sewell, Michael Maloney, Richard Attenborough, Billy Crystal, Judi Dench, Gérard Depardieu, John Gielgud, Rosemary Harris, Charlton Heston, Jack Lemmon, Timothy Spall, Robin Williams. Estreia: 25/12/96

4 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Uma das mais clássicas manifestações artísticas da loucura - ou do arremedo de uma - acabou tornando-se uma das mais ousadas produções cinematográficas da década de 90 e quiçá da história da sétima arte. Conhecido por suas adaptações da obra do dramaturgo William Shakespeare para o cinema, o irlandês Kenneth Branagh - que já havia dirigido "Henry V" (89) e "Muito barulho por nada" (93) e atuado como Iago em "Othello" (96) - arriscou sua reputação e seu prestígio ao transpor o mais clássico dos clássicos do bardo, palavra por palavra, para as telas. Brilhantemente produzido, interpretado por um elenco estrelado que se dá ao luxo de ter Charlton Heston, Gérard Depardieu e Jack Lemmon em pontas e longo a ponto de testar os limites de paciência do público - poucos minutos menos de quatro horas de duração - o "Hamlet" de Branagh (e pode-se dizer sem medo, o "Hamlet" definitivo do cinema) pode assustar até ao mais fervoroso purista com sua fidelidade canina ao texto original, mas, graças à direção segura e inteligente, a uma edição cirurgicamente precisa e a um elenco impecável, sobressai-se às demais adaptações pelo ritmo pulsante e pela modernidade visual impressa em cada fotograma. Realizado com meros 18 milhões de dólares - um trocado perto dos orçamentos milionários que assustavam os executivos dos estúdios à época - o filme de Kenneth Branagh é assombrosamente deslumbrante e um presente para os fãs de bom cinema e bom teatro.

Uma das histórias mais conhecidas da literatura mundial, "Hamlet" só chegou às telas com tal opulência visual e ousadia narrativa - que não oprime uma linha sequer do texto original - graças à teimosia de seu diretor e ator principal, que rondou por mais de um ano de estúdio em estúdio de Hollywood tentando financiamento para um projeto que todos consideravam fadado ao fracasso. Não é difícil imaginar os motivos para tanta recusa: não apenas Branagh batia pé nas quatro horas de duração de seu filme como tinha ainda que lidar com a bilheteria decepcionante e as críticas negativas de seu filme anterior, "Frankenstein de Mary Shelley", que não havia tido o desempenho esperado pelos produtores. Além do mais, Shakespeare estava se tornando arroz de festa na terra do cinema, sendo adaptado de todas as formas possíveis e imagináveis - até mesmo o australiano Baz Luhrmann estava a caminho de lançar uma versão psicodélica de "Romeu e Julieta", estrelado por Leonardo DiCaprio e o próprio "Hamlet" já havia sido refilmado recentemente por Franco Zefirelli, com Mel Gibson no papel principal. Tudo conspirava contra o irlandês, até que a Castle Rock tomou coragem e, com poucas exigências finais (um elenco com atores conhecidos e uma versão editada para lançamento mundial) deixou que o cineasta fosse em frente. É impossível assistir-se ao resultado final sem um suspiro de agradecimento profundo à sua coragem.


Mesmo acima da idade para interpretar o papel principal, Kenneth Branagh é o corpo e a alma de "Hamlet", a energia que contagia a todos e o estopim de uma trama recheada de traições vis, paixões avassaladoras, ódios arraigados e uma coleção de mortes das mais conhecidas do teatro universal - que em suas mãos soa fresca e reluzente como se tivesse sido escrita há dois dias. Para quem não sabe, se é que alguém não sabe, tudo começa quando o jovem príncipe Hamlet volta à sua Dinamarca natal para os funerais de seu pai (Brian Blessed) e para as novas núpcias de sua mãe, Gertrude (Julie Christie), que, mal esperou quatro meses para casar-se com o cunhado, Claudius (Derek Jacobi), novo rei do país. Infeliz com a situação, o príncipe fica ainda mais movido ao ódio quando o fantasma de seu progenitor lhe aparece, acusando o irmão de tê-lo assassinado para roubar-lhe a esposa e o trono. Com o objetivo de vingar a morte do pai, Hamlet inicia um plano ambicioso - que envolve fingir uma loucura que ele pode mesmo portar, um grupo de atores mambembes que recebe no palácio com o objetivo de impulsionar uma confissão do tio e até a mulher que ama, a doce Ofélia (Kate Winslet).

