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quinta-feira

SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE

SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE (A monster calls, 2016, Apaches Entertainment, 108min) Direção: J.A. Bayona. Roteiro: Patrick Ness, romance homônimo de sua autoria, ideia de Siobhan Dowd. Fotografia: Oscar Faura. Montagem: Jaume Martí, Bernat Vilaplana. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Steven Noble. Direção de arte/cenários: Eugenio Caballero/Pilar Revuelta. Produção executiva: Álvaro Augustin, Ghislain Barrois, Sandra Hermida, Jonathan King, Enrique López Lavigne, Patrick Ness, Bill Pohlad, Jeff Skoll, Patrick Wachsberger. Produção: Belén Atienza. Elenco: Lewis MacDougall, Felicity Jones, Sigourney Weaver, Liam Neeson, Toby Kebell, Geraldine Chaplin. Estreia: 09/9/16 (Festival de Toronto)

Aplaudido pelo mundo já em seu primeiro longa-metragem - o assustador "O orfanato" (2007) - e  posteriormente taxado de "o Steven Spielberg espanhol" por causa do sucesso de "O impossível" (2012), que deu uma indicação ao Oscar de melhor atriz à Naomi Watts, J.A. Bayona volta a mostrar sensibilidade na manipulação das emoções humanas (e principalmente infantis) em "Sete minutos depois da meia-noite", um impressionante e comovente drama de fantasia que, assim como "O labirinto do fauno" (2006), do mexicano Guillermo Del Toro, é uma ode à força da imaginação contra as tragédias do dia-a-dia. Ao contrário do premiado filme de Del Toro, porém, o filme de Bayona não fez tanto barulho nas bilheterias (cobriu seu orçamento apenas com a ajuda da arrecadação mundial) e foi solenemente ignorado pelo Oscar. Tal descaso, no entanto, não reflete nem de longe sua imensa qualidade: "Sete minutos depois da meia-noite" é um dos mais inteligentes e criativos filmes dos últimos anos, um devastador drama sobre amadurecimento disfarçado de aventura juvenil.

Inspirado em um livro infantil iniciado por Siobhan Dowd e finalizado por Patrick Ness após a morte do autor original, "Sete minutos depois da meia-noite" é um espetáculo visual de primeira linha à serviço de uma história fascinante e avassaladora, que trata de assuntos espinhosos com o verniz da fantasia e da imaginação pueril. O protagonista é Connor O'Malley (Lewis MacDougall), um menino irlandês de doze anos que está passando pelo pior período de sua curta existência: sua mãe (Felicity Jones, de "A teoria de tudo") está enfrentando um câncer terminal que a impede de conviver com ele de modo ideal; seu pai (Toby Kebell, de "Black Mirror") mora nos EUA com a nova família e não tem planos de incluí-lo em sua vida; sua avó (Sigourney Weaver), com quem não tem a melhor das relações, quer obrigá-lo a morar com ela; e na escola, ele sofre constante bullying por parte dos colegas mais fortes. Em uma noite, exatamente às 12:07, Connor recebe a visita de um monstro gigantesco em formato de árvore que avisa que irá visitá-lo sempre no mesmo horário para lhe contar três histórias que poderão lhe ajudar nessa fase da vida. O monstro completa o aviso informando-o também de que a última história será de sua autoria - e deverá explicar os motivos de seus pesadelos.


De forma brilhante e surpreendente, Bayona transforma um conto de solidão e trauma em um show de efeitos especiais que, ao invés de eclipsar a força da história, sublinha seu tom lúdico e fantástico. As narrativas do monstro são apresentadas em formato de animação, mas nada de esperar a estética Pixar ou Disney: o cineasta utiliza de cada uma das fábulas da apavorante criatura (com a voz de Liam Neeson e feições que vão se tornando mais humanas conforme a trama avança) para analisar, de maneira poética mas bastante contundente, todos os medos e sentimentos de Connor (e, por conseguinte, de boa parte da plateia, adulta ou não). Ao questionar fundamentos essenciais, como a bondade, a compaixão e a raiva, o roteiro do mesmo Patrick Ness que terminou o livro vai fortalecendo o caráter de seu protagonista e preparando-o para enfrentar o maior desafio de sua vida, que é encarar a morte da mãe e a maturidade precoce. É admirável os meios encontrados por Bayona e sua equipe em equilibrar tão organicamente a vida real de Connor e sua imaginação sem deixar que nenhuma das linhas narrativas sobreponha-se à outra - e mais importante ainda, que consiga fazer com que ambas se conectem tão naturalmente até o final, de uma tristeza profunda, mas dono de uma beleza incontestável.

Contando com um excepcional ator juvenil no papel principal - Lewis McDougall, que também participou do exótico "Peter Pan" (2015), de Joe Wright - e veteranos competentes entre os coadjuvantes - como Sigourney Weaver como sua irascível avó e Geraldine Chaplin, uma espécie de amuleto de sorte do diretor, tendo feito pontas em seus três trabalhos até aqui - "Sete minutos depois da meia-noite" surge como um dos melhores filmes de sua temporada. Com um roteiro de ritmo preciso e equilibrado, um visual acachapante e o tom emocional acertadamente adequado a uma história que mira em vários tipos de plateia, o filme de Bayona é um triunfo em todos os aspectos, capaz de cativar qualquer espectador disposto a mergulhar em uma narrativa repleta de simbolismos e metáforas que, longe de aborrecer ou confundir, apenas valorizam a beleza de suas intenções e de sua realização. Imperdível!

