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segunda-feira

POR FAVOR, MATEM A MINHA MULHER


POR FAVOR, MATEM MINHA MULHER (Ruthless people, 1986, Touchstone Pictures, 93min) Direção: Jim Abrahms, David Zucker, Jerry Zucker. Roteiro: Dale Launer. Fotografia: Jan De Bont. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Michael Colombier. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: Donald Woodruff/Anne D. McCulley. Produção executiva: Joanna Lancaster, Richard Wagner, Walter Yetnikoff. Produção: Michael Peyser. Elenco: Danny DeVito, Bette Midler, Judge Reinhold, Helen Slater, Bill Pullman, Anitta Morris. Estreia: 27/6/86

Logo depois de uma pré-estreia de "Por favor, matem minha mulher", o ator Danny DeVito ligou para sua parceira de cena, Bette Midler, e os dois ficaram um longo tempo no telefone discutindo como o filme era ruim e como as carreiras de ambos provavelmente estavam arruinadas com isso. Meses depois, com o sucesso de bilheteria da produção - mais de 70 milhões de dólares de arrecadação -, é provável que os dois astros tenham mudado de ideia. Midler assinou um polpudo contrato com a Touchstone (subsidiária da Disney para filmes adultos) e DeVito iniciou uma bem-sucedida carreira também como diretor já no ano seguinte, com o irônico "Joga a mamãe do trem" (1987). Último filme dirigido pelo trio ZAZ - Jim Abraham, Jerry Zucker e David Zucker -, conhecidos pelos demolidores "Apertem os cintos... o piloto sumiu" e "Top Secret: superconfidencial" -, a comédia brincava com o estilo de vida dos novos-ricos californianos (com seus exageros, futilidade e arrogância), mas recheado do humor iconoclasta dos cineastas e amparado no histrionismo irresistível de sua atriz central - uma força da natureza que teve, na segunda metade dos anos 1980, seu período de maior popularidade.

Na verdade, Bette Midler só entrou no projeto depois da saída de Madonna, que abandonou o barco devido às famosas "diferenças artísticas" entre ela e os diretores. Levando-se em consideração que Madonna nunca foi exatamente uma atriz de grande talento, a mudança no elenco foi providencial: mesmo que apareça relativamente pouco (dividindo seu tempo com as outras subtramas que se somam ao resultado final), Midler é a intérprete ideal para a insuportável Barbara Stone, herdeira, socialite e perua irrecuperável que se torna vítima de um sequestro orquestrado para atingir seu marido, e que acaba se unindo a seus algozes quando descobre que, ao contrário do que se poderia esperar, ele não está nem um pouco disposto a pagar o resgate. Irascível e agressiva nos momentos iniciais, debochada e irônica na segunda metade, a personagem é um prato cheio para a atriz - mesmo que, posteriormente, ela não tenha conseguido se livrar muito do estilo, que talvez não agrade a todos. Para alívio geral, porém, o rocambolesco roteiro dá espaço para o restante do elenco, em uma trama de erros envolvente e divertida que mantém o interesse até o clímax.

 

O sequestro de Barbara Stone é o pontapé inicial do filme. Seu marido, Sam (Danny DeVito), casou-se com ela por puro interesse, mas seu maior desejo é livrar-se de suas inconveniências e estupidez. Seus planos de assassinar a esposa são interrompidos, no entanto, quando ele recebe a notícia de que ela acaba de ser raptada: ao invés de pensar em um crime perfeito, basta a ele fazer corpo mole, não pagar o resgate e correr pro abraço. Mas as coisas não são assim tão simples. Sua amante, Carol (Anita Morris), também tem um amante, o pouco inteligente Earl (Bill Pullman), e o casal pretende chantagear Sam com a filmagem do assassinato planejado pelo industrial - e é claro que, sem assassinato nenhum, a fita que eles tem em mãos tem um outro tipo de material que ambos desconhecem (o que acaba os deixando em uma situação pouco confortável). Além disso, enquanto espera que o marido pague o resgate, Barbara descobre que seus sequestradores não tem nada de criminosos corriqueiros: Ken (Judge Reinhol) e Sandy (Helen Slater) procuram apenas um modo de vingar-se de Sam, que os passou para trás ao roubar uma ideia que poderia ter-lhes deixado ricos.

