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sábado

CULPADO POR SUSPEITA


CULPADO POR SUSPEITA (Guilty for suspicion, 1991, Warner Bros, 105min) Direção e roteiro: Irwin Winkler. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Priscilla Nedd. Música: James Newton Howard. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Nancy Haigh. Produção executiva: Steven Reuther. Produção: Arnon Milchan. Elenco: Robert DeNiro, Annette Bening, George Wendt, Chris Cooper, Patricia Wettig, Sam Wanamaker, Luke Edwards, Ben Piazza, Martin Scorsese, Tom Sizemore. Estreia: 15/3/91

Levando-se em consideração que o cinema foi um dos ramos mais atingidos pela  famigerada caça às bruxas promovida pelo Senador republicano norte-americano Joseph McCarthy na década de 1950 - que, sob o pretexto de salvar os EUA do comunismo, ceifou carreiras e reputações, arruinando vidas e famílias inteiras - até que demorou para que Hollywood tratasse do assunto com a seriedade merecida. Talvez por medo de tocar em uma ferida ainda dolorida mesmo depois de quarenta anos, os executivos  evitaram, por décadas, ressuscitar um fantasma que havia posto colegas contra colegas e deixado a indústria em tensão constante por um longo e tenebroso período. Foi somente em 1991 que a Warner Bros finalmente rompeu a barreira de silêncio e lançou "Culpado por suspeita" - uma produção classuda, estrelada por um astro de primeira grandeza (Robert DeNiro) e que marcava a estreia na direção de um produtor consagrado - Irwin Winkler, o nome por trás de clássicos contemporâneos, como "Touro indomável" (1980), "Os eleitos" (1983) e "Os bons companheiros" (1990). Tais créditos, no entanto, não impediram que o filme fracassasse nas bilheterias - o que era, de certa forma, esperado, devido à seriedade do tema, pouco atrativo ao público médio - e falhasse na tentativa de arrebatar estatuetas do Oscar - não apenas por ter estreado longe do período mais propício à atenção da Academia mas por sua falta de brilho e personalidade.

 


Morno e quase apático - a despeito do tema explosivo -, "Culpado por suspeita" provavelmente perdeu sua chance de ser a obra definitiva sobre o macartismo (ou ao menos uma produção memorável e relevante artisticamente) logo em sua gênese. Ao assumir o projeto, uma das primeiras coisas que Winkler fez foi trabalhar em alterações no roteiro original de Abraham Polonsky e transformar David Merill, seu personagem principal, de comunista assumido em um menos "perigoso" liberal. Polonsky - ele mesmo uma vítima da lista negra promovida pelas investigações de McCarthy - sentiu-se pessoalmente ofendido com a mudança e não fez a menor questão de esconder a insatisfação com a novidade. Segundo ele - e com razão, a história não era sobre alguém falsamente acusado e sim sobre alguém que tinha plena consciência de suas visões políticas e se recusava a abrir mão de seus ideais. Polonsky se identificava com o protagonista e sua integridade a tal ponto que simplesmente obrigou a retirada de seu nome dos créditos também na função de produtor executivo (o que poderia lhe render dividendos, caso o filme se tornasse um hit). A opção de Winkler em tornar Merrill um liberal teve suas razões comerciais - um filme sobre um cineasta comunista certamente incomodaria muita gente - mas acabou por mostrar-se quase tão covarde quanto àqueles que tenciona criticar em sua trama. Isso e o excesso de didatismo acabaram diminuindo o impacto que o filme poderia ter.