sexta-feira

O IMPOSSÍVEL

O IMPOSSÍVEL (The impossible, 2012, Summit Entertainment/Mediaset España, 114min) Direção: A.J. Bayona. Roteiro: Sergio G. Sánchez, estória de María Belón. Fotografia: Oscar Faura. Montagem: Elena Ruiz, Bernat Vilaplana. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Anna Bingemann, Sparka Lee Hall, María Reyes. Direção de arte/cenários: Eugenio Caballero/Pilar Revuelta. Produção executiva: Sandra Hermida, Javier Ugarte. Produção: Belén Atienza, Álvaro Augustin, Ghislain Barrois, Enrique López-Lavigne. Elenco: Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland, Geraldine Chaplin, Samuel Joslin, Oaklee Pendergast. Estreia: 09/9/12 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Naomi Watts)

"Titanic" explorava uma das maiores catástrofes da história do século XX com pompa e circunstância, transformando a tragédia em um superespetáculo tecnicamente perfeito que conquistou o posto de maior bilheteria da história do cinema - e um recorde de onze Oscar. Quinze anos depois, o mexicano Juan Antonio Bayona mostrou que não é preciso um orçamento milionário para emocionar a plateia quando se tem talento e uma trama forte em mãos. "O impossível" - que utiliza a destruição provocada pelo Tsunami que devastou a Tailândia em 2004 para contar uma história de esperança e superação pessoal - é um dos filmes mais impactantes a surgir nas telas em muitos anos e, mesmo que tenha recebido apenas uma indicação ao Oscar (melhor atriz) é infinitamente superior a muitos produtos superestimados pelos membros da Academia em sua temporada, como o manipulador e chato "Indomável sonhadora". E é, além de tudo, uma aula de narrativa, capaz de prender o público na cadeira durante toda a sua tensa e emocionante projeção.

Ao contrário de "Titanic" - a comparação é inevitável, de certa forma - em que a desgraça só chegava às personagens depois de mais da metade do filme, em "O impossível" o roteiro vai direto ao ponto: em menos de quinze minutos a paz e a tranquilidade da família do inglês Henry Bennett (Ewan McGregor) desaparece, sendo levada pela gigantesca onda que aniquila o resort onde ele estava passando as festas de fim de ano com a família. Afastada do marido e dos dois filhos caçulas, desaparecidos em meio ao turbilhão provocado pela gigantesca onda, a médica Maria (Naomi Watts) - que deixou a profissão de lado para dedicar-se aos filhos - une-se então ao filho mais velho, Lucas (Tom Holland) para tentar sobreviver às consequências do desastre. Enquanto isso, Henry e os outros meninos não desistem de procurar o resto da família, testemunhando abismados a extensão da tragédia e exemplos comoventes de solidariedade e amor.


A partir daí é surpreendente a maneira com que Bayona - que assinou o também ótimo "O orfanato" - manipula (no bom sentido) os sentimentos da plateia. Sem perder o ritmo em momento algum, o cineasta constrói um filme que equilibra com maestria sequências de suspense de tirar o fôlego com cenas da mais absoluta emoção. Fugindo do piegas admiravelmente, o filme conduz o público a uma experiência capaz de arrancar lágrimas do mais empedernido espectador ao apelar para os sentimentos mais puros e honestos de cada um. É notável também - e nisso se percebe claramente o talento de todos os envolvidos no projeto - como cada peça se encaixa perfeitamente no resultado final: a fotografia eficaz, a edição inteligente, a trilha sonora delicada e os efeitos visuais discretos e assustadores colaboram para transformar o trabalho de Bayona em duas horas do mais puro cinema, que entretém ao mesmo tempo em que apavora e emociona.

E emoção é a palavra-chave de "O impossível". Não há cena no filme que não arrepie, que não comova, que não mexa com o público. Tudo isso deve muito, justiça seja feita, a seu elenco: se apenas Naomi Watts foi indicada ao Oscar por sua performance não seria errado apontar que Ewan McGregor e o jovem Tom Holland mereciam maior atenção por parte dos eleitores da Academia. McGregor é dono de ao menos uma cena antológica (com a ajuda de um telefone celular) e Holland, com seu Lucas, ameaça roubar a cena sempre que aparece, demonstrando uma vasta gama de sentimentos que apenas atores veteranos conseguem com apenas um olhar. Juntos aos outros atores mirins que completam a família - e uma participação afetiva de Geraldine Chaplin em uma cena de extrema delicadeza em meio ao desespero - são eles que dão alma ao filme de Bayona, desde já um clássico moderno. Imperdível!

domingo

FERIADOS EM FAMÍLIA

FERIADOS EM FAMÍLIA (Home for the holidays, 1995, Polygram Filmed Entertainment/Paramount Pictures, 103min) Direção: Jodie Foster. Roteiro: W. D. Richter, conto de Chris Radant. Fotografia: Lajos Koltai. Montagem: Lynzee Klingman. Música: Mark Isham. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Barbara Drake. Produção executiva: Stuart Kleinman. Produção: Jodie Foster, Peggy Rasjki. Elenco: Holly Hunter, Robert Downey Jr,. Anne Bancroft, Charles Durning, Dylan McDermott, Geraldine Chaplin, Steve Guttenberg, Cynthia Stevenson, David Straithairn, Claire Danes. Estreia: 03/11/95

Em sua segunda incursão como diretora, Jodie Foster não quis afastar-se muito da temática de sua estreia, o drama doméstico "Mentes que brilham". "Feriados em família", uma crônica agridoce sobre as difíceis porém indeléveis relações entre pais, filhos e irmãos mostra que a atriz/diretora/produtora amadureceu artisticamente ainda mais nos quatro anos que separam seus dois trabalhos, mas esbarra em uma certa frieza que contrasta com o calor humano demonstrado em seu primeiro filme. Equilibrando um senso de humor amargo com um elenco de grandes atores, ela constrói um retrato sem exageros de um núcleo familiar cuja união está nas diferenças e, apesar da irregularidade, comprova que sua transição para o lado de trás das câmeras não foi apenas um capricho vaidoso.