Mais do que simplesmente contar com cada detalhe - por mais insignificante que ele possa parecer - a história criada por Shakespeare, Kenneth Branagh consegue, em seu filme, o que havia conseguido apenas parcialmente em suas adaptações anteriores: fazer com que o texto extremamente teatral da peça caiba com perfeição na tela de cinema - no caso, em formato 65mm, que lhe permitiu alcançar um visual mais clássico que buscava com o objetivo de aproximar o filme de um cinema mais visualmente atraente e que só voltou a ser utilizado em 2012, quando Paul Thomas Anderson filmou seu "O mestre". Seu objetivo é plenamente atingido quando a plateia testemunha momentos de pura poesia visual, enfatizada pela fotografia esplêndida de Alex Thomson e pela direção de arte irretocável que concorreu ao Oscar - assim como o figurino de Alexandra Byrne, a música de Patrick Doyle e o roteiro do próprio diretor. Pulsante, passional e por vezes exaustivamente emocionante, "Hamlet" é a mais perfeita combinação entre cinema e teatro já realizada. Uma obra-prima de grandes proporções.

segunda-feira

PARIS, TE AMO

PARIS, TE AMO (Paris, je t'aime, 2006, Victoires International, 120min) Direção: Olivier Assayas, Frédéric Auburtin, Emmanuel Benbihy, Gurinder Chadha, Sylvain Chomet, Ethan Coen, Joel Coen, Isabel Coixet, Wes Craven, Alfonso Cuaron, Gerard Depardieu, Christopher Doyle, Richard LaGravenese, Vincenzo Natali, Alexander Payne, Bruno Podalydès, Walter Salles, Oliver Schmitz, Nobuhiro Suwa, Daniela Thomas, Tom Tykwer, Gus Van Sant. Roteiro: Emmanuel Benbihy, Bruno Polalydès, Paul Mayeda Berges, Gurinder Chada, Gus Van Sant, Joel & Ethan Coen, Walter Salles & Daniella Thomas, Christopher Doyle & Rain Li & Gabrielle Keng, Isabel Coixet, Nobuhiro Suwa, Sylvain Chomet, Alfonso Cuarón, Olivier Assayas, Oliver Schmitz, Richard LaGravenese, Vincenzo Natali, Wes Craven, Tom Tykwer, Gena Rowlands, Alexander Payne & Nadine Eid. Fotografia: Maxime Alexandre, Michel Amathieu, Pierre Aim, Bruno Delbonnel, Eric Gautier, Frank Griebe, Eric Guichard, Jean-Claude Larrieu, Denis Lenoir, Rain Li, Pascal Marti, Tetsuo Nagata, Matthieu-Poirot Delpech, David Quesemand, Pascal Rabaud, Michael Seresin, Gérard Sterin. Montagem: Luc Barnier, Mathilde Bonnefoy, Stan Collet, Simon Jacquet, Anne Klotz, Isabel Meier, Alex Rodriguez, Hisako Suwa. Música: Pierre Adenot, Michael Andrews, Reinhold Heil, Johnny Klimek, Tom Tykwer. Figurino: Olivier Bériot. Direção de arte/cenários: Bettina von den Steinen/Hélène Dubreuil, Sébastien Monteux-Halleur. Produção executiva: Chris Bolzli, Gilles Caussade, Rafi Chaudry, Sam Englebardt, Ara Katz, Maria Kopf, Frank Moss, Chad Troutwine. Produção: Emmanuel Benbihy, Claudie Ossard. Elenco: Gaspard Ulliel, Steve Buscemi, Catalina Sandino Moreno, Miranda Richardson, Sergio Castelitto, Leonor Watling, Javier Camara, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Nick Nolte, Maggie Gyllenhaal, Fanny Ardant, Bob Hoskins, Elijah Wood, Emily Mortimer, Olga Kurylenko, Rufus Sewell, Natalie Portman, Gena Rowlands, Ben Gazzarra, Gerard Depardieu, Margo Martindale. Estreia: 18/5/06 (Festival de Cannes)