O roteiro de Winkler - depois das alterações feitas para desgosto de Polonsky - tenta ser acessível até mesmo ao público que desconhece detalhes das investigações promovidas pelo Comitê de Atividades Antiamericanas, mas esbarra em uma profusão de cenas redundantes, que fazem com que o filme, apesar de suas intenções quase louváveis, pareça andar em círculos. Os personagens constantemente repetem o que a plateia já cansou de ouvir - todas as cenas em que Merrill tenta ser convencido a testemunhar diante do comitê, por exemplo, soam incomodamente semelhantes, e nem mesmo o talento superlativo de Robert DeNiro é capaz de disfarçar tamanha falta de criatividade. Aliás, se há algo em que "Culpado por suspeita" se escora com sucesso é em seu elenco: além de DeNiro (que mesmo sem estar em um momento particularmente memorável da carreira ainda é um ator fenomenal), Winkler conta com a estrela (então) em ascensão Annette Bening (no mesmo ano em que estaria no elenco do aclamado "Bugsy", ao lado do marido Warren Beatty), o ainda pouco conhecido Chris Cooper, a ótima Patricia Wettig (que anos mais tarde estaria no elenco da série "Brothers and sisters") e até mesmo Martin Scorsese em um de seus raros trabalhos como ator (na pele de um cineasta perseguido que prefere abandonar os EUA a delatar amigos, uma história que espelha a do veterano Joseph Losey). Com atores tão bons em mãos (além do veterano Sam Wanamaker, que esteve, assim como o roteirista original, Abraham Polonsky, na lista de profissionais impedidos de trabalhar), Winkler tropeça ao apresentar um filme burocrático que somente em seu terço final consegue empolgar - e mesmo assim o faz ao colocar na boca de seu protagonista um discurso real ouvido no Comitê: o do advogado Joseph N. Welch.

A trama de "Culpado por suspeita" acompanha o consagrado cineasta David Merrill (DeNiro), que retorna da Europa aos EUA, no começo dos anos 1950, e encontra Hollywood em polvorosa com a caça aos comunistas promovida pelo Senador Joseph McCarthy. Merrill - citado como provável membro do partido por ter participado de reuniões anos antes - passa a ser pressionado pelo comitê e até mesmo por colegas para testemunhar e, obviamente, listar nomes que possam ser punidos por suas atividades. Impedido de trabalhar até que concorde em fazer parte da lista de delatores, Merril vê sua vida ruir em questão de semanas. Sem emprego, dinheiro ou oportunidades, ele recorre à família como porto seguro: a ex-mulher, Ruth (Annette Bening), e o filho pequeno. Enquanto mantém firme sua integridade, porém, o cineasta fica atônito ao perceber que nem todo mundo tem a mesma força de caráter. Tal constatação o leva a questionar a força devastadora da mentira e do medo - uma reflexão contada de forma muito mais ousada e memorável em "Boa noite, e boa sorte" (2005), filme de George Clooney que retratava o mesmo período histórico mas dentro do universo televisivo, assim como a comédia "Testa-de-ferro por acaso", estrelada por Woody Allen em 1977. Importante apenas por ser o primeiro filme a resgatar o assunto dentro do mundo do cinema, "Culpado por suspeita" é uma produção agradável e interessante - mas jamais ultrapassa os limites que impôs a si mesma. Uma pena.

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI (Alice doesn't live here anymore, 1974, Warner Bros, 112min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Robert Getchell. Fotografia: Kent L. Wakeford. Montagem: Marcia Lucas. Direção de arte: Toby Carr Rafelson. Produção: Audrey Maas, David Susskind. Elenco: Ellen Burstyn, Kris Kristofferson, Harvey Keitel, Diane Ladd, Jodie Foster. Estreia: 09/12/74

3 indicações ao Oscar: Atriz (Ellen Burstyn), Atriz Coadjuvante (Diane Ladd), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Ellen Burstyn) 

Nem a vítima, nem a compreensiva esposa do herói e muito menos um objeto sexual. Depois do sucesso estrondoso de "O exorcista" (73) - pelo qual foi indicada ao Oscar -, a atriz Ellen Burstyn queria voltar às telas em um papel que fosse o oposto de todos aqueles a que se sujeitava boa parte das intérpretes de sua geração. Foi assim que encontrou, dentre vários roteiros oferecidos pela Warner, uma estória escrita por Robert Getchell que oferecia tudo que ela buscava: uma personagem forte, uma história calcada na realidade e a possibilidade de demonstrar uma outra faceta de seu talento. Recusada por Shirley MacLaine, Barbra Streisand e até Diana Ross, a protagonista de "Alice não mora mais aqui" serviu de passaporte para que Burstyn finalmente levasse a estatueta da Academia - mas, mais importante ainda, foi a responsável por revelar à crítica e ao público que nem apenas de homens à margem da sociedade era feito o cinema do cineasta Martin Scorsese. Recém descoberto por seu elogiado "Caminhos perigosos" (73), o  então jovem realizador mostrou-se à altura do compromisso e preparou terreno para aquele que seria a primeira de suas várias obras-primas: "Taxi driver", lançado em 1976.