Baseado em um conto de Chris Radant, "Feriados em família" se passa no mais tradicional feriado norte-americano, o Dia de Ação de Graças, quando - ao menos segundo o cinema hollywoodiano - todas as diferenças acumuladas durante o ano todo são exorcizadas em volta da farta mesa de jantar. E para a protagonista Claudia Larson (Holly Hunter) a coisa não será nada fácil: além de encarar as eternas discussões familiares, ela está passando por uma das piores crises da sua vida. Não só perdeu o emprego e saiu dele trocando um inesperado beijo com seu sexagenário ex-patrão como acaba de receber da única filha, a adolescente Kitt (Claire Danes), a notícia de que ela está decidida a perder a virgindade com o namoradinho. Chegando na pequena cidade onde moram seus pais, ela precisa enfrentar a insistência da mãe, Adele (Anne Bancroft), de que se entenda com um amigo de infância apaixonado por ela, Russell (David Straithairn) e voltar a ser tratada como adolescente pelo pai, Henry (Charles Durning). Sua pressão só diminui com a chegada do irmão caçula, Tommy (Robert Downey Jr.), homossexual assumido que traz à tiracolo um amigo, Leo Fish (Dylan McDermot), por quem ela logicamente sente-se atraída.


Não bastasse tudo isso, a reunião familiar fica completa quando entra em cena Glady (Geraldine Chaplin) - que mantém escondido um segredo há décadas e não se importa em revelá-lo à hora da refeição - e a terceira filha de Adele e Henry, a reprimida Joanne (Cynthia Stevenson), que se orgulha de ter uma família sólida ao lado do marido Walter (Steve Guttenberg) e mantém uma relação de desprezo com a vida sexual do irmão. A noite torna-se cada vez mais tumultuada quando as diferenças passam a ser resolvidas da pior maneira possível - o que inclui até um inesperado banho de recheio de peru. Nesse meio tempo, Claudia não consegue evitar a aproximação com Leo - a quem julga ser o novo parceiro do irmão, que também tem uma revelação a fazer a todos no final do feriado.

Ao contrário do que fez em "Mentes que brilham", Jodie Foster não busca a emoção da plateia com "Feriados em família". Sua opção pelo humor - sutil, quase imperceptível em sua discrição - mostra um distanciamento bastante saudável em relação às complicadas teias familiares descritas no roteiro, que vai tornando-se mais interessante à medida em que a trama realmente começa a mostrar seus desdobramentos e os personagens vão se despindo de suas cascas e mostrando suas dores e delícias. São nesses momentos, em que a individualidade de cada um vem à tona, que o filme mostra a que veio e Foster deixa claro seu maior talento como cineasta: dirigir atores. Sendo um drama centrado em personagens - mais do que em acontecimentos - "Feriados em família" depende quase que exclusivamente do elenco e sua escolha não poderia ter sido mais feliz: não há um único elo fraco entre todos os atores que, cada um à sua maneira, transmite toda a gama de sentimentos necessários para manter aceso o interesse da plateia.

Holly Hunter e Anne Bancroft - ambas premiadas com o Oscar por trabalhos anteriores e atrizes consagradas - roubam a cena sem precisar muito esforço, enquanto Robert Downey Jr. (que fez o filme inteiro à base de heroína, para tristeza de Foster) comprova que sempre foi um ator de imenso talento, felizmente reconhecido e recuperado a tempo de tornar-se popular. E não deixa de ser delicioso ver em cena uma atriz como Geraldine Chaplin, perfeita em seu timing de tia maluca que é bem menos demente do que todos pensavam. É ela, junto com todos os atores que transformam a sensação de assistir-se a "Feriados em família" em uma noite de (bom) teatro.

sexta-feira

O ORFANATO

O ORFANATO (El orfanato, 2007, Grupo Rodar, 105min) Direção: J. A. Bayona. Roteiro: Sérgio G. Sanchez. Fotografia: Óscar Faura. Montagem: Elena Ruiz. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Maria Reyes. Direção de arte/cenários: Josep Rosell/Iñigo Navarro. Produção executiva: Guillermo Del Toro. Produção: Álvaro Augustín, Joaquín Padró, Mar Targarona. Elenco: Belén Rueda, Fernando Cayo, Roger Príncep, Geraldine Chaplin, Mabel Rivera, Montserrat Carulla, Edgar Vivar. Estreia: 20/5/07 (Festival de Cannes)

Desde que "O sexto sentido" e "Os outros" fizeram a festa dos produtores, filmes de terror com temática adulta e séria, que dispensam piadas infames e sátiras ao gênero, voltaram a ser respeitadas pela crítica e pelo público, sedento por momentos de tensão na poltrona do cinema. E nem só Hollywood embarcou nessa retomada. Produzido por Guillermo Del Toro e dirigido pelo espanhol J. A. Bayona, o aterrador "O orfanato" estreou no Festival de Cannes de 2007, obteve uma ovação em pé por dez minutos e mostrou que não é preciso tradição para arrepiar a plateia, quando se tem uma boa história e talento para realizá-la.