O roteiro de "Por favor, matem minha mulher" é um primor: deixando de lado a ideia de que é imprescindível haver lógica em uma comédia, Dale Launer criou uma série de situações bizarras e desconcertantes que se acumulam e se cruzam involuntariamente. Dando espaço para que todo o elenco tenha momentos seus, ele evita tempos mortos, imprime um ritmo apropriado ao gênero e de quebra convida o espectador a tentar adivinhar os rumos da trama - sem que, com isso, a torne previsível. A direção dos amigos ZAZ é precisa ao evitar os excessos de Midler e sua própria tendência ao anarquismo visual que marcou seus trabalhos anteriores. Mesmo que no final haja uma certa dose de moralismo, o tom acertadamente caótico e a atmosfera oitentista - perceptível em cada cenário e figurino - fazem desse potencial fiasco uma inesperadamente feliz sessão da tarde.

sábado

DO QUE AS MULHERES GOSTAM

DO QUE AS MULHERES GOSTAM (What women want, 2000, Paramount Pictures/Icon  Entertainment International, 127min) Direção: Nancy Meyers. Roteiro: Josh Goldsmith, Cathy Yuspa, estória de Josh Goldsmith, Cathy Yuspa, Diane Drake. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Thomas J. Nordberg, Stephen A. Rotter. Música: Alan Silvestri. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Carmen Finestra, Stephen McEveety, David McFadzean. Produção: Susan Cartsonis, Bruce Davey, Gina Matthews, Nancy Meyers, Matt Williams. Elenco: Mel Gibson, Helen Hunt, Alan Alda, Marisa Tomei, Judy Greer, Sarah Paulson, Bette Midler, Mark Feuerstein, Lisa Edelstein, Loretta Devine. Estreia: 13/12/2000

No ano 2000, poucos astros de Hollywood eram tão confiáveis, em termos de bilheteria, quanto Mel Gibson. Além de popular, ele também agradava à crítica, com desempenhos elogiados como sua interpretação em  "O preço de um resgate" (96) e os Oscar conquistados por seu "Coração valente", premiado pela Academia como o melhor filme de 1995. Seu apelo comercial era tão grande que até mesmo um filme previsível e apenas correto rendeu, só no mercado doméstico, mais de 180 milhões de dólares (colaborando para uma arrecadação total de pouco menos de 375 milhões. Tudo bem que sua parceira de cena era Helen Hunt, premiada com o Oscar de melhor atriz pouco tempo antes - por "Melhor é impossível", de 1997 -, mas foi seu carisma o principal responsável pelo êxito de "Do que as mulheres gostam", uma comédia romântica inofensiva e quase esquecível dirigida por Nancy Meyers - a mesma cineasta que se especializaria no gênero, mas com uma dose extra de inteligência e elegância.

Meyers, cuja única experiência havia sido o remake de "Operação Cupido", de 1998 - que ela havia co-dirigido pelo então marido Charles Shyer - foi contratada apenas para reescrever um roteiro concebido pela Touchstone para o estrelato de Tim Allen, um ator de grande sucesso nos EUA mas pouco celebrado internacionalmente. Com o roteiro pronto, ela chegou à conclusão de que ninguém seria melhor do que ela mesma para comandar - e pediu à Paramount, novo estúdio do projeto, para assinar também a direção e a co-produção. Pedido aceito e filme realizado, ficou claro para todos que, mesmo que outros pudessem ter sido o diretor, poucos falariam do assunto com tanta propriedade quanto Meyers. uma mulher bem-sucedida em um campo onde a grande maioria é formada por homens. Muitas das falas de sua protagonista feminina, Darcy Maguire, interpretada com correção por Helen Hunt, poderiam sair diretamente de suas memórias de sobrevivência no mercado de trabalho. Apesar disso, falta um pouco de consistência no resultado final de ""Do que as mulheres gostam": mesmo com algumas sequências bastante inspiradas e uma trilha sonora das melhores - que vão de Frank Sinatra a Alanis Morissette - o filme termina sem explorar todas as situações que apresenta no começo, e apela para um final feliz apressado e superficial, apesar de ter pouco mais de duas horas de duração.