Na verdade o diretor nova-iorquino só chegou até Ellen Burstyn por recomendação de outro cineasta então começando sua escalada rumo ao prestígio, Francis Ford Coppola. Procurado pela atriz para que desse sugestões de nomes capazes de dirigir o projeto que estava em suas mãos, o homem que acabava de conhecer aplausos unânimes por "O poderoso chefão" (72) - e que viria a fazer história com duas produções indicadas ao Oscar de melhor filme no mesmo ano de 1974 - indicou o nome de Scorsese. Não muito certa em contratar alguém cujo cartão de visitas era um filme violento e extremamente masculino, Burstyn não demorou a ser convencida do entusiasmo que Scorsese demonstrava pelo roteiro - e foi premiada com uma equipe feminina da qual faziam parte a esposa de George Lucas (Marcia, responsável pela edição) e Bob Rafelson (Toby Carr, a desenhista de produção). Surgia, então, uma parceria que faria acontecer, diante das câmeras, momentos de um naturalismo raros, alcançados depois de exaustivos ensaios e inspiradas improvisações.


Também indicado ao Oscar (que perdeu para o incensado "Chinatown"), o roteiro de Robert Getchell usa e abusa de um tipo de cinema bastante influenciado por John Cassavetes - e serviu, como afirmado pelo próprio Scorsese, como uma tentativa sua de emular o espírito dos filmes estrelados por Bette Davis e Joan Crawford na era de ouro de Hollywood. Sem artifícios de estilo e centrado basicamente em seus personagens, "Alice não mora mais aqui" é um exercício minimalista do diretor, uma história simples e direta, que abdica de grandes reviravoltas e pode ser considerado, sem demérito algum, como seu filme de narrativa mais convencional. Pode-se dizer que é a vida como ela é sob o olhar de um Martin Scorsese menos agressivo e pessimista em relação ao mundo - e uma crônica social e familiar agradável e de fácil comunicação com a plateia, seja ela de onde for. Ao eleger como protagonista uma mulher comum, com problemas ordinários e relações tão falíveis quanto as de qualquer espectador, o filme acerta em cheio - ainda que sua falta de ousadia talvez deixe uma incômoda sensação de simplicidade excessiva.

Simplicidade é o que move o roteiro de Getchell e a direção de Scorsese - assim como é simplicidade também a maior característica da vida de Alice Hyatt (Ellen Burstyn), que vive em Socorro, Novo México, na companhia do marido e do único filho, o precoce Tommy (Alfred Lutter). Sua repentina viuvez acaba por lhe servir como empurrão para finalmente tomar as rédeas de sua vida, e, decidida, ela viaja com o menino de volta para sua cidade natal, Monterey, na California, onde planeja retomar uma carreira de cantora noturna. No meio do caminho, no Arizona, ela arruma emprego como garçonete e se envolve com um homem mais jovem, Ben (Harvey Keitel) - com quem encontra uma série de problemas inesperados - e com o fazendeiro David (Kris Kristofferson), que aparenta ser o homem que irá fazer dela uma mulher mais feliz e completa. Porém, aos poucos, Alice começa a perceber que é provável que sua liberdade e seu filho importem mais do que uma companhia masculina - e passa a questionar seu estilo de vida sentimental.

Narrado de forma fluida e natural, "Alice não mora mais aqui" é um filme atípico na carreira de Martin Scorsese, mais afeito a neuroses e obsessões urbanas do que a personagens mais banais. Porém, na interpretação potente de Ellen Burstyn, a vida de Alice Hyatt torna-se, por si mesma, o retrato do sonho simples de felicidade e paz de espírito. Não é uma obra-prima, mas é um filme importante dentro de seu contexto social e principalmente é uma aula de minimalismo e delicadeza. É a prova de que o cineasta Scorsese já nasceu praticamente pronto!