"O orfanato" é um filme de terror nos moldes clássicos, espalhando pela tela elementos conhecidos dos fãs do gênero, como uma mansão aparentemente assombrada, idosas assustadoras, crianças com sensibilidade paranormal e uma heroína disposta a qualquer sacrifício para manter a sanidade física e mental. O que poderia ser um festival de clichês, no entanto, torna-se uma produção elegante e sóbria graças a um roteiro que não busca o susto fácil, preferindo - para deleite da audiência - o caminho menos previsível para contar sua história. A confiança de Bayona no roteiro enxuto de Sérgio G. Sanchez é tanta que o cineasta prescinde até mesmo de um clímax barulhento: tudo é resolvido placidamente, sem gritos e sem a sanguinolência que caracterizou o gênero nos anos 80. Mérito da trama bem desenvolvida, da direção firme e da atuação da incrível Belén Rueda, que carrega o filme nas costas com um trabalho nunca aquém de fabuloso.

Quando o filme começa, Laura, a personagem de Rueda, retorna ao orfanato onde viveu durante a infância com o objetivo de reativá-lo e ter um lugar tranquilo para criar o pequeno Simon (Roger Príncep), que é portador do virus da AIDS e desconhece sua condição de filho adotivo. Casada com Carlos (Fernando Cayo), um médico com quem mantém uma relação saudável e amorosa, Laura tenciona oferecer a crianças órfãs um lar como o que ela mesma teve em seu passado, mas o desaparecimento misterioso de Simon no dia da inauguração do orfanato destroi radicalmente seus planos. Abalada com o sumiço do menino, Laura passa a desconfiar que os amigos imaginários do seu filho podem estar envolvidos, bem como a misteriosa Benigna (Montserrat Carulla), antiga funcionária da mansão que esconde um apavorante passado relacionado às crianças. Desesperada, ela entra em contato com a poderosa médium Aurora (Geraldine Chaplin), que vê na casa uma atmosfera densa e aterrorizante.

Utilizando com maestria o desenho de som e a direção de arte - que contribuem para o clima de constante tensão da narrativa - "O orfanato" aposta na inteligência do espectador para assustar e deixar os nervos em frangalhos. Atinge todos os seus objetivos e ainda consegue emocionar com um final coerente e melancólico. Uma pequena obra-prima!

segunda-feira

FALE COM ELA

FALE COM ELA (Hable con ella, 2002, Espanha, 112min) Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Fotografia: Javier Aguirresarobe. Montagem: José Salcedo. Música: Alfredo Iglesias. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Antxon Gomez/Federico Garcia Cambero. Produção executiva: Agustin Almodóvar. Elenco: Javier Câmara, Dario Grandinetti, Leonor Watling, Rosario Flores, Geraldine Chaplin, Lola Dueñas. Estreia: 15/3/02

2 indicações ao Oscar: Diretor (Pedro Almodóvar), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro 

No universo do cineasta espanhol Pedro Almodovar - como bem sabem seus inúmeros fãs - nada é preto no branco. Não existem mocinhos e bandidos e nem atos corretos ou errados (ao menos dentro da concepção tradicional do termo). Na obra de Almodovar nada é exatamente o que parece à primeira vista e, dentro de seu mundo particular (onde circulam com desenvoltura personagens da mais alta complexidade) um enfermeiro com características aparentes de homossexualidade é capaz de um ato tresloucado e machista, ainda que revestido de um romantismo distorcido. Nos filmes de Almodovar nenhum amor é normal. Quando alguém se apaixona dentro de um roteiro seu ou rapta a mulher amada (como em "Atame!") ou a estupra, como acontece em "Fale com ela", uma de suas obras-primas, merecidamente premiada com o Oscar de roteiro original.

Surpreendentemente deixada de lado pela Academia em sua lista dos indicados a Melhor Filme Estrangeiro - apesar de ter levado o Golden Globe da categoria - "Fale com ela" de certa forma compensou a esnobada concorrendo em duas categorias nobres e levando a importante estatueta de roteiro (batendo nomes fortes como o belo "Longe do paraíso" e o favorito "Gangues de Nova York"). Na verdade, dar o prêmio a qualquer outro candidato seria impensável: se em seu filme anterior, o incensado "Tudo sobre minha mãe" (que por sua vez levou o Oscar de filme estrangeiro) Almodovar já brindava o espectador com seu estilo próprio de fazer cinema misturando imagens poderosas com tramas e personagens fortes, em "Fale com ela" ele chega a um nível de sofisticação narrativa ainda maior. Ao contrário de muitos filmes cuja trama pobre pode ser resumida em uma única frase, o 14º longa do diretor nascido em uma pequena cidade do interior da Espanha em 1949 é uma prova inconteste de que a imaginação e a poesia ainda são os maiores aliados de um roteirista.