A trama, improvável mas divertida, é mais um capítulo da série de guerras dos sexos que Hollywood sempre promoveu nas telas, com resultados os mais diversos - de Katharine Hepburn/Cary Grant a Meg Ryan/Tom Hanks, passando pelos icônicos Doris Day/Rock Hudson. Gibson vive Nick Marshall, um publicitário mulherengo e pouco sensível às necessidades das mulheres à sua volta - ex-esposa, filha adolescente, colegas de trabalho e eventuais amantes. Talentoso mas famoso por seu machismo, ele acaba perdendo a promoção que buscava para a igualmente competente Darcy McGuire, responsável por ser a responsável por conquistar o mercado feminino. Desgostoso com a situação, Nick se embebeda em seu apartamento e, enquanto tenta sentir o que as mulheres passam com seus rituais de beleza - o que inclui depilação por cera quente -, sofre um acidente doméstico e acorda com um dom inesperado: ouvir o pensamento de todas as mulheres à sua volta. A princípio totalmente desesperado com a novidade, ele descobre, em uma visita a uma terapeuta (interpretação não creditada da sempre ótima Bette Midler), que, em vez de uma maldição, sua nova condição pode ser uma bênção. Com esse novo olhar sobre o fato, Nick resolve utilizá-lo para roubar as ideias de Darcy e recuperar suas chances de promoção. Porém, como em toda boa comédia romântica, ele se apaixona pela nova colega, que, por sua vez, está encantada com a "sensibilidade feminina" de quem ela considerava desprezível pela forma com que tratava o "sexo frágil".

Meyers consegue fazer rir em boa parte do filme, principalmente quando mostra Nick tentando tirar vantagem de seus novos poderes - suas cenas com Marisa Tomei são engraçadíssimas, tanto no esperado encontro entre os dois quanto na revelação de seu "segredo". Os momentos de Nick antes do acidente são igualmente divertidos, apesar da canastrice de Gibson, e sua química com Marisa solta faíscas - o que não acontece com sua dupla com Helen Hunt, uma boa atriz mas dona de um papel que não se presta a maiores voos. Quando brinca e não se leva a sério, o filme de Meyers conquista sem esforço, mas o mesmo não acontece quando decide ser romântico: quando Nick e Darcy começam a se acertar, o bom humor da primeira parte fica de lado e quase assume, inclusive, uma subtrama dramática que aproxima o publicitário de uma jovem estagiária (interpretada por Judy Greer, uma atriz ainda subaproveitada em Hollywood). No final do jogo, pode-se dizer que "Do que as mulheres gostam"  ganha mais do que perde, mas o resultado - que tinha tudo para ser uma goleada - é uma vitória apertada, sem o brilho que jogadores como Gibson e Hunt poderiam apresentar. É divertido, mas poderia ter sido muito melhor.

sexta-feira

AMIGAS PARA SEMPRE

AMIGAS PARA SEMPRE (Beaches, 1988, Touchstone Pictures, 123min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Mary Agnes Donoghue, romance de Iris Rainer Dart. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Richard Halsey. Música: Georges Delerue. Figurino: Robert De Mora. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Michael Bird, Garrett Lewis. Produção executiva: Teri Schwartz. Produção: Bonnie Bruckheimer-Martell, Bette Midler, Margaret Jennings South. Elenco: Bette Midler, Barbara Hershey, John Heard, Spalding Gray, Lainie Kazan, James Read. Estreia: 21/12/88

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

Indicada ao Oscar de melhor atriz logo em sua estreia nas telas, com o musical "A rosa" (79), biografia disfarçada de Janis Joplin dirigida por Mark Rydell, Bette Midler tornou-se, na segunda metade da década de 80, sinônimo de sucesso dentro da Touchstone Pictures. Protagonista de três êxitos incontestáveis na sequência - "Um vagabundo na alta roda" (86), "Por favor, matem minha mulher" (86) e "Cuidado com as gêmeas" (88) - ela conquistou as plateias com seu humor histriônico e frequentemente excessivo que deixava de lado seu talento dramático e seus dons musicais. Disposta a mudar esse cenário, ela encontrou no romance "Beaches", de Iris Rainer Dart, o material ideal para voltar a ser lembrada por seus dotes como intérprete séria. Assinando também como produtora, Midler escolheu uma companheira de cena acima de qualquer suspeita - Barbara Hershey, que acabara de ser vista nos cinemas como a Maria Madalena de Scorsese, em "A última tentação de Cristo" (88) - e um cineasta, Garry Marshall, que, apesar de não ter uma personalidade artística das mais marcantes, emplacaria um megasucesso dois anos depois, o romântico "Uma linda mulher" (90). De olho principalmente no público feminino, "Amigas para sempre" não repetiu o mesmo sucesso do filmes anteriores da estrela, mas para os menos exigentes funciona como um bom drama lacrimoso - e que sim, explora todos os seus talentos.