Que Paris é uma das cidades mais românticas e belas do mundo não há dúvida. Cenário natural de dezenas de filmes - sejam eles franceses, hollywoodianos ou de outros países com menor tradição na indústria do cinema - a cidade-luz teve a sua grande chance de transformar-se de pano de fundo em protagonista em "Paris, te amo", primeiro de uma série que continuou com Nova York e tem no Rio de Janeiro seu terceiro capítulo. Produção coletiva que apresenta uma equipe invejável de cineastas e atores das mais diversas nacionalidades, o filme, como sempre acontece com obras do tipo, é irregular, mas ainda assim tem a seu favor a inventividade, a imprevisibilidade e a delicadeza de todos os segmentos. É impossível não se apaixonar por ele.

Logicamente nem todas as histórias são marcantes, e algumas até mesmo soam bobas, mas é inegável que a maioria esmagadora dos diretores estava em dias inspirados. Diante do espectador desfilam tramas sobre amores perdidos, amores encontrados, vampiros, mímicos, solitários, escritores mortos e todo tipo de gente em busca da felicidade. Fotografado com carinho e um bom-gosto que deixa no espectador uma impressão onírica das mais fascinantes, "Paris, te amo" é, além de tudo, um conjunto de bons roteiros, bons diretores e bons atores, em um conjunto que deixa tudo ainda mais irresistível - em especial em alguns segmentos, que são tão inteligentes e interessantes que poderiam tranquilamente ultrapassar as limitações de um curta.


O primeiro segmento digno de destaque é "Quais de sene", dirigido por Gurinder Chadha, que acompanha o início da relação entre o estudante François (Cyril Descours) e a muçulmana Zarka (Leila Bekhti), em uma história que surpreende por não se deixar cair na armadilha fácil do conflito religioso. "Les Marais", de Gus Van Sant, mostra a tentativa de um jovem (Gaspard Ulliel, de "Eterno amor") em convencer um outro rapaz (Elias McConnell) a lhe telefonar para marcar um encontro. "Tuileuries", dos irmãos Coen - um dos episódios mais visuais e criativos - mostra as desventuras de um turista americano (o ótimo Steve Buscemi) quando encontra, à espera do metrô, um casal francês disfuncional. Os brasileiros Walter Salles e Daniella Thomas acompanham a jovem Ana (Catalina Sandino Moreno) em sua árdua rotina de trabalho como babá no singelo "Loin du 16e". Isabel Coixet se destaca magistralmente com a belíssima história de um homem (Sergio Castelitto) que se apaixona novamente pela esposa (Miranda Richardson) quando descobre que ela está morrendo de câncer. O extraordinário "Place des Victoires", de Nobuhiro Suwa, mostra o desespero de uma mãe (Juliette Binoche) que acaba de perder o filho.

Ainda chamam a atenção os segmento "Tour Eiffel", de Sylvain Chomet, que segue um mímico em seu dia-a-dia com extrema criatividade, "Quartier de La Madeleine", de Vincenzo Natali, que mostra um jovem, vivido por Elijah Wood, se apaixonando pela vampira Olga Kurylenko sob um visual deslumbrante e a história de amor entre um rapaz cego (Melchior Beslon) e uma atriz de cinema (Natalie Portman) contada pelo alemão Tom Tykwer em "Faubourg Saint-Denis" com uma edição ágil e empolgante - sua marca registrada desde o sucesso de "Corra Lola, corra". O episódio final, "14e arrondissement", de Alexander Payne, também merece destaque por, no mínimo, permitir que a sensacional atriz Margo Martindale, sempre coadjuvante, assuma um papel de protagonista e comprove seu enorme talento - mesmo quando está em silêncio.