"Fale com ela" conta, na verdade, duas histórias de amor que se transformam em uma bela história de amizade. Depois de ter criado, em "Tudo sobre minha mãe", meia dúzia de personagens femininas de se tirar o chapéu, agora Almodovar presenteia o público com duas personagens masculinas intensas, imprevisíveis e melhor ainda, críveis e humanas. Benigno Martin (o ótimo Javier Câmara) é um enfermeiro dedicado que passa seus dias cuidando de Alicia (Leonor Watling), que entrou em coma depois de ser atropelada em um dia de chuva. Apaixonado pela jovem desde os tempos em que a observava de sua janela enquanto ela fazia aulas de balé na academia em frente à sua casa, Benigno de certa forma aproveita a chance de manter-se perto dela mesmo sabendo da possibilidade de sua inconsciência ser permanente. Sua rotina - para ele doce, ainda que rotina - é alterada quando ele conhece Marco Zuluaga (Dario Grandinetti), um jornalista que chega ao hospital acompanhando a namorada, Lydia Gonzalez (Rosário Flores), uma famosa toureira atingida em plena arena. Solitário, logo Benigno torna-se o confidente de Marco, um homem fechado e profundo a quem ele tenta convencer a manter conversas com a namorada inconsciente.

Como normalmente acontece na obra de Pedro Almodovar, o início de "Fale com ela" - o pontapé inicial de seu roteiro, digamos assim - é apenas um esboço de tudo que virá pela frente. Não demora muito para que o cineasta embaralhe as cartas de seu jogo, emprestando a Benigno características viris e impulsivas que se poderia esperar de Marco e dando a este momentos de uma pureza e sensibilidade próprias de alguém como Benigno. Enquanto o enfermeiro afeminado é capaz de um ato a príncipio brutal (através do qual a vida retorna, de forma irônica), o jornalista viril é capaz de desmanchar-se em lágrimas diante de um número de dança (com a participação especial da alemã Pina Bausch) ou de uma bela canção de amor (interpretada por Caetano Veloso), além de sofrer sem medo da opinião alheia. É o amor dos dois pelas mulheres em coma - mas que mesmo mudas e inertes empurram a trama pra frente - que une Benigno e Marco, que os completam como yin e yang. Mas não são os dois que tem o mesmo equilíbrio e a mesma força de lidar com suas paixões, e é daí, dessa fragilidade passional, que nasce a trágica poesia do filme.

E poesia é o que não falta em "Fale com ela", seja visualmente, através da inspirada fotografia de Javier Aguirresarobe, que transforma a violência das touradas em um balé (que remete às danças de Alicia e aos números de abertura e encerramento da projeção) ou em alguns diálogos de cortar o coração (que citam inclusive Tom Jobim, cuja bela "Por toda a minha vida" na voz de Elis Regina, ilustra lindamente uma tourada de Lydia). Até mesmo a homenagem de Almodovar ao cinema mudo (em uma sequência aparentemente sem importância que dá grandes pistas sobre o que vem a seguir) é um exemplo de concisão e inteligência: a história do "amante minguante" que entra no corpo da mulher que ama é a metáfora perfeita para o desfecho de uma das histórias de amor contadas pelo diretor, que ainda faz o grande favor de não entregar tudo mastigadinho à audiência. O público, encantado, agradece!

A ÉPOCA DA INOCÊNCIA

A ÉPOCA DA INOCÊNCIA (The age of innocence, 1993, Columbia Pictures, 139min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Martin Scorsese, Jay Cocks, romance de Edith Wharton. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Gabriella Pescucci. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Robert J. Franco, Amy Marshall. Casting: Ellen Lewis. Produção: Barbara De Fina. Elenco: Daniel Day-Lewis, Michelle Pfeiffer, Winona Ryder, Alexis Smith, Jonathan Pryce, Geraldine Chaplin, Robert Sean Leonard, Joanne Woodward. Estreia: 17/9/93

5 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Winona Ryder), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor do Oscar de Figurino
Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Winona Ryder)

Em 1920, a escritora Edith Wharton publicou seu romance "A era da inocência", que a fez tornar-se a primeira mulher a ser premiada com o Pulitzer. Sessenta anos depois, o crítico da revista Time, Jay Cocks deu um exemplar do livro a seu amigo Martin Scorsese afirmando que, se um dia o cineasta quisesse realizar um drama romântico, ali estava a sua trama. Cocks sabia o que estava falando. Realizador de filmes densos e com alto teor de violência, Scorsese declarou, à época do lançamento de "A época da inocência" - um ano atrasado em relação ao cronograma original - que a história de amor contada por Wharton é seu filme mais violento. Logicamente quem assistiu a obras impactantes como "Touro indomável", "Os bons companheiros" e "Cabo do medo" - todas extremamente agressivas - pode não concordar com a afirmação em um primeiro momento. Basta, porém, olhar com mais cuidado todas as nuances de "A época da inocência" para que se perceba que ele está absolutamente certo. Sem que uma única gota de sangue seja derramada, o romance proibido entre o advogado Newland Archer e a condessa Ellen Olenska consegue ser mais cruel e beligerante do que qualquer taxista neurótico, mafioso ambicioso ou ex-presidiário vingativo.


Nos anos 1870, a Condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer, belíssima e excelente atriz) retorna à sua Nova York natal depois do fracasso de seu casamento com um conde europeu. Acolhida com carinho pela família, ela no entanto, sofre com a rejeição da alta sociedade da cidade, que, fiel a suas regras de conduta, lhe vira as costas inclementemente. Solitária, ela recebe o apoio de um conhecido de infância, Newland Archer (Daniel Day-Lewis), por quem acaba se apaixonando perdidamente. O problema é que ele acaba de ficar noivo de May Welland (Winona Ryder, delicada e meiga como convém), a prima de Ellen. Com seu romance proibido pelas rígidas normas sociais, eles tentam conviver com um amor devastador que não tem o direito de vir à luz.