A história, como não poderia deixar de ser, é puro clichê: ainda crianças, em Atlantic City, a mimada e sofisticada Hillary Whitney e a rebelde com vocação artística CC Bloom se conhecem e se tornam amigas, apesar de suas diferenças sociais e de criação. Apesar de distantes fisicamente uma da outra, elas continuam mantendo uma assídua correspondência, até que finalmente, anos mais tarde, se reencontram quando CC (já vivida por Bette Midler) está iniciando uma bem-sucedida carreira nos palcos e Hillary (Barbara Hershey com excesso de botox) dedicando-se a trabalhar como advogada para causas sociais. Elas passam a morar juntas no apartamento decrépito de CC e é justamente seu empresário, John Pierce (John Heard), que irá detonar a primeira crise entre as amigas - que passarão as décadas seguintes em constante instabilidade emocional e profissional, brigando e fazendo as pazes enquanto passam por momentos cruciais de suas vidas. É somente depois que Hillary tem uma filha pequena, no entanto, que o maior problema surge em seu caminho: uma doença rara e incurável que irá por em xeque seu relacionamento.

Com um roteiro bastante superficial, que não explora a contento a profundidade dos sentimentos entre as protagonistas, que passam o filme basicamente brigando e se reconciliando, "Amigas para sempre" é nitidamente um veículo para o brilho de Bette Midler. É ela quem tem as melhores e mais importantes cenas, é ela quem tem a chance de equilibrar momentos dramáticos com sequências cômicas, e, para confirmar seu status de estrela maior, canta em diversos números musicais - alguns interessantes, outros bastante enfadonhos e que atrapalham o ritmo do filme, tornando-o desnecessariamente longo. Hershey, uma atriz de grande capacidade, fica relegada quase sempre a um segundo plano melancólico, sendo desperdiçada com uma personagem mal desenvolvida que serve, aparentemente, como escada para o espetáculo de Midler - que deita e rola mesmo quando sua personagem ultrapassa o limite do suportável, com um egocentrismo que só não a transforma em alguém totalmente desprezível graças ao carisma da atriz, que mesmo assim não agrada a todos. É preciso um mínimo de simpatia por ela para se gostar do filme.

Indicado ao Oscar de direção de arte, "Amigas para sempre" é uma sessão da tarde lacrimosa, mas agradável o suficiente para manter o interesse do público até seus minutos finais, embalados pela bela "Wind beneath my wings", cantada (obviamente) por Bette Midler. Com interessantes referências aos bastidores do mundo do teatro, do cinema e da música, é um filme capaz de emocionar aos mais sensíveis, mesmo que force a barra no terceiro ato, quando substitui a leveza de uma história sobre amizade pelo drama fácil de uma doença terminal. Pode levar às lágrimas, mas é longe de ser inesquecível - e pelo menos deu à Bette Midler a chance de sair um pouco das comédias escrachadas e provar a extensão de seu talento.

quinta-feira

CLUBE DAS DESQUITADAS

CLUBE DAS DESQUITADAS (The first wives club, 1996, Paramount Pictures, 103min) Direção: Hugh Wilson. Roteiro: Robert Harling, romance de Olivia Goldsmith. Fotografia: Donald Thorin. Montagem: John Bloom. Música: Marc Shaiman. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Peter Larkin/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Adam Schroeder, Erza Swerdlow. Produção: Scott Rudin. Elenco: Goldie Hawn, Bette Midler, Diane Keaton, Maggie Smith, Sarah Jessica Parker, Elizabeth Berkeley, Victor Garber, Dan Hedaya, Stockard Channing, Stephen Collins, Marcia Gay Harden, Eileen Eckart, Philip Bosco, Jennifer Dundas. Estreia: 20/9/96

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original Comédia/Musical

Tudo já começa nos créditos de abertura - que relembram as clássicas comédias que fizeram a glória de Doris Day - e na sequência inicial, que mostra a despedida de quatro inseparáveis amigas quando seus dias de colegial chegam ao fim, nos efervescentes anos 60. Esses dois momentos são pistas valiosas do que virá pela frente em "Clube das desquitadas", uma divertida comédia feminista que troca a ingenuidade matreira da época do flower power pelo cinismo materialista da década de 90. Inesperado sucesso de bilheteria em um período onde apenas produções de apelo masculino lotavam as salas de exibição, o filme de Hugh Wilson - diretor sem nenhuma obra marcante no currículo - soou como um oásis frente à destruição em massa de filmes como "Independence day" e "Twister" e mostrou que, ao contrário do que esperava a própria Paramount Pictures, ainda havia espaço na indústria americana para filmes menores e estrelado por outros nomes que não Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger.