Mesmo que algumas histórias não sejam tão fascinantes quanto as outras - situação corriqueira em filmes episódicos - "Paris, te amo" tem uma regularidade impressionante, mantendo a plateia deslumbrada desde seus primeiros minutos até seu final quase apoteótico, quando todas as tramas voltam à tela para uma despedida emocionante. É, sem dúvida, uma bela homenagem à grande cidade dos amantes.

sexta-feira

PIAF, UM HINO AO AMOR


PIAF, UM HINO AO AMOR (La Môme, 2006, Lègende Films, 140min) Direção: Olivier Dahan. Roteiro: Olivier Dahan, Isabelle Sobelman. Fotografia: Tetsuio Nagata. Montagem: Richard Marizy. Música: Christopher Gunning. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Olivier Raoux/Stéphane Cressend, Petra Kobedova, Cecile Vatelot. Produção: Alain Goldman. Elenco: Marion Cottilard, Gérard Depardieu, Emmanuelle Seigner, Sylvie Testud. Estreia: 14/02/07

3 indicações ao Oscar: Atriz (Marion Cottilard), Figurino, Maquiagem
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Marion Cottilard), Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Marion Cottilard)

Se alguém tem dúvidas sobre os motivos que levaram Marion Cottilard a tornar-se apenas a segunda atriz a levar o Oscar por um trabalho não falado em inglês basta assistir a "Piaf, um hino ao amor". A biografia da cantora Édith Piaf - realizada por um inspirado Olivier Dahan - tem na bela Cottilard seu maior e mais espetacular trunfo. Sua interpretação avassaladora - que lhe rendeu também um BAFTA e um Golden Globe - amortece até mesmo alguns momentos confusos do roteiro parcialmente inspirado na autobiografia da mais famosa cantora francesa de todos os tempos. Deslumbrante na vida real, Cottilard desaparece diante da maquiagem e da personalidade gigantesca da pequena Piaf, em uma das mais impressionantes entregas de uma atriz a um papel na história do cinema.

Optando por contar sua história fora de ordem cronológica, intercalando diferentes fases da vida e da carreira de Piaf, o diretor Dahan dá a sua estrela a oportunidade única de mostrar as várias facetas da protagonista. Da juventude até sua morte precoce aos 48 anos (e extremamente envelhecida para a idade), Piaf teve uma vida repleta de lances dramaticamente interessantes para o cinema. Essa vida, que mesclava festas com a nata da boemia parisiense com dramas pessoais envolvendo assassinatos e ao menos uma trágica história de amor é contada com uma elegância à toda prova, valorizada pela fotografia em cores quentes de Tetsuio Nagata e pela edição de Richard Marizy, repleta de idas e vindas no tempo - e que, ao contrário de ser apenas um artifício narrativo estéril, serve para dar mais consistência à personalidade um tanto controversa da biografada.


Também é preciso ser óbvio e dizer o quanto a trilha sonora é parte fundamental de "Piaf, um hino ao amor". Utilizando-se de um grande número de canções na voz de Edith - apelidada de "La môme" (ou pardalzinho) na infância, devido a seu enorme talento vocal - o filme (que se tornou a terceira maior bilheteria de uma produção francesa nos EUA) tem nelas um apoio excepcional para comentar a ação e mostrar a evolução do mundo em meio a situações extremas, como a Segunda Guerra Mundial. É uma canção das mais famosas de seu repertório, "Non, je ne regrete rian" - que transformou-se na cara da protagonista - que também dá o tom exato do terço final da narrativa, que amplia a melancolia já desenhada em seu princípio. Essa música - que, por coincidência ou não, tem grande importância também no blockbuster "A origem", estrelado por Cottilard em 2010 - é, provavelmente, o melhor resumo da personalidade da biografada por Dahan, que já escreveu o roteiro pensando em sua atriz central.