A violência em "A época da inocência" não é física e sim emocional. Scorsese retrata as convenções sociais com a mesma paixão e força com que filma assassinatos e lutas de boxe. Em sua visão de gênio ele equipara as regras da alta sociedade com os códigos de honra dos mafiosos - é fascinante como os virulentos guarda-costas de seus filmes anteriores são substituídos aqui por mulheres delicadas e homens de modos refinados que, no entanto, tem a mesma função vil de acabar com vidas alheias - se não literal, ao menos metaforicamente. Newland e Ellen são vítimas de uma sociedade preconceituosa e egoísta, que não permite a felicidade se ela, para existir, necessite abdicar de preceitos há muito arraigados. A condessa é uma mulher à frente do seu tempo, que tenta desesperadamente respirar em um mundo sufocado por etiquetas caducas. Archer é um homem romântico, íntegro, mas sem maiores arroubos de coragem de desafiar a família e os outros - o inferno de Sartre. Juntos, eles caminham rumo a um final melancólico que Scorsese orquestra como ninguém.



"A época da inocência" é um espetáculo em todos os sentidos. O roteiro - co-escrito pelo diretor e por seu amigo Jay Cocks - é extremamente fiel ao livro que lhe deu origem, discorrendo abundandemente sobre os sentimentos escondidos de suas personagens sem que lhes seja preciso vastos diálogos. Ao contrário dos filmes anteriores do diretor, onde o improviso era palavra de ordem, aqui cada movimento de câmera, cada enquadramento, cada frase proferida pelos protagonistas e seus coadjuvantes são precisos e meticulosamente estudados. É de deixar sem fôlego, por exemplo, a longa sequência em que Archer chega em um dos bailes mostrados no filme: sem apelar para cortes, Scorsese acompanha Day-Lewis em seu caminho em direção à festa, levando a audiência a acompanhá-lo passo a passo. Apoiado por uma música nunca aquém de espetacular do maestro Elmer Bernstein, o travelling do diretor é uma aula de cinema - e o fato de acontecer lentamente apenas aumenta ainda mais o prazer.

E prazer é o que não falta quando se assiste a "A época da inocência", que foi praticamente ignorado pelo Oscar - recebeu uma estatueta apenas, por seu estupendo figurino e foi deixado de lado nas categorias principais. A reconstituição de época é magnífica - e o próprio cineasta se deixa arrebatar por ela, em determinados momentos - e o luxo e a pompa que cercam suas personagens são quase tão importantes quanto elas mesmas. Jantares suntuosos, bailes grandiosos e propriedades de cair o queixo são mostrados em detalhes, fotografados com perfeição por Michael Ballhaus - é especialmente deslumbrante a cena em que Pfeiffer está de costas mirando o mar enquanto Day-Lewis espera que ela vire para encontrá-lo. É poesia em forma de cinema. De extasiar qualquer espectador sensível.

Ainda que perca um pouco o ritmo em sua segunda metade - um pecadilho que nem sequer chega a ser percebido pelos olhos encantados da plateia - Scorsese fez de "A época da inocência" um dos filmes mais sensacionais da década de 90. Pode não agradar aos fãs ocasionais, mas definitivamente conquista aqueles que realmente conhecem bom cinema e o consideram realmente uma arte.

terça-feira

CHAPLIN

CHAPLIN (Chaplin, 1992, Carolco Pictures, 143min) Direção: Richard Attenborough. Roteiro: William Boyd, Bryan Forbes, William Goldman, história de Diana Hawkins, livros "Chaplin: his life and art", de David Robinson e "My autobiography", de Charles Chaplin. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Anne V. Coates. Música: John Barry, José Padilla. Figurino: Ellen Mirojnick, John Mollo. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Norman Dorme. Casting: Mike Fenton, Susie Figgis, Valorie Massalas. Produção: Richard Attenborough, Mario Kassar. Elenco: Robert Downey Jr., Geraldine Chaplin, Anthony Hopkins, Moira Kelly, Dan Aykroyd, Marisa Tomei, Penelope Ann Miller, Kevin Kline, Maria Pitillo, Milla Jovovich, Diane Lane, Nancy Travis, James Woods. Estreia: 25/12/92

3 indicações ao Oscar: Ator (Robert Downey Jr.), Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários

Que Charles Chaplin foi um dos maiores gênios da história da humanidade é impossível discordar. Diretor e intérprete de clássicos absolutos como "O garoto", "Luzes da cidade" e "O grande ditador" - apenas para citar alguns de inúmeros títulos sensacionais - o ator inglês é uma das figuras mais reconhecidas da sétima arte, principalmente através de Carlitos, o vagabundo criado por ele e protagonista de muitos de seus filmes. Como a personagem foi criada, como algumas ideias para suas obras surgiram e principalmente como ele foi injustamente expulso dos EUA, acusado de ser simpatizante do comunismo, no entanto, não é material tão conhecido assim. Por isso, o cineasta Richard Attenborough resolveu que era hora de homenagear um de seus maiores ídolos com uma cinebiografia e lançou "Chaplin" no 15º aniversário de sua morte. Porém, ao contrário de sua obra mais famosa  -"Gandhi" - seu filme não apenas ficou aquém do esperado em termos de crítica, mas bombou feio nas bilheterias.