A trama começa quando uma das quatro amigas da primeira cena, a milionária Cynthia Swann Griffin (participação especial de Stockard Channing), comete suicídio ao ler a notícia do casamento de seu ex-marido com uma garota muitos anos mais jovem. Em seu funeral, as amigas remanescentes - que não tiveram mais contato depois da formatura - se reencontram e, tristes e constrangidas com o afastamento mútuo, resolvem reafirmar sua ligação. É aí que descobrem que estão passando, todas elas, pelo mesmo problema de sua amiga recém-falecida. A atriz Elise Elliot (Goldie Hawn) está passando por uma crise na carreira por causa da idade e, além de ter sido largada pelo marido, o produtor Bill Atchinson (Victor Garber), está correndo o sério risco de ser obrigada a pagar-lhe uma pensão e dividir com ele tudo que conquistou. A dona-de-casa Brenda Cushman (Bette Midler) foi trocada pela fútil Shelly (Sarah Jessica Parker) e seu ex-marido, Morton (Dan Hedaya) não parece inclinado a compartilhar com ela tudo que eles construíram juntos. E Annie Paradis (Diane Keaton) acaba de descobrir que o marido por quem ainda é apaixonada, Aaron (Stephen Collins), está de caso com sua própria terapeuta, Leslie (Marcia Gay Harden). Frustradas e desiludidas, as três resolvem se unir para retomar o que lhes é de direito, se utilizando de todas as técnicas possíveis e imagináveis para isso.


Mais do que os mirabolantes planos bolados pelas três protagonistas para atingirem seus objetivos maquiavélicos, o mais engraçado no roteiro, baseado em um romance de Olivia Goldsmith são as inúmeras referências à cultura popular contemporânea americana, em especial quando o assunto é a carreira cinematográfica de Elise Elliot, em um papel feito sob medida para a ótima Goldie Hawn - e que, por ironia, foi oferecido primeiramente à Jessica Lange. Na pele da vaidosa atriz vencedora do Oscar e do Golden Globe, Hawn (ela mesma já premiada com as duas estatuetas) dispara farpas para todos os lados, ironizando de forma inteligente a forma como a indústria de Hollywood trata as atrizes que já não servem mais aos ideais de juventude dos estúdios e produtores. A crítica à ditadura da beleza, inclusive, é um dos pontos altos do filme, que não perde nenhuma oportunidade de alfinetar a tendência masculina de trocar suas mulheres de 50 anos por alguém com a metade da idade: nesse ponto, aliás, reside a fraqueza maior da produção, que, a favor da risada constante, opta pelo maniqueísmo absoluto, transformando todos os personagens masculinos da história em completos idiotas.

Esse pequeno senão, porém, não consegue apagar o que "Clube das desquitadas" tem de melhor: a química perfeita entre suas três protagonistas. Cada uma dentro de seu estilo de humor - a sofisticação neurótica de Diane Keaton, o escracho visual de Bette Midler, o carisma insofismável de Goldie Hawn - as veteranas atrizes nem precisam fazer muito esforço para ganhar a simpatia e a cumplicidade da plateia, que embarca sorridente a seu lado para acompanhar sua divertida história de vingança - que acaba em uma antológica cena de dança ao som de "You don't own me", cantada na versão original por Leslie Gore, falecida há poucos dias. Pode não ser um filme que mudará a vida de alguém, mas faz rir, entretém e apresenta um trio de protagonistas de tirar o chapéu - que, apesar da promessa, nunca mais se reuniu nas telas. Para uma comédia despretensiosa, está mais do que bom.

segunda-feira

CUIDADO COM AS GÊMEAS

CUIDADO COM AS GÊMEAS (Big business, 1988, Touchstone Pictures, 97min) Direção: Jim Abrahams. Roteiro: Dori Pierson, Marc Rubel. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Harry Keramidas. Música: Lee Holdridge. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: William Sandell/Richard C. Goddard. Produção: Michael Peyser, Steve Tisch. Elenco: Bette Midler, Lily Tomlin, Fred Ward, Edward Herrmann, Michele Placido, Daniel Gerroll, Barry Primus, Michael Gross, Seth Green. Estreia: 10/6/88