sexta-feira

SILÊNCIO

SILÊNCIO (Silence, 2016, Cappa Defina Productions/CatchPlay, 161min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Jay Cocks, Martin Scorsese, romance de Shusaku Endô. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Kathryn Kluge, Kim Allen Kluge. Figurino: Dante Ferretti. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesca LoSchiavo. Produção executiva: Brandt Andersen, Michael Barnes, Paul Breuls, Dale A. Brown, Manu Gargi, Wayne Marc Godfrey, Niels Juul, Nicholas Kazan, Matthew J. Malek, Gianni Nunnari, Chad A. Verdi, Michelle Verdi, Tyler Zacharia. Produção: Vittorio Cecchi Gori, Barbara de Fina, Randall Emmett, David Lee, Gaston Pavlovich, Martin Scorsese, Emma Tillinger Koskoff, Irwin Winkler. Elenco: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Ciàran Hinds, Tadanobu Asano, Issei Ogata. Estreia: 29/11/16 (Vaticano)

Indicado ao Oscar de Fotografia

Foi em 1988 que Martin Scorsese ganhou de presente de um padre de Nova York o romance "Silêncio", do escritor japonês Shusaku Endô, sobre dois jovens sacerdotes portugueses que partem para o Japão do século XVII em busca de seu mentor, que evidências apontam ter se tornado um apóstata - ou seja, renegado o cristianismo por medo de ser torturado e morto. Como um católico fervoroso que é, Scorsese ficou profundamente tocado com a história e pensou imediatamente em transformá-la em filme. No entanto, as reações raivosas a seu "A última tentação de Cristo", baseado no romance do grego Nikos Kazantzakis e também com alto teor de questionamento religioso, o levaram a deixar o projeto de lado. Demorou mais de uma década até que, ao lado do amigo Jay Cocks, retomasse a ideia de uma adaptação: de acordo com seus planos, "Silêncio" seria seu filme seguinte ao igualmente complicado (e igualmente projeto de estimação) "Gangues de Nova York" (2002). Mas as coisas, para variar, não correram conforme o esperado e, sem financiamento para uma produção cara e ambiciosa (além de potencialmente fadada a um fracasso comercial), Scorsese tratou de seguir a vida - e levar seu tão merecido Oscar, em 2007, por "Os infiltrados".

Quando finalmente conseguiu dinheiro suficiente para o início das filmagens, marcado para janeiro de 2015, porém, uma outra questão surgiu no caminho do diretor: a impossibilidade de contar com o elenco escalado na ocasião em que o projeto havia sido anunciado. Com a saída de Daniel Day-Lewis, Gael García Bernal e Benicio Del Toro, envolvidos em outros compromissos profissionais, Scorsese se viu obrigado a alterar a idade dos personagens e algumas de suas características para que melhor coubessem em suas novas escolhas. Assim, Day-Lewis foi substituído por Liam Neeson - invertendo a troca de papéis ocorrida em "Lincoln" (2012), de Steven Spielberg - e Gael García Bernal pelo promissor Andrew Garfield. No lugar de Benicio Del Toro - a mudança mais significativa em termos dramáticos - o escolhido foi Adam Driver, que, apesar da participação em "Star Wars: o despertar da força" (2015), dificilmente pode ser considerado um chamariz de bilheteria. Com um elenco talentoso e 40 milhões de dólares nas mãos, Scorsese viajou para Taiwan - maquiada como o Japão do século XVII pela direção de arte caprichada de Dante Ferretti e pela fotografia impressionante de Rodrigo Prieto - e deu início a 73 exaustivos dias de filmagens que finalmente proporcionaram ao diretor a chance de traduzir em imagens as palavras do escritor japonês. Infelizmente, porém, nem tudo mundo se entusiasmou com o resultado final de tanto esforço. Apesar de muitas críticas favoráveis, o filme acabou se tornando uma decepção tanto nas bilheterias (o que era relativamente esperado) quanto nas cerimônias de premiação (onde foi solenemente ignorado, salvo uma indicação ao Oscar de melhor fotografia).