E, mais uma vez, é preciso aplaudir, louvar e se render ao magnífico trabalho de Marion Cottilard. Fenomenal em todas as fases de Piaf, ela surpreende por, mesmo tão jovem, ser capaz de compreender todas as nuances da personagem, a ponto de transmutar-se nela mesmo com suas diferenças físicas. Seu Oscar é, sem sombra de dúvida, um dos mais justos e merecidos da trajetória do prêmio - e o fato de ter sido lembrada mesmo por um trabalho em língua francesa até torna menos discutível que gente como Sandra Bullock e Hale Berry esteja na lista das homenageadas. E não é à toa, também, que esteja fazendo uma gloriosa carreira tanto em Hollywood quanto em seu país natal. Estrela absoluta e por mérito.

domingo

GREEN CARD, PASSAPORTE PARA O AMOR

GREEN CARD, PASSAPORTE PARA O AMOR (Green card, 1990, Touchstone Pictures, 107min) Direção e roteiro: Peter Weir. Fotografia: Geoffrey Simpson. Montagem: William Anderson. Música: Hans Zimmer. Direção de arte/cenários: Wendy Stites/John Anderson, Ted Glass. Casting: Dianne Crittenden. Elenco: Gerard Depardieu, Andie MacDowell, Bebe Neuwirth, Gregg Edelman, Robert Prosky, Lois Smith. Estreia: 23/12/90

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Melhor Ator Comédia/Musical (Gerard Depardieu)

Apesar de contar em seu currículo com filmes densos como "O ano em que vivemos em perigo", "A testemunha" e "Sociedade dos poetas mortos" - todos eles merecidamente incensados pela crítica - o australiano Peter Weir sabe ser leve e divertido. Uma prova disso é "Green card, passaporte para o amor", uma saborosa comédia romântica que foge dos padrões do gênero ao acrescentar a eles uma inteligência rara. Não à toa, o filme de Weir recebeu uma merecida indicação ao Oscar de roteiro original - que perdeu para o blockbuster "Ghost, do outro lado da vida". Escrito pelo próprio diretor para ser a estreia em Hollywood de Gerard Depardieu, "Green Card "consegue ser doce, esperto e, mais do que qualquer outra coisa, consegue se desvencilhar das armadilhas que tramas como a sua normalmente possui. Pode não ser o filme dos sonhos para um público que gosta de romances tradicionais, mas entrega mais à audiência do que paisagens fotogênicas, piadas engraçadinhas e rostos bonitos dá a ela um roteiro consistente, coerência e um casal de atores acima da média interpretando personagens críveis e humanos.

Bronte Parrish (Andie MacDowell) é uma ambientalista que precisa de um marido para que consiga alugar um apartamento que tem uma estufa que é seu sonho de consumo. Georges Faure (Gerard Depardieu) é um francês que precisa de uma esposa americana para que possa conseguir seu visto definitivo de permanência nos EUA. Unidos por suas necessidades, eles se casam no papel e se afastam. No entanto, quando agentes da Imigração desconfiam que há algo de errado no relacionamento entre os dois, a vegetariana, politicamente ativa e discreta Bronte e o carnívoro, fumante e exuberante Georges são obrigados a passar um tempo juntos, descobrindo mais um sobre o outro. O que antes não passava de uma relação de interesse mútuo acaba se transformando em uma grande paixão.



É óbvio que a estrutura do roteiro de "Green card" - e os caminhos que ele segue rumo a seu final - não tem nada de novo e qualquer fã de cinema enxerga suas engrenagens. Mas o texto de Weir não deixa espaço para epifanias repentinas ou cenas dramática e forçadamente construídas para atingir seus objetivos de cativar a plateia. Ao invés de artifícios narrativos, ele apenas apresenta seus protagonistas como eles são, através de atos e não de palavras. Bronte não se diz ambientalista - ela o prova em diversas cenas. Georges não é apenas um estrangeiro em busca de seu espaço - ele é um homem um tanto perdido querendo provar seu valor como compositor. Separados eles são duas pessoas normais. Juntos, eles descobrem coisas a seu respeito que jamais poderiam descobrir sozinhos - ela, a tolerância; ele, a delicadeza. Transitando por uma Nova York fotografada longe dos cartões postais - e onde mais poderia se passar um filme que tanto valoriza o multiculturalismo? - eles são mais do que apenas personagens: soam reais, e isso faz toda a diferença.