Uma das maiores estrelas da Touchstone (braço adulto da Disney) nos anos 80 era Bette Midler. Com o sucesso de seus filmes "Um vagabundo na alta-roda" (86), "Por favor, matem minha mulher" (86) e "Que sorte danada..." (87), a atriz/cantora que havia sido indicada ao Oscar já em sua estreia nos cinemas, na representação ficcional de uma estrela do rock calcada em Janis Joplin em "A rosa" (79), era garantia de polpudas bilheterias para o estúdio do Mickey. Por isso, não foi nenhuma surpresa quando ela assumiu o papel principal de "Cuidado com as gêmeas", pensado originalmente para Barbra Streisand. Sob a direção de Jim Abrahams - parte integrante do trio de cineastas que anarquizou a comédia americana dos anos 80 com seus filmes amalucados ao estilo "Apertem os cintos, o piloto sumiu" (80) - e com um roteiro baseado na estrutura shakespereana de "Comédia de erros", o filme comprovou a popularidade de Midler como uma atriz versátil e carismática, em um papel duplo que ela divide com generosidade e categoria com sua parceira de cena, a ótima Lily Tomlin - retornando à cena quatro anos depois de sua bem-sucedida parceria com Steve Martin em "Um espírito baixou em mim" (84).

O estilo de humor escrachado de Midler se encaixa com perfeição à quase fleumática Tomlin, o que torna as situações previstas no roteiro bem-amarrado ainda mais divertidas e surreais, principalmente quando dirigidas pela mente insana de Abrahams, que já havia trabalhado com Midler em "Por favor, matem minha mulher". É ele quem orquestra uma odisseia de mal-entendidos, confusões visuais e verbais e o show das duas atrizes, que parecem se divertir tanto quanto o espectador, em papéis que fazem uso de seus inúmeros talentos de forma orgânica e inteligente. Se Midler acaba se sobressaindo é justamente porque o humor do diretor acaba sendo mais próximo do seu, chegando ao quase exagero, mas Tomlin (que também é respeitada como atriz séria, tendo sido indicada ao Oscar de coadjuvante por "Nashville", de 1975) não perde a oportunidade de ter seus momentos de brilho, especialmente quando assume a persona atrapalhada e avoada de sua Rose milionária.


A trama é puro nonsense, e começa no dia do nascimento das protagonistas, em uma pequena cidade do interior chamada Jupiter Hollow, onde por acaso estão passando os Shelton, um casal de milionários em vias de ter seu primeiro herdeiro. Sem conseguir adiar o parto, a arrogante sra. Shelton acaba dando à luz a suas duas filhas, Sadie e Rose, no simples hospital local que eles acabam comprando, onde os tímidos e humildes Ratliff também estão vendo suas filhas nascerem - e serem batizadas, por obra não do destino, mas do próprio pai, encantado com os nomes das meninas ricas, também como Sadie e Rose. Tudo seria apenas uma questão quase normal, caso a idosa e míope enfermeira do hospital não trocasse os bebês. Quarenta anos mais tarde, a implacável empresária Sadie Shelton (Midler), que mora em Nova York, pretende livrar-se das propriedades adquiridas pelos pais no interior do país, que só lhe dão prejuízo e dor de cabeça - apesar das dúvidas de sua irmã, Rosie (Tomlin), uma mulher afável e delicada que não tem a mesma visão comercial agressiva da irmã. As ameaças de Sadie em desfazer-se das empresas em Jupiter Hollow não agradam nem um pouco à Rose pobre (novamente Tomlin), que pretende encarar a diretoria das empresas em Nova York - e meio que fugir de seu insistente namorado Roone (Fred Ward) - e levar junto sua deslumbrada e fútil irmã, Sadie (Midler, dessa vez com registro mais cafona). Não é preciso dizer que as quatro se hospedam no mesmo hotel - o Plaza - e causam uma série interminável de confusões entre os empregados, os empresários que precisam decidir o futuro da companhia das Shelton e até mesmo entre elas próprias.