Sem medo de chocar a audiência com sequências bastante explícitas - mas nunca apelativas - de tortura e violência cometidas contra aqueles que tentavam difundir o cristianismo no Japão do século XVII, Scorsese convida o espectador a uma narrativa de ritmo quase contemplativo, que contrasta vivamente com a constante tensão em que vivem os protagonistas, sempre a um passo de mergulharem em um pesadelo de intolerância e crueldade. As poderosas imagens de Rodrigo Prieto - sempre envoltas em brumas e luzes de velas - enfatizam com inteligência o turbilhão emocional de seus personagens, atormentados não apenas pelos perigos que enfrentam dia-a-dia, mas também por suas próprias consciências. A atuação extraordinária de Andrew Garfield - que no mesmo ano foi indicado ao Oscar de melhor ator por outro poderoso desempenho, em "Até o último homem", dirigido por Mel Gibson - encontra apoio no roteiro corajoso de Scorsese e Jay Cocks, que não hesita em intercalar longos diálogos teológicos com sequências inteiras dotadas de um significativo silêncio. A edição suave de Thelma Schoonmaker rompe radicalmente com sua tradição de agilidade e nervosismo, entregando ao público uma narrativa linear e delicada que equilibra a força da história com a suavidade de seus protagonistas, lutando por um ideal de paz e tolerância em um mundo pouco disposto a lhes dar ouvidos. Scorsese passeia com sua câmera por um Japão medieval povoado por pessoas com medo de suas crenças e buscando apoio espiritual diante das atrocidades cometidas em nome de Deus, mas nunca deixa de dar espaço a questionamentos, evitando apontar heróis ou vilões - ainda que, logicamente, o ponto de vista cristão sobreponha-se a qualquer outro no decorrer da trama. Dono de uma fé inabalável mas jamais fechado a discussões a respeito de sua religião, Scorsese mais uma vez levanta questionamentos relevantes na tela de cinema - mas, mais uma vez, parece pregar no deserto.

O fracasso de bilheteria de "Silêncio" não diz respeito à sua qualidade como cinema - Scorsese dá mostras, mais uma vez, do brilhante artista que é em diversos momentos da projeção - mas sim a seu tema. Controvérsia nunca foi algo estranho ao diretor nova-iorquino, que não tem medo de arriscar seu prestígio em projetos potencialmente inflamáveis, mas falar de intolerância religiosa em uma época em que o terrorismo parece uma ameaça indissolúvel apenas afastou ainda mais as plateias que lotam as salas atrás de escapismo. Seu filme é violento - não ao estilo "Os mercenários", mas dotado de uma violência real e sufocante - e inteligente demais para o público médio, mal-acostumado e fútil. Não é uma obra-prima, se estande em demais e por vezes parece um tanto redundante. Mas é visceral, sensível e de extrema relevância, além de apresentar algumas cenas plasticamente deslumbrantes e atuações intensas e apaixonadas - e um final devastador. O tempo fará justiça à "Silêncio", mais um grande filme a figurar no currículo impecável de Martin Scorsese.

sábado

NEW YORK, NEW YORK

NEW YORK, NEW YORK (New York, New York, 1977, United Artists, 155min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Earl Mac Rauch, Mardik Martin, estória de Earl Mac Rauch. Fotografia: Lászlo Kovács. Montagem: B. Lovitt, David Ramirez, Tom Rolf. Figurino: Theadora Van Runkle. Direção de arte/cenários: Boris Leven/Robert DeVestel, Ruby R. Levitt. Produção: Robert Chartoff, Irwin Winkler. Elenco: Liza Minnelli, Robert De Niro, Lionel Stander, Barry Primus, Mary Kay Place. Estreia: 21/6/77

No final dos anos 60 e início dos 70, um grupo de jovens cineastas - dentre os quais nomes que se tornariam consagrados, como Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg - invadiram Hollywood com um jeito novo de fazer cinema, moderno, arrojado e conectado aos anseios de um público também jovem e disposto a ver nas telas um retrato mais apurado de suas próprias vidas. Como detalhado no livro "Como a geração sexo, drogas e rock'n'roll salvou Hollywood: Easy Riders Raging Bulls", de Peter Biskind (Ed. Intrinseca, tradução de Ana Maria Bahiana), filmes como "Bonny & Clyde: uma rajada de balas" (68), de Arthur Penn, e "Sem destino" (67), de Dennis Hooper, deixaram para trás um estilo considerado ultrapassado pelas plateias adeptas da contracultura e abriram as portas para atores com menos glamour e mais talento para tipos comuns, como Al Pacino, Robert DeNiro e Dustin Hoffman. A velha Hollywood, com suas grandes produções, estúdios poderosos e astros maiores que a vida, estava morrendo e deixando espaço para a jovem guarda. Não deixou de ser um interessante paradoxo, no entanto, quando, em 1976, um dos mais destacados membros dessa nova realeza, Martin Scorsese, decidiu que seu novo filme - depois dos sucessos de crítica "Alice não mora mais aqui" (74) e "Taxi driver" (76) - não apenas homenagearia o modo "antigo" de fazer cinema como dialogaria com ele em termos visuais, dramáticos e temáticos. Um choque entre dois mundos aparentemente irreconciliáveis, "New York, New York" estreou no verão de 1977 sob uma saraivada de críticas negativas e saiu de cena com uma bilheteria tão decepcionante que empurrou seu diretor a uma depressão severa do qual só recuperou-se com o prestígio e os Oscar de "Touro indomável" (80). Mas, afinal de contas, tal fracasso foi merecido ou se faz necessária uma revisão, quarenta anos depois de seu lançamento?