O papel principal de "Chaplin" ficou com o americano Robert Downey Jr., antes que seus problemas com drogas o tirasse das páginas de entretenimento e o colocasse na seção policial. Em uma atuação impressionante, Downey mostra que é, sim, um extraordinário ator, tirando leite de pedra de um roteiro capenga - inspirado em duas biografias do artista - que não ilustra a contento nem a carreira nem a vida pessoal de Charlie. Narrado em flashback, uma vez que a história é contada pelo diretor a um biógrafo (Anthony Hopkins), "Chaplin" começa mostrando a infância miserável do protagonista, que, abandonado pelo pai, substituiu a mãe com problemas mentais (Geraldine Chaplin interpretando sua avó) em um show de vaudeville e conheceu o gosto do sucesso. Contratado para fazer filmes em Hollywood - em saltos temporais que mais prejudicam do que ajudam na compreensão do todo - ele chega à conclusão que precisa de controle total sobre sua obra, entrando em rota de colisão com o então todo poderoso Mack Sennet (Dan Aykroyd) e a cineasta Mabel Normand (Marisa Tomei). De posse de seu talento e de sua fama, ele galga rapidamente os degraus do sucesso, emendando um sucesso atrás do outro. No entanto, sua predileção por mulheres mais jovens - e às vezes menores de idade - e o fato de ter comprado briga com o criador do FBI, J.Edgar Hoover (Kevin Dunn) os leva a ter sérios problemas com a justiça americana, culminando com sua expulsão do país.



"Chaplin" poderia ter sido contado com dois enfoques diferentes e bastante interessantes: Attenborough (que demonstrou um pouco de preguiça na direção) poderia ter explorado os bastidores da Hollywood do início do século XX, com suas brigas por poder, suas fofocas, seu glamour e a construção do cinema mais popular do biografado. Ou poderia ter optado por narrar as aventuras amorosas e sexuais de Chaplin e suas eventuais complicações - o relacionamento com a perturbada Joan Barry (Nancy Travis), o casamento feliz com Paulette Godard (Diane Lane) e a felicidade ao lado de Oona O'Neil (Moira Kelly), por exemplo. Ao tentar reunir tanta informação em um filme de duração comercial - menos de 2 horas e meia - o roteiro impede o espectador de ter um contato mais profundo com qualquer personagem e situação. Fica-se, então, privado do ótimo trabalho de Kevin Kline como Douglas Fairbanks Jr. ou de Diane Lane como Paulette Goddard - sem falar que a simpatia de Chaplin em relação ao povo judeu (e sua subsequente fama de "comunista") tem muita origem em seu casamento com ela. Logicamente seria impossível dentro dos limites do tempo equilibrar tudo que precisa ser contado, mas um pouco de foco não faria mal nenhum e ainda ajudaria na contemplação dos destaques da produção, essa sim, digna de nota.

Não foi à toa que "Chaplin" foi indicado ao Oscar de direção de arte. É visível o capricho na reconstituição da época mostrada no filme, assim como o figurino e a maquiagem. É fascinante a maneira com que Attenborough revela ao público alguns segredos de como eram realizados os filmes nos anos 10 e 20, bem como apresenta de maneira simpática a origem das ideias de Chaplin para resolver - de forma barata e eficiente - seus problemas criativos. Mas nem mesmo esse cuidado todo e a bela e delicada trilha sonora de John Barry - também indicada ao Oscar - não impedem que seja percebido o óbvio: "Chaplin" deve tudo o que é à interpretação arrebatadora de Robert Downey Jr.

Indicado ao Oscar por seu trabalho, Downey entrega uma atuação quase mediúnica. Ele desaparece dentro da personagem, fazendo com que o público esqueça que ali está um ator na pele de uma personalidade real. Para a audiência, Downey e Chaplin são a mesma pessoa, ao menos durante a duração do filme. É uma pena que ele tenha que arrancar essa atuação de dentro de si sem um roteiro que lhe faça jus. É de se imaginar o quão sensacional ele teria sido se tivesse uma base melhor!!!

segunda-feira

DOUTOR JIVAGO


DOUTOR JIVAGO (Doctor Zhivago, 1965, MGM Pictures,197min) Direção: David Lean. Roteiro: Robert Bolt, baseado no romance de Boris Pasternak. Fotografia: Freddie Young. Montagem: Norman Savage. Música: Maurice Jarre. Figurino: Phyllis Dalton. Direção de arte/cenários: John Box / Dario Simoni. Produção: Carlo Ponti. Elenco: Omar Sharif, Julie Christie, Rod Steiger, Tom Courtenay, Geraldine Chaplin, Alec Guinness, Klaus Kinski, Ralph Richardson. Estreia: 22/12/65

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David Lean), Ator Coadjuvante (Tom Courtenay), Roteiro Adaptado, Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino em Cores, Direção de arte/Cenários em Cores, Som
Vencedor de 5 Oscar: Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores

Vencedor de 5 Golden Globes: Filme/Drama, Diretor (David Lean), Ator/Drama (Omar Sharif), Roteiro, Trilha Sonora