"Cuidado com as gêmeas" é uma comédia quase histérica, repleta de situações engraçadíssimas, aproveitadas com gosto por suas protagonistas e seu elenco coadjuvante, que mesmo numeroso, rende com precisão sob o comando firme de Jim Abrahams. A cena em que os dois pares de irmãs se encontram pela primeira vez em um banheiro, por exemplo, é uma prova inconteste do timing cômico extraordinário de suas atrizes, que imprimem a cada personagem uma personalidade própria, independente das semelhanças e diferenças que possam vir a ter com suas respectivas familiares. Não importa o tipo de humor do espectador, há muito do que rir no filme de Abrahms. A não ser que não se tenha nenhum tipo de humor.

quinta-feira

A ROSA


A ROSA (The rose, 1979, 20th Century Fox, 125min) Direção: Mark Rydell. Roteiro: Bo Goldman, Bill Kerby, história de Bill Kerby. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: C. Timothy O'Meara, Robert L. Wolfe. Música: Paul A. Rotchild. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Richard Macdonald/Bruce Weintraub. Casting: Lynn Stalmaster. Produção executiva: Tony Ray. Produção: Aaron Russo, Marvin Worth. Elenco: Bette Midler, Alan Bates, Frederic Forrest, Harry Dean Stanton. Estreia: 07/11/79

4 indicações ao Oscar: Atriz (Bette Midler), Ator Coadjuvante (Frederic Forrest), Montagem, Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Bette Midler), Canção ("The rose"), Estreia Feminina (Bette Midler)


Antes de consagrar-se nos anos 80 como humorista, em comédias como "Por favor, matem minha mulher" e "Cuidado com as gêmeas", Bette Midler foi levada muito a sério como intérprete dramática. Por sua atuação no drama musical "A rosa" ela recebeu um Golden Globe e foi indicada pela primeira vez ao Oscar de melhor atriz. Dirigida pelo mesmo Mark Rydell que em 1991 comandaria o fracasso de bilheteria "Para eles, com muito amor" - que lhe deu sua segunda indicação ao prêmio da Academia - "A rosa" é uma versão romanceada e bem disfarçada da vida da cantora Janis Joplin - ou pelo menos era pra ser assim na primeira versão do roteiro.

Quando Midler foi convidada para protagonizar o filme - uma condição imposta por Rydell - a trama ainda se chamava "The pearl" e era bastante baseada na vida desregrada e na morte de Joplin (falecida em 1970 de overdose de heroína). Acreditando que ainda era muito cedo para que a cantora tivesse um filme inspirado em sua vida, a atriz (ainda desconhecida do grande público e que cantava em bares) insistiu em que o roteiro fosse mudado. Aos poucos, a trama de "The pearl" transformou-se em "A rosa" e marcou o início do sucesso de Bette Midler em Hollywood.

Ela vive Mary Rose Foster, também conhecida como "a rosa", uma cantora de rock que não sabe lidar com o sucesso que faz. Explorada pelo empresário (Alan Bates), viciada em barbitúricos e carente ao extremo, ela tem como maior orgulho de sua vida ter saído da pequena cidade onde nasceu - e onde pretende encerrar a maior turné de sua carreira. Auto-destrutiva, agressiva e emocionalmente instável, ela vê a chance de voltar a ser feliz quando conhece o jovem Huston Dyer (Frederic Forrest), mas a sua própria personalidade bipolar ameaça afastá-la dele.


Apesar de não apresentar novidades ao gênero "biografia musical" (ainda que fictícia), o roteiro de "A rosa" tampouco deixa de oferecer o que se espera de um filme com suas pretensões. Os números musicais são extremamente eficientes (cortesia de uma inspirada fotografia de Vilmos Zsigmond) e os dramas existencias de sua protagonista, ainda que soem verossímeis, nunca chegam a incomodar o público médio - leia-se "nada de exageros nas cenas de uso de drogas nem muito menos na linguagem e nas cenas de sexo". Não deixa de ser um paradoxo um filme sobre uma roqueira que tenta fugir dos padrões seja tão quadrado, mas toda e qualquer frustração a respeito de sua censura quase livre fica bem menor ao testemunhar-se a performance de Midler.

Na pele da protagonista absoluta de "A rosa", Bette Midler justifica plenamente os prêmios que abocanhou na temporada 1979. Sua entrega à complexa personalidade de Rose é a melhor e mais arrebatadora surpresa do filme de Rydell. Tanto nas cenas mais dramáticas quanto nas performances musicais, Midler extravasa um talento inquestionável e seduz a audiência com um trabalho fabuloso que apenas comprova o seu talento hoje em dia relegado a um quase anonimato. Coisas de Hollywood!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...