Em primeiro lugar é preciso que se diga que Martin Scorsese é um cineasta de talento superlativo, capaz de transformar qualquer material em algo digno de ser filmado e assistido. Fã incondicional e assumido da velha Hollywood, além de um estudioso dedicado e protetor aguerrido de sua história, Scorsese assumiu sem medo o risco de recriá-la nas telas mesmo diante de um panorama cultural que seguia um caminho inverso. Sua ideia de recriar em estúdio uma Nova York dos anos 40 e contar uma história de amor através de um gênero em agonia - o musical - acabou se provando uma luta inglória. O excesso de estilização, tanto no visual quanto na atuação dos atores, não encontrou resposta junto ao público (que preferiu lotar os cinemas para assistir "Star Wars", de George Lucas) e confundiu a crítica. Nem todo mundo encontrou no filme do diretor as referências explícitas à era de ouro dos estúdios e, quem encontrou preferiu dar de ombros. Nem tudo funciona no filme. Porém, quando funciona, o curioso encontro entre duas gerações distintas - com o belo colorido da fotografia de Lászlo Kovács e a direção de arte milagrosa como moldura da trama central - é o perfeito exemplo do quão talentoso Scorsese é, ao regurgitar, com elegância e inteligência, todos os ingredientes que fizeram a fama de gente como Vincent Minnelli. A conexão entre "New York, New York" e Minnelli é tamanha que, em uma jogada quase metalinguística, Scorsese ofereceu o principal papel feminino do filme, o da talentosa Francine Evans, à filha do diretor com Judy Garland. Em uma interpretação que remete à de sua mãe no célebre "Nasce uma estrela", Liza Minelli - a essa altura já premiada com um Oscar que Garland nunca recebeu - é mais um elo de ligação entre o antigo e o moderno, entre o passado e o presente, entre o naturalismo anos 70 e a estilização dos anos 40. Liza está soberba, assim como seu parceiro de cena Robert DeNiro, mas é inegável que lhes falta o essencial em uma trama romântica: química.


Usando e abusando daquela que seria uma das maiores características de sua filmografia - a improvisação de seus atores - Martin Scorsese deixou nas mãos de seus editores um pesadelo em forma de celulóide. Ao contrário do que aconteceria depois em sua carreira, onde o improviso seria uma qualidade orgânica, em "New York, New York" tal orientação tornou-se um dos problemas mais graves do resultado final: com um roteiro apenas esboçado, o filme acaba muitas vezes ficando repetitivo, intercalando discussões intermináveis entre seus protagonistas com números musicais que emulam com categoria e sofisticação os maiores clássicos do gênero. Realizado nos mesmos estúdios da MGM onde Judy Garland reinou na década de 40, o filme de Scorsese contou com antigos colaboradores da atriz, o que certamente ajudou na ambientação e na caracterização da personagem, uma talentosa cantora que se envolve com um igualmente talentoso saxofonista e vê sua história de amor ameaçada pela competição e pelos altos e baixos da carreira. Minnelli exala carisma por toda a projeção e encontra em Robert DeNiro um parceiro à altura, mas, como o próprio cineasta reconhece, em nenhum momento existe a fagulha necessária para tornar suas cenas tão grandes como poderiam ser. Talvez culpa do exagero na estilização, talvez culpa da confiança demasiada na dupla de astros. O fato, porém, é que falta em "New York, New York" o toque de mestre de seu diretor, ainda relativamente iniciante.