Além do mais, Peter Weir não poderia ter escolhido melhor elenco para seu romance. Depardieu faz sua estreia hollywoodiana em grande estilo, demonstrando que por trás do ator sério consagrado na Europa esconde-se um ator versátil com bom timing para comédia - o que seu Golden Globe comprovou - e Andie MacDowell - uma escolha nada convencional - transmite a placidez e a sofisticação de sua personagem sem aparentar muito esforço. A química entre o casal é das melhores e não é preciso longas cenas de beijo ou sexo para comprovar isso. A torcida do público por seu final feliz é inevitável. E até nisso Weir consegue ser original.

Ao contrário do que se poderia esperar, o caminho de Bronte e Georges em direção à felicidade não acontece conforme a cartilha do cinema mainstream. Espertamente o cineasta não tenta subverter radicalmente as regras do jogo a que se propõe. Ele tenta - e consegue com louvor - escapar do previsível, do dèja-vu e do humor fácil, mas jamais nega ao espectador o prazer de assistir a uma história bem contada. No final das contas, é isso que "Green Card" é: uma história de amor que conquista pela simplicidade e pela inteligência.

quinta-feira

CAMILLE CLAUDEL


CAMILLE CLAUDEL (Camille Claudel, 1988, 158min) Direção: Bruno Nuytten. Roteiro: Bruno Nuytten, Marilyn Goldin, livro de Reine-Marie Paris. Fotografia: Pierre Lhomme. Montagem: Joelle Hache, Jeanne Kef. Música: Gabriel Yared. Figurino: Dominique Borg. Direção de arte: Bernard Vézat. Casting: Shula Siegfried. Produção: Isabelle Adjani, Christian Fechner. Elenco: Isabelle Adjani, Gérard Depardieu, Laurent Grévill, Alain Cuny, Madeleine Robinson, Maxime Leroux. Estreia: 07/12/88

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Atriz (Isabelle Adjani)
Melhor Atriz no Festival de Berlim


"Camille Claudel" é um filme sobre paixão. A paixão desesperada de uma mulher por um homem. E a paixão de uma artista por seu trabalho, por seu dom. É um filme intenso, passional e feito com o amor necessário para se contar uma história de loucura, perda e talento. Uma história real, inacreditável e triste, como toda boa história de amor. E absolutamente verdadeira.

No início de 1885, a jovem aspirante a escultora Camille Claudel (Isabelle Adjani) é aceita como aprendiz pelo célebre Auguste Rodin (Gerard Depardieu). Famoso por seu temperamento forte e pela beleza de seu trabalho, Rodin também é conhecido como um notório sedutor e não demora muito para que sua nova aluna caia de amores por ele. Envolvidos em um escandaloso romance - o mestre é casado e mais velho do que ela - os dois passam a ser objeto de fofocas por toda Paris, principalmente porque Camille frequenta círculos ilustres - é irmã do escritor Paul Claudel e amiga do compositor Paul Debussy, por exemplo. Quando seu relacionamento com Rodin acaba, a bela escultora, ainda apaixonada por ele, começa a entrar em um perigoso declínio psicológico. Paranoica e agressiva, ela passa a acusar o ex-amante de querer acabar com sua carreira artística.


Como bom todo filme francês pré-Amélie Poulain, "Camille Claudel" tem um ritmo próprio - leia-se um tanto lento -, contando sua história sem pressa, aprofundando-se no contexto histórico da trama (é citada, por exemplo, a morte do escritor Victor Hugo) e fugindo da edição veloz típica do cinema americano. Se perde em agilidade, no entanto, o filme de Bruno Nuytten (na época casado com Adjani) ganha em coerência, em honestidade e no cuidado com os detalhes (a reconstituição de época é deslumbrante, assim como a obra de sua protagonista). Mas é no trabalho de Isabelle Adjani que "Camille Claudel" se sustenta.

Já acostumada a papéis fortes de mulheres enlouquecidas de amor (vide seu trabalho em "A história de Adele H.", de François Truffaut), Adjani apresenta aqui sua interpretação mais passional, entregue absolutamente à sua personagem. Os closes do rosto de porcelana da atriz sujos de barro, seus olhos azuis suplicando amor e o desespero que suas belas feições transmitem são a alma de "Camille Claudel". Merecidamente indicada ao Oscar por sua atuação, a atriz francesa mais destacada da década de 90 demonstra claramente porque amealhou milhares de fãs pelo mundo.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...