Houve um tempo em Hollywood que a palavra "épico" sempre vinha acompanhada do nome do diretor David Lean, e não era para menos. Basta assistir a qualquer um de seus filmes mais famosos - "A ponte do Rio Kwai" e "Lawrence da Arábia", por exemplo, para ficar apenas nas obras que lhe deram o Oscar - para perceber que o cineasta inglês tinha uma fascinação mais do que corriqueira por histórias que exigissem vastas paisagens, personagens apaixonadas - por uma causa, por uma missão, por uma pessoa - e principalmente histórias que se prestassem a longas durações. Exagero? "Lawrence" tem 216 minutos, "Rio Kwai" tem 161. Tendo isso tudo em vista, não é nada surpreendente que ele tenha se interessado pela adaptação cinematográfica do romance "Doutor Jivago", escrito por Boris Pasternak. Afinal de contas, além de todos os ingredientes citados acima, o livro de Pasternak - publicado em 1958 apenas fora da União Soviética, que só o pode ler em 1989 - ainda tinha um viés social que aumentava consideravelmente seu poder de sedução junto a uma plateia que dava seus primeiros passos em direção à consciência política. Sintomaticamente, "Doutor Jivago" foi o filme mais popular de Lean, arrecadando sozinho mais do que todos os seus trabalhos anteriores somados.

"Doutor Jivago" começa pra valer em 1912, às vésperas da I Guerra Mundial, em Moscou. É lá que o poeta e estudante de Medicina Yuri Jivago (Omar Sharif) toma contato com as diferenças sociais que empurram aos poucos a Rússia a uma revolução. Noivo de sua irmã de criação, Tonya (Geraldine Chaplin), ele conhece a bela Lara (Julie Christie), uma jovem que desperta os desejos lascivos do poderoso Komarovsky (Rod Steiger) que, entre outras mulheres, também é amante de sua mãe. Lara é noiva de Pasha (Tom Courtenay), um dos mais engajados membros do partido que tenciona tomar o poder russo. Quando a Guerra realmente chega, Lara e Jivago se reencontram em circunstâncias bastante dramáticas - ele como médico e ela como enfermeira voluntária - e se apaixonam, apesar de seus compromissos sentimentais (embora ela nunca mais tenha visto seu marido, um dos líderes do movimento que em pouco tempo forçará a Revolução Russa). Ao retornar para Moscou, Jivago encontra seu país em estado crítico, tendo a própria mansão de sua família invadida por dezenas de famílias. Ao recolher-se ao interior da Rússia com a mulher, o sogro e o filho, ele volta a encontrar Lara, e dessa vez eles se entregam ao forte sentimento que nutrem um pelo outro. A felicidade, no entanto, é efêmera, uma vez que a guerra civil que divide o país eclode e ameaça seu relacionamento.



Épico no sentido mais amplo do termo, "Doutor Jivago" é um espetáculo para ser degustado com admiração incondicional. A impressionante fotografia de Freddie Young, premiada com o Oscar, é uma das mais extraordinárias da história do cinema, marcando com eficiência e sensibilidade a passagem do tempo e o estado de espírito das personagens - não foi à toa que as filmagens sofreram grande atraso devido ao perfeccionismo de Lean, que fez questão de filmar cada cena dentro de seu respectivo período de tempo. A neve, que é visão constante ao espectador nunca foi tão linda, assim como a areia do deserto nunca esteve tão fotogênica quanto em "Lawrence da Arábia" . E os inúmeros closes nos olhos azuis de Christie apenas reforçam sua beleza e sua fragilidade, que se transforma em uma força inesperada em momentos extremos. Mas apesar do talento tanto de Julie quanto de Sharif, o romance entre suas personagens talvez seja o elo mais fraco de toda a trama.

Por incrível que pareça quando se trata de um épico romântico, a história de amor entre Jivago e Lara não chega a conquistar o público tanto quanto o cenário político-social em que ela se desenrola. Mesmo que as cenas entre os dois sejam de uma beleza inegável - culpa também da extraordinária e consagrada trilha sonora de Maurice Jarre - o interesse da plateia acaba sendo muito maior na trama política do filme e em suas consequências. Algumas cenas bastante violentas - mas ainda assim de uma poesia dolorosa - são magistralmente dirigidas por Lean em contraponto à placidez silenciosa de outras sequências.O roteiro, que condensa um livro de mais de 600 páginas em pouco mais de três horas de duração, busca fazer milagres. Ao mesmo tempo que foge gloriosamente do didatismo - o que de certa forma deixa a plateia um pouco perdida em alguns momentos - tenta fazer acreditar no romance entre seus protagonistas. Não é tarefa das mais fáceis e nem sempre seu objetivo é atingido plenamente - nas páginas escritas por Pasternak a paixão entre Jivago e Lara soa mais crível e avassaladora do que na tela, onde Sharif e Julie - atraentes, sem dúvida, mas um tanto apáticos - não transmitem o amor intenso de suas personagens. Comparados com a fúria de Rod Steiger e Tom Courtenay (o último indicado ao Oscar de coadjuvante) eles empalidecem bastante, mas ainda assim conquistam a cumplicidade do espectador. Em todo caso, poderia ter sido pior, já que o produtor Carlo Ponti queria que sua esposa Sophia Loren interpretasse a protagonista (dá pra imaginar a voluptuosa Loren na pele da sentimental Lara?)

"Doutor Jivago" é um grande filme. Soa moderno ainda hoje, graças à direção de Lean, que mescla seu estilo clássico com a garra e o perfeccionismo costumeiros. Embala os corações mais sensíveis com sua história de amor e enche os olhos daqueles que apreciam um cinema-espetáculo com seu visual arrebatador. Boris Pasternak ganhou o Nobel de Literatura por seu trabalho. E David Lean o adaptou à altura. Um filme para ver e rever!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...