Cortado em vários minutos para seu lançamento - de quatro horas para 153 minutos e depois para 136, sempre sem o sucesso esperado - "New York, New York" alcançou sua edição final com 163 minutos, com a sequência "Happy endings" (talvez a mais claramente inspirada no cinemão clássico americano) completa. É um filme que precisa ser apreciado mais por suas intenções do que exatamente por seu resultado final, irregular e desnecessariamente longo. Por mais que seja sempre um prazer ver DeNiro e Liza Minnelli em cena e que tenha lançado a clássica canção-título que ficou imortal na voz de Frank Sinatra, é um espetáculo que nem sempre atinge os tons desejados - mas que quando alcança, mostra o melhor de dois mundos do cinema hollywoodiano. Em outras palavras, um Scorsese menor ainda é um grande Scorsese.

O LOBO DE WALL STREET

O LOBO DE WALL STREET (The wolf of Wall Street, 2013, Paramount Pictures, 180min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Terence Winter, livro de Jordan Belfort. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Bob Shaw/Ellen Christiansen. Produção executiva: Danny Dimbort, Joel Gotler, Georgia Kacandes, Alexandra Milchan, Irwin Winkler, Rick Yorn. Produção: Riza Aziz, Leonardo DiCaprio, Joey McFarland, Martin Scorsese, Emma Tillinger Koskoff. Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Matthew McConaughey, Kyle Chandler, Margot Robbie, Rob Reiner, Jon Bernthal, Jean Dujardin, Shea Whigham, Ethan Suplee. Estreia: 17/12/13

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Leonardo DiCaprio)


Quando “O lobo de Wall Street”, 30º longa-metragem de Martin Scorsese – contando-se os documentários e sua participação no episódico “Contos de Nova York”, ao lado de Francis Ford Coppola e Woody Allen – foi classificado como comédia pelos jornalistas estrangeiros que elegem os vencedores dos cobiçados Golden Globes (que só perdem para o Oscar em termos de importância no mercado norte-americano), muita gente estranhou – até mesmo seu ator principal, Leonardo DiCaprio, que ganhou a disputa da estatueta em sua categoria. Porém, o que talvez poucos tenham notado é que, da maneira como foi filmada por Scorsese – no auge de uma energia aparentemente inesgotável – a trajetória de altos e baixos (mais altos do que baixos) do protagonista Jordan Belfort é, definitivamente, uma comédia. Histérica, cruel, de humor nigérrimo e pouco dada a concessões ao riso fácil, mas uma comédia. Das boas. E das mais inteligentes que se pode conceber em uma indústria tão dada a suscetibilidades pudicas quanto a de Hollywood.
A história de Belfort – contada em sua autobiografia, aqui adaptada com verve e extrema ironia por Terence Winter, merecidamente indicado ao Oscar – não é engraçada, pelo menos pelos parâmetros oficiais do termo: sua ascensão no mercado de ações, regada a muita droga, corrupção e orgias das mais variadas e sua queda vertiginosa rumo às malhas da lei, recheada de associações escusas e a perda da própria família, são contundentes e tão violentas quanto aquelas mostradas pelo mesmo Scorsese em “Os bons companheiros” (90), mas o cineasta nova-iorquino dessa vez resolveu optar por um caminho menos óbvio e linear de retratá-las. Sai de cena a crueldade sanguinolenta dos becos sórdidos do Bronx e entram em cena o luxo e o glamour de mansões paquidérmicas. A ameaça não é mais representada por rivais na disputa pela primazia no tráfico de drogas e sim por agentes da Receita Federal pouco afeitos a negociatas. A paranoia, consequência do abuso de tóxicos não mais assusta ou mata, e sim dá lugar a absurdas sequências de um humor tão negro que até mesmo os mais atentos espectadores demoraram a percebê-lo em sua totalidade. “O lobo de Wall Street” não faz rir através de piadas fáceis. É preciso embarcar em sua visão particular de comédia para chegar ao âmago de sua ironia iconoclasta e devastadora. Scorsese não quer arrancar gargalhadas apelando para a vulgaridade – e quando joga diante do espectador cenas explodindo de sexo e excessos de toda a espécie, é uma forma de, através de uma lente de aumento, sublinhar o quão patética a ambição e a decadência podem soar. Se no cinema do diretor nunca faltou descomedimento, em “O lobo de Wall Street” ele é ainda mais explícito e crucial. É um meio magistralmente manipulado para se chegar a um fim de inegável impacto e genialidade.
Deixando de lado a inocência de seu filme anterior, o poético e deslumbrante “A invenção de Hugo Cabret”, Martin Scorsese faz, em “O lobo de Wall Street” um inventário impiedoso e barulhento de toda a parafernália amoral e inescrupulosa da mais individualista do século XX, os insensíveis anos 80 que tão bem foram definidos por Gordon Geko, o personagem do oscarizado Michael Douglas em “Wall Street: poder e cobiça” (87): do alto de sua arrogância yuppie, ele declarava, com um sorriso cínico estampado, que “ganância é bom!”. E ganância é a palavra-chave na história de Jordan Belfort, interpretado na linha exata entre o deboche escrachado a fina ironia por um Leonardo DiCaprio no auge de sua colaboração com o diretor. Recebido em Wall Street como um rapaz ambicioso mas ainda ingênuo que escapa de ser devorado por homens como seu mentor Mark Hannah (Matthew McConaughey) graças a um apurado instinto de sobrevivência, Belfort se vê repentinamente no meio de uma crise financeira que o faz perder o emprego e quase aniquila com suas esperanças. Porém, utilizando-se dos conhecimentos adquiridos em sua rápida passagem pelo alto mercado financeiro, ele logo encontra um jeito de arrumar uma recolocação ainda mais promissora: em pouco tempo, ele passa de empregado de uma corretora de fundo-de-quintal (dirigida pelo também cineasta Spike Jonze em ponta não-creditada) a dono de uma empresa de ações. Desprovidos de qualquer tipo de ética, Belfort e seu sócio, Donnie (Jonah Hill, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), junto com um grupo de amigos, tornam-se milionários da noite para o dia – e com os dólares em profusão vem também a possibilidade de queda.



Entregando-se sem medo a exorbitâncias materiais, sexuais e alucinógenas, Jordan abandona a esposa, casa-se com a bela Naomi LaPaglia (Margot Robbie) e, cada vez mais rico, chama a atenção da Receita Federal e do FBI, na figura do honesto e implacável Patrick Denham (Kyle Chandler). Começa, então, uma corrida para manter a salvo sua liberdade, sua reputação e principalmente sua fortuna. Em uma edição progressivamente mais ágil e febril – a cargo da habitual parceira de Scorsese, a veterana Thelma Schoonmaker, vencedora do Oscar por “Touro indomável” (80) e “Os infiltrados” (06) – o filme vai se tornando a cada cena mais histérico (no bom sentido) e alucinado. Brincando com o tempo de forma genial, Scorsese e Schoonmaker comprimem meses em rápidos segundos e se dão ao luxo de gastar vários minutos em uma única cena aparentemente simples – e ainda oferecem à plateia uma longa sequência e divertidíssima sequência em que Belfort, sentindo o resultado de uma vasta quantidade de anfetaminas ingeridas como balas, se vê repentinamente vítima de uma temporária paralisia cerebral: o resultado da cena e suas consequências mostram o total domínio técnico do cineasta e sua inteligência em modelar o roteiro a seu estilo inconfundível (mas sempre imprevisível) de filmar. Não à toa, mesmo com a profusão de cenas de sexo e consumo de drogas de seu filme – uma afronta à moral e aos bons costumes pregados pela Academia – Scorsese acabou concorrendo ao Oscar por seu trabalho (junto com as indicações a melhor filme, roteiro, ator e ator coadjuvante).
 Implacável no retrato debochado de um estilo de vida em que o glamour convive lado a lado com uma inconfundível cafonice, Scorsese fez de “O lobo de Wall Street” uma obra-prima do sarcasmo. Contando com um elenco coadjuvante que se dá ao luxo de ter os também cineastas Jon Favreau e Rob Reiner (na pele do irascível pai do protagonista) e o oscarizado Jean Dujardin (de “O artista” (11)) em pequenos papéis, ele brinca com a falta de moralidade ianque e tira sarro da suposta sobriedade do mercado financeiro mais importante do mundo. Não é à toa que poucos acharam graça na brincadeira